segunda-feira, 15 de julho de 2019

Guiné 61/74 - P19979: Notas de leitura (1198): “Estratégias de Vivência e de Sobrevivência em Contextos de Crise: Os Mancanhas na Cidade de Bissau”, por Mamadú Jao; Nota de Rodapé Edições, 2015 (2) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Dezembro de 2016:

Queridos amigos,
Na esteira de um conjunto de estudos que interrogam as capacidades de vivência e sobrevivência em meio rural e urbano perante a ausência do Estado e a degradação das condições de vida, Mamadú Jao, um antropólogo que foi Diretor do INEP e que trabalha presentemente para Fundo das Nações Unidas para a População questiona a etnia Mancanha e as suas estratégias de vivência e de sobrevivência, oferece-nos um estudo onde fica claramente realçado o papel da mulher na coesão socioeconómica dos agregados familiares.
O Estado é frágil, é incapaz de cuidar dos seus mais necessitados, é nestas estratégias de sobrevivência que reside a perdurabilidade dos valores da Nação.

Um abraço do
Mário


Resistir à crise em Bissau: as estratégias dos Mancanhas (2) 

Beja Santos

“Estratégias de Vivência e de Sobrevivência em Contextos de Crise: Os Mancanhas na Cidade de Bissau”, por Mamadú Jao, Nota de Rodapé Edições, 2015, corresponde a um estudo de uma etnia e de uma etnicidade confrontando um processo social dentro de um Estado frágil e num tempo em que se fala de globalização e desenvolvimento global – afinal, há organizações civis de sociedades que asseguram aquilo em onde o Estado e as promessas globais estão ausentes.

Já se apresentou a Guiné-Bissau, a problemática do desenvolvimento e a história do povo Mancanha. Vamos agora observar a sua organização económica e crenças e o funcionamento das sociétés Mancanhas em Bissau (recorde-se que sociétés é sinónimo de organizações de base comunitária).

A estrutura social Mancanha é baseada nos escalões etários e na linhagem. Têm uma organização política do tipo vertical, com um régulo no vértice, seus colaboradores, chefes de tabanca e o resto da população. Em Mancanha Nasí é o régulo, tem como principal função velar pelo bem-estar do povo, ele é o primeiro a iniciar o corte de palha para a cobertura das habitações, recorre-se a ele para exercer justiça e os mais necessitados contam com a sua benevolência para a resolução de diferentes problemas sociais. Os Mancanhas vivem maioritariamente de uma economia de subsistência, dispõem de uma agricultura do tipo itinerante e outra do tipo intensivo. São animistas. Na Guiné-Bissau coexistem diversas crenças e práticas religiosas, os Mancanhas cabem nas chamadas religiões tradicionais. Há investigadores que centram a área cultural Mancanha na região do Cacheu, para o autor, o Chão dos Manjacos na província Norte da Guiné-Bissau engloba também os Papéis, e por isso prefere chamar-lhe Chão Brâme, o que significa que abarca Manjacos, Mancanhas e Papéis, os três grupos étnicos que partilham uma base cultural comum. Qual o ponto fulcral das crenças Mancanhas? O autor responde:  
“ As forças sobrenaturais, as únicas detentoras de habilidades de fazer o bem e o mal, não agem se não a pedido de um outro homem. Esta maneira de encarar a vida dos homens constitui a principal ideia força que orienta a vida dos elementos que hoje se identificam com o grupo étnico Mancanha”.
Mamadú Jao explana os ritos, os cultos, os diferentes intervenientes, descreve o espiritismo, o choro e o toca-choro (momento cerimonial animista para se celebrar quando morre algum familiar).

No seu trabalho, Mamadú Jao destaca o programa de ajustamento estrutural como o momento de viragem para a expansão do setor informal. Este programa chegou à Guiné ainda nos anos 1980, teve como consequência a degradação das condições de vida das populações, grande desemprego, reduções drásticas dos salários. Por exemplo, um estudo sobre a situação de consumo das famílias em Bissau, realizado em 1991, indicava que 55% das famílias em Bissau consumia, em média, uma refeição e meia por dia. Um outro estudo, realizado em 2008, sobre a égide da UNICEF, indicava que 17% dos cerca de 743 inquiridos em todo o território nacional só consumia uma refeição por dia e 49% duas refeições. Houve que encontrar alternativas para a sobrevivência: mulheres bideiras, solidariedade de grupos paroquiais ligados às igrejas, entre outras. É neste ponto que o autor nos dá o ambiente de negócio e a fileira de alguns produtos comercializados. Há dois sistemas mercantis: o tipo de entreposto, baseado nos comerciantes proprietários de empresas formalizadas; e o sistema multivalente, composto por pequenos empresários. A economia transacionada gravita à volta do caju, arroz, produtos florestais, oleaginosas, peixe, frutas e vegetais. Estes sistemas têm deficiências, e é nestas frestas que se dá a expansão do setor informal.

Citando o investigador Philip Havik, recorda-se que os povos pré-coloniais já tinham sistemas de troca e intercâmbio, comércio de longa distância, comércio do tipo entreposto e até setor informal. Este setor é hoje muito vasto, no mercado de Badim encontram-se comerciantes a vender cosméticos e artigos de beleza, têxteis, produtos alimentares de toda a natureza. O autor dá atenção às bideiras:
“Bideira deriva de bida, vocábulo em crioulo da Guiné que, por sua vez, deriva do vocábulo português vida. Bideira designa mulher que vende algo para ganhar a vida”.
E quem são as bideiras? São originárias de meio urbano, originárias do Norte e Leste. E o autor esclarece:  
“A maior presença das mulheres pertencentes às etnias do Norte e Leste no mercado explicava pela longa tradição de emigração masculina destas regiões, situação que faz com que as mulheres assumam, pelo menos temporariamente, a responsabilidade do sustento da família. No essencial as bideiras ocupam-se do escoamento de produtos de produção local das zonas de produção para Bissau. A venda de arroz em caneca, em lugares fixos, representa o maior negócio para os produtos importados”.
É no comércio de comida que ganha relevo a verdadeira estratégia de sobrevivência para um número considerável de famílias: “Peixe, frutas, sobretudo”.

Mamadú Jao descreve as fontes de financiamento do setor informal e entra no coração do seu estudo: as sociétés Mancanhas em Bissau, detalha a vida Mancanha nos bairros Belém, Luanda e Calequir, comenta a composição étnica, os escalões etários e as ocupações profissionais. E aproveita para discretear os equívocos à volta do conceito de desenvolvimento:  
“Alguns estudiosos acusam a África de recusar o desenvolvimento, não se dando conta que o problema reside no próprio modelo de desenvolvimento proposto aos africanos. Em nosso entender, o interesse em estudar a natureza das subculturas resultantes do choque dos valores externos com os valores locais. Este tipo de estudos é importante sobretudo porque pode contribuir para o aprofundamento dos conhecimentos sobre a natureza das relações entre o tradicional e o moderno na África contemporânea”.
Ao longo deste estudo Mamadú Jao apercebeu-se da coexistência de elementos de tradição cultural dos Mancanhas com elementos das instituições do tipo moderno. Desenvolve um modo de funcionamento das sociétés Mancanhas, as relações de poder no interior das mesmas, os domínios de intervenção e as diferentes estratégias.

Nas conclusões, o antropólogo releva que a cultura Mancanha tem uma ampla abertura aos elementos de outras etnias, dada a sua natureza sincretista, as sociétés aposta na diversificação de atividades mas a sua sobrevivência passa pela dispersão (emigração) e por ações de solidariedade entre a cidade e o campo. A parte positiva das sociétés é a de contribuírem para o reforço da coesão interna dos seus membros e de dinamizar as relações de ajuda mútua nos momentos de dificuldade.
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Notas do editor

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Último poste da série de 12 de julho de 2019 > Guiné 61/74 - P19972: Notas de leitura (1197): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (14) (Mário Beja Santos)

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