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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28450: Convívios (1078): Os antigos combatentes da vila de Loriga, a princesa da Serra da Estrela, homenagearam as suas mães, no almoço-convívio realizado na Escola Secundária de Sacavém, no passado sábado, dia 17 - Parte I

 

Foto nº 1 > Estandarte dos Antigos "Combatentes Louriguenses do Ultramar"...   (Tanto quanto sabemos não há nenhum Núcleo de Seia da Liga dos Combatentes, e muito menos da Vila de Loriga.)


Foto nº 2 >  À esquerda, a bandeira da vila de Loriga, concelho de Seia. 


Fotro nº 3 >  A comissão organizadora do almoço-convívio dos antigos combatentes  de Loriga realizado no passado dia 17/10/2026, em Sacavém, terra que está geminada com a princesa da Serra da Estrela.  O António de Brito Ribeiro (à direita) (Guiné), é membro da Tabanca da Linha e da Tabanca Grande, e que teve a gentileza de  convidar os respetivos  régulos,  Manuel Resende e Luís Graça. 



Foto nº 4 >   Homenagem à Comissão Instaladora do Monumento aos Ex-Combatentes Loriguenses, inaugurado em  
27 de julho de 2013, Subiram ao palco e foram aplaudidos os elementos presentes.  


Fotro nº 5  > Velas acesas em homenagem às mães dos combatentes presentes (cerrca de 6 dezenas). Os filhos de Loriga mobilizados para a guerra colonial / guerra do ultramar foram c.  duas centenas e meia.

Foi um a onita, sentida e provavelmente inédita homemagem às mães dos antigos combatentes que, em Loriga, em plena serra da Estrela, iam rezar à noite, na capela da N. Sra. da Guia, aos seus filhos, que estavam "lá fora", na guerra, a milhares de quilómetros de casa... Aqui fica uma pequena amostra do extenso painel com fotos afixadas de mães de combatentes loriguenses...


Fotro nº 6  > A mãe do António Moura Pinto (esta e as  fotos seguintes, até à nº 15,  foram melhoradas com recurso à IA)


Foto nº 7 > Aurora de Brito Pina foi mãe de 3 combatentes (dois deles mobilizados para a Guiné, o António, 1969/71, e o José, 1973/74; e o outro para Moçambique, o Jorge, em 1971/74).


Foto nº 8 > Maria Emilia Gonçalves: teve dois filhos no Ultramar




Foto nº 9 > Maria do Carmo Gonçalves; mais um  mãe, lorigeunse,  com 3 filhos no Ultramar



Foto nº 10 >  A mãe do  Zé Fernandes Piuna




Foto nº 11 : Mãe do António e do José Mendes da Fonseca




Foto nº  12 > Mais uma mãe de dois combatentes de Loriga, o Adelino Manuel  e o Abílio Martins Pina



Fotro nº  13  > Mãe do Luís e do Armando Alves Brito




Fotro nº 14 > Mãe do António José  Silva Pereira (Guiné, 1969/71)




Foto nº 15 > As mães de Loriga que iam ao Cais da Rocha Conde de Óbidos receberem os filhos que regressavam da guerra do Ultramar. (Foto, originalmente, a preto e branco, colorizada com recurso à IA; por lapso, não registámos  o nome do militar nem da sua mãe.)





Fotro nº 16, 16A, 16B > O bolo comemorativo do evento: contèm dois elementos icónicos da vila de Loriga: o monumento aos antigos combatentes (à esquerda) e a capela de Nª Sra. da Guia (ao centro), onde as mães iam rezar todas as noites, em pequenos grupos, à vez,,,

Diz o excerto do poema (foi escrito,  musicado e  interpretado ao vivo, no evento, pelo membro da comissão organizadora, José Manuel Alves): "Meia noite, na capela / quando acenderes uma vela / naquele altar pequenino,/ aquieta a tua agonia. / Nossa Sra. da Guia / guiará o meu destino ".


Fotos (e legendas): © Luís Graça  (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. São as minhas primeiras fotos, selecionadas (de um lote de 150, incluindo vídeos), do almoço-convívio dos antigos combatentes de Loriga, Seia, que se realizou no passado sábado, 17 do corrente, na Escola Secundária de Sacavém (que faz parte do Agrupamento de Escolas Eduardo Gageiro).

O evento, extremamente agradável, afetuoso e animadíssimo, reuniu cerca de 130 convivas, na sua grande maioria filhos de Loriga, uma grande parte da diáspora. 

O serviço de "catering" (excelente, 5 estrelas)  esteve a cargo do restaurante "A Saborosa", Tábua. Um grupo musical, composto por louriguenses (homens e mulheres), animou até ao fim da tarde, este magnífico convívio. Houve boa música portuguesa e africana.    Maria Mendes, irmã de um antigo combatente, e vocalista do grupo, começou por ler um belíssimo e tocante texto de homenagem às Mães de Loriga. Siga-se o toque de silèncio aos mortos. 

A animação musical esteve a cargo do grupo "Chão da Ribeira", dirigido pelo José Manuel Alves (vd, aqui o seu blogue: https://josalvespt.blogspot.com/ ).

Dos  130 participantes neste almoço-convívio, cerca de metade eram antigos combatentes. Açlguns vieram propositadamente de Loriga. Faltaram 9 dos inscritos (incluindo o nosso Zé Carioca e esposa, da Tabanca da Linha).

Tive o privilégio de poder estar presente, a convite do nosso amigo e camarada António de Brito Ribeiro, um filho de Loriga que vive no Estoril, e que frequenta a Magnífica Tabanca da Linha, e que é também nosso grão-tabanqueiro. Vive estes encontros dos seus camaradas e conterrâneos com grande paixão.  Julgo que este é o 3º que se realiza em Sacavém.

O António, engenheiro eletrotécnico de formação, ainda está no ativo... O seu dinamismo é contagiante. Recorde-se que é o nosso grão-trabanqueiro nº 912: foi Alf Mil Trms,  CCS/BART 2857 (Piche); GA7 (Bissau); COP 6 (Mansabá e Farim); CAOP 1 (Teixeira Pinto) e BCAÇ 3884 (Bafatá).

Além do António, fizeram parte da organização deste evento: o António Fernandes  (Guiné); Gabriel Pina (Moçambique); José M. Alves (Angola)  e ainda José Ambrósio (Guiné).

Todos os antigos combatentes presentes (incluindo alguns não-loriguenses como eu, como o Manuel Resende, régulo da Tabancada Linha,  e como mais uns tantos) ostentavam ao peito um fita de cor diferente conforme o TO onde estiveram mobilizados: Amarela (Guiné), Vermelha (Angola) e Verde (Moçambique).

2. Sobre "Os Loriguenses na Guerra do Ultramar", vd. aqui o sítio do Adelino M. M. Pina (que vive na Alemanha, e fez a sua comissão de serviço militar em Angola, como 1º cabo (Luso, hoje, Luena, março de 1970 / abril de 1972). 

Estáo identificados 338 antigos combatentes loriguenses, filhos de 265 mães: algumas tiveram, pois, mais do que um filho no ultramar!...

 A página do Adelino Pina contem os testemunhos de 20 camaradas, que passaram pelos diversos territórios e teatros de operações, incluindo Macau, Índia, Angola, Guiné e Moçambique: são os seus CV militares e uma seleção das fotos dos seus álbuns fotográficos (ao todo são algumas centenas).

Camaradas de Loriga que passaram pelo CTIG, tomei nota dos seguintes (por ordem de apresentação):

  • Carlos Lucas Antunes Fernandes (1967/69) )1º cabo, EREC, Bafatá e Piche)
  • José Reis Fernandes Leitão (1968/70) (cap mil, Buba e Farimj)
  • Mário Moura Pinto (1971/73) (sold at cav, EREC 3431, Bafatá)
  • Joaquim Zacarias  Fernandes de Brito (1972/74) (CCAÇ 3546/BCAÇ 3883) (sold at inf,  Piche, Ponte Caium, Camajabá)
  • José Pinto Lages (1968/70) (soldado cozinheiro, Bissau)
  • José Mendes Gouveia (1970/72) (1º cabo radiotelegrafista, Piche e Bissau)

(Continua)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 13 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28434: Convívios (1077): Estão abertas as inscrições para o 115.º Encontro da Tabanca do Centro, a levar a efeito no próximo dia 30 de Outubro de 2026, na Quinta do Paul - Ortigosa. As inscrições encerram no dia 27


domingo, 11 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28426: Monografia de Fajonquito-Sancorla - Uma pequena contribuição (2): Sancorla no contexto das guerras entre fulas e mandingas...; Início da guerra e a deslocação das primeiras Unidades Militares para Fajonquito e Imagens de Fajonquito (1964-1974) (Cherno Baldé)

MONOGRAFIA DE FAJONQUITO-SANCORLA

“UMA PEQUENA CONTRIBUIÇÃO”


Natural de Fajonquito (Farimbali), nascido em meados de 1960 e baptizado em Sintchã Samagaia ou Luanda na margem direita de Berecolom.
Frequentou o Curso Geral dos Liceus em Bafata (1975/79) e o Complementar no Liceu Nacional Kuame N’krumah em Bissau.
De 1985 a 1990 fez estudos superiores de licenciatura e mestrado no Instituto Superior de Economia de Kiev que ostentava o nome do lider Soviético de origem ucraniana Demyan Serhiyovich Korotchenko (ex-URSS).
De 1993 a 1995 fez um Curso de Pós-graduação no Centro de Estudos Africanos do ISCTE-IUL de Lisboa e de 2001/2003 frequentou um curso de mestrado sobre a Cooperação Internacional e Desenvolvimento no ISEG/UT, Lisboa, Portugal.
Trabalhou sempre em Bissau com varias deslocações aos países da sub-região, primeiro como funcionário Publico do Ministério das Obras Públicas, Construções e Urbanismo, depois como Director Executivo da Associação Profissional das Instituições de Microfinanças (AP-SFD-GBissau) tendo, de seguida, trabalhado como Consultor/Gestor e Analista Financeiro em vários projetos de Desenvolvimento ligados a organizações internacionais, nomeadamente Banco Mundial, BAD, UE (FED-Célula de apoio ao MEF em Bissau) e no Sistema das NU/PNUD, de 2013 a 2026.



4. SANCORLA NO CONTEXTO DAS GUERRAS ENTRE FULAS E MANDINGAS DURANTE A ÉPOPEIA DE ALFA MOLO E DO SEU FILHO MUSSA MOLO, REIS DE FIRDU OU FULADU (Taryk Fuladu)

Quem terá sido o primeiro habitante de Canhámina? Uma pergunta difícil de responder porquanto, os actuais habitantes de Sancorlá seriam capazes de jurar, a pés juntos, que foram os seus antepassados e com provas provadas dentro do esquema mitológico habitual do tipo: “Era uma vez, a família de caçadores do grupo dos nossos antepassados que, após um longo percurso, em perseguição de um animal de caça, acabaram por desembocar neste local milagroso…” O que, porém, não deverá suscitar muita controvérsia, é o facto de que estas paragens já eram habitadas por populaçoes Banhuns, (Bainouks ou Soninkés?) quando os Fulbhé (fulas) chegaram com as suas manadas de gado, vindos de Macina (Mali), de Boundu (Senegal) ou Futa-Djalon (Guiné-Conacri). Conta-se que, no seu périplo pela região na primeira metade do século XIX, o Cheik El-Adj Omar, futuro imperador do Sudão ocidental, teria passado por aqui a caminho de Futa-Djalon acompanhado do seu djatigui (2) e futuro Silatigui, o rei de Firdu, Alfa Molo Baldé, a quem ele teria dado todas as terras situadas entre as bacias dos rios Gâmbia e Geba, mais concretamente até ao local designado Dandum (Dandum Cossará), à condição que as pudesse retirar aos “infiéis” reis Soninquês, claro. Despediram-se após ter recebido das mãos do grande homem de letras a promessa de que a sua aventura seria coroada de êxito.
De regresso a casa, Alfa Molo convocou os grandes de entre os Fulbhé [fulas,] e disse-lhes:
- Como todos sabem, desde que vivemos entre os Soninquês [, ou Saracolés, na gravura, 1890, cortesia de Wikipédia], não somos mais os donos das nossas vacas, das nossas ovelhas nem das nossas próprias mulheres, por isso, vamos combatê-los e acabar com os seus abusos de poder.


Os grandes de entre os Fulbhé após terem escutado e, cheios de medo, responderam:
- Nós não vamos combater os Soninquês e tão pouco iremos ajudar aquele que o irá fazer. Então o Alfa Molo levantou-se em toda a sua altura e, sacudindo o fundilho das calças, disse a frase que ficaria para sempre gravada nos anais da história épica do reino de Firdu: “Se não me ajudarem a combatê-los, então ajudar-me-ão a fugir”, teria ele dito. E foi assim que tudo começou, Alfa Molo e os seus apoiantes entrincheirados no seu campo de refúgio que apelidaram de M’ban Ulém ou seja recusa total, atacaram os Soninquês e, com o apoio decisivo dos Almamis de Futa-Djalon, acabariam por conquistar a região e instalar o reino de Firdu (Fuladu), repartido em pequenos regulados entre os quais o de Sancorla que, mais tarde sera confiado aos seus aliados locais (Dadina pai do Samba Sáhabu?) e que, vindos de Panambô e de kerewane (perto da actual localidade de Sare-Bacar) escolheriam, mais tarde, para capital a localidade de Canhámina.


Na lógica e sub-mundo do homem e da consciência tradicional africana, nada acontece por acaso, tudo se justifica e se fundamenta em fórmulas simples e ao mesmo tempo complexas, e neste caso concreto de Canhámina (Sancorla), conta-se que a origem da força e do poder local se devia à conjunção de determinados factores de ordem mística e que, por conseguinte, a perda daquela força e do poder, verificada mais tarde (1974),  se deveu a violação do princípio regulador do equilíbrio ou pacto inicial estabelecido, que começou com a penetração de elementos estranhos ao meio, entrando nesse leque tudo o que veio a ligar-se com o processo da dominação colonial, da submissão e da penetração do sistema mercantilista da produção e comercialização (borracha, coconote, pele de animais, amendoim etc.); de elementos novos de sujeição, de opressão e alienação cultural e espiritual que se lhe seguiram os passos, onde os impostos de capitação e a balança dos comerciantes eram os elementos mais nocivos dentro do sistema de exploração e empobrecimento das populações, terminando com a entrada silenciosa e criminosa dos guerrilheiros do PAIGC que transformaram o recinto dos poilões num campo de tortura e de exterminação dos próprios filhos de Sancorla.

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Conta-se que, antigamente, da mata de poilões situada no centro de Canhámina, descia uma linha de força para sul até a floresta de palmeiras (Surumael), situada nos limites do regulado e no meio da qual se encontrava uma nascente cujas águas abasteciam a população da aldeia, estando ligada, por sua vez, à bolanha de Suncudjuma (prolongamento da bacia hidrográfica do rio Farim-Canjambari). Surumael (mata húmida) representava o ângulo feminino do triângulo de Canhámina onde se praticavam não só a produção do arroz nas terras baixas mas também todos os rituais femininos ligados a educação e/ou reprodução social (cerimónias de casamento, fanados etc.). De Surumáel, seguindo sempre o percurso da bolanha a Oeste, até à distância de três km, estava situado o terceiro ângulo ou o complexo masculino, a lagoa de Djunkoré, formado, por uma extensa área alagada durante a estação das chuvas e no meio da qual se encontrava uma extensa lagoa de água doce, bem no centro da bolanha. As populações das aldeias mais próximas e as aves pescadoras vinham aqui encontrar os peixes que subiam com as águas do rio Farim/Canjambari. Também aqui davam de beber as grandes manadas de gado (vacas, ovelhas, cavalos) que faziam o prestigio económico da região, acompanhadas de crianças nuas e barulhentas, com as flautas numa mão e as varas noutra na vasta planicie da bolanha de Suncudjuma. Na margem esquerda do lago Djunkoré encontrava-se um poilão bem alto e que, durante o período nocturno, irradiava uma luz florescente provocando o efeito bômina (claridade), que era visível a uma grande distância. Djunkoré funcionava como o refúgio dos homens e das aves, onde se praticavam as cerimónias e rituais masculinos. Todas as gerações passadas fizeram-se homens neste espaço mítico e verdejante.

Deste ângulo subia outra linha de retorno à aldeia, formando assim uma espécie de triângulo, o triângulo de vida de Canhámina. O conjunto formava assim um ambiente natural propício para a vida animal, em particular das aves selvagens. Mas, também constituía o centro da vida económica, social e cultural da aldeia e seus arredores. E, numa escala maior, reproduzindo fielmente o triângulo de Canhámina, a organização social e política do regulado, também, se apoiava em três pilares ou áreas geográficas (diwé): A área de Canhámina (ângulo sudoeste) onde habitava o régulo, patriarca e irmão mais velho, Buran-Djame; a área de Lenkebémbe /Cambajú (ângulo noroeste) entregue a família de Demba Udé ou Dema-Duora e a área de Kerwane/ Panámbo (ângulo nordeste), entregue a família de Samba Udé; cada uma das quais gozando de uma certa autonomia. Esta divisão territorial e administrativa fomentava muitas rivalidades, algumas das quais ainda hoje subsistem, mas também era factor de concorrência e de dinâmica criativa que permitia manter a necessária coesão social e política assim como a chama guerreira do regulado que permitia fazer face aos ataques e investidas de grupos de resistência Soninkés e, mais tarde, poder aguentar os assaltos da guerrilha no início da guerra colonial ou luta da libertação nacional conduzida pelo movimento rebelde do PAIGC (1963/74) ao qual eles não quiseram aderir, preferindo continuar a antiga aliança com a administração colonial portuguesa, desconfiados pela adesão massiva dos mandingas a este movimento e que se assemelhava a uma tentativa de recuperação dos seus domínios recentemente conquistados pelos fulas e seus aliados de Futa-Djalon.

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Todavia, a sucessão de Alfa Molo na segunda metade do Séc. XIX, não viria a ser nem bem sucedida e muito menos pacífica, obrigando ao seu sucessor, o intrépido Mussa Molo, a disputar não somente o trono com outros pretendentes dentro da família, como fazer face a pretensões autonomistas dos pequenos regulados em que estava dividido o reino de Fuladu, com particular incidência naqueles cuja liderança era chefiada por Fula-Forros, antigos suseranos e pouco inclinados a aceitar a vassalagem vis-a-vis de Fula-pretos cujo poder representava Mussa-Molo, sob o olhar atento dos Almamis de Futa-Djalon e ainda com a presença cautelosa mas insidiosa das potências europeias (os Portugueses a partir de Farim e Geba, os Franceses a partir de Sédiô no Senegal e os Ingleses na foz e ao longo do rio Gâmbia) que cobiçavam a região meridional do novo império de Fuladu (Firdu) dirigido por Mussa Molo Baldé.

Nestas circunstâncias, os pequenos regulados Fulbhé do nordeste e leste Guineense tinham que escolher entre submeter-se às ordens e a tirania de Mussa-Molo, apoiado sub-repticiamente pelos Franceses, ou aliar-se aos Portugueses. Assim nasceu a aliança de interesses entre Fulas e Portugueses que, tudo somado, pareciam distantes e sem quaisquer interesses em comum. Porém, esta aliança fortuita não estava isenta de algumas contradições. Os pequenos regulados fulas, de um lado, precisavam dos Portugueses para se proteger das ameaças e razias constantes dos homens de Mussa-Molo mas, sendo muçulmanos, eram portadores de um inevitável “proselitismo religioso” que estava na base da sua libertação e do seu poder conquistado perante os Soninquês.

Os portugueses, por seu turno, precisavam de aliados no interior onde não conseguiam chegar para fazer valer as suas pretensões para lá do rio Geba mas, também, tinham na bagagem a Bíblia e o compromisso da salvação de almas perdidas para justificar as suas conquistas de além-mar. Mas tarde e, sempre que se sentiriam aflitos, os portugueses não hesitariam em recorrer aos seus aliados muçulmanos do interior (Fulas e Mandingas) para reprimir os povos guerreiros “animistas” do litoral Guineense mas, logo que se sentiam minimamente aliviados da pressão, se apressavam a afastá-los destas zonas para não espalhar a sua indesejada influência religiosa com a qual não compatuavam. Com Teixeira Pinto e seus auxiliares muçulmanos, especialmente Abdul Indjai, os portugueses fecharam o capítulo da conquista e pacificação (?) do território da Guiné no início do século XX, impondo de seguida, a todos os habitantes da Guiné, a obrigação do pagamento de impostos. Com estes, veio a necessidade de produzir excedentes comerciais abrindo, desta forma, uma porta de entrada a produção do amendoim que, juntando-se a colecta da borracha, se transformariam, durante muito tempo, nas actividades obrigatórias de todas as regioes do interior, incluindo Sancorla.


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Com o florescimento do comércio nos anos 40 e 50, houve a necessidade de abrir vias de acesso e de ligação com as zonas portuárias de Farim e Bafatá. As medições feitas determinaram que a estrada tinha que passar no meio da mata de poilões de Canhámina, que seria o ponto de convergência das três estradas (Cambaju ao norte, Bafata ao sul e Farim a Oeste,). Esta foi a primeira abertura (ferida) no triângulo de Canhámina, o primeiro sinal inquietante da mudança dos tempos, que abriu as portas para a penetração de elementos estranhos no círculo de vida de Sancorla.

Com o intuito de preservar Canhámina da invasão do novo mundo e das suas consequências inevitáveis, Fajonquito serviu de escoadouro e aldeia satélite para canalizar todos os elementos que não se enquadravam no pacto de equilíbrio do mundo antigo. Foi assim que as casas comerciais que queriam instalar-se em Canhámina, foram aconselahadas a se instalar mais a poente, a três quilómetros de distância, a fim de preservar o triângulo. E foi assim que, pelas mesmas razões, tanto a escola portuguesa (1958?) assim como a primeira companhia de tropas metropolitanas (1964) enviada para reforçar o regulado com o avanço da guerrilha, ficaram pouco tempo na aldeia, tendo sido, de seguida, transferidas para Fajonquito. Era preciso manter o equilíbrio do pacto, tanto assim que, pese a vontade de o fazer, os guerrilheiros do PAIGC nunca conseguiriam penetrar no triângulo e atacar Canhámina, o coração de Sancorla, mesmo desguarnecida de tropas. Acredita-se que eram desviados para longe por forças ocultas.


5. INÍCIO DA GUERRA E A DESLOCAÇÃO DAS PRIMEIRAS UNIDADES MILITARES PARA FAJONQUITO.

A partir de 1962/63, a guerra começou a alastrar-se em toda a região Norte e Nordeste da Guiné e, em 08 de Julho de 1964, a Companhia de Caçadores (CCAÇ) n.º 674, comandada pelo Capitão de Infantaria José Rosado Castela Rio, foi destacada para a regiao de Bafata e assumiu a responsabilidade do subsector de Fajonquito em 13 de Maio de 1964.

E na noite de 24 de Agosto de 1964, a partir das 21:00, as instalações militares de Fajonquito foram pela primeira vez flageladas pelo PAIGC. Durante a madrugada de 03 de Setembro de 1964, Fajonquito foi de novo flagelado e pelas 20:00 de 08 de Setembro de 1964, o PAIGC iniciou sobre Fajonquito a terceira flagelação, que se prolongou de forma intermitente até aos primeiros alvores.

Em 12 de Setembro de 1964, uma acção de patrulhamento da CCAÇ 674 foi alvo de violenta emboscada por parte dos guerrilheiros, que causou as primeiras baixas naquela sub-unidade, na zona de Cansonco (Gam-Sanco), na estrada para Canjambari, conta-nos o soldado Inacio Maria Góis, no seu Diário de Guerra. De seguida, apresentamos o resumo das companhias que passaram por Fajonquito de 1964 a 1974.



As Companhias do exército português que passaram por Fajonquito durante a guerra colonial 1963-1974 (José Martins)

1. Companhia de Caçadores n.º 674, comandada pelo Capitão de Infantaria José Rosado Castela Rio, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º (.....), Mobilizado pelo Regimento de Infantaria 16 (RI16 - Évora), assumiu a responsabilidade do subsector em 13 de Maio de 1964, vindo a ser substituída pela CCaç 1497 em 27 Abril de 1966.

2. Companhia de Caçadores n.º 1497, comandada pelo Capitão de Infantaria Carlos Alberto Coelho de Sousa, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º (....), mobilizada em (...) no Regimento de Infantaria n.º (...), assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CCaç 674, em 27 de Abril de 1966, vindo a ser substituída pela CCaç 1501 em 26 de Janeiro de 1967.

3. Companhia de Caçadores n.º 1501, comandada pelo Capitão de Infantaria Rui Antunes Tomaz, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º 1877, mobilizada em Tomar no Regimento de Infantaria n.º 15, assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CCaç 1497, em 26 de Janeiro de 1967, vindo a ser substituída pela CCaç 1685 em 19 de Setembro de 1967. Foi a companhia que construiu a capela em Fajonquito, uma mesquita em Canhamina e uma escola na localidade de Ginane assim como o primeiro mastro da bandeira encimado por uma grande cruz em betao armado junto ao quartel em Fajonquito.

4. Companhia de Caçadores n.º 1685, comandada pelo Capitão de Infantaria Alcino de Jesus Raiano, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º 1912, mobilizada em Évora no Regimento de Infantaria n.º 16, assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CCaç 1501, em 19 de Setembro de 1967, vindo a ser substituída pela CCaç 2435 em 14 de Dezembro de 1968.

5. Companhia de Caçadores n.º 2435, comandada pelo Capitão de Infantaria José António Rodrigues de Carvalho e, posteriormente, pelo Capitão de Infantaria Raul Afonso Reis, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º 2856, mobilizada em Abrantes no Regimento de Infantaria n.º 2, assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CCaç 1685, em 07 de Dezembro de 1968, vindo a ser substituída pela CCaç 2436 em 20 de Abril de 1970. Foi a companhia que construiu o dispositivo de defesa através da escavação de valas a volta do quartel, construçao de abrigos de defesa em betão armado e mudou o assentamento da população, transferindo-a para a zona Leste e libertando espaço de tiro na zona oeste de onde vinham os ataques. Teve problemas com o Gen. Spinola devido a forma como lidava com a população em geral e com os prisioneiros de guerra, obrigados a fazer trabalhos forçados na escavação e limpeza das valas a volta do aquartelamento, extorção e torturas físicas. Levou uma porrada e foi transferido para local incerto.

6. Companhia de Caçadores n.º 2436, comandada pelo Capitão de Infantaria José Rui Borges da Costa, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º 2856, mobilizada em Abrantes no Regimento de Infantaria n.º 2, assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CCaç 2435, em 20 de Abril de 1970, vindo a ser substituída pela CArt 2742 em 13 de Agosto de 1970.

7. Companhia de Artilharia n.º 2742, comandada pelo Capitão de Artilharia Carlos Borges de Figueiredo e, posteriormente, pelo Alferes Miliciano de Artilharia Baltazar Gomes da Silva, unidade orgânica do Batalhão de Artilharia n.º 2920, mobilizada em Penafiel no Regimento de Artilharia Ligeira n.º 5, assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CCaç 2436, em 13 de Agosto de 1970, vindo a ser substituída pela CCaç 3549 em 21 de Maio de 1972. Foi a companhia que melhor se relacionou com a população, extendeu a iluminação eléctrica a rua principal da vila, realizou várias actividades lúdicas de diversão e animação sócio-cultural e apoiou o funcionamento da escola local. O seu comandante, viria a perder a vida num rebentamento de granada defensiva perpetrado por um dos seus soldados no dia 2 de abril de 1972, em vésperas da celebração da Páscoa.

8. Companhia de Caçadores n.º 3549, comandada pelo Capitão Quadro Especial de Oficiais José Eduardo Marques Patrocínio e, posteriormente, pelo Capitão Miliciano Graduado de Infantaria Manuel Mendes São Pedro, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º 3884, mobilizada em Chaves no Batalhão de Caçadores n.º 10, assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CArt 2742, em 27 de Maio de 1972, vindo a ser substituída pela 2.ª Companhia do BCaç 4514/72 em 15 de Junho de 1974. Tal como as duas companhias precedentes, passou toda a comissão em Fajonquito, de modo que, a parte alguns roubos de animais por ocasião das suas festas religiosas, de modo geral, tiveram um bom relacionamento com a população, facto que foi propício ao aprecimento de um fenómeno social novo e pouco conhecido, ou seja o nascimento de filhos mestiços de pais portugueses com mulheres locais, os chamados na gíria colonial, filhos do vento. Só na localidade de Fajonquito registaram-se, no mínino, 10 casos e que não foram reconhecidos pelos progenitores.

9. A 2.ª Companhia do BCaç 4514/72, comandada pelo Capitão Miliciano de Infantaria Ramiro Filipe Raposo Pedreiro Martins, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º 4514/72, mobilizada em Tomar no Regimento de Infantaria n.º 15, assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CCaç 3549, em 15 de Junho de 1974, vindo a iniciar o deslocamento para Bissau a partir de 30 de Agosto de 1974, tendo um pelotão efectuado a desactivação e entrega, ao PAIGC, do aquartelamento em 01 de Setembro de 1974. (...). Esta companhia quando chegou estava desfalcada da maior parte dos seus grupos de combates destacados em outras frentes. Tinham vindo da zona Sul (Cadique e Cabomba, depois de passar por Guidage em 1973) e via-se que tinham sofrido muito com a guerra. Foram, do ponto do vista social, muito bons e bastante afáveis com as crianças que frequentavam o quartel marcando um notável contraste em relação às outras companhias. A guerra estava no fim, e vivia-se o período pós 25A74. Fizeram a entrega simbólica do aquartelamento ao PAIGC a fim de regressar às suas terras para um descanso bem merecido, mas com a marca da Guiné na alma e no coração para nunca mais esquecer.

(**) Vd. poste de 3 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4136: As Unidades que passaram por Fajonquito (José Martins)


6. IMAGENS DE FAJONQUITO (1964-1974)

Fajonquito, 1964/66 – Soldados da CCAÇ 674 e população, vendo-se à direita o Comandante da companhia, Capitão José Rosado Castela Rio.
Fajonquito, 1964/66 – Dança de batuque no espaço entre a porta d’armas e a casa Esteves (hoje mercado), na imagem vêm-se soldados da 674 (entre os quais Inácio Maria Góis, no meio e de bigode) e populares, entre os quais se vêm Djata/Zeca Mané (de tronco nu) e Munco Seidi (já falecidos) entre outrs residentes.
Fajonquito, 1966 – Um grupo de meninas vendedeiras, vendo-se em destaque a Djabu Embalo (falecida) de Gallé Djammê, Bairro situado dentro do Quartel na altura.
Fajonquito, 1964 –Soldados da CCAC 674 (Inácio Maria Góis, à direita) e meninas - Gallé Gumbo-Bairro situado dentro do Quartel nesse período.
Fajonquito 1968 - Aladje Tamba Baldé (pai do Cherno Baldé) e o Cabo Tintim (CCAÇ 2435- 1968/70), em frente da casa de Mário Lima, vendo-se na parede em cima o emblema deixado pela CCAÇ 1501 (1965/67)
Fajonquito 1971 – Carlos Bubacar Baldé (irmão mais velho de Cherno Baldé) da Mocidade Portuguesa, por ocasião do 10 de Junho, dia de Portugal e de Camões, na presença de oficiais da CART 2742 (dos quais Alferes José Félix que morreu no rebentamento da granada no dia 2/4/1972) comandada pelo Capitão Carlos Borges Figueiredo.
Fajonquito – Memorial da CART 2742 (1970-72)

1. Em primeiro plano, o Furriel das transmissões Farraia (CCAÇ 3549 – Deixós-Poisar, 1972/74), junto ao poste da bandeira e parada do quartel.
2. Na base do poste da bandeira vê-se uma lápide com a inscrição do nome do Cap. Carlos de Borges Figueiredo e os soldados mortos “no acidente” do caso Almeida na Páscoa de 1972, em Fajonquito.
3. Ao fundo estão as instalações onde funcionavam os Serviços de transmissões do quartel e junto a varanda da casa: da esquerda à direita, estão os Putos (rafeiros) Adama Sunto e o Cherno Baldé (Chico).
4. Neste local realizaram a cerimónia de entrega do aquartelamento ao PAIGC, simbolizando a passagem para a soberania nacional, em 1 de Setembro de 1974, com o hastear da bandeira nacional.
5. Fotografia cedida pelo ex-Furriel Miliciano José Cortes da CCAÇ 3549 - “Deixós-Poisar”, 1972/74.

Fajonquito, 1972/74

1. Foto em cima: Soldados da CCAÇ 3549 à civil, na rua principal da vila, ao fundo as casas comerciais de Costa Pinheiro (mais tarde Casa Gouveia) e dos Irmãos Casimiro (mais tarde Denane Sissé).
2. Foto ao meio: O falecido Furriel Cortes (José Augusto), junto a porta d’armas (entrada) do quartel de Fajonquito
3. Foto em baixo: Equipa Banda6 com o Capitao da CCAÇ 3549, Manuel Mendes São Pedro, primeiro à esquerda, de pé.


Fajonquito, 1972/74 – Soldados da CCAÇ 3549 (Furriéis José Cortes e Faraia) junto ao mercado. Ao fundo vê-se a imagem da oficina mecânica do Quartel
Fajonquito, Junho de 1972 – De esquerda para a direita, soldados condutores da CCAÇ 3549, Deixós-Poisar (1972/74): José Maria, João Vasconcelos, Carvalho, Fernando Silva, o Mandinga e seus jovens amigos: Jorge Suleimane Baldé, Mamadu Saido Candé (Barbosa), Braima Baldé (Banda6) e Cherno Abdulai Baldé (Francisco), junto da caserna da Ferrugem.

(continua)
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Nota do editor

Primeiro post de 10 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28424: Monografia de Fajonquito-Sancorla - Uma pequena contribuição (1): Localização geográfica e população; Origem e significado do nome Sancorla e Significado e origem do nome Fajonquito (Cherno Baldé)

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28405: FAP (127): O elogio dos sargentos do quadro do BCP 12 (Manuel Peredo, ex-fur mil pqdt, CCP 122/BCP 12, CTIG, 1972/74)

 


Foto nº 1, 1A, 1B 


Guiné > CCP 122 / BCP 12 >  s/l  > s /d > Da esquerda, para a direita, o fur mil pqdt  Fernandes, cabo-verdiano; ao centro, o 1º srgt pqdt Carmo Vicente ; à direita, o Manuel Peredo, fur mil---Os três sargentos do 4º Pelotão do CCP 122 estão equipados com armamento do PIAGC...O Manuel Peredo ostenta o RPG-2, o temível LGFog usado pelos guerrilheiros do PAIGC, a par do RPG-7. 

O que será feito dos restantes camaradas ? O Fernandes, o Carmo Vicente ?... Com este último ainda falei há muitos anos atrás, ao telefone, mas nunca conseguimos juntarmo-nos, para "partir mantenhas" e almoçar, na ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas, que ele frequentava. Era meu vizinho, no Lumiar, quando eu trabalhava na Escola Nacional de Saúde Pública / Universidade NOVA de Lisboa. (LG).


Foto (e legenda): ©  Manuel Peredo (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google AI)]


1.  A integração do Regimento de Caçadores Paraquedistas no exército foi um duro golpe na sua autoimagem...Estamos a falar de 1994...1 de janeiro de 1994. Claro que estes continuam a ser uma "tropa de elite", como sempre foram...E quem serviu nos "páras" continua a ter muito orgulho nessa pertença. (*)


Os "BoinasVredes" sempre pertenceram à FAP (Força Aérea Portuguesa) desde a sua criação, em 23 de maio de 1956, e foi sob este ramo das Forças Armadas que  combateram galhardamente na guerra colonial.

A  transição definitiva e irreversível foi anunciada no início dos anos 90 e concretizada no primeiro dia do ano de 1994, mantendo-se no Exército até aos dias de hoje. Atualmente, a principal unidade herdeira deste legado é o Regimento de Paraquedistas integrado na Brigada de Reação Rápida,

O Manuel Peredo, ex-fur mil pqdt (CCP 122 / BCP 12, Brá, Bissalanca, 1972/74), vive em França e deixou aqui, em tempos, um justo elogio aos sargentos do quadro do BCP 12 (*), da época da guerra colonial / guerra do ultramar (**).. Homens já esquecidos como o António Dâmaso, o Carmo Vicente, o Manuel Rebocho, e muitos outros.

(...) Se eu tivesse um décimo do talento literário de alguns bloguistas, teria uma participação mais activa. Desde que descobri o blogue, não consigo deixar passar um dia sem o consultar,o que não é muito do agrado da minha mulher e devem imaginar porquê.

Tudo o que aqui se diz sobre Gadamael me toca profundamente porque também eu vivi esses dias terríveis, mas aqueles que vieram de Guileje para Gadamael deviam ter ficado afetados psicologicamente para toda a vida.

O que o João Seabra, José Casimiro Carvalho, Manuel Reis e outros dizem sobre os paraquedistas do BCP 12 deixa-me imensamente orgulhoso de ter pertencido a essa tropa especial. O João Seabra diz que não compreende porque é que nenhum pára foi condecorado pelos serviços prestados em Gadamael. Se calhar ninguém se destacou em especial. Se o José Casimiro Carvalho não teve direito a nada, eu e outros também não merecíamos ser louvados ou condecorados.

O João Seabra faz bem em enaltecer o trabalho dos sargentos paraquedistas que pertenciam ao quadro. Todos eles já tinham uma, duas ou mais comissões no ultramar. Mesmo os oficiais e furrieis milicianos aprendiam muito com eles.

Faço aqui um reparo. Eles não eram promovidos por mérito, salvo talvez em raras exceções. Todos eles começaram como simples soldados e os melhores eram convidados a seguir a carreira militar. Os que aceitavam, tiravam o curso de sargentos, findo o qual passavam a cabos aprovados e depois iam subindo de posto em função dos anos de serviço,o mesmo acontecendo com os milicianos (que ingressavam no quadro).

O 
 Carmo Vicente  foi meu colega no quarto pelotão da CCP 122 / BCP 12 e acho que chegou a ser comandante do mesmo pelotão durante algum tempo. Quando havia falta de alferes milicianos (ou tenentes do quadro), os pelotões eram comandados pelos sargentos mais antigos, mas apenas por um tempo limitado. Raramente um sargento era operacional 24 meses.

Acalento a esperança de ainda um dia poder participar num encontro nacional para poder trocar opiniões, em especial com o João Seabra, José Casimiro Carvalho, Manuel Rebocho, Victor Tavares e outros. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 2 de junho de 2023 > Guiné 61/74 - P24361: FAP (126): A que altura (quantos pés) voava a DO-27 quando fazia de PCV (Posto de Comando Volante)? (Fernando de Sousa Ribeiro)

(**) Vd. poste de  26 de abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4251: FAP (26): Em louvor dos sargentos pára-quedistas do BCP 12 (Manuel Peredo, ex-Fur Mil CCP 122, 1972/74)


quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28393: In memoriam (589): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte IV: Recordações amargas de Gadamael (1)




Foto nº 1A, 1






Foto nº 2,  2A, 2B, 




Foto nº 3,  3A, 3B

Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Maio / junho de 1973 > BCP 12 > Chegada, de LDG (foto m 1) e aberturas de abrigos e trincehiras(Fotos nº 2 e 3). Fotos originais, a preto e branco, publicados pelo António Dâmaso,oriundas da Hstória do BCP 12.

Restauro, melhoria técnica e coloerização: LG + IA (Gemini / Google) (2026)

 

1. Em 1973, o 1º srgt paraquedista António Dâmaso, natural de Odemira, a exercer a função de 2º cmdt do seu 3º Gr Comb / CCAÇ 121 / BCP 12, depois de ter perdido 3 dos seus  homens no Cufeu, de má memória,  a caminho de Guidaje (Op Mamute Doido, 23 de maio de 1973) , é enviado para reforçar a defesa de Gadamael, no sul da Guiné, região de Tombali, junto à fronteira (Op Dinossauro Preto, Gadamael, 2 juh - 17 jul 1973). 

Ele escreveu , na primeira pessoa, como viveu e sobreviveu à batalha de Gadamael, sempre operacional, e mesmo doente.  (À mesma CCP 121/BCP, 2º Gr Comb, pertenceu o nosso amigo e camarada Victor Tavares. ex-1º cabo pqdt, apontador de MG42, natural de Águeda.)

Este texto, que se segue, foi inicialmente publicado no Bogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74 > Domingo, 20 de fevereiro de 2011 > Voo 2164_ a Operação "Dinossauro Preto" contada na primeira  pessoa 

É agora republicado, com melhoria das imagens (que o acompanhavam, a preto e branco), em homenagem a este camarada do BCP 12 que em vida nos honrou com a sua presença, ativa e produtiva, na Tabanca Grande, bem como em homenagem a todos os nossos camaradas que participaram na Batalha dos 3 G (Guidaje, Guileje e Gadamael) (maio-julho de 1973).


Recordações amargas de Gadamael (1)

por António Dâmaso (1940-2026)


Operação “Dinossauro Preto” > Entre 2jun73 e 17jul73 em Cacine e Gadamael Porto > Força:  BCP 12 com 3 Companhias a 4 Gr Comb (*)

Os primeiros paraquedistas que chegaram a Gadamael Porto (1), além de terem quase tudo arrasado, viram-se na necessidade de cavar abrigos e abrir valas suficientemente profundas para poderem sobreviver à intensidade e pontaria dos ataques.

É do conhecimento geral que fora abandonada uma posição fortificada (Guileje), transitando essa tropa (CCAV 8350) para outra (Gadamael),  sem as mínimas condições de defesa fortificada (2).

Desconheço se não tiveram tempo de cavar trincheiras, por se verem repentinamente sob um inferno de metralha em cima, ou se se estiveram nas tintas para o fazer. A “necessidade aguça o engenho”, durante uma emboscada vi um militar esgravatar com as mãos para proteger a cabeça e o resto do corpo, depois do bagabaga que o tinha protegido ter sido arrasado, isso permitiu-lhe escapar e estar cá entre nós.

Depois os Páras começaram a fazer a segurança próxima e afastada como se impunha.

No dia 2jun73, chegou a Gadamael Porto a CCP 122, depois a CCP 123 a 4jun73 e a minha Companhia, a CCP 121, ainda não completamente refeita dos acontecimentos de Guidage, embarcou no dia 11jun73 pelas 23h30, no cais de Bissau, na LDG Bombarda, rumo a Cacine aonde chegámos no dia 12 de madrugada. Fomos transferidos para um Navio Patrulha (LFG) que nos levou até perto de Gadamael Porto.

Fizemos transbordo para botes de borracha e sintex em virtude da maré estar baixa e da zona do cais estar a ser atacada. 

Fomos deixados na margem mas dentro de água num braço do rio oposto ao cais, choviam granadas que entravam na água à nossa frente mandando um repuxo de água pelos ares.  Primeiro “rebentavam”,  depois ouvia-se o silvo da trajectória e só mais tarde a saída. 

Chamávamos-lhe "supersónicas" , era um tipo de granadas a que não estávamos habituados, mais tarde vim a saber que se tratava dum canhão 130. Não houve estragos por se enterrarem no lodo, fez-me lembrar cenas do filme “ O dia mais longo”, a uma escala muito reduzida.

No Alentejo para pequena complicação costuma-se dizer “ se isto é conduto antes prefiro comer pão seco”. Naquele dia pensei para com os meus botões:  "Porra! …, Se isto é conduto não quero comer nada,  que bela recepção com que nos brindaram."

Assim que entrei no aquartelamento, verifiquei que algum pessoal da CCP que lá andava, estava bastante “apanhado”, vi dois sargentos de braço dado a passear com chapéu-de-chuva aberto durante uma flagelação, a única chuva no momento era de granadas. Conhecia-os de outra comissão na mesma província, para mim não estavam a armar aos “cucos”, estavam mas era bem “apanhados”.

No dia 13jun73, ainda de noite, a minha  CCP 121 saiu para o mato, não tínhamos andado um km o pessoal da frente parou,  por ter ouvido algum ruído, ficámos todos atentos, estávamos assim havia pouco mais de 10 minutos, o dia ia começando a clarear.

Eu já estava como adjunto de comando domeu pelotão.  Como não tinha havido tempo para instruir convenientemente um apontador do morteiro 60, eu tinha junto de mim o militar que levava o morteiro, foi ele que me alertou para um guerrilheiro que vinha a rastejar na nossa direcção, eu disse-lhe para abrir fogo para cima, rebenta ali um tiroteio de armas ligeiras e pesadas que durou cerca de meia hora.

Mais uma vez agarrei no morteiro e comecei a despejar granadas para cima deles. Eram muitos e alguns estavam em cima das árvores. Um apontador de RPG 7 da minha Companhia cortou uma palmeira ao meio deitando o guerrilheiro que lá estava abaixo. Se não tivessem sido detectados e não estivéssemos em posição defensiva, tínhamos tido ali mais um dissabor.

Aquilo para mim já se tinha considerado rotina, o pior era o meu estado físico, eu estava muito fraco, estava doente física e psicologicamente, era um hospedeiro nato de ténias e lombrigas. Tinha tomado uma droga para as matar mas que me provocava um tremendo mal-estar, em toda a minha vida nunca me tinha sentido tão mal como naquela altura. 

Voltei a ter os mesmos sintomas quando depois de 25 de Abril fui submetido a outra desparasitação, tinha férias marcadas para aquela data e não me deixaram ir de férias, quando toda a gente tinha vindo até ali e estava mesmo necessitado de as gozar depois do que tinha passado em Guidage. Lei do funil, eu não fui mas o comandante da Companhia foi. Deixei enterrar o tubo do morteiro e não tive força para o desenterrar, teve de ser o novo comandante de companhia a desenterrá-lo.

Tivemos um morto e um ferido grave, do pessoal que fazia de guia, o morto estava esventrado de tal modo que quando passou na zona onde eu estava, vi um alferes cujo estômago não aguentou a cena e teve de "chamar pelo Gregório” ali mesmo. Tivemos de voltar para trás com eles e para nos remuniciar, em virtude de termos ficado com poucas munições.

Saudações Aeronáuticas

A. Dâmaso (**)

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Notas do autor AD:

(1) Devido às baixas sofridas por doença e ferimentos, o Comandante do Batalhão (BCP 12) teve de se socorrer de graduados e praças que prestavam serviço na CMI (Companhia de Material e Infraestruturas) para repor os efectivos. Foi assim que vi em Gadamael camaradas que estavam prestes ou já tinham acabado a comissão, a dar o seu contributo na ajuda aos camaradas que estavam numa situação difícil.


(2) A posição fortificada abandonada refere-se  a Guilege. Estive lá durante uma semana debaixo de ataques de morteiradas 120 mm em 1970. Se aquela posição tivesse sido reforçada em abril ou maio de 1973, provavelmente teria ficado mais um cemitério militar em Guilege.

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28389: Para bom observador, meia palavra basta (9): Bingo, camaradas, a resposta certa era... Mansoa!


Foto nº 1

Foto nº 2

Guiné > Região do Oio > Mansoa > CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 > 1968 > O Paulo Raposo (ex-alf mil at inf., com a especialidade de Minas e Armadilhas) esteve cinco meses em Mansoa, antes de partir para a zona leste (L1), Galomaro e Dulombi, subsector de Galomaro. Aí a  CCAÇ 2405  irá perder 17 homens no desastre do Cheche, no Rio Corubal, na sequência da retirada de Madina do Boé, em 6 de fevereiro de 1969 (Op Mabecos Bravios).

Nas fotos nºs 1 e 2, ele pousa junto a duas  placa toponímicas indicando  que, por estrada, Mansoa distava 96 km de Bafatá, 52 km de Farim e 30 km de Mansabá... Na  foto nº1, a distância em relação a Bafátá é mais curta (93 km). É possível que a foto nº 2 tenhasido tirada já na estrada para Jugudul (que distava 3 km, a sul,  de Mansoa). Ou, então, mais provavelmente. no encontro, a nordeste de Mansoa, das estradas para Bissora (a noroeste) e Mansabá e Farim (a nordeste).

 Restauro, melhoria técnica e colorização digital: Blogue Luis Graça & Camaradas da Guiné + ChatGPT/OpenAI, 2026.  As fotos orginais, a preto e branco, são do Paulo Raposo (2006).  A nº 2 era uma mera focópia, de muito má qualidade .


Foto nº 3

Guiné > Região do Óio > Mansoa > c. 1963 > Dois VCC,  militares presumivelmente  da CCAÇ 413 (1963/65)... posando junto a uma tabuleta rodoviária,  toponímica e quilométrica, indicando diversas localidades de destino e respetivas distâncias: Encheia (18 Km), Nhacra Posto (28 Km), Bissalanca / Bissau (48 Km), Porto Gole (28 Km), Enchalé (50 Km), Bambadinca (85 Km) e Bafatá (93 Km). Foto original, a preto e branco , reproduzida com a devida  vénia do livro "Nos celeiros da Guiné", de Albano Dias Costa e José Sá-Chaves (Lisboa: Chiado Editioar, 2015).

Vários anos separam as fotos nº 1 e 3: mas nas duas persiet a gralha ou o erro de impressão do topónimo "Bissau" (sem o "u").

 Restauro, melhoria técnica e colorização digital das 3 fotos: Blogue Luis Graça & Camaradas da Guiné + ChatGPT/OpenAI, 2026.



1. Respondendo ao desafio lançado no poste P28386 (*), a resposta correta era Mansoa... Várias leitores acertaram, ou andaram lá próximos, no blogue e na página do Facebook daTabanca Grande... Outros (nomeadamente na página do Facebook, apontaram para o Norte ou para o Sul...).

(i) Cherno Baldé:

Na minha opinião o painel estaria situado no centro do país, mais precisamente na área de Mansoa, pois a distância de Bissau a Mansoa é de, aproximadamente, 57 km; e de Mansoa a Bafatá seriam os 93 km, perfazendo assim a distância aproximada de 150 km (57 km + 93 km) de Bissau a Bafatã, embora alguns defendam que a mesma é de 154 km.

 (ii) César Dias: 

Jugudul
 
 (iii) Arur Conceição:
 
Binar

(iv) Antº Rosinha

Mansoa provavelmente.

 (v)  Jerónimo Magina

Mansoa

(vi) Emanuel Ribeiro Fernandes

Penso que a localidade mais próxima será Mansoa, onde estive várias vezes.

(vii) Lucinda Aranha

Nem me atrevo...
 
(viii) Artur Godinho Gomes

Safim
 
(ix) António Sedas

Estava na zona de Mansoa.

 (x) João Reis Melo

Aposto as moedas todas em Mansoa. Quando muito, poderia ser Jugudul mas, passo lá todos os anos e, como de Jugudul a Mansoa, são menos de 3 km... poderá ser qualquer uma delas...

(xi) José Marques

Julgo ser Mansoa.
 
(xii) Tabanca Grande Luís Graça

Bingo, é Mansoa!.. Parabéns aos camaradas e amigos que acertaram!...

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
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