Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca ) > Subsector de Xime >Madino Colhido > Fevereiro de 1970 > Sinais de queimadas (das NT ou do IN)... Proporcionavam a criação de clareiras onde era mais os nossos helicópterios poudar.. Como foi o caso do dia 9 de Fevereiro de 1970: (i) por volta das 5 e tal da manhã, do 1º cabo Galvão, da 3º GR Comb / CCAÇ 12, fico ferido na travessia da cambança do Rio Buruntoni; (ii) ás 13h as NTY sofrem uma violenta emboscada em Gundagé Beafada, de que resultariam uma série de baixas entre as NT (CART 2520, Pel CAç Nat 63 e CCAÇ 12), incluindo o 1º Cabo que ia nesse momento em padiola improvisada e foi alvejado a tiro; (iii) a helievacuação dos feridos deu-se já em Madina Colhido (um local de trágica memória) e o fotógrafo estava lá...): (iv) em dezembro de 1975 seriam fuzilados, neste çlocal, pelo PAIGC alguns antigos combateram ao nosso lado, incluinmdo o nosso antigo soldado arvorado, futa-fula, o gigante Abibo Jau.
Fotos: © Arlindo T. Roda (2010). Todos os direitos reservados. Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.
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Arlindo Teixeira Roda: ex-fur mil at inf, 3º Pelotão, CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, 1969/71); o melhor fotógrafo da CCAÇ 12, juntamente com o Humberto Reis; no passado 25 de janeiro de 2025 em Coimbra, foi-lhe atribuída a designação de Presidente Emérito da Federação Portuguesa de Damas, tendo em conta a sua ação na criação da Federação e, também, a condução do organismo nos últimos 12 anos. Foto: cortesia da Federação Portuguesa de Damas |
1. Felizmente que ainda há verão em 2025... Felizmente que a Tabanca Grande também tem (e mantém) a sua"universidade sénior de verão"... Felizmente que a gente ainda vai tendo paciência, tempo e pachorra para ir blogando, escrevendo, lendo, comentando o nosso blogue (que fará 22 anos de existência em 23 de abril de 2026, se lá chegar, se lá chegarmos com vida e saúde)... Felizmente que o meu camarada da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, o Arlindo Roda, natural de Pousos,Leiria, deu sinais de vida, ao fim de mais de 30 anos (!), telefonando-me na sexta feira passada... (Vive em Setúbal, reformado de professor do ensino técnico, desde os...57 anos!).
Durante a guerra colonial, até 1974, ambos os combatentes (PAIGC e Exército Português), recorreram a política de "terra queimada":
- os bombardeamentos e o fogo posto (no capim) causavam incêndios, de maior ou menor proporção;
- por sua vez, o abate indiscriminado de gado e a destruição dos "stocks" de arroz e outros víveres foram uma forma de usar a "fome" na guerra de contrassubversão;
- um exemplo da política de terra queimada foi a Op Lança Afiada (Sector L1, Bambadinc, 8-18 de março de 1969), comandada pelo cor inf Hélio Felgas (mais tarde, maj - gen, ref., 1920-2008).
Veremos na segunda parte deste poste, falar da alegada "política de terra queimda" na Guiné, exemplificada pela Op Lança Afiada...
2. Para não irmos mais longe, cite-se o caso da guerra peninsular (1807-1814): durante as invasões napoleónicas, as tropas luso-britâncias aplicaram a política de terra queimada para atrasar o avanço das tropas francesas e privá-las de recursos alimentares.
A política de terra queimada envolveu a evacuação das populações, destruição de searas, moinhos, casas e bens que não podiam ser transportados.
(i) A dupla estratégia de Wellington: As Linhas de Torres e a política de "Terra Queimada" que puseram fim às invasões napoleónicas
Durante a terceira e última invasão francesa de Portugal, em 1810, o General Arthur Wellesley, futuro Duque de Wellington, engendrou uma brilhante e implacável estratégia defensiva que se revelaria decisiva para a expulsão das tropas napoleónicas.
- a construção das monumentais e secretas Linhas de Torres Vedras;
- a aplicação de uma rigorosa política de terra queimada.
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As Linhas deTores. Fonte: Wikipedia |
Longe de serem uma mera barreira física, as Linhas de Torres Vedras eram um complexo e sofisticado sistema defensivo que se estendia por dezenas de quilómetros, desde o Tejo até ao Oceano Atlântico, protegendo a capital, Lisboa.
O sistema era composto por três linhas defensivas principais, aproveitando as elevações naturais do terreno. Eram constituídas por uma rede de mais de 150 fortes, redutos, postos de artilharia (mais de 6 centenas de bocas de fogo), estradas militares e outros obstáculos, guarnecidos por dezenas de milhares de soldados portugueses e britânicos (cerca de 40 mil)
O grande trunfo das Linhas de Torres residia no facto de serem praticamente desconhecidas do exército invasor, comandado pelo Marechal André Massena. E mesmo dos seus construtores (cada um só conhecia a sua seção, ou local; que tinha a visão do conjunto era o próprio Wellington e o seu engenheiro militar, o coronel Richard Fletcher.

(Imagem à direita: Arthur Wellesley (1769-1852), 1º duque de Welington. Fonte: Wukipedia)
Complementar à defesa estática proporcionada pelas Linhas de Torres, Wellington implementou uma brutal, mas eficaz, política de terra queimada. À medida que o exército anglo-luso se retirava estrategicamente para o refúgio das Linhas, foi dada ordem para que a população civil abandonasse as suas terras, levando consigo todos os bens e gado que conseguisse transportar.
Tudo o que não podia ser levado era sistematicamente destruído: colheitas foram queimadas, moinhos desmantelados, pontes derrubadas e celeiros esvaziados.
Esta política teve consequências devastadoras para a população portuguesa, que sofreu enormes privações, fome e doenças (. No entanto, do ponto de vista militar, foi um golpe de mestre. O exército de Masséna, que dependia da requisição de mantimentos no terreno para se abastecer, viu-se rapidamente a braços com uma crise logística insustentável.
(iv) O desfecho da invasão: A vitória da estratégia das Linhas de Torres e ds "política queimada"
Enquanto o exército anglo-luso se encontrava seguro e bem abastecido dentro das Linhas, com o porto de Lisboa a garantir o fornecimento contínuo de homens e provisões, as forças francesas definhavam do lado de fora.
A fome, as doenças e o constante assédio por parte das milícias portuguesas foram dizimando o exército francês. Sem esperança de receber reforços ou mantimentos e confrontado com a aproximação do inverno, Massena foi forçado a ordenar a retirada em março de 1811.
A combinação genial das Linhas de Torres Vedras com a política de terra queimada demonstrou a visão estratégica de Wellington e a resiliência do povo português.
Claro, há o reverso da medalha: resultou em enormes sofrimentos para a população portuguesa, incluindo assassinatos e maus-tratos, ruína agrícola, saques e incêndios em cidades, vilas e aldeias. Muitas aldeias foram evacuadas e transformadas em territórios desérticos, levando à fome, epidemias e à escalada dos preços dos géneros alimentícios. O sacrifício da terra queimada, embora essencial para travar os franceses, empobreceu grandemente o país, justificando-se pelo objetivo de proteger a independência nacional.
As Invasões Napoleónicas, que assolaram Portugal entre 1807 e 1814, deixaram um profundo rasto de morte e destruição.
É extremamente difícil apurar o número exato de vítimas, as estimativas apontam para uma perda demográfica significativa, que terá ultrapassado as 200 mil pessoas, podendo mesmo aproximar-se das 300.000, entre civis e militares.
Este valor representa uma quebra demográfica considerável para um país que, no início do século XIX, contava com uma população total de aproximadamente 2,9 a 3 milhões de habitantes.
A contagem precisa das vítimas é dificultada pela natureza do conflito, que não se limitou a batalhas campais. A fome, as epidemias e os massacres perpetrados sobre a população civil foram responsáveis pela grande maioria das mortes.
A terceira invasão, liderada pelo marechal Massena em 1810-1811, é consensualmente considerada a mais brutal e devastadora para os portugueses.
No início do século XIX, a população portuguesa rondava os 3 milhões de pessoas;
- dados mais específicos indicam que em 1801 a população era de 2.931.930 habitantes;
- durante o período das invasões, nomeadamente em 1811, registou-se uma diminuição para 2.876.602 habitantes, um reflexo direto do impacto da guerra, da fome e das doenças na demografia do país.
As múltiplas ( e interligadas) causas da elevada morbimortalidade
Ações militares: as batalhas, escaramuças e cercos ao longo dos sete anos de conflito resultaram num número significativo de baixas militares, tanto do exército regular como das milícias e ordenanças que se opunham aos invasores; as tropas regulares portuguesas (cerca de 20 a 30 mil homens mobilizados) sofreram baixas consideráveis: os números variam, mas as estimativas apontam para em 10 a 15 mil mortos em combate ou por doença, sem contar desertores e incapacitados.
Massacres e violência sobre civis: as tropas francesas (Junot, Soult e Massena), e por vezes também as aliadas, cometeram diversas atrocidades contra a população civil; vilas e aldeias foram pilhadas e queimadas, e os seus habitantes massacrados; a violência fazia parte da tática de intimidação e retaliação contra a resistência popular;: há relatos contemporâneos que falam em dezenas de milhares de civis mortos diretamente (talvez 40 a 60 mil ao longo das campanhas.
Fome generalizada: a política de "terra queimada", adotada tanto pelas tropas em retirada como pela resistência para dificultar o avanço inimigo, levou à destruição de colheitas e à requisição forçada de alimentos; o episódio mais devastador foi a política de terra queimada durante a 3.ª Invasão (1810-11): populações inteiras do norte e centro foram obrigadas a abandonar casas e colheitas para dificultar a progressão de Masséna.
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Epidemias: a subnutrição, as más condições de saúde e higiene, a deslocação de populações, a concentração de refugiados e tropas criaram o ambiente ideal para a propagação de doenças como o tifo, a disenteria e a varíola, que ceifaram milhares de vidas.
A combinação destes fatores resultou numa catástrofe demográfica que marcou profundamente a sociedade portuguesa. A perda de vidas, aliada à destruição de infraestruturas e à desorganização social e económica, deixou o país exaurido e contribuiu para a instabilidade política e social que se seguiu ao fim do conflito.
Com a fuga da corte para o Brasil (donde só regressará em 1821), as invasões napoleónicas e a crescente influência inglesa na vida política nacional, assiste-se, por outro aldo, à destruição do incipiente desenvolvimento do capitalismo industrial em Portugal, iniciado em meados do séc XVIII, sobretudo com o pombalismo.
A política de terra queimada (sobnretudo na 3ª invasão, 1810/11) ficou marcada na memória popular portuguesa, especialmente nas regiões centro e norte do país, como uma das mais severas provações já enfrentadas pela população civil. Foram relatados casos extremos de devastação onde até estradas e casas foram destruídas para impedir o acesso dos franceses a qualquer recurso útil.
A expressão "ir p'ró maneta" vem dessa época. O "maneta" era a alcunha do Louis Henri Loison (1771-1816): perdera um braço num episódio de caça, foi talvez o mais sanguinário e rapace dos generais franceses de Napoleão, participou nas três invasões franceses (facto a comprovar)... O seu nome inspirava terror e horror, pela sua crueldade e pela forma como torturava e executava os prisioneiros, e especialmente os gerrilheiros portugueses.
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Notas do editor LG:
(*) Vd. comentários de António Rosinha e Fernando Ribeiro. Poste de 30 de agosto de 2025 Guiné 61/74 - P27166: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (9): Secas e fomes levaram ao longo do séc. XX à morte de mais de 100 mil pessoas
(...) António Rosinha:
(...) "Eram os tempos da sardinha para 3 (ou 4), e em que não havia incêndios, embora houvesse piromaníacos e incendiários como haverá sempre, mas os resíduos das florestas eram poucos para aquecer as lareiras e defumar os enchidos.
sábado, 30 de agosto de 2025 às 12:27:00 WEST
1 comentário:
Em Portugal e em boa parte dos países do mundo sempre existiram incêndios, umas vezes promovidos pela acção humana (propositadamente ou não) outras por fenómenos naturais. Quando era criança, havia incêndios na minha terra, suponho que, na maior parte das ocorrências , por negligência. Diferenças para o mundo de hoje:
Ardiam pequenas áreas, porque os terrenos andavam cultivados à volta das povoações e na serra, na área de mato ou floresta, as manchas com coberto arbustivo estavam sempre entremeadas por manchas rapadas. Porque é que se cortavam os matos? Pela razão simples de que eles tinham muito valor. Para que servia o mato, constituído de tojo, urze e
carqueja? Servia para fazer a cama do gado e estrume; para vender para as padarias do Porto e até para ser incorporado na terra. A minha freguesia tinha, pela minha infância, à volta de 200 cabeças de gado bovino, agora terá três ou quatro cabeças.
Carvalho de Mampatá
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