terça-feira, 4 de outubro de 2016

Guiné 63/74 - P16558: A minha guerra a petróleo (ex-Cap Art Pereira da Costa) (19): Ainda a definição de literatura da Guerra Colonial ... e a crítica do filme "Cartas da Guerra"

 
1. Em mensagem de 30 de Setembro de 2016, o nosso camarada António José Pereira da Costa, Coronel de Art.ª Ref (ex-Alferes de Art.ª da CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69; ex-Capitão de Art.ª e CMDT das CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo, e CART 3567, Mansabá, 1972/74), enviou-nos o seu ponto de vista acerca da literatura e cinema dedicados à Guerra Colonial para integrar a sua série: "A Minha Guerra a Petróleo".



A Minha Guerra Petróleo (19)

Ainda a definição de literatura da Guerra Colonial

Aqui há uns posts atrás, o Branquinho levantou uma questão pertinente que se prende com a definição de literatura da “Guerra Colonial”. Poderá parecer uma questão secundária, mas só agora, já que, para o futuro, ela deverá ser claramente estabelecida, sob pena de se tomarem obras sérias por refugo e vice-versa. E já agora, tendo em conta a recente estreia do filme “Cartas da Guerra”, parece-me oportuno estabelecer o que se deverá entender por Cinema “da Guerra Colonial”. Podemos também juntar-lhe o teatro sobre o mesmo tema, embora esta forma de arte não tenha tido a “guerra” como tema, por razões que será difícil concluir.

Tenho para mim que estas três formas de arte: literatura, cinema e teatro revestem características documentais – registo, tratamento objectivo e exposição à consideração do espectador/leitor de factos ocorridos – que não estão presentes noutras, o que lhes permite serem mais aptas para a reanálise e reconstituição do sucedido num dado momento histórico. O Livro descreve detalhadamente os factos ocorridos, enquanto o Cinema mostra-os. E, enquanto o primeiro deixa ao leitor uma liberdade de interpretação, o segundo, através da imagem móvel, permite uma maior latitude de interpretação. Quer isto dizer que o espectador dá mais de seu na interpretação e apreciação de um filme do que o leitor de uma obra literária ou até (porque não) poética. Ambos estão sempre disponíveis para a consulta, o que não sucede com o teatro – essencialmente efémero – em que cada representação é sempre uma nova narrativa, quase sempre melhor a cada exibição… Mas o teatro, por si só merece uma análise mais detalhada.

O Branquinho[1] começa por apresentar uma premissa que também considero fundamental para a definição do que é "literatura da guerra colonial" e à qual dou o meu acordo total: deixando de lado toda e qualquer postura política ou ideológica.

Das cinco definições que apresenta considero a primeira (todo e qualquer escrito sobre a guerra) demasiado vaga, aberta e imprecisa. Nela cabe tudo, até os estudos científicos ulteriores, de qualquer tipo, sempre necessários sobre uma guerra ou outro qualquer facto histórico. Convirá que seja mais precisa, de modo a que o que se define seja claramente caracterizado, pois, de outro modo não valerá a pena sequer esboçar a definição. Com efeito, a guerra pode ser abordada, especialmente por estudiosos, segundo diversos ângulos, hoje ou em qualquer outro momento do futuro. Pode ser também abordada de modo algo fantasioso, o que, se não houver aviso prévio, poderá induzir o leitor a interpretações erróneas e opiniões inexactas. Bem bastam as que surgirem, com o passar dos anos!

Também não considero relevantes as três seguintes definições que propõe, considerando que todos ou quase todos sofremos a guerra à distância, bastando para tal sermos portugueses, vivendo ou não em Portugal. Igualmente era suficiente sermos portugueses para que sofrêssemos a guerra nos espaços de guerra ou longe dos espaços de guerra. Se, para escrevermos sobre a guerra, basta termos sido portugueses num momento histórico, teremos de concordar que, mesmo tendo vivido nos espaços de guerra, tudo não passará de uma recordação que, por vezes, não vai muito para além do “ouvi dizer que”. Tratar-se-á de uma evocação da memória, mas que não se fundamenta na experiência directa do facto. A “Guerra Colonial” será assim, mais uma envolvente, mais um elemento caracterizador do ambiente que enquadra a história que o autor quer narrar. Cabem neste caso as histórias das mulheres que esperaram os maridos ou namorados, as mães e pais que sofreram com a partida e tiveram ou não a alegria do regresso ou as experiências dos que residiam nos “TO daquelas PU”.

E resta a última, que considero a mais válida pela autenticidade do relato, mesmo prevendo que cada um de nós terá a “sua” verdade, expressa na narrativa que apresentar. É dado adquirido que, o modo como se viu e viveu uma dada situação e o respectivo relato posterior, podem estar marcados pela subjectividade. Isto pode criar dúvidas ou até suspeitas sobre se as coisas terão mesmo ocorrido assim e serve, muitas vezes, de argumento para que a respectiva credibilidade seja diminuída. Porém, não é menos verdade que o abuso do recurso a esse tipo de argumento não é nada conveniente. Chamo a vossa atenção para a grande coincidência entre as descrições do mesmo facto ou situação que se viveu e que está bem patente em muitos posts do blog, escritos por vários camaradas que viveram a mesma situação. É por isso que considero que literatura de guerra colonial é aquela escrita feita somente por quem fez a guerra. Às outras, falta a experiência vivida que nada pode substituir, mesmo que o narrador se esforce muito.

Esclareço que não pretendo vedar a ninguém o direito de escrever sobre a “guerra”, mas não haja dúvidas, de que uma coisa é fazer a guerra outra coisa é sofrer (de vários modos) com a guerra. E muito mais se o que se pretende é transmitir informação sobre o sucedido. A literatura baseada no "consta que" ou no "ouvi dizer" é deficiente e nunca poderá ser aceite nem em relação a esta guerra, a outra qualquer ou a um dado facto histórico.

Fico satisfeito quando encontro estudos sobre a “guerra”, mas não podemos tomar um estudo científico como literatura. Venham eles, objectivos e bem elaborados para que tenhamos (ao menos agora) uma perspectiva do que sucedeu!

Nada nos impede de escrever um romance sobre a guerra colonial. Porém, para além da trama que fica toda ao critério do escritor (ou até cineasta e dramaturgo) tem de haver um escrúpulo muito grande, de forma a criar um ambiente autêntico onde a acção se passe. É assim que se escreve bem e não faltam exemplos no nosso país e na literatura estrangeira. Quem escreve sobre o passado deverá ter sempre realizado previamente um estudo sobre o ambiente onde a acção decorre. Sei que esse trabalho é cansativo, especialmente se for detalhado e preciso. Ainda não escrevemos nada e já nos fartámos de ler e consultar fontes. Estas actuam sobre quem escreve como linhas a não transpor, sob pena de se faltar à verdade e, consequentemente, transmitir informação falsa a quem ler o livro ou vir o filme. É como pôr soldados romanos a combater os lusitanos, usando relógios de pulso. Nada nos impede mas, se calhar não era bem assim…

Voltando agora ao cinema, chamo a atenção dos camaradas para a reconstituição de ambientes feita pelos cineastas das séries inglesas que passam na TV. É um exemplo a seguir. No que respeita à literatura poderia citar, “Guerra e Paz”, “Adeus às Armas” e tantos outros que acabaram por se eternizar, principalmente pela veracidade de tudo o que rodeia a história que o leitor “devora”.

 E acabei por vir ter ao filme “Cartas da Guerra”! Não conheço o realizador, mas vejo cinema há alguns anos. Também não sei nada de música, mas não sou surdo. E só por estas duas frases já podem ver que não gostei, mesmo nada do filme. 

Poderia perder-me em pormenores técnicos como a voz da artista que fala em voz off e que, ou necessita de regressar ao Conservatório para aprender a dizer, ou o som da sua voz foi mal captado. Por mim, desmobilizei de tentar entender o que ela dizia. Não conheço as cartas que estão na base do filme e não estive nunca em Angola.

E ditas estas “declarações de interesses” passemos àquilo que mais me desagradou, por forte suspeita de falta à verdade. Chamo a atenção dos camaradas para o fardamento utilizado, as viaturas – aquela do Unimog 1300 com as guardas levantadas e o pessoal sentado daquele modo – os oficiais com a pistola “à banda” dentro do quartel, aquele quartel… que parecenças terá com aqueles em vivemos? Em suma: a reconstituição dos ambientes está – em minha opinião – imprecisa, mesmo que tal se deva à falta de meios.

Achei, no mínimo ridículo aquela cena em que os militares progridem numa área alagada com o terreno seco ao lado. Mas o pior é o médico com a G-3 e a bolsa de primeiros socorros a tiracolo. Conheci quatro médicos em companhias operacionais, dois deles viveram mesmo no aquartelamento da companhia e nem sequer tinham arma distribuída. Nunca vi nenhum deles com a bolsa a tiracolo, embora possa aceitar que se deslocassem a aldeias para exercerem a sua arte. Aceito que as intenções do realizador tenham sido as melhores, (é óptimo que alguém vá pegando este tema) mas os resultados não foram nem sequer modestos.

Parece-me portanto que deveremos considerar como “literatura da Guerra Colonial” os textos e só estes produzidos por ex-combatentes. Aqueles textos em que a guerra esteja presente, como elemento enquadrante da acção dos personagens, serão uma forma de literatura obviamente válida, mas não me consta que os escritores americanos (por exemplo) escrevam sobre a Guerra do Viet-Nam ou a da Coreia, quando escrevem um romance cuja acção se passa nos Estados Unidos, naquelas alturas e a elas façam referências.

Em relação ao cinema entendo e dou o máximo valor ao modo como o realizador “descreve” o ambiente em que a acção decorre reconstituindo o que as personagens veriam, os utensílios que usavam, o modo como vestiam, enfim tudo o que permita que quem vê o filme se sinta dentro da cena.

Podemos considerar que as “Cartas da Guerra” poderão ser um filme sobre a Guerra Colonial, mas não creio que tenha prestado um grande serviço à divulgação e à manutenção da respectiva memória.
____________

Notas do editor

[1] - Vd poste de 2 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16440: Contraponto (Alberto Branquinho) (54): Literatura da guerra colonial, o que é?

Poste anterior da série de 29 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16248: A minha guerra a petróleo (ex-Cap Art Pereira da Costa) (18): Resposta ao Manuel Luís Lomba

14 comentários:

Carlos Vinhal disse...

Ontem fui ver As Cartas de Guerra. Primeiro pensei que tinha de aplicar aqueles aparelhómetros para melhorar a minha audição, mas ao ler o Pereira da Costa fiquei mais descansado.
Quanto às imperfeições técnicas, além das apontadas, também registei o suspender arma com a G3 que naquele tempo não se executava, a não ser com a Mauser.
A minha mulher, que estava comigo, perguntou se eu também andava ao longo dos rios. Respondi que não, só os atravessava. Perguntou ela, também, porque não iam eles por terra. Não soube responder, só se fosse com medo das minas.
Achei piada, no fim do espectáculo daquelas pseudo-artistas de variedades, ter saído só um jeep, com condutor, elas duas e mais dois ou três militares, porta de armas fora, para as levar sabe Deus para onde. Sem escolta? Àquela hora da noite? Dá para interpretações muito dúbias. Se aquele sítio não era assim tão perigoso, porque faltou a morfina para acudir aquele pobre militar gravemente ferido? Confesso que também foi novidade para mim ver o médico a progredir, de G3, qual atirador, maleta de socorros às costas, como se de um Maqueiro ou Auxiliar de Enfermeiro se tratasse.
A distribuição do correio mais parecia a recepção dos avisos do IRS. Será que vou pagar? Será que vou receber? Alegria, nenhuma. Tensão, muita.
E pronto, pouco stresse, muita palha, preto e branco com muitas cenas nocturnas, enfim, um filme português de guerra. Ou de Cartas de Guerra?
Carlos Vinhal
Leça da Palmeira

Antº Rosinha disse...

Estou cansado de lembrar a quem andou a rebentar minas junto à Guiné Conacry e ao Senegal, que tinham procuração para fazer a guerra de Angola, São Tomé e Caboverde.

Claro que só que rebentasse uma única mina em 24 meses de comissão no Cazombo, junto à Zambia e ao Katanga, não deixava de ser uma guerra com os mesmos fins que guiavam o PAIGC.

Mas que aquilo era uma bandalheira, um tédio, um isolamento e uma sensaboria e uma claustrofobia, e uma desmotivação, que tudo dava raiva.

Tudo, desde o arame farpado, os comandantes, os subalternos, os mosquitos, o rancho e o cozinheiro, e principalmente os mosquitos e os colonos brancos que passavam a vida a rir, e a explorar o preto, toda essa raiva está bem relatada nas cartas de Lobo Antunes.

O filme quase se aproxima das cartas, mas falta muito, se não era preciso mais outro filme, ou vários filmes.

Sobre caminhar dentro do rio, penso que foi à procura do corpo do soldado que fugiu todo nú, sozinho para dentro do mato.

Ora se se despiu, é porque ia nadar no rio, e não regressou.

Logo...mas isto sou eu a pensar que também nadei naqueles rios maravilhosos, e andei os meus 12 meses fardado por aqueles lados, mais chateado do que o L.A., que tive menos MORDOMIAS, por ser incorporação angolana.

Mas o filme dá para os gastos.





Tabanca Grande disse...

Confesso que também vi já o filme, no regresso das férias, em Lisboa, no cinema “Nimas”…Eu tenho-me reservado o direito de emitir a minha “nota crítica” mais tarde, ou seja, em melhor ocasião. Como editor do blogue fico feliz de ver aqui postes e comentários sobre as “Cartas da (e não de..) Guerra”.

Mas aquela voz “off” da narradora deixou-me em papos de aranha!...Ainda atribui as culpas a mim próprio, que tenho andado com problemas de audição, com perda de sensibilidade para os sons graves, as palavras segredadas…

Confesso que perdi completamente o fio condutor, a narração do filme!... Bolas, o realizador podia ter optado pela legendagem… como acontece quando os diálogos são em dialeto ou língua estrangeira… A narração , baseada na leitura quase sussurrada das cartas, obviamente que não pode ser feita em voz operática. Mas, bolas, a legendagem justificava-se, pelo menos aqui, para mais tratando-se de excertos de correspondência íntima…

Ainda cheguei a pensar que o problema era técnico, apetecendo-me gritar para a cabine de projeção: “Ó malta, ponham essa merda do som mais alto!!... Mas contive-me: vou voltar a ver o filme segundo vez, depois de ir ao otorrino limpar as toneladas de cera que fazem tampão nos meus pobres ouvidos… Mas está a ser difícil arranjar um otorrino para este trabalho de aspiração (até no hospital dos chineses que tem acordo com a ADSE!)… Ou então espero pelo DVD e revejo o filme em casa…

(continua)

Tabanca Grande disse...

(Continuação)


Sem querer adiantar muito mais: há coisas que me tocaram, como tocaram ao Rosinha… Mas outras também me desagradaram, cenas “inverosímeis” as colunas noturnas ou como essa do médico, no rio, de G3 aperreada, mala de primeiros socorros às costas, a alinhar no mato como um cão alucinado… São aspetos já aqui focados acima por combatentes experientes da guerra da Guiné como o Tó Zé e o Carlos Vinhal… De facto, na Guiné, o médico mão saía do “arame farpado”, a não ser em coluna logística, em visita a um destacamento, com a devida segurança… Em operações, nunca ou raramente alinhava… E depois dele, havia o furriel enfermeiro e os 1ºs cabos auxiliares de enfermagem… O Spínola pôs os médicos e os enfermeiros a prestar cuidados de saúde à população, tão carenciada de tudo, a começar por cuidados médicos e de enfermagem. Os heróis dos serviços de saúde militares eram os nossos 1ºs cabos auxiliares de enfermagem, as enfermeiras paraquedistas e as equipas médicas e paramédicas do HM 241 (Bissau)…

Enfim, as “Cartas da Guerra” é um filme intimista, baseado nas vivências e perceções de um jovem médico, apaixonado, “desligado” da política, … e totalmente impreparado para fazer tanto medicina de guerra como saúde pública e medicina tropical… Seguramente que “amadureceu” como homem e “cresceu” como médico, e mais provavelmente ainda descobriu, a li, nos “cus de Judas” do leste de Angola, o enorme talento para a escrita que já tinha…

Nota final: vejam o filme, camaradas, e botem aqui no blogue a vossa opinião sincera… Pessoalmente acho que é importante que se façam filmes, na nossa língua, realizados, produzidos e interpretados por gente nossa (portuguesa, lusófona..) e que falem da nossa realidade (portuguesa, lusófona, neste acaso angolana).

Não creio, com a geração da guerra a extinguir-se, que ainda possa aparecer o primeiro realizador de cinema da guerra colonial, ex-combatente, com experiência de guerra… mesmo de vocação tardia. Mas, quem sabe, o Manuel de Oliveira ainda continuou a fazer cinema aos 100 e tal anos.

Juvenal Amado disse...

Não vi ainda o filme.

Tenho lido as criticas dos camaradas que foram ver e vejo que ele lamentavelmente enferma dos mesmos problemas que fazem da maioria do cinema português um autentico calvário para os expectadores.
Os problemas de som são normalmente graves e desajustados, especialmente quando a música da orquestra se sobrepões aos diálogos com sons baixo de trompas, trombones e tubas.
Quanto ao ao filme em si pelo o que leio, está ferido de falta de seriedade técnica nas acções que retrata. O que não se compreende, pois embora o realizador não tenha sido combatente, não faltam ex combatentes que facilmente o poderiam ter assessorado e aconselhado.
É pena pois faz falta que se reproduzam aqueles anos com o mínimo de rigor.

Tabanca Grande disse...

Juvenal, só vendo na ficha técnica, mas parece-me que faltou aqui um "conselheiro militar" que conhecesse bem os nossos "usos e costumes" militares, em Angola, no leste, durante a guerra colonial... Em qualquer filme de época, há conselheiros para tudo e mais alguma coisa, desde o etnólogo, o geólogo, o historiador, o instrutor disto e daquilo, etc.

Até o nosso Rosinha "cólon" era uma boa escolha!... Ele iam, de certo, com todo o gosto (e até "pro bono") a Angola, como "conselheiro militar" e "especialista em usos e costumes"...

E este filme até teve razoáveis meios de produção (financeiros, técnicos, humanos...), tendo uma boa parte das cenas sido rodadas, em Angola, na província de Cuando-Cubango e Malanje.

O filme, que esteve em competição no Festival de Berlim 2016, foi escolhido pela Academia Portuguesa das Artes e Ciências Cinematográficas para representar Portugal no Óscar de melhor filme estrangeiro da 89ª cerimónia.

Antº Rosinha disse...

Peço desculpa ao Juvenal Amado e a Pereira da Costa, mas os dois estão a criticar o realizador ou produtor ou quem manda nos filmes, porque não pôs os soldados a fazer a guerra "dentro das regras", e que se deviam aconselhar.

Já disse aqui, mil vezes, até já devo parecer "um mete nojo", que em Angola foi a pior das bandalheiras militarmente falando.

Até que os senhores que fizeram o filme nem puseram soldados em chinelos e cuecas nos unimogues, à água ou à lenha, nem no equipamento de alguns soldados o cantil com aguardente em vez de água, porque essas coisas parece-me que nem vem nas cartas de L.A. mas era vulgar nos cus de judas em Angola.

Nem puseram a preocupação de L.A. escrevendo para a família se a remessa do Whisky que enviou chegou bem e se a marca era "aquela".

Atenção que se os homens do filme se aconselhassem a sério como foi aquela guerra nos cús de judas, nem farda nem lavadeiras eram muito necessárias, e aqueles soldados aparecem sempre decentemente fardados o que é totalmente fora do normal, daquilo que acontecia naqueles fim-de-mundo.

Ai Juvenal Amado, se o "mínimo de rigor" como dizes, se tivesse dado em Angola, muitos não tinham lá ficado.

E eu também ajudei a abandalhar nos meus treze anos de guerra, individual e colectivamente, não fui mais que os outros.

Sabes onde se ouvia mais vezes o grito "Angola é Nossa"? na messe de sargentos de Cuca na mão e na messe de Oficiais com um VAT 69 on the Rocks

Mas o blog não é de Angola, é da Guiné.









Antº Rosinha disse...

Luís Graça, quando publiquei o meu, fui encontrar o teu comentário.

Mas não vamos misturar, para não faltar ao respeito a quem passou as-passas-do-algarve.

Tabanca Grande disse...

Rosinha, tu como "mais velho" és sempre lido e ouvido com respeito... Como o blogue não tem "alinhamento" (político, ideológico, religioso, clubístico...), todos os comentários são bem vindos e melhor acolhidos...

Não precisas, nem nunca precisaste, de bater à porta e descalçar os sapatos +ara entrar na Tabanca Grande. Estás em casa...

Afinal, foste camarada nosso, e estiveste como cooperante (é bom não esquecer, na Guiné-Bissau, no pós-independência!) e tens o mérito de poder falar "ex-cathedra", de cadeira, com autoridade do professor catedrático, tanto sobre Angola como sobre a Guiné, a guerra do ultramar / guerra colonial, a descolonização, a lusofonia, e tudo o mais que te apetecer...

O blogue só da Guiné por uma razão de economia de análise... A Guiné é mais maneirinha, mais pequenina, fica mais perto de nós... Com muita pena minha não conheço Angola, Luanda (a onde fui várias vezes en trabalho) não é Angola...

Mas não respondeste à minha pergunta: se te convidassem, ainda eras "tuga" para lá ir ? Ver para crer, matar saudades, chorar, dançar, rezar, comer, nadar, viajar, amar ?...

UM kadandu. LG

Antº Rosinha disse...

Luís, eu estou muito formatado, mas fui-me formatando aos poucos devido à zero cultura política como cabo milº/59 em Nova Lisboa, ao contrário dos alferes milº mais novos como Lobo Antunes, que já foram formatados para Angola em 1ª classe da CNN.

Claro que devido à minha formatação, eu não seria o melhor conselheiro para fazer um bom filme sobre a nossa guerra em Angola, como, logicamente as cartas de Lobo Antunes também não podiam servir para muito mais do que aquilo que vimos.

Mas eu ou os mais de 100 colegas das Estradas e Cadastro de Angola que ainda almoçamos anualmente em Coimbra, ou eu e mais de 100 ex-tropas da minha recruta que ainda almoçamos anualmente na Expô, qualquer voava imediatamente para aqueles cús-de-judas do Cuando Cubango ou do Moxico ou do Cunene, se se proporcionasse essa viagem.

O que penso não aceitaria com entusiasmo se o convite fosse para Luanda, pois tenho informações que não é nada conveniente ir sozinho à meia noite a certos bairros que visitava a qualquer hora e correr aquilo tudo à vontade.

Enquanto nos cús-de-judas, estou convencido que tal como na Guiné, seria bem recebido, por ser português e antigo "colonialista".

Mas agora quem manda são os Chinas, lá e cá mais a Norberto Oderbrecht, seria sempre uma desilusão.

Cumprimentos

Tabanca Grande disse...

Rosinha, há aí uma "vida secreta" que não queres (e estás no teu direito...) partilhar connosco, camaradas da Guiné... Manda lá uma foto desses encontros, com duas linhas de legenda... Temos várias séries para "matar saudades": Convívios, Memória dos Lugares, Os nossos seres, saberes e lazeres..

Não te acanhes... Concordo contigo, Luanda hoje já não é para todos... Kandandu... LG

Antº Rosinha disse...

Luís, se em Maio do ano que vem, o meu tenente que me deu a recruta e o CSM com 85 anos estiver bom de saúde, ainda almoçará comigo e mais uns tantos, vou-lhe pedir para deixar publicar a chipala (cara em quimbundo) dele ao meu lado.

Passou-me no CSM com nota razoável, sem eu nunca ter conseguido saltar o plinto nem fazer a paliçada, era um bom psicólogo.

Gosto de ver uma farda no corpo dos outros, em mim, provocava-me alergia, urticária, depressão e fazia-me sentir mal.

Mas vida secreta não tenho nenhuma, porque ninguém aqui abre as goelas como eu e aceito qualquer réplica a tudo o que sai da minha cabeça bastante formatada.






Anónimo disse...

Amigo Pereira da Costa

Só agora vi o teu Post.
Sem "lateralizar" a discussão do assunto principal (que é o que outros intervenientes aqui têm vindo a fazer), venho dizer-te:
- OBRIGADO pelo teu mail e por teres tido a paciência de desenvolver uma temática que eu, porque me irritam os "faz-de-conta", não consigo.

Abraço
Alberto Branquinho

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Não é do filme que estamos a falar. Há-de aparecer sempre uma outra coisa sobre a qual gostamos mais de falar... e que é mais "fracturante". E o que "épeciso é faturar"!
A questão levantada pelo branquinho dizia respeito à LITERATURA. É nisso que devemos concentrar-nos. Creio que o blog, nem que seja só para "gastos de casa", deveria concentrar-se nessa questão e dar a sua própria definição da expressão em causa.
Até podíamos fazer um inquérito "à Luís Graça", mas que não admita respostas do tipo, "Não me lembro, ké lá çaber diço ou não sei e tenho raiva a quem sabe". Era uma recolha de opinião.
Quanto ao filme estamos conversados. O cinema "português" fez o que faz habitualmente: arma-se em intelectual, filma mal e transfere para o espectador o dever de gostar dele.
Afinal o que cremos e queremos que seja a literatura da guerra colonial?

Um Ab.
António J. P. Costa