sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Guiné 63/74 - P16574: Notas de leitura (887): "Memórias boas da minha guerra", de José Ferreira, Chiado Editora, 2016: um exímio contador de histórias, onde geralmente não faltam os ingredientes que nos fazem, a nós, seres humanos (e portugueses), sermos como somos, humanos (e portugueses)...


Guiné > Região de Tombali > Catió > CART 1689/BART 1913 (, Catió, Cabedu, GandembelCanquelifá, 1967/69) > No "relax" de uma canoa...

Foto (e legenda) : © José Ferreira da Silva (2011). Todos os direitos reservados


1. Não tenho a pretensão de ser um descobridor de talentos literários... Mas a verdade é que o nosso blogue tem sido um verdadeiro seminário de vocações literárias...

Ao José Ferreira da Silva já lhe tinha posto o olho em cima desde que entrou na Tabanca Grande e começou a escrever no nosso blogue, há seis anos, em 8/6/2010...  Neste espaço de tempo, foi alimentando, com maior ou menor regularidade, uma curiosa série a que ele próprio chamou "Memórias boas da minha guerra"... Há quem só tenha "memórias más", o Silva da CART 1689 também terá as suas, mas no cômputo final, são as boas que vêm ao de cima ou são aquelas que ele faz questão de partilhar connosco... Há uma série paralela, também do José Ferreira da Silva, a que ele chamou "Outras memórias da minha guerra". No nosso blogue, ele conta já com 7 dezenas de referências.

Finalmente, o Silva coligiu estes (e eventualmente outros) textos e publicou-os em livro. Não conhecemos ainda o índice do livro, mas ficamos mais ricos e sobretudo felizes se,  de algum modo, também temos,  enquanto leitores, eu e mais alguns dos seus fãs,  uma pequena quota parte de responsabilidade nessa decisão, bem ponderada, de passar a papel as "memórias boas da (sua) guerra"... O título pode ser irónico ou provocatório já que a CART 1689 esteve longe de ter ido passar férias à então "província portuguesa da Guiné".

É sabido que não é fácil publicar em papel, no nosso país, e sobretudo o primeiro livro. E ainda para mais quando o estreante é um "jovem... idoso".  Mas o livro,  aliás o 1.º volume, aqui está,  com o mesmíssimo título da série original,  pronto a ser lançado, em sessão solene....  no mesmíssimo sítio, no antigo RAP 2,  no antigo Mosteiro da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, onde tudo começou (leia-se: donde foi mobilizado o pessoal do BART 1913)...

Vai ser na próxima sexta-feira, 14 de outubro de 2016, pelas 16h30,  e a despesa da conversa está cargo do nosso camarada,  o dr. Alberto Branquinho, ex-alf mil da CART 1689, "Os Ciganos", e também ele contista de talento com obra publicada. Apesar do amável convite pessoal do Zé Ferreira, não poderei estar presente, mas espero que o nosso coeditor Carlos Vinhal possa lá dar um salto e representar os camaradas do blogue que vivem fora da área do Grande Porto.


Capa do livro, que tem a chancela da Chiado Editora, Lisboa


José Ferreira, autor de "Memórias Boas da Minha Guerra", 1.º volume, Lisboa, Chiado Editora (2016). Natural de Fiães, Aveiro, vive em Crestuma, Porto. Faz parte do Bando do Café Progresso, tertúlia de antigos combatentes, que das Caldas da Rainha foram parar à Guiné. Além de membro da Tabanca Grande, é também frequentador da Tabanca Pequena de Matosinhos, e da Tabanca dos Melros (Gondomar).


2. Alguns comentários do nosso editor L.G. a alguns postes da série "Memórias Boas da Minha Guerra", com incentivos ao longo do tempo a este promissor escritor,  nosso amigo, camarada e grã-tabanqueiro... Vejam-se estas notas também como um pequeno contributo para se perceber melhor o "making of" e o conteúdo do livro (que ainda não conhecemos na sua versão definitiva) (**):


(...) O Zé Ferreira tem-nos aqui contado históricas pícaras, verosímeis, reais ou fictícias, não interessa. Costuma-se avisar o leitor de ficção,  de que "qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência"...

Os textos do Zé Ferreira são ficção literária, não são crónicas ou memórias, pelo que os nomes aqui evocados, em princípio, não são de camaradas nossos, de carne e osso... E, se o forem, não me parecem que possam ser facilmente identificados....

Em todo o caso, vou pedir ao Zé Ferreira para nos dar a garantia de que este texto não viola um das nossas regras básicas, que é o direito de cada um de nós, que ainda estamos vivos, à "reserva da intimidade", ao sigilo, e até ao esquecimento... (...)

PS - Silva, a história, tendo ou não um fundo autobiográfico,é verosímil, e encaixa-se perfeitamente na tua "idiossincrasia" nortenha... Só uma pequena sugestão: numa próxima versão, revista e melhorada, põe o Diogo a militar na JAC - Juventude Agrária Católica, e não na JOC - Juventude Operária Católica... Quanto ao desfecho (surpreendente...), acho que fizeste bem em "desencontrar" o Diogo e a freira... Afinal, a vida é isso mesmo, feita de amores e desamores... (E não há amores como os primeiros!)... E depois, como diz o fradesco, misógino (ou apenas pícaro ?) provérbio popular, "Freiras e frieiras é coçá-las e deixá-las" (...)



(...) De há muito que o nosso camarada José Ferreira da Silva está "sinalizado", no nosso blogue, como um dos nossos "penas de ouro"... Ele é um exímio contador de histórias, aonde geralmente não faltam os ingredientes que nos fazem, a nós, seres humanos (e portugueses), sermos como somos, humanos (e portugueses)...

Infelizmente, não tenho nenhum convívio com ele, conversámos os dois, a sós, um pouco mais longamente, certa vez em que eu fui à Tabanca de Matosinhos. Confirmei a impressão que já tinha dele, da leitura dos seus escritos (e já serão mais do que meia centena!), de ser um "homem de vida", como se diz no norte, e um apaixonado pela vida, mas também um grande observador do "zoo" humano, e um grande escultor de corpos e almas... Tem um notável sentido do picaresco, do burlesco, e as suas histórias não nos deixam indiferentes, tocam-nos, justamente pela sua humanidade... É um homem afável, um bom camarada e tem um grande talento literário... Acho que as suas histórias merecem o prémio de um livro!...



(...) É um gosto e um privilégio ler as tuas "short stories", pequenos contos onde cabe sempre uma parte das nossas vidas, de quando éramos jovens e filhos devotados da Nação... Podias não ser um ás a jogar xadrez, mas é um mestre na difícil arte do conto... Tens que fazer uma antologia, para publicar em livro, das tuas melhores "memórias boas da minha guerra"...

Saúdo o teu reaparecimento, quando o tempo, pelos lados da orla marítima atlântica, já dá os primeiros sinais do fim do verão, e do "dolce far niente". Como dizemos os "mouros" de Lisboa, "Santo António já se acabou / O São Pedro está-se acabar / São João, São João / Dá cá um balão para eu brincar"...

Quem, naquela bela idade, não queria um balão para brincar, no São João  do Porto ou na praia de Espinho ou nas suas belas dunas ? Enfim, tudo isto faz parte da educação sentimental e erótica da nossa geração. (...) 



(...) Mais uma história "nua e crua" do nosso querido e talentoso Ferreira da Silva ?!...

Sem dúvida, mas não somos "meninos de coro", nem "virgens púdicas"... O "pícaro", o picaresco, faz parte da(s) nossa(s) vida(s)... Tal como este "cromo" do Florita... faz parte do "zoo humano" deste nosso querido país...

Não fazemos juízos de valor sobre o comportamento dos nossos camaradas, antes, durante e depois da guerra... É uma das nossas regras. O único limite é o do "bom senso e bom gosto"... Enfim, é uma história com "moral"... Faz-nos sorrir e pensar, a mim pelo menos fez-me sorrir e pensar...




(...) Portugal era muito diferente, nos anos 60, do país que conhecemos hoje... (Como era diferente, mas eu não tenho saudades!)... Era diferente, para o melhor e para o pior...

Era (e continua a ser) feito por grandes mulheres como a Deolinda...

[Esta é] u
mas das mais belas histórias de amor em tempo de guerra que eu já li!... Ganda Zé Ferreira!... Que bela prenda de Natal!... Não sei como retribuir-te!! (...)


3. Lista dos 10 primeiros postes da série Memórias Boas da Minha Guerra (José Ferreira da Silva) (com reprodução do primeiro parágrafo)... É também uma pequena homenagem do nosso blogue ao autor, e um incentivo aos nossos leitores, nomeadamente do Grande Porto, para comparecerem na sessão de lançamento do seu livro(*):



(...) Chamava-se António Martins mas gostava que o tratassem por Tony e de preferência ainda, por Tony Quin. A verdade é que, além de ter alguma semelhança física com este actor, ele evidenciava-se a imitar "Zorba, O Grego", a dançar.

Deu nas vistas logo que chegou a Gaia, ao RASP, para a formação do BART 1913. Tinha aspecto bem cuidado, vestia muito bem, caminhava muito direitinho e executava gestos moderados e muito seguros. Enfim, naqueles anos sessenta, fugia um pouco àquela bandalheira reinante. Salientou-se, ainda, porque entre aquela maralha toda do norte, ele falava um pouco diferente. Exibia muito aqueles galicismos próprios duma capital pretensiosa e seguidora de outras modas, tidas como mais avançadas. Levou um tempito a recuperar. Quando dizia que queria ir ao “rês–tô-ran”, lá tínhamos que lhe explicar que em Portugal não havia disso, mas sim Restaurantes, Tascos, Tasquinhas, Tabernas e Adegas. Falava em “friu”, ”riu”, “uma ganda t’são na .picha”, etc, etc., mas, rapidamente, verificou que ser português não é o mesmo que ser lisboeta e para ser aceite plenamente como português, teria que se corrigir. (...)





(...) O António Piteira, natural de Bencatel, próximo de Borba, era uma força da natureza. Conheci-o em Vendas Novas, durante o Curso de Artilharia. Irrequieto e provocador, vivia sempre em competição, parecendo querer afirmar-se em tudo. Dizia-se que nas Caldas da Rainha, estando doente, não aceitou o resultado da prova de potência. Foi repeti-la, para baixar mais de 30 segundos. Como era bom jogador de futebol, foi aproveitado para jogar como ponta de lança no Estrelas de Vendas Novas. Ainda como jogador do Lusitano de Évora, foi treinar ao Sporting e, segundo ele, como não lhe passavam a bola, abandonou o treino chamando-lhes Filhos da… (....)


(...) Viviam-se dias calmos naquela “estância termal” de Canquelifá, no nordeste da Guiné, no final da comissão. O trabalho limitava-se a serviços de manutenção e a alguns pequenos patrulhamentos, a nível de Pelotão.

A população nativa cuidava pacatamente do seu gado, enquanto alguns deles vigiavam o “inimigo”, em cima de palanques feitos de troncos de árvores, colocados no meio do mancarral. De lá gritavam impropérios em idiomas locais, afugentando o “inimigo” – bandos de periquitos – ao mesmo tempo que lhes atiravam pedras, evitando que comessem os amendoins. (...)




(...) Desde o CSM, em Vendas Novas, que conheço o Miranda e, também é desde essa altura, que fizemos amizade. Aconteceu que nos reencontrámos na mesma Companhia, que veio a ser a CART 1689.

A sua maneira de ser, franca e aberta, torna o relacionamento cativante. Depois… bem, depois, quando está com um “grãozinho na asa”, irradia alegria e felicidade por todos os lados. Especialmente por isso, não havia festa sem a participação do amarantino Miranda.

No entanto, não abdica da maneira como vê o mundo. Não há quem o demova das suas teimosias e, normalmente, passa grande parte do tempo envolvido em debates polémicos. Digamos que também é “cego” nas suas convicções. Escreveu um livro contra a construção da Barragem do Torrão, no Rio Tâmega e é um lutador acérrimo contra o poder (incompetente ou não) através do seu jornal. (...)



(...) Chamava-se Joaquim Freitas, mas era mais conhecido por Felgueiras, por ser natural dessa terra. Foi dos melhores militares que conheci. Além de manejar bem a arma G3 e a Metralhadora, era um mimo na utilização da Bazuca. Incutia muita confiança nos companheiros, porque respondia ao inimigo sempre da melhor forma. Apontava invariavelmente para o ponto de onde vinha o ataque. Esteve sempre nos principais confrontos, sem se esquivar. Se era destemido (estou a lembrar-me de quando se lançou a salvar o Banharia, com uma granada de fumos activada no seu bolso), ele era ainda o primeiro a ajudar os colegas em dificuldades, chegando a transportá-los às costas. (...)



(...)  – Moniz, levanta-te que já é tarde. – dizia-lhe eu, enquanto me penteava frente a um minúsculo espelho pendurado ao lado de uma pequena janela do nosso quarto.
Dali se via o largo da parada bem como a esplanada da “messe”, que era um prolongamento aberto do bar e da cozinha. Por detrás, era o quarto do 1.º Sargento e, ao lado, havia mais dois quartos, perfazendo no total seis divisórias. (...)



(...) A nossa Cart 1689 - Os Ciganos - era uma Companhia de Intervenção. E como tal, passou a maior parte do tempo de serviço em Operações Militares ao longo da Guiné. Em muitas dessas operações atacávamos acampamentos e muitas vezes trazíamos cabritos e galinhas, usando de “truques especiais” para que uns não fizessem “mé-mé” e outras não cacarejassem. Numa operação, lá para os lados de Gubia (Empada), o Furriel Enfermeiro Faria, mais conhecido por Berguinhas ou por Pastilhas ou, ainda, por Doutor ( assim chamado na zona de Canquelifá, devido às “curas milagrosas” que conseguia), trouxe, ao colo, uma cabra ainda muito nova.  Tratava a cabra como se fosse um filho. Lavava-a amiúde, medicava-a e a comida nunca lhe faltava. Além disso, deu-lhe tanto carinho que se tornaram inseparáveis. Era a sua Princesa. (..,.)



(...) O furriel Farinha sonhava em voz alta. E, durante o sono, contava pormenores da sua própria vida, mesmo os mais íntimos. E, quando acordava, não se lembrava de nada. Quando alguém lhe falava do que ouvira, como é lógico, não gostava nada. Penso que, até, se medicava para o evitar.

Tinha regressado de férias, passadas na sua própria terra, lá para os arredores de Guimarães. Quando voltou para Catió, ao fim de poucos dias, já era sabido como passara o tempo de férias. Claro que ouvíamos só partes, mas ficávamos com a noção do resto. Assim, como a que segue: (...)



(...) Cufar é no sul da Guiné, perto do rio Tombali, e fica a uns 12Km de Catió. Apesar de se encontrar assim perto, estava isolado e a ligação entre Cufar e Catió, fazia-se só em colunas militares, com periodicidade mais ou menos mensal, para seu abastecimento.

De vez em quando servia de base de operações, sempre com muita tropa, por ser zona perigosa. Só para montarmos a segurança às colunas, nuns 8 km, até ao cruzamento de Camaiupa, gastava-se um dia, desde o amanhecer até ao anoitecer. Os que lá estavam aquartelados eram poucos para as necessidades operacionais e de defesa (não passavam de uns 170 homens, incluídos os africanos da milícia) e a sua actividade limitava-se praticamente ao movimento diário no espaço do aquartelamento e à defesa de violentos ataques nocturnos. Sempre que por lá passávamos, era festa e bebedeira certa. (...)




(...) MEMÓRIAS BOAS DA MINHA GUERRA (1): BIFE À DUNANE

Para a CART 1689, a ida para as “Termas” de Canquelifá foi, ao contrário do resto da comissão, um período de quatro meses de quase repouso. Constava que “eles” iam mexer com a zona, mas isso só veio a acontecer depois de termos regressado. Já não havia combates por ali há cerca de um ano, o que era uma situação anormal e… agradável.

Entre Canquelifá e Piche havia um destacamento em Dunane. Era um posto segurança avançado, que funcionava a nível de pelotão, reforçado pelos milícias locais, que viviam lá com os familiares. Os patrulhamentos eram pequenos e os serviços eram poucos e bem distribuídos. Além disso, comia-se muito melhor, porque havia fartura de carne. Daí ser chamado “Hotel Dunane”. (...)

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Notas do editor

(*) Vd. poste de 6 de outubro de 2016 > Guiné 63/74 - P16567: Agenda cultural (498): Lançamento do 1.º Volume de "Memórias Boas da Minha Guerra", da autoria do nosso camarada José Ferreira da Silva, dia 14 de Outubro de 2016, pelas 16h30, no Salão Nobre do Mosteiro da Serra do Pilar, na Rua Rodrigues de Freitas, Vila Nova de Gaia, com apresentação do Dr. Alberto Branquinho

(**) 7 de outubro de  2016 > Guiné 63/74 - P16572: Notas de leitura (886): “Paz e Guerra, Memórias da Guiné", pelo Coronel António Melo de Carvalho, edição de autor, 2015 (Mário Beja Santos)

2 comentários:

Jorge Portojo disse...

O Zé Ferreira merece esta vitória.
Um abraço para ele e para o Blogue

Mário Vasconcelos disse...

Parabéns José Ferreira. Cá o rapaz fica a aguardar a publicação para, pelos vistos, me deliciar. Abraço e que a mão te nunca doa.