domingo, 2 de outubro de 2016

Guiné 63/74 - P16546: Manuscrito(s) (Luís Graça) (98): Requiem para Iero Jaló, um bravo soldado

Requiem para Iero Jaló
um bravo soldado,

 

por Luís Graça





A guerra,
essa coisa tão primordial que é a guerra,
que estaria inscrita no teu ADN,
segundo dizem os sociobiólogos.
A guerra é a continuação da evolução

...por outros meios,
dirão os entomólogos,
especialistas em insetos sociais,
para quem a morte de um
ou de um milhão ou mais
de formigas, de alforrecas ou de seres humanos,
é-lhes totalmente indiferente.
Desde que triunfe o ADN,
um projeto de ADN,
forte e bem musculado.

Para ti, "tuga", 
a guerra é a aprendizagem da morte,
aos vinte e dois anos,
é a inocência que se perde para sempre
ao ver morrer pela primeira vez um homem, 

a teu lado.
É o impossível luto,
é a descoberta do mal absoluto.
─ Fight or flight!─
Não precisaste de fugir nem de lutar.
Recusaste o egoísmo genético,
recusaste a lógica absurda de matar ou morrer,
recusaste o cinismo,
recusaste a fria e calculista resignação
com que se juntam e amortalham
os cadáveres seguintes
e se contam nas paredes da caserna
os dias que faltam para a peluda.

Quarenta e cinco anos depois, venho dizer-te,
Iero Jaló, meu querido "nharro",
as palavras que ninguém te disse
no teu grotesco enterro:
– Descansa em paz, Ieró Jaló,
meu herói,
soldado atirador do 2º Grupo de Combate
da CCAÇ 2590
que virá mais tarde a chamar-se CCAÇ 12,
companhia de tropa-macaca,
o nosso bando de primatas sociais,
territoriais, 

predadores,
"tugas" e "nharros"...


Fazíamos parte da nova força africana
de Herr Spínola, o prussiano,
como eu lhe chamava, 

ao nosso Comandante-Chefe.
Não, não ligues, são outros contos,
outras histórias,
outros ajustes de contas
com as nossas doridas memórias.

Descansa em paz, Iero Jaló,
descansa em paz
debaixo do poilão secular,
sagrado,
na tua tabanca, 

no chão fula,
belíssimo poilão de uma triste tabanca,
cercada de arame farpado,
trincheiras 

e valas de abrigo.


Sei que eras do regulado de Cossé,
lá para os lados de Galomaro.
Desculpa-me ter esquecido o nome 

da tua tabanca
e a cara dos teus filhos
e o rosto das tuas mulheres,
agora órfãos e viúvas, sozinhos neste mundo.
Os teus campos estão tristes e inférteis,
já não dão o milho painço 

nem o fundo
nem a mancarra 

nem a noz de cola.
Os homens partiram para guerra,
voltam agora numa caixão de pinho.
Restam os feios e macabros jagudis,
poisados no alto da tua morança,
cheirando a morte,
pressagiando a desgraça.


Oito de setembro de 1969,
região do Xime.
operação Pato Rufia.

Progredimos toda a noite,
desde as 1h30 até ao amanhecer.
Morreste em linha,
aprumado como o teu poilão,
no assalto a um aquartelamento temporário do IN,
próximo da antiga estrada da Ponta do Inglês.
IN ?
Que estranho termo ou expressão,
uso-o por força do hábito,
por comodidade,
por lassidão,
por economia de análise.

Regressamos ao Xime com o teu cadáver às 16h00.
O heli só levou os feridos, incluindo o Malan Mané...

Curioso, nunca soube a tua idade,
não tinhas bilhete de identidade
de cidadão português.
Eras um fula preto,
um fula forro, não creio que fosses futa-fula.
Mas eu e o teu comandante de pelotão

levámos-te a enterrar na tua aldeia,
mais os teus camaradas, cristãos e muçulmanos,
que foram dizer-te o último adeus.
Com honras militares,
tiros de salva,
e a bandeira verde-rubra dos "tugas" 

por cima do teu caixão.
De pinho,
do verde pinho de Portugal.
Nem isto te deixaram fazer, o teu enterro,
à boa maneira dos teus,
o corpo embrulhado num pano branco,

metido na vertical...
sem o inútil caixão de verde pinho.

Portugal ? 

Ainda te lembras, Iero Jaló ?
Os brancos, os "tugas",
os senhores que vieram do norte e do lado do mar.
Não, já não tens que saber de geografia,
nem de história,
nem de geopolítica,
no sítio onde moras, debaixo do teu poilão.
Mas eu, mesmo ao fim destes anos todos,
eu deveria saber o nome da tua aldeia, no chão fula.
O teu nome, esse não esqueci: Ieró Jaló.
Esqueci foi o lugar onde nasceste,
e onde foste enterrado,
talvez Sinchã ou Sare qualquer coisa,
mas não faz mal.

O que interessa é que chorei por ti,
confesso que chorei por ti,
que morreste a meu lado,
e que levavas um prisioneiro,
teu irmão, negro, pela mão.
E que não eras meu irmão,
nem grande nem pequeno,
nem tinhas a mesma cor de pele,
nem a mesma religião,
nem a mesma língua,
nem a mesma pátria,
nem o mesmo continente.
Não comias carne de porco
nem bebias água de Lisboa.
Eras apenas um guinéu, um "nharro",
soldado-atirador de 2ª classe,
ganhavas 600 pesos de pré,
mais um saco de arroz por mês para alimentar a tua família.
Para mim, eras apenas um homem,
da espécie "Homo Sapiens Sapiens",

o que em latim quer dizer homem duplamente sábio,
a única que chegou até aos nossos dias,

o que primeiro que eu vi morrer a meu lado.


Nunca mais chorei por ninguém,
chorei por ti, Ieró Jaló,
chorei de raiva,

pela tua morte e pelo teu enterro.
Nascemos meninos,
mas fizeram-nos soldados,
azar o meu e o teu,
por termos nascido no sítio errado,
no tempo errado.
Imagino-te "djubi", 

à volta da fogueira,
na morança do marabu ou do cherno da tua tabanca,
decorando o Corão.
Uma das cenas mais lindas que eu trouxe da tua terra,
e que eu guardo na minha memória,
são os "djubis" à volta da fogueira,
soletrando tabuinhas em árabe ou coisa parecida.
Lembro-me de quereres aprender as letras dos "tugas"
para poderes ser soldado arvorado
e um dia chegares a primeiro cabo,

e, quem  sabe, sargento, alferes, capitão 
dos comandos africanos.

E
de repente, o capim,
o capim alto,
o sangue,
o capim pisado e empapado de sangue.,,
Pobre Ieró,
morto por um dilagrama dos nossos.
Alguém branqueou a tua morte,
alguém salvou a honra da companhia.
Um dilagrama rebentou no ar,
na tua cara,
na nossa cara.
Defeito de fabrico, alegou o autor do relatório, 

acidente de serviço no auge da batalha,
quando avançávamos em linha, no assalto
ao acampamento do IN,
levando pela corda o teu "turra",
o teu guia, o teu prisioneiro,
ainda mais jovem do que tu.
Malan Mané, mandinga,
tão crente como tu,
tão observador dos preceitos corânicos
como tu, meu querido "nharro".

E agora, Ieró,
que foste poupado à humilhação da derrota
e provavelmente até ao poilão dos fuzilamentos de Bambadinca,
e não viste o teu país sentar-se de pleno direito
à falsa mesa redonda do mundo...
Que farias tu com esta independência
contra a qual lutaste
sem querer,
sem saber,
sem poder ?
Onde estarão os teus filhos ?
E as tuas mulheres ?
E os teus netos ?

E os homens grandes da tua tabanca do Cossé ?
E os líderes do teu povo
que te obrigaram a combater ao lado dos "tugas" ?


Spínola, o homem grande de Bissau,
esse já morreu há uns anos largos atrás.
Não lês os jornais,
não chegaste a aprender o alfabeto latino
e a juntar as letrinhas e ler,
com a torre de Belém ao fundo:
– Esta é a minha pátria amada…
Pois é, o homem grande da Guiné morreu,

o Caco Baldé, 
como os "tugas" lhe chamavam, morreu,
não de morte matada, como a tua,
mas de acordo com a lei natural das coisas.
Quanto ao teu régulo,
devem-no tê-lo miseravelmente fuzilado
na parada de Bambadinca,
tal como aconteceu ao poderoso régulo de Badora,

Mamadu Bonco Sanhá,
tenente de milícias,
que havia trocado o cavalo branco
da gesta heroica do Futa Djalon,
por uma prosaica motorizada japonesa de 50 centímetros cúbicos...
Dono de centenas cabeças de gado, dizia-se,
e de uma harém de cinquenta mulheres,
uma em cada aldeia de Badora…
(Sei que não é verdade, 
segundo me jurou um dos seus netos,
nem o nosso puto Umaru Baldé era filho dele,
o Umaru que também já lá está  na terra da verdade, 
como a maior parte dos nossos camaradas guineenses,
da CCAÇ 12).

Hoje o que resta dos heróis do passado sucumbem
sob o peso das cruzes de guerra
ou pedem esmola nas ruas de Bissau,
tal como os teus filhos e netos.
Ou morrem de desespero e insolação
às portas do templo da deusa Europa,
em Ceuta e em Melilla,
em Lampedusa,
em Lisboa ou em Paris
e até em Lesbos, ilha grega à porta dos otomanos.


Que voltas o mundo deu, meu soldado,
desde esse dia já distante
em que a tecnologia da guerra
ou a lotaria do ADN te ceifou a vida.
Porquê tu, meu herói,
três meses depois de jurares bandeira
e te comprometeres,
por tua honra,
a defender uma pátria,  que não era tua,
até à última gota do teu sangue ?!
E do Malan Mané não tenho notícias,
se é isso que queres saber,
duvidava que ele tivesse sobrevivido
aos graves ferimentos do dilagrama dos "tugas".
Mas alguém me disse,
um camarada de Mansambo,
que sim, 

que o vira no hospital de Bissau,
em novembro de 1969.

E agora deixa-me dizer-te, amigo e camarada,
à laia de despedida:
não sei se um dia ainda terei coragem de voltar
à tua terra, ao teu chão.
Mas se porventura o fizer,
gostaria de perguntar pela tua aldeia,
e de procurar-te
e de ter tempo para conversar contigo,
só tu e eu, debaixo do teu poilão,
tendo apenas como testemunhas
Deus, Alá e os nossos bons irãs.

Guiné, Bambadinca, 8/9/1969
V9 24set 2016


PS –Voltei à tua terra, Iero Jaló, 

em março de 2008, 
mas não pude ainda, dessa vez, 
cumprir a minha promessa... 
Atravessei Badora e Corubal, a caminho do sul, 
mas não o Cossé, 
onde imagino que seja a tua tabanca...

___________

Nota do editor:

Último poste da série > 23 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16519: Manuscrito(s) (Luís Graça) (97): O 'prisioneiro' Malan Mané... a quem cedo, talvez demasiado cedo, deram um arma e uma bandeira e um hino

4 comentários:

Zé Teixeira disse...

Pois é! Agora gritamos a dor que nos invadia, e abafávamos talvez por medo... talvez porque aceitávamos pacificamente a situação que nos era imposta a nós a juventude de Portugal... Talvez porque acreditávamos que tínhamos de combater em nome da Pátria o terrorismo internacional "alimentado" pelo comunismo - o tal que comia criançinhas e tinha na bandeira a foice e o terrível martelo...Talvez...continuaria por aí fora, mas na realidade a guerra mexeu connosco e marcou-nos para toda a vida.
É preciso que continuemos a gritar sem medo, os medos que nos impediam de sermos nós próprios, os tais filhos de uma pátria de gente pacífica, mas aventureira. Continuemos a gritar a verdade...
Parabéns Luís pela energia que puseste neste poema.
Zé Teixeira

José Nascimento disse...

Luis, parece que ainda estou vendo a marca de um pequeno fio de sangue que escorreu pelo peito do teu herói Iero Jaló, quando foi transportado já cadáver, de maca até ao Xime. Penso que os meus soldados colaboraram nessa ingrata mas sublime tarefa.
Um abraço.
José Nascimento

alma disse...

Também lá estava. Mas que morte tão estúpida ou se calhar todas as mortes são estúpidas..Abraço! J.Cabral

Tabanca Grande disse...

No portal UTW - Ultramar TerraWeb, na "Mortos na Guerra do Ultramar – Nascidos na Guiné", encontro o nome do Iero Jaló, natural de Bojo – Cossé, concelho de Bafatá, sold at 821 15969, CCAÇ 2590 (2º pel) / BCaç 2852, morto em combate a 8/9/1969, sepultado em Bambadinca

http://ultramar.terraweb.biz/03Mortos%20na%20Guerra%20do%20Ultramar/2MEC_Gui.pdf

Devo dizer, mais uma vez, aqui, no nosso blogue, que este trabalho, de recolha extremamente detalhada e rigorosa, dos mortos da guerra do ultramar, merece de há muito o meu apreço e admiração. Mais uma vez tiro o quico a este trabalho de grande qualidade e minúcia dos nossos camaradas do portal UTW.

Sobre a identificação do primeiro morto da CCAÇ 2590 (mais tarde, CCAÇ 12), há várias imprecisões nos nossos registos e, "mea culpa", também tenho aqui a minha quota de responsabilidade...

Houve troca de nomes, no relatório da Op Pato Rufia... Eu fui testemunha ocular deste funesto acontecimento, aqui evocado no meu poema, e ao meu lado, além do Iero Jaló (que morreu logo), foi gravemente ferido o Malan Mané... Perto de mim, também, o 1º cabo do 3º Gr Comb, António Mateus, nosso grã-tabanqueiro, foi ferido por fogo inimigo num joelho quando estávamos em linha a progredir para o acapamento IN...

Mas vamos esclarecer algumas dúvidas:

(i) no relatório da operação, que deve ter sido elaborado pelo comandante da companhia, o cap inf Carlos Alberto Machado Brito, o nome do nosso soldado morto pelo nosso dilagrama (que era empunhado por um dos nossos alferes, e não pelo seu habitual apontador), é Iero Jau (presume-se que tenha erro de transcrição, ao ser datilografado o relatório: não havia nenhum Iero Jau neste grupo de combate, o 2º; havia, sim, um Iero Jau, apontador de dilagrama, no 3º Gr Comb, nº mec 821 09569):

(ii) este erro é reproduzido na história da unidade (cap II, p. 12), que eu próprio elaborei;

(iii) o problema é que havia dois Iero Jaló, no 2º Gr Comb, o Iero Jaló, da 1º secção, nº mec 821 15369 (sic), e o Iero Jaló, da 3ª seção, nº 821 07869 (futa-fula);

(iv) na lista nominal das praças africanas que foram aumentados ao efetivo da CCAÇ 2590 desde 20/6/1969, só há um Iero Jaló, futa- fula, nº mec. 821 07869, sendo o nº mec. 821 15969 o de um Iero Jau, fula (... mais outro erro de transcrição, devia ser Iero Jaló):

(iv) o que morreu, foi efetivamente o Iero Jaló, da 1º secção, do 2º Gr Comb, nº mec 821 15969 (na história da CCAÇ 12 este nº está errado: vem 821 15369, na composição por grupos de combate; mas o 821 15369 não existe na lista geral);

(v) O Iero Jaló era natural de Bojo Fulbé, a sudeste de Galomaro, escassos quilómetros a seguir, no lado direito da estrada Galomaro - Dulombi;

(vi) lembro-me de ter ido levar, com o 2º Gr Comb, o caixão à sua tabanca, perto de Galomaro; foram-lhe prestadas honras militares... (Portanto, os seus restos mortais não podem estar em Bambadinca...).


http://www.ensp.unl.pt/luis.graca/guine_guerracolonial47_mapa_Duas_Fontes.html