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sexta-feira, 24 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27949: Agenda Cultural (890): Rescaldo da apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, que teve lugar no passado dia 21 de Abril, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Abril de 2026:

Confesso que me foi muito reconfortante apresentar este livro na casa onde me bacharelei e licenciei, aqui me apresentei vindo da Guiné, com o estatuto de estudante-militar, encontrei muita solidariedade de colegas que me facultaram apontamentos das aulas e preciosas referências bibliográficas, que me permitiram ir paulatinamente fazendo exames enquanto trabalhava na Agência Militar. Presidiu à sessão de apresentação o Professor José Pedro Serra, académico e diretor da biblioteca da Faculdade de Letras, contei com os prestimosos comentários de dois investigadores de gabarito, a quem devo admiração e muita amizade, António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias, ambos com estudos de referência tanto sobre a colónia como o período posterior, da Guiné Independente.

Tive a alegria da comparência de várias dezenas de amigos, limitei-me a enunciar os principais tópicos que abordei no livro sobre os séculos XIX e XX: os conflitos diplomáticos com a França e com o Reino Unido, a questão do Casamansa e a questão de Bolama, as iniciativas políticas de Honório Pereira Barreto, que se revelaram determinantes para a configuração do atual Estado, as guerras do Forreá, o desastre de Bolor, a formação do distrito autónomo da Guiné, a formação da Província da Guiné, a ocupação militar, o destaque das medidas políticas dos principais governadores, tais como Carlos Pereira, Velez Caroço, Carvalho Viegas e Ricardo Vaz Monteiro, pondo ponto final com a governação do comandante Sarmento Rodrigues, que pôs a Guiné no mapa não só do Império português como no contexto africano, criando um espaço autónomo na chamada África Ocidental francesa.

Braima Galissá fez um memorável recital, ele é de facto um exímio tocador de Korá, tem um espetáculo marcado para o Centro Cultural de Belém, no dia 9 de maio, pelas 17h, intitulado Bela-Nafa, uma sugestão cultural para todos os nossos confrades que vivem em Lisboa e arredores.

Aspecto da sala
Na mesa: o autor Mário Beja Santos; o investigador e historiador António Duarte Silva, no uso da palavra; o Director da Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, José Pedro Serra e o Prof. Jubilado do ISCTE, Eduardo Costa Dias
José Pedro Serra no uso da palavra
O nosso confrade Mário Beja Santos, autor do livro em apresentação, usando da palavra
José Pedro Serra; o economista Jorge Braga de Macedo e o autor Mário Beja Santos
Braima Galissá, exímio tocador de korá, durante o seu recital
Mário Beja Santos e Braima Galissá

OBS: - Edição e legendagem das fotos: Carlos Vinhal
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Nota do editor

Último post da série de 16 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27925: Agenda Cultural (889): Apreciação de Philip Havik ao livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, que será apresentado no próximo dia 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

terça-feira, 21 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27937: Lembrete (55): Cerimónia de apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos,: hoje, 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Campo Grande


Capa do livro (Lisboa, Edições Húmus, 2026)




Sinopse do livro

A mais indefinível possessão portuguesa ganhou finalmente nome: Guiné.

Admitindo que navegadores portugueses aqui arribaram em finais da primeira metade do século XV, este espaço conheceu uma enormidade de nomes, desde Etiópia Menor, Guiné do Cabo Verde, Grande e Pequena Senegâmbia e muitos mais. Até que, em 1886, passou a chamar-se Guiné Portuguesa, e com menção constitucional. O livro aborda a história desta possessão de meados do século XIX e meados do século XX, um território que tinha praças e presídios, dependente de Cabo Verde; todas as companhias comerciais se tinham malogrado; foi preciso a comoção de um desastre militar num local chamado Bolor para, em 1879, se ter determinado a sua separação de Cabo Verde; estabeleceu-se uma capital em Bolama, mas a presença portuguesa manteve-se ténue, junto dos rios e rias. No final do século XIX, chegou a admitir-se a entrega da colónia a uma companhia majestática.





MÁRIO BEJA SANTOS


Biografia

Toda a sua vida profissional, entre 1974 e 2012, esteve orientada para a política dos consumidores. Ao nível da sua participação cívica e associativa, mantém-se ligado à problemática dos direitos dos doentes e da literacia em saúde, domínio onde já escreveu algumas obras orientadas para o diálogo dos utentes de saúde com os respetivos profissionais, a saber: Quem mexeu no meu comprimido?, 2009, e Tens bom remédio, 2013. Doente mas Previdente, dá continuidade a esta esfera de preocupações sobre a informação em saúde, capacitação do doente, o diálogo entre os profissionais de saúde, os utentes e os doentes.


(Com a devida vénia a Bertrand Livreiros)
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Nota de Mário Beja Santos:

A cerimónia de apresentação do livro será abrilhantada com uma actuação de Braima Galissá




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Notas do editor:

Vd. post de 11 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27911: Agenda Cultural (888): Convite para a cerimónia de apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, a levar a efeito no próximo dia 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A obra será apresentada por António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias

Último post da série de 17 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27434: Lembrete (54): Cerimónia Comemorativa do 107.º Aniversário do Armistício da Grande Guerra e 51.º Aniversário do fim da Guerra do Ultramar, que se realiza amanhã, dia 18 de novembro, pelas 10h00, no Forte do Bom Sucesso, em Belém, Lisboa. Durante a cerimónia o nosso Editor Luís Graça será agraciado com a Medalha de Honra ao Mérito, grau Ouro, da Liga dos Combatentes

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27925: Agenda Cultural (889): Apreciação de Philip Havik ao livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, que será apresentado no próximo dia 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Na impossibilidade de estar presente do próximo dia 21 de Abril, na FLUL, na cerimónia de apresentação do II Tomo de "Guiné - Bilhete de Identidade", da autoria do nosso confrade Mário Beja Santos, Philip Havik, doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Leiden - Países Baixos, distinto investigador, há muito ligado a Portugal, com ênfase na medicina tropical e em estudos orientados para a Guiné colonial, quis deixar a sua apreciação a esta obra de antologia para ser publicada no nosso Blogue.  


O mais recente opus de Mário Beja Santos, ‘Guiné - Bilhete de Identidade T. II: da Pequena Senegâmbia Guiné Portuguesa’ contem novamente uma antologia de textos cuidadosa selecionados em seis atos. Cobrindo um período de cem anos, dos meados do séc. XIX para o séc. XX, os textos amplamente citados e comentados, de autoria portuguesa e alguns franceses, levam o leitor numa viagem por este território que permite formar uma ideia da trajetória acidentada deste cantinho do dito império luso.

Principalmente servindo como um depósito de degredados e entreposto de exportação de escravos para as Américas, enfrentou grandes mudanças políticas nos séculos XIX e XX. Largamente esquecida até o Ultimato Britânico, o autor acompanha o despertar dos governos portugueses para não só revindicar, mas também de efetivamente ocupar parcelas do continente ‘distribuídos’ entre participantes da Conferência de Berlim. Nas 467 páginas o autor demonstra como os esforços diplomáticos vindo de dentro e fora da Guiné foram insuficientes para segurar a ‘Pequena Senegâmbia’ que o Honório Pereira Barreto ambicionava, esbatendo nas movimentações francesas na Casamance, ocupando pontos estratégicos, colocando as autoridades lusas perante um fait accompli.
O tratado luso-francês de 1886 que fixou pela primeira vez as fronteiras, foi encarado como uma derrota, por assinalar ‘a presença portuguesa […] ténue’ (p. 49) no terreno, que até aí se tinha limitado a uns presídios dispersos de uns meros centenas de metros quadrados. Quatro anos antes, o primeiro governador da ‘Guiné-Portuguesa’ ainda revindicava a zona da ‘Senegâmbia portuguesa do Sul do Rio Gâmbia até o Rio Nuno’ (p. 44/5).


Quando a partir de 1879 a ilha de Bolama alberga a capital da ‘Guiné Portuguesa’, os textos demonstram bem o facto que este território - governado durante séculos a partir de Cabo Verde - foi uma ficção do imaginário luso. Tal como o René Pélissier documentou na sua obra Naissance de la Guiné sobre as intermináveis guerras pelo domínio da Guiné, os relatos de oficiais e viajantes portugueses incluídos no livro lamentam e criticam duramente a falta de ambição e de êxito de sucessivos governadores e governantes na metrópole. Este abandono político contrasta com as pontas de cultivo de amendoim que começam a crescer na zona costeira da Guiné a partir dos anos 40 do século XIX, que por sua vez constituíram os primeiros passos para a colonização da terra africana, geridos por caboverdianos e ‘guinéus’. Foram eles próprios, nomeadamente as linhagens comerciais ou gan - cujo mais famoso exponente foi o Honório Pereira Barreto - que asseguraram a ‘herança’ Luso-Africana na zona, e conduziram a transição do tráfico de escravos trans-Atlântico para o chamado ‘comércio legítimo’, exportando as suas colheitas para o porto francês de Marseille… As fontes escritas tal como os relatórios dos governadores e relatos de viagem nos anos 80 e 90 do séc. XIX citados no livro lamentam amplamente a decadência destas feitorias e ainda sonham com ‘um futuro comercial brilhante’ mediante que a sua tão almejada ocupação ‘por todos os meios incluído a força’ (p. 133/4) se concretizasse.

Como os documentos do século XX perscrutados bem ilustram, a ocupação pela força em 1915 após campanhas muito sangrentas e devastadoras contra os povos costeiros conduzido com ‘quase só com irregulares’ (p. 360) numa terra ‘empapada de […] sangue’ (p. 229), afinal não transformou este futuro risonho em realidade. Após décadas de o comércio (de borracha e noz de palma) ter sido explorado por casas comerciais francesas e alemães, e companhias de capitais principalmente francêses terem adquiridos terrenos, a ocupação administrativa deste quinhão do império ‘insalubre’, mas repleto de riquezas naturais, não trouxe o fomento desejado pela 1.ª República. A ocupação da terra onde recém-chegados da metrópole eram recebidos com ‘as febres do paíz’ nos presídios cercados de pântanos, só trouxe diminutos capitais da metrópole, enquanto empresas como a CUF e a Casa Gouveia – além do Banco Ultramarino que tal com os primeiros deteve vastas explorações agrícolas - exerceram o quase monopólio do comercio de exportação, principalmente de amendoim não descascado. Sujeitando a ‘população indígena’ a novos estatutos fortemente discriminatórios e os régulos a nova ordem administrativa, os governos conduzem uma ‘politica indígena’ para impor a ‘pax lusitana’. Numa colónia onde se falava crioulo nos meios da função pública e do comércio, a obra de nacionalização podia, pensou-se, finalmente começar, como perspetivava um governador nos anos 20. Este mesmo deixou muito claro como se ia desenvolver o território: ‘Se o indígena não quer trabalhar, seja compelido a fazê-lo’ (p 238).

Virava-se assim, aparentemente, uma nova página na história desta Guiné, de curta duração, até que em 1963 estala o conflito armado. Passamos por descrições da rica flora e fauna guineense e do seu mosaico étnico complexo através de inquéritos etnográficos administrativos – não profissionais – que fazem distinções entre os dois extremos ‘dos atrasos de civilização’ dos Bijagós (p. 266) e ‘os racialmente superiores’ Futa-Fulas (p. 320), e as potencialidades da agricultura e o comércio, além de descrições da organização administrativa e seus serviços, sujeita a Reforma Administrativa Ultramarina nos anos 30 pelo Estado Novo (p. 351). Este último começa também por promover uma nova versão da então muito incipiente historiografia da Guiné, dos ‘descobrimentos’ até as ‘campanhas de pacificação’, após investidas anteriores de Cristiano José de Senna Barcellos (1899-1915), o geógrafo Ernesto Vasconcellos (1903) e de Carlos Pereira (1914), um antigo governador do território.

O Teixeira da Mota, oficial da Marinha, acaba por ‘atenuar’ e em parte ‘corrigir’ estas epístolas, quando publica os dois volumes da Guiné Portuguesa em 1954. Além de impulsionar uma série monografias administrativas baseado no inquérito etnográfico de 1946 que coordenou, ele também fundou o Centro de Estado da Guiné Portuguesa que publicou o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa até 1973 (p. 374). Com as missões da Junta Científicas de Investigações do Ultramar (JCIU), forma o início de uma tentativa de documentar e investigar o território sob a batuta do governador Sarmento Rodrigues com o qual o livro fecha. Apelidado pelo autor como ‘o definidor da colónia guineense’ (p. 397), o Sarmento Rodrigues se afirma logo como um governante imbuído de um espírito reformista, que pretende desenvolver e modernizar o território.


Enquanto esperamos pelo terceiro tomo desta série, podemos já antecipar que este otimismo será de curta duração, e novamente posto em causa com o eclodir da guerra/luta em 1963. Parece que a história se repete… Para quem esteve no terreno da guerra nos fins dos anos 60, o autor encontrou neste segundo volume a inspiração e a oportunidade de partilhar com os leitores o seu conhecimento do terreno. Aliás, se nota nas páginas do livro que o conhecimento pessoal do autor dos vários cantos do território para construir uma antologia ‘passeada e comentada’, que é sem dúvida uma grande vantagem quando se comenta os muitos documentos que compõem este livro.

A sua paciência de consultar documentos e reservados poeirentos nas bibliotecas na capital, ilustra bem o seu comprometimento com a história deste pequeno talhão, a que se dedicou desde 2006, e que em 20 anos resultou numa ‘saga’ contínua de mais de dez livros publicados. Tal como disse, e cito: ‘Quando tudo leva a crer que estavam esgotados os filões sobre a Guiné, apareceu de rompante um projeto um tanto ambicioso …’ (p. 10) que, entretanto, resultou em dois volumes da Guiné-BI, deixando antever mais surpresas. A sua paixão não se limitou, como no caso de outros camaradas que lá combateram e descreveram as suas experiências no terreno – o que alias já fez em ‘dois volumes diarísticos’ (p. 9) – mas de ir mais a fundo sobre o passado e presente da Guiné-Bissau e as suas gentes, que hoje, ficaram, infelizmente, largamente esquecidas pela comunidade científica e o público em geral.


Philip J. Havik, abril 2026
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Nota do editor

Vd. post de 11 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27911: Agenda Cultural (888): Convite para a cerimónia de apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, a levar a feito no próximo dia 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A obra será apresentada por António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias.

sábado, 11 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27911: Agenda Cultural (888): Convite para a cerimónia de apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade. Tomo II – Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", de Mário Beja Santos, a levar a efeito no próximo dia 21 de Abril de 2026, pelas 17h30, na Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A obra será apresentada por António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias



Sinopse

A mais indefinível possessão portuguesa ganhou finalmente nome: Guiné.

Admitindo que navegadores portugueses aqui arribaram em finais da primeira metade do século XV, este espaço conheceu uma enormidade de nomes, desde Etiópia Menor, Guiné do Cabo Verde, Grande e Pequena Senegâmbia e muitos mais. Até que, em 1886, passou a chamar-se Guiné Portuguesa, e com menção constitucional. O livro aborda a história desta possessão de meados do século XIX e meados do século XX, um território que tinha praças e presídios, dependente de Cabo Verde; todas as companhias comerciais se tinham malogrado; foi preciso a comoção de um desastre militar num local chamado Bolor para, em 1879, se ter determinado a sua separação de Cabo Verde; estabeleceu-se uma capital em Bolama, mas a presença portuguesa manteve-se ténue, junto dos rios e rias. No final do século XIX, chegou a admitir-se a entrega da colónia a uma companhia majestática.



MÁRIO BEJA SANTOS

Biografia

Toda a sua vida profissional, entre 1974 e 2012, esteve orientada para a política dos consumidores. Ao nível da sua participação cívica e associativa, mantém-se ligado à problemática dos direitos dos doentes e da literacia em saúde, domínio onde já escreveu algumas obras orientadas para o diálogo dos utentes de saúde com os respetivos profissionais, a saber: Quem mexeu no meu comprimido?, 2009, e Tens bom remédio, 2013. Doente mas Previdente, dá continuidade a esta esfera de preocupações sobre a informação em saúde, capacitação do doente, o diálogo entre os profissionais de saúde, os utentes e os doentes.


(Com a devida vénia a Bertrand Livreiros)
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Nota de Mário Beja Santos:

A cerimónia de apresentação do livro será abrilhantada com uma actuação de Braima Galissá
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Notas do editor

Vd. post de 19 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27836: Antologia (101): "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", a publicar brevemente (Mário Beja Santos)

Último post da série de 7 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27896: Agenda Cultural (887): Apresentação do Catálogo "O Movimento das Forças Armadas e o 25 de Abril", dia 9 de Abril de 2026, pelas 18h00, na Associação 25 de Abril, Rua da Misericórdia, 9 - Lisboa

quinta-feira, 19 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27836: Antologia (101): "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", a publicar brevemente (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Março de 2026, trazendo em anexo um texto intitulado "Agradecimentos e Dedicatória", no qual reproduz as razões curriculares que o conduziram ao lançamento do seu próximo livro "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", cuja data de lançamento será anunciada oportunamente.


Agradecimentos e dedicatória

Permita-me o leitor que reproduza no Tomo II as razões curriculares que me conduziram a este empreendimento, tal como as escrevi na obra anterior:

O país que é hoje a Guiné-Bissau foi o local onde combati entre 1968 e 1970, matéria que tratei em dois volumes diarísticos, agradecendo penhoradamente as lições recebidas do povo amável com quem convivi, nomeadamente nos regulados do Cuor e Bambadinca; motivado por conhecer melhor os antecedentes deste território em décadas anteriores, meti mãos a um outro empreendimento, uma digressão um tanto romanesca à volta das memórias de uma nonagenária que casou com um administrador colonial, nos alvores da década de 1950 e conheceu os primeiros sinais da insurreição, assim escrevi A Mulher Grande; participante regular naquele que é, sem margem para dúvida, o blogue mais influente para antigos combatentes na então Guiné Portuguesa, Luís Graça & Camaradas da Guiné, senti impulso de ali regressar para me despedir dos meus soldados guineenses, e assim urdi A Viagem do Tangomau; ao longo desses anos de íntima relação com a realidade guineense, fui também procurando ler tudo quanto era literatura da guerra colonial, fundamentalmente do lado português – assim nasceu Adeus, Até ao Meu Regresso.

Os anos passavam, a Guiné continuava sempre presente, no coração, na memória, no desejo de melhor compreender o seu passado e até os seus tempos atuais. Em parceria, enveredei numa tentativa de fazer o arco cronológico entre dados fundamentais da Guiné Portuguesa até à Guiné-Bissau, assim nasceu o livro Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro. Estava dado o balanço para intensificar as pesquisas, nos anos seguintes apareceram as História(s) da Guiné Portuguesa e História(s) da Guiné-Bissau.

Quis um feliz acaso que batesse à porta do então Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória) em busca de um livro ricamente ilustrado, fui não só compensado por o ter folheado demoradamente como surgiu a oportunidade de ter acesso a documentação inédita, e assim escrevi Os Cronistas Desconhecidos do Canal de Geba: O BNU da Guiné. A saga teve uma nova deriva, encontrei num alfarrabista o livro de um poeta popular, antigo combatente na Guiné, ali fez comissão entre 1963 e 1965, o seu poema galvanizou-me e deu-me a ideia de escrever um livro em que ia respondendo taco a taco às suas itinerâncias desde a recruta à passagem à disponibilidade, de novo aproveitei referências da imensa literatura produzida sobre aquela guerra, desde romance, conto, novela, poesia, memórias, e nesta parceria foi dada à estampa Nunca Digas Adeus às Armas.

Mais recentemente, novo surto para a deriva romanesca, desta feita na cidade de Bruxelas dois cinquentões apaixonam-se, ele vai regularmente a esta sede europeia, ela é intérprete e aceita o repto de passar a escrito as memórias de guerra, cronista amorosa num romance feito fundamentalmente de cartas, Rua do Eclipse, a Guiné atravessa-se nas suas vidas, do princípio ao fim.

Quando tudo levava a crer que estavam esgotados os filões sobre a Guiné, apareceu de rompante um projeto um tanto ambicioso: elaborar, por seriação do século XV ao século XX, um género de antologia com peças umas determinantes outras possuidoras de vigor testemunhal, sobre a presença portuguesa desde o tempo em que os navegadores e cartógrafos denominavam a região por nomes inconclusivos e até bizarros como Etiópia Menor, Rios da Guiné de Cabo Verde, Terra dos Negros ou Senegâmbia, termo que curiosamente foi usado e abusado até ao século XIX, sobretudo para referir uma costa ocidental africana entre o Cabo Verde e a Serra Leoa. Devo advertir o leitor que muitos outros textos aqui poderiam caber, mas creio não ter omitido intencionalmente nenhum que me tenha parecido essencial para a natureza desta obra de divulgação.

Esta antologia decorre de um processo laborioso, escrevi bastantes textos, de forma avulsa e um tanto ao corroer da pena no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, recebi sugestões de mãos amigas, caso dos investigadores António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias, um sem número de sugestões; jamais poderia esquecer as ajudas ou propostas de leitura que recebi da Helena Teotónio Pereira, então à frente da biblioteca do CIDAC, um espaço onde há relevante documentação histórica, e o mesmo podia dizer dos incentivos que tive no Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória); não esqueci a estimulante parceria que tive a felicidade de encontrar para escrever Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro e também naquele outro livro a quatro mãos Nunca Digas Adeus às Armas.

Sendo eu um infoexcluído, tive a dita de receber uma admirável prestação na colaboração de Linda Sioga, vai para mais de três anos que andamos em belíssima colaboração intermediada pelo Skype/Teams. Naturalmente que agradeço e a junto a esta dedicatória.

Este livro, tal como o anterior, é dedicado a todos aqueles que se iniciam num estudo das relações luso-guineenses, seja em que local for; bem gostaria de lhes ser útil, porventura abrindo-lhes portas, dando-lhes dicas, o que aqui aparece ordenado pela cronologia de há muito foi investigado, ou nunca obteve tratamento público, caso dos documentos que consultei nos Reservados da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa. Dedico, igualmente, o livro a duas figuras da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, Helena Grego e José Carlos Silva; ao longo de todos estes anos em que frequento tais instalações históricas, possuidoras de fascinante documentação, eles tudo têm feito para ter acesso a livros, revistas, relatórios, e, fundamentalmente, a papelada que consta dos Reservados, aqui encontrei textos fervilhantes ou esclarecedores, que o leitor agora vai encontrar deste período histórico em análise dos séculos XIX e XX.

A minha dívida com estes bibliotecários é impagável. Tanto mais que quando disse à Dr.ª Helena Grego que chegara ao fim da linha, nada mais havia para remexer nos arquivos, depois deste tomo II, ela desenganou-me: “Nem pense, agora vai começar a ler o Boletim Oficial do Governo Geral de Cabo Verde e depois o Boletim Oficial da Guiné, Colónia e Província, tem ali trabalho para os próximos anos.”
É o que presentemente está a acontecer, pelas minhas contas será o adeus neste vasculhar que levo à presença portuguesa na Guiné entre meados do século XV e primeiro quartel do século XXI.

"Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo I, A Presença Portuguesa na Senegâmbia", de Mário Beja Santos, lançado em Setembro de 2024(*)
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Nota do editor

(*) Vd. post de 10 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26371: Agenda cultural (876): Apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade", de Mário Beja Santos, dia 13 de Janeiro de 2025, pelas 14h30, na Livraria Municipal Verney, Rua Cândido dos Reis, 90 - Oeiras

Último post da série de 20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27652: Antologia (100): Uma caçada ao elefante em... Canjambari há mais de 100 anos (Conto publicado em "O Mundo Português", em 1936, da autoria de Artur Augusto Silva, 1912-1983)

segunda-feira, 16 de março de 2026

Guné 61/74 - P27825: Manuscrito(s) (Luís Graça) (283): Maratona da amizade e da camaradagem


Lisboa > Largo da Madalena > 15 de novembro de 2009 > Pormenor da calçada à antiga portuguesa, à entrada da Igreja da Madalena... Se não forem os nossos amigos calceteiros, portugueses, de origem cabo-verdiana, já não há ninguém a faça... F*da-se, dá cabo das costas e dos joelhos!

Foto (e legenda): Luís Graça (2009). Direitos reservados


A maratona da amizade e da camaradagem

por Luís Graça

O João Crisóstomo
o mais famoso dos mordomos portugueses de Nova Iorque,
e agora régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona,
instituiu o dia 14 de fevereiro 
como o Dia da Amizade... e da Camaradagem (*), 
Pois que seja o Dia do Camarigo, por causa das confusões.

E eu lembrei-me da maratona
que vamos fazendo,
trilhando velhas picadas, 
cada um até ao seu dia,
cada um de nós, os amigos e camaradas da Guiné.
Lembrei-me, 
revisitando um velho, longo poema
que estava no baú das minhas blogarias (**).

Juram, os amigos,
que a amizade não se esgota
nas questões de lana caprina.
Nem se dilui na espuma dos dias.
Testa-se e reforça-se na provação.
A amizade e a camaradagem
(que só pode existir na guerra
e noutras situações-limite).

É verdade, Abel, Abílio, Acácio, Adão, Adelaide, Adelino, 
Adélio, Adolfo, Adriano, Afonso, Agostinho ?!

Dizem outros que eles, os amigos,
devem ser para as ocasiões.
Todas as ocasiões ?
As pequenas e as grandes ?
As boas e as más ? Sobretudo as más ?
A estação seca e a estação das chuvas  ?
A paz e a guerra ?

 ... Albano, Albertino,  Alberto, Alcides, 
Alexandre, Alfredo, Alice, Almeida,   

Ou tudo isso é letra morta, treta?!
Que os amigos conhecem-se
na adversidade, diz o provérbio.

Almiro,  Altamiro, Álvaro, Amaral, Amaro,  
Américo,  Amílcar, Ana, Anabela,  
Angelino Aníbal, Anselmo, Antero ?!

E os camaradas, na guerra,
dizia o senhor doutor Lobo Antunes.
E os colegas nas tainadas e nas putas,
dizia o teu instrutor
de minas, fornilhos e outras armadilhas da vida.

Dizem que sim com a cabeça, 
António, Arlindo, Armandino, Armando, 
Arménio, Armindo,  Augusto, Áurea

Quem em caça, política, guerra e amores se meter,
não sairá quando quiser.


Sairá ou não,
Belarmino, Belmiro, Benito, Benjamim, 
Benvindo, Bernardino, Braima ?!

Os amigos, os verdadeiros e os falsos,
conhecem-se nas ocasiões.
Que a adversidade é o teste da amizade.
A prosperidade traz amigos,
a adversidade os afasta,
diz o chinoca da tua rua,
que não tem amigos,
a não ser o dicionário de português-cantonês,


que poderia ter sido escrito
o que é que vocês acham ?!,
p'lo Campelo, Cândido, Carlos,
se tivessem nascido em Macau,
filhos desventrados e desventurados
do Fernão Mentes Minto ?!

Oh, Galissá, Galissá, 
que no céu se fazem amigos;
e, no inferno da guerra, inimigos,
canta o poeta, cego, da tua rua,
tocador de cora,
deambulando de tabanca em tabanca,
no que resta do regulado de Gabu.

Lembram-se Carmelino, Carvalhido, Casimiro, 
Cátia, Célia, César, Cherno, 
Cláudio, Conceição, Constantino, Cristina ?!

Que a amizade é um edifício
que leva uma vida a construir,
e que num minuto pode ruir,
garante o Esquilo Sorridente,
que era o nome de guerra de alguém,
quando bom escoteiro em Ingoré, 
lá no Norte da Guiné.

Pelo menos assim te contaram, 
Daniel, David, Delfim, Diamantino. 

Não, vocês, não passaram por Ingoré.
Mas passaram por outros sítios da Guiné 
onde Jesus Cristo nunca parou.
Nem Alá.

Diana, Dina, Domingos,  Duarte e Durval.

No aperto do perigo, conhece-se o amigo.
Essa é a verdade,
e a verdade é um osso duro de roer,
até para o cão que rói o osso,
na opinião de quem em Bissorã teve um cão.

Dizem que um cão é uma boa companhia,
Edgar, Eduardo, Egídio, Ernestino, Ernesto, 
Estêvão, Eugénio, Evaristo,
que nunca tiveram cão de guerra.

Que os amigos fazem-se,
praticando a amizade,
E os camaradas a camaragem.
E os camaradas que são amigos
a camaradagem.

Felismina, Fernandino, Fernando, 
Ferreira, Filomena, Fradique.

Tal como os caminhos que, se não se usarem,
ganham espinhos, ervas, silvas, moitas, carrascos,
pedras soltas, calhaus, pedregulhos,
tornam-se abatizes, obstáculos, bagabagas, 
cabeços, colinas, montanhas.

Vero ?!... Gabriel, Garcez, George, Germano, 
Gil, Gilda, Gina, Giselda.

Ou na versão de um velho homem grande, 
mandinga de Contuboel,
algures na velha Guiné agora Bissau:
"a amizade é uma picada
que desaparece na areia, na bolanha ou no mato,
se não a usares todos dias".
Disse-te ele um dia.

Gonçalo, Graciela, Gualberto, 
Guilherme, Gumerzindo, Gustavo.

Não aceito que digas:
"Amigo não empata amigo",
porque o amigo é isso,  
tens toda a razão, camarigo,
que o amigo é para se usar, se guardar
e se resguardar.

 
Achas que sim ou que não ?!, 
Hélder, Henrique, Herlânder, 
Hernâni, Hilário, Hugo, Humberto. 

Para se resguardar das pontadas de ar, 
dos tiros tensos do canhão sem recuo 
e das emboscadas
e dos estilhaços do "jato do povo"-
Não é para se usar, expor e deitar fora,
na berma da picada armadilhada.

Ah!, Idálio, Ildeberto, Inácio, Inês,
Ah!, Isabel, Ismael... 

A amizade não é um objecto descartável,
manda o profeta dizer no seu último mail.
(Ou foi o Sócrates, o grego, antes da cicuta ?).

A conselho amigo, não feches o postigo,
além de que amigo diligente é melhor que parente.
Sobretudo se te dói o dente.

Ah!, Jota A, Jota C, Jota F, Jota L., Jota M.
 
E já que tens físico amigo,
queres dizer médico no antigamente,
manda-o a casa do teu inimigo.
Escreveu o Dom Dinis, 
que foi rei, e régulo da Tabanca da Linha, 
e já morreu, em plena pandemia,
mandou lavrar cantiga de escárnio e mal dizer,
além do pinhal de Leiria.
Quem seu inimigo poupa, às mãos lhe morre.

Ah! Jacinto, Jaime, Jean, Jéssica, João
Joaquim, Jochen,
será que vocês assinam por baixo ?

Mas, atenção, 

amigo disfarçado, inimigo dobrado.
E o que fazer ao amigo que não presta
e à faca que não corta, 
Jorge ?

Também se diz que os amigos novos
metem os velhos no canto ou a um canto.
Se não se diz, pensa-se.
Será assim, mano,
que os amigos também cansam
como a sarna na pele,
como a pele e as suas sete camadas ?

Que se percam, pouco importa!
proclama pela telegrafia sem fios
o coro dos Josés de A a Z

Não sei o que é que vocês pensam:
"Os amigos têm prazo de validade" ?

Joviano, Júlia, Júlio, Juvenal.
 
Uma questão que nada tem de metafísica:
ovo de uma hora,
pão de um dia,
vinho de um ano,
mulher de vinte,
amigo de trinta
e deitarás boa conta.


Lázaro, Leão, Leonel, Lia, 
Libério, Lígia, Luciana, 
Luciano, Lucinda, Luís com s ou com z, 
conforme o desacordo ortográfico.

Amigo, vinho e azeite... o mais antigo,
garante quem passou por Buruntuma
onde não havia azeite (ou se o havia, era o de dendê)
nem vinho... mas havia amigos.

Mamadu, Manuéis de A a Z,  
Margarida, Maria, Mário.

O vinho e o amigo, quer-se do mais antigo,
recomendam o outro Jorge, que é engenheiro,
mais o Picado, que foi agrónomo.
E o que farás dos teus novos amigos, Virgílio,
que não fazem anos no mesmo dia que tu ?

Marisa, Marta, Martins, 
Maurício, Maximino, Melo, Miguel,
 
Faz como o vinho, Zé Manel da Régua,
se for bom mete-o a envelhecer
em cascos de carvalho.
Francês.
Ou castanho.
Português.
A amizade não tem pátria 
Nem é chauvinista. 
Nem é racista.

Garantem o Natalino, o Nelson, o Norberto, 
mais o Nunes e o Nuno,

E por que é que os amigos dos teus amigos 
teus amigos são ?
É como os filhos do teu filho, serão dele ou não…
Que ao menos,
Jorge, 
cresçam Narcisos no teu jardim.

Que sabem vocês, 
que sabemos nós, 
amigos e camaradas da Guiné ?!
Só sabíamos do desalento, 
e do vento
e da morte na alma
e da terrível secura na garganta
e das lágrimas que não podíamos chorar
quando trazíamos do mato, 
os camaradas mortos,
às costas...


Orlando, Orlando, Osvaldo, Otacílio.

Só damos valor às coisas,  
quando elas nos faltam,
e aos amigos
quando fazemos o luto pela sua perda.
E já perdemos tantos, "alfero" Cabral",
tantos de A a Z
camaradas como tu e o António, 
ou amigas como a Zélia!

São tantos os estereótipos, 
amigos e camaradas,
sobre os amigos e a amizade.
E os camaradas.

Pacífico, Patrício, Paula,  Paulo, Pedro.

Sem falar do 'Nino', e do Pires, e do Mané, e do Manecas, e do Indjai, 
dos teus inimigos, que, esses, afinal
eram os mais previsíveis,
estavam sempre do outro lado da ponte...

Que à volta eles cá te esperam,
Amílcar Cabral,
aliás Abel Djassi.
Bolas, vocês até podiam ter sido,
se não amigos,  bons vizinhos!
Que camaradas, salvo seja,
cada "dari" ou chimpanzé no seu galho!
Que chimpanzé não é macaco,
era ferreiro castigado por Alá 
por trabalhar ao sábado 
e andar a fazer drones e espadas de guerra
em vez de arados para lavrar a terra.

Ramiro, Raul, Ribeiro, Ricardo, 
Rogé, Rogério, Rosa, Rui.

Amigo verdadeiro, esse vale mais do que dinheiro,
meu pobre Amadu Djaló,
bom crente, bom muçulmano,
bravo combatente,
leal aos teus amigos "tugas",
tu a quem já te acusaram de mercenário.

Mas vale a morte que tal sorte, Marcelino,
quando os amigos que tens não os tens.
Como os velhos elefantes, 
devias ter voltado para o teu chão,
para morrer entre os teus
e seres enterrado debaixo do teu poilão
Zé Carlos Suleimane Baldé.

O próximo teste,
é quando ganhares o Euromilhões.
Ou quando ficares esticado no caixão, ao comprido:
será que lá terás todos os gatos pingados da companhia ?

Sadibo, Santos, Sebastião, Sérgio, Serra,  
Silvério, Sílvia, Sílvio, Souleimane, Sousa, Susana, 

Antes boa que má companhia, 
nem que seja a do gás e electricidade.
Amigos, amigos, negócios à parte,
dizia o teu primeiro,
que chegou a "mandjor"...

Tibério, Timóteo, Tina, Tomané, Tomás, Tony.

Afinal, quem vai à guerra dá e leva.
Quem te avisa, teu amigo é,
leste uma vez no bilhetinho anónimo
do tempo da delação e do inquisidor-mor.

Quem seu amigo quiser conservar,
com ele não há-de negociar.
E será que se pode blogar,
Carlos ?
Longe da cidade, tanto melhor, diz o
Vinhal,
que é da vila de Leça da Palmeira.

Mas... quem tem amigos, não morre na cadeia,
nem no exílio, dourado,
seja feio ou belo, 
e mesmo que se chame José, o viking.

Um rico avarento não tem amigo nem parente.
As boas contas fazem os bons amigos.
Ao bom amigo, com o teu pão e o teu vinho.
Ao rico mil amigos se deparam,
ao pobre até seus irmãos o desamparam.

Os camaradas, comandos, páras e fuzos, dizem: 
"Connosco ninguém fica para trás"...
Aquele que te tira do perigo, é teu amigo.
Bocado comido não faz amigo,
porque não é partilha...
Defeitos do teu amigo ?

Lamento, meu caro Mário, mas não maldigo
o teu nome de guerra, "Tigre de Missirá"
Em tempo de figos, não há amigos.
Chacun que se governe, Patrício,
em caso de peste (de que Deus nos livre!).
Ou de ataque de abelhas.
Ou de pânico mortal.
Ou de fobia,
acrescenta aí, "Duque do Cadaval".

Muitos conhecidos, poucos amigos:
não é nenhuma heresia,
é palavra do Senhor,
e o Senhor esteja contigo,
meu camarigo  Jaquim,
e com todos nós, filhos da humanidade,
de Abel e de Caim.
Afinal foi Jesus Cristo que nos mandou
amar a Deus acima de todas as coisas 
e ao próximo como a nós mesmos.
Mas parece muito mais fácil 
cumprir o primeiro mandamento do que o segundo,
dizia o camarigo  Jero
Ora, bolas, como podemos amar a Deus que não vemos, 
se não amarmos o próximo que está à nossa frente, 
pergunta o capelão Puim?!

Guardem-se, entretanto, do alvoroço do povo, 
todo os Josés e todo os Joões,
mais os Martins,
e de travar com o doido.

Mas se calhar não há maior amigo 
do que o mês de julho
com o seu trigo que dá pão.
Olha, mulher, se não tens marido,
pouca sorte a tua,
não tens amigo e acabas na rua,
Lena, Hiena, de Bafatá.

Amigo mesmo é aquele que sabe o pior
a teu respeito
e mesmo assim... continua a gostar de ti,
mesmo que tenhas perdido a tua caderneta de vôo,
meu inFélix piloto Jorge dos Allouettes...

Quando uma pessoa perde dinheiro, perde muito;
quando perde um amigo, perde mais,
ó herói de Gadamel, agora tabanqueiro na Maia;
quando perde a coragem e a fé, perde tudo.
Onde é que já leste isto, Gil,
da Tabanca dos Melros ?

Valente, Valentim, Vasco, Victor (com c e sem c).

Difícil, meus amigos e camaradas da Guiné,
é ganhar um amigo numa hora;
fácil é ofendê-lo
e perdê-lo num minuto.
O Torcato Mendonça "dixit", 
da sua janela do Fundão
que dava para a Gardunha,
a Serra da Estrela e a Cova da Beira.

Vilma,Virgílio, Virgínio,   Zé.

Hoje é o amanhã
que tanto nos preocupava ontem,
escreveste tu isto no teu diário,
nas páginas dos feriados 
e dos Dias de Todos os Santos guerreiros...

Mas não menos sábia 
do que a do teu amigo Cherno
é a sabedoria do mongol:
o vitorioso tem muitos amigos, fracos,
mas o vencido tem bons amigos, valentes.
E até o otomano aprendeu à sua custa:
"Quando o machado entrou na floresta,
as árvores disseram:
'O cabo é dos nossos,
mas a lâmina de aço... não a estamos a reconhecer'".

Resta-nos a agridoce memória do passado,
as toponímias da nossa peregrinação trágico-marítima,
do Pijiguiti ao Xime,
de Bolama a Buba,
de Gandembel a Guileje,
de São Domingos a Catió,
sem esquecer o Cheche, 

e o Paulo, e o Rui, e o Aparício 

O que foi duro de sofrer,
lá longe da Pátria,
é agora doce de recordar,
no lar, no doce lar, 
conclui o cadete da Academia,
na fria pedra de mármore de Vila Viçosa.

Olha o Cufeu, Amílcar,
olha o Cufar, Fitas!

Planta hoje a semente da amizade,
mesmo que não sejas lavrador,
para colheres amanhã a flor da gratidão.
Ser amigo é ser generoso,
é dar antes de te pedirem,
é um gesto gratuito.
Quiçá o mais puramente gratuito dos teus gestos.
Ou será interesseira, a amizade ?
Para ti, não é como dar aos pobres...
Aí emprestas a Deus,
tu que és Paulo e Lage, tu que és pedra,
e Deus paga-te em vida ou na morte,
com os dividendos do poder,
da glória, da fama, da riqueza 
ou da eternidade,
lá no Olimpo dos Camarigos

Se estás tão cansado, meu amigo,
Junqueira, Condeço, Tavares,
que não possas dar-me um sorriso,
eu deixo-te o meu,
a ti que és Victor,
E "In Hoc Signo Vinces".

Não, nunca digas:
"Chega-te para lá, que me tapas o meu sol".
Por que o sol quando nasce devia ser para todos.
As lágrimas dos bons caem no chão,

Arminda, Rosa, Áurea, Giselda, Ivone, Zulmira,

para poderem vir a engrossar os rios da revolta
e da indignação.
Inútil tentares juntar as tuas mãos,
se elas não estiverem vazias,
diz o teu guru do Tibete, agrilhoado.
Os amigos escolhe-os tu,
os parentes são os que Deus te deu.
Quando estás certo, ninguém se lembra;
quando estás errado, ninguém esquece.

Amigos e camaradas paraquedistas,
poucos e loucos mas bons,
que não são do arre-macho
nem da tropa-macaca,
que também é gente e primata,

Volta o teu rosto na direção do sol, 
tu, Miguel, que és o mais "strelado" de todos nós,
para que as sombras fiquem para trás, 
E não caias do céu aos trambolhões, 
tu, tenente pilav que chegaste a general.

À laia de conclusão,
amigos e camaradas da Tabanca Grande, de A a Z,
sintam-se todos evocados e convocados,
para esta maratona da amizade e camaradagem.
E honrados.

Antes de começares o trabalho de mudar o mundo,
dá três voltas dentro de tua casa...
E sobretudo não esqueças a lição
sobre a parábola da Sabedoria e da Asneira:
"Para os erros alheios,  
temos os olhos do lince;
para os nossos próprios, 
os olhos da toupeira".
 
 
PS - Requiem para os amigos e camaradas da Tabanca Grande
que já se despediram da Terra da Alegria

A. Marques Lopes (1944-2024) 
Agostinho Jesus (1950-2016) 
Alberto Bastos (1948-2022) 
Alcídio Marinho (1940-2021) 
Alfredo Dinis Tapado (1949-2010) 
Alfredo Roque Gameiro Martins Barata (1938-2017) 
Amadu Bailo Jaló (1940-2015) 
Américo Marques (1951-2019) 
Américo Russa (1950-2025) 
António Branquinho (1947-2023)
António Cunha ("Tony") (c.1950 - c. 2022)  
António da Silva Batista (1950-2016) 
António Dias das Neves (1947-2001) 
António Domingos Rodrigues (1947-2010) 
António Eduardo Ferreira (1950 - 2023)
António Estácio (1947-2022) 
António José Matias (1949-2022)
António Manuel Carlão (1947-2018) 
António Manuel Martins Branquinho (1947-2013) 
António Manuel Sucena Rodrigues (1951-2018) 
António Medina (1939-2025) 
António Rebelo (1950-2014) 
António Teixeira (1948-2013) 
António Vaz (1936-2015) 
Armandino Alves (1944-2014) 
Armando Tavares da Silva (1939-2023) 
Armando Teixeira da Silva (1944-2018) 
Augusto Lenine Gonçalves Abreu (1933-2012) 
Aurélio Duarte (1947-2017) 

Carlos Alberto Machado Brito (1932-2025)
Carlos Alberto Cruz (1941-2023) 
Carlos Azeredo (1930-2021) 
Carlos Cordeiro (1946-2018) 
Carlos Domingos Gomes (Cadogo Pai) (1929-2021) 
Carlos Filipe Coelho (1950-2017) 
Carlos Geraldes (1941-2012) 
Carlos Marques dos Santos (1943-2019) 
Carlos Rebelo (1948-2009) 
Carlos Schwarz da Silva, 'Pepito' (1949-2012) 
Carronda Rodrigues (1948-2023) 
Celestino Bandeira (1946-2021) 
Clara Schwarz da Silva (1915-2016) 
Cláudio Ferreira (1950-2021) 
Coutinho e Lima (1935-2022) 
Cristina Allen (1943-2021) 
Cristóvão de Aguiar (1940-2021) 
Cunha Ribeiro (1936-2023) 
Daniel Matos (1949-2011) 
Domingos Fernandes (1946-2020) 
Eduardo Jorge Ferreira (1952-2019) 
Elisabete Silva (1945-2024) 
Ernesto Marques (1949-2021) 

Fernando Brito (1932-2014) 
Fernando Calado (1945-2025)
Fernando Costa (1951-2018) 
Fernando [de Sousa] Henriques (1949-2011) 
Fernando Franco (1951-2020) 
Fernando Magro (1936 - 2023) 
Fernando Rodrigues (1933-2013) 
Florimundo Rocha (1950-2024)
Francisco Parreira (1948-2012) 
Francisco Pinho da Costa (1937-2022) 
Francisco Silva (1948-2023)
França Soares (1949-2009) 
Gertrudes da Silva (1943-2018) 
Horácio Fernandes (1935-2025)
Humberto Duarte (1951-2010) 
Humberto Trigo de Xavier Bordalo (1935-2024) 
Inácio J. Carola Figueira (1950-2017) 
Isabel Levezinho (1953-2020) 
Ivo da Silva Correia (c. 1974-2017) 

João Barge (1945-2010) 
João Cupido (1936-2021)
João Caramba (1950-2013)
João Diniz (1941-2021)
João Henrique Pinho dos Santos (1941-2014)
João Meneses (1948-2020)
João Rebola (1945-2018) 
João Rocha (1944-2018) 
João Silva (1950-2022)
Joaquim Cardoso Veríssimo (1949-2010) 
Joaquim da Silva Correia (1946-2021) 
Joaquim Peixoto (1949-2018) 
Joaquim Sequeira (1944-2024) 
Joaquim Vicente Silva (1951-2011) 
Joaquim Vidal Saraiva (1936-2015) 
Jorge Cabral (1944-2021) 
Jorge Rosales (1939-2019)
Jorge Teixeira (Portojo) (1945-2017) 
José António Almeida Rodrigues (1950-2016) 
José António Paradela (1937-2023) 
José Augusto Ribeiro (1939-2020) 
José Barreto Pires (1945-2020) 
José Carlos Suleimane Baldé (c.1951-2022) 
José Ceitil (1947-2020) 
José Eduardo Alves (1950-2016) 
José Eduardo Oliveira (JERO) (1940-2021) 
José Fernando de Andrade Rodrigues (1947-2014) 
José Luís Pombo Rodrigues (1934-2017)
José Manuel Amaral Soares (1945-2024)
José Manuel Dinis (1948-2021) 
José Manuel P. Quadrado (1947-2016) 
José Marcelino Sousa (1949 - 2023) 
José Martins Rosado Piça (1933-2021) 
José Maria da Silva Valente (1946-2020) 
José Marques Alves (1947-2013) 
José Moreira (1943-2016) 
José (ou Zé) Neto (1929-2007) 
José Pardete Ferreira (1941-2021) 
Júlio Martins Pereira (1944-2022) 

Leite Rodrigues (1945-2025) 
Leopoldo Amado (1960-2021) 
Leopoldo Correia (1941-2024)
Libório Tavares (Padre) (1933-2020) 
Lúcio Vieira (1943-2020) 
Luís Borrega (1948-2013) 
Luís Encarnação (1948-2018) 
Luís Faria (1948-2013) 
Luís F. Moreira (1948-2013) 
Luís Henriques (1920-2012) 
Luís Rosa (1939-2020) 
Luiz Fonseca (1949-2024)
Mamadu Camará (c. 1940-2021) 
Manuel Amaral Campos (1945-2021) 
Manuel Carneiro (1952-2018) 
Manuel Castro Sampaio (1949-2006) 
Manuel Dias Sequeira (1944-2008)
Manuel Marinho (1950-2022) 
Manuel Martins (1950-2013)
Manuel Moreira (1945-2014) 
Manuel Moreira de Castro (1946-2015) 
Manuel Varanda Lucas (1942-2010) 
Manuel Gonçalves (Nela (1946-2019 (*) 
Marcelino da Mata (1940-2021) 
Maria da Piedade Gouveia (1939-2011) 
Maria Ivone Reis (1929-2022) 
Maria Manuela Pinheiro (1950-2014) 
Mário de Oliveira (Padre) (1937-2022) 
Mário Gaspar (1943-2025)
Mário Gualter Pinto (1945-2019)
Mário Vasconcelos (1945-2017)
Nelson Batalha (1948-2017) 
Nuno Dempster (1944-2026)
Nuno Rubim (1938-2023)

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021) 
Paulo Fragoso (c.1947-2021) 
Queta Baldé (1943-2021) 
Raul Albino (1945-2020) 
Renato Monteiro (1946-2021)
Regina Gouveia (1945-2024) 
Rogério da Silva Leitão (1935-2010) 
Rui Alexandrino Ferreira (1943-2022) 
Rui Baptista (1951-2023) 
Suleimane Baldé (1938-2025)
Teresa Reis (1947-2011) 
Torcato Mendonça (1944-2021)
Umaru Baldé (1953-2004) 
Valdemar Queiroz (1945-2025)
Vasco Pires (1948-2016) 
Veríssimo Ferreira (1942-2022) 
Victor Alves (1949-2016) 
Victor Barata (1951-2021) 
Victor Condeço (1943-2010) 
Victor David (1944-2024) 
Vítor Manuel Amaro dos Santos (1944-2014) 
Xico Allen (1950-2022) 
Zélia Neno (1953 - 2023)
_________

Luís Graça (2009). O original foi escrito num noite de insónias,
há muitos anos (**).

Revisto e melhorado em 14/3/2026,
o dia em que a minha neta Rosa Klut Graça começou a andar,
às 20:15, na casa da Graça.
30 pequenos passos de gigante.
O primeiro "sprint" da sua vida. Aos 13 meses e meio.
E eu, por sorte, registei em vídeo esse momento único.
______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 14 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27734: Efemérides (383): O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o Dia dos Namorados”, é o ‘Dia da Amizade” (João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf)

João, já existe o Dia Internacional do Amigo e da Amizade. A Assembleia Geral das Nações Unidas resolveu convidar todos os países membros a celebrar o Dia Internacional da Amizade em 30 de julho. Só temos 365 dias por anos (mais um,  nos bissextos). O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca é...Grande. Por causa das confusões, fica o Dia do Camarigo, no dia 14 de fevereiro.

(**) Vd. poste 21 de novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5309: Blogpoesia (58): Para os amigos e camaradas da Guiné que esta noite tiveram insónias (Luís Graça)

(***) Último poste da série > 
16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27824: Manuscrito(s) (Luís Graça) (284): a crise da habitação não é apenas dos humanos, é também das... cegonhas que se renderam ao "fast food" e já não migram para África!