
Queridos amigos,
Salvo melhor opinião, nunca se tinha ido tão longe na biografia política de Amílcar Cabral. Biografia política e pessoal, no que política e pessoa se interligam pela formação, pela personalidade e no caso vertente pelo génio da actuação, os seus sucessos clamorosos e desastres rotundos.
O Doutor Julião Soares Sousa já recebeu a aclamação pela Universidade de Coimbra, é justo que os estudiosos que agora passam a ter ao alcance este estudo monumental o apreciem pela seriedade e rigor com que conduziu a sua investigação, do princípio ao fim. Será seguramente um livro controverso, alimentará polémicas na medida em que faz cair mitos, retira da sombra combatentes incómodos e não dissimula o pano de fundo do complô contra Cabral e a direcção política predominantemente cabo-verdiana.
Um abraço do
Mário
"Amílcar Cabral – Vida e Morte de um Revolucionário Africano"
Amílcar Cabral, uma biografia política, um grande acontecimento cultural
Beja Santos
“Amílcar Cabral – Vida e Morte de um Revolucionário Africano”, por Julião Soares Sousa, Nova Vega, 2011, é indiscutivelmente uma obra incontornável para os estudiosos da guerra da Guiné, da luta de libertação e da personalidade de grande estatura que foi a do dirigente máximo do PAIGC. Tem por base a tese de doutoramento na Universidade de Coimbra de Julião de Soares Sousa, o primeiro doutor guineense desta universidade.
Tratando-se de uma investigação aturadíssima que comporta perspectivas e revelações novas e controversas sobre a biografia política e dados pessoais de Amílcar Cabral, só vemos vantagem em encetar por uma apresentação deste estudo de grande fôlego, dando-lhe sequência com mais detalhadas notas de recensão.
O historiador rebate algumas ideias preconcebidas (algumas de sabor puramente hagiográfico e mitológico) defendidas pela grande maioria dos estudiosos da obra de Amílcar Cabral nomeadamente no que dizia respeito à influência do pai na sua formação intelectual (de acordo com o autor foi a mãe, Iva Pinhel Évora, a sua grande referência e pedra angular de princípios), expõe com clareza a evolução das atitudes anticolonialistas na Guiné e no quadro metropolitano onde Amílcar Cabral consolidou o seu ideário para a libertação do homem africano. A escolha de um curso de agronomia foi uma descoberta vocacional e será graças ao recenseamento agrícola na Guiné que ele irá conhecer o território palmo a palmo.
O jovem Cabral que enveredou pela actividade literária em S. Vicente é um produto típico de um cabo-verdiano envolvido num conceito de portugalidade e de africanidade. Só em Lisboa é que emerge para a socialização política, anda perto do MUD/juvenil e do PCP, cedo irá marcar distâncias quanto à natureza da emancipação africana mas marcando a diferença do que é verdadeiramente prioritário era a independência das colónias. Será em Lisboa que se irá relacionar com personalidades com quem irá criar amizade e companheirismo político, caso de Mário de Andrade, Lúcio Lara, Marcelino dos Santos e Viriato da Cruz.
Perto do final da década de 50, Cabral é um homem de ideias amadurecidas, lança-se no MAC – Movimento Anticolonialista e a partir de 1959 entrega-se de alma e coração à organização do PAI/PAIGC, em estreita colaboração com o motor da mobilização dentro da colónia, Rafael Barbosa. Instalado em Conacri, lança as bases da guerrilha e da aproximação internacional. Cedo é confrontado com o cepticismo e até a profunda contestação das suas teses sobre a unidade da Guiné e Cabo Verde.
Julião Soares Sousa esmiúça os diferentes termos da equação em torno das concepções da unidade africana que fizeram o seu tempo nos anos 50 e 60, embora tenham praticamente todas falido. Documenta o início da luta armada e a rápida implantação do PAIGC no Sul, a partir de 1962, seguindo-se uma região do Leste e depois o Morés. O historiador dá como provado que Cabral antevira um estado socialista na Guiné, sob a liderança de um partido único de vanguarda, com múltiplos mecanismos de poder descentralizado e com instância militar profundamente controlada pelos comissários políticos, tudo fruto das deliberações adoptadas no Congresso de Cassacá (1964).
Com a profunda militarização, os portugueses e os guerrilheiros do PAIGC foram confrontados com uma nova realidade: a conquista das populações, o seu controlo e fixação. O ideário de Spínola, nesta vertente, será uma permanente dor de cabeça para Cabral. O historiador procede a um exame exaustivo dos conflitos internos, deixa bem claro que a tensão entre cabo-verdianos e guineenses foi uma constante, mesmo antes da luta armada e até ao assassinato do líder, em 20 de Janeiro de 1973.
No início da década de 70, Amílcar Cabral é um dos mais proeminentes líderes africanos, distingue-se pela ousadia como reflectiu sobre o pensamento socialista, a unidade africana, a capacidade de antecipação face ao contendor. Em 1972 está em andamento um conjunto de operações destinadas a desequilibrar em definitivo o impasse da guerra colonial: a URSS promete fornecer material bélico tecnologicamente superior e preparar pilotos guineenses para um novo quadro ofensivo; com base num recenseamento interno, o PAIGC prepara-se para anunciar a sua independência unilateral, manobra para a qual se sabe que a potência colonial não possui capacidades de contra-argumentação.
É neste quadro complexo de preparativos que Cabral descura a frente interna. Como Julião Soares Sousa ilustra ao longo de centenas de páginas, o líder é o coração e o nervo do PAIGC: é o único ideólogo, é o único político que o pode representar na cena internacional, todas as teses, todos os documentos sobre a luta armada e a denúncia do colonialismo lhe saem do punho. Como se verá na análise do complô, é indesmentível que foram militantes guineenses que liquidaram Cabral. Mais, Portugal, com a morte de Cabral perdia a última possibilidade de um entendimento para uma transição menos dolorosa como aquela que teve lugar em Outubro de 1974. A sua morte foi um contratempo para a independência, mas esta tinha ganho raízes suficientemente fortes. E a luta armada, de 1973 para 1974, é o que toda a gente sabe que foi.
Amílcar Cabral tem sido objecto de biografias, estudos e memórias de indiscutível interesse. Este será porventura o seu retrato mais completo: o estudante assimilado, o socialista heterodoxo, o pensador arrojado, o líder que viveu perigosamente, enfrentando a belicosidade das suas teses, como a paradoxal unidade Guiné-Cabo Verde. Um líder político que consorciou o projecto da independência fundando-a numa luta armada que ele desenhou e manobrou. O líder que amava profundamente a sua mãe a quem dedicou um poema na sua página do Livro de Curso, em 1949:
Para ti mãe Iva,
Eu deixo uma parcela
Do meu livro de curso…
Pr’a ti, que foste a estrela
Da minha infância agreste.
A tua alma viva
E o teu Amor profundo,
Aceita este tributo,
Que tudo quanto eu for,
Será do teu Amor,
- Tua carne, Mãe, teu fruto!
Sem ti, não sou ninguém.
Só sou - porque és Mãe.
(Continua)
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Nota de CV:
Vd. último poste da série de 1 de Julho de 2011 > Guiné 63/74 - P8496: Notas de leitura (252): Picadas e Caminhos da Vida na Guiné, de Fernando de Sousa Henriques (Mário Beja Santos)