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sábado, 29 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27476: Os nossos seres, saberes e lazeres (711): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (232): Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 4 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Espero não enfastiar-vos com este cadinho de imagens espúrias, fundos de gaveta, em suma, isto no exato momento em que me preparava para organizar a visita com amigos alemães ao Museu Nacional dos Coches. Quando a visita mete alemães, impõe-se responder a uma perplexidade: porque razão este país apresentado como pobrete e alegrete guarda um património tão fabuloso destes carros de aparato e instrumentos complementares? Não é fácil nem confortável justificar a quem tem esta perplexidade que a meteorologia está a nosso favor, não há para aqui nem gelos nem intempéries, as guerras foram poucas e quem nos invadiu tinha como alvo os tesouros das igrejas e dos palácios. Voltando às imagens que aqui se apresentam, os tais fundos de gaveta, para vos dizer a verdade, eram mesmo imagens que eu tinha o aprazimento de ver e rever, mais não fosse para recordar as boas companhias em que as tirei e guardei.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (232):
Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente – 4

Mário Beja Santos

As surpresas são como as cerejas. Confiante que já me tinha desembaraçado de imagens avulsas de idas aqui e acolá, tudo já vertido para esta secção do blogue, preparava-me para contar uma viagem ao Museu Nacional dos Coches, e fiquei um tanto atordoado com este conjunto de imagens espúrias. Como é evidente, conheço as circunstâncias em que as tirei e com quem. Logo esta primeira, naquela tarde levei um casal alemão da minha estima na visita obrigatória do elétrico 28, parámos na estação da Basílica da Estrela, havia uma cerimónia religiosa, ela e ele estavam assombrados com aquele templo que, francamente, só tomo a iniciativa de visitar para ver o genial Machado de Castro e aquele presépio como não há outro. Levei-os até à zona do zimbório, eles especados com a cabeça erguida a ver o interior da formidável cúpula, nisto ouvi cânticos e aqui cheguei à chamada Capela da Adoração. Escreveu um dia o historiador de arte José-Augusto França que este monumento mandado fazer por D. Maria I é um perfeito anacronismo, o que é completamente verdade, mas tenho que reconhecer que esta capela goza de uma grande harmonia e confesso que nunca a tinha visitado, sabe se lá porquê.
Capela da Adoração, Basílica da Estrela
Júlio (dos Reis Pereira), o pescador de sereias, 1929, quadro em depósito no MNAC
Paula Rego, A Noiva, 1972, quadro em depósito no MNAC
Menez, sem título, 1985, quadro em depósito no MNAC

Em tempos que já la vão, Emília Ferreira, então diretora no Museu Nacional de Arte Contemporânea, organizou com a sua equipa uma espantosa exposição sobre os grandes movimentos artísticos do século XX, para além da prata da casa, onde há peças imorredoiras, apresentava-se um acervo de obras em depósito, lembro-me de ter feito o registo desta itinerância, mas guardei estas três imagens como tesouros, o quadro de Júlio foi uma provocação para a época, quer pelo traço, quer pela natureza dos temas, uma falsa ingenuidade, uma quase simpática rudeza que em tudo contrariava o que faziam os seus colegas modernistas. Como Paula Rego igualmente deve ter criado anticorpos com formas quase grotescas e um delineamento pretensamente primário, para mim com cores sublimes; mas confesso que é a organização pictórica de Menez que mais me deslumbra. Tenho para mim que guardei episodicamente estas três imagens, tomo-as como cartas fora do baralho e fulgores do engenho de artistas um tanto contra a corrente.
Virgem com o Menino, Gregorio di Lorenzo, Florença, século XV, mármore
Ainda o passeio em que levei o casal alemão a Monserrate, isto depois de saber que eles pretendiam revisitar aquele parque místico, mas pediram-me garantias de que iriam ver o mar, não o Cabo da Roca, mas uma praia com o bramido das ondas, um mar violento, retorcido, se possível com rochedos. A garantia foi dada, entrámos no parque onde viveu a família Cook, então muito endinheirada, renderam-se aos ardores estilísticos do neorromantismo, se o Sr. D. Fernando Saxe-Coburgo-Gota podia caprichar com aquele Palácio da Pena cheio de estilos passados, onde não faltam os arabescos, os góticos do século XIX, e muito mais coisas, também Monserrate se rendeu aos arabescos, ao naturalismo, ao neorromantismo, sem prescindir do conforto nas salas, nos quartos e na cozinha, os Cook eram também colecionadores, a generalidade dos bens foi depois a leilão, deslumbra a recuperação do edifício, mas custa ver tanto espaço vazio, embora haja muita vontade dos doadores. Mostram-se aqui imagens de arabescos, um belo mármore do século XV, e num templo em que o outono vive sem flores apanhei esta linda planta que dá pelo nome de cosmos, é muito frágil e cheia de cintilação.
É a despedida de Monserrate, aquela neblina que se vê ao fundo é quase um toque místico, o que estamos a ver é tirado da varanda do Palácio, é uma encosta suave, em dias de verão não é difícil ver nela a criançada a brincar isto enquanto os mais crescidos deste ponto alto sentem que há um elemento mágico que esvoaça por este arvoredo de um dos parques mais belos do mundo.
Para corresponder ao pedido dos meus amigos, levei-os inicialmente à Praia Grande, olhei para o relógio, o lusco-fusco não estava muito longe, havia que escolher entre a Praia das Maçãs e a Praia da Adraga, tenho fortes razões para escolher esta última, gosto de ouvir o bramido daquelas ondas a rebolarem-se em cachão, e gosto imenso deste rochedo, começara a enchente, os turistas fugiam da espuma que ia tomando conta da areia, com gritinhos de alegria, o sol declina, há mesmo vento, mas o mais agradável de tudo é que os meus amigos me agradeceram este final de passeio, em natureza tão esplendente.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 22 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27452: Os nossos seres, saberes e lazeres (710): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (231): Por casualidade, o fotógrafo interessou-se por tal momento, por ele considerado esplendente - 3 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27475: As nossas geografias emocionais (60): Cape of Good Hope / Cabo da Boa Esperança, South Africa / África do Sul (António Graça de Abreu, Portugal)



Foto nº 1A e 1 > "Cape of Good Hope, the most south- western point of the 
African Continent" / O Cabo da Boa Esperança, o ponto mais a sudoeste do Continente Africano...
.
É aqui que  o Oceano Atlântico e o Oceano Índico se encontram. Hoje é um ponto turístico, conhecido pela sua beleza natural e por ser um ponto geográfico famoso na história
da navegação e da expansão marítima dos Portugueses.. Bartolomeu Dias foi  o primeiro europeu a dobrá-lo, chamou-lhe  "Cabo das Tormentas" devido às tempestades e por ser o reino do Mostrengo... 

Foi oi rebatizado por D. João II como "Cabo da Boa Esperança", pelo facto de abrir uma nova rota rota comercial  para o Oriente, destronando assim o Mediterrâneo. Mais do que  rota comercial, uma ponte para unir os povos, a humanidade.

 


Foto nº 2  > África do Sul > Cabo da Boa Esperança : Outubro de 2025 > Muito para além do fim do horizonte, a Índia, a China, os orientes extremos, pedaços imensos de um outro, o mesmo mundo.



Foto nº 3 > África do Sul > Cabo da Boa Esperança > A nau de 
Bartolomeu Dias (c. 1450-1500), na segunda viagem com Pedro Álvares Cabral em 1500, a caminho da Índia, aqui se perdeu e nunca mais ninguém soube do seu destino, dele e da má sorte dos seus homens.


Foto nº 4 > África do Sul > Outubro de 2025 > 
 A caminho do Cabo das Tormentas ou da Boa Esperança


Foto nº 5 > África do Sul > Vista de Gordon Bay,  
Krystal Beach Hotel, a 60 quilómetros da cidade do Cabo (Foto nº 5).


Fotos ( e legendas"):  © António Graça de Abreu (2025). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





1. Mais um "postal" enviado, com data de 30/10/205, 01:33, pelo nosso incansável, (e)terno viajante António Graça de Abreu (já nem ele sabe quantas voltas deu ao mundo, sozinho, ou com a sua adorável Han Yan, médica, mãe de dois dos seus filhos). O casal vive em Cascais.

Náo é preciso recordar que o António foi alf mil, CAOP1, Teixeira Pinto / Canchungo, Mansoa e Cufar, junho de 1972/abril de 1974; é sinólogo, escritor, poeta, tradutor; tem c. de 380 referências no blogue.



Cabo da Boa Esperança, África do Sul, outubro de 2025

por António Graça de Abreu


— "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto IV, 94


Três dias bem instalado, com dormida e comidinha estranha no Krystal Beach Hotel, de Gordon Bay, a 60 quilómetros da cidade do Cabo (Foto nº 5).

Tempo para descansar e avançar por chilreantes caminhadas nesta vilazinha e arredores encaixados numa baía maior que dá pelo simpático nome de False Bay, mas onde nada é falso, tudo é mais do que verdadeiro.

O tempo está frio, Inverno austral, 18 graus, a praia do Bikini aqui ao lado não convida para grandes banhos e dizem-me que há tubarões por perto, o olho do peixe bem aberto para a carne e pele, branca ou negra, do mergulhador distraído. Avisado, fui apenas molhar os pés.

Depois, o adeus a Gordon Bay. Quase um dia inteiro, açambarcando uma centena de quilómetros em funcional carrinha alugada, subindo e descendo por montes, pelo espairecer da terra no beijo do mar, por praias e enseadas no quase extremo meridional de África (Foto nº 4).

A Baía Falsa não é o meu chão, mas será lugar para adivinhar maravilhas e deixar cair o olhar no ondular do encanto.

Alcandorar-me em falésias que mergulham no mar, quase voar sobre o rasgar da pedra e o azul intenso do Oceano, na costa recortada a caminho do Cabo das Tormentas ou da Boa Esperança. Ao chegar, imaginar os pendões silenciosos da História, as efemérides, o testemunho de uma época em que as bravas e loucas gentes lusitanas saíam do nosso humilde chão e se vinham perder, ou encontrar, ou morrer afogadas nestes mares austrais do fim do mundo.

Adivinhei Bartolomeu Dias (cuja nau, na segunda viagem com Pedro Álvares Cabral em 1500, a caminho da Índia, aqui se perdeu e nunca mais ninguém soube do seu destino, dele e da má sorte dos seus homens),Vasco da Gama,

 Luís de Camões e mais uns tantos cinquenta, cem mil portugueses da era de quinhentos dilacerando este mar nas suas casquinhas de noz, descobrindo meio mundo, naufragando no sonho e na aventura, em convulsões trágico-marítimas. Sobrevivendo, era a heroicidade e o pranto, sulcar as águas infindáveis do mar, navegar na insensatez, no desvario, na cobiça e no sonho dos sinuosos caminhos dos homens. Cabo das Tormentas, Cabo da Boa Esperança (Fotos nºs 1, 2 e 3).

Hoje, nestes dias do fim da Primavera a sul, a Boa Esperança, o Oceano Atlântico avassaladoramente calmo, as pequenas enseadas pedregosas na carícia requintadamente azul, a crista das ondas faiscantes debruada a branco.

O Cabo da Boa Esperança. A leste, o mar calmo e limpo. Muito para além do fim do horizonte, a Índia, a China, os orientes extremos, pedaços imensos de um outro, o mesmo mundo.
 
Recordo o encontro do homem do leme, na nau de Bartolomeu Dias em 1488, enfrentando o Adamastor, dono e senhor de naufrágios e tempestades, no poema de Fernando Pessoa, para a memória futura. O poeta assim escrevia:

O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo;
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

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sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27474: A Nossa Marinha (5): Os últimos marinheiros do Império


Angola > Novembro de 1975 > Porto de Luanda > Atracada, a corveta General Pereira d'Eça  (F477, número de amura), da classe João Coutinho. Em primeiro plano , uma LDG, a carregar pessoal.


Angola > Novembro de 1975 >  Instalações navais da Ilha de Luanda


Lisboa > Outubro de 1974 > O regresso do DFE 4, o último Destacamento de Fuzileiros Especiais a abandonar a Guiné... Consegue-se ler no pano exibido pelos fuzileiros: |73 7 de Abril 15 Out (?) | DFE 4  |  Paz No Mundo  (?)| MFA | Viva Portugal|


Em 1973, a partir de agosto o dispositivo dos fuzileiros no CTIG era o seguinte:  DFE 1, Ganturé |  DFE 21, Cacheu, no rio Cacheu  | DFE 12, Cafine, rio Cumbijã |DFE 4, Chugué, rio Geba/r moio Corubal | DFE 22, Cacine, rio Cacine.












Fonte: texto e fotos: Excertos de "O Anuário da Reserva Naval: 1958-1975", da autoria dos comandantes A. B. Rodrigues da Costa e Manuel Pinto Machado (edição de autor, Lisboa, 1992),  pp. 62-63. (Com a devida vénia.)


1. A Marinha teve um importante papel antes, durante e depois da guerra.  

A cartografia militar da  Guiné muito lhe deve. Muitos de nós fomos transportados em LDG ou LDM, de Bissau para o mago de e do mato para Bissau ( no fim da comissão). As LDM levaram a "bianda" e munições a muitos portos fluviais. As Lanchas de Fiscalização patrulharam os rios, a par das Lanchas de  Desembarque. Marinha e Fuzileiros participaram em operações conjuntas com o Exercito e a Força Aérea... Foram, eles,  os últimos a sair dos antigos territórios ultramarinos. No caso da Guiné - Bissau, em 15 de Outubro de 1974. Eles foram os últimos marinheiros do império, fechando um ciclo, impressionante,  de 500 anos.

Não se poderá escrever a história da guerra colonial / guerra do ultramar / guerras da descolonização... sem ouvir os nossos marinheiros e fuzileiros... Infelizmente eles estão pouco representados no nosso blogue. E o mais ativo, o Manuel Lema Santos, 1o. ten RN (1965/72), já não está infelizmente entre nós.  Este alentejano de Barrancos, grande cronista da Reserva Naval, acaba de deixar a Terra da Alegria.

(Seleção,recortes, fixação de texto, edição de imagem: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série : 26 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27466: A Nossa Marinha (4): Reserva Naval : uma elite ? Era, pelo menos, mais apelativa para os jovens com formação universitária, de classe média e média-alta, do que o Exército e a Força Aérea e por ela passaram alguns dos melhores quadros da nossa geração

Guiné 61/74 - P27473: Notas de leitura (1869): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
O Boletim começa por realçar a expetativa na criação de uma companhia de alumínio para a Guiné e Angola, tudo tinha a ver com bauxite, depois surgiu a legislação sobre a concessão das explorações petrolíferas, são estas as duas matérias gordas de 1958, o ano em que chega o novo governador, Peixoto Correia. Tanto quanto nos é dado a perceber, o Boletim não primava por grandes investigações, tinha um conselheiro técnico, Artur Augusto Silva, a quem seguramente se devem as análises sobre a economia da República da Guiné e a problemática da mecanização do caju; de resto, e estamos só a falar de 1958 e 1959, reproduzem-se artigos de O Arauto, transcreve-se a legislação da Guiné, discursos do governador, revelam-se as exposições feitas ao Governo e aos serviços públicos. E assim concluí o primeiro volume dos Boletins desta Associação referentes a 1958 e 1959.

Um abraço do
Mário



Uma publicação guineense de consulta obrigatória:
O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné – 2


Mário Beja Santos

Vimos no primeiro texto em que circunstâncias surgiu em 1958 o Boletim de uma Associação que tinha estatutos aprovados desde 1951. Deu-se realce à Companhia Lusitana do Alumínio da Guiné e Angola, mais adiante falou-se das possibilidades petrolíferas do subsolo da Guiné, o empenho do Ministro das Colónias, Raul Ventura, a publicação de dois Decretos, as companhias envolvidas, Norte-americanas, britânicas e alemãs, a opção foi a Esso Exploration Guiné Inc, foram negociações difíceis quanto aos investimentos que a Sociedade tem de fazer e às regalias financeiras que deve dar ao Estado; haveria um prazo de cinco anos para a fase de pesquisas. E dizia-se no Boletim: “Supondo que vem a provar-se a existência de petróleo na área da concessão, de todo o petróleo bruto extraído 12,5% pertence à Província da Guiné, que poderá recebê-los em dinheiro ou em petróleo. Mas supondo que por qualquer eventualidade a província tem interesse em poder comprar mais petróleo, está estabelecido o contrato que a Guiné terá o direito de adquirir metade dos petróleos que do seu subsolo forem extraídos e dar-lhes depois o destino que melhor entender. A realizar-se esta aspiração que modificará radicalmente a estrutura económica da Guiné, são de prever que surjam e se avolumem outros problemas e que esta Província tenha de encontrar, na multiplicidade de caminhos que se lhe oferecem, aquele que nos conduz à felicidade.”

Em Boletim posterior, o Presidente da Associação alertava:
“A vinda em larga escala de empregados da Companhia poderá trazer como consequência um encarecimento do custo de vida. Ora, a verdade é que enquanto a economia da Guiné se basear na produção de oleaginosas para exportação, não será possível melhorar as condições materiais dos seus habitantes, o que será de recear um aumento do custo de vida. Haverá uma maior afluência de moeda no mercado e abundância de dinheiro na mão de alguns. É possível e até aconselhável tomarem-se desde já todas as medidas para evitar a especulação. Não pense o público que a simples presença na Guiné de uma Companhia americana é suficiente para encher de dinheiro os bolsos dos que nada produzem e nem pense que será fácil encontrar emprego em qualquer das modalidades de ação da Companhia. De início, a maior parte dos empregados e operários será especializada, pelo que não poderá ser recrutada na Guiné. De positivo, só podemos contar com o pagamento à Província do arrendamento da superfície o que, não sendo muito, já representa para a Guiné a possibilidade de aumentar os cambiais disponíveis.”


Um ponto curioso que se vai registar nos Boletins de 1959 são as transcrições que se fazer do jornal O Arauto de artigos sobre a mancarra, o problema da cultura do algodão, a cultura orizícola, transcrevem-se as intervenções do deputado da Guiné, Comandante Teixeira da Mota, a correspondência do presidente da Associação tanto com o Governador como com dirigentes dos serviços.

Em 1 de abril de 1959 o novo Governador, Peixoto Correia, presidiu ao Conselho do Governo, o Boletim transcreve o seu discurso, de que se retira a seguinte passagem:
“A nossa exportação é constituída quase exclusivamente por oleaginosas – 90% da tonelagem total e 80% do valor realizado. Dedicam-se por isso os maiores cuidados às culturas do amendoim, coconote e óleo de palma. Há novas culturas em expetativa, a Brigada da Junta de Exportação de Algodão permanecerá mais um ano na Guiné. Ensaia-se a cultura do gergelim. Há a possibilidade de se produzir açúcar, há diligências para a industrialização do caju.”
O Governador enumerou os serviços de ensaios agrícolas e referiu o trabalho que estava a ser feito pela Fazenda Experimental de Fá.


Sendo um Boletim de interesses económicos, realça-se a secção de contencioso e consulta, as exposições feitas aos serviços, faz-se a transcrição da legislação da Guiné que importa à agricultura, comércio e indústria, noticia-se a criação da Escola Comercial e Industrial, que terá um curso de cinco anos. Mas o noticiário associativo também tem carácter social. É assim que se faz uma notícia sobre a presença do Sr. Aly Suleiman há cinquenta anos na Guiné. “De uma atividade fora do vulgar, o Sr. Aly Suleiman é bem o patriarca da numerosa colónia libanesa aqui estabelecida e a firma que fundou e dirige é uma das mais poderosas organizações comerciais da Província onde possui mais de trinta estabelecimentos comerciais, numerosas embarcações de cabotagem e algumas dezenas de camiões para transporte dos produtos do seu comércio. É, na ordem de grandeza, o quatro exportador de mancarra da Guiné.”

Bem curioso é um artigo que se publica sobre a República da Guiné:
“Calcula-se a reserva de bauxite da Guiné, das regiões de Boké e Fria em mais de 280 milhões de toneladas. Mas a bauxite, exportada em bruto, não é fonte de grandes rendimentos e o essencial para a industrialização de bauxite com vista à produção de alumínio reside na energia hidroelétrica. Neste capítulo, a Guiné encontra-se em boa posição, pois é considerada o celeiro de água da África Ocidental Francesa, com os inúmeros rios que aí nascem e as suas quedas de água. Calcula-se que, com facilidade, a Guiné possa produzir, nas duas barragens do rio Konkouré 5 biliões de KW por ano, o que corresponde a uma produção de 250 mil toneladas de alumínio, isto é: uma produção que iguala a atual produção francesa metropolitana. Porém, tem-se verificado ultimamente que a União Soviética não só se desinteressou das fontes externas de bauxite como a tem lançado nos mercados internacionais a preços que não permitem qualquer concorrência. Daí uma diminuição de produção do Canadá e, consequentemente, um retraimento de investimento de capitais estrangeiros na indústria do alumínio na Guiné.”


O artigo refere ainda outras riquezas da República da Guiné como reservas de ferro, uma produção de diamantes, um conjunto de fábricas ligadas a óleos, descasque de arroz, conservas de frutos, produção de bananas, plantações de café. O grande óbice económico é o da Guiné estar privada nos seus mercados tradicionais por se ter afastado da chamada “comunidade francesa”.

Terminamos com uma referência à castanha do caju, tudo tinha a ver com uma firma brasileira que oferecia ao comércio e indústria locais máquinas descascadoras de caju e de despeliculagem. Até então, referia-se no Boletim, todas as tentativas feitas para mecanizar a indústria do caju tinham falhado. “O processo que se afigurava mais viável consistia no descasque por meio da passagem da castanha, primeiro por vapor de água sobreaquecida e, logo em seguida, por um compartimento onde era produzido o vácuo, o que obrigava a castanha a abrir-se por si, sem ofender a polpa. No Governo do Sr. Almirante Sarmento Rodrigues, deu-se um extraordinário incremento à plantação de feijoeiros na Guiné e agora toda a Província deve produzir para cima de 1500 toneladas de castanha de caju, que só é aproveitada em reduzidíssima escala e por métodos mais do que primitivos.”

O autor da notícia manifestava uma grande expetativa no processo de mecanização proposto pelos brasileiros, poderia ser assim que o problema do descasque se resolvesse. Mas como esta maquinaria era de elevado preço seriam necessários capitalistas da metrópole. “Parece-nos duvidoso pois que estamos habituados a ver as reticências com que os capitalistas portugueses investem os seus dinheiros em África. Não seria possível a criação na Guiné de uma sociedade por acções, com a participação do Estado? A pergunta aí fica.”
Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné: ler-se-á num Boletim de 1959 que “Chegou de Lisboa o ilustre artista Sr. José Escada que a Bissau se deslocou para vir decorar a nossa sede – três painéis decorativos alusivos às atividades da Guiné. O nome de José Escada é reconhecido hoje como um dos artistas plásticos de maior prestígio e talento da segunda metade do século XX.”

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post anterior de21 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27449 : Notas de leitura (1866): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 27 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27469: Notas de leitura (1868): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte VI: a IAO em Bolama: "Eh, pá, estás morto!... Atira-te para o chão, que estás morto!" (Luís Graça)

Guiné 61/74 - P27472: Fotogaleria do José António Sousa (1949-2025), ex-sold cond auto, CCAC 3404 / BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73): viagem de saudade em 2010 - Parte II: Passagem pelo Saltinho

 


Foto nº 9


Foto nº 10

Foto nº 11


Foto nº 12


Foto nº 13


Guiné- Bissau > Região de Bafatá > Saltinho> 2010 >  Ponte do Rio Corubal, rápidos do Saltinho e Pousada do Saltinho


Fotos: © José António Sousa  (2010). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. Em 2010, takvez em março,  o José António Sousa (1949 - 2025), ex-sold cond auto, CCAV 3404/BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73), voltou à Guiné (agora Guiné-Bissau), com mais um grupo de camaradas, entre eles  o Rogério Paupério.

Estamos a publicar algumas fotos, dispersas, sem legendas (data e local),  dessa viagem. Recuperámos a maior parte delas, disponíveis na sua página do Facebook.  

Infelizmente também não sabemos quem foram os seus companheiros de viagem, para além do Rogério Paupério. Presumimos que alguns fossem do Bando do Café Progresso, tertúlia portuense que o Zé António frequentava, a par da Tabanca de Matosinhos.

Fotos acima: na sua viagem,  de jipe, de Bissau até à região de Tombali (onde visitaram, pelo menos, Guileje e e o seu "núcleo museológico"), o grupo passou pelo Saltinho, em cuja pousada deve ter pernoitado.

(Revisão / fixação de texto, edição de imagem: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 28 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27471: Fotogaleria do José António Sousa (1949-2025), ex-sold cond auto, CCAC 3404 / BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73): viagem de saudade em 2010 - Parte I: Regresso a Cabuca

Guiné 61/74 - P27471: Fotogaleria do José António Sousa (1949-2025), ex-sold cond auto, CCAC 3404 / BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73): viagem de saudade em 2010 - Parte I: Regresso a Cabuca

 


Foto nº 1


Foto nº 2


Foto nº 3


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Foto nº 5

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Foto nº 6


Foto nº 7


Foto nº 8

Guiné- Bissau > Região de Gabu > Cabuca > 2010 > A visita deve ter sido em fevereiro ou março, no tempo seco


Fotos; © José António Sousa  (2010). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)

1. Em 2010, o José António Sousa (1949 - 2025), ex-sold cond auto, CCAV 3404/BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73), voltou à Guiné (agora Guiné-Bissau), com mais um grupo de camaradas, entre eles  o Rogério Paupério.

Fomos agora descobrir algumas fotos, dispersas, sem legendas,  dessa viagem. Recuperámos a maior parte delas, disponíveis na sua página do Facebook. Seria uma pena perderem-se, mesmo sem legenda (indicação da data e local). 

Infelizmente também não sabemos quem foram os seus companheiros de viagem, para além do Rogério Paupério. Presumimos que alguns fossem do Bando do Café Progresso, tertúlia portuense que o Zé António frequentava, a par da Tabanca de Matosinhos.

Além de Bissau, o grupo passou, pelo menos, por Saltinho, Buba, Guileje, Gabu e Cabuca. As fotos, infelizmente,  não trazem legenda.

Em 1971/73, Cabuca era o aquartelamento ( e tabanca em autodefesa) que se situava mais a sudeste, na Zona Leste, Região de Gabu, depois da retirada das NT de Beli (1968), Madina do Boé e Cheche (1969). Ficava na margem direita do Rio Corubal, a sudeste de Nova Lameg (cerca de 25 km) o, e relativamente próximo da fronteira com a Guine-Conacri, pr+oxima da região do Boé.



Bando do Café Progresso, Porto  > s/l> s/d  > O Zé António é o primeiro da direita, seguido do  Zé Ferreira o o Ricardo Figueiredo.


Bando do Café Progresso,. Progresso > s/l >s/d  :  A poutra metade do grupo... Em primeiro lugar, o "bandalho-mor", o Jorge Teixera, à esquerda. E,m quarto kugar, o António Cavalhao, seguiddo o Manuel Cibrão Guimarães, do Jorge Lobo, do Cancela e do Fernando Súcio... Fotos da página do Facebook do José António Sousa.

(Revisão / fixação de texto, edição de imagem: LG)