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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28296: Tabanca da Diáspora Lusófona (44): A minha ida para o Canadá, em fevereiro de 1974 (João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)









Capa da brochura "Memórias da CCAÇ 2402 (Guiné 1968/1970), Volume II", mimeog", 2008, páginas inumeradas,il. (Coordenação: Raul Albino, 1944-2020).


Ele foi um dos colaboradores deste II Volume, juntmente com o ex-cap inf Vargas Cardoso, também já falecido em 2023,  e de outros camaradas como o Carlos Sacramemto, Carlos Santiago, Carlos Costa, Joaquim Ramalho, Maurício Esparteiro, António Maria Veríssimo, António Fangueiro da Silva, e o próprio Raul Albino. O João Bonifácio é membro da nossa Tabanca Grande desde 1 de dezembro de 2006.

Em homenagem ao Raul Albino, ex-alf mil da CCAL 2402, que nos deixou em plena pandemia  (, aliás foi o próprio João Bonifácio que nos deu a triste notícia),  reproduzimos no poste P21652 dois aponatmentos sobre o Natal de 1968 e de 1969, da autoria do João, incluidos naquela brochura.

As fotos de cima (e as legendas) são do João G. Bonifácio, ex-fur mil SAM, da CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70), a viver no Canadá (Oshawa, Ontario).

Fotos (e legendas): © João Bonifácio (2008. Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






A história da minha ida para o Canadá, em 1974

por João Bonifácio

Vamos ver como vou ser justo, porque tanto o Luís como o João Crisóstomo querem saber como é que eu vim parar ao Canadá. 

As histórias são quase todas semelhantes. Nem tudo correu bem, e eu nem queria acredita ter servido o exército por 37 meses ( 21 meses e quatro dias npo CTIG). Na verdade eu até nem precisava de emigrar, estando bem empregado. 

Creio que o descontentamento de tudo o que se estava a desenrolar em Portugal, fez com que eu assim decidisse ir para o Canadá. Sair de Portugal foi na verdade o mesmo que deixar tudo e todos a chorar de saudade, mesmo antes de embarcar. Em 15 de fevereiro viajei na TAP para Toronto.

A Montreal chegamos atrasados e por isso estivemos à espera de um avião da Air Canada. À chegada a Toronto, e já numa hora tardia, tínhamos à espera uma tempestadade de neve, frio e uns amigos que nos foram esperar ao aeroporto. 

No dia 16 de fevereiro eu fazia anos. Quando acordei e espreitei pela janela, tudo era um manto branco de neve e as ruas completamente vazias. Também aqui não foi fácil, pois entrámos no Canada no meio de uma depressão económica. Fui ultrapassando estas pequenas/grandes tormentas e fui trabalhar para uma fábrica de sofás, onde não estive muito tempo..

Mudei para o Hospital de Oshawa onde estive 26 meses. Aqui melhorei o inglês e até me ajudou a adaptar ao convívio com pessoas de várias etnias.

No hospital aprendi muito. Do hospital mudei para a Chrysler, na indústria automóvel, onde tínhamos um vencimento bastante bom e com todos os benefícios inerentes, negociados pelo sindicato. Com trabalho extra até arrecadava um cheque semanal muito positivo. 

A minha vida mudava todos os dias. Durante este período fiz escritas de pequenas empresas, trabalhei em duas agências de viagens e um dia até fiz radio em Toronto, a 50 kms da minha morada. A rádio foi a cereja no topo do bolo. Fiz anúncios, notícias e conheci artistas de Portugal e do Brasil.

A idade não perdoa e a certa altura eu comecei a fazer menos. Mudei para a GM Canada onde desempenhei varias tarefas desde a montagem, à inspeção e preparação de documentos para exportação. Cheguei ao fim com 30 anos de serviço e fiz a maior asneira possivel. Vendi tudo e fui embora para a terra do sol.

Portugal já não era o mesmo, e ao fim de um ano e pouco embrulhei tudo e regressei ao Canadã. Todos os meus planos e desejos cairam por terra. Isto aconteceu em marco de 2011 e agora tudo mudou. 

Consegui uma reforma muito confortável e com um pacote de benefícios invejável. Praticamente nada pago na saúde. Contudo o custo de vidaé levado, mas vamos gerindo tudo com calma. É uma vida diferente, e notamos que não ha imigração como na Europa. 

Agora temos os filhos de portugueses que cresceram e constituíram familia.  Tive a honra de formar o Clube Portugues de Oshawa em fevereiro de 1978, com a ajuda de uns amigos, é lá que ainda passamos horas de convívio,

Hoje posso dizer que estou integrado e,  como estudei em Beja, estou bem com o inglês e o francês, para além do meu português que me tem ajudado a fazer traduções e que me faz muito orgulhoso. 

Como gosto de ajudar, estou bem em lidar com o departamento de desemprego, de impostos e finançaas, serviços de saúde e sociais, onde a ajuda aos menos afortunados é muito apreciada. 

Esta é a história da minha vinda para o Canadá. Para os que ainda sonham emigrar, apenas sugiro que deixem o tempo ajudar a adaptação. Com o tempo tudo fica bem. O Canada não é Portugal. Cada um com as sus próprias valências e motivações de futuro risonho. 

Portugal é apenas o resultado da falta de cuidado. Incêndios, desmoronamentos, acidentes e crime sem razãoo, e muitas dificuldades de todo o género. Estou à espera de melhorar um pouco para poder ir até Lisboa. 

Obrigado a todos os que lerem este testamento e também que respondam ao que não gostarem. Ao Luís e João por favor bebam um cafe a meio deste desabafo. Fiquem bem e até breve.

João Bonifácio
ex-fur mil do SAM
CC2402 / BCAÇ 2851
(Có, Mansabá, Olossato, 1968/70)

Oshawa, Ontario, Canada (***)

(Fica a c. 60 km, a nordeste de Toronto, capital da província de Ontario)
___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd- pposte de 26 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28295: Tabanca da Diáspora Lusófona (43): From John (Crisostomo), USA, to John (Bonifacio), Canada


(***) Vd. poste de 1 de dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1331: Blogoterapia (9): Quando a Pátria não é Mátria para ti (João Bonifácio, Canadá, ex-fur mil vagomestre, CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)

(...) O ex-alf mil Raul Albino fez o favor de me enviar este site, e eu, quando posso, procuro rever toda a Guiné, através das exposições de todos os nossos ex- camaradas, a todos os níveis.

Depois de finda a minha comissão, como Furriel Miliciano do SAM (vulgo,vagomestre), e após um pequeno período de descanso e adaptação, regressei a Lisboa com a minha esposa e filho, onde reatámos as nossas vidas.

Não foi longa a minha estadia em Portugal, uma vez que a desilusão que sofri ao regressar... Assim, ao ver que o futuro seria complicado para os filhos, decidi pedir autorização para sair de Portugal, com destino ao Canadá.

Se na altura eu me sentia ofendido com o meu próprio país, bem pode imaginar quando na Amadora me pediram 1500 escudos em selos, para selar a minha desvinculação a Portugal. 

Saí de Portugal a 15 de fevereiro de 1974, mas já sabia que alguma coisa se iria em breve passar. Mas era tarde, eu havia decidido que, depois de 37 meses no exército e 21 meses e 4 dias na Guiné, devia merecer mais um pouco de compreensão. (...)

(...) Comentário de L.G.:

Meu caro João /My dear John:

(...) Fico muito sensibilizado com a tua mensagem… Eu sei que a Pátria não foi Mátria para ti, foi madrasta... E eu sou o primeiro a ser solidário contigo, eu que decidi ficar na terra que me viu nascer... Sei que isso não te vai servir de consolo, mas não imaginas o rol de reclamações que recebo neste pequeno canto da blogosfera!... 

Enfim, o importante é que hoje estejas bem, nesse grande país que eu admiro… Mas as tuas raízes, a tua identidade, o teu passado estão aqui, estão connosco… Nenhum de nós terá futuro, se não souber preservar e até alimentar o passado. A Guiné marcou-nos a todos, com o seu ferrete... Mas foi em português, na língua de Camões, que exprimimos os sentimentos mais nobres ou dissémos os palavrões mais horríveis. 

João: não adianta. Não se escolhe a Pátria, não se escolhem os pais nem os irmãos, não se escolhe a língua materna... Mas dessa ao menos eu tenho (e tu tens, nós temos) orgulho... É em português, e em bom português, que comunicamos na blogosfera, neste blogue, na nossa tertúlia, nesta caserna virtual onde todos cabemos, de Lisboa a Bissau, de Viana do Castelo a Toronto, de Coimbra a Luanda.  (...) 

Guiné 61/74 - P28295: Tabanca da Diáspora Lusófona (43): From John (Crisostomo), Queens, New York, USA, to John (Bonifacio), Oshawa, Ontario, Canada




Bandeiras de Portugal, Canadá e EUA
 
Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)

João Crisóstomo.
Cartoon: Gemini IA / Google + LG

1. Mensagem que o João Crisóstomo, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona, mandou a partir da sua casa em Queens, Nova Iorque, para o João Bonifácio, que vive em Oshawa, 60 km a nordeste de Toronto, Onta5rio, Canadá, e  que foi fur mil SAM,  CCAÇ 2402/BCAÇ 2851 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70) (*):


Sent: Monday, August 24, 2026 5:46 AM
To: John Bonifacio 
Subject: Hello de Nova Iorque

Caro Bonifácio,

Oxalá recebas este. Manda-me o teu número de telefone para podermos cavaquear um pouco, Ok? Se quiseres, o meu telefone é o (...),

Um grande abraço dum velhote ( eu sou de 1965-67) e já fiz os meus 82… E, como tu, acarretando as maleitas de que falas…

João, Nova Iorque
John Crisostomo

2. O João Bonifácio (de quem, espantosamente, ainda não temos nenhuma foto atual no blogue...) respondeu nestes termos (conforme cópia que o João Crisóstomo  nos facultou):
 

 On Aug 24, 2026, at 11:30 PM, John Bonifacio wrote:

Olá, John,

Acuso recebido o teu e-mail, que agradeço e me admiro do teu interesse em comunicar comigo. Lembro-me dos e-mails anteriores e nunca percebi como chegaste à minha morada, e do mesmo modo, como tens passado a tua vida, e com os contatos que ganhaste ao longo da vida.

Os meus 81 anos e as dores nas pernas como resultado do Covid19, tiram-me um pouco da liberdade que sempre tive de explorar outros terrenos. Sou uma pessoa pacata que um dia resolveu escrever as suas histórias na Guiné-Bissau. Não sei se foi por aí que tudo iniciou, mas na verdade, apenas tenho uma vaga ideia do teu passado, dos trabalhos, como vieste para os USA. Aliás o teu currículo ~´e muito rico e variado, e por isso eu,  não sabendo dos detalhes, achei que não seria correto trocar ideias por este meio.

Estou no Canadá desde fevereiro de 1974, mas não sei porque aqui vim parar. Talvez porque sabia de tudo do nosso 25 de Abril e,  mesmo não sendo politico, tive o meu primeiro trabalho em Lisboa como escriturário do Dr Arlindo Vicente, que com o gen Humberto Delgado formaram as candidaturas para Presidente da Republica , em 1958.

Nessa altura estudava eu em Castelo Branco.

A partir desta altura, foi um desenrolar de emoções, que vou deixar para outra vez. Hoje foi um dia complicado e perdoa por ter de parar por aqui. Voltarei em breve.

Um abraço e Obrigado.
João


3. Resposta do João Crisóstomo ao João Bonifácio (e que partilhou connosco, recebida por nós na terça, 25/08/2026, 13:15):

Bom dia, Bonifácio,

"Me admiro do teu interesse em comunicar comigo": comungar a nossa vida com outros parece-me ser a coisa mais natural deste mundo. Faz parte do nosso ADN. Creio que qualquer pessoa que se encontrasse numa ilha sozinho, numa situação de completo isolamento, a coisa que mais desejaria seria não só o de encontrar alguém, como de poder partilhar —dar e receber —a sua vida com outros. 

Portanto não te admires do meu interesse de comunicar. Ao fazê-lo estou dar seguimento a um instinto natural, de alguma maneira na esperança de um "viver mútuo”. Creio por exemplo que se alguém descobrir que outra pessoa precisa de alguma coisa (maneira de curar uma doença,satisfazer uma deficiência, "dar de beber a quem tem sede e de comer a quem tem fome”, e coisas assim), a primeira coisa que quer fazer é satisfazer essa deficiência, de poder talvez ajudar outros com a sua vida e ao mesmo tempo beneficiar da vida de outros. 

É isso que todos nós fazemos todos os dias conscientemente ou não. Relatar e escrever as nossas vidas e ler as experiências e vidas de outros …E por isso este nosso blogue veio preencher uma lacuna, agora bem mais pequena, quebrado que foi o isolamento em que muitos de nós, camaradas que fomos na Guiné, nos encontrávamos.

Espero com muito interesse a tua  história acerca da tua vivência no Canadá, onde chegaste  em fevereiro de 1974.
 
Depois do que escrevi , curioso, fui investigar no nosso blogue a tua participação. E vim a encontrar o muito que escreveste em 2007 e anos seguintes,  ainda eu nem sabia da existência deste blogue. "Shame on me"! (Que vergonha!),  como se costuma dizer, pois, se sou desculpado por não ter lido o que escreveste nessa altura, não tenho desculpas de não ter lido vários outros “posts” teus, inclusive sobre a tua experiência de teres regressado a Portugal e, desiludido, teres voltado de novo para o Canadá.

Mas agora não vou deixar de ler tudo isso. Tanto mais que eu, mais que uma vez, também cheguei a pensar voltar; mas por uma razão ou outra (várias, aliás) acabei sempre por decidir ficar por cá.

Bom! aqui fica mais uma vez o meu número de telefone (....).

Se me quiseres dar o teu número eu ligo-te e podemos falar pelo telefone, que é ainda a melhor maneira de cavaquear, possibilitando trocas instantâneas de informações nem sempre possíveis de outra maneira.

Um abraço amigo,
João


4. Publicaremos, em poste a seguir, a mensagem que o João Bonifácio escreveu com um resumo da sua história de vida. 

Recorde-se que o João Bonifácio foi, "de facto et de jiure", membro da nossa Tabanca Grande em 1/12/2006. Portanto é um dos nossos veteraníssimos (**). Embora, excecionalmente, não tenhamos nenhuma foto dele, atual, no blogue. Passa a ser também membro da Tabanca da Diáspora Lusófona (***)

_____________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 1 de dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1331: Blogoterapia (9): Quando a Pátria não é Mátria para ti (João Bonifácio, Canadá, ex-fur mil vagomestre, CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28243: O nosso blogue em números (115): 22 anos de existência, 22 milhões de páginas visualizadas


Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, criado em 23 de abril de 2004: como em qualquer projeto coletivo, houve sempre quem assumisse maiores responsabilidades editoriais e assegurasse a continuidade quotidiana do blogue. A esses camaradas é devida uma palavra especial de apreço e reconhecimento. Na impossibilidade de meter toda a gente numa "foto de família", lembramos aqui aqueles que figuram na badana (coluna) do lado esquerdo do blogue: editores (Luís Graça, Carlos Vinhal, Magalhães Ribeiro, Jorge Araújo, Virgínio Briote) e colaboradores permanentes (Beja Santos, Cherno Baldé, Hélder Sousa, Humberto Reis, João Crisóstomo, José Martins, José Teixeira,Luís Dias, Patrício Ribeiro, Pinto Carvalho).  É justo recordar outros camaradas que deram a cara, no passado, como coladoradores permanentes, três dos quais infelizmente já se despediram da Terra da Alegr
ia: Joaquim Mexia Alves, Jorge Cabral (1944-2021), José Manuel Matos Dinis (1948-2021), Miguel Pessoa, Torcato Mendonça (1944-2021).

Joaquim Mexias Alves e Miguel Pessoa dinamizam hoje a Tabanca do Centro. Além desta, outras tabancas e tertúlias apareceram, sob o "poilão" da Tabanca Grande: cite-se a Tabanca de Matosinhos, a Tabanca da Linha, a Tabanca dos Melros, a Tabanka da Maia (Malheiro), a Tabanca do Algarve, o Bando Café Progresso. Outras foram mais efeméras ou já se extinguiram por morte do "régulo" (Tabanca de São Martinho do Porto, Tabanca de Porto Dinheiro, Tabanca de Guilomilo)... Outras são ou foram tabancas de um "homem só" (Tabanca dos Emiratos, Tabanca da Lapónia)... Ou são-no "quando o régulo quiser": Tabanca de Candoz, Tabanca do Atira-te ao Mar, Tabanca da Ponta de Sagres - Martinhal, Tabanca da Senhora da Graça... Outras são apenas "virtuais": por ex., Tabanca da Diáspora Lusófona...

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1.  22 milhões de páginas visualizada em 22 anos de existência: um marco de todos nós!

Em plena canícula, no início deste querido mês de agosto, o  blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné acaba de ultrapassar a marca dos 22 milhões de páginas visualizadas. Um milhão por ano  em média.

É um número simbólico, que coincide com outro: em abril passado celebrámos 22 anos de existência.  O que na Web é uma provecta idade!

O início, em 2004, foi modesto; nesse primeiro ano publicámos apenas quatro postes. Ninguém imaginaria então que este projeto (coletivo) chegaria tão longe e a tanta gente.

Ao longo destes anos publicámos quase 28 250 postes, o que corresponde a uma média próxima das quatro publicações por dia.

 Mantivemos sempre um compromisso singelo:  que não houvesse um único dia sem um novo poste. 

Esse compromisso só foi possível graças à dedicação dos editores, dos autores e dos muitos camaradas que, ao longo do tempo, aceitaram partilhar as suas memórias, fotografias, documentos, reflexões e afetos.

Hoje contamos com cerca de 880 seguidores e 917 membros registados na Tabanca Grande. O tempo, porém, não perdoa: cerca de um em cada cinco dos nossos camaradas já partiu. Continuam, no entanto, presentes nestas páginas, porque também elas são um lugar de memória.

Outro número fala por si: cerca  de 112 mil comentários, uma média de aproximada de quatro por cada poste publicado. 

É sinal de que este nunca foi apenas um repositório de textos e imagens, mas um espaço de conversa, de partilha, de reencontros, de debate sereno e de construção de uma memória coletiva.

As estatísticas têm o seu interesse, mas não explicam o essencial. O verdadeiro património deste blogue reside nas centenas, milhares, de pessoas que, ao longo de mais de duas décadas, lhe deram vida: antigos combatentes, familiares, amigos, investigadores, jornalistas,  e leitores, em Portugal, na Guiné-Bissau, na diáspora lusófona e em muitos outros países.

Como em qualquer projeto coletivo, houve sempre quem assumisse maiores responsabilidades editoriais e assegurasse a continuidade quotidiana do blogue. A esses camaradas é devida uma palavra especial de apreço e reconhecimento.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28202: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte XI : semana de 14 a 20 de abril: tempo pascal, a importância da religião católica


Timor-Leste > Liquiçá > Manatti > Boebau > Placa da inauguração da Escola de Sáo Francisco de Assis, em 19 de março de 2018.

Foto: cortesia de página do Facebook da ASTIL 



1. O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22).

São 3 dias de viagem até Díli!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação cirúrgica,delicada, de que está a recuperar felizmente bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.

Ele é um exemplo vivo, o dele e da associação que ajudou a fundar (a ASTIL), de amor à lusofonia. Essa história merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné.

Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025). Depois da pandemia, o Rui voltou a Timor-Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

«


Banda desenhada: Rui Gaspar, João Crisóstomo e Gaspar Sobral, membros da ASTIL

"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Imagem:  João Crisóstomo (2017) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 8 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/"



Continuamos a publicar e excertos das crónicas da III Viagem (2019) (*), realizada pelo Rui Chamusco a Timor-Leste, enquanto cofundador e dirigente da ASTIL, a associação portuguesa de solidariedade com Timor Leste (ASTIL).

Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cerca de 3 centenas de páginas), ficamos a saber muito mais sobre a história, a cultura, a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia daquele país, que nos é tão querido, membro da CPLP.

 Além da construção, organização e funcionamento da Escola, a par do "apadrinhamento de crianças em idade escolar", a pequena ASTIL (que tem sede em Coimbra e delegação no Sabugal) já construiu a "casa do professor" e adquiriu uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. 


Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram entretanhto superadas. Falta, finalmente, resolver o magno problema da colocação, definitiva, de professores de carreira. A escola continua a ser privada e inteiramente financiada pela ASTIL (e os pais dos alunos).

Em  
Ailok Laran, nos arredores de Díli, costuma ficar na casa do irmão mais novo do Gaspar Sobral (outro cofumdador e dirigente da ASTIL, luso-timoresne, retornado de Angola, onde foi topógrafo), o "Eustáquio" (João de Araújo Moniz de Oliveira Sobral) (que de 1975 a 1978, andou fugido dos indonésios nas montanhas de Liquiçá, com a irmã mais nova e a mãe, tinha então 14 anos!).


Rui Chamusco e Gaspar Sobral (2027)

Foto à direita: Rui Chamusco (à esquerda), professor de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é natural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referências no blogue; à direita, o Gaspar Sobral, o luso-timorense, retornado de Angola, casado com a Glória Sobral, natural de Sabugal: foi este casal que meteu o Rui nesta aventura solidária (que, para todos, tem sido gratificante).


III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XI: semana de 14 a 20 de abril



15.04.2019, segunda feira  - Ambição humana ou recado de Deus?

Este dia ficará na história da humanidade como um marco indelével da perda de um património social, político e religioso ímpar, incapaz de ser reparado na totalidade.

O incêndio deflagrado na Catedral de Notre Dame de Paris deixou todo o mundo atónito. A tarde deste dia 15 de Abril de 2019 ficará registada na história de França com marcas de angústia, de tristeza, de pena e de lamentações. Oitocentos anos de vida que, de um momento para o outro, são postos à mercê das chamas, com obras dem arte reduzidas a cinzas. 

A notícia correu célere por todo o mundo. E até aqui em Timor, a tantos quilómetros de distância, é o tema de conversa, particularmente entre os ocidentais que por cá habitam e aqueles que alguma vez tiveram a sorte de visitar
este monumento de renome internacional.

Lembro-me, nos princípios dos anos oitenta, quando habitava Paris, das experiências e vivências que tive neste local: o espetáculo noturno, com raios laser, sobre a história de Notre Dame de Paris; o encontro com o escritor Pe. Jean Leclérc, que dispunha de um gabinete de atendimento na catedral por onde passavam pessoas desesperadas da vida e que, em última oportunidade, foram salvas do suicídio graças a estes encontros (o livro “Début sur le Soleil” escrito por este autor reflete muitos destes casos); o encontro de emigrantes portugueses que, numa tarde de domingo, encheu por completo este templo para uma celebração eucarística, e que depois se prolongou no “parvis de Notre Dame” com manifestações culturais e recreativas; as visitas ocasionais em que eu fiz de guia a alguns amigos que visitaram esta catedral durante a minha estadia nesta cidade da luz.

É impossível ficar indiferente a tal tragédia.

Mas, como nada acontece por acaso, e tal como outros já fizeram com certeza, questiono-me sobre o porquê deste e doutros acontecimentos similares. Como entender tais acontecimentos? Terão algo para nos dizer? Que a Torre de Babel se tenha desmoronado, até parece compreensível à luz da mensagem bíblica. Que as “torres gémeas” de New Work tenham sido abatidas por terroristas assassinos, até parece que se entende devido ao ódio instalado no mundo árabe contra os americanos.

Tudo o que é grande e se orgulha de si próprio como o maior de todos tem o seu fim à vista, sejam torres, aviões, barcos, pessoas, nações, etc... E até pode haver quem diga que isto é castigo de Deus, que são lições de vida, que é o que tem de ser...

Quando há muitos anos estudei teologia, um dos temas de estudo era a “Teofania dos Lugares Altos”. Aí aprendemos que, ao logo de toda a história da salvação, os homens sempre acreditaram que, estando Deus lá no céu, a melhor maneira de estar mais perto dele é subir o mais alto possível, na tentativa de Lhe tocar. Por isso tantos templos, tantas igrejas, tantas capelas no cimo dos montes e em toda a parte.

Mas será que Deus quer ser mesmo tocado (apanhado) desta maneira? Não será mais certo procurarmos cá em baixo o Deus que encarnou e habita connosco? Não será demasiada ambição querer ser igual ou superior a esse Deus criador do céu e da terra?

Quem sabe se o incêndio da catedral de Notre Dame de Paris, este e outros acontecimentos, não terão alguma pedagogia divina? Quem sabe se, em contexto de fé, não serão uma chamada de atenção?... Até já há quem relacione este acontecimento com as “profecias de Nostramus”, como um sinal de purificação nesta Europa que envelhece e perde muitos dos seus valores e referências.

E por aqui me fico, não vão apelidar-me de profeta da desgraça, de bruxo ou de outra coisa qualquer...

17.04.2019, quarta feira  - Ida e volta a Boebau

Era assim que estava combinado. A educadora Diana Rebelo, aproveitando as férias de Páscoa, dispôs-se a ir até Boebau, à Escola de São Francisco de Assis, para “in loco” orientar as duas estágiárias nas suas atividades com as crianças. 

Claro está que nós (o Eustáquio, o Gaspar, a Adobe, a Diana e eu) sentimo-nos na obrigação de a acompanhar e apoiar em todas as solicitações. Depois de três horas de caminho nada fácil, mesmo que viajando em jipe alugado para o efeito, lá chegamos ao destino, onde as crianças já nos esperavam. Depois da imposição do tais à educadora Diana, e feitos os cumprimentos habituais, fomos mostrando e explicando as instalações da escola. 

A Diana aproveitou logo para dar sugestões de trabalho para estes dois grupos de crianças: o Grupo A, de 3 e 4 anos, com 17; o Grupo B, de 5 e 6 anos, com 27 crianças. Ao todo frequentam neste momento a escola 44 alunos.

Verifiquei a avidez com que as senhoras Fátima e Adelina (estagiárias) ouviam e assimilavam as observações feitas pela professora educadora, bem como a preocupação de registarem as ideias de trabalho para cada um dos grupos. Tenho a certeza de que esta visita vai contribuir imenso para o bom funcionamento da escola São Francisco de Assis. À educadora Diana um grande obrigado pela ajuda que, desdeno primeiro momento, nos tem prestado. É para nós uma referência de solidariedade.

Apesar dos muitos afazeres, está sempre disposta a colaborar connosco. OBRIGADO!

Aproveitamos também esta curta estadia para tratarmos de alguns assuntos pendentes, nomeadamente da construção de uma casa residencial para professores e voluntários.

Estivemos no local previsto para a construção, e estamos agora à espera de negociar o terreno e a empreitada. Pedimos para que fossem rápidos a apresentarem as suas propostas e, se assim for, em breve começará a sua construção. Casa residencial é uma condição “sine qua non” para que possamos motivar alguém da classe docente a aceitar trabalhar na nossa escola. Por nossa vontade, a sua inauguração será no começo do ano 2020. Mas isso não depende inteiramente só de nós.

Eram 14 horas quando procedemos ao regresso. Pelas 17.30 horas estàvamos todos em casa, felizes desta jornada. Amanhã será outro dia...

19.04.2019 - Sexta Feira Santa: hábitos, usos e costumes...

A religião católica, a par de outras religiões, tem uma presença muito signicativa na sociedade timorense. A sua influência na vida deste povo é bem notória nos seus hábitos, usos e costumes.

Hoje, Sexta Feira Santa, segundo dia do tríduo pascal, “es dia de dolor / murió nuestro Señor / No se puede estudiar” (letra de uma canção espanhola). 

Pois, aqui em Timor, povo que alia a sua cultura animista ao culto e à prática religiosa, celebra-se com devoção o dia da morte do Senhor em cerimónias que, sobretudo a religião católica, organiza nas suas igrejas. A afluência dos fiés é enorme e, regra geral, todo o povo se orienta por regras e princípios que desde há muito existem ou existiram na maior parte do mundo católico. 

Sabemos que o mais importante está dentro de nós, observantes ou não observantes. Sabemos que há pessoas não alinhadas nestas práticas religiosas.

Sabemos que cada um é livre de seguir esta ou aquela religião. Mas há ainda nesta cultura timorense hábitos, regras, usos e costumes que no dia de hoje, Sexta Feira Santa, ninguém deve transgredir: não dar o bom dia, a boa tarde, a boa noite; não varrer a casa; não fazer barulho: não gritar, não assobiar e não cantar; não ver televisão, etc, etc...

Onde é que eu já vi isto há mais de cinquenta anos atràs?

A verdade é que aqui, em Ailok Laran, hoje não se tem ouvido a algazarra, a música do todos os dias: crianças que passam, jovens cantarolando e tocando guitarra, carretas carregadas de produtos alimentares que, em alta música, vão anunciando a sua chegada, etc... 

O único ruído que se vai ouvindo são as folhas das árvores que, sopradas por um vento suave, nos vão enchendo os pulmões de oxigénio. Nem mesmo o cantar dos galos ou o cacarejar das galinhas se faz ouvir. (Ops!... que agora cantou um galo três vezes e me alertou de que, tal como Pedro, vos estou a mentir.)

Seja como for, o melhor é respeitar a cultura deste povo e a suas manifestações religiosas. Sexta Feira Santa, um dia de respeito, de devoção, de silêncio interior, de purificação. Estamos a caminho da Páscoa da Ressurreição...


20.04.2019, sábado  - Vigília Pascal...em noite de lua cheia

Para os cristãos esta é a noite mais importante do seu calendário litúrgico. Como se lê ou canta no Precónio Pascal, também chamado de “Exultet”, esta é a noite ditosa em que o céu se une à terra para celebrar a Ressurreição de Jesus:

 “No esplendor desta noite / Que viu ressurgir Jesus / Do sepulcro. Exultemos / Pela vitória da Cruz.”

“Noite mil vezes feliz / Na noite clara como o dia / Na noite de Cristo glorioso / Exultemos de alegria.”

Não importa muito como se começa; importa é como se acaba. Ora, convenhamos que a ressurreição de Jesus é um acontecimento únco na história da humanidade, e é o auge de toda a vida terrena, de toda a vida cristã. Como diz a letra do cântico “Ressuscitou” de Kiko Arguello: “ Se com Ele morremos, com Ele vivemos, com Ele cantamos Aleluia!” Ou seja, também nós havemos de ressuscitar. É uma questão de fé. Temos de acreditar.

Em todo o mundo os cristãos celebram a Páscoa (do hebraico Pasha, que quer dizer passagem) com manifestações religiosas diversas: a Festa da Ressurreição, a Festa das Flores (talvez por ser o inívio da primavera): Para os não cristãos é também uma festa.

São as férias escolares, são os encontros de família e de amigos, são as provas desportivas, são os doces e as amêndoas, etc... Queiramos ou não todo o mundo está envolvido. É a Festa da Páscoa de 2019.4.21

Aqui em Timor, com uma maioria predominantemente católica, vive-se a Páscoa intensamente. A julgar pela afluência e participação dos fiéis nas cerimónias que as igrejas promovem. 

Em Ailok Laran, pelas dezanove horas passavam constantemente grupos de pessoas bem trajadas. Perguntei para onde ia toda aquela gente, e de pronto
me responderam: “vão para a catedral, para a vigília pascal. Com mais ou menos meia hora de caminhao para cada lado, quer dizer que só lá para a meia noite estarão de volta. A liturgia desta vigília é muito demorada, devido em parte à quantidade de leituras que são proclamadas. Mas esta gente é de ferro. Tudo suporta em nome daquilo em que acredita. É gente de uma fé inabalável, capaz de tudo. Que Deus os abençõe!

E eu, um ocidental aqui deslocado, que faço eu neste contexto? Às vezes tenho inveja da fé simples mas forte destes crentes. Nós escusamo-nos e defendemo-nos com a nossa racionalidade, mas eles dão-nos exemplos e lições do que é acreditar com o coração. Se calhar, eles é que têm razão.

Mas nesta noite santa de 20 de Abril de 2019, quis a natureza associar-se a esta vigília pascal, presenteando-nos com uma lua cheia espetacular. A noite estava inundada de luz, a preconizar a luz solar que iria colmatar este luar. 

Sentado na varanda mais alta desta casa, desfrutei por horas este cenário idílico, deixando-me embeber deste luar inebriante. E, contemplando a lua, pensei em tudo: no homem que lá se vê com um molho de silvas às costas (crendice de meninos); nas viagens lunares, na compra de terrenos e viagens para a lua, no fascínio e apetência dos homens por este astro através dos tempos. 

A lua feiticeira que a todos encanta e extasia. Contemplando o horizonte, cheio de luzinhas e penumbras provocadas pelo arvoredo circundante, termino louvando o criador com as palavras de São Francisco de Assis, no Cântico do Irmão Sol ou Cântico das Criaturas: “ Louvado sejas meu Senhor pela irmã lua e as
estrelas que no céu formaste claras. preciosas e belas.”

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Nota do editor LG:

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28166 Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (10): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte I: Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo, ou não tem arte







"Prompt e orientação editorial: Luís Graça | Imagem:  João Crisóstomo (2017) | Geração gráfica assistida por IA: Google (2026), Gemini (versão de 8 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem]. Disponível em: https://gemini.google.com/"




1. Rui, tu que és um homem bom, ecuménico, generoso, solidário, cristão, não vais por certo concordar com a colagem, como subtítulo da tua crónica (*), do provérbio popular português "Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte"...

Interpelo o Rui Chamusco, mas também podia evocar os nomes do João Crisóstomo, do Gaspar Sobral, da Glória Sobral,  do Eustáquio, e tantos outros, homens e mulheres da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários Com Timor-Leste. Por certo, que nenhum deles se revê neste provérbio dito popular português.

Muitos destes provérbios são de origem fradesca, machistas, misóginos, racistas, e portanto anticristãos... 

E, pelo que nos contas, Rui, o barlaque timorense não tem a ver com "trocas & baldrocas"...Há negociação, há assimetria de poder, há desigualdades, mas há intermediação, há procura de soluções mutuamente satisfatórias, há uma lógica de "win-win" (ganhas tu, ganho eu, ganhamos todos).

Se bem entendi o essencial do barlaque timorense..., aplicar esse provérbio seria ignorar completamente a lógica do sistema. 

O barlaque não é um negócio de soma zero ou uma partilha de bens onde um tenta passar a perna ao outro; não é a simples e tradicional "caça ao dote" como no Portugal de antigamente ( e ainda hoje, em certos grupos sociais); é um intrincado tecido de alianças, reciprocidade, regulação, partilha e equilíbrio social entre famílias (umane e fetosan).

Estas duas palavras em tétum, fetosan e umane designam categorias de parentesco essenciais na estrutura social tradicional timorense. Elas definem a relação de aliança entre duas famílias unidas pelo casamento.
  • Fetosan: significa literalmente "as mulheres da casa" ou a família que recebe a esposa (a família do noivo).
  • Umane: significa a família que "doa" a esposa (a família da noiva).
Estas duas famílias estabelecem um vínculo de respeito e obrigações mútuas que se mantém ao longo de gerações. Quando há eventos importantes, como casamentos ou funerais, estas duas partes têm papéis rituais próprios, como a troca de gado, tecidos (tais),  arroz e dinheiro (prática conhecida como barlaque).
Não se trata, pois, de "levar a melhor parte", mas sim de selar um compromisso e garantir o respeito mútuo. 

Parece haver e prevalecer uma estratégia "win-win" (ganhas tu, ganho eu), pese embora a contestação deste "construto cultural" por parte da geração mais recente, escolarizada e crítica, e nomeadamente dos que defendem a "igualdade de oportunidades" para as mulheres numa sociedade que ainda é largamente "patriarcal e falocrática".

2. Rui, este provérbio é um daqueles que, à primeira vista, parece querer dar-nos um bom conselho de sabedoria popular sobre o tema da "astúcia e justiça"... 

Mas eu, como sociólogo, estou sempre de pé atrás, em relação à chamada "sabedoria popular" que muitas vezes esconde "minas & armadilhas" (ideológicas, morais, filosóficas, sociolinguísticas, políticas, etc.).

Que tal uma primeira análise, no sentido de o "desconstruir" ou "desmontar" ?!

(i) Vejamos um primeiro nível, mais superficial: a lógica do "ficar com o melhor", o melhor bocado (como acontece com os grupos de animais, predadores, dos leões aos chacais):

O provérbio sugere que quem divide algo (um bem, uma oportunidade, um recurso, uma informação, um "trunfo"...) e não consegue ficar com a melhor parte, é porque é tolo (falta de inteligência), ou não tem engenho & arte (habilidade, malícia, manha e outras ferramentas de poder). É "realismo político"...

Digamos que é, logo de caras, um elogio à esperteza (ou chico-esperteza, tão nossa, tão humana, tão universal mas também tão saloia, tão portuguesa) : quem não souber garantir a sua vantagem, o seu "bocado (ou bocadão"),  num contexto de crise e escassez é merecedor de desdém (o rótulo de "tolo", "coitadinho", "atrasado mental", "pobre-diabo"...).

Primeira questão crítica: este provérbio "naturaliza" a desigualdade. Parte do falso axioma de que a vida é um jogo de soma zero, onde uns, mais fortes e espertos, ganham inevitavelmente à custa de outros, mais fracos, com menos recursos, "bagagem", "cabedais", "trunfos"...

É a eterna questão: uns nascem em berços de ouro, outros são escumalha; há os pretos e os brancos; há os que nascem para mandar e os que nascem para serem mandados; há os ricos e os pobres; os soldados e os generais; os senhores e os escravos... Nasce-se mulher ou homem, num país atrasado ou desenvolvido; nasce-se já doente ou são; inteligente ou burro; etc. Ou citando a genial quadra do genial António Aleixo, "A rica tem nome fino / A pobre tem nome grosso / A rica teve um menino / A pobre pariu um moço".


São tantos os estereótipos a estigmatizar os homens e as mulheres que habitam a nossa "aldeia global" de Timor-Leste a Portugal...

Portanto, não há espaço para a cooperação, a solidariedade ou a equidade, o trabalho em equipa, a concertação, o consenso, a partilha, o dom, valores que, a ti, Rui, que és cristão, te são tão caros. E que pões à prova em Timor-Leste, de Díli a Boebau, nas montanhas de Liquiçá. Tu e tantos outros, anónimos, da ASTIL e de outros organizações.


(ii) A origem fradesca e o contexto histórico medieval

Muitos provérbios portugueses têm origem bíblica ou em sermões moralizantes da Idade Média, onde a Igreja (e os frades, em particular) usava a linguagem popular, chã, simplista, metafórica, para transmitir lições de obediência, hierarquia, resignação, submissão (e sublimação). 

 Este, em concreto, soa a uma justificação da fatalidade da desigualdade social, do determinismo fatalista e justiceiro..."Se Deus o marcou, é porque algum defeito lhe achou"; "Deus castiga sem pau nem pedra", etc.

"Ficar com a melhor parte" só pode ser então entendido lido como uma metáfora para justificar o poder, a aquisição e a manutenção dos lugares e do "aparelho" do poder: quem não souber manipular as regras (ou as pessoas e outros recursos) para beneficiar de privilégios, fica sempre na "mó de baixo", na cave, no piso zero do elevador social...(que neste caso só desce, não sobe para os pisos superiores).

"Não ter engenho e arte" pode ser uma crítica aos saloios, aos camponeses, aos pobres, aos marginais, aos "simples de espírito" (leia-se: os tolos, os idiotas), que não tinham acesso à educação, à "literacia", ao domínio da língua e da cultura e, portanto, à "malícia", à "manha", necessária para subverter um sistema que os oprimia.

É irónico, aliás, que muitos destes provérbios tenham sido criados pela Igreja (/enquanto "instituição e organização" com raízes na terra e antenas no céu) que, ela própria, ficava sempre com a melhor parte: em terras, em dízimos, em poder societal: social, económico, cultural, estético e político...

(iii) O machismo e a misoginia implícitos

Se olharmos para a estrutura do provérbio, há uma associação entre "arte" e "esperteza" que, em muitos contextos, era (e ainda é) "genderizada" (do inglês "gender", género).

Historicamente, a "arte" de negociar, de enganar ou de garantir vantagens era vista como uma qualidade "masculina", enquanto as mulheres eram incentivadas a ser passivas, obedientes, dóceis e "boas", resignando-se a não "ficar com a melhor parte", a não ter protagonismo, na casa, na rua, na cidade...

Um homem que não soubesse ser astuto era um tolo, não era um "cabra-macho", como se dizia na Guiné dos "libertadores da Pátria". 

Em contrapartida, uma mulher que tentasse sê-lo,  era logo apodada de feiticeira, bruxa, adúltera, prostituta,   "eva-serpente-tentadora" (acabando, não poucas vezes, na "fogueira", vítima dos "autos de fé" da Santa Inquisição).

Conclusão: o provérbio não só "naturaliza" ( ou dessocializa)  a desigualdade, como vem reforçar estereótipos de género (que ainda hoje persistem, e estão a ressuscitar por todo o lado, de Portugal aos EUA).

(iv) O individualismo e o "struggle for life" (=luta pela sobrevivência)

Este provérbio bem pode ser o título de "manual de sobrevivência", um desses manuais que enchem os escaparates das livrarias das grandes superfícies, de "desenvolvimento pessoal e autoajuda", onde cada um ("chacun",
francês) se governa, olha para si, para o seu umbigo, a sua barriga, e em que o sucesso individual é medido pela capacidade de explorar, aldrabar, submeter os outros ("Primeiro eu, segundo eu, terceiro eu, e o resto que se f*da!")...

É a lógica do "salve-se quem puder", que justifica as "bestas negras" das nossas democracias: 

  • a corrupção ("se não fores esperto, outros o serão, chegarão primeiro do que tu, como na corrida ao ouro no Faroeste, e ficarão com tudo"); 
  • a falta de solidariedade ("se partilhares, ficas sem nada"); 
  • a desconfiança generalizada ("todos querem enganar-te, então sê tu a enganar em primeiro lugar"); 
  • o dinheiro como medida de todas as coisas"; o cinismo ("Deus manda ser bom, mas não ser parvo");
  • a inveja social, a arrogância, a estupidez, a diabolização da ciência ( e nomeadamente das ciências sociais e humanas), etc.

É uma mentalidade que, infelizmente, ainda hoje alimenta o clientelismo, o compadrio. o oportunismo, a ganância, a falta de coesão social, as crescentes desigualdades... em Portugal, na Europa, no Mundo globalizado. E inclusive em Timor, jovem país independente, lusófono.

(v) O anticristianismo (ou o cristão de fachada)

Querido Rui, cronista dos "usos e costumes de Timor Lorosae... À primeira vista, o provérbio parece alinhado com uma moral cristã de justiça e merecimento, que te é cara, mas, na realidade, é o oposto. 

O cristianismo (pelo menos na sua versão idealizada, no teu franciscanismo) prega: "Amar o próximo como a ti mesmo" (nada de "ficar com a melhor parte"); "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus" (ou seja, a acumulação e sobretudo a ostentação de riqueza, não é um valor intrinsecamente cristão)...

Mas a Igreja, como instituição e organização, usou e abusou destes provérbios para controlar as massas, dizendo-lhes: "Sê humilde, que o teu lugar é este"; "Se não tens, é porque não mereces", "A pobreza é virtuosa, mas a riqueza dos outros é sagrada", "Dar aos pobres é emprestar a Deus" (... e Deus paga-te com juros e dividendos, a ti que és rico e caridoso...), "Dou um chouriço a quem me der um porco"...

Ou seja: o provérbio é anticristão no fundo, mas cristão na forma, é uma ferramenta de mistificação, de dominação ideológica.

(vi) Alternativas: provérbios que combinam contigo, convosco Rui, João, Gaspar com a ASTIL (e connosco, aqui na Tabanca Grande)

Se queres um provérbio que reflita os teus valores (liberdade, dignidade, solidariedade, equidade), aqui ficam algumas sugestões reinterpretadas ou alternativas:

"Quem parte e reparte, e fica com a parte que cabe a cada um, esse tem arte e sabedoria." (A justiça não é ficar com o melhor, mas garantir que todos têm o suficiente.);

"A melhor parte é a que se partilha." (Um contraponto direto ao individualismo do provérbio original.);

"Quem não tem arte para partilhar, não tem arte nenhuma." (A verdadeira habilidade é criar abundância, riqueza, não escassez, e saber reparti-la, com equidade.)

(vii) Conclusão: um provérbio a "desconstruir", "desmistificar"...

Este provérbio, Rui (e demais leitores), é um espelho das contradições da sociedade portuguesa: 

  • fingimos ser humildes, mas adoramos os espertalhões, os populistas, os demagogos; 
  • fingimos ser cristãos, mas idolatramos quem "se safou", quem escapou à justiça,  quem está sob as luzes da ribalta;
  • fingimos ser racionais, mentalmente sãos, mas somos  bipolares, subindo aos céus em delírio com as vitórias dos nossos heróis, para logo cair nas labaredas do inferno do ressentimento, da imprecação, da demonização, quando eles falham;
  • fingimos ser solidários, mas desconfiamos, com inveja,  de quem partilha com generosidade.

É, em suma, um manual de sobrevivência num mundo injusto, mas não um guia para o tornar melhor (ou gradualmente melhor)... (**)

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(**) Último poste da série > 9 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28143: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (9): porque é que o PAIGC nunca afundou nenhuma embarcação no rio Geba Estreito (São Belchior e Mato Cão) - Parte I

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28160: S(C)em Comentários (91): As toponímias do Xime, estações do nosso calvário: Madina Colhido, Gundagué Beafada, Darsalame (Baio), Buruntoni, Ponta Varela, Poindom, Ponta do Inglês...


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L12 (Bambadinca) > Xime > CART 2520 (1969/70) > José do Nascimento em Madina Colhido (à esquerda) e o fur mil enf Costa (à direita) [Augusto Tavares Ribeiro Costa], equipado com pistola Walther

Foto (e legenda): © José Nascimento (2017). Todos os direitos resevados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentário da Tabanca Grande Luís Graça (*):

Meu caro João: estava com insónias, editei o teu poste às tantas da madrugada... E de repente estava a reviver as estações do calvário do Xime... A minha alma ainda sangra quando "volto lá"... As mais trágicas recordações da Guiné estão associadas a toda essa toponímia: Madina Colhido, Gundagué Beafada, Darsalame (Baio), Buruntoni, Ponta Varela, Poindom, Ponta do Inglês...

E, no fim, eu dei a falar sozinho para comigo, teu editor, às 3 e tal da madrugada: 

- Bolas, tudo isto, para quê ? Esta maldita guerra, os mortos e os feridos do Xime, os teus, os meus, os de todos nós... Quantas vezes ao longo da guerra andámos por essas estações do calvário... Tu em 1965/67, eu em 1969/1970, outros depois... Porquê ? Para quê, João?

Já não consegui dormi mais... Fui rever alguns dos postes que publiquei aqui há muito, com a história da minha CCAÇ 12... Desisti de procurar mais, vão aqui 3 referências  (#)... Aquilo, o Xime, o subsector do Xime, era um verdadeiro "fojo do lobo"...A partir de Madina Colhido, estavas a levar (e a dar) porrada... Porquê, para quê, meu mano ?!...(**)


(#) Vd. postes de


Notas do editor LG:


(**) Último poste da série > 22 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28121: S(C)em Comentários (  ): O casamento, hoje, já não é o que era (Cherno Baldé, Bissau)