sexta-feira, 23 de julho de 2010

Guiné 63/74 - P6776: Notas de leitura (133): Desertor ou Patriota, de David Costa (Mário Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Julho de 2010:

Queridos amigos,
Seria bem interessante se o Alexandre Correia e o José Landim estão de boa saúde e querem contactar o David Costa. Bom seria que os nossos confrades guineenses que tiveram conhecimento deste relato dessem notícia do pedido do David Costa a estes militantes do Morés.

O relato de David Costa não nos surpreende completamente. Falando por mim, recordo que me chegou a Missirá o primeiro cabo Fernandes, que também foi capturado perto de Mansoa, e ainda hoje estou para saber como é que entrou naquele quartel do Cuor. Foi o Aires Ferreira que esclareceu que o primeiro cabo Fernandes não era delírio da minha imaginação, continua a aparecer em todas as reuniões anuais.

Um abraço do
Mário Beja Santos


Com um simples gesto irreflectido, tornou-se prisioneiro do PAIGC

por Beja Santos

Se subsistem dúvidas de que a realidade tem muito mais força do que a ficção, então recomenda-se a leitura de “Desertor ou Patriota”, por David Costa, Editora Ausência, 2004 (227162483, ausencia@clix.pt; esta editora tem uma colecção dedicada a temas da guerra da Guiné).

David Ferreira de Jesus Costa, natural de Fânzeres, Gondomar, foi incorporado em Julho de 1966 e regressou da Guiné em finais de Agosto de 1971. Por aqui logo se pode ver que teve uma comissão com uma duração excepcional. Iremos saber porque é que foi mesmo uma comissão excepcional.

Casou jovem, depois foi recruta no CICA-1, no Porto, a seguir fez juramento de bandeira e foi para o Regimento de Infantaria 6, onde tirou a especialidade de condutor. Ofereceu-se para ser mobilizado, e do velho quartel da Parede foi até ao cais de Alcântara onde embarcou no Uíge. Estamos em Fevereiro de 1967. É agregado à CART 1660, fica em Mansoa, a que ele vai chamar “Mansoa da minha perdição”. A sua odisseia irá começar no dia 17 de Maio desse ano. Trabalhava na secretaria e teve um gesto indigno com o seu camarada Floriano: “Tudo não passara de simples brincadeira com uma carta mal fechada, de qual caíra a fotografia, tipo postal, de uma linda rapariga. Com essa fotografia, destinada ao Floriano, resolvi fazer umas graças, exibindo-a como troféu de grande conquistador. Brincadeira de mau gosto que me saiu tão cara!”. Sentindo-se censurado, num estado de grande perturbação, foi caminhando para fora da unidade, aos poucos, quase sem dar por isso, foi dar perto da estrada para Bissorã. Continuou a andar pela estrada, percebeu que os nativos o olhavam de modo atónito, continuou a progredir quase em estado de automatismo, a certa altura sentiu que estava perdido. De facto, perdera o sentido de orientação, foi avançando no silêncio da noite, viu à distância luz, chegou até junto de um arame farpado de um quartel, sentiu que era imprudente avançar, voltou para o mato.

Estava a dormitar quando sentiu o som de pessoas a aproximarem-se. Apercebeu-se logo que eram guerrilheiros. Interpelado sobre o que andava ali a fazer fora do quartel disse que tinha fugido. Os guerrilheiros falaram entre si e um deles, de nome Alexandre, disse-lhe para não ter medo, eles também não queriam esta guerra com os soldados de Portugal. Alexandre disse-lhe que era engenheiro e que tinha estudado em Praga. E internaram-se na mata do Morés. Aqui foi recebido pelo chefe militar, de nome João Landim. Antes de abandonar o Morés, João Landim e Alexandre disseram-lhe que ia ser enviado para um país amigo e que não seria difícil conseguir que a mulher fosse ter com ele. E assim marcharam para o Senegal, David Costa narra as peripécias da viagem, a alegria com que foi recebido em todas as bases do PAIGC por onde iam passando. David Costa diz que se emocionou muito quando se despediu de Alexandre Correia, gostava muito de o reencontrar.

Em Ziguinchor foi recebido pelo Luís Cabral, deram-lhe uma roupa civil, conheceu Mário Moutinho de Pádua, um médico português, natural de Coimbra, que era responsável pelo tratamento dos guerrilheiros levados para o Senegal. Foi convidado a escrever uma carta dirigida à mulher em que confessava ter fugido a uma guerra injusta. David sabia que aquela carta ia ter pesadas consequências. De peripécia em peripécia, já em Dacar, pede auxílio para regressar na embaixada da Suíça, um avião português veio buscá-lo e assim o David regressou à Guiné, onde o esperavam novas aventuras. Foi tratado como traidor, aliado dos turras, metido em masmorras, submetido a interrogatórios terríveis. A rádio Voz da Liberdade, que emitia a partir de Argel, transmitia uma mensagem do David a dizer que ele fugira da tropa por não estar de acordo com a guerra e convidando todos a desertar, tudo ao som da canção “Os Vampiros” de Zeca Afonso. Os interrogatórios tornaram-se mais duros, parecia que ninguém queria acreditar na sua história e muito menos no passaporte suíço. Passou a ser tratado por “Porco Traidor”. Foi inclusivamente obrigado a tentar refazer o percurso em que se perdera em 17 de Maio. Acabou por ser julgado em 1968 como desertor e a sentença foram 6 anos, 3 meses e 1 dia. Depois de reduzida a pena, foi fixada em 2 anos, 1 mês e 1 dia e levado para as prisões do Quartel-General. O David Costa escreve aqui algumas da páginas mais interessantes da sua narrativa, regista bem o perfil destes homens obrigados a conviver entre a delinquência e as regras sociais da mais dura crueldade. É nisto que o general Spínola visita as prisões, ouve a história do David Costa em privado, pede-lhe que conte tudo sem medo, transfere-o para Bolama, para o Centro de Instrução Militar. É pena que a vontade de abreviar o relato tenha levado o David Costa a omitir praticamente todo este tempo em Bolama.

Em meados de 1971 vai para os Adidos em Brá, estava a aguardar o regresso a Portugal. Aqui, nova imprudência. Embriagado, destrói uma viatura à entrada do quartel. De novo em pânico, pede para ser recebido por Spínola. Este dá-lhe uma bofetada, mas tudo acaba em bem, o soldado condutor 06140/66, David Ferreira de Jesus Costa voltou para a companhia da família, conheceu o segundo filho, emocionou-se. E refez a sua vida.

Assim finalizam estas memórias de um soldado que foi julgado em tribunal como desertor, quando tudo começara por um gesto irreflectido, tendo mentido em diferentes momentos. Considera que foi condenado por um crime que não cometeu, sente-se inocente, em paz com a sua consciência, mas sabendo que a palavra “desertor” consta na sua caderneta militar.

Li “Desertor ou Patriota” graças ao nosso confrade Carlos Gerales que acolheu esta minha súplica permanente de andar a pedir a todos que me emprestem livros que não circulam habitualmente nas livrarias.
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Nota de CV:

Vd. poste de21 de Julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6772: Notas de leitura (132): Alguns Princípios do Partido, de Amílcar Cabral (Mário Beja Santos)

5 comentários:

Anónimo disse...

Caro Beja Santos,
Virgínio Briote, no P3371 (Outubro de 2008), tinha já feito a apresentação do livro, que despertou alguma celeuma, conforme se pode verificar pelos comentários. Aguardemos agora novas reacções.

Um abraço,
Carlos Cordeiro

Carlos Nery disse...

Na Guiné ouvi uma história semelhante quando a minha companhia aguardava embarque,no início de 1980, terminada a sua comissão,em Buba. Um dos militares da companhia foi escalado para o serviço no hospital, em Bissau. Quando entrou de serviço, o soldado que era rendido fez-lhe a entrega dos prisioneiros hospitalizados... "Ali, naquela cama está fulano"... O militar só via uma cama sem ninguém e roupa pousada numa cadeira. "Ali, onde?" "Ó pá, o gajo deve ter ido à casa de banho"...
Bem, o prisioneiro, que havia desertado anteriormente e dado o salto para Portugal, para matar saudades, onde fora preso e interrogado, tinha batido a asa, de novo.... Tinham entendido que podia ser útil na Guiné para onde voltaram a levá-lo.Tendo ali baixado ao hospital foi ganhando a confiança aos seus guardas e, um belo dia, resolveu repetir o trajecto de há alguns anos atrás...
Voltou a desaparecer...
Não sei nomes nem posso garantir a veracidade mas acho a históris, se for verdadeira, muito engraçada. Adoraria conhecer o aventureiro, caso exista...

Jorge disse...

Caro David Costa, sou o 1 Cabo, Lobo da Cart 1660 e presenciei toda a cena da carta com a fotografia da namorada do Chantre, isto na caserna da Cart 1660 em Mansoa.
Sabia vagamente o que te aconteceu mas não com todos esses pormenores. Em Bissau quando de cabo de dia antes da partida para a Metropole, cheguei a levar-te as refeições ao presidio.
Desejo do coração que tenhas já esquecido a pior parte dessa tua odisseia e que sejas muito feliz na companhia dos teus.

Ângelo Costa disse...

Sou o David costa e lembro me perfeitamente de ti cabo Lobo, recebi com agrado tuas palavras e envio te um grande abraco com muitas saudades e o desejo de um dia te encontrar. Abraço David

Jorge disse...

Só hoje li a tua mensagem amigo David! Também espero um dia destes encontrarmo-nos algures para bater um papo e matar saudades daqueles tempos longínquos da guerra na Guiné. Admiro o teu sacrifício ao teres passado mais do dobro do tempo que o pessoal da cart 1660 passou na Guiné. Ainda hoje recordo com mágua as palavras daquele coronel juiz do tribunal militar quando ele dizia que foste condenado a 2 anos, um mês e ...um dia de prisão. uma semana depois a nossa companhia regressava à metrópole. Muita coisa aconteceu na minha e na tua vida nesse entretanto entre 11 de Novembro de 1968 até à altura em que tu regressaste depois dessa tua odisseia digna de qualquer (Alexandre o Grande....). Um grande abraço e se me quiseres contatar podes faze-lo através do meu facebook ( https://www.facebook.com/jorge.lobo.77715 ) e depois combinaremos algo. Até breve, amigo. Jorge Lobo, 1º cabo, 1º pelotão da Cart 1660.