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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28268: Manuscrito(s) (Luís Graça) (293): À Alice, oferta do livro "Luuanda: estórias", do José Luandino Vieira, com dedicatória, dactilografada, em francês, e datada de 17 de maio de 1975



Lourinhã > 7 de agosto de 2026 > Luís e Alice, o professor e a aluna, cinquenta anos depois, ainda "just married"...



Capa do livro de José Luandino Vieira, "Luuanda: estórias, 4ª ed. (Lisboa: Edições 70, 1974, 172 pp.). 

O livro foi originalmente publicado em 1963, pelas Edições 70, em Lisboa. E passou despercebido. Os senhores coronéis da censura só deram conta da monumental "gaffe" quando em 1965 foi atribuído, a um "terrorista",  o 1º Prémio do Grande Prémio da Novelística, pela  Sociedade Portuguesa de Escritores, em Lisboa.  

O prémio causou furor e represálias em plena colonial, com o autor, luso- angolano (nascido em Vila Nova de Ourém, em 1935), a cumprir, na altura, no Tarrafal,  uma pena de 14 anos de prisão, por motivos políticos. O livro, de contos, é hoje considerado uma obra maior da literatura em língua portuguesa.


Dedicatória datilografada, em francês, em homenagem à Alice, nascida em 18 de agosto de 1945. Em 17 de maio de 1975, na Lourinhã, era minha aluna...de francês. 

Em 7 de agosto de 1976, quem diria ?!, casei com ela, na Quinta de Candoz, concelho do Marco de Canavez. O primeiro casamento, civil, nesse ano... 

O livrinho (e a folha da dedicatória, que lhe estava apensa, colada na folha de guarda), andou em bolandas, durante anos. Há tempos redescobri-o, no sótão, no meio de outras velharias...Tem, para mim,  valor sentimental e documental.  

Eu escrevia à máquina desde, pelo menos ,  os meus 15 anos. Comprei uma máquina de escrever, portátil, de teclado português (HCESAR), em segunda mão, já não me lembro a marca (Olivetti ?). Não sei o que lhe aconteceu. Com mudanças de casa, desgraçadamente deve ter ido parar ao caixote do lixo! Ou foi à oficina para reparar o teclado e nunca mais a levantei... Enfim, um crime de lesa-património e de lesa-memória!...

Aqui vai uma cópia da dedicatória, para oferecer, juntamenmte com o livro agora recuperado, à minha antiga aluna de francês, e hoje minha companheira de uma vida, mãe de uma filha (Joana) e de um filho (João), e  avó de duas netas (Clara e Rosa)... 

Ao km 81 da sua picada da vida, espero que ela aceite a (re)lembrança. E faço também votos para que o nosso amor, e as minhas palavras, tenham sabido resistir à usura do tempo e às circunstâncias 


17 mai 1975

Pour Alice,
ce cadeau-prétexte.

J’aimerais bien t’écrire une lettre,
une lettre-pomme, une lettre-poème,
tu la mangerais au dessert,
tous les hivers de la famine.

Mais je ne peux que t’offrir
un exercice de français,
sous le prétexte d’un livre africain,
parce que c’était encore la langue étrangère
que nous parlions en exil.

Et c’était drôle de penser
que le soleil se levait et disait bonjour
dans la langue de Rimbaud, Éluard, Aragon,
trois poètes dont tu n’avais jamais entendu parler,
et qui sont descendus à l’enfer de la folie et de la guerre.

Je m’en fous cependant
que le soleil soit un drapeau
rouge, blanc, bleu,
que la lune soit rouge et verte:
il sera toujours pénible pour nous
de franchir à pied le silence,
à cause des montagnes
qui se dressent là-haut, dans notre cœur,
le silence étant la Grande Muraille de Chine des sentiments.

Mais que dirons-nous 
de l’ambiguïté politique de la lune,
cette petite planète
où la liberté est un minéral,
verte le jour, rouge la nuit ?

Je crois quand même
au pouvoir libérateur et créateur de la parole,
ne pouvant pas subir l’angoisse du silence,
des mots écrasés par le discours quotidien.

Je te dirai encore, Alice,
que nous ne sommes pas au Pays des Merveilles,
et que le rêve deviendra bientôt un cauchemar.
Il faudra alors connaître
les murs et les couloirs de l’enfer.

Mais la vie serait une merde
si nous n’avions pas le sens 
de l’engagement révolutionnaire
et le courage de vivre et de combattre,
comme José Luandino Vieira,
prisonnier du Tarrafal, militant du MPLA.

Très amicalement,
Luís

(Revisão / fixação final de texto, 18/8/2026: LG)
 ____________

 Tradução livre (para português)


17 de maio de 1975


Para a Alice,
este presente-pretexto.

Gostaria de te escrever uma carta,
uma carta-maçã, uma carta-poema,
tu comê-la-ias à sobremesa,
em todos os invernos da fome.

Mas só te posso oferecer um exercício de francês,
com o pretexto de um livro africano,
porque era ainda a língua estrangeira
que falávamos no exílio.

E era engraçado pensar
que o sol nascia e dizia bom dia
na língua de Rimbaud, Éluard, Aragon,
três poetas de quem nunca tinhas ouvido falar,
e que desceram ao inferno da loucura e da guerra.

Mas estou-me nas tintas
que o sol seja uma bandeira 
vermelha, branca, azul,
que a lua seja vermelha e verde:
ser-nos-á sempre penoso
atravessar a pé o silêncio,
por causa das montanhas 
que se erguem lá no alto, no nosso coração,
sendo o silêncio a Grande Muralha da China dos sentimentos.

E o que diremos nós
da ambiguidade política da lua,
esse pequena planeta onde a liberdade é um mineral,
verde de dia, vermelha de noite?

Acredito, no entanto, 
no poder libertador e criador da palavra,
não podendo suportar a angústia do silêncio,
das palavras esmagadas pelo discurso quotidiano.

Dir-te-ei ainda, Alice,
que não estamos no País das Maravilhas,
e que o sonho em breve se tornará um pesadelo.
Teremos então de conhecer 
os muros e os corredores do inferno.

Mas a vida seria uma merda
se não tivéssemos o sentido 
do compromisso revolucionário
e a coragem de viver e de lutar,
como José Luandino Vieira,
prisioneiro do Tarrafal, militante do MPLA.

Com toda a amizade,
Luís

(Tradução, revisão / fixação de texto: LG)

_________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de agosto de 2026  > Guiné 61/74 - P28254: Manuscrito(s) (Luís Graça) (292): talvez um dia

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28258: Humor de caserna (287): Era uma vez um soldado básico (o "Espanhol"), um alferes ("Sá de Miranda") e uma madrinha de paz (a "Borboleta") (Jorge Cabral, 1943-2021)


Lisboa > Belém > 10 de junho de 2009 > Dia de Portugal > Encontro Nacional de Combatentes, em Belém, junto ao Forte de Bom Sucesso > J. L. Vacas de Carvalho à direita da foto, Jorge Cabral deliciosamente "cercado" (ou levado preso" ?)  pelas camaradas da Polícia do Exército (PE).

Foto: © Mário Fitas (2009). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 

1. Confesso que já tinha saudades de reler esta  prosa "cabraliana", oral, telegráfica, seca, cúmplice, com as suas elipses e outras figuras de estilo...

E este "microconto", que se reproduz a seguir, é mesmo uma “estória cabraliana”

(i) começa como uma anedota de caserna, com um soldado básico, o "Espanhol", um tigre de Antequera e uma “Borboleta” (travestida de "madrinha de paz");

(ii) dá uma volta inesperada pela Lisboa da Praça  do Chile e das suas clandestinas "casas das mariquinhas" (“Casas de Pouca Permanência”,  uma subliteza do autor que nunca diz asneiras nem é ordinário...); 

(iii) e acaba, uns 40  anos depois, num encontro quase cinematográfico na avenida Almirante Reis, junto à incontornável igreja dos Anjos.

O que é espantoso é que, nas "estórias cabrialianas" (estão publicadas quase um centena, no nosso blogue) o  humor nunca destrói a ternura. 

O "Espanhol" desta história é apresentado como uma figura pícara mas no fim percebemos que,  por baixo da máscara da caricatura do "soldado básico", está um homem com uma vida triste, agarrado ainda ao sonho de ganhar o euromilhões e de encontrar a mãe na Argentina. 

E o "alfero Cabral", em vez de explorar isso de maneira piegas ou sentimental ou de carregar no traço da caricatura, resolve a história com a promessa de uma rua cor de rosa de Buenos Aires e da "Borboleta" a dançar o tango. 

É um final que é um achado e que toca o leitor: a  "Borboleta", "madrinha de paz" (e não de "guerra"), que nasceu numa carta lida há décadas numa mesa suja do rancho do destacamento  de Missirá, reaparece no fim como promessa romântica de um tango em Buenos Aires. 

Há ainda três achados que são tipicamente fruto do génio do "alfero Cabral":

  • “Nem a falta dos dedos o safou...” ( uma frase seca que diz muito, ou tudo, sobre a crescente falta de "carne para canhão", e em que um mancebo, mesmo sem très dedos do pé, era apurado para os serviços auxiliares, como soldado básico):
  • “Meu Alferes, carta da Borboleta!”  (excelente esta "boca" de caserna);
  • "É o  alferes Cabral, não é?!... Ou devo chamar-lhe alferes Sá de Miranda?! (aqui o leitor percebe a cumplicidade entre os dois, sem ser preciso explicar absolutamente nada).

E o título original, “O Espanhol, o Alferes Sá de Miranda e a Borboleta”, está muito bem escolhido: parece anunciar três personagens diferentes, mas são afinal três fios condutores da mesma história.

Enfim, é mais uma história de encontros e desencontros, nas margens do rio da vida... 

Ninguém como o "alfero Cabral", na nossa Tabanca Grande, sabia evocar, com delicadeza, compaixão e empatia, estas figuras de gente humilde que eram os nossos camaradas, ditos "soldados básicos", remetidos quase sempre para funções de "faxineiros" ou auxiliares de cozinheiro, e cujos nomes se nos varreram da memória... 

Todas as companhias tinham um ou mais "soldados básicos"... Muitos deles já levavam, para o CTIG uma cruz às costas: ou "nasceram tortos", ou a curta vida de 20 anos já lhes era madrasta... 

Tenho a imagem de um, que foi comigo no T/T Niassa; "ia a ferros", preso, no fundo do porão, por ser desertor, segundo se dizia...

Recorde-se que o Jorge Cabral (1943-2021) foi alf mil art, Pel Caç Nat 63, Guiné, zona leste, setor L1 (Bambadinca), tendo comandado destacamentos como Fá Mandinga e Missirá, 1969/71; especialista em direito penal , professor do ensino superior universitário, reformado, é autor da série, "estórias cabralianas" (que ainda conseguiu em vida reunir  em livro, e publicar um primeiro volume).

Tem mais de 260 referências no nosso blogue.


Era uma vez um  soldado básico (o " Espanhol), um  alferes ("Sá de Miranda") e  uma  madrinha de paz (a "Borboleta") 

por Jorge Cabral (1943-2021)


Em Missirá, jantávamos cedo. Éramos apenas onze brancos e rapidamente despachávamos o pé de porco com arroz ou a cavala com batatas. 

Depois ficávamos à mesa conversando. Alguns,  mais resistentes,  permaneciam noite dentro. Um deles era o novo cozinheiro, o "Espanhol", soldado básico, que mancava. 

Segundo ele, fora um tigre que lhe comera três dedos do pé esquerdo, num circo de Antequera [ município de Espanha, província de Málaga, comunidade autónoma da Andaluzia].

Contava que a mãe fugira de Lisboa com um palhaço e o levara ainda bebé, mas que quando fizera dezoito anos regressara para procurar o pai, o qual nunca chegara a encontrar. 

Incorporado, nem a falta dos dedos o safou... Na altura tinha uma correspondente, que se intitulava "Madrinha de Paz". 

Escrevia bem e às vezes naqueles serões eu citava pequenos trechos das cartas. Uma noite li, que ela escrevera: 

”Hoje sonhei que era Borboleta. Mas não serei eu uma Borboleta que está a sonhar que é rapariga?” 

 – A gaja é maluca!   – foi a opinião unânime.

A partir de então, quem ía buscar o correio, vinha logo ter comigo, satisfeito:

 – Meu Alferes, carta da "Borboleta"!. 

A comissão acabou. Voltei e nunca mais me lembrei nem do "Espanhol" nem da "Borboleta"... Porém há muitos anos, frequentei com alguma assiduidade uma “Casa de Pouca Permanência”, hoje Hostel, ali para os lados da Praça do Chile. 

Tudo lá era discreto, quase secreto. Tocava-se à campainha, subia-se e as portas da casa e do quarto já estavam abertas. 

Ninguém via a dama, mas o cavalheiro tinha que dar a cara, junto da recepcionista, uma velhota que não pedia qualquer identificação. Pagava-se e escrevia-se o nome num caderno já gasto. 

Por mim fui Gil Vicente, Bernardim Ribeiro e até Luiz Vaz de Camões... 

Ora uma vez, para minha surpresa, a recepcionista fora substituída. E adivinhem, por quem? Pelo "Espanhol". Eu reconheci-o e senti que ele também me reconheceu. Mas não dissemos nada. Paguei e assinei. Desta vez... Sá de Miranda

Ainda lá voltei mas a velha senhora retomara o seu posto. Foi há um mês, descia a Almirante Reis, quando, mesmo em frente à Igreja dos Anjos, deparei com o "Espanhol": 

– É o alferes Cabral, não é?!... Ou devo chamar-lhe alferes Sá de Miranda?!

– Malandro... vamos almoçar! 

À mesa, diante de um arroz de tomate com joaquinzinhos, conversámos. Lembrava-se bem de Missirá e perguntou logo:

 – Então, e a "Borboleta"? 

Foi no entanto parco em informações sobre como lhe correra a vida. Todas as vidas têm altos e baixos, mas deu para entender que a do "Espanhol", só teve baixos. 

Regressado da Guiné, ainda foi a Antequera, mas o palhaço morrera e a mãe emigrara para a Argentina. Durante estes mais de quarenta anos, sonhou ir visitá–la. E ainda sonha... 

–Ah! Alferes Cabral,  se eu ganhasse o euromilhões... 

Adeus, "Espanhol", mas olha não há duas sem três. Vais ver que o nosso próximo encontro será em Buenos Aires. E até vou levar uma "Borboleta", a fingir de rapariga, para dançar o tango. 

Jorge Cabral

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, parênteses retos, título: LG)

_____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd, poste de 18 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14761: Estórias cabralianas (87): O Espanhol, o alferes Sá de Miranda e a Borboleta que sonhava que era rapariga (Jorge Cabral)

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28253: (De) Caras (251): Manuel Raposo Marques, natural de Mértola, um "básico" que foi... Prémio Governador da Guiné (Mário Pinto, 1945-2019, ex-fur mil at art, CART 2519, Bula, Aldeia Formosa e Mampatá, 1969/71)




Manuel Raposo Marques, natural de Mértola, ex-soldado básico,  CART 2519 (Bula, Aldeia Formosa e Mampatá, 1969/71), "Prémio Governador da Guiné" (1970). Foto: cortesia do portal Ultramar TerraWeb - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar





lustração: "Jornal do Exército" (c. 1970) (Adapt. com a devida vénia)



1. A propósito do "soldado básico", tão maltratado na caserna (e nas nossas memórias...): o Mário Gualter Rodrigues Pinto (1945-2019), ex-fur mil art,  CART 2519, "Os Morcegos de Mampatá" (Buba, Aldeia Formosa e Mampatá - 1969/71), já contou aqui a história do Manuel Raposo Marques, sold básico nº 18757368, promovido depois a soldado atirador de artilharia,  e que foi, por feitos em combate, Prémio Governador da Guiné em 1970. Como tantas outras histórias já aqui partilhadas,  passou na altura despercebida do leitor...

Escreveu o nosso saudoso Mário Pinto (foto à esquerda):

 "Um homem, o Manuel Raposo Marques,  que apesar de ter sido classificado como 'básico', foi uma das nossas maiores e melhores referências em combate, tornando-se num exemplo de abnegação e de heroísmo, dignificando sobremodo o soldado Português".


Um básico que foi... Prémio Governador da Guiné (1970)

por Mário Pinto (1945-2019)


Para quem não sabe ou não se lembra já, básicos eram todos os soldados que não conseguiam qualificação ou aptidão, para serem enquadrados em qualquer outra das muitas especialidades existentes no Exército.

Eram assim a modos que uma espécie de proscritos, de mão-de-obra não especializada, que a tropa não dispensava e empregava no cumprimento de todo o tipo de tarefas indiferenciadas (tarefeiros, faxinas, auxiliares de pequenos serviços, etc.), normalmente apenas dentro das áreas delimitadas dos aquartelamentos.

Eles, tal como todos os outros especializados, iam, igualmente, “malhar” com os “ossinhos”em África. Nessa altura o que estava em causa era a quantidade de homens a enviar para a guerra e não a desejada e necessária qualidade, porque, no fundo, éramos massa destinada a “carne para canhão”.

Básico era então o carimbo com que eram marcados os incapazes e inábeis.  E esta designação fez escola, tendo-se o termo generalizado a todos os sectores da sociedade portuguesa. O “nabo” foi substituído pelo “básico”!

O Manuel Raposo Marques, conhecido na CART 2519 pelo "Básico", tal como qualquer outro homem, tinha uma deficiência psíquica (vulgo “pancada”), daí ele ter reprovado, intencionalmente, na especialidade de cozinheiro.

Dizia ele que não tinha nascido para andar de avental, de tamancos e de gorro na cabeça, e o que ele queria ser mesmo era atirador.

– Que grande maluco! – pensei eu.

Acabou por ser reclassificado em básico, após ter sido considerado pronto na instrução e apto para desempenhar qualquer função de segundo plano, compatibilizando-se as suas capacidades humanas com as necessidades da Companhia.

Assim, o Manuel Raposo Marques, chegado à CART 2519, pediu ao alf mil Claudino, comandante do 4º Grupo de Combate, para o integrar na sua equipa. O alferes falou ao capitão e este consentiu, numa fase experimental, que assim fosse. Mais tarde, em função do seu excelente comportamento activo e combativo no grupo, decidiu elevar este básico, por mérito próprio, à categoria de soldado atirador.

Nos primeiros tempos, os seus camaradas olhavam-no com desconfiança, porque receavam que o 4º Grupo de Combate viesse a ser apelidado, na generalidade, de "básico", mas tal não aconteceu e o Marques veio a revelar-se como um dos melhores soldados da Companhia, com predicados de combatente acima da média e tiques de herói, tendo inclusive sido agraciado com o prémio "Governador da Guiné".

Pois é, o nosso básico, ao ser confrontado com a “roleta da morte”, foi suficientemente corajoso e audaz para ter abatido dois combatentes IN, e conseguir salvar a vida do seu comandante de secção, que se encontrava em situação difícil e ferido numa perna, numa acção em que o seu grupo de combate interceptou um grupo do PAIGC.

O "Básico" passou a ser uma referência da CART 2519 e respeitado por todos os seus camaradas e superiores hierárquicos. (**)

Nota -  Estes dados foram retirados da História da Unidade e do livro “Há Sangue na Picada”, de Jacinto Manuel Barrelas, cor art ref,  ex-cap art, cmdt da CART 2519. (1969/71)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, links, edição de imagem: LG)

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)

 

Prompt e orientação  editorial: Luís Graça
Texto: Jorge Cabral (2009)
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 22 de julho de 2026) 
[Grande modelo de linguagem].



1. É uma expressão idiomática, muito portuguesa. Diz-se de um homem "com eles no sítio", que é viril, corajoso. ("Cabra-macho" era a expressão equivalente em crioulo, usada pelos guerrilheiros do PAIGC)...

O  Jorge Cabral (1943-2021), o impagável "alfero Cabral", é autor deste microconto. Faz parte das suas "estórias cabralianas" de que ainda publicou em vida  um livro, volume I.  

Filho de militar, tendo passado  (por pouco tempo) pelo Colégio Militar, era o menos "militar" dos "militares" que eu conheci na Guiné... Em 1969/71, enquanto comandante do Pel Caç Nat 63 (que esteve em Fá Mandinga e em Missirá, no sector L1, Bambadinca),  podia ser considerado o contraponto da "Spinolândia"... 

Spínola, dizia-se, como elogio, que era um general "com eles no sítio"... 

O tema dá "pano para mangas", e será glosado em próximo poste da série "Nomadizações de um marginal-secante". Para já, voltamos a reproduzir a já há muito esquecida estória cabraliana nº 46 (*).


Estórias cabralianas > Todos com eles no sítio...Apurados para todo o serviço militar

por Jorge Cabral

Pois, também eu naquela manhã de Junho me dirigi à Avenida de Berna, ao Quartel do Trem Auto, onde hoje funciona a [Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da] Universidade Nova [de Lisboa].

Éramos mais de cem, altos e baixos, loiros e morenos, alguns mancos, pitosgas muitos, um quase corcunda, três gagos e dois tontos.

Mandaram-nos despir e pôr em fila, numa literal e verdadeira bicha-de-pirilau.

Na mesa, um coronel, um major e um tenente médico, constituíam a Junta Inspectora. Um a um, fomos chamados diante do médico a fim de declarar se sofríamos de alguma maleita.

Após rápido e sumário exame, mesmo para aqueles que se disseram doentes, continuámos todos nus e encostados à parede, esperando o veredicto... que chegou num discurso patriótico do coronel. Falou de Aljubarrota, das picadas africanas, de heróis e da necessidade de homens valentes com “eles no sítio” e, por fim, concluiu:

– Todos aptos para o Serviço Militar.

Claro, pensei na altura, ainda nu e olhando os demais, todos tinham os dois no sítio. Juro que não vi nenhum com eles no pescoço, ou debaixo do braço
.

(Revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos, título: LG)


2. Comentário do editor LG:

O microconto do Jorge Cabral é um retrato irónico e vivo da inspeção militar, onde a expressão "com eles no sítio" ganha um duplo sentido: (i) o literal (todos os mancebos ali presentes tinham, de facto, "eles no sítio", os ditos cujos; e por esse facto passavam a ser "homens"); e (ii) o figurado (a virilidade, a bravura e a coragem que o discurso patriótico do coronel que presidia à junta, tentava evocar, era uma questão de anatomia e testosterona, desde que "certificadas" pelo médico).

É uma crítica subtil, mas acerada, à burocracia e ao ritual vazio da "ida às sortes", por trás daquilo que, em teoria, deveria ser um momento solene e dibno de seleção de homens "valentes", aptos, física, psicológica e socialmente, para a guerra. (**)

É lamentável que na altura, em 2009, esta estória tenha passado despercebida: ou talvez não, teve cerca de 500 visualizações, mas nenhum comentário (*)
___________________


(**) Último poste da série > 22 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28204: Humor de caserna (281): "Exame para ir à guerra", por Alberto Branquinho (excerto do novo livro, "Inventarium Vitae", 2026)

terça-feira, 23 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28127: (Ex)citações (448): Dos tempos da Guiné, aos tempos presentes… (José Saúde)




Lápide funerária do Luiz. B. Gomes (1947-1969), filho da Aldeia Nova de São Bento, concelho de Serpa.

1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem.  


Dos tempos da Guiné, aos tempos presentes… 


Camaradas, 

A vida, nesta persistente inovação, é apenas uma pequeníssima passagem por este cosmos terrestre no qual as nossas existências humanas são, tão-só, excessivamente efémeras. Admirava, enquanto criança de tenra idade, as histórias contadas pela minha avó materna, principalmente em noites de inverno à volta de um lume de lenha feito no chão e fixava o meu imaginário em fábulas que me preenchiam o coração. Aliás, tal como outras crianças que, como eu, absorviam esses maravilhosos contos de pessoas que estavam no limiar de vidas, sendo que muitas transportavam para a cova um “oceano” de canseiras. 

Mais tarde veio a guerra no Ultramar, onde, em particular, muitos dos meus conterrâneos pisaram os solos de Angola, Moçambique e Guiné, sendo que as mães desses nossos camaradas tapavam os rostos com xailes pretos, uma peça de vestuário oriunda da civilização árabe, mãos escondidas, um lenço que não só lhe tapava a cabeça, assim como a testa, o seu ar era pesaroso e faziam promessas divinas para que os seus filhos retornassem à aldeia são e salvos e libertos de mazelas. 

Pelo meio da guerrilha existiram casos de morte, em combate, e o povo juntava-se num choro convulsivo, pelo filho da terra cuja presença colonial lhe fora fatal. Gentes que acusavam o falecimento de um “menino” que um dia partira para uma terra equidistante, desconhecida, exótica, onde os barulhos das armas ditavam inúmeros fins. 

E assim cresci e a Guiné foi então o meu destino. Para trás ficaram as imagens que ainda hoje ocorrem a uma memória, já gasta pelo tempo, mas residindo nelas realidades que jamais esqueceremos como antigos combatentes nos infinitos matos dessas antigas colónias. Luiz Gomes, um rapaz que conheci, foi uma das vítimas mortais nessa terra avermelhada de uma Guiné onde a imprevisibilidade era uma constante.

Desse clã universal de aldeanos, homens nascidos na minha terra, originários do interior do Baixo Alentejo, chão que outrora fora a terra do pão, alguns desses conterrâneos vão deixando inolvidáveis histórias que visam o exequível interesse para as gerações vindouras reconhecerem que, neste caso, em Aldeia Nova de São Bento nasceram pessoas de renome nacional e internacional que deixarão inolvidáveis obras que jamais serão por certo olvidadas. 

Escrevo, hoje e em particular, sobre o enorme ensaiador de revista Filipe de La Féria. A minha memória guarda resquícios de um menino que, nesses tempos, já proclamava um dom pessoal para a arte de apresentação. Recentemente, tive a oportunidade de o ver numa entrevista, na qual o “menino” Filipe explanava orgulhosamente o nome da sua terra natal: Aldeia Nova de São Bento. 

É óbvio que Filipe de La Féria, não conheceu ao vivo os sons arrepiantes das armas de guerra, todavia, alguns dos seus amigos da escola primária, quiçá da mesma carteira ou a do lado, por lá passaram, sendo disso exemplo o Manel Macias, um camarada nosso que prestou serviço no território da Guiné, tal como muitos outros, sendo esse o meu caso.  

Filipe de La Féria é um talentoso ensaiador de peças revistas, com casas sempre cheias, e que honradamente aqui o trago à estampa.  

Obs: texto do meu livro Aldeia Nova de São Bento - Memória, Estórias e Gentes. Livro editado pelas Edições Colibri, Lisboa.

 Filipe de La Féria


Oriundo de uma família de lavradores e ganadeiros abastados, Luís Filipe de La Féria Valente e Orta, natural de Aldeia Nova de São Bento, era filho de Luís de La Féria de Assis e Orta, um homem que, na altura, possuía uma excelente coudelaria de cavalos de puro de sangue e que eram na verdade o encanto desses recuados tempos.

Filipe de La Féria nasceu a 17 de maio de 1945, sendo o filho mais novo de seis irmãos. A sua história de vida é literalmente encantadora. Tenho uma vaga ideia dele, embora sendo cinco anos mais novo, mas a sua presença, já nessa época, cativava. A sua intenção para o teatro era algo que não passava ao lado da miudagem. Lembro das brincadeiras com os rapazes do Rossio que utilizavam o “lisinho” do Luís Orta para ali dissecarem os seus momentos de ócio. O “lisinho” era, tão-só, o pavio da sua residência feita em cimento.

Aos 18 anos o Filipe rumou a Lisboa para estudar na Faculdade de Letras, porém, depressa abandonou os estudos naquela Universidade, ingressando na Escola de Teatro do Conservatório Nacional.

No ano de 1963, estreou-se, como ator, na Companhia Rey Colaço e Robles Monteiro, no Teatro Nacional D. Maria II, sendo Amélia Rey Colaço a atriz dirigente. Filipe de La Féria foi, ao longo de 12 anos, uma personalidade respeitada e acarinhada.

Beneficiou, então, de uma bolsa de estudo em Londres, urbe britânica onde obteve o diploma para a Encenação. Regressado a Portugal, Lisboa recebeu-o de braços abertos e Filipe de La Féria lançou-se deliberadamente no mundo da encenação.

O seu currículo é vastíssimo e o seu nome amplamente reconhecido. As suas peças primam pela originalidade, o público acorre com facilidade às salas de teatro, aplaude efusivamente uma classe de atores que não escondem a sua vivacidade quando por detrás do seu papel em cena, está um Senhor chamado Luís Filipe de La Féria Valente e Orta, um cidadão que teve como berço de nascimento a nossa aldeia.

Bem-haja Filipe de La Féria o facto, bem expressivo, de jamais ter esquecido a sua origem de vida!

José Saúde,

Abraços camaradas,

Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523

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Nota de M.R.:

Vd. últimos postes desta série em:

12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28092: (Ex)citações (447): O pessoal das transmissões: músicos, de talento (tirando eu que só tocava ferrinhos): o que é feito de vocês, camaradas, Luís Dutra (já falecido), Eduardo Pinto, Victor Barros, Carlos Lã, Fernando Cruz, Fernando Marques, António Camilo, Miguel Pacheco, José Fanha, Nélson Batalha (já falecido), e outros, do meu curso de transmissões... (Hélder Sousa)

domingo, 12 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27914: Humor de caserna (256): O anedotário da Spinolândia - Parte XXVIII: Do "Caco Baldé" ao "Aponta, Bruno" (José Teixeira, ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70)


Guiné > Região de Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969 > Depois da emboscada do IN, o general Spínola,  com o seu ajudante de campo, o cap cav cmd João Almeida Bruno, 1935-2022, mais tarde general (e que deu origem a uma das diversas alcunhas do governador e comandante-chefe, "Aponta, Bruno"). 

Na foto, o Almeida Bruno (que faleceu em 10/8/2022, aos 87 anos), está de luvas e óculos Ray-Ban, empunhando uma G3.  O com-chefe, por sua vez,  está  também de luvas, e com o seu aristocrático monóculo. Estavam ambos em pleno local, onde se deu a emboscada, de que resultaram 2 mortos entre as NT (CCAV 2487 / BCAV 2868). 

A foto acima reproduzida (e editada pelo nosso blogue) é do Paris-Match nº 1071, de 15 de novembro de 1969 (Com a devida vénia...).


José Teixeira: (i) colaborador permanente (com o pelouro de Tabancas, Cooperação & Desenvolvimento ); (ii) ex-1.º cabo aux enf, CCAÇ 2381 (Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70); (iii) gerente bancário reformado, escritor,  vive em Leça do Balio, Matosinhos;  (iv) é um  histórico da Tabanca Grande (desde 14/12/2005); (v)  tem 460 referências no nosso blogue; (vi) cofundador e régulo da Tabanca de Matosinhos; (vii) é autor da série "Estórias do Zé Teixeira", de que já se  publicaram 65 postes, desde 31/12/2005  a 30/10/2024; (viii) é também autor da série "O meu Diário"...


1. O Zé Teixeira, além de ser um "histórico" da Tabanca Grande (foi dos primeiros camaradas a sentar-se, simbolicamente,  à sombra do nosso poilão...), foi também (e continua a ser) um profícuo, talentoso, ativo, proativo e bem-humorado autor de textos de memórias: por exemplo, nos primeiros mil postes que publicámos, 60 são dele  (entre dezembro de 2005 e  julho de 2006). 

O Zé Teixeira foi dos que acreditou na força, importância e viabilidade do nosso projeto bloguístico coletivo, como repositório (partilhado) de memórias de antigos combatentes da Guiné.  E o tempo deu-lhe razão. Tem sido também  dos mais "leais" grão-tabanqueiros. 

Estive com ele, na passada quinta feira, dia 9: fui a um velório de uma senhora amiga da família de Candoz, na igreja de Padrão da Légua, Matosinhos, perto da sua casa, e que ele de resto conhecia; dei-lhe um toque, apareceu logo a seguir, conversámos um pouco; anda compreensivelmente preocupado com uns problemas de saúde; espero que o prognóstico lhe seja favorável; quero voltar a ver-te,  Zé, em boa forma!)

Do poste P613, de 16 de março de 2006 (há 20 anos!), sob o título "Aponta, Bruno! (ou outra alcunha do Spínola) (Zé Teixeira)", voltamos a publicar uns excertos, que ficam muito melhor  nesta série "Humor de caserna >  O anedotário da Spinolândia" (*).

Esta "cena" deve ter-se passado  em Buba, em meados de 1969, quando os "Maiorais" (a CCAÇ 2381) estiveram particularmente empenhados na seguranç e proteção dos trabalhos de construção da estrada Buba - Aldeia - Formosa. Spínola tinha então 59 anos (!). Se fosse vivo faria hoje, 11 de abril, 106 anos. Nasceu em Estremoz em 11 de abril de 1910. Morreu, aos 86 anos, em 13 de agosto de 1996, no Hospital Militar de Belém, em Lisboa.
 

Alcunhas do Spínola: do "Caco Baldé" ao "Aponta, Buno"

por José Teixeira

 
  O Aponta, Bruno!... Aí vem o Aponta, Bruno !    dizia logo o pessoal quando se avistava o héli que o transportava.

Porquê ? Toda a zona de Buba, Nhala, Mampatá, Chamarra e Aldeia Formosa esteve uns tempos a comer, ao almoço e ao jantar, arroz com arroz e de vez em quando uma amostra de chispe. A barcaça que levava os mantimentos foi afundada pelos nossos amigos, e ficámos a ver . . . barcaças 

Isto gerou um mal estar que mais se agravou com o ataque às 5 da matina, como já contei no meu diário. 

Devo dizer que a minha companhia estava reduzida a 36 homens operacionais, dado esforço que se estava a fazer com a protecção à nova estrada de Buba para Aldeia Formosa, em que saíamos com o que seriam três pelotões às seis da matina. Regressávamos à tarde, e no dia seguinte estávamos de serviço à segurança do quartel e logo de seguida abalávamos de novo para a estrada.

Então o homem chega e começa o discurso:

 
  Pátria está a exigir de vós um grande esforço e vós sois .....blá, blá, blá. Sei que a comida não tem sido a melhor, mas a Pátia exige sacrificios... blá, blá,blá. Quando estiverdes a comer feijão ou arroz, sem mais nada, fechai os olhos e imaginai-vos a comer um belo perú recheado ou um grãozinho com bacalhau, lá em Lisboa... blá, blá, blá.

Acompanhava-o um capitão, seu ajudante de campo, que toda a gente conhece,  e perante as reclamações do major e do médico, o  Spínola só dizia:

 
  Aponta, Bruno!

Felizmente tinhamos um excelente médico, a quem presto a minha homenagem no Blogue, o Dr. João Carlos de Azevedo Franco, que,  à mais pequena mazela, muitas vezes resultante do estado psicológico em que vivívamos, dava uma baixa. 

Recordo que nesse célebre dia do Aponta, Bruno,  o Spínola disse ao médico:

—  Estes rapazes o que precisam é de umas picas, vou lhe mandar uma boa dose de medicamentos... Aponta, Bruno!

Ao que o médico lhe respondeu:

  O que eles precisam é de uns bons bifes e descanso.

Claro está que o capitão Bruno não apontou o que o médico disse. Mas, não é que oito dias depois chega a barcaça com mantimentos e duas enormes caixas de medicamentos não solicitados ?! 

Escusado será dizer que foram devolvidas ao remetente, com a informação "medicação não solicitada"... E a vida continuou.

 (Revisão / fixação de texto, título, negritos, itálicos:  LG)

 
2. Ficha de unidade > 
Companhia de Caçadores nº  2381

Identificação  CCaç 2381
Unidade Mob: RI2 - Abrantes
Cmdt: Cap Mil Inf Jacinto Joaquim Aidos | Cap Mil grad Inf Eduardo Moutinho Ferreira Santos
Divisa: "Os Maiorais" - "Pela Lei. Pela Grei"
Partida: Embarque em 01Mai68; desembarque em 06Mai68 | Regresso: Embarque em 03Abr70

Síntese da Actividade Operacional

(i) Em 06Mai68, seguiu para Ingoré, a fim de efectuar a instrução de aperfeiçoamento
operacional com a CCaç 1801, sob orientação do BCaç 1933 e seguidamente, assegurar a segurança e proteção dos trabalhos de reordenamento de Antotinha e efectuar ações de patrulhamento e emboscadas nas áreas dos corredores de Sano e Canja, em reforço da guarnição local e daquele batalhão.

(ii) Em 18Ju168, na sua função de subunidade de reserva do Comando-Chefe, foi deslocada para Buba, a fim de reforçar o BCaç 2834, em substituição da CArt 1613, que anteriormente recolhera a Bissau, por fim de comissão.

(iii) Em 08Ago68, por troca com a CCaç 2382, assumiu a responsabilidade do subsector de Aldeia Formosa, com pelotões destacados em Chamarra, de 10Ago68 a 08Fev69, ficando integrada no dispositivo e manobra do COSAF/ COP 1 e depois do BCaç 2834.

(iv) Em 04Jan69, substituída pela CCaç 1792, seguiu para Buba, no mesmo sector, a fim de colaborar na segurança e protecção dos trabalhos da estrada Buba-Aldeia Formosa e na ação de contrapenetração, passando a ficar integrada no dispositivo e manobra do COP 4, então criado, a partir de 19Jan69.

(v) Em 01Mai69, por troca com a CCaç 1792, assumiu a responsabilidade do subsector de Empada, continuando na dependência do COP 4 e depois do BCaç 2892 e mantendo dois pelotões em Buba até 03Dez69, um dos quais foi deslocado para Mampatá, de 04 a 31Mai69, orientando a Companhia a sua atividade para a realização de emboscadas, patrulhamentos e defesa e controlo das populações.

(vi) Em 26Fev70, foi rendida no subsector de Empada pela CArt 2673 e recolheu a Bissau, em 28Fev70, a fim de aguardar o embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa nº 94 - 2ª  Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002,  pág. 366.
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Nota do editor LG:

Últimpo poste da série > 10 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27908: Humor de caserna (255): O anedotário da Spinolândia (XXVII): Os comparsas da FAP - Parte II

terça-feira, 31 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27874: Casos: a verdade sobre... (65): o acidente com canhão s/r 82, B-10, russo, que vitimou o 2º srgt António Duarte Parente, do Pel Caç Nat 53, no Saltinho, em 13 de maio de 1970





Guiné > Região de Bafatá > Sector L5 (Galomaro) > Saltinho > Destacamento de Contabane (reordenamento junto ao quartel do Saltinho, mais tarde, Sinchã Sambel, em homenagem ao régulo de Contabane > Pel Caç Nat 53 (1970/72) > O Paulo Santiago com o canhão sem recuo 82 B-10, russo, que esteve na origem do acidente, no Saltinho, que provocaria a morte do 2.º srgt Parente (apanhado pelo "cone de fogo" do canhão s/r disparado inadvertidamente por alguém)... A tragédia deu-se no dia 13/05/70, quando já se encontrava naquele quartel a CCAÇ 2701, que rendeu a a CCAÇ 2406, "Os Tigres do Saltinho" (1968/70).


Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. O 2.º srgt António Duarte Parente não pertencia a nenhuma daquelas companhias, aq CCAÇ 2406 e a CCAÇ 2701, era um dos graduados do Pel Caç Nat 53, comandado naquela data pelo alf mil António Mota que o Paulo Santiago foi substituir em outubro de 1970. 

O canhão s/r, apreendido ao PAIGC, foi mais tarde transferido do Saltinho para o reordenamento de Contabane (hoje, Sinchã Sambel).  Mas antes disso, nos primeiros dias de novembro de 1970 foi um heli ao Saltinho buscar, por ordem do Com-Chefe, o canhão s/r 82, B10, para equipar as NT no decurso da Op Mar Verde (invasão anfíbia de Conacri, 22 de novembro de 1970). Voltaram a entregá-lo em dezembro. 

Gravemente ferido, em resultado desse acidente, o Parente foi evacuado para o HM 241,m Bissau, e a seguir para o Hospital Militar da Estrela. Morreu um nmês depois. Está sepultado na Covilhá,

2. Comentários:

(i) Jorge Narciso (*) (**)

(...) António: não tem este o fim de comentar o teu poste (eu até nem fui nem vim de barco, pois era da FAP), antes e verificando que terás estado no Saltinho por 69/70, procurar uma eventual ajuda tua para precisar na memória um facto lamentável, que muito me marcou e do qual não fiquei com registo preciso.

Eu fui mecânico da linha da frente dos helicópteros (exactamente entre  abril de 1969 e dezembro de 1970) e muitas vezes fui ao Saltinho (cruzámo-nos concerteza), nomeadamente na época das chuvas, para proceder a abastecimento de víveres.

Aliás, ali "festejei" os meus 20 anos, facto que, denunciado pelo piloto, "nos obrigou" a só dali sair depois dum copo (penso que de espumoso).

Com essas diversas viagens estabeleceram-se alguns laços de amizade, nomeadamente com um sargento (de quem não me recordo o nome) que é, esse sim, o motivo deste comentário.

Sei que numa determinada altura foi substituída a guarnição do Saltinho (fim de comissão ?), mas que o citado sargento, por ser de rendição individual, ali permaneceu com a nova guarnição. [ Substituição da CCAÇ 2406 pela CCAÇ 2701, em maio de 1970].

Um dia (que também não consigo precisar) parti numa evacuação para o Saltinho (que, diga-se, não era habitual) e qual não foi a minha surpresa (e choque) quando verifico que ela se destinava exactamente ao citado sargento.

Explicaram-nos, rapidamente, ter sido ele atingido pela gravilha projectada pelo escape do canhão sem recuo, montado num dos muros do aquartelamento, que tinha sido extemporaneamente disparado por terceiro, num tiro de experiência e demonstração.

Foi, talvez, a evacuação mais penosa das incontáveis que realizei na Guiné. Desde logo pelo seu gravíssimo estado físico (completamente crivado), pelo emocional, com a sua lúcida compreensão desse mesmo estado, finalmente porque era alguém com quem mantinha uma relação, diria de quase amizade, o que exponencia largamente o nossas próprias emoções.

Desembarcado, com as palavras de encorajamento possíveis, procurei num dos dias seguintes visitá-lo, tendo-me sido informado que tinha sido imediatamente evacuado para Lisboa.

Tendo mantido o interesse , soube muito mais tarde que não tinha resistido aos ferimentos, vindo a falecer.

Recordas ou de alguma forma tiveste algum contacto testemunhal com este caso ? (...)

(ii) Paulo Santiago (**)

Jorge: Vou tentar contar o episódio de que falas (*) , que aconteceu já depois da saída, do Saltinho, da CCAÇ 2406, a que pertenceu o António Dias [. O CCAÇ 2406, Os Tigres do Saltinho, 1978/70, pertencia ao BCAÇ 2852, com sede em Bambadinca).

A tragédia, confirmei agora a data com um camarada, deu-se no dia 13/05/70, quando já se encontrava naquele quartel a CCAÇ 2701. O 2º  srgt Parente, o militar de que falas, não pertencia a nenhuma daquelas companhias, era um dos graduados do Pel Caç Nat 53, comandado naquela data pelo Alf Mil António Mota que eu fui substituir em Outubro de 1970.

O trágico acidente resultou de um disparo ocasional do canhão S/R 82, B10, naquele dia instalado no Saltinho, mais tarde foi comigo para o Reordenamento de Contabane.

Ninguém tem uma explicação cabal para o sucedido. Havia ordens expressas para a arma estar sempre com a culatra aberta, e sem granada introduzida, parece que naquele dia havia uma granada introduzida,e a culatra estava fechada.

Como aconteceu? Junto da arma encontravam-se vários militares, cap Clemente, alf mil Julião, srgt Demba, da milícia, 2º srgt  Parente e ainda mais dois ou três militares. A arma para disparar, granada na câmara e culatra fechada, accionava-se o armador, premia-se o gatilho,acontecia o disparo. Diziam que alguém tocara com o joelho no armador e dera-se o disparo...

O 2º srgt  Parente estava logo atrás do canhão S/R, foi parar a vários metros de distância, e tu, Jorge Narciso, sabes como ele ía. Ficaram também feridos o cap Clemente, queimaduras numa mão e virilha, e o Demba, queimaduras numa perna. Foram também evacuados para o HM 241.

Como dizes,o Parente morreu passado um mês. Já como comandante do Pel Caç Nat 53,recebi uma carta da viúva, pedindo-me ajuda na resolução de um qualquer problema que agora não recordo.

Foi um dia trágico no Saltinho.Isto é, muito dramático, o Parente tinha recebido naquele dia um telegrama, via rádio, informando-o que fora pai de uma miúda...e andara na tabanca a comprar uns frangos para fazer um jantar comemorativo do nascimento...

O alf mil Fernando Mota, da CCAÇ 2701, recebeu uma carta com a notícia que o irmão fora morto com um tiro da Gurda Fiscal. O srgt  Demba da milícia foi morrer no Quirafo em 17 de abril de 1972 .. Será que o Parente ainda viu a filha antes de morrer?

Apesar de não o ter conhecido, é-me penoso falar desta tragédia. (...)
 
(iii) Paulo Santiago (***)

(...) Quanto às munições para o canhão s/r, havia uma quantidade razoável. O Julião, alf mil, CCAC 2701 (Saltinho, 1970/72), num patrulhamento,deu com um pequeno paiol com granadas para o 82B10.Na foto vêem-se algumas embalagens com granadas.


(iv) Luís Graça (***):

Recordo-me bem do Duarte Parente, do tempo de Baambadinca..  Era um dos poucos sargentos, do exército, que era operacional... na região de Bafatá. Tirando os sargentos das forças especiais (páras, fuzos, e talvez comandos), os sargentos do Exército ficavam na secretaria, ou outras funções de apoio... Não se exagera dizendo que a guerra era para os graduados milicianos e as praças do contingente geral... Os do QP, oficiais e sargentos, em geral, protegiam-se melhor...

Eu pensva que o Duarte Parente fosse alentejano, afinal era beirão. Era um gajo com piada, com quem se criava facilmente empatia. Infelizmente, deixou viúva e filha órfão, coisa que eu não sabia... Um das das "bocas" dele que ouvi no nosso bar, em Bambadinca, nunca mais a esquecerei:

- Quando eu vou na rua, só paro em dois lugares: numa taberna ou bar ou numa livraria...

Seguiu depois para o Saltinho onde conheceu o caminho do calvário que o levou à morte, um mês depois já em Lisboa, no HMP. (****)

Não temos, também, infelizmente, nenhuma foto dele. (*****)


(Seleção, revisão / fixação de texto, título: LG)
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Notas do editor LG:





(*****) Últrimo poste da série > 30 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27871: Casos: a verdade sobre... (64): uma mina anticarro, reforçada, que acionámos em Nhabijões, em 13/1/1971, a que altura poderia lançar a nossa GMC ? (António Fernando Marques / Luís Graça)

Guiné 61/74 - P27873: Humor de caserna (254): O anedotário da Spinolândia (XXVI): "P*rra, não é só alferes, estão todos apanhados

 

Rússia > Moscovo > Praça Vermelha > 2019 > "O meu pai, em Moscovo, no verão de 2019 (uma das várias viagens que fiz com ele) na Praça Vermelha, com o seu olhar curioso e atento, tão característico." Foto de Pedro Almeida Cabral, com a devida vénia.


Foto (e legenda): © Pedro Almeida Cabral  (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Gosto,  de tempos a tempos,  de revisitar a 'cabralolândia", o universo picaresco das estórias cabralianas, nascidas da genial veia humorística do Jorge Cabral, o mais lídimo representante da corrente literário-filosófico da guerra do absurdo (possivelmente só a par do nosso saudoso Raul Solnado)... 

Infelizmente, em vida, ele só conseguiu publicar o I Volume, lançado em plena pandemia:  teve de ser no Jardim Constantino,  ao ar livre, e não num bar de alterne, como chegámos a sugerir-lhe, na zona ribeirinha da suja, porca, lumpen Lisboa dos anos 60/70, que já não existia mais em 2021. 

O facto de eu lhe ter escrito  o prefácio,  dá-me o direito de não ter de bater a pala a ninguém para, de vez em quando, "repescar" (e refrescar) uma ou outra das suas "estórias cabralianas",  tanto mais que elas foram todas,  previamente, publicadas no nosso blogue, desde os primórdios... (Ele é um dos históricos da Tabanca Grande.)

 Caros amigos e camaradas "spinolistas",  não seentendam esta "estória" como sinal de menos respeito pelo nosso antigo Com-Chefe, nascido  na Madeira em 1910, de ascendência italiana, e entretanto subido, em 1996, como marechal, ao Olimpo dos Deuses e dos Heróis...

 Mas perguntam os leitores mais recentes: mas quem é esse "alfero Cabral" ? 

O "nosso alfero", como lhe chamavam os seus soldados guineenses, era o alferes miliciano de artilharia, Jorge Cabral, filho de militar, com avoengos ilustres que se notabilizaram (e nobilitaram) nas Armas & Letras, estudante universitário, menino-boémio das Avenidas Novas, amador do Teatro do Absurdo, enfim, comandante, no TO da Guiné,  do Pel Caç Nat 63, destacado em Fá Mandinga e depois em Missirá, Sector L1,  Bambadinca, Zona Leste, 1969/71; mais tarde, depois de passar à "peluda", tornou-se advogado e professor universitário, especialista em direito penal.  

"Trata-me bem deste homem, porque já não há disto": ainda me lembro bem da recomendação do seu fur mil António Branquinho (irmão do Alberto, o escritor), há muitos anos atrás,  em Coruche, no convívio do pessoal da CCS / BART 2917 (Bambadinca, 1970/72) e subunidades adidas...

 O episódio que a seguir se descreve, passa-se em dezembro de 1970, em plena Spinolândia, uma terra que em boa verdade nunca existiu, a não ser no nosso imaginário palúdico, mas que desempenhou um papel importante na história das "alterações climáticas"... 

Ainda não se falava neste chavão, quando no TO da Guiné se começaram a manifestar os primeiros sintomas de uma nova "síndrome", que escapou, na época, não só aos "mentirologistas" como   aos "psiquiatras castrenses" (que em rigor não existiam, pelo menos devidamente diplomados). 

Essa síndroma, se bem se recordam, ficou conhecida como a dos "apanhados do clima"... O "Alfero Cabral", a par do "Gasparinho"  (major) e de tantos outros militares, anónimos,  do CTIG, eram o protótipo destes "apanhados do clima".


Quando Sexa, o Caco, em Missirá, ia perdendo o dito cujo

por Jorge Cabral (1944-2021)


Poucos dias faltavam para o Natal, e a tarde estava quente. Todo nu no meu abrigo, fazia a sesta, quando sou despertado por enorme algazarra misturada com os ruídos do helicóptero.

 Alfero, Alfero, é Spínola!   − gritam os meus soldados.

(Estou tramado, o quartel está uma merda. Que visto? Apresento-me em estado de nudez? Não há tempo a perder. O pássaro já poisou e o General avança. Enfio uns calções antigamente verdes, umas chinelas, e claro uma boina, para poder fazer a devida continência).

Eis-me assim, garboso comandante, apresentando a tropa, e os milícias, todos eles mal fardados, como era habitual.

 Sua Excelência, pede um intérprete, pois vai botar discurso. E começa:

− Debaixo desta bandeira… − e aponta o braço na direcção onde pensava que a mesma existia. Fica-lhe o braço no ar, mas continua:
 
− ... A Pátria… − e notando a atrapalhação do tradutor, pergunta-lhe:

− Sabes o que é a Pátria, rapaz ?

− Não  − responde aquele.

(Lixei-me! Vou ser despromovido, talvez preso. Dentro de mim, um turbilhão de maus presságios começa a fervilhar. Mentalmente preparo réplicas. Não é necessária bandeira, pois a Pátria está dentro de nós, e por isso, meu General, é indefinível, responderei,)

Mas o Caco nada me pergunta. Vem acompanhado de três majores e um capitão. Querem ver tudo. Primeiro a Escola. Onde funciona?

(Escola? Qual Escola?!... Pensa rápido, Jorge! Inventa!)

− Sabe, meu major, estas crianças também frequentam o ensino corânico, que decorre ao ar livre. Por isso considerei que a nossa escola não devia ser enclausurada, pois tal podia traumatizá-las.

− Ainda assim… − começou o major, impedido de continuar por um olhar do Com-Chefe.

− E o Heliporto?  − indagou um outro major.   − Parece muito atrasado.

− É que, meu major, faltam os materiais e também operários especializados.

− Operários especializados? Então... e os seus soldados?!º
 
− Todos homens de fé, meu major. Tirando a actividade operacional, dedicam-se à reflexão e oração.

Nem respondeu este major. Logo outro se adiantou, interrogando o Amaral, sobre as povoações mais próximas. Em sentido, sério, calmo, respondeu o Amaral:
 
− Mato a norte, mato a sul, mato a leste, mato a oeste, meu major.

(Ah! Grande Amaral, vais fazer-me companhia na porrada!)

Mas o pior estava para vir! Sua Excelência queria testar o plano de defesa:

− Qual o sinal, nosso alferes?
 
− Uma granada   − improvisei eu.

Tendo-me dirigido à arrecadação, não encontrei nenhuma granada ofensiva. Peguei então numa defensiva, e zás, lancei-a. Tudo tremeu! Manteve-se de pé o General, mas o Caco caiu.

Entretanto os meus soldados, querendo mostrar heroicidade, encostaram-se ao arame, de peito descoberto, alguns mesmo sem arma.

(Agora sim, está tudo perdido! Que vergonha! E logo eu, neto de um herói de Chaimite!)

Recomposto o Caco, olhou-me uma última vez e disse:

− Já vi tudo!.

Ao encaminhar-se para o helicóptero, ainda lhe ouvi comentar para a comitiva:

−  Porra, que não é só o alferes! Estão todos apanhados!

Deve porém ter ficado bem impressionado, pois três dias depois voltou. Eu não estava. Tinha ido a Fá, buscar uma garrafa de uísque, prenda mensal do capitão João Bacar Djaló

Contou-me o Branquinho que, quando o informaram da minha ausência, Sua Excelência exclamou:

− Ainda bem!

© Jorge Cabral (2006).

(Revisão / fixação de texto, itálicos, título: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 28 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27864: Humor de caserna (253): O anedotário da Spinolândia (XXV): "Senhor Comandante, espero que nos vamos entender muito bem", disse em maio de 1968 Spínola, ao acabar de conhecer o Alpoim Calvão, o qual lhe retorquiu: "Não sei se é possível, porque eu tenho três grandes defeitos: primeiro, sou oficial de marinha; segundo, não sou de cavalaria; e não sou do Colégio Militar’.