Pesquisar neste blogue

A apresentar mensagens correspondentes à consulta estórias ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta estórias ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27682: (De) Caras (241): Procura-se um senhor da Rádio chamado Carlos Boto, que terá feito 3 comissões de serviço no CTIG, esteve em Cabuca, e trabalhou depois no Rádio Clube Português até 2010 - Parte I





Guiné > Bissau > Brá > Depósito de Adidos > Casa de Reclusão Militar > Março de 1973 > O "carcereiro" em alegre e franco convívio com alguns reclusos por ocasião de um aniversário. "O camarada ao fundo, de óculos e barba, é o Carlos Boto, já aqui referenciado por outros camaradas"... Vê-se que está de gravador na mão, recolhendo declarações de outro camarada, possivelmente o aniversariante e ambos... reclusos. O Carlos Boto deve ter seguido depois para Cabuca, na zona leste, região de Gabu, onde animaria a rádio local "No Tera" (A nossa Terra)... Ainda hoje os seus camaradas desse tempo (2.ª CART/ BART 6523, Cabuca, 1973/74) andam à procura do seu paradeiro...


Fotos (e legenda): © Augusto Silva Santos (2013). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Há várias referências, no nosso blogue, ao Carlos Boto, um homem da rádio, e nosso camarada no CTIG, que terá passado, pelo menos, por 3 companhias... Mas, desde 2013, têm sido vãs as tentativas para o encontrar.

Em 5 de outubro de 1972, o Jorge Canháo econtra-o no Cumeré. Eram amigos de infância. o Carlos Boto estaria, aparentemente, em fim de comissão. Mas em finais de 1972, ele é referenciado como estando colocado, por razões disciplinares,  na CCAV 3404 / BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73). 

Por volta de março de 1973,  era recluso na Casa de Reclusão Militar, em Brá, Bissau quando o Augusto Silva Santos, colocado no Depósito de Adidos, ali fazia sargento da guarda.

Ainda em 1973, terá regressado a Cabuca, já no tempo da 2ª Cart / Bart 6523 (1973/74), onde fundou e dirigiu a Rádio "No Tera", até ser novamente transferido para Bissau, outra vez por motivos disciplinares. 

2. O nosso saudoso José António Sousa (ex-sold cond auto,  CCAV 3404/ BCAV 3854, Cabuca, 1971/73), já aqui escreveu sobre ele:

(...) Este camarada era condutor e foi integrado na CCav 3404 nos finais de 1972 (desconheço a data certa), era filho de um oficial do exército e talvez por ter estado sujeito a alguma disciplina militarista (digo eu) na sua adolescência e juventude,  tornou-se um jovem um tanto ou quanto irreverente. Não é que fosse mau rapaz, mas era um pouco rebelde, o que lhe terá custado algumas sanções disciplinares na tropa. E apareceu em Cabuca por isso mesmo.

O Botto (sic) era um indivíduo muito criativo, organizava todo o tipo de actividades para combater o isolamento a que estávamos sujeitos dentro daquelas duas fiadas de arame farpado: desde o futebol ao basquetebol passando pelo voleibol, lá estava a assinatura do Carlos Manuel Marques Botto. Chegou até a organizar um gincana com bicicletas, depois de ter convencido alguns nativos emprestar-lhas,  embora algo desconfiados...

Até que um dia resolveu criar uma emissora de rádio!... Um radialista por excelência, como ele, tinha que passar por tudo, para conseguir os seus intentos.

Foi escolhida uma pequena casa que havia sido construída com a finalidade de substituir a velha enfermaria mas que nunca fora  utilizada.

Com a colaboração do pessoal das Transmissões, lá conseguiu arranjar o equipamento necessário para o sua emissora de rádio. 

Pôde também contar com a minha colaboração, pois para alimentar os equipamentos era necessária corrente eléctrica e esta era fornecida através de uns cabos ligados à bateria do “meu" Unimog estacionado nas traseiras da “emissora”. Também lhe dava assistência no som. 

O genérico de apresentação era o Pop Corn, na época muito em voga. Para além da música emitida por um gravador de cassetes, organizavam-se os mais diversos concursos que sempre divertiam o pessoal. 

Fiquei surpreendido quando há cerca de dois ou três anos atrás soube que o meu amigo Carlos Botto havia regressado a Cabuca, já no tempo da 2ª Cart/ Bart, 6523, provavelmente pelos mesmos motivos da primeira vez, e como não podia deixar de ser, mais uma vez uma emissora de rádio, a “Rádio Nos Tera”.

Passei muitos bons momentos com este camarada que nunca mais vi, soube que apareceu num dos convívios da CCav 3404 mas eu não estive presente. Gostava muito de o rever. (...)


3. O Carlos Boto é também aqui referido como "amigo de infància" pelo Jorge Canhão: encontraram-se no Cumeré em 5 de outubro de 1972, um "periquito", acabado de chegar à Guiné, e o outro "velhinho", pronto para regressar a casa (o que não chegou a acontecer) (**).

 De facto, em comentário ao Poste P11071 (*), o Augusto Silva Santos escreveu o seguinte ao José António Sousa:

(...) Somos do mesmo tempo na Guiné, embora eu tenha pertencido ao BCaç 3833 / CCaç 3306. O Batalhão estava sediado no Pelundo, e a minha Companhia em Jolmete. 
.
Fui ali colocado em rendição individual pelo que, finda a comissão daquela unidade, fiquei colocado no Depósito de Adidos, em Brá. 

É aqui que eu penso ter conhecido o teu camarada Carlos Botto, se não estou enganado, isto tendo em conta que já lá vão 40 anos. Se é a mesma pessoa de que estamos a falar, acabei por o conhecer em circunstâncias pouco normais, visto ele estar recluso na Casa de Reclusão Militar, onde eu habitualmente fazia Sargento da Guarda. 

Repito, não sei se tratará da mesma pessoa, mas tenho uma vaga ideia de que sim, pelo nome e pela figura. Possuo inclusive duas fotos que talvez permitam a sua possível identificação. Essas fotos estão datadas de março de 1973 (...) (***)


4. No mesmo poste comentou o Ricardo Figueiredo, ex-fur mil, 2.ª CART/BART 6523, "Abutres de Cabuca", Cabuca, 1973/74, hoje advogado e membro do Bando do Café Progresso, além de nosso grão-tabanqueiro:
.
(...) Também eu ando a tentar localizar o Carlos Botto ! 

Na verdade dei a minha colaboração para ele criar a Radio "No Tera" e cheguei também a fazer parte da equipe redactorial da mesma. 

O Carlos era um bom rapaz ! Todavia, em dia que não posso precisar e após ter emborcado uma garrafa de uísque, desatou aos tiros e acabou por ser detido e enviado sob prisão para Bissau , sem nunca mais lhe termos posto a vista em cima. É pois natural o que afirma o anterior comentador. Pela minha parte, continuo a desenvolver esforços para o encontrar (...)


5. Comentário do editor LG:

Por pesquisas na Net, e seguindo uma sugestão de uma leitora nossa, Maria Reis (*), descobri que em 2010, o Carlos Botto trabalhava no Rádio Clube Português e foi um dos subscritores de um manifesto contra o despedimento coletivo que atingiu um grupo de 36 trabalhadores. 

Continuamos sem saber por onde ele anda (****)...Esperemos que esteja bem de saúde, e a fazer o que gosta de fazer, que é a rádio . 

Em próximo poste, falaremos da sua rádio "No Tera", ao tempo dos "Abutres de Cabuca" (1973/74).

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
 


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27651: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte V: O noviço

Convento de Montariol, Braga. Fonte: cortesia de Wikimedia Commons, imagem do domínio público



Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025).

Será capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69), 
e autor do livro de cariz autobiográfico "Francisco Caboz:  a construção 
e a desconstrução de um padre" (2009)


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69). 


No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz,  seu "alter ego".  Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas,  cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, aos 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos  quatro  postes anteriores  já publicados(*), ele fala-nos, 
sucintamente, de:

(i)  a sua terra natal,  "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa  decisão.

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;

(iv)   os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos Prefeitos;

(v) o 6º ano, quando passa a ser noviço [Convento do Varatojo, Torres Vedras] .

É um trabalho relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico no Estado Novo.

2. Temos de fazer aqui, entretanto, uma "viagem no tempo e no espaço"  e reconstituir sumariamente os passos do percurso formativo no nosso Horácio, para se perceber melhor o seu texto autobiográfico.


Antes do 25 de Abril de 1974 (e até á reforma de 1967), a formação de um padre franciscano em Portugal (Província Portuguesa da Ordem dos Frades Menores) seguia um modelo tradicional e rigoroso, estruturado em ciclos que podiam durar entre 12 a 14 anos. 

Este percurso levava o postulante desde a infância ou adolescência até à ordenação sacerdotal. No caso do Horácio, vai de 1946 (já com 11 anos feitos, em 15 de setembro) até agosto de 1959 (Missa Nova) (aos 23 anos, ia fazer 24).

Aqui estão as etapas e os conventos/seminários por onde ele passou:

(i) Seminário Menor (Ensino Secundário) > 
Montariol, Braga (de 1946 a 1951)

O percurso começava normalmente cedo, com rapazes de 10 a 12 anos. (O Horácio fez a 4ª classe do ensino primário no ano letivo de 1945/46, com 10 anos.)

O objetivo era completar o que hoje chamamos de ensino básico e secundário, com forte ênfase no Latim e Humanidades.

O principal centro era o Seminário de Montariol, em Braga: era o grande "viveiro" de vocações franciscanas no Norte do país.. O regime em vigor era o de internato, pura e duro, com uma rígida disciplina monástica, farda própria e um foco muito grande na formação do caráter e no reforço da vocação.

(ii) Noviciado (Ano probatório) > 
Convento do Varatojo, Torres Vedras (1951/52)

Após concluir os estudos liceais (5º ano, em 1951), o jovem Horácio entrou no Noviciado (6º ano, 1951/52).

 Este era o ano mais importante da vida espiritual, dedicado ao silêncio, à oração e ao estudo da Regra de São Francisco. Era aqui que o jovem recebia o hábito castanho e o cordão (ainda sem nós ou com nós simples).

O noviciado era feito no histórico Convento de Varatojo, conhecido como o "Seminário Apostólico". Ficava a escassos quilómetros (18 km) da sua terra natal. 

Ao fim de um ano, se aprovado, o noviço fazia os Votos Temporários (Pobreza, Castidade e Obediência). 

(iii) Filosofia (Estudos Maiores I) > Coristado > Convento
 de São Francisco, Leiria (de 1952 a 1955,  dos 17  aos 19 anos).

Após o noviciado, o Horácio passou  ao coristado, ou seja ao início dos estudos superiores. 

A Filosofia (geralmente 3 anos) era o alicerce intelectual antes da Teologia. O centro de estudos de Filosofia funcionava predominantemente no Convento de São Francisco de Leiria, mais aberto como instituição e organização, e ponto de passagem obrigatório para Fátima. 

Nesta fase, os frades eram conhecidos como "Coristas": a sua obrigação principal, além do estudo, era a oração do Ofício Divino no coro da igreja.  O Horácio esteve aqui até ao 9º ano. 

(iv) Teologia (Estudos Maiores II) > 
Convento da Luz, Carnide, Lisboa

A última etapa antes da ordenação sacerdotes  eram os 4 anos de Teologia (do 10º ao 13º anos). 

Durante este período, o frade fazia a sua Profissão Solene, tornando-se membro definitivo da Ordem. O curso de Teologia funcionava no Convento da Luz, em Carnide, Lisboa.


3. É uma história de vida, pungente, sofrida,  bem dura, em tempos muito difíceis (antes, durante e depois da II Guerra Mundial), que merece ser conhecida dos nossos leitores. 

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4a. classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol.

A maior parte de nós, que nasceu já 10 ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica  

Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)

O nosso camarada e amigo Horácio Fernandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre em 1959,  antes de completar os 24 anos.  Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959. 

Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969), tendo terminado a sua comissão no HM 241 com uma crise de paludismo. Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006 doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavós,  paternas, nascidas na década de 1860, eram irmãs, e pertenciam ao clã dos Maçaricos (Ribamar, Lourinhã).

A história de vida do Horácio é a de muitos de nós, que fizemos o percurso clássico de mobilidade social através da educação, num Portugal rural e pobre dos anos 40/50/60.  



História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte V:  O noviço

por Horácio Fernandes


4.1.3. Rituais de interiorização do 'habitus'

Na igreja, ainda sonâmbulos, os angélicos recitavam de cor as orações da manhã e ouviam, todos encolhidos, uma leitura do «Jovem Piedoso», lida com voz solene, que lhes servia de meditação. 

Seguiam-se 15 minutos de joelhos, em que o pensamento voava para longe, sem querer concentrar-se, ou então deitava a cabeça no banco, até que o Prefeito, no melhor dos casos, o obrigava a ficar de pé, de castigo.

Seguia-se a «Santa Missa». Quem não comungava era «marcado» pelo Prefeito, ou seus acólitos e ficava suspeito de andar em pecado. 

Para repor a legalidade simbólica das consciências havia sempre um confessor de serviço, de entre os nomeados pelo Provincial, para atender os angélicos (...).

O bom Angélico confessava-se pelo menos todos os 8 dias e ia ao quarto do Director Espiritual, também expressamente designado, pelo menos uma vez por semana. Podia não ter nada para lhe dizer, mas era obrigado a fazê-lo (...).

Mas os rituais de interiorização dominavam também os tempos extra-estudo, porque não havia tempos livres. «O ócio é o inimigo da alma», repetiam os Directores Espirituais. 

Para as grandes festas litúrgicas, ou do Santo Patrono, havia uma representação teatral, onde procuravam inculcar nos angélicos as aprendizagens do dia a dia: 

  • a sacralidade das hierarquias, 
  • o cumprimento da lei de Deus, 
  • a fidelidade à vocação, 
  • a supremacia das vidas consagradas a Deus, 
  • a imitação dos santos, 
  • a missão heróica dos missionários, 
  • o castigo dos pecadores 
  • e o perdão aos arrependidos
{Alvorada Missionária, Braga, 1946)

- 117 - 

Antecedendo as férias do Natal, Carnaval, Páscoa e férias grandes havia o retiro espiritual. O Director Espiritual ou outro padre fazia as palestras de manhã e à noite e os recreios eram em silêncio. 

No Carnaval redobrava-se as orações e os sacrifícios pela conversão dos pecadores que ofendiam Nosso Senhor com os seus desvarios carnavalescos. Competia aos eleitos de Deus fazer-Lhe companhia nesses dias, porque era muito ofendido.

- 118 - 

4.1.3. A conselho do meu Director Espiritual,  tinha um caderninho, onde apontava os defeitos que havia de corrigir, as boas acções a praticar e os sacrifícios que devia fazer para conseguir progressos na vida espiritual. Cada semana, tinha de lhe relatar tudo o que me acontecia e fazia. 

Em troca, era aconselhado a como combater as tentações da carne e os maus pensamentos, mortificando o corpo e rezando muitas jaculatórias, suportando a dor e passando voluntariamente horas sem falar nos recreios, para conseguir ganhar a virtude do silêncio. 

Para conseguir a virtude da pureza, nos ferrvores dos meus 12, 13 e 14 anos, cheguei a usar cintas entrelaçadas de espinhos de roseira, ou tabuinhas com pregos, por debaixo das roupas, para afastar os «maus movimentos» e ser puro. 

Ser puro como o Santo Patrono dos Angélicos, que, como diziam os livros que o Director Espiritual recomendava, quando o assaltou o pensamento de casar, tirou as vestes e lançou-se à neve, fez uns bonecos e disse: «Eis aí os teus filhos e mulher, trata deles»; e assim lhe passou à tentação. Com estes e outros exemplos espirituais, procurava permanecer «puro», como os anjos do céu. 

'Nas férias do Natal, Carnaval e Páscoa era permitido requisitar livros, devidamente selecionados, como os de Madame Ségur, que falavam de meninas dos Colégios bem comportadas e acabavam por ir para freiras, Contos Missionários, Aventuras de Júlio Verne, e montes de livros de santos.

 Lembro-me que já quase sabia de cor as aventuras de Júlio Verne que li várias vezes, durante os cinco anos.

Ajudar às missas devidamente fardado e pertencer às Associações Religiosas da instituição também era uma obrigação. Pouco mais servia, do que nas festas dos santos patronos e procissões irmos atrás do estandarte. 

- 117 - 

Outro momento solene era o exame de consciência. Todas as noites, antes de deitar o Prefeito interrogava em voz solene as consciências dos rapazes que não excediam os 16 anos: «o machado está lançado à raiz da tua vocação», começava ele, «teme os inimigos que rondam o teu coração». 

Seguia-se uma torrente de perguntas a que o Angélico respondia, em silêncio, questionando se teve maus pensamentos e quantas vezes, se os consentiu, se tinha alguma amizade particular com os colegas, percorrendo um a um todos os pontos do Regulamento. 

Terminava por um apelo ao arrependimento e um propósito firme de sermos fiéis ao chamamento de Deus, sob pena de trairmos a sua predilecção.

- 118 - 

4.2. Os rituais de interiorização tiveram o seu auge no 6º ano [, no Convento do Varatojo, Torres Vedras], em que o panoptismo foi reforçado. 

A maior parte do tempo era consagrado ao estudo da Regra e Constituições, Cerimonial Doméstico e Ordenações Peculiares da Instituição.

 O clima de silêncio permanente, a meditação o retiro espiritual, a autoflagelação, as práticas rituais de subordinação simbólica, a clausura efectiva predispunham a pessoa à renúncia obrigatória das subjectividades e aniquilamento do 'self'.

Ao Angélico, durante o Colégio, procuravam inculcar o 'habitus', através de uma praxis ritualizada e uma prática discursiva, Ao noviço, vestiam mesmo o hábito, a túnica e o «caparão» (6), seu símbolo, procurando integrá-lo na «família» simbólica da instituição. Era a tentativa de impor uma identidade colectiva, construída por espaços próprios e um poder teocrático.

______________

Nota do autor:

(6) Pequeno rectângulo de pano, seguro ao hábito que servia para distinguir os noviços dos outros professos.

- 118 - 


4.2. O noviço

O Noviciado foi o meu ano de transição para o Coristado de Filosofia e Teologia. 

Tido como ano probatório, aí entrei aos 16 anos. A cerimónia da tomada de hábito foi impressionante. Deitámo-nos nos degraus do altar, o coro rezou as ladainhas a implorar a todos os santos e santas a protecção e só depois nos despiram o «homem velho",  simbolizado no fato preto que trazíamos e nos vestiram de «homem novo», com o hábito. 

Assistiram os meus pais e muita gente de Arribas do Mar. No claustro, houve uns breves momentos para uma fotografia com os pais e amigos, mas nem houve tempo para conversar Tive de recolher ao convento, onde não podiam entrar pessoas estranhas.

Depois de cinco anos, via-me livre dos Prefeitos, mas caía na alçada dos Mestres e de toda a comunidade com votos solenes, que faziam a minha avaliação, todos os trimestres, com feijões pretos e brancos depositados numa urna. Contavam-se e conforme tivesse mais pretos ou mais brancos, assim era rejeitado ou podia continuar. No fim, ainda tinha de beijar os pés aos que me tinham avaliado.

Completamente afastado do contacto das outras pessoas, inclusive os outros padres do convento e familiares,  encerraram-me na parte mais alta do convento à chave. 

Só podia sair para o coro, defendido do resto da igreja por altas grades, refeitório, ou mata, em formatura,  de cabeça baixa, mãos nas mangas e devidamente fardados, pés descalços com sandálias de inverno ou verão, cordão à cinta, túnica de pano grosseiro hábito e cuecas ou ceroulas. Calças eram proibidas, e o reforço da roupa só por doença e com licença expressa dos superiores;

As sextas feiras participava na confissão pública dos pecados e a respectiva penitência. Era o chamado capítulo de culpas, na sala capitular. 

- 118 - 

Ora um ritual, em que todos de joelhos, excepto os padres, porque esses ajoelhavam só no fim e apenas pediam perdão dos seus pecados a Deus, confessavam um pecado e recebiam a admoestação do Superior e a penitência.

O que mais me custou, para além do isolamento, foi o ritual das «disciplinas» às sextas-feiras. Nos meus verdes 16 anos, lá ia para o meio do corredor, com as «disciplinas» confeccionadas por mim, na mão. 

Apagavam-se as luzes e ao som do salmo Miserere mei Deus começava a autoflagelar-me. Parecia que o salmo nunca mais acabava e, na Sexta- feira Santa,  era repetido três vezes. Gomo estava distante dos outros noviços, cerca de um metro,  percebia perfeitamente quem batia com mais força.

Havia um colega meu, candidato a irmão leigo, que era um caso singular: mais avançado em idade, pois tinha sido sargento na tropa, batia com um cinto que se ouvia muito ao longe, enquanto pedia a Deus perdão dos seus pecados em voz alta, desafinando do resto do coro. Durante a noite não dormia na cela e, de manhã, encontrávamo-lo muitas vezes deitado, debaixo do altar da capelinha do Noviciado, porque tinha medo do diabo que o perseguia.

Da minha parte, convencido de que era o eleito de Deus para salvar o mundo pecador, cumpria o que me mandavam, sem regatear, como se pode observar num artigo que escrevi para a revista do Noviciado {Vita Abscondita, Ano VII, 1952, n.° 6).

As ocupações, para além do estudo da Regra e Constituições, era ouvir duas vezes por dia as palestras dos Mestres sobre como dominar «o irmão asno» - o corpo. 

Enfadonha e ritualmente ouvíamos repetir como os santos manejavam as armas brancas da oração, as ligeiras e pesadas das jaculatórias e sacrifícios. As aprendizagens propriamente ditas consistiam em confeccionar coroas angélicas em silêncio, ou falando baixinho, aprender os cerimoniais conventuais e fazer «disciplinas».

Outros rituais eram, depois do almoço, o prandium ou a sesta, ou em sua substituição estar recolhido na cela; caela mihí coelum (a cela é o meu céu). 

À noite, antes de deitar, entoava-se mais um responso pelas «benditas almas do purgatório» e aspergia-se as celas com água benta, não viesse o demónio trazer maus pensamentos, durante o sono.

Os únicos móveis da minha cela eram: uma mesa nua, uma cama de ferro e um armário de pinho, para pendurar os dois hábitos: um de trabalho e outro das festas.

As celas ficavam alinhadas num largo corredor, com a particularidade de dispor de um orifício, por onde o Mestre ou o vice - Mestre dos noviços podiam espreitar, para ver o que se passava lá dentro. Aliás, era expressamente proibido fechar a cela à chave.

O ritual das punições era agora mais requintado: os Mestres não me batiam, mas mandavam-me à culpa com um objecto ao pescoço, no caso de se ter partido alguma coisa, mesmo sem querer. Eu só fui uma vez à culpa sozinho. Acompanhado, ia todas as semanas, ou porque o Mestre mandava, mesmo sem motivo, ou por ser apanhado a falar.

Durante algum tempo fui destacado para regar as flores, sob a jurisdição de um padre mais velho, que não podia já com o regador. Tirava a água do tanque e fazia o que ele me mandava. Um dia, no Verão, não resisti. Apanhei o padre distraído, tirei num instante o hábito e mergulhei no tanque. 

- 119 - 

Se a comunidade religiosa era já um microcosmos, dentro do macrocosmos social, o Noviciado era um permanente retiro espiritual, em que os actores sociais representavam ao vivo os papéis de reconstrução dos modelos simbólicos do século XIII. 

Os cenários eram apropriados: 

  • convento do século XV [Convento do Varatojo, Torres Vedras]cuja arquitectura está de costas voltadas para a pequena povoação que lhe deu o nome, 
  • paredes grossas e lajedos do gasto pavimento, ligados a estórias de penitentes, 
  • estatuária simbólica cultivando as representações da morte, 
  • azulejaria dissuasora dos apreciadores dos prazeres quotidianos.

Todos os rituais terminavam com orações pelos benfeitores, que davam a esmolas e a sustentação dos frades, em troca das súplicas e sufrágios, para terem descanso no antiquotidiano. 

Os mais lembrados eram geralmente famílias abastadas e devotas que se lá iam confessar e tinham os padres, como amigos da família. Se tinham capela em casa, dispunham ainda desse mesmo padre, ou outro, que aos domingos lá ia celebrar missa. 

Era um bom conluio, entre os grandes da terra e os administradores do céu. Era frequente o Mestre, confidente dessas famílias, pedir aos noviços orações e sacrifícios para que os seus clientes fossem bem sucedidos!

Mas a colheita de dádivas para sustentar os frades, não se ficava por aqui. Pelas aldeias próximas, andava um «irmão» a mendigar para os frades pobrezinhos. 

Francisco, por vezes, sabendo das dificuldades da sua família, questionava-se porque pediam os frades, se comiam melhor que as famílias remediadas. Ainda não lhe tinham inculcado o mito do pobre de espírito, o antídoto que serve para tranquilizar as consciências dos ricos.

- 119 - 

 Explicavam que era uma ocasião do povo devoto do Santo Patrono mostrar a sua generosidade e beneficiar das orações da comunidade. 

Habituado a aceitar e não raciocinar, resignou-me mais uma vez à lógica do sistema. Estava mesmo entusiasmado a imitar o Santo Patrono. A semente tinha caído em bom terreno {Vita Abscondita, 1952, n°6).

Foi com certeza esta resignação que ditou a sua escolha para os votos simples de 'pobreza voluntária, obediência inteira e castidade perpétua', em 15/08/52.

 Dos 14 noviços clérigos que iniciaram o Noviciado, só 10 transitaram para o Coristado no ano 1952  [, no Convento de São Francisco, em Leiria] (Livro de Registos de Admissões e Livro de Registo de Profissões Simples, 1952).

 - 120 - 

Foi rápido, mas ao chegar ao pé do padre, este interpelou-me por ter a cabeça molhada e ter demorado muito. Não valeu de nada desculpar-me. Foi fazer queixa ao Mestre. A partir daqui, houve uma série de rituais até ser castigado.

Primeiro tive de me dirigir ao Mestre e, de joelhos, cumprir o ritual, dizendo: peço me dê penitência por amor de Deus. Ouvi um ralhete e fui mandado à 'culpa'. 

Depois, antes de ir para o refeitório, tive de me ajoelhar novamente a pedir perdão ao Mestre, dizendo "perdoe-me a penitência por amor de Deus".

 Não me perdoou, mas tive de lhe beijar, na mesma, a mão. Finalmente, fui à Guia ao refeitório e substítuiram-me no serviço de regar as flores, passando agora os os tempos de trabalho fechado a fazer terços e «disciplinas».

No dia combinado, no refeitório, de joelhos, perante toda a comunidade, disse a fórmula ritual:

"Digo a Deus a minha Culpa, a vossa Paternidade e a iodos os frades e irmãos por todas as faltas e negligências, sobretudo por ter tomado banho no tanque. Pelo que, peço a Deus perdão e avós, Padre, a penitência". 

Seguiu-se o sermão pelo padre Superior e a penitência que consistiu em rezar uns quantos Padre-Nossos e Avé Marias pelos benfeitores e beijar ôs pés a toda a comunidade. :

Para cumprir a penitência, arrastei-me por debaixo das mesa para beijar os pés a todos os frades Alguns, sobretudo os que trabalhavam na quinta e com os pés mais sujos taparam-nos com o hábito, mas os mais observantes esticavam-nos mesmo bem.

- 120 - 

(Continua)

Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 117-120 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, bold, itálicos, título: LG)
_________________

Nota do editor LG:

(*) Vd. postes anteriores: 



17 de janeiro de 2026 Guiné 61/74 - P27642: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IV: Vigiar e punir

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27637: Manuscrito(s) (Luís Graça) (281): "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara, pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor - Parte V: O Zé Pitucas, aliás, o Zé Ançã (1937-2002): "Ou dás-me a navalha, ou nunca mais te falo"...


Porto > c. 1918 > "Uma foto lindíssima do meu pai, embarcado com 12 anos com o cão ao colo por trás da boia do Pátria, o navio em que embarcou. O capitão era o pai do Mário Castrim, o cap Fonseca, de Ílhavo."

Fotos (e legendas): © José Amtónio Paradela (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Capa do livro "A Rua Suspensa dos Olhos" de Ábio de Lápara (edição de autor, José A. Paradela, Aveiro, 2015, 164 pp.)...Ábio de Lápara é o pseudónimo literário de José António Bóia Paradela (1937-2023), ilhavense, urbanista, arquiteto e escritor



1. Por cortesia de autor, ainda em vida, pela grande amizade que nos ligava um ao outro (tratávamo-nos por "manos"), e pela paixão que o nosso blogue dedicava à  epopeia da pesca do bacalhau (que chegou a ser alternativa à guerra colonial), transcrevemos, em tempos em três postes, o capítulo 7 (A viagem “O Mar por Tradição”, pp. 83-107), do livro "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (edição de autor, Aveiro, 2015).

Era também irmão do Tibério Paradela (1940-2021)  um "lobo do mar", capitão da marinha mercante.

O Zé António, ilhavense, filho e neto de marinheiros, evoca e descreve com enorme ternura e talento a rua onde nasceu e cresceu, e onde conheceu algumas das figuras humanas da sua terra, que marcaram a sua memória e o seu imaginário ...

Todos tivemos uma Rua Suspensa dos Olhos, afinal a rua da nossa infância, a rua onde nascemos e crescemos. Falo da nossa geração, que ainda nasceu em casa, de parto natural, com dor... E ainda teve o grande "privilégio" de  brincar na rua com os outros meninos e meninas.  No tempo em que não havia creches, nem infantários, nem jardins de infancia e a vida vivia-se na rua: assavam-se os carapaus no fogareiro a carvão na rua,  namorava-se á janela, não havia vida privada,  o escrutínio era público,  frequentávamos a casa uns dos outros, etc.

Nesses três postes, e com a devida autorização do autor, publicámos o relato da sua viagem de seis meses na safra do bacalhau, nas costas da Terra Nova e da Groenlândia, quando ainda adolescente, aos 17 anos, em 1954, e como estágio final do curso da Escola Profissional de Pesca, em Pedrouços, Lisboa, é chamado para embarcar e fazer "A Viagem", por antonomásia.

Foi  uma experiência que o marcou para o resto da vida, não só pela dureza das condições de vida a bordo e a capacidade de resiliência como pela aventura maritima, a descoberta e o reforço da camaradagem, a solidariedade e a amizade entre a tripulação (marinheiros e pescadores). Tal como a a tropa e guerra, no nosso caso. 

O Zé António, também como bom ilhavense, fez depois o serviço militar na Armada,  numa altura em que a Marinha não precisava de muitos marinheiros.

A vida deu, entretanto, outras voltas e o autor não seguiu o destino dos seus antepassados... Aluno brilhante, acabou por ganhar uma bolsa de estudo, ficar em Lisboa e poder aceder à universidade, tornando-se depois  um nome de referência da arquitetura e urbanismo em Portugal. 

Entraria para o curso de arquitetura na Escola Superior de Belas Artes, no ano letivo de 1960/1961; fundou e geriu a empresa PAL - Planeamento e Arquitectura, com sede em Lisboa;  deixou obra por todo o país, com destaque para a Região Autónoma da Madeira-

Conheci-o depois do 25 de Abril. E começámos a conviver quando os nossos filhos eram pequenos.  

Em 18 de fevereiro de 2023 fui a Ílhavo,  despedir-me dele e ajudá-lo a "cambar" o rio da morte, fazendo, simbolicamente, o papel do barqueiro Caronte, da mitologia grega. 

Em sua homenagem, recomeçámos a publicar mais excertos do seu livro "A Rua Suspensa dos Olhos" (*)


Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos" - Parte V: Zé Pitucas, aliás, o Zé Ançã...

por Ábio de Lápara / José António Paradela
(1937-2023)

Era um objecto histórico, um xaile de lã muito resistente, de contacto áspero, como os cobertores serranos.

Com cadilhos curtos e tessitura de motivos geométricos em cor de bronze sombrio, essas características tornavam-no ímpar no panorama do antigo trajar ilhavense onde predominava o preto absoluto.

Estava posto sobre os joelhos do meu pai, que tinha então cerca de noventa anos de idade.

Sentado no sofá da sala, agora de cadeiras vazias em torno da mesa redonda onde a ausência mais notória era a da minha mãe, sua companheira de cinquenta anos, ia falando com voz pausada, encadeando as suas estórias na história da sua vida.

Enquanto o ouvia relembrando um passado de retratos antigos, encadeando as doçuras e agruras de uma vida de transumante cigano do mar, que foi a que teve a partir dos doze anos, ia olhando aquele xaile e meditando no silêncio dos objectos impossibilitados de narrar as suas próprias lendas, apesar das marcas que o tempo lhes imprimiu: o seu código ontológico à espera de um olhar...

Aquele xaile da minha avó materna, cuja história é anterior às minhas recordações, já tinha embrulhado a minha mãe e depois os seus três filhos. Nos últimos anos, alguns netos, mas resistiu com bom aspecto até aos dias de hoje, oferecendo ainda algum conforto ali pousado nos seus joelhos.

A avó, nascida a uma dúzia de quilómetros do mar, onde as gaivotas já tinham cedido o canto ao piar dos mochos nos pinhais da Gândara, tinha descido à vila para casar com um marinheiro de boa figura, com farto bigode de aventureiro.

Talvez aquela distância explique a origem da beleza estranha do xaile, mas não adianta nada ao entrecho da estória daquele amor que se revelaria trágico, porque acabou marcado pelo ferrete do abandono e do esquecimento:

Uma avó, viúva de vivo, e uma filha desde aí marcada por uma profunda compreensão, quase religiosa, da falência dos sentimentos alheios...

Não conheci os meus avós maternos e a minha mãe era, como se compreende, muito avara do seu passado tão doloroso. Sobraram apenas algumas fotografias pouco sugestivas e algumas raras alusões suas a factos antigos, para suportar um fio narrativo plausível.

Pelo contrário, o meu pai, moldado por matinais aventuras de velas ao vento, falava apesar da sua idade, como um rapaz, de factos que tinham setenta ou oitenta anos mas que pareciam ter-se passado há pouco tempo. Tinha visto partir quase todos, ou todos mesmo, os amigos da sua geração, e agora sentia-se emigrado no futuro, mas aceitava isso com a consciência de que não era ele o verdadeiro culpado.

Acabada a conversa naquele dia, encaminhei-me para a porta, seguido por ele, que sempre vinha ver-me desaparecer na esquina da rua, de braço no ar dizendo adeus.

Escurecia.

Ao sair deparei-me com a silhueta de um homem que passava arrastando um pouco os pés, pelo meio daquela rua de reduzido tráfego, sem medo de ser atropelado.

Reconhecendo a minha voz enquanto me despedia do meu pai, suspendeu o seu passo hesitante.

 
— Estás por cá, Ábio? Vieste à Rua do Lá Vem Um?

Era o Pitucas na sua voz calma, inconfundível. Tinham passado muitos anos, mas pela forma da pergunta, evocando o tropo infantil da nossa rua, parecia que tínhamos estado juntos no dia anterior. 

Achei-o um pouco cansado porque procurou com o olhar um local onde se pudesse sentar. Mas a rua já não era confortável como antigamente. Os poiais à frente das casas já não estavam lá.

Apenas um minúsculo lancil separava o asfalto do pavimento, das suas paredes, apoiadas em lambris de granito e muitas vezes forradas de azulejo.

Foi a uma delas que nos encostámos.

 
— Lembras-te quando fugimos da cobra que queríamos matar, na agra da Lagoa?

Pronto! Num segundo, tínhamos recuado meio século dando de barato todos os dias intermédios.

Respondi-lhe:

 
— E tu, Zé... lembras-te porque é que estivemos estes anos todos sem nos falarmos?

Já não se lembrava muito bem. Fora uma birra de miúdos de treze anos, num daqueles momentos de viragem das vidas, em que os caminhos até aí comuns, divergem sem qualquer encontro marcado no futuro.

O Zé Pitucas morou sempre naquela rua tal como eu: a nossa Rua Suspensa dos Olhos!

Pelo menos desde que me lembro, porque nascera no Brasil e viera ainda muito pequeno com os pais para aquela casa.

Eram quatro irmãos em que os rapazes ficavam no meio e as meninas nos extremos. O Zé era da minha idade, o Ricardo um pouco mais velho.

Na casa dele, com mais algum desafogo económico, as revistas de quadradinhos eram mais abundantes que na minha.

Além disso, a casa tinha um grande quintal onde podíamos brincar livremente sem medo de partir os vidros às vizinhas com as pedras disparadas das nossas fisgas, a que chamávamos atiradeiras.

Um galinheiro enorme permitia-nos hipnotizar as galinhas deixando-as a dormir com a cabeça debaixo da asa e roubar alguns ovos para uma gemada à hora da merenda. A mãe, que passava muito tempo na loja do antigo mercado, nunca daria pela sua falta.

Muitas tardes da primária foram por ali vividas treinando a pontaria da fisga, e imitando aventuras de final feliz, decalcadas do "Mosquito", esse monumento desenhado, dos primórdios da banda desenhada.

Crescemos um pouco comendo os primeiros figos de São João, na figueira encostada ao muro. Ao fundo do quintal, um ribeiro corria para o seu destino através das vessadas até chegar à Ria, na Malhada - não sem primeiro lavar centenas de "maltas" de roupa das modestas famílias da rua de Alqueidão   
— para acabar movendo a azenha, cuja roda motora feita de madeira forrada de verde musgo, despejava as últimas gotas de água doce já dentro da água salgada da Ria.

Por essa altura, as vessadas cederam lugar à Avenida tal como já tinham cedido ao Jardim, o que permitiria construir diversos prédios. Um deles foi o Atlântico Cine Teatro, implantado sobre o terreno do quintal onde esboçávamos todas as estratégias e com isso se foi também o nosso parque de aventuras.

A alternativa seria alargar horizontes. À nossa disposição estavam as agras da Lagoa e da Coutada que passámos a percorrer mais insistentemente para nascente e, sobretudo, para poente da estrada de Aveiro, a agra da Coutada.

O Zé era um miúdo de pequena estatura, mas era dono de uma argúcia e uma habilidade
— que punha em tudo quanto fazia — que o conduziam ao sucesso de modo impressionante.

A pontaria dele com a fisga era quase infalível, e a sua intuição para descobrir os segredos dos pássaros era inigualável.

Fruto das nossas explorações, quase posso garantir que sabíamos todos os ninhos e tocas da bicharada desde a Coutada até à Balada, toda uma agra onde encontrávamos suprimentos para compridas estadias quando a fome atacava.

Este último local, a Balada, foi um nome só nosso, só dos aventureiros da nossa rua, que desapareceria da memória colectiva com a transformação ocorrida naquele local, nos anos sessenta do século vinte, após a fatal construção das casas hoje existentes.

Porque a Balada era o sítio de todos os sortilégios. Era o final da rua antes de atingirmos a Malhada, com o seu esteiro, arremedo portuário de bateiras e moliceiros, e as marinhas de sal, onde a faina tinha a dureza dos cristais ofuscantes que produzia.

Um troço de calçada empedrada com calhau rolado, que começava na chamada Fonte de Alqueidão ou dos Bastos, refrigério de marnotos que ali enchiam as suas bilhas e cântaros de fresca água, e se prolongava até à azenha do ti Moleiro, cuja farinha de milho engrossava a sopa de feijão de toda a rua.

Esse troço de calçada assentava sobre uma linha de água permanentemente alimentada pelas nascentes naturais de um e outro lado, que davam origem à Fonte e a todo um biótopo onde, nas valetas laterais da calçada, habitavam rãs e tritões entre a erva patinha, mas sobretudo enormes lesmas pretas com mais de um palmo de comprimento.

Nesse tempo, eu não sabia o que era um biótopo. Sabia apenas que os álamos e os loureiros abraçados por um silvado quase impenetrável, dispostos em ambos os lados do caminho, o transformavam num túnel verde, escuro e fresco onde todos os mistérios se revelavam a partir do sol posto, hora a que os raios luminosos deixavam de penetrar no seu interior

Sempre que isso acontecia, pela delonga da pesca ou da brincadeira na Malhada, aqueles extensos metros eram percorridos com pés de Mercúrio: tinham asas!

E ainda corriam mais, quando chegados ao topo da pequena ladeira final, os cães do Rebocho, alertados pelo arfar da corrida, se lançavam a ladrar sobre nós.

A primeira lâmpada da rua, colocada na parede do solar de Alqueidão, apesar da sua luz frouxa, dava outro alento às nossas tolhidas almas e os cães costumavam desistir aí da sua perseguição.

Os prazeres retirados das nossas aventuras tinham muito a ver com a constituição e a manutenção dos segredos, especialmente no caso do conhecimento dos ninhos, e da observação cuidadosa da sua evolução: os ovos, as crias... O vôo!

Na verdade se fôssemos indiscretos nessa observação, os progenitores abandonavam o ninho e lá se ia o nosso património.

Ninhos de melros, verdilhões, pintassilgos, trigueirinhas, carriças, e mesmo guarda-rios nas beiradas dos esteiros, eram o recheio do nosso cofre secreto que espreitávamos cautelosamente avarentos do nosso pecúlio.

Que me lembre, só uma vez destruímos um ninho. Um ninho de pardal na rama de um alto pinheiro bravo, na Coutada. Inacessível pelos meios de que dispúnhamos, o desespero levou-nos a empunhar as atiradeiras. Pouco depois caíam do alto, seis gordos pardais quase prontos para voar! Não recordo o seu fim, porque era hábito tentarmos salvar as aves incapazes de voar, do "céu dos pardais" que era, como sabíamos naquele tempo, a barriga dos gatos.

De resto, tínhamos um cemitério para os nossos animais no fundo do quintal, onde mimávamos os funerais dos humanos, com crucifixo e todos os aprestos necessários.

Já a fisga, desenvolvia outras reacções. O instinto da caça! Aí, a pontaria era crucial e a morte estava presente em cada acto. Matar à distância não era cruel, era glorioso!

Depois das colheitas, setembros cálidos, ninhos desertos de ovos e crias, vinha a caça a pitas e lavercas, pontaria apurada nas fisgas, e ratoeiras armadilhadas com lagartas vivas, extraídas dos canoilos do milho já colhido, a servir de isco cremoso e irresistível para uma ave esfomeada.

Os pruridos viriam mais tarde com as tentativas de entendimento dos valores da vida, do sagrado e da ética.

Nas brincadeiras de rua, o Zé era sempre o mais apurado. Dono de um pião especial, de coroa achatada, que manuseava de modo malabarístico, a sua pontaria era certeira novamente, beliscando o adversário a cada lançamento.

Pião jogado, pocelo marcado!

Nas "emendinhas", habilidades “futebolísticas” em que uma erva de raíz fasciculada servia de bola saltitando de um pé para outro, atingindo centenas de toques sem que a erva tocasse o chão, ele era o maior.

Mas a pergunta que o Zé me lançou naquele dia ao fim da tarde, quando me reconheceu, refere-se a uma cena em que fomos caçadores caçados!

Na agra da Lagoa, no fim de uma tarde de verão, avistamos no fundo de uma cova com cerca de um metro de profundidade, uma cobra de cor verde, bastante corpulenta.

Isso de cobras era o nosso prato favorito, porque constituíam um troféu de prestígio lá na rua! Costumávamos usar uma cana bifurcada na ponta para prender esses répteis, mas ali, no inesperado daquela situação, estávamos desequipados. Apenas as fisgas, e pedras bastantes, como amêndoas de Páscoa, sobrecarregando as algibeiras dos calções até fazer saltar os botões onde prendiam as alças.

Começámos a disparar a metralha letal acumulada nos bolsos, sobre aquele bicho, objecto de ódios ancestrais. Sentindo-se encurralada, a cobra começou a movimentar-se em círculo, com grande velocidade, chegando mesmo a elevar-se do fundo da cova, silvando de modo assustador deixando-nos perplexos com semelhante desatino.

Aí... pernas para que te quero?! 

Iniciámos uma fuga apressada e deixámos o réptil em paz, embora soubéssemos que a sua mordedura não era venenosa. Mas o respeitinho é muito bonito e o medo mamado com o leite impôs-se na circunstância!!!

Nunca contámos o fracasso a ninguém!

Um dia o meu pai ofereceu-me uma pequena navalha de duas folhas, com o cabo revestido de madrepérola. Tinha-a trazido de Lisboa e sabia quanto eu a estimaria.

Uma navalha era um instrumento de valor incalculável nas mãos de um capitão das agras. Por tudo quanto permitia executar: fisgas, atira-bagas, armadilhas de cana para apanhar pitas e lavercas... entre outras inumeráveis coisas.

Era uma manhã de sol radioso! Combináramos encontrar-nos no aterro da Avenida, para mais uma aventura pela nossa agra amada.

Encantado pela navalha, o Zé lançou-me um ultimato:

 
— Ou dás-me a navalha, ou nunca mais te falo...

Perplexo, separei-me sem dizer uma palavra. Isto, no fim de um certo outubro em que eu faria catorze anos.

Passados poucos dias iniciei uma nova fase da vida. Impossibilitado de estudar por falta de meios financeiros em casa, fui trabalhar e, logo de seguida, arranjei uma namorada para aliviar o desgosto!

Acabaram aí, definitivamente, as nossas aventuras descomprometidas. Comecei então a voar noutros céus, onde os pardais eram apenas uma saudade.

O pouco dinheiro que ganhava,  permitia-me frequentar o cinema e comprar livros de aventuras que me transportavam para outros mundos até aí vedados: desertos de secar a boca, florestas de úmidas turfeiras e rebentos espinhosos, mares de monstros insólitos e temporais desfeitos e homens de rija têmpera mas também covardes de toda a espécie! Herois de nomes inesquecíveis, espalhados em páginas e páginas onde os acompanhava atolado em emoções desmedidas!

Pouco faltava para sair de Ílhavo... definitivamente.

Quando aí voltei a pousar com mais calma, com muitos romances lidos e algumas aventuras vividas na primeira pessoa, muitos anos tinham passado e eu perdera tudo o que acontecera por ali nesse entretempo.

Algumas intervenções pontuais,  com antigos amigos em curtos períodos de férias, não chegavam para colar os cacos dos destinos outrora separados.

O nosso reencontro naquele dia foi muito reconfortante mas infelizmente tardio.

O Zé Pitucas, após toda uma vida dedicada ao desporto em Ílhavo, que elevou às maiores glórias nacionais do basquetebol, tinha sido vítima de um AVC.

Ainda estive com ele mais duas vezes, até que um dia me chegou a notícia da sua morte. Cedo de mais.

Os amigos fizeram-lhe uma grande e sentida homenagem, e editaram uma sua biografia. Ao lê-la,  tive a noção clara do que tinha perdido. Mas a ubiquidade não é um dom que me tenha bafejado.

Verifiquei contudo que lhe faltava este capítulo, talvez pouco significante no contexto da sua vida adulta, mas tenho a certeza de que ele gostaria de o ver ali...

Um tempo de vários anos de infância, em que após o pequeno almoço abalávamos campos fora, sozinhos, à cata da nossa aventura quotidiana.

Um tempo em que ele não era conhecido por Zé Ançã (**), mas por Zé Pitucas, o campeão das "emendinhas".

Fonte: Excertos de "A Rua Suspensa dos Olhos", de Ábio de Lápara (edição de autor, Jose A. Paradela, Aveiro, 2015, pp. 51-64).

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
_______________


Último poste desta série > 1 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27590: Manuscrito(s) (Luís Graça) (280): Aos meus amores, amigos, companheiros e camaradas, votos de Bom Novo Ano de 2026 que, dizem, aí vem!

(**) Vd .Facebook >  Ílhavo Antigo > 26 de abril de 2024 > José Eugénio Gomes Ançã:

(...) Filho de José Ançã e Maria Celestina Gomes, era conhecido por Zé Ançã. Notabilizou-se como treinador de Basquetebol do Illiabum Clube. 

Humilde e simples, tinha para com os jogadores uma forte relação, sendo muito exigente e sobretudo um excelente disciplinador. 

Começou como atleta do Clube e mais tarde como treinador, tendo conquistado os seguintes Títulos: Campeão Nacional de Infantis (1962/63), Campeão Nacional da 2ª Divisão (1963/64) e Campeão Metropolitano de Juniores (1964/65). Pelos 50 anos de associado do Clube, recebeu o Emblema de Ouro. 

Faleceu em 30-03-2002 com 65 anos.(...)

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27632: Humor de caserna (233): "Fermero fica quieto, abelha, não faz mal ! Não mexee, não respira, nem que lhe passe um car*lho pela boca" (José Teixeira)


Guiné-Bissau > Região de Tombali >  Ponte Balana > Novembro de 2000 > Um tuga, um homem de calças na mão...na Ponte Balana, antigo destacamento de Gandembel, ao tempo da CCAÇ 2317 (Abril de 1968/janeiro de 1969). O motivo foi um ataque formidável de... formigas carnívoiras! ... Na foto, o Zé Teixeira. Ainbda hoje tem mais medo das formigas do que das abelhas...

Foto (e legenda)  © Albano Costa (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Ó Zé Teixeira é um dos camaradas mais afáveis, brincalhões, prestáveis e  populares da Tabanca Grande. Também dos mais leais, ativos e produtivos. Tem mais de 450 referências.

 E tem-nos acompanhado ao longo destes mais de 20 anos de existência na blogosfera.  Tive a sorte de o conhecer em finais de 2005, na Madalena, Vila Nova de Gaia, onde costumo passar o Natal. 

Acaba de aceitar o meu convite para se juntar à nossa equipa de colaboradores permanentes. Ele é um histórico, um dos cofundadores da Tabanca de Matosinhos.

 Com ele, o nosso corpo de editores e colaboradores permanentes fica mais equilibrado e, sobretudo, rejuvenescido. Aprecio nele a juventude de espírito e a resiliência de escuteiro, tabanqueiro e africanista. 

Vai ser o nosso "ministro" (do latim, "minus", menos, o mais o pequeno, o servidor...) com a tutela  dos "interiores" (Tabanca Grande e demais tabancas, Matosinhos, Linha, Centro, Algarve, Melros, Maia, Diáspora Lusófona, Emiratos, etc.). 

Para os  "exteriores" ("negócios estrangeiros", ligação à cooperação e lusofonia), estamos a pensar  no régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona, o João Crisóstomo, que vive em Nova Iorque; vamos convidá-lo formalmente amanhã, na festa da Magnífica Tabanca da Linha: tem poderosas ligações ao Céu e à Terra...

Zé: vem isto a propósito de mais uma das das tuas histórias, pícaras e brejeiras, que passam agora a figurar na série  "Humor de caserna" (*) (e que é repescada do poste P629, de 21 de março de 2006, tem 20 anos).


Recorde-se que o 
José Teixeira 

(i) é régulo da Tabanca de Matosinhos;

(ii) ex-1.º cabo aux enfermeiro, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70; 

(iii) é um histórico da Tabanca Grande, que integrou a partir de 14/12/2005; 

(iv) tem c. quatro centenas e meia de referências no blogue; 

(v) vive em São Mamede de Infesta, Matosinhos; 

(vi) é gerente bancário reformado; 

(viii) escritor, poeta, contista, além de escuteiro;

(ix) é autor de séries notáveis como "Estórias do Zé Teixeira", "O Meu Diário", "Crónicas de uma viagem à Guiné", 

(ix) e, por fim e não menos importante, é um homem que tem provas dadas  em projetos dev ajuda e cooperação com a Guiné-Bissau (que ele conhece e ama, como poucos).


"Fermero,  fica quieto, abelha não faz mal ! Não mexe, não respira, nem que te passe um car*lho pela boca"

por Zé Teixeira

A primeira vez que caímos num ataque de abelhas foi o caos.

A coluna com trinta viaturas carregadas e três obuses de 14 mm, protegida pela CCAÇ 2381 e pelos pelotões da Companhia do Capitão Rei, estacionada em Aldeia Formosa que nos tinha vindo buscar a Buba, ficou na sua maior parte à mercê do IN, perto de Sinchã Cherno.

Só que este, o IN, não tinha na sua agenda atacar naquele local, mas mais à frente. Atacou só no dia seguinte depois de nos fazer um morto numa A/C [mina anticarro] comandada que rebentou só na quinta viatura, a do rádio.

Também eu, aqui, fui um homem de sorte. O milícia que ia a meu lado, ao ver as abelhas aos milhões, agarrou-me por um braço e metemo-nos atrás de um arbusto:

- Fermero fica quieto, abelha, não faz mal ! Não mexe, não respira, nem que te passe um car*lho... pela boca.

Assim quieto senti-as à minha volta. Pude ver os meus colegas todos a fugir, a sacudir, a coçar e a desaparecer. Ficaram apenas as viaturas e os obuses, na picada. 

Passados alguns minutos, foram começando a aparecer e tudo voltou ao normal. Eu apenas com duas picadelas, ria-me dos colegas que apareceram a gemer por todos os lados, mas aprendi a lição e preparei-me para um possível segundo ataque que sucedeu meses depois.

Andávamos a montar segurança à engenharia que construía a estrada Buba-Aldeia Formosa. Sentado ao lado do manobrador do caterpílar apreciava como esta máquina derrubava árvores gigantescas, quando de lá de cima cai um grande enxame. Formou-se uma nuvem e toda a gente a gritar,  pernas para que vos quero. Até uma cadelinha, nossa mascote, que nos acompanhava desapareceu, até hoje. Numa fracção de segundos vejo-me só.

Quico atravessado na cabeça, para me proteger do zumbido, braços cruzados, impávido e sereno (a tremer por todos os lados), sentado no caterpílar,  a aguardar o ataque. Imaginem o Zé Teixeira como que vestido com um fato novo. Fiquei coberto de abelhas da cabeça aos pés. Só o zumbido me incomodava.

Passado algum tempo começaram a levantar, pois eu não dava luta e com este gajo é melhor não se meterem. Deixaram-me sem uma beliscadura. Os camaradas foram-se aproximando todos picados. Ficaram mais espantados que eu, por me verem são e salvo de um ataque de abelhas. Pomada para toda a gente. Tive inclusive de injectar anti-histamínicos ao Ferraz para evitar a morte por asfixia devido ao facto de ser alérgico.

Ainda hoje tenho mais medo das formigas, mas essas tem outras histórias já aqui contadas.


(Seleção, revisão / fixação de texto, título:  LG)

_________________

Nota do editor LG: