
Queridos amigos,
O depoimento do Almirante Pereira Crespo é de uma grande coerência e dignidade para um homem com a sua formação. Veio a talhe de foice respigar as suas considerações acerca das conversações Senghor e Spínola que, como todos sabemos, foi o rastilho para a criação da fábula federalista e um dos ingredientes para o spinolismo.
Um abraço do
Mário
O Almirante Pereira Crespo e a guerra da Guiné
Beja Santos


“Porque Perdemos a Guerra” (Edição Abril 1977) constitui o seu depoimento sobre as razões do envolvimento de Portugal e a sua explicação para a derrota. Começa por avançar com noções sobre a guerra e estratégia, explana sobre as políticas de coacção, as diferentes soluções da guerra, as várias estratégias e as possíveis soluções de compromisso. Após este preâmbulo, tece considerações sobre a conjuntura internacional e a natureza da guerra que enfrentamos, confronta as teses de Marcelo Caetano e vai sempre encontrando argumentação para as demonstrar como incontornáveis, na lógica da defesa da Pátria.
É exactamente quando aborda eventuais quadros de negociação com o inimigo que se irá referir às conversações que António de Spínola teve com Senghor, em 1972. Tem todo o cabimento, neste contexto de se registarem os depoimentos de todos os matizes quanto ao conflito, ouvir as suas considerações:
“Na Guiné, em meados de 1972, surgiu, por intermédio do presidente Senghor, do Senegal, uma hipótese de negociações entre as nossas autoridades e Amílcar Cabral. Esta hipótese, na qual o general António de Spínola depositou grandes esperanças, merece uma referência especial, pelas nefastas consequências que provocou em alguns oficiais que prestavam serviço naquela província e que passaram a descrer da política ultramarina do Governo.
Tanto quanto me recordo, seria acordado um cessar-fogo, Amílcar Cabral regressaria à Guiné, colaborando no Governo e, em prazo a fixar, os guinéus seriam consultados sobre o seu destino, aceitando o Governo de Lisboa a independência, se o povo daquelas terras assim o desejasse.
São evidentes os pontos fracos deste projecto.
Amílcar Cabral não regressaria à Guiné como vencido. Manteria intacta a estrutura militar do PAIGC e não se compreende muito bem como viriam a funcionar as relações entre os guerrilheiros e as nossas tropas.
Também não desistiria de amarrar ao destino da Guiné o arquipélago de Cabo Verde. E, de acordo com a ética dos chefes políticos e militares da época, seria indigno negociar o futuro daquelas ilhas, nas costas dos seus habitantes, profundamente marcados pela cultura lusíada.
No que se refere a Angola e Moçambique, o facto de aceitarmos negociar com o inimigo, antes de se considerar vencido, iria moralizar grandemente os grupos armados.
Quando o assunto foi analisado em Lisboa, alguns foram de opinião de que as negociações propostas escondiam uma armadilha de Amílcar Cabral. Depois de instalado na Guiné, promoveria infiltrações nas tropas negras que nos eram fiéis e, na ocasião mais oportuna, procuraria a vitória por um golpe surpresa.
Eu admitia que tal armadilha não existisse nas intenções de Amílcar Cabral e acreditava no seu desejo de negociar com os portugueses nas condições atrás referidas, que, embora vagas, eram-lhe muito favoráveis. Conhecera-o na Guiné. Era um homem de muito valor, sem preconceitos raciais e muito chegado aos portugueses, entre os quais tinha bons amigos. Sempre pensei que lhe seria muito desagradável a convivência com Sékou Touré. De resto, é possível que, já nessa altura, receasse ser assassinado.
O que não acreditava é que a URSS, só pelo facto de Amílcar Cabral se querer entender com os portugueses desistisse das suas pretensões sobre a Guiné portuguesa, óptima posição estratégica para a expansão russa no Senegal e região onde se situa o melhor porto natural de África ocidental.
Admitia, por isso, que, depois de Amílcar Cabral se unir aos portugueses e abandonar os russos estes, com auxílio de Sékou Touré, o denunciariam como traidor e prosseguiriam a luta com um novo chefe.
As condições geográficas da província, extraordinariamente favoráveis ao desenvolvimento de uma guerra subversiva, não exigiriam muita gente. Algumas centenas de homens seriam suficientes (…) Processar-se-ia, assim, na Guiné, um grave desaire, que, além do mais, teria reflexos imprevisíveis na defesa de Angola e Moçambique.
De qualquer forma, o projecto de negociações, antes de ser abandonado, foi cuidadosamente estudado por chefes políticos e militares, tendo havido, para apreciar a matéria, uma reunião do Conselho Superior da Defesa Nacional, a que estive presente, presidida pelo Almirante Américo Tomás e a que assistiu o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas”.
As observações de Pereira Crespo, como hoje é sabido, enfermam de vários enviesamentos. Primeiro, Cabral nunca foi ouvido sobre as conversações Senghor-Spínola. Segundo, é necessário fazer política numa atmosfera de irrealismo para se visionar Cabral como encarregado de Governo e as tropas do PAIGC a provocar golpes de Estado entre Fulas e Mandingas. Terceiro, a URSS, como se comprovou depois de 1970, em que passou a ter um maior acesso ao porto de Conacri, nunca utilizou o porto de Bissau depois da independência, o espantalho soviético foi mesmo buscado à força. E, goste-se ou não, há que reconhecer que a negativa de Caetano para a continuação de conversações com Senghor fomentaram um descontentamento em Spínola e nos seus colaboradores próximos. Inequivocamente, este o acontecimento que marcou a separação entre Caetano e Spínola.
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Nota de CV:
Vd. último poste da série de 20 de Maio de 2011 > Guiné 63/74 - P8304: Notas de leitura (240): O Meu Testemunho, uma luta, um partido, dois países, por Aristides Pereira (5) (Mário Beja Santos)