domingo, 19 de julho de 2015

Guiné 63/74 - P14900: Libertando-me (Tony Borié) (26): Não é fácil

Vigésimo sexto episódio da série "Libertando-me" do nosso camarada Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66.



Companheiros, isto não é fácil, pelo menos na nossa idade, por quê? Porque quase todos nós, quatro, cinco horas da manhã, já estamos acordados, lá vem a guerra, no nosso caso o aquartelamento de Mansoa, e aí, já a coisa se torna mais fácil, já acordados, bebemos um pouco de sumo de laranja, mas por poucos minutos, pois o nosso pensamento volta a adormecer, o sonho continua, não sabemos se a dormir ou despertos, mas, o cenário repete-se centenas de vezes, estamos sentados, quase nus, numa cadeira feita da metade de um barril de vinho, temos uma cerveja quente, na mão, o sol, que foi tórrido durante o dia, está a pôr-se, para o lado do rio, até podemos ver aquele reflexo amarelo avermelhado, um pouco acima da água da bolanha, os mosquitos zumbem à nossa volta mas não mordem, pois a pele já está “africana”. O Curvas, alto e refilão, não pára de dizer asneiras, tu, companheiro, estás agarrado à leitura da metade da terceira página, enrugada e um pouco rota, de um jornal com data de há um mês, estás encostado à esquina da porta, sem porta, da entrada daquele maldito dormitório, onde estão uns tantos camuflados a secar, por cima dos mosquiteiros, sujos de suor e lama, entre outras coisas, por ali cheira a tudo menos a “esperança”. O “Mister Hóstia”, que era aquele militar muito disciplinado, educado e religioso, vem recomendar-te, com um ar muito delicado, para leres aquele capítulo da Bíblia, onde recomendam qualquer coisa que nós não ouvimos bem, mas ao sair do dormitório, talvez sem dar por isso, dá-te um encontrão, que tu não gostaste, pois com o movimento rasgaste mais um pouco da metade da folha do jornal e, logo lhe respondeste, com um, “oh cara..., já não vês bem”.


Nós, com um sorriso maroto, começámos a contar a história, naquela linguagem de combatente, sem aquelas palavras e frases modernas, que ninguém entende, história esta, que lemos não sabemos onde, mas muitos companheiros, como o Setúbal, o Marafado, o Pastilhas, o Trinta e Seis, mesmo o Mister Hóstia, que veio muito sorrateiramente colocar-se ao nosso lado, claro, com a bíblia na mão, a mostrá-la, e também o Arroz com Pão, que era o dedicado cabo do rancho, também veterano, que sempre lhes arranjava algo para comerem, quando saíam para combate, para irem entretendo o estômago, que não fosse ração de combate, que alguns diziam lhe dava a volta aos intestinos, que na linguagem local era, “panga bariga”, logo se vieram colocar ao nosso lado, para a ouvir, portanto, começámos a falar.
Cá vai:
- Ouçam bem, nada há a fazer, pois a nossa fama já vem de longe, talvez por volta do ano de 1617, está-nos no sangue, éramos e, talvez ainda hoje sejamos assim, queremos ser os melhores, os primeiros, os inovadores, ir lá à frente, sem quase nunca prever as consequências.

Neste momento, o Curvas, alto e refilão, manda-nos calar, com uma linguagem universal, rude, que quase todos nós conhecemos, mas nós continuámos a falar, cá vai.

- Vejam lá que um tal português, nosso antepassado, de nome Luís Mendes de Vasconcelos, fazia, não sabemos a mando de quem, aquelas incursões na África Austral e, de uma dessas vezes, já uns anos depois, (pois aquilo por ali, naquele tempo, era só escolher os que tinham aspecto mais saudável e melhores condições físicas e, carregar para bordo), talvez acompanhado pelos homens ao seu mando, também não sabemos se eram marinheiros ou piratas, invadiu a aldeia de N’dongo, em Luanda, Angola, carregando 60 cativos a bordo do navio negreiro São João Baptista, presos a ferros, homens e mulheres, foram enviados para o porto de Vera Cruz, no México. Os ingleses, holandeses, dinamarqueses e franceses, que por aquela altura se consideravam os donos do mar e das ilhas de uma região a que chamavam e ainda chamam “West Indies”, que quer dizer mais ou menos Índias Ocidentais, mas que não têm nada a ver com a Índia, que fica noutro continente, pois esta, é uma região da Bacia do Caribe e Oceano Atlântico Norte, que inclui as muitas ilhas e nações insulares das Antilhas e do arquipélago Lucayan, dizem até, que a culpa foi de um tal Cristóvão Colombo, que na sua primeira viagem às Américas, andando por ali a navegar, pensando que tinha chegado à Índia, lhe começou a chamar esse nome, e daí, os europeus de então, começaram a chamar-lhe Índias Ocidentais, para as diferenciar das ilhas que existem na verdadeira Índia, que são na região do sul e sudeste da Ásia...

Interrompo, só para dizer que o Curvas, alto e refilão, já me está a olhar de lado e a fazer gestos com a garrafa da cerveja vazia, vamos mas é continuar, cá vai a continuação.

- Esses tais Ingleses, holandeses, dinamarqueses e franceses, andavam por ali “à pesca”, principalmente dos navios portugueses ou espanhóis, pois sabiam que para cá traziam cativos africanos e, para lá levavam ouro, prata ou especiarias e, quando o marinheiro ou pirata, também não sabemos ao certo, que lá ia em cima, na vigia do navio, White Lion, (Leão Branco), a que também chamavam “The Flying Dutchman”, que quer dizer mais ou menos, “o holandês voador”, gritou com quanta força tinha nos seus já cansados e doentes pulmões, (pois a água potável, já estava racionada a bordo, já ia para duas semanas), para o seu capitão, um tal John Jope, e disse, “Portuguese ship to port, should bring slaves”, que quer dizer mais ou menos, “navio português a bombordo, deve trazer escravos”!

O “Setúbal”, que por sinal era nosso companheiro e amigo, que usou o equipamento camuflado que nos foi distribuído e, ia para as matas e bolanhas, naquele camuflado, já coçado, com as mangas cortadas, levava sempre um “lenço tabaqueiro”, que comprou na loja do Libanês, pendurado no cinto, dizia-nos ele, que era para lhe dar sorte, onde também ia o máximo de carregadores possível assim como uma granada, às vezes duas, que lhe eram distribuídas antes de sair, alguns também levavam uma faca bastante afiada, com uma protecção de cabedal, colocavam os restos das meias, que lhes saíam das botas, algumas rotas, por fora das pernas das calças, interrompeu-nos, para dizer, para não darmos mais “música”, mas continuámos a falar, cá vai.

- Não foi preciso mais nada, junto com seu assistente, o piloto Inglês Marmaduke Rayner, organizaram um ataque, unindo forças, também não sabemos se era um ataque de marinheiros ou um ataque de piratas, mas o certo é que quando se depararam com o navio português, São João Baptista, nessas águas do “West Indies”, atacaram-no e roubaram-lhe toda a sua carga, incluindo os africanos, colocando-os sobre o tal navio Leão Branco, que chegou a Old Point Comfort, que é hoje um lugar histórico na península do estado da Virginia, nos USA, em 20 de agosto de 1619, deixando ali, só 20 dos 60 cativos.

Tivemos outra interrupção, desta vez era o “Trinta e Seis”, o tal soldado que era baixo e forte na estatura, parecia de facto uma “bola”, passe o termo e, quando chamavam por ele, diziam, Trinta e Seis, rola para aqui, ou, o Trinta e Seis, não caminha, rola, o que ele nesse momento mostrava aquele dedo da mão esquerda, muito direito para cima, denunciando um gesto erótico, dizendo-nos, para “cantarmos” e, não falarmos, mas nós continuámos a falar, cá vai.

- E por quê só 20 cativos? Porque os outros 40, quando o tesoureiro do navio Leão Branco, que chegou cerca de quatro dias depois os tentou negociar como troca, para o abastecimento do navio, as negociações não foram aceites, houve mesmo tentativa de luta, então, o capitão ou pirata, também não sabemos ao certo, do navio Leão Branco, talvez zangado, levou toda a sua carga humana, condenando os cativos, não às praias ensolaradas de Bermuda, mas para suas plantações infernais, onde nunca mais se ouviu falar deles. Sabem qual era o preço para a troca destes seres humanos? Era única e simplesmente, água e milho. Falando agora dos outros 20 angolanos, que ficaram em Old Point Comfort, onde dois deles, ou seja, Antonio e Isabella, que receberam nomes cristãos, (nomes que lhe foram dados, como chamamos aos nossos animais de estimação), foram negociados com o capitão William Tucker, para trabalhar na sua plantação e, talvez para mais qualquer coisa, onde, quatro anos mais tarde, Antonio e Isabella se tornaram os pais do primeiro filho preto, escravo, cujo nascimento foi oficialmente documentado na América Colonial. O nome que lhe foi imposto era William Tucker, também o nome do homem que escravizou seus pais e, uma terceira pessoa identificada, a quem foi dado o nome de Pedro. Os restantes 17 não tiveram nome, foram trocados por produtos adicionais para o governador George Yeardley e Abraham Piersey, que os obrigou a trabalho em plantações ao longo do rio James, próximo de onde é hoje a cidade de Charles City, no mesmo estado.

Neste momento, aparece o “Furriel Miliciano”, que adorava um cigarro feito à mão, e diz, “amanhã, às cinco, normal equipamento, só a primeira secção, não esqueçam de levantar as granadas ainda hoje”.

Ainda bem que a nossa esposa e companheira nos deu um abanão e acordou, não fazendo muita diferença, pois a história tinha chegado ao fim. E era verdadeira.

Tony Borie, Julho de 2015
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Nota do editor

Último poste da série de 12 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14867: Libertando-me (Tony Borié) (25): Depois da guerra

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