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quarta-feira, 1 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28146: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXVII: Ramadão de 1970: celebração do Korité (ou Eid al-Fitr, em árabe), o fim do jejum ritual (fotos de 8 a 14)



Foto nº 8 e 8A
 

Foto nº 9






Foto nº 10, 10A, 10B, 10C e 10 D





Fotos nº 11, 11A, 11B, 11C


Foto nº 12


Foto nº 13 E 13A




Foto nº 14, 14A e 14B

Guiné > Região do Oio > Mansoa > 30 de novembro de 1970 > Celebração do Korité (ou Eid al-Fitr, em árabe) que marca o fim do Ramadão (o mès sagrado). Homens, mulheres e crianças participam segundo os costumes locais, formando grupos distintos. Militares e civis portugueses assistem à festa como observadores, num raro testemunho fotográfico da convivência entre a administração portuguesa e a população muçulmana da vila, em plena guerra (*).

Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.

Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da publicação de um lote de 14 fotos ("slides" digitalizados) do alferes graduado
capelão José Torres Neves, nosso grão-tabanqueiro, que pretenceu à CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71)


De um modo geral, estas imagens são muito interessantes (embora já comuns no nosso blogue), quer do ponto de vista etnográfico, quer histórico. O padre José Torres Neves revela aqui a sua empatia, capacidade de observação participante, espírito ecuménico e sensibilidade sociocultural.

Em 1970, Mansoa encontrava-se relativamente segura, embora a guerra estivesse bastante próxima. Estamos na região Oio. Mas ia-se, com relativa segurança, de Bissau a Mansoa (c. 60 km). E nunca houve, praticamenmet, nenhuns casos muito graves de terrorsimo urnavo (com exceção de Farim enm 1965 e depois em Bissau, já no fim da guerra).

É significativo que uma festa muçulmana pudesse decorrer com esta dimensão pública, e sem nenhum dispositivo militar de segurança.  Estas imagens podiam ser usadas pelas NT contra a propaganda do PAIGC...

Também mostram, pro outro lado,  que as autoridades portuguesas, incluindo os capelães militares como o padre José Torres Neves, assistiam frequentemente às festividades religiosas das populações locais, num espírito de convivência e observação que muitos deles registaram em fotografia (como é o caso dos nossos camaradas Abílio Duarte,  António Marreiros, Armando Fonseca, Armando Oliveira, Arménio Estorinho, Jorge Pinto, José Carvalho, Luís Mourato Oliveira, Vasco da Gama) e/ou em cmentários e observações como os  nossos amigos Cherno Baldé e Cataraina Meireles. entre outros.


2. Sobre algumas destas fotos pode acrescentar-se o seguinte:

Fotos nº 8 e 10:  As mulheres e crianças participam, mas à parte. Os "tugas", curiosos, misturam-se também com os crentes. A Fotio nº 8  mostra um pequeno grupo de mulheres muçulmanas, quase todas envoltas em grandes panos brancos. 

Esse branco  (nas vestes de mulheres e homens) tem um significado simbólico importante: é a cor da pureza, da alegria religiosa e da festa. Muitos terão vestido a sua melhor roupa para o Korité (ou Eid al-Fitr), assinalando o fim do Ramadão. Sob o pano branco veem-se vestidos coloridos, como o da mulher em primeiro plano, revelando o gosto africano pelos tecidos estampados.

É interessante notar que os rostos permanecem descobertos. Isso corresponde aos costumes locais da Guiné-Bissau, onde, mesmo entre Mandingas e Fulas muçulmanos, nunca foi habitual o uso do véu integral como noutras regiões do mundo islâmico.(Mas já vemos hoje no Gabu sinais do regersso do fundamentalismo religioso, pelo menos a nível do vestuário feminino.)

Já na foto nº 1 e 2 do poste anterior (*),a separação dos grupos é ainda mais evidente. Essa disposição não significa propriamente uma segregação  socioespacial rígida, mas antes o respeito pelas normas sociais e religiosas da época. Nas cerimónias públicas, sobretudo depois da oração, homens e mulheres tendiam naturalmente a formar grupos distintos, embora todos participassem na mesma festividade.

Vejam-se tambéma as res stantes fotos nº 9, 10, 11, 12, 13 e 14:
  • homens sentados ou reunidos,  muitos vestidos de branco;
  • mulheres agrupadas um pouco mais atrás, formando um conjunto próprio;
  • crianças circulando livremente entre os adultos;
  • e, ao fundo, alguns militares e civis portugueses observando discretamente ou fotografando (fotos nº 10, 11, 13).

Na Foto nº 13, está o César Dias, fur mil trms da CCS (de camisinhja branca e ósiuclos escuros), mais o  Américo Caetano fur mi,l  da CCAÇ 2587/BCAÇ 2885 (Mansoa, Jugudul, Mansoa, 1969/71).
 
É um pormenor curioso, a  atitude dos "tugas"... Não há ali qualquer sinal de tensão. Pelo contrário, parecem simples espectadores, quase "turistas".  Alguns usam camisa de manga curta, outros óculos de sol, e misturam-se com naturalidade entre a população. Em Mansoa, em 1970, isso era ainda possível. Apesar da guerra estar presente na região, o núcleo urbano continuava a manter uma vida social relativamente aberta, permitindo este tipo de contacto. 

Também a arquitetura merece referência. As casas circulares de cobertura de colmo coexistem com edifícios de planta retangular e cobertura metálica, mostrando uma Mansoa em transição entre a construção tradicional e a influência urbana trazida pela administração colonial.

 Destaque para a foto nº 14, e os comentários já aqui produzidos pelo Cherno Baldé, em 2023  (ao poste P24207)(**):

(...) "Na parte final da reza tem lugar o que chamam de 'Cutuba' ou Sermão com a participação de um grupo seleto de discíplos e pessoas dedicadas a causa da religião na comunidade, todos do sexo masculino, durante o qual é revisitada a longa história do Islão dos primórdios a actualidade, incluindo partes do período Judaico e dos textos do antigo testamento do Cristianismo com particular destaque as peripécias do antes, durante e após a fuga dos Hebreus do Egipto e a épica ou mitológica travessia do Mar Vermelho com o Profeta Moisés (Mussa,  para os Árabes) a frente da nação rumo ao deserto do Sinaí e que culmina com a vida e obra do Profeta Muahammad.

Esta parte é a mais importante, mas também é a mais monótona e menos interessante para a rapaziada que já está com os sentidos voltados para as comidinhas que, entretanto, estariam a preparar em casa de maneiras que, não raras vezes, só ficam os mais velhos a acompanhar esta longa narrativa prenhe de recomendações dogmáticas sobre a religião, a vida em comum e a necessidade e fundamentos da preservação dos ensinamentos e da tradição islámicas, a bem da comunidade" (...). (**)

No conjunto, estas imagens têm um valor documental notável. Não retratam apenas uma cerimónia religiosa: mostram a convivência, durante a guerra, entre uma população maioritariamente muçulmana e militares portugueses que assistem, como vizinhos, convidados ou curiosos, sem interferirem na celebração. São um testemunho raro de um quotidiano que a historiografia militar nem sempre regista, mas que ajuda a compreender a complexidade das relações humanas na Guiné daqueles anos. E mais: têm um valor ecuménico, numa época em que crescem os sinais de islamofobia.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28124: Humor de caserna (277): Quem são os "ocupas" do histórico edifício dos CTT de Gabu ? Com o telemóvel, este "marco da civilização colonial" tornou-se obsoleto...



Guiné.Bissau  > Zona Leste >  Região de Gabú > Gabu >1998 > Edifício dos CTT do Gabu > Visita realizada por um grupo de ex-combatentes da CART 3494 à Guiné-Bissau. Em primeiro plano,  o Acácio Correia (ex-alf mil, CART 3494, Xime, 1972/74)...No letreiro que encima a imagem, pode ler-se: "Estação de Gabu. Telefone. Posto Público. Em qualquer momento"... 

Ainda não havia telemóveis. Os CTT ainda eram muito úteis. Perderam a sua função social. Hoje tornaram-se obsoletos. Toda a gente tem o mágico "telemóvel" que permite fazer "videochamadas" (coisa completamente impensável) há 30 anos.    Na inscrição ao alto do edifício pode ainda ler-se: "Estação dos C. T."... Já tinha caído o segundo T dos CTT (Correios, Telégrafos e Telefones).
 

Foto (e legenda): © Acácio Correia / Jorge Araújo (2015). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Edifício dos CTT... Ficava na tabanca de Bambadinca, nas imediações do quartel, já fora do arame farpado. 

Segundo recorda o Beja Santos, o nome da empregada dos CTT era a Dona Leontina ("uma gentil senhora com quem se apalavrava o dia e a hora para telefonar para Lisboa"). 

Sou dos que, a maioria, nunca lá foi telefonar, pelo que não me lembro da senhora. Presumo que  fosse cabo-verdiana, tal como a professora da escola primária local, a Dona Violante, e o chefe de posto (de quem também não me lembro o nome), nem o responsável da Casa Gouveia.

Lamentavelmente não convivivíamos, os civis e os militares. em Bambadinca, nomeadamente com a pequena comunidade cabo-verdiana, cristã. Havia racismo, não tenhamos medo das palavras. Havia preconceitos de parte a parte. As NT punham  em dúvida a lealdade dos cabo-verdianos em relação às autoridades portuguesas... Por outro lado, os comandos de batalhão tinham pouca ou nenhuma sensibilidade "sociocultural"... nem promovendo sequer a interação com a população civil.  Os comandos do batalhão eram uns burocratas que diziam mal da hora em que lhe calhou na rifa a "cova do lagarto" (crocodilo) (signifciado do topónimo Bambadinca, em mandinga). 

 Foto do álbum do José Carlos Lopes, ex-fur mil amanuense, com a especialidade de contabilidade e pagadoria, especialidade essa que ele nunca exerceu (na prática, foi o homem dos reabastecimentos do batalhão, o BCAÇ 2852).

Foto: © José Carlos Lopes (2013). Todos os direitos reservados. (Edição  e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)



Guiné-Bissau > Zona Leste > Região de Gabu > Gabu > Junho de 2026 >  Antigo edifício dos CTT, agora transformado em balcão de uma casa de apostas mútuas desportivas, jogis de azar, etc, ("Bissau Games", com sede em Bissau).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2026). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]



1. Mensagem de LG:

Querido "embaixador" da Tabanca Grande em Bissau (*), o editor não pode ter "estados de espírito"... Mas o gajo que escreve este comentário, sim, pode rir-se, chorar, indignar-se, inquietar-se, emocionar-se, ou simplesmente sorrir perante estas fotos que nos mandaste no último domingo para o blogue... com legendas lacónicas. As fotos falam por si, ou talvez não: se calhar, falta o contexto ao texto...



Edifício dos CTT de Mansoa, foto de César Dias (c. 1969/71)
Nunca cheguei a ir a Nova Lamego (a 30 km da nordeste de Bafatá), com pena minha, mas ia a Bafatá, a "princesa do Geba", onde também havia "marcos da civilização", com uma estação dos CTT. E,claro, a Casa Gouveia. E até restaurantes como "A Transmontana" que servia o melhor bife com ovo a cavalo e batatas fritas. Tudo por 20 pesos. 

Tal como edifícios dos CTT  noutras terras minimamente importantes, assinaladas nas cartas militares como sedes de circunscrição / concelho... da nossa "Guinezinha", como diria a Cilinha... Havia estação dos CTT em Bissau, a capital, Mansoa, Teixeira Pinto, Farim, Bafatá, Nova Lamego, Catió, etc. Mas também em postos administratrivos como Bambadinca, Contuboel...

Eram terrinhas que podiam ter, algumas, apenas meia dúzia de brancos e "assimilados", mas tinham gente que escrevia e recebia cartas e encomendas postais, e até havia quem utilizasse o telégrafo e o telefone... Um ou outro comerciante, as missões católicas, os chefes de posto, etc., tinham endereço telegráfico e, antes da guerra, até telefone fixo, em casa ou no estabelecimento ou na missão. Coisas inúteis com a guerra.



Guiné-Bissau, Gabu, 2005. Antigo edifício, colonial,
dos CTT, agora recuperado.  Imagem: Tino Neves (1969/71)
..
O primeiro ato revolucionário do Amílcar Cabral foi mandar deitar abaixos os postes telefónicos. Não deitou abaixo os postes de eletricidade, porque ainda não existiam... Era um iconoclasta, o fudmador da Pátria. Queria construir um mundo novo, uma Guiné nova, um homem novo...

Eu fui sempre, como "expedicionário" naquela terra, "malgré-moi" (isto é, não-voluntário), um mau utilizador dos CTT. Nunca entrei lá dentro. Aliás, não utilizei, de todo, os CTT da Guiné. Nunca telefonei, nunca recebi ou mandei um telegrama... Como na maior parte das casas dos portuguesas, a casa dos meus pais náo tinham telefone...

E as poucas cartas que escrevi (e as que recebi), eram encaminhadas pelo Serviço Postal Militar (o famoso SPM), a única coisa de jeito que a tropa fez pelo bem-estar dos seus militares mobilizados para aquelas terras palúdicas...

Hoje sorrio, ao ver a outrora bela estação dos CTT de Nova Lamego, votada ao abandono, como mais uma das velharias da nossa presença histórica em África... No seu túmulo, o Amílcar Cabral também deve estar a dar umas voltas... Mesmo no eterno descanso, também há gente com insónias... e não devem ser pouca. 

Ele e os seus "cabra-matchu", sem esquecer o Aristides Pereira que era funcionário colonial dos  CTT de Bissau... Sem esquecer o Sarmento Rodrigues, o modernizador, o Teixeira Pinto, o "capitão-diabo", o Salazar, o "bota-de-elástico", o Spínola, o "Caco Baldé" e o Marcello (com dois "ll") Caetano, o "empata-f*das", e tantos outros...

Enfim, sem esquecer o homem que "descobriu" esta terra maravilhosa (que dava mancarra, coconote, madeiras exóticas, etc.)  e que foi o primeiro a "lerpar", o Nuno Tristão em 1446 (se bem me lembro do meu tempo de escolinha, não é preciso ir à Wikipedia espreitar  ou perguntar à IA; devia constar da lista dos mortos das guerras coloniais, ,mas esquceram-se dele).

Tal como na natureza, nas sociedadee humanas nada se perde, tudo se transforma... Já vi uma igreja (em Almada) transformada em taberna, outra que agora é livraria (em Óbidos)... Já vi um lazareto transformar-se em asilo de órfãos (em Porto Brandão) e depois bairro clandestino de cabo-verdianos e retornados...

Por que é que os fulas do Gabu não se lembraria também de fazer daquele belo recanto da "cidade" , a antiga estação dos CTT, um muito mais útil "balcão" para as apostas mútuas desportivas ?

Não sei se eles (a "Bissau Games", que deve ser uma manhosa empresa privada de "caça-níqueis" digital, jogos de azar, etc.) têm a "raspadinha"; se não têm, tem que copiar a ideia (genial) da "Santa" Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).

 Portugal, país de baixa literacia financeira, é viciado em jogos comnpulsivos, como a "raspadinha" ... Porque é a Guiné-Bissau não imita as "coisas boas" (isto é, "lucrativas") que ainda tem o seu antigo país colonizador ?

Portugal regista níveis recorde de consumo em jogos de fortuna ou azar. A "raspadinha" da SCML é, há já largos anos, o jogo social do Estado mais lucrativo. 

Há quem se preocupe com este fenómeno que tem implicações ma saúde pública e económica devido à sua forte componente aditiva. Eis alguns números: (i) a "raspadinha" movimenta anualmente cerca de 1,9 mil milhões de euros, representando perto de 60% do total das receitas dos Jogos Santa Casa;  (ii) a média de gastos "per capita" atinge valores expressivos, com os portugueses a dedicarem uma parte considerável do seu rendimento a este e outros jogos como o Euromilhões; (iii) a adesão é transversal, mas regista uma prevalência muito significativa nas classes sociais mais baixas e faixas etárias seniores, muitas vezes alimentada pela falsa esperança de colmatar dificuldades financeiras imediaats: joga-se à "raspadinha" hoje para comprar o pão amanhã...

E no Gabu, como é ? 

O vício da raspadinha acarreta graves consequências, desde o isolamento social e  crises financeiras familiares, até situações extremas de criminalidade e violência doméstica.

Enfim,  que Deus, Alá e os bons irãs lhes perdoem, aos "ocupas" do Gabu (**)...Com tanta casa de alvenaria abandonada, depois da independência, sem dono nem usufruto, seria uma pena não se aproveitar estes "marcos da civilização", primorosamente desenhados e tirados a papel químico pelos senhores arquitetos do GAC - Gabinete de Arquitetura Colonial, que nunca puseram os pés no Gabu...

Um deles até era meu conterrâneo, o arquiteto Lucínio Guia da Cruz (1914-1999), do GAC: foi ele que desenhou o edifício dos CTT em Bissau, em 1953... Queria fazer um edifício para a CM de Bissau, saiu-lhe um mastodôntico edifício dos CTT. Feio, mas funcional. Tecnicamente bom, dizem os especialistas.


 ____________________

Notas do editor LG:

(**) Último poste 22 de junho de 2026  > Guiné 61/74 - P28123: Humor de Caserna (276): No dia em que faz 82 anos, o luso-americano (e nosso camarada, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona) João Crisóstomo recebe das mãos de Aristides Sousa Mendes a Comenda da Ordem da Liberdade...

sábado, 9 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28003: Manuscrito(s) (Luís Graça) (288): Horóscopo poético de Arsénio Puim, nascido na ilha de Santa Maria, às 23h00 do dia 8 de maio de 1936, sob o signo Touro


Arsénio Puim (n. 8 de maio de 1936):  ilhéu, açoriano, mariense, ex-sacerdote católico (de 1960 a 1976), ex-capelão militar (1969/71): foi autarca, professor, enfermeiro; é jornalista, escritor,  cidadão do mundo, pai, avô, amigo... Natural de Santa Maria, vive hoje em São Miguel, em Vila Franca do Campo, desde 1982: "nunca pensei chegar aos 90 anos".

Foto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O nosso amigo e camarada Arsénio Chaves Puim nasceu às 23 horas do dia 8 de maio de 1936, na Calheta, freguesia de Santo Espírito (ilha de Santa Maria, Açores), terra de baleeiros. Teve irmãos ligados à baleação. Ele próprio era um apaixonado pela pesca da baleia. A mãe nunca o deixou ir, não fosse perdê-lo. Seguiu outro rumo: entrou para o seminário e foi ordenado padre (em 1960).

Mais tarde seria mobilizado para a guerra colonial como capelão militar. Integrou o Batalhão de Artilharia 2917, colocado em Bambadinca entre meados de 1970 e meados de 1972. Zona leste, sector L1.

Nunca usou arma, nem temeu minas mem armadilhas, nem emboscadas ou ataques dos "turras", e nomeadamene quando se deslocava em colunas, ou ficava uns dias nos quartéis e destacamentos do BART 2917 (Xime, Missirá, Mansambo, Xitole...). 

Tinha dificuldade em estar inteiramente bem com Deus e com César. Quando recusou a G3, distribuída em Bissau, após o desembarque do BART 2917, o 2º comandante perguntou-lhe cínica ou provocatoriamente se ele era "testemunha de Jeová" (=objetor de consciência), a ele, que era o capelão (católico) do batalhão!

Na igreja, em Bambadinca, pregava a paz em tempo de guerra. E lembrava aos militares de Bambadinca que o lema do seu batalhão era: "Pelas Gentes da Guiné".

Já em outubro de 1970, seis meses depois de chegar, protestara veementemente contra a exibição pública da cabeça de um “inimigo”, cortada por um furriel felupe dos Comandos Africanos, episódio ocorrido poucas semanas antes da Operação Mar Verde, a invasão de Conacri em 22 de novembro de 1970, uma das ações militares mais controversas da guerra na Guiné.

As suas "homilias da paz" eram vigiadas pela PIDE (que tinha informadores em Bambadinca, e agentes em Bafata). Mas ele nunca será preso ou interrogado pela polícia política, em Bambadinca, em Bissau, em Lisboa ou nos Açores, onde retoma o seu modesto lugar de pároco, depois de ter sido expulso da Guiné.

Mas o que verdadeiramente precipitou a sua queda em desgraça foi a denúncia pública, feita na igreja de Bambadinca, da forma como estavam a ser tratados, os prisioneiros provenientes do “mato”, isto é, das zonas controladas pelo PAIGC.

Foi por volta de abril de 1971. Tratava-se sobretudo de mulheres, crianças e velhos, mantidos em condições miseráveis, praticamente “num galinheiro”, sem alimentação condigna.

Veio então ordem de Bissau, do Quartel-General/Comando Territorial Independente da Guiné (QG/CTIG), possivelmente na sequência de informações da PIDE/DGS, para a sua expulsão do Exército e da Província..

O 2.º comandante do batalhão, major de artilharia Anjos de Carvalho, juntamente com o major de operações e informações Barros Basto, vasculharam-lhe o quarto, devassaram-lhe a o seu bloco de notas e confiscaram-na. Rasgaram-lhe, inclusive, uma folha, "comprometedora". Devolvem-lhe, mais tarde, no pós.25 de Abril,  o bloco de notas, mas não a "prova do crime".

Segue para Bissau. Numa DO-27, só com o piloto, sem escolta, sem despedidas, sem testemunhas, sem amigos, sem camaradas, sem lágrimas. Oito dias depois embarca para Lisboa e volta a ser " o pastor do seu humilde rebanho", na sua ilha...

Foi o segundo capelão militar a ser expulso do CTIG, em maio de 1917, depois do padre Mário de Oliveira (ou Mário da Lixa), em março de 1969...

Ironicamente, muitas das denúncias de Arsénio Puim coincidiam com os princípios oficialmente proclamados por António de Spínola em “Por Uma Guiné Melhor”: a preocupação com o tratamento humano das populações civis e dos prisioneiros.

Acrescente-se mais este pormenor biográfico, que também marca a diferença em relação a outros capelães da guerra colonial: ainda foi padre durante vários anos. Ao todo 16.

Quis fazer uam experiência de padre operário. Durante dois anos, em Ponta Delgada, tirou o curso de enfermagem, queria ter uma experiência holística do cuidar, como padre e como enfermeiro. Mas estes dois papéis tornaram-se humanamente incompatíveis, pro serem demasiado absorventes.

Pediu então a saída da sua condição sacerdotal. Fez carreira como enfermeiro em Vila Franca do Campo, no Serviço Regional de Saúde dos Açores, casou, em 1979, com uma jovem enfermeira, a Leonor (Maria Leonor Bicudo).  Tem 2 filhos, rapazes,  3 netos (2 meninas),  uma meia dúzia de livros, tem o seu quintal, é jornalista e escritor. É a memória viva da sua ilha, Santa Maria. E hoje, dia 9, celebra á fe quem mesa os seus 90 anos, com a Leonor, o Pedro, o Miguel, os netos, os amigos.


2. Falei ontem, uma hora, com o nosso aniversariante. Está ótimo. De voz e ouvido. E não se queixa da saúde. Estava feliz: "Nunca pensei chegar aos 90 anos".

Feliz e e com uma notável memória. Relembrámos factos, lugares, datas, gentes... Quem ainda está vivo, quem já morreu, do tempo de Bambadinca...Falámos do Benjamim Durães (de quem não tenho notícias há muito), do cap Gualberto Magno Santos Marques (cmdt da CCS, agora coronel, a viver no Algarve), do Abílio Machado (o "Machadinho"), do "mirandês" Abel Rodrigues (CCAÇ 12), da Helena e do Carlão, também da CCAÇ 12 (já falecido), do Gonçalves, da CCS/BART 2917 (que "andou no seminário")...Bem como do pobre do Victor Marques, cmdt do Xime, da CCAÇ 2715  (já falecido), do David Guimarães, da CCAÇ 2716  ("que cantava o fado e tocava viola", no Xitole), do saudoso "alfero Cabral"  (já falecido)... e de outros camaradas, cujos nomes vieram à baila. Sem esquecer o primeiro Brito, do major Anjos de Carvalho, do major Barros Basto, do ten-cor Polidoro Monteiro (todos do BART 2917), do capitão Brito, da CCAÇ 12 ...(já todos falecidos, se não erro).

Inevitavelmente falámos do triste episódio da sua expulsão, em maio de 1971. Aproveitei para clarificar um ou outro facto, ainda para esclarecer, confirmar e corrigir.

Já tinha recebido e folheado o livro, com a dedicatória, que lhe mandámos (o autor, Padre Bártolo Paiva Pereira, o Virgílio Teixeira e eu). Ficou sensibilizado e vai agradecer. 

Falei-lhe do padre Bártolo, que foi capelão-chefe, no QG/CTIG, de 1965/67, tendo-lhe sucedido, no cargo, o padre Manuel Joaquim da Silva Capitão (1968/7'0) e depois o padre Gamboa (fev 1970/ mar 1972).

Este é que foi o chefe do Puim, que de resto só vai estar no CTIG, um ano (mai 70/mai71).

É no tempo do capelão-chefe Gamboa, major graduado, em meados de 1970, que se realiza em Bissau (com 2 dias em Bolama) um encontro de capelães, onde houve alguma discussão acesa sobre o papel dos capelães naquela guerra. Os capelães foram recebidos pelo gen Spínola que aproveitou para mostrar o seu descontentamento em relação a alguns capelães que "não estavam a cumprir o seu dever" (devia querer fazer referância ao caso, ainda recente e inédito, do Padre Mário de Oliveira, que apenas esteve 4 meses, em Mansoa, até ser expulso do CTIG, em março de 1969, ainda no tempo do gen Arnaldo Schulz). 

O Puim estava longe de imaginar que, dali a meses, em maio de 1971, seria a sua vez de ser expulso do CTIG, desta vez por Spínola, e  regressar a casa, ou seja, à sua paróquia...

Mais uma vez obtive a confirmação do Puim em relação ao que se passou na "homilia da paz", de 1/1/1971: nunca foi preso ou interrogado pela PIDE/DGS, nem no início do ano de 71, nem em maio, em Bambadinca, nem em Bissau, enquanto aguardou embarque, nem em Lisboa, nem nos Açores.

Naturalmente, já tinha ficha na polícia política. (A PIDE/DGS em 25 de Abril de 1974  tinha um arquivo de 5 milhões de fichas, o que diz muito da eficiência do seu trabalho, em Portugal de aquém e de além-mar).
 
Apesar de tudo, e como bom cristão que continua a ser, há muito que o Puim perdou a quem lhe fez mal. Mas não esquece. 

3. Ontem mandeu-lhe os parabéns: 

"Puim, ao km 90 da picada da  vida...Parabéns, parabéns, parabéns, como se diz na tua terra!...E boa continuação da jornada!...

Ainda imaginei há um ano atrás poder estar aí hoje contigo e com os que te amam, na tua casa em Vila Franca do Campo, mas calculei mal as distâncias. Ainda são 1500 km no 'drone da amizade'...,  se quiser ir mais confortável com o meu esqueleto no avião da TAP,  ainda são quase 3 horas de viagem. De forma que utilizo este meio, mais maneirinho (e que sempre é mais rápido que o 'bate-estradas' do nosso tempo), para te desejar um bom dia, um grande dia... Que Deus e os nossos bons irãs te protejam a ti, aos teus (a tua Leonor,o teu Pedro, o teu Miguel, os teus netos, e demais família). E a todos nós. Luís (e Alice)".

O  Arsénio Chaves Puim nasceu sob o signo de Touro, às 23 horas do dia 8 de maio de 1936, sexta feira,  numa ilha baleeira perdida no Atlântico, Santa Maria, Açores. Mas o seu verdadeiro signo talvez nunca tenha sido o do zodíaco: foi o da inquietação moral e do testemunho cristã.

A título de apreço e homenagem, aqui vai um pequeno ensaio de  horóscopo poético,  dedicado a ele que podia ser o Santo Arsénio, mas não, não é santo de altar, apenas um homem, de corpo inteiro, um bom amigo e camarada da Guiné. A ele que não desertou, foi apenas expulso da tropa. 

Admiro-o porque é um  daqueles raros seres que nunca aceitaram viver pela metade: quis conhecer a dor e o  sofrimento dos outros não apenas pelo exercício do múnus espiritual, mas também pelas mãos, pelo corpo, pela doença, pela dor, pelo quotidiano dos outros.

 Horóscopo poético:  Ao Arsénio Puim, que nunca quis ser santo, mas apenas homem, um bom cristão, e um melhor amigo e camarada


Nasceu numa ilha pequena
onde os homens aprendiam cedo
que o mar tanto dá como leva,
e que a vida tanto põe como tira.

Entre o mar dos Açores e o rio Geba, na Guiné,
nasceria um homem de passo manso
e consciência difícil.

Touro de maio,
feito da matéria antiga das ilhas atlânticas:
basalto, vento, sal, silêncio e... teimosia.

Os astros deram-lhe voz (frágil) de padre,
mas coração (forte) de insubmisso.
Nunca aprendeu a ajoelhar-se diante da força,
mesmo quando, por imposição do bispo,
fora obrigado a vestir a farda camuflada verde-rubra.

Havia nele qualquer coisa de ave marinha insular:
voava baixo sobre o sofrimento dos homens
e reconhecia de longe o cheiro da injustiça.

Recusou a G3,
não por ser "testemunha de Jeová",
mas padre, católico, capelão, 
médico de almas e corpos.
Recusou a G3 
como quem recusa um segundo pecado original.
Pregou a paz
em terra onde a paz ainda era heresia.

Os planetas dizem
que os homens nascidos naquela hora tardia,
a sempre temível, para as parturientes, 23ª hora,
trazem dentro de si uma luta interminável
entre a obediência e a verdade,
entre o pânico e a teimosia,
entre o medo e a coragem.

Por isso o expulsaram.
Porque certos homens perturbam mais pelo exemplo
do que pela rebeldia.

Foi padre durante dezasseis anos.
Disseram-lhe que bastava salvar almas.
Ele desconfiou da missão, que se ficava pela metade.
Quis aprender também
a tratar feridas, febres, fezes, 
pus, vómitos, sangue, 
doença, solidão, loucura.
Fez-se enfermeiro
como quem prolonga o Evangelho 
pelas mãos e a arte de cuidar, que é mais do que curar.

Durante algum tempo
tentou juntar os dois mundos:
o altar e a enfermaria,
a oração e o termómetro,
a absolvição e a mezinha.

Mas os papéis começaram a rasgar-se por dentro.
Havia demasiada vida concreta, telúrica,
para caber apenas na batina de padre 
 (ou na pena de jornalista).

Então desceu à terra comum dos homens.
Casou.
Teve filhos.
Vieram netos, livros, árvores de fruto,
jornalismo, memórias,
a brisa do quintal ao fim da tarde, 
ao pôr do sol sobre o mar de Vila Franca do Campo.

E contudo,
mesmo sem batina,
continuou a ser padre à sua maneira:
escutando, cuidando,
amparando fragilidades,
resgatando memórias,
investigando, escrevendo.
E essa é também uma forma de coragem
para quem não desiste da vida 
(e, para muitos, do seu absurdo).

Hoje, aos 90 anos,
o nosso ex-"padre capilom",
como diziam com graça e ternura 
as gentis lavadeiras de Bambadinca,
continua de sentinela entre Deus e César,
não pertencendo inteiramemte ao céu  ou à terra,
mas ao mundo inteiro.
 
Os astros sorriem-lhe, discretamente:
não prometem nem honra nem glória,
a ele que não glorificou a guerra;
não lhe prometem
nem a tribuna de poder,
nem o nicho de altar,
nem o pedestal de estátua.

Há homens que passam pela vida
como passageiros,
viajando com mais ou menos luxo/lixo.
Outros tornam-se arquivo vivo
de uma terra e de um povo.
O Puim de Santa Maria
é hoje uma dessas raras bibliotecas humanas
que ainda sabem o nome dos ventos, dos moinhos,
das famílias, dos mortos, das almas penadas,
dos topónimos, dos extintos vulcões, 
dos cachalotes que escaparam ao arpão do baleeiro, 
das histórias que não vêm nos livros.

Os astros dizem
que aos noventa anos
um homem começa lentamente
a transformar-se em paisagem fossilizada.

Talvez por isso
a ilha o guarde agora
como se guarda um farol antigo:
com gratidão,
com respeito,
e com medo de um dia o perder.

Alfragide, 8/9 de maio de 2026

O astrólogo-poeta, Luís Graça
(a que se juntam, Arsénio,  os teus/nossos antigos camaradas da Guiné,
mesmo aqueles que nunca mais te viram ou verão,
que ainda te recordam com amizade, saudade, espanto e respeito,
e isso,  aqui e agora, vale mais do que a eternidade).

__________________

Nota do editor LG:

quarta-feira, 25 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27857: Humor de caserna (251): O anedotário da Spinolândia (XXIII): "Não me tomem por periquito, car*lho, que de guerra venho eu farto" (ten cor Polidoro Monteiro, cmdt, BCAÇ 2861, Bissorã, e depois BART 2917, Bambadinca, 1970/72)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > BART 2917 (1970/72) > Centro de Instrução de Milícias > Da esquerda para a direita, em segundo plano, ten cor Polidoro Monteiro (comdt do BART 2917), gen Spínola e alf mil  Paulo Santiago (todos de óculos de sol).

Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné >  Região do Oio > Bissorã > BCAÇ 2861 (1969/70) > 1970 > "À esquerda o alferes graduado  capelão Augusto Batista, à direita o ten cor inf Polidoro Monteiro (já falecido), cmdt do batalhão. Foto tirada em  dia de festa balanta,,, Por detrás,  a Casa Gardete, do comnerciante José Gardete Correia,m pai dio médico e deputado pelo círculo da Guiné Manuel Gardete Correia. No primeiro andar da Casa, então utilizada como quartos dos oficiais, a senhora que está à varanda era a esposa do capitão, comandante da CCS.

Foto (e legenda): © Armando Pires (2009). 
Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Mato Cão > O ten Cor Polidoro Monteiro, último comandante do BART 2917, o alf mil médico Vilar e o alf mim at inf Paulo Santiago, instrutor de milícias, com um pequeno crocodilo  do rio Geba... O Polidoro Mondeira exibe a sua inconfundível faca de mato I(assinalada a amarelo)

Foto tirada em novembro ou dezembro de 1971 no Mato Cão, após ocupação da zona com vista à construção de um destacamento, encarregue de proteger a navegação no Geba Estreito e impedir as infiltrações na guerrilha no reordenamento de Nhabijões, um enorme conjunto de tabancas de população balanta e mandinga tradicionalmente "sob duplo controlo".

Foto: © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O último comandante do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), João Polidoro Monteiro, infelizmente já falecido, merece ser aqui destacado, na série Humor de Caserna, subsérie O Anedotário da Spinolândia,  por ter ficado na  na nossa memória, pela sua liderança, pela sua personalidade, pelas histórias que deles se contavam, pela interação que teve com alguns de nós, malta da CCS/BART 2917, e subunidades de quadrícula, além da CCAÇ 12, Pel Caç Nat 53...

Eis alguma informação adicional sobre este oficial superior, conhecido como spinolista convicto, disciplinador, mas próximos dos soldados , justiceiro (deu uma porrada ao médico do batalhão!), grande operacional,  caçador... e garanhão que, na parada ou na caserna, fazia gala de usar o calão da tropa.  Nem todas as histórias se podem contar em público, mas aqui vão algumas, honrando a sua memória. (Tem duas dezenas de referências no nosso blogue; faleceu em 27 de dezembro de 2003.)


Armando Pires,
Monte Real, 2014
1. Armando Pires (ex-fur mil enf da CCS/BCAÇ 2861, Bula e Bissorã, 1969/70)

O ten cor João Polidoro Monteiro [JMP] veio, em 1970, diretamente de Moçambique, onde comandava a Guarda Fiscal, para Bissorã, comandar o meu batalhão, o BCAÇ 2861, em substituíção do ten cor César Cardoso da Silva.  

Em dezembro de 1970,  o BCAÇ 2861 regressou a Portugal, terminada a comissão. Foi nessa altura que JPM foi comandar o BART 2917, com sede em Bambadinca.

(...) Estou a vê-lo, ao Polidoro, galões reluzentes sobre um camuflado acabadinho de saír do Casão Militar, olhos protegidos pelas lentes escuras de uns inevitáveis Ray-Ban, pingalim tremelicando na mão direita, voz forte e decidida advertindo a força em parada:

 Não me tomem por periquito, que de guerra venho eu farto.

Depois, a ordem que obrigava todos os militares a andarem devidamente fardados e ataviados quando não em serviço (???).

Se esta não fosse já um mimo, a cereja em cima do bolo veio de seguida. Íamos fazer exercícios de protecção ao aquartelamento. Poupo-vos ao relato e consequências, embora fossem de ir às lágrimas.

Já mais tarimbado na função, o Paulo Santiago, ex-comandante do Pel Caç Nat 53, aqui nos relatos da Tabanca Grande mostra-o, ao Polidoro, numa foto  tirada nas margens do Geba, ali no Mato Cão, exibindo um magnífico troféu de caça.

Com a mais respeitosa vénia ao Santiago, recoloco aqui a tal foto, ao lado de uma outra tirada por mim, em Bissorã, pedindo-lhes que descubram a semelhança. 

Hum!!! Já viram? Reparem outra vez… olhem bem… não deram por ela?... 

É a Faca de Mato, caramba! Ali, sempre pendurada no ombro direito.


´
David Guimarães,
Guiné-Bissau, 2001

2. David Guimarães (ex-fur mil art Art Minas e Armadilhas, CART 2716/BART 2917, Xitole, 1970/72)

(...) A CART 3492 (Xitole, Janeiro de 1972/Março de 1974) foi exactamente a Companhia que rendeu a CART 2716 a que eu pertenci e fomos nós que fizemos a sobreposição...

(...) Um dia o Comandante do BART 2917, já na sobreposição, apareceu no Xitole. O Luís Graça e o Humberto Reis conheciam-no. Era o ten-cor Polidoro Monteiro... Conto-vos uma peripécia passada com ele.

Perguntava eu, bem perfilado, ao Polidoro Monteiro:

 Meu comandante, a nossa missão é ir ensinar o caminho a esta gente...Proponho que ensinemos o início dos caminhos por onde passamos tantas vezes....

Resposta:

− Vai-te f*der, seu car*lho, quero que lhes ensinem a toca....

Deu em riso, como é evidente....

O Polidoro Monteiro foi o único tenente-coronel que usava arma e eventualmente percorria um pedaço de caminhos connosco... Gostava muito de passear no Xitole, pois de manhã gostava de ir até Cussilinta, ao banho, no Corubal,  e à noite ir à caça às lebres que iam para junto da mancarra (amendoím], na Tabanca de Cambessé, à guarda do aquartelamento do Xitole....

Sempre vi nele um bom militar e era da inteira confiança de Spínola.... Aliás ele era tenente-coronel de infantaria e foi colocado por Spínola em Bambadinca para ir comandar o BART 2917, em substituição do  ten-cor art Magalhães Filipe, que era o comandante inicial do Batalhão (...).

A gota de água para retirar o comando ao Magalhães Filipe foi a operação na Ponta do Inglês onde morreu aquela secção do Cunha [da CART 2716, do Xime]... 

Quem merecia a porrada  [o maj art Anjos de Carvalho, 2º cmdt do BART 2917, já falecido]... acabou por não a apanhar (...).

Ainda sobre o Polidoro Monteiro... Um dia ele manda um rádio para o Xime com a seguinte nota: 

"Dois pelotões formados às 5.30 para sair com CMDT" (...).

 O Polidoro Monteiro chama o condutor de dia e percorre,  sem qualquer escolta,  aquele caminho de Bambadinca ao Xime, a alta velocidade... 

Resultado: 10 dias de prisão para o alferes que exercia as funções de 2º Comandante, e 10 de detenção para outro alferes... É que eles nunca se fiaram que àquela hora ele aparecesse lá e como tal não estavam prontos como ele mandara....

Luís Graça e Humberto Reis: vocês já não estavam lá, creio, mas que isto se passou, passou... O Polidoro era assim, um bom comandante, a nível operacional... Dizia quantas asneiras havia no dicionário... Muito operacional mas bom sujeito... Vocês conheceram-no ainda (...).



Paulo Santiago,
Pombal, 2007
3. Paulo Santiago  (ex-al mil at inf, cmdt do Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72)

 (...) Acontece,algumas vezes, aparecerem postes que mexem comigo. Precisando:  emocionam-me. É o caso de hoje, com este poste do camarada Armando Pires,que entrou, em grande forma, para a Tabanca. 

Não é por causa da foto, onde apareço abrindo a boca do anfíbio bicharoco; não, o que me tocou mais fundo foi a recordação do Polidoro, pessoa que nunca mais encontrei após a minha saída de Bambadinca. 

Todos sabeis, já o escrevi várias vezes, o ten-cor Polidoro Monteiro foi talvez o  oficial superior, melhor dizendo,  foi o único oficial superior que me mereceu respeito, e conheci vários. 

Estes vários que conheci, majores, tenentes-coronéis, quando íam ao Saltinho (é um exemplo) utilizavam o heli, nada de ir em colunas, havia o pó e outras merdas mais complicadas... E aqui começa a diferença... Conheci o Polidoro, não em Bambadinca, conheci-o (e também ao Vacas de Carvalho)... no Saltinho, onde chegaram e de onde partiram numa coluna com o trajecto  Bambadinca-Mansambo-Xitole-Saltinho e depois o trajecto inverso. 

Não sei a razão, mas em Bambadinca, havia, como dizer?, uma certa cumplicidade entre mim e o Polidoro.  Entendíamo-nos muito bem, já o mesmo não acontecia com o 2º comandante, o [major art] Anjos de Carvalho, um militar emproado, bom para andar na parada, esperando ver um militar com menos atavio, ou que se esquecesse da continência, para de imediato lhe foder a vida.

Agora a foto. Quem era o comandante de batalhão que se metia num sintex e descia o Geba Estreito até Mato Cão? Só o Polidoro...e ficou lá a dormir nos buracos com o pessoal do Pel Caç Nat  63. 

Aquela faca no ombro direito, de que fala o Armando, é sua imagem de marca, julgo que nunca vi o Polidoro com outra farda que não fosse o camuflado, raramente com galões, contrariamente ao 2º comandante que sempre vi de calções, meia alta e respectivos galões.

Agora vou "entrar" com o Armando quando cita aquela apresentação do Polidoro ("Não me tomem por periquito que de guerra venho eu farto").  

Oh Armando,  não terá sido assim: 

− Car*lho..., não me tomem por periquito que de guerra venho eu farto ?!

Ou assim: 

− Não me tomem por piriquito, car*lho..., de guerra venho farto ?!

Agora, ainda a propósito da foto, reparem no outro personagem, o alf mil médico Vilar, ja "completamente apanhado" na altura (e hoje... psiquiatra). Olhem para a arma que ele segura: é uma carabina de caça 22...Não é que ele lhe acoplou aquela imensa baioneta (comprada na Feira da Ladra) de uma Kropatschek ?! (...)


4. Comentário do editor LG:

Companhias de quadrícula do BART 2917 (Bambadinca, Setor L1, maio de 1970/março de 1972, ) (comandado por ten cor art Domingos Magalhães Filipe,  e depois por ten cor inf João Polidoro Monteiro):

(i) CART 2714, sita em Mansambo (Cap art José Manuel da Silva Agordela); 

(ii) CART 2715, sita no Xime (Cap art Vitor Manuel Amaro dos Santos, 1944-2014; alf mil  art José Fernando de Andrade Rodrigues;  cap art Gualberto Magno Passos Marques; cap inf Artur Bernardino Fontes Monteiro; cap inf  José Domingos Ferros de Azevedo)

(iii) CART 2716, sita no Xitole (Cap mil art Francisco Manuel Espinha de Almeida) (...).

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
_______________

Nota do editor LG:

segunda-feira, 16 de março de 2026

Guné 61/74 - P27825: Manuscrito(s) (Luís Graça) (283): Maratona da amizade e da camaradagem


Lisboa > Largo da Madalena > 15 de novembro de 2009 > Pormenor da calçada à antiga portuguesa, à entrada da Igreja da Madalena... Se não forem os nossos amigos calceteiros, portugueses, de origem cabo-verdiana, já não há ninguém a faça... F*da-se, dá cabo das costas e dos joelhos!

Foto (e legenda): Luís Graça (2009). Direitos reservados


A maratona da amizade e da camaradagem

por Luís Graça

O João Crisóstomo
o mais famoso dos mordomos portugueses de Nova Iorque,
e agora régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona,
instituiu o dia 14 de fevereiro 
como o Dia da Amizade... e da Camaradagem (*), 
Pois que seja o Dia do Camarigo, por causa das confusões.

E eu lembrei-me da maratona
que vamos fazendo,
trilhando velhas picadas, 
cada um até ao seu dia,
cada um de nós, os amigos e camaradas da Guiné.
Lembrei-me, 
revisitando um velho, longo poema
que estava no baú das minhas blogarias (**).

Juram, os amigos,
que a amizade não se esgota
nas questões de lana caprina.
Nem se dilui na espuma dos dias.
Testa-se e reforça-se na provação.
A amizade e a camaradagem
(que só pode existir na guerra
e noutras situações-limite).

É verdade, Abel, Abílio, Acácio, Adão, Adelaide, Adelino, 
Adélio, Adolfo, Adriano, Afonso, Agostinho ?!

Dizem outros que eles, os amigos,
devem ser para as ocasiões.
Todas as ocasiões ?
As pequenas e as grandes ?
As boas e as más ? Sobretudo as más ?
A estação seca e a estação das chuvas  ?
A paz e a guerra ?

 ... Albano, Albertino,  Alberto, Alcides, 
Alexandre, Alfredo, Alice, Almeida,   

Ou tudo isso é letra morta, treta?!
Que os amigos conhecem-se
na adversidade, diz o provérbio.

Almiro,  Altamiro, Álvaro, Amaral, Amaro,  
Américo,  Amílcar, Ana, Anabela,  
Angelino Aníbal, Anselmo, Antero ?!

E os camaradas, na guerra,
dizia o senhor doutor Lobo Antunes.
E os colegas nas tainadas e nas putas,
dizia o teu instrutor
de minas, fornilhos e outras armadilhas da vida.

Dizem que sim com a cabeça, 
António, Arlindo, Armandino, Armando, 
Arménio, Armindo,  Augusto, Áurea

Quem em caça, política, guerra e amores se meter,
não sairá quando quiser.


Sairá ou não,
Belarmino, Belmiro, Benito, Benjamim, 
Benvindo, Bernardino, Braima ?!

Os amigos, os verdadeiros e os falsos,
conhecem-se nas ocasiões.
Que a adversidade é o teste da amizade.
A prosperidade traz amigos,
a adversidade os afasta,
diz o chinoca da tua rua,
que não tem amigos,
a não ser o dicionário de português-cantonês,


que poderia ter sido escrito
o que é que vocês acham ?!,
p'lo Campelo, Cândido, Carlos,
se tivessem nascido em Macau,
filhos desventrados e desventurados
do Fernão Mentes Minto ?!

Oh, Galissá, Galissá, 
que no céu se fazem amigos;
e, no inferno da guerra, inimigos,
canta o poeta, cego, da tua rua,
tocador de cora,
deambulando de tabanca em tabanca,
no que resta do regulado de Gabu.

Lembram-se Carmelino, Carvalhido, Casimiro, 
Cátia, Célia, César, Cherno, 
Cláudio, Conceição, Constantino, Cristina ?!

Que a amizade é um edifício
que leva uma vida a construir,
e que num minuto pode ruir,
garante o Esquilo Sorridente,
que era o nome de guerra de alguém,
quando bom escoteiro em Ingoré, 
lá no Norte da Guiné.

Pelo menos assim te contaram, 
Daniel, David, Delfim, Diamantino. 

Não, vocês, não passaram por Ingoré.
Mas passaram por outros sítios da Guiné 
onde Jesus Cristo nunca parou.
Nem Alá.

Diana, Dina, Domingos,  Duarte e Durval.

No aperto do perigo, conhece-se o amigo.
Essa é a verdade,
e a verdade é um osso duro de roer,
até para o cão que rói o osso,
na opinião de quem em Bissorã teve um cão.

Dizem que um cão é uma boa companhia,
Edgar, Eduardo, Egídio, Ernestino, Ernesto, 
Estêvão, Eugénio, Evaristo,
que nunca tiveram cão de guerra.

Que os amigos fazem-se,
praticando a amizade,
E os camaradas a camaragem.
E os camaradas que são amigos
a camaradagem.

Felismina, Fernandino, Fernando, 
Ferreira, Filomena, Fradique.

Tal como os caminhos que, se não se usarem,
ganham espinhos, ervas, silvas, moitas, carrascos,
pedras soltas, calhaus, pedregulhos,
tornam-se abatizes, obstáculos, bagabagas, 
cabeços, colinas, montanhas.

Vero ?!... Gabriel, Garcez, George, Germano, 
Gil, Gilda, Gina, Giselda.

Ou na versão de um velho homem grande, 
mandinga de Contuboel,
algures na velha Guiné agora Bissau:
"a amizade é uma picada
que desaparece na areia, na bolanha ou no mato,
se não a usares todos dias".
Disse-te ele um dia.

Gonçalo, Graciela, Gualberto, 
Guilherme, Gumerzindo, Gustavo.

Não aceito que digas:
"Amigo não empata amigo",
porque o amigo é isso,  
tens toda a razão, camarigo,
que o amigo é para se usar, se guardar
e se resguardar.

 
Achas que sim ou que não ?!, 
Hélder, Henrique, Herlânder, 
Hernâni, Hilário, Hugo, Humberto. 

Para se resguardar das pontadas de ar, 
dos tiros tensos do canhão sem recuo 
e das emboscadas
e dos estilhaços do "jato do povo"-
Não é para se usar, expor e deitar fora,
na berma da picada armadilhada.

Ah!, Idálio, Ildeberto, Inácio, Inês,
Ah!, Isabel, Ismael... 

A amizade não é um objecto descartável,
manda o profeta dizer no seu último mail.
(Ou foi o Sócrates, o grego, antes da cicuta ?).

A conselho amigo, não feches o postigo,
além de que amigo diligente é melhor que parente.
Sobretudo se te dói o dente.

Ah!, Jota A, Jota C, Jota F, Jota L., Jota M.
 
E já que tens físico amigo,
queres dizer médico no antigamente,
manda-o a casa do teu inimigo.
Escreveu o Dom Dinis, 
que foi rei, e régulo da Tabanca da Linha, 
e já morreu, em plena pandemia,
mandou lavrar cantiga de escárnio e mal dizer,
além do pinhal de Leiria.
Quem seu inimigo poupa, às mãos lhe morre.

Ah! Jacinto, Jaime, Jean, Jéssica, João
Joaquim, Jochen,
será que vocês assinam por baixo ?

Mas, atenção, 

amigo disfarçado, inimigo dobrado.
E o que fazer ao amigo que não presta
e à faca que não corta, 
Jorge ?

Também se diz que os amigos novos
metem os velhos no canto ou a um canto.
Se não se diz, pensa-se.
Será assim, mano,
que os amigos também cansam
como a sarna na pele,
como a pele e as suas sete camadas ?

Que se percam, pouco importa!
proclama pela telegrafia sem fios
o coro dos Josés de A a Z

Não sei o que é que vocês pensam:
"Os amigos têm prazo de validade" ?

Joviano, Júlia, Júlio, Juvenal.
 
Uma questão que nada tem de metafísica:
ovo de uma hora,
pão de um dia,
vinho de um ano,
mulher de vinte,
amigo de trinta
e deitarás boa conta.


Lázaro, Leão, Leonel, Lia, 
Libério, Lígia, Luciana, 
Luciano, Lucinda, Luís com s ou com z, 
conforme o desacordo ortográfico.

Amigo, vinho e azeite... o mais antigo,
garante quem passou por Buruntuma
onde não havia azeite (ou se o havia, era o de dendê)
nem vinho... mas havia amigos.

Mamadu, Manuéis de A a Z,  
Margarida, Maria, Mário.

O vinho e o amigo, quer-se do mais antigo,
recomendam o outro Jorge, que é engenheiro,
mais o Picado, que foi agrónomo.
E o que farás dos teus novos amigos, Virgílio,
que não fazem anos no mesmo dia que tu ?

Marisa, Marta, Martins, 
Maurício, Maximino, Melo, Miguel,
 
Faz como o vinho, Zé Manel da Régua,
se for bom mete-o a envelhecer
em cascos de carvalho.
Francês.
Ou castanho.
Português.
A amizade não tem pátria 
Nem é chauvinista. 
Nem é racista.

Garantem o Natalino, o Nelson, o Norberto, 
mais o Nunes e o Nuno,

E por que é que os amigos dos teus amigos 
teus amigos são ?
É como os filhos do teu filho, serão dele ou não…
Que ao menos,
Jorge, 
cresçam Narcisos no teu jardim.

Que sabem vocês, 
que sabemos nós, 
amigos e camaradas da Guiné ?!
Só sabíamos do desalento, 
e do vento
e da morte na alma
e da terrível secura na garganta
e das lágrimas que não podíamos chorar
quando trazíamos do mato, 
os camaradas mortos,
às costas...


Orlando, Orlando, Osvaldo, Otacílio.

Só damos valor às coisas,  
quando elas nos faltam,
e aos amigos
quando fazemos o luto pela sua perda.
E já perdemos tantos, "alfero" Cabral",
tantos de A a Z
camaradas como tu e o António, 
ou amigas como a Zélia!

São tantos os estereótipos, 
amigos e camaradas,
sobre os amigos e a amizade.
E os camaradas.

Pacífico, Patrício, Paula,  Paulo, Pedro.

Sem falar do 'Nino', e do Pires, e do Mané, e do Manecas, e do Indjai, 
dos teus inimigos, que, esses, afinal
eram os mais previsíveis,
estavam sempre do outro lado da ponte...

Que à volta eles cá te esperam,
Amílcar Cabral,
aliás Abel Djassi.
Bolas, vocês até podiam ter sido,
se não amigos,  bons vizinhos!
Que camaradas, salvo seja,
cada "dari" ou chimpanzé no seu galho!
Que chimpanzé não é macaco,
era ferreiro castigado por Alá 
por trabalhar ao sábado 
e andar a fazer drones e espadas de guerra
em vez de arados para lavrar a terra.

Ramiro, Raul, Ribeiro, Ricardo, 
Rogé, Rogério, Rosa, Rui.

Amigo verdadeiro, esse vale mais do que dinheiro,
meu pobre Amadu Djaló,
bom crente, bom muçulmano,
bravo combatente,
leal aos teus amigos "tugas",
tu a quem já te acusaram de mercenário.

Mas vale a morte que tal sorte, Marcelino,
quando os amigos que tens não os tens.
Como os velhos elefantes, 
devias ter voltado para o teu chão,
para morrer entre os teus
e seres enterrado debaixo do teu poilão
Zé Carlos Suleimane Baldé.

O próximo teste,
é quando ganhares o Euromilhões.
Ou quando ficares esticado no caixão, ao comprido:
será que lá terás todos os gatos pingados da companhia ?

Sadibo, Santos, Sebastião, Sérgio, Serra,  
Silvério, Sílvia, Sílvio, Souleimane, Sousa, Susana, 

Antes boa que má companhia, 
nem que seja a do gás e electricidade.
Amigos, amigos, negócios à parte,
dizia o teu primeiro,
que chegou a "mandjor"...

Tibério, Timóteo, Tina, Tomané, Tomás, Tony.

Afinal, quem vai à guerra dá e leva.
Quem te avisa, teu amigo é,
leste uma vez no bilhetinho anónimo
do tempo da delação e do inquisidor-mor.

Quem seu amigo quiser conservar,
com ele não há-de negociar.
E será que se pode blogar,
Carlos ?
Longe da cidade, tanto melhor, diz o
Vinhal,
que é da vila de Leça da Palmeira.

Mas... quem tem amigos, não morre na cadeia,
nem no exílio, dourado,
seja feio ou belo, 
e mesmo que se chame José, o viking.

Um rico avarento não tem amigo nem parente.
As boas contas fazem os bons amigos.
Ao bom amigo, com o teu pão e o teu vinho.
Ao rico mil amigos se deparam,
ao pobre até seus irmãos o desamparam.

Os camaradas, comandos, páras e fuzos, dizem: 
"Connosco ninguém fica para trás"...
Aquele que te tira do perigo, é teu amigo.
Bocado comido não faz amigo,
porque não é partilha...
Defeitos do teu amigo ?

Lamento, meu caro Mário, mas não maldigo
o teu nome de guerra, "Tigre de Missirá"
Em tempo de figos, não há amigos.
Chacun que se governe, Patrício,
em caso de peste (de que Deus nos livre!).
Ou de ataque de abelhas.
Ou de pânico mortal.
Ou de fobia,
acrescenta aí, "Duque do Cadaval".

Muitos conhecidos, poucos amigos:
não é nenhuma heresia,
é palavra do Senhor,
e o Senhor esteja contigo,
meu camarigo  Jaquim,
e com todos nós, filhos da humanidade,
de Abel e de Caim.
Afinal foi Jesus Cristo que nos mandou
amar a Deus acima de todas as coisas 
e ao próximo como a nós mesmos.
Mas parece muito mais fácil 
cumprir o primeiro mandamento do que o segundo,
dizia o camarigo  Jero
Ora, bolas, como podemos amar a Deus que não vemos, 
se não amarmos o próximo que está à nossa frente, 
pergunta o capelão Puim?!

Guardem-se, entretanto, do alvoroço do povo, 
todo os Josés e todo os Joões,
mais os Martins,
e de travar com o doido.

Mas se calhar não há maior amigo 
do que o mês de julho
com o seu trigo que dá pão.
Olha, mulher, se não tens marido,
pouca sorte a tua,
não tens amigo e acabas na rua,
Lena, Hiena, de Bafatá.

Amigo mesmo é aquele que sabe o pior
a teu respeito
e mesmo assim... continua a gostar de ti,
mesmo que tenhas perdido a tua caderneta de vôo,
meu inFélix piloto Jorge dos Allouettes...

Quando uma pessoa perde dinheiro, perde muito;
quando perde um amigo, perde mais,
ó herói de Gadamel, agora tabanqueiro na Maia;
quando perde a coragem e a fé, perde tudo.
Onde é que já leste isto, Gil,
da Tabanca dos Melros ?

Valente, Valentim, Vasco, Victor (com c e sem c).

Difícil, meus amigos e camaradas da Guiné,
é ganhar um amigo numa hora;
fácil é ofendê-lo
e perdê-lo num minuto.
O Torcato Mendonça "dixit", 
da sua janela do Fundão
que dava para a Gardunha,
a Serra da Estrela e a Cova da Beira.

Vilma,Virgílio, Virgínio,   Zé.

Hoje é o amanhã
que tanto nos preocupava ontem,
escreveste tu isto no teu diário,
nas páginas dos feriados 
e dos Dias de Todos os Santos guerreiros...

Mas não menos sábia 
do que a do teu amigo Cherno
é a sabedoria do mongol:
o vitorioso tem muitos amigos, fracos,
mas o vencido tem bons amigos, valentes.
E até o otomano aprendeu à sua custa:
"Quando o machado entrou na floresta,
as árvores disseram:
'O cabo é dos nossos,
mas a lâmina de aço... não a estamos a reconhecer'".

Resta-nos a agridoce memória do passado,
as toponímias da nossa peregrinação trágico-marítima,
do Pijiguiti ao Xime,
de Bolama a Buba,
de Gandembel a Guileje,
de São Domingos a Catió,
sem esquecer o Cheche, 

e o Paulo, e o Rui, e o Aparício 

O que foi duro de sofrer,
lá longe da Pátria,
é agora doce de recordar,
no lar, no doce lar, 
conclui o cadete da Academia,
na fria pedra de mármore de Vila Viçosa.

Olha o Cufeu, Amílcar,
olha o Cufar, Fitas!

Planta hoje a semente da amizade,
mesmo que não sejas lavrador,
para colheres amanhã a flor da gratidão.
Ser amigo é ser generoso,
é dar antes de te pedirem,
é um gesto gratuito.
Quiçá o mais puramente gratuito dos teus gestos.
Ou será interesseira, a amizade ?
Para ti, não é como dar aos pobres...
Aí emprestas a Deus,
tu que és Paulo e Lage, tu que és pedra,
e Deus paga-te em vida ou na morte,
com os dividendos do poder,
da glória, da fama, da riqueza 
ou da eternidade,
lá no Olimpo dos Camarigos

Se estás tão cansado, meu amigo,
Junqueira, Condeço, Tavares,
que não possas dar-me um sorriso,
eu deixo-te o meu,
a ti que és Victor,
E "In Hoc Signo Vinces".

Não, nunca digas:
"Chega-te para lá, que me tapas o meu sol".
Por que o sol quando nasce devia ser para todos.
As lágrimas dos bons caem no chão,

Arminda, Rosa, Áurea, Giselda, Ivone, Zulmira,

para poderem vir a engrossar os rios da revolta
e da indignação.
Inútil tentares juntar as tuas mãos,
se elas não estiverem vazias,
diz o teu guru do Tibete, agrilhoado.
Os amigos escolhe-os tu,
os parentes são os que Deus te deu.
Quando estás certo, ninguém se lembra;
quando estás errado, ninguém esquece.

Amigos e camaradas paraquedistas,
poucos e loucos mas bons,
que não são do arre-macho
nem da tropa-macaca,
que também é gente e primata,

Volta o teu rosto na direção do sol, 
tu, Miguel, que és o mais "strelado" de todos nós,
para que as sombras fiquem para trás, 
E não caias do céu aos trambolhões, 
tu, tenente pilav que chegaste a general.

À laia de conclusão,
amigos e camaradas da Tabanca Grande, de A a Z,
sintam-se todos evocados e convocados,
para esta maratona da amizade e camaradagem.
E honrados.

Antes de começares o trabalho de mudar o mundo,
dá três voltas dentro de tua casa...
E sobretudo não esqueças a lição
sobre a parábola da Sabedoria e da Asneira:
"Para os erros alheios,  
temos os olhos do lince;
para os nossos próprios, 
os olhos da toupeira".
 
 
PS - Requiem para os amigos e camaradas da Tabanca Grande
que já se despediram da Terra da Alegria

A. Marques Lopes (1944-2024) 
Agostinho Jesus (1950-2016) 
Alberto Bastos (1948-2022) 
Alcídio Marinho (1940-2021) 
Alfredo Dinis Tapado (1949-2010) 
Alfredo Roque Gameiro Martins Barata (1938-2017) 
Amadu Bailo Jaló (1940-2015) 
Américo Marques (1951-2019) 
Américo Russa (1950-2025) 
António Branquinho (1947-2023)
António Cunha ("Tony") (c.1950 - c. 2022)  
António da Silva Batista (1950-2016) 
António Dias das Neves (1947-2001) 
António Domingos Rodrigues (1947-2010) 
António Eduardo Ferreira (1950 - 2023)
António Estácio (1947-2022) 
António José Matias (1949-2022)
António Manuel Carlão (1947-2018) 
António Manuel Martins Branquinho (1947-2013) 
António Manuel Sucena Rodrigues (1951-2018) 
António Medina (1939-2025) 
António Rebelo (1950-2014) 
António Teixeira (1948-2013) 
António Vaz (1936-2015) 
Armandino Alves (1944-2014) 
Armando Tavares da Silva (1939-2023) 
Armando Teixeira da Silva (1944-2018) 
Augusto Lenine Gonçalves Abreu (1933-2012) 
Aurélio Duarte (1947-2017) 

Carlos Alberto Machado Brito (1932-2025)
Carlos Alberto Cruz (1941-2023) 
Carlos Azeredo (1930-2021) 
Carlos Cordeiro (1946-2018) 
Carlos Domingos Gomes (Cadogo Pai) (1929-2021) 
Carlos Filipe Coelho (1950-2017) 
Carlos Geraldes (1941-2012) 
Carlos Marques dos Santos (1943-2019) 
Carlos Rebelo (1948-2009) 
Carlos Schwarz da Silva, 'Pepito' (1949-2012) 
Carronda Rodrigues (1948-2023) 
Celestino Bandeira (1946-2021) 
Clara Schwarz da Silva (1915-2016) 
Cláudio Ferreira (1950-2021) 
Coutinho e Lima (1935-2022) 
Cristina Allen (1943-2021) 
Cristóvão de Aguiar (1940-2021) 
Cunha Ribeiro (1936-2023) 
Daniel Matos (1949-2011) 
Domingos Fernandes (1946-2020) 
Eduardo Jorge Ferreira (1952-2019) 
Elisabete Silva (1945-2024) 
Ernesto Marques (1949-2021) 

Fernando Brito (1932-2014) 
Fernando Calado (1945-2025)
Fernando Costa (1951-2018) 
Fernando [de Sousa] Henriques (1949-2011) 
Fernando Franco (1951-2020) 
Fernando Magro (1936 - 2023) 
Fernando Rodrigues (1933-2013) 
Florimundo Rocha (1950-2024)
Francisco Parreira (1948-2012) 
Francisco Pinho da Costa (1937-2022) 
Francisco Silva (1948-2023)
França Soares (1949-2009) 
Gertrudes da Silva (1943-2018) 
Horácio Fernandes (1935-2025)
Humberto Duarte (1951-2010) 
Humberto Trigo de Xavier Bordalo (1935-2024) 
Inácio J. Carola Figueira (1950-2017) 
Isabel Levezinho (1953-2020) 
Ivo da Silva Correia (c. 1974-2017) 

João Barge (1945-2010) 
João Cupido (1936-2021)
João Caramba (1950-2013)
João Diniz (1941-2021)
João Henrique Pinho dos Santos (1941-2014)
João Meneses (1948-2020)
João Rebola (1945-2018) 
João Rocha (1944-2018) 
João Silva (1950-2022)
Joaquim Cardoso Veríssimo (1949-2010) 
Joaquim da Silva Correia (1946-2021) 
Joaquim Peixoto (1949-2018) 
Joaquim Sequeira (1944-2024) 
Joaquim Vicente Silva (1951-2011) 
Joaquim Vidal Saraiva (1936-2015) 
Jorge Cabral (1944-2021) 
Jorge Rosales (1939-2019)
Jorge Teixeira (Portojo) (1945-2017) 
José António Almeida Rodrigues (1950-2016) 
José António Paradela (1937-2023) 
José Augusto Ribeiro (1939-2020) 
José Barreto Pires (1945-2020) 
José Carlos Suleimane Baldé (c.1951-2022) 
José Ceitil (1947-2020) 
José Eduardo Alves (1950-2016) 
José Eduardo Oliveira (JERO) (1940-2021) 
José Fernando de Andrade Rodrigues (1947-2014) 
José Luís Pombo Rodrigues (1934-2017)
José Manuel Amaral Soares (1945-2024)
José Manuel Dinis (1948-2021) 
José Manuel P. Quadrado (1947-2016) 
José Marcelino Sousa (1949 - 2023) 
José Martins Rosado Piça (1933-2021) 
José Maria da Silva Valente (1946-2020) 
José Marques Alves (1947-2013) 
José Moreira (1943-2016) 
José (ou Zé) Neto (1929-2007) 
José Pardete Ferreira (1941-2021) 
Júlio Martins Pereira (1944-2022) 

Leite Rodrigues (1945-2025) 
Leopoldo Amado (1960-2021) 
Leopoldo Correia (1941-2024)
Libório Tavares (Padre) (1933-2020) 
Lúcio Vieira (1943-2020) 
Luís Borrega (1948-2013) 
Luís Encarnação (1948-2018) 
Luís Faria (1948-2013) 
Luís F. Moreira (1948-2013) 
Luís Henriques (1920-2012) 
Luís Rosa (1939-2020) 
Luiz Fonseca (1949-2024)
Mamadu Camará (c. 1940-2021) 
Manuel Amaral Campos (1945-2021) 
Manuel Carneiro (1952-2018) 
Manuel Castro Sampaio (1949-2006) 
Manuel Dias Sequeira (1944-2008)
Manuel Marinho (1950-2022) 
Manuel Martins (1950-2013)
Manuel Moreira (1945-2014) 
Manuel Moreira de Castro (1946-2015) 
Manuel Varanda Lucas (1942-2010) 
Manuel Gonçalves (Nela (1946-2019 (*) 
Marcelino da Mata (1940-2021) 
Maria da Piedade Gouveia (1939-2011) 
Maria Ivone Reis (1929-2022) 
Maria Manuela Pinheiro (1950-2014) 
Mário de Oliveira (Padre) (1937-2022) 
Mário Gaspar (1943-2025)
Mário Gualter Pinto (1945-2019)
Mário Vasconcelos (1945-2017)
Nelson Batalha (1948-2017) 
Nuno Dempster (1944-2026)
Nuno Rubim (1938-2023)

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021) 
Paulo Fragoso (c.1947-2021) 
Queta Baldé (1943-2021) 
Raul Albino (1945-2020) 
Renato Monteiro (1946-2021)
Regina Gouveia (1945-2024) 
Rogério da Silva Leitão (1935-2010) 
Rui Alexandrino Ferreira (1943-2022) 
Rui Baptista (1951-2023) 
Suleimane Baldé (1938-2025)
Teresa Reis (1947-2011) 
Torcato Mendonça (1944-2021)
Umaru Baldé (1953-2004) 
Valdemar Queiroz (1945-2025)
Vasco Pires (1948-2016) 
Veríssimo Ferreira (1942-2022) 
Victor Alves (1949-2016) 
Victor Barata (1951-2021) 
Victor Condeço (1943-2010) 
Victor David (1944-2024) 
Vítor Manuel Amaro dos Santos (1944-2014) 
Xico Allen (1950-2022) 
Zélia Neno (1953 - 2023)
_________

Luís Graça (2009). O original foi escrito num noite de insónias,
há muitos anos (**).

Revisto e melhorado em 14/3/2026,
o dia em que a minha neta Rosa Klut Graça começou a andar,
às 20:15, na casa da Graça.
30 pequenos passos de gigante.
O primeiro "sprint" da sua vida. Aos 13 meses e meio.
E eu, por sorte, registei em vídeo esse momento único.
______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 14 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27734: Efemérides (383): O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o Dia dos Namorados”, é o ‘Dia da Amizade” (João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf)

João, já existe o Dia Internacional do Amigo e da Amizade. A Assembleia Geral das Nações Unidas resolveu convidar todos os países membros a celebrar o Dia Internacional da Amizade em 30 de julho. Só temos 365 dias por anos (mais um,  nos bissextos). O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca é...Grande. Por causa das confusões, fica o Dia do Camarigo, no dia 14 de fevereiro.

(**) Vd. poste 21 de novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5309: Blogpoesia (58): Para os amigos e camaradas da Guiné que esta noite tiveram insónias (Luís Graça)

(***) Último poste da série > 
16 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27824: Manuscrito(s) (Luís Graça) (284): a crise da habitação não é apenas dos humanos, é também das... cegonhas que se renderam ao "fast food" e já não migram para África!