Pesquisar neste blogue

A apresentar mensagens correspondentes à consulta Cameconde ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta Cameconde ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28442: Tabanca Grande (587): Henk Eggens senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 920: nasceu nos Países Baixos (que para nós é sempre a velha Holanda...) e é cidadão do mundo, médico de saúde global; é vizinho de Salazar, vive em Santa Comba Dão

 




Henk Eggens, ontem e hoje. Grão-tabanqueiro nº 920.  Nasceu nos Países Baixos (que para nós é sempre a Holanda...) e é cidadão do mundo, médico de saúde global.  Foi cooperante na Guiné-Bissau (1980/74). É vizinho de Saklazar, vive em Santa Comba Dão.
(Fotos do  álbum do Henk Eggens, restauradas digitalmente com recurso à IA - ChatGPT Open AI, 2026)



1. O nosso amigo Henk Eggens já devia ter sido apresentado à Tabanca Grande há pelo menos dois meses atrás. Estamos em falta com ele. De facto, em mensagem de 29/07/2026, 22:30 (*), ele já tinha aceite formalmente o nosso convite para se sentar à sombra do nosso poilão, o mesmo é dizer, passar a fazer parte formalmente da nossa tertúlia, o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné:

Luís,

Aceito o convite com muito prazer e agradeço-vos a confiança.

Gosto de fazer parte de uma comunidade que valoriza as experiências vividas numa terra estrangeira, em circunstâncias muito difíceis, sem cair na tentação de reduzir um povo à condição de inimigo ou de mero figurante na história de vida de alguém.

É esse respeito que encontro nos artigos publicados no vosso blogue. Por isso, é para mim uma honra passar a fazer parte da Tabanca Grande!



Mantenhas!

2. Ainda não nos conhecemos pessoalmente, ao vivo e a cores. Perdemos uma oportunidade (histórica!) de nos encontrarmo-nos, há dias, em Carregal do Sal, no Museu Aristides Sousa Mendes, eu, ele, o João Crisóstomo e a Vilma. Razão: conflito de agendas...

Seria entretanto delegante, da nossa parte, adiar por mais tempo essa formalização. E  já dissemos o essencial sobre o nosso novo grão-tabanqueiro (**):

(i)  é neerlandês (que é mais do que holandês...), nascido em 1947, no difícil pós-guerra de todos nós, europeus;

(ii) médico especialista em saúde global (medicina tropical e saúde pública);

(iii) cidadão do mundo,  já percorreu os quatro continentes como cooperante em saúde;

(iv) esteve 4 anos na Guiné-Bissau (incluindo dois anos em Fulacunda e outros dois na capital) (1980/84);

(v) antes tinha estado em Cabinda, Angola, já no tempo da 2ª guerra da independência (1976/78); 

(vi) também trabalhou na Indonésia, as  antigas Índias Orientais Holandesas, que se tornaram independentes em 1949, depois de 4 anos de brutal ocupação japonesa (1942/45) e de uma dura guerra de descolonização  (1946/49);

(vii) fala e escreve o português e o crioul0 guineense;

(viii) está "reformado" (que é uma palavra feia, em português);

(ix) é um apaixonado (uma palavra bonita!) por Portugal, a Guiné-Bissau, Angola, Brasil, a lusofonia...

(x) vive em Portugal,  em Santa Comba Dão (sem quaisquer privilégi0s nem complexos por ser vizinho do senhor professor doutor António de Oliveira Salazar);

(xi) a sua companheira é luso-brasileira;  tem duas filhas de um primeiro casamento: a esposa, médica, que esteve com ele na Guiné-Bissau, já faleceu;

(xii)  foi administrador e editor de Portugal Portal (em neerlandês,  muito virado para a comunidade lusófona nos Países Baixos); e onde tem publicado textos do nosso blogue, com a devida autorização dos autores e editores;

(xiii) tem mais de uma dezena referências no nosso blogue.

 
2. Já há meses que o tínhamos convidado,  para, de pleno direito, passar a integrar a Tabanca Grande, como amigo da Guiné...  Será o primeiro neerlandês a sentar-se ao nosso lado, como igual. No ugar nº 920.

Na brincadeira, tinha-lhe lembrado  (em 29/7/2026):

Henk: e o convite para te juntares à Tabanca Grande, onde há filhos e filhas de muitas mães ? Tugas, das sety partidas, guineenses, cabo-verdianos, angolanos, mas também alemães, americanos.. Tu serias o primeiro neerlandês... O Roel Coutinho (para mais com ascendência judaico-portuguesa) faz cá falta... mas nunca interagiu connosco e, depois, não fala português...nem deve sentir-se confortável num blogue coletivo como o nosso (...).

Não, ele não foi combatente, em nenhum conflito armado, felizmente para ele, mas dedicou pelo menos seis  anos da sua vida a dois povos lusófonos,  guineense e angolano, e numa época particularmente difícil.  

Por outro lado, o facto de ter sido administrador e editor (e hoje continuar como colaborador) do  Portugal Portal vem reforçar ainda mais a ideia de que ele é um mediador cultural por excelência. Há pessoas que passam por um país, muitas com chorudos vistos Gold, e privilégios; outras criam pontes entre países, as pontes da amizade, da solidariedade, da cooperação, da cultura.

O Henk pertence claramente ao segundo grupo.  Vive, conhece, assimila, traduz, divulga, aproxima culturas e ainda leva textos do nosso blogue a leitores neerlandeses e portugueses emigrados na sua terra. É uma forma discreta, mas muito eficaz, de diplomacia cultural. E sobretudo cultivar e aprofundar a amizade entre povos (Portugal, Países-Baixos, Guiné-Bissau, Angola, mas também a Indonésia e Timor-Leste).

O Henk (não o vou tratar cerimoniosamente por dr. Eggens), merece o nosso apreço pelo que fez e tem feito pela Guiné-Bissau, por Portugal, e pela pela diáspora lusófona nos Países Baixos, que conta com cerca de 135 mil emigrantes (!): mais de metade brasileiros, mas também portugueses (35,6 mil), cabo-verdianos (23,1 mil) e outros PALOP (maioritariamente angolanos, mas também guineenses, etc.) (11,0 mil).

Cidadadão do mundo,  a sua  presença na Tabanca Grande será inteiramente natural e vem enriquecer ainda mais esta comunidade de memória, amizade e afetos. 

 Henk / Henrique, estás em casa!...E conheces as regras da casa. Obrigado pelos links dos teus 4 artigos que me mandaste, e que ainda eu não  li (em neerlandês...) mas prometo lê-los com a ajuda da IA...  

_________________


sábado, 10 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28422: Para bom observador, meia palavra basta (11): Grafitos: a CCAÇ 1620, do Manuel Cibrão Guimarães, que passou pelo Cachil e por Cameconde, tinha o SPM 3798 ? Um "enigma" a decifrar...


Foto nº 1


Foto nº 2

Guiné > Região de Tombali > Cachil > CCAÇ 1620 > 1968 > O "Forte Apache""... As instalações, forradas com chapas de bidões  "grafitadas": pode ler-se, a olho nu e com a ajuda da IA, "lavadeiras", "am..", "CCaç 1620", " S. P. M. 3798", "Arouca"... Fotos, originais, a preto e branco. Restauradas e colorizadas.  A nº 2 mais fiel ao original...

Fotos (e legenda): © Manuel Cibrão Guimarães (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google)]




Foto nº 3 B, 3A, 3

Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cameconde > 11 de março de 2018> "Restos arqueológicos da presença dos tugas, há meio século atrás"

Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google) (ChatGPT / Opena AI) ].

 

Manuel Cibrãão Guimarães >
Algés. Foto de Manuel Resende (2019)
1. O que nos intriga nestas fotos (nºs 1 e 2) do Cachil, 1968, do Manuel Cibrão Guimarães,  e de Cameconde, 2018, do Patrício Ribeiro, são estes quatro algarismos: "3798".

Trata-se de simples coincidència ? Ou há alguma relação ?

Precisamos de confirmar se o SPM da CCAÇ 1620 era o "3798" ou o "3718". Ou nenhum deles.  (Falta-nos uma lista dos código SPM.)  Esta subunidade esteve no Cachil e em Cameconde, topónimos do sul da Guiné - Bissau.

É possível que os "grafitos",  na parede exterior  de antigo abrigo de cimento, que terá servido de "bar", tenha resistido á erosão do tempo ? Meio século num país tropical como a Guiné-Bissau é muito tempo. 

Alguém terá, entretanto, reavivado o grafito de Cameconde ?  Algum "turista", ex - combatente
 que voltou ao " local do crime".... ou algum elemento da população atual ?

Fica o desafio para o Manuel Cibrão e os demais camaradas que passaram pelo Cachil e por Cameconde,  para ajudar a "decifrar" este pequeno enigma (*)...


2. Sobre  o nosso camarada Manuel Cibrão Guimarães, ex-fur mil, CCAÇ 1620 (1966/68), que vive  em Rio Tinto, Gondomar,  escrevemos em tempos o seguinte, na sua apresentação à Tabanca Grande:

(i) dos cinco "Bandalhos" (leia-se: autodesignados membros do Bando do Café Progresso, Porto), que vieram ao 35º almoço-convívio da Magnífica Tabanca da Linha (Oeiras, Algés, Restaurante "Caravela d Ouro", 17/1/2018), era o único que ainda não era grão-tabanqueiro (leia-se: membro da Tabanca Grande, a mãe de todas as tabancas...);

(ii) manifestou o seu acordo ao meu convite "instantâneo" e logo ali, no "Caravela de Ouro", me mostrou um molhe de fotos do seu tempo do Cachil, Cameconde, Cacine e Gadamael";

(iii) fotografei umas tantas, e tomei algumas notas apressadas, não fosse o diabo da memória tecê-las e eu depois  baralhar os lugares: umas eram as  do Cachil, outras de Gadamael, outras ainda do T/T Niassa;

(iv) mais tarde, por mail,  mandou-.me umas tantas, com as devidas legendas sumárias; ficquei a  saber que ele foi quem fez o "check-out" do Cachil, que é como quem diz: estava lá quando foi a "extinção" do "forte Apache"...

Não tínhamos, até então ninguém da CCAÇ 1620, mobilizada pelo RI 1. Uma subunidade que partiu para o CTIG em 12/11/1966, no T/T Niassa, e regressou a 16/8/1968. Esteve em Cameconde, Sangonhá, Cachil ...  três sítios desgraçados que serão depois abandonados por  ordem do novo  com-chefe, o brig  António Spinola.

O Manuel Cibrão Guimarães passou a honrar-nos com a sua presença, sentando-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 766.

Mas ao fim destes anos todos, temos poucas referências (6) dele no blogue. Reparo agora que também foi "camecondense" (**)... E continua a ser, ao fim destes anos todos, o único representante da CCAÇ 1620. Mas o que me chamou a atenção é a existência das fotos "intrigantes" do Cachil (1968) e de Cameconde (2028).

3.  Ficha de unidade  > Companhia de Caçadores n.º 1620

Identificação CCaç 1620
Unidade Mob: RI 1 - Amadora
Cmdt: Cap Mil Inf Fernando António de Magalhães Oliveira
Divisa: -
Partida: Embarque em 12Nov66; desembarque em 18Nov66 | Regresso: Embarque em 16Ago68

Síntese da Actividade Operacional

(i) Em 18Nov66, substituíu a CCaç 762 nas suas funções de segurança e protecção das instalações e das populações da área de Bissau, na dependência do BCaç 1876, efectuando, simultaneamente, uma instrução de adaptação operacional na região de Nhacra, de 25Nov66 a 11Dez66.

(ii) Em 05Jan67, rendendo, por troca, a CCaç 799, assumiu a responsabilidade do subsector de Cameconde, com um pelotão destacado em Cacine, ficando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 1861 e depois do BArt 1896.

(iii) Em 01Ago67, por rotação com a CArt 1692, assumiu a responsabilidade do subsector de Sangonhá, com um pelotão destacado em Cacoca, mantendo-se no mesmo sector do BArt 1896.

(iii) Em 20Mar68, por troca com a CCaç 1621, assumiu a responsabilidade do subsector de Cachil, ficando então integrada no dispositivo e manobra do BArt 19l3, tendo entretanto, cedido um GComb para reforço de forças daquele batalhão em operações, de 22Mar68 a 27Abr68.

(iv) Em 11Ju168, por retirada das forças aquarteladas em Cachil e consequente extinção do subsector, recolheu a Bolama, onde permaneceu até ao embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa no. 70 - 2a.  Div./4a. Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pág, 360
________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 6 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28408: Para bom observador, meia palavra basta (10): Gadamael, 2 de junho de 1973, CCP 122/ BCP 12: Usar ou não usar o capacete, eis a questão... (António Dâmaso / Carmo Vicente / Bernardino Sena)

(**) Vd. poste de 26 de janeiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18257: Memória dos lugares (372): Cachil, na altura da extinção do aquartelamento, em 1 de julho de 1968 (Manuel Cibrão Guimarães, ex-fur mil, CCAÇ 1620, Bissau, Cameconde, Cacine, Sangonhá, Cacoca, Cachil e Bolama, 1966/68)

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28420: As nossas geografias emocionais (69): Cameconde, ontem e hoje - Parte I



Foto nº 1A e 1 > Guiné > Região de Tombali > Cameconde > CART 6552/72 (1973/74)  >  Vista aérea parcial do aquartelamento,  com as suas valas e trincheiras. Foto, a sépia, de Manuel Domingos Ribeiro


Foto nº 2 > Guiné > Região de Tombali > Cameconde > CART 6552/72 (1973/74)  >  Vista aérea parcial. Foto, a sépia, de Manuel Domingos Ribeiro. Vê-se que o  espaço foi alargado e melhoradas instalações, em relaçáo à situação em 1968.  No entanto, em em meados de 1973 "não tinha capacidade para albergar uma companhia inteira".

Fotos (e legendas): © Manuel Domingos Ribeiro  (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google)]


Foto nº 3



Foto nº 4A e 4





 Foto nº  5C, 5B, 5A e 4

Guiné > Região de Tombali > Setor de Cacine (S3) > Cameconde > 1968 > Três aspetos gerais do destacamento > Fotos, a preto e branco, e fraca resolução,  do álbum do nosso camarada António José Pereira da Costa, que era na altura alferes QP da CART 1692/BART 1914 (Cacine, Cameconde, Sangonhá e Cacoca, 1967/69) e mais tarde cap e cmdt das CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo, e CART 3567, Mansabá, 1972/74).  As imagens foram restauradas e colorizadas digitalmente com recurso à IA.

Na Foto nº 5C, assinalado com um círculo a amarelo há um obus 10.5 cm,do 1º Pel Art.  Na  Foto nº 3. no original, a bandeira portuguesa não estava hasteada...

Fotos (e legenda): © António J. Pereira da Costa (2013). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google)]



Foto nº 6, 6A




Foto nº 7B, 7A. 7

Guiné-Bissau  > Região de Tombali > Cameconde > de março de 1968 >  "Restos arqeuológicos da presença dos tugas, há meio século atrás"

Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné  + IA (Gemini / Google( (ChatGPT / Opena AI) ].


Guiné > Região de Tombali > Carta de Cacoca (1960) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Cameconde, Cacoca e Sangonhá, nas proximidades da fronteira com a Guiné-Conacri, tendo a norte Gadamael e Ganturé. Cacine ficava a noroeste de Cameconde, a escassa meia dúzia  de quilómetros Cacine (vd. carta de Cacine). Nesta linha de fronteira, Cacine, Cameconde e Gadamael aguentaram até ao fim (25 de Abril de 1974). Cacoca, Sangonhá, Guileje, Mejo,  Gandembel, Balana, foram posições  abandonadas pela NT.

Cameconde era a guarnição militar portuguesa mais a sul, na região de Quitafine, na estrada fronteiriça Quebo-Cacine... Em 1968 era o batalhão que estava em Buba (BART 1896, 1966/68) quem defendia esta importante linha de fronteira...


Guiné > Carta geral da província (1961) > Escala 1/ 500 mil   >  Posição relativa de Cacine, Cameconde, Cacoca, Sangonhá, Gadamael, Ganturé (e mais acima Guileje, Gandembel e Balana)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1.  Sobre Camemonde temos mais de 60 referências no blogue. É uma das muitas estações do nosso calvário na Guiné. Desde o princípio da guerra, foi sempre um osso muito duro de roer. Diversos camaradas nossos (aqui representados na Tabanca Grande) lá estiveram e por lá passaram  (e por lá penaram...).

 Estive a organizar uma lista dos "camedondenses" mas  desapareceu, num daqueles "truques de magia" que, desgraçadamente, acontecem,  de vez em quando, aos pobres dos editores (e também aos leitores, que nos comentam...): basta, às vezes, tocar  na tecla errada... e é a morte do artista (irrecuperável,  irremediável, irreversível).

Um gajo fica "piurso"... Mas não adianta partir o computador... O material tem sempre razão, aprendemos na tropa. Por isso, siga a Marinha... 

O nosso último grão-tabanqueiro, o Fernando Villalôbos Filipe,  (foto acima) foi um deles, um dos "camedondenses". E, por sinal, comandou a CART 6552/72 a quem coube a entrega (pacífica e planeada) das fracas instalações aos novos "senhores da  guerra"... Em 19 de julho de 1974. No mesmo dia que Gadamael.

 

2. O José Vermelho, nosso grã-tabanaqueiro nº 471, ex-fur mil, CCAÇ 3520, Cacine,  e CCAÇ 6,  Bedanda, CIM Bolama (1972/74), descreveu Cameconde nestes termos realistas

(...) Cameconde era um destacamento de Cacine, distando 6/7 Kms entre si. Tinha uma forma mais ou menos rectangular, talvez aí de uns 50 por 70 mts., encravado no meio da mata, completamente isolado, sem qualquer população civil.

Era o destacamento das N/T situado mais a sul da Guiné. Tinha em permanência 1 Pelotão de Artilharia + 1 Grupo de Combate de Cacine, sendo este substituído mensalmente por outro, em regime rotativo.

Era feita uma coluna diária Cacine - Cameconde (com picagem) e volta. Nos primeiros meses de 1972, também fui um dos "turistas voluntários à força", convidado a visitar Cacoca... isto é... o pouco ou nada que restava dela! (...)

Quase meio século depois, o Patrício Ribeiro tirou umas chapas aos "restos arqueológicos" da presença dos tugas:


3. O Juvenal  Candeias (ex-alf mil, CCAÇ 3520,  Estrelas do Sul, Cacine e Cameconde e Guileje, 1971/74] ajudou-nos a melhor fazer o enquadramento de Cameconde na península de Quitáfine: 

(...) A região do Quitáfine, a Sul de Cacine, era considerada o santuário do PAIGC, que aí estava fortemente instalado e provido de dispositivos de segurança, que tornavam os nossos movimentos impossíveis, salvo com utilização de meios excepcionais. 

Trilhos minados e sentinelas avançadas, permitiam-lhes uma tranquilidade apenas quebrada pelos obuses de 14 cm, disparados do nosso destacamento de Cameconde!

Os efectivos de que dispunham com um grupo especial de 20 lança-granadas, responsável pelas constantes flagelações a Cameconde, apoiado por um bigrupo disperso pela zona de Cassacá e Banir (onde se supunha estar o comando), eram reforçados por uma vasta população armada em autodefesa, distribuída, entre outras, pelas tabancas de Ponta Nova, Bijine, Dameol, Cassacá, Banir, Campo, Cassebexe e Caboxanque.

O PAIGC furtava-se sistematicamente ao contacto, optando por uma estratégia defensiva de protecção às populações que controlava, privilegiando as flagelações e a colocação de engenhos explosivos! Quem circulava a Sul de Cambaque (que distava cerca de 3 km de Cameconde) tinha como certo algumas surpresas no trilho! Provavelmente um campo de minas e a seguir (algum humor-negro), munições de Kalash espetadas no chão formando a palavra PAIGC!

O Quitáfine permitia ainda, ao PAIGC, um reabastecimento regular e seguro, processado a partir da República da Guiné, através de vários rios, em especial o Caraxe e o Camexibó! Ao dispositivo militar juntava-se uma mata densa intransponível!

Os paraquedistas, após uma operação no Quitáfine, só à noite conseguiram chegar a Cameconde, com grande dificuldade e orientados pelo clarão da queima de cargas de obus, em cima dos abrigos!  O grupo de Marcelino da Mata, largado de helicóptero, fez um golpe de mão a Cabonepo, a base do PAIGC mais a Norte do Quitáfine, onde estaria instalado um posto transmissor. Quando chegou, após lenta progressão através da mata… não havia lá nada… a base tinha sido abandonada momentos antes!

O Quitáfine era, efectivamente, o santuário do PAIGC, desde o início da guerra! Foi ali que se realizou, na tabanca de Cassacá – a 15 Km de Cacine e a 8 Km de Cameconde -, em meados de fevereiro de 1964, o 1º Congresso do PAIGC, com a presença de Amílcar Cabral, Luís Cabral, Aristides Pereira e outras individualidades do Partido!

A CCaç 3520 tinha chegado ao porto de Cacine, a bordo da LDG Montante, em 24 de Janeiro de 1972, para render a CCaç 2726 – companhia açoriana comandada pelo Capitão Magalhães -, o homem que retorcia as pontas do bigode com cera e a quem o tabaco nunca faltava! Dizia-se mesmo, à boca pequena, que, quando o tabaco acabava em Cacine, o PAIGC deixava, no mato, uns macitos para o Capitão! Rumor ou realidade… ninguém sabe! Ficou por provar!

Decorria ainda o período de sobreposição, que se prolongou até 22 de fevereiro, quando foram recebidas instruções de Bissau, para ser preparada uma operação ao Quitáfine – Cabonepo e… Cassacá! (...)


4. Quase meio século depois, o Patrício Ribeiro  tirou umas chapas aos "restos arqueológicos" da presença dos tugas:

(...) Cameconde > Algumas fotos da fortaleza (quartel) que lá construíram, para os que lá dormiram dentro, recordar 

Ainda hoje são impressionantes, as construções. (...)

A estrada que liga Cameconde, Cassacá, até Campeane, está em bom estado, ainda encontramos muita floresta frondosa, muito verdejante, esta zona é muito bonita. Onde se produz muita fruta; cola, laranja, ananás, banana, etc. Mas a plantação de caju, já está a chegar, para deitar a floresta abaixo.

A estrada passou a ser uma rua, com muitas casas durante alguns quilómetros muita população. Como está perto da fronteira, muitos vieram do outro lado (...)

___________________

Nota do editor LG:

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28417: Tabanca Grande (586): Fernando Manuel Villalôbos Filipe, ex-Cap Mil Inf, CMDT da CART 6552/72 (Cameconde, Cacine, Cabedú e Cufar), que se senta à sombra do nosso poilão, no lugar n.º 919

Cameconde > Cap Mil Inf Fernando Manuel Villalôbos Filipe, CMDT da CART 6552/72
Foto actual de Fernando Manuel Villalôbos Filipe no seu escritório

******************************

1. Mensagem de Fernando Manuel Villalôbos Filipe, enviada ao nosso blogue em 26 de Maio de 2026:

Caro Camarigo,
Aproprio-me da palavra "criada" pelo Mexia Alves, simbiose de duas outras, das mais lindas do léxico português: "Camarada" e "Amigo", pelo significado e pelo conteúdo que encerram, para me dirigir a ti, hoje, quando se perfazem, exatamente, 53 anos da chegada à Guiné da CART 6552.

Ontem, solicitei a minha inscrição na Tabanca Grande, mas não enviei as duas fotografias indispensáveis ao processo de admissão: uma em Cameconde, outra, no meu escritório, em Lisboa.
Por isso, as remeto hoje, em anexo a este e-mail para completar a minha solicitação.

Um abraço reconhecido pela tua iniciativa.
Fernando Manuel Villalôbos Filipe

2. Mensagem do ex-Cap Mil Inf Fernando Manuel Villalôbos Filipe, CMDT da CART 6552/72 (Cameconde, Cacine, Cabedú e Cufar), enviada ao nosso blogue em 6 de Outubro de 2026 através do Formulário de Contactos do Blogger:

Em 25 de Maio passado solicitei a minha inscrição no "blogue". Por e-mail de 26 de Maio, remeti para o Luís Graça as duas fotos que complementariam o meu pedido. Não tive qualqer retorno, mas, hoje, perante os relatos das operações desenvolvidas pelos Páras em Gadamael e Cacine/Cameconde, recordei os momentos amargos de Junho e Julho de 1973 ali passados.

A CART 6552, que comandei, chegou a Cacine na mesma LDG em que seguiu a Companhia 121 do BCP 12. Presto aqui a minha homenagem aos paraquedistas que, integrando o BCP n.º 12, venceram a batalha de Gadamael.

Eu estava lá e posso afirmar que se houve militares que mereciam ser louvados pela ação desenvolvida, foram aqueles. A eles agradeço ainda, sobretudo ao malogrado Capitão Cordeiro, o decisivo contributo para que uma companhia treinada para agir no território de S. Tomé e Principe se transformar em unidade operacional no Sul da Guiné, em pleno Quitafine.


******************************

3. Comentário do editor CV:

Caro camarigo Fernando Filipe, em primeiro lugar as nossas desculpas pela demora na tua apresentação ao Blogue. A(s) caixa(s) de correio do nosso editor Luís Graça é problemática pela quantidade de mensagens que lá caem diariamente. As mais antigas começam a ficar para baixo e fogem ao controle.

Está reposta a legalidade, estás devidamente apresentado à tertúlia, ocupando o lugar (estatístico) 919 da nossa tertúlia.

Falando de trabalho, nós, os mais antigos, temos uma certa curiosidade em saber pela boca dos que nos precederam e viveram o fim da ocupação em África, no nosso caso na Guiné, como se viveram aqueles tempos. Já temos alguns relatos, mas nunca é demais termos o registo dos diversos sectores onde havia tropa em quadrícula, quer ainda no tempo da guerra efectiva, como foi o caso da 6552/72, quer já na fase de "acalmia" e entrega dos aquartelamentos no pós 25 de Abril.

Aqui fica o desafio para partilhares connosco as tuas vivências, caso tenhas tempo e paciência para rebuscar papéis, gavetas da memória e "fotos falantes", como dizia o nosso saudoso Torcato Mendonça.

Em nome da tertúlia, dos editores e colaboradores permanentes deste blogue, aqui fica um abraço de boas-vindas e a nossa disponibilidade para o que entenderes podermos ser úteis.

Carlos Vinhal

_____________

Nota do editor

Último post da série de 3 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28317: Tabanca Grande (585): Rui Osório Oliveira, natural do Porto, a viver em Aveiro, senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 918... Foi fur mil trms, CART 2742 / BART 2920 (Fajonquito, 1970/72)

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28406: Em busca de... (336): Camaradas de Júlio Lopes Santos, ex-Soldado Atirador da Companhia de Artilharia n.º 6552/72 (Cameconde, Cabedú e Cufar, 1973/74)

Foto do nosso camarada Júlio Lopes Santos, Soldado Atirador do 3.º Pelotão/3.ªSecção da CART 6552/72
Foto de antigamente de Júlio Lopes Santos
Foto actual de Júlio Lopes Santos

Fotos ©: editadas e legendadas por CV.


Júlio Lopes Santos está vivo e gostaria muito de reencontrar antigos camaradas e fotografias – CART 6552/72 – Cameconde

1. Mensagem de Lúcia Abel Varelas, enviada ao nosso Blogue em 3 de Outubro de 2026:

Exmo. Sr. Luís Graça,

Chamo-me Lúcia (namorada de David, um dos filhos de Júlio Lopes Santos) e estou a tentar reconstruir o percurso militar de Júlio Lopes Santos que é o pai de David, Manuel e Bruno, que esteve na Guiné durante a Guerra Colonial e pertenceu, segundo as informações que possuímos, à CART 6552/72 – “Honra e Dever”, no 3.º Pelotão, 3.ª Secção.

Júlio Lopes Santos nasceu a 27 de agosto de 1951, em Friões, concelho de Valpaços. É filho de Manuel dos Santos e Maria Silveira Lopes.

O seu número de identificação militar é 12445972. Foi incorporado no RI 13, em Vila Real, no dia 23 de outubro de 1972, tendo posteriormente seguido para a Guiné.

Ao pesquisar a história da CART 6552/72, descobri o vosso blogue e, em particular, os testemunhos e fotografias de Cameconde, incluindo os contributos de antigos militares desta companhia. Foi muito emocionante encontrar imagens dos locais onde Júlio terá vivido durante aquele período.

Gostaria muito de saber se algum antigo camarada da CART 6552/72, particularmente do 3.º Pelotão / 3.ª Secção, se recorda de Júlio Lopes Santos ou se possui fotografias, histórias ou outras informações sobre ele.

Junto a esta mensagem envio quatro fotografias de Júlio: uma fotografia militar da época, que consta do seu documento militar, outras fotografias quando era mais novo e uma fotografia atual. Autorizo a publicação destas quatros fotografias no blogue, caso considerem que isso possa ajudar a identificá-lo e a encontrar antigos camaradas.

Seria muito especial para nós conseguir encontrar fotografias de Júlio na Guiné, sobretudo em Cameconde, e eventualmente entrar em contacto com alguém que tenha servido com ele e ainda se recorde daqueles tempos.

Se possível, agradecia também muito a ajuda do Manuel Domingos Ribeiro, antigo camarada da CART 6552/72, que vi referido várias vezes no blogue e que parece possuir muitas memórias e fotografias da companhia.

Muito obrigada por todo o trabalho de preservação da memória dos antigos combatentes da Guiné e por qualquer ajuda que nos possam dar.

Com os melhores cumprimentos,
ABEL VARELAS Lúcia


2. Comentário do editor CV:

A CART 6552/72 tem só 8 entradas no nosso Blogue e um único confrade, o ex-Fur Mil At Art MA, Manuel Domingos Ribeiro,[1] a quem vamos dar conhecimento da petição do camarada Júlio Santos.

Esperemos que apareçam mais camaradas da 6552/72, gente ainda relativamente nova, para iniciarem contactos e relembrar memórias.

Quanto aos camaradas, Manuel Ribeiro e Júlio Santos, "guerreiros do fim do império", desejamos saúde e longa vida. Se encontrarem outros camaradas, tragam-nos até nós porque estamos sedentos de novas estórias.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28218: Notas de leitura (1944): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Foi num desses sábados frutuosos que adquiri na Feira da Ladra, "Depois da Guerra", de Luís Rosa, edição de autor de 1990, ainda por cima com dedicatória. Luís Rosa ganhou notoriedade em obras de índole profissional e em romances como "O Claustro do Silênci", "O Amor Infinito de Pedro e Inês", "O Terramoto de Lisboa". Estas memórias do que viveu em Sangonhá foi a sua primeira e única incursão do que viveu na Guiné, temos obras aparentadas, como a do José Brás e as suas "Vindimas no Capim","As Ausências de Deu", de António Loja, "As Noites de Mej", do Luís Cadete, mas há algo de profundamente enriquecedor nesta memória da ocupação de Sangonhá, ficamos com a geografia dos aquartelamentos decididos quer por Louro de Sousa quer por Arnaldo Schulz e que António Spínola mandou abandonar. Estranho muito nunca se falar como Guileje ficou altamente vulnerável depois dos abandonos de Sangonhá, Cameconde e Cacoca e Mejo, por tais decisões. Fala-se muito do que representou o abandono de Madina do Boé e esquece-se de como Guileje ficou entregue a si próprio. Coisas estranhas da historiografia da guerra colonial.

Abraço do
Mário



Recordar o nosso confrade Luís Rosa e o seu livro sobre Sangonhá, perto de Guileje - 1

Mário Beja Santos

Em 2010, publiquei no nosso blogue a recensão do livro recentemente publicado do Luís Rosa Guiné 63/74 - P6137: Notas de leitura (91): Depois da guerra, as recordações da região de Cacine... e algo mais , de Luís Rosa - II (Beja Santos) fazendo o reconhecimento que era uma obra a todos os títulos convidativa da leitura, um documento singular sobre um dos destacamentos acima de Cacine e de Gadamael destinado à proteção fronteiriça junto de uma área vital para o PAIGC, o denominado corredor de Guileje. Acresce que Luís Rosa descreverá a ocupação militar efetiva de Sangonhá, e entre outros acontecimentos relevantes que ele testemunhará é o aparecimento do inferno de Guileje.

A 1.ª edição foi de autor, em 1990, tinha o título "Depois da Guerra"; a 2.ª edição data de 2009, foi quando fiz a recensão, tecendo elogios e o reconhecimento do testemunho, mas deplorando um final de narrativa artificioso, vácuo, descabido. Voltei a adquirir na Feira da Ladra e com uma dedicatória do autor a 1.ª edição, lia de um só fôlego, reconhecendo que a qualidade memorial justificava que aqui a revisitasse.

Tudo começa no cais do Pidjiquiti, a unidade do nosso alferes parte num velho batelão em direção ao sul, conversa-se sobre os acontecimentos do Pidjiquiti de 3 de agosto de 1959, a calamidade que concorreu para o levantamento nacionalista; o batelão viaja perto da ilha do Como, nas semanas anteriores a esta viagem tinham ali decorrido, entre fevereiro e março de 1964, combates ferozes; avista-se ao longe a península do Cantanhez e o canal que a separava da ilha de Melo, assim se chega a Cacine onde o autor nos conta a história do comerciante Costa que tinha um poder soberano sobre a população local, o seu poder despótico acabou mal.

Viaja-se para Sangonhá, quando aqui chegam ouviram três tiros em Canefaque, gente do PAIGC enviara a mensagem na nossa chegada ao Quitafine, a toda a área de Cacine a Cabedu, de Cameconde à ilha de Melo. “A tropa instalava-se precariamente, desesperadamente. Sangonhá era uma bela povoação colonial, situada no meio de um luxuriante pomar de mangueiros, bananeiras e árvore de cola, com uma bela vivenda servindo de enfermaria e casas de colmo e terra batida, alinhadas ao longo de mais de um quilómetro de estrada, que, mais adiante, atravessava a fronteira.” Do outro lado, tropas e população apoiante do PAIGC deslocava-se por Sansalé e Kandiafará, havia por aqui posto médico e armazenamento de armamentos e víveres.

Constroem-se as despesas de Sangonhá, uma extensa vala que mais tarde seria substituída pelas espessas paredes de chapa de bidon, com terra a meio, casamatas subterrâneas cobertas de grossos troncos de palmeira. Inevitável, chegou a hora do batismo de fogo. E o palco da guerra vai sendo enxameado de acontecimentos até então impensáveis: o interrogatório a alguém que aparecera, foi espancado até que se descobriu que era um diminuído mental; a sexualidade dos soldados, o descobrimento de que existia o Irã, uma religiosidade, uma crença que toma conta do africano, mesmo quando é islamizado; o novo interrogatório a um velho que fora apanhado a passar informações para os guerrilheiros feito por um alferes que decidiu a sentença de morte, e temos depois o olhar de Luís Rosa sobre aquela geografia da guerra:
“A princípio sente-se mais o isolamento. As estradas estavam cortadas por inúmeros obstáculos, minas e árvores enormes, que nenhuma força parecia capaz de demover. Os vinte quilómetros que ligavam ao braço do rio Cacine, em Gadamael, eram a única ligação a tudo o que ficava para além daquele mundo estranho da guerra. Gadamael servia de ancoradouro e descarga apressada das lanchas e batelões.

A opressão do desamparo tornava-se mais pesada pela certeza que tínhamos da impossibilidade de sermos socorridos e pela sensação de que, se ali acabássemos, apenas algum tempo depois dariam pelo nosso fim. Com o chegar das chuvas, a estrada transformava-se num atoleiro de regos profundos de lama inconsistente, como pântano impedindo que os pesados camiões transitassem, sob o risco de ficarem com o bojo assente no chão. Apenas o avião, à quarta-feira, sobrevoava o quartel fazendo um círculo em volta e deixando cair o saco do correio, afastando-se depois, com o abanar das asas, como ave do paraíso. Se o abastecimento não podia ser trazido pelo rio ou pela estrada, porque não havia meios para o fazer chegar, ou porque o recrudescer da guerra e a inoperacionalidade das estradas tornava a operação uma aventura imprevisível, começávamos a contar os dias para que ainda tínhamos alimentos e o avião era ainda o último alento do socorro esperado. Varria as copas das árvores em voo rasante, lançando sacos, caixas e atados. Tudo caía na clareira do arame farpado. Íamos recolhendo, depois, o que ficara disperso numa grande extensão, ora em mil bocados de caixotes desfeitos, ora suspensas as embalagens no alto dos ramos ficando penduradas como em árvores de Natal retendo as prendas.”


Tomaram-se severas medidas de segurança, abriu-se uma enorme clareira para criar uma pista de aviação, e Luís Rosa conta as façanhas da chegada das primeiras avionetas, cumpriam-se as ordens de Bissau para que a pista tivesse pelo menos 400 metros de comprimento, trabalhou-se a valer para desbastar o arvoredo. Com aquela pista de aviação os militares de Sangonhá sentiram-se mais seguros e menos sós. Saberemos também que Luís Rosa comandava homens de intensa religiosidade, não faltava a hora do terço, era o cabo Aires quem orientava a reza. Disserta-se sobre a religiosidade, o poder das crenças, a fé e como tudo se conjuga com um ambiente de guerra.

E segue-se um episódio de luto, dor e saudade, a história do Braga, homem dos sete ofícios, um artista a trabalhar madeira. “Pedi-lhe um dia que me fizesse uma cadeira de encosto, que se desmontasse toda em ripas, de modo a formar um pequeno molho dentro do saco dos livros e pertences, que levava sempre a um canto do camião. A cadeira ficou bela, em pau rosa, idealizada pelo engenho do Braga, sem um prego ou parafuso, apenas suportado o conjunto pelas espigas, harmoniosamente concebidas.” O Braga foi numa operação a Marela uma pequena povoação além-fronteira, ficava num ponto a meia jornada para os guerrilheiros que no sul se dirigiam para a fronteira, passando por Sansalé. Encontrou-se um local de refúgio da guerrilha, houve matança, seguiu-se intenso tiroteio, procedeu-se ao controlo de mortos e feridos, descobriu-se que tinha morrido o Braga. O alferes não esconde a comoção, ficara-lhe a cadeira, lembrou-se que o Braga lhe tinha dito que havia um acabamento a fazer, e dirige o seu pensamento para este último trabalho do Braga: “A obra está sempre completa no ponto em que a deixamos.”


Luís Rosa (Alcobaça, 1939 - Lisboa, 2020): Alferes Miliciano da CART 640 (Sangonhá, 1964/66)
Para melhor entender os acontecimentos vividos em Sangonhá e narrados por Luís Rosa no seu romance "Depois da Guerra", edição de autor de 1990, reeditado em 2009 na Editorial Presença com o título Memória dos Dias sem Fim. Logo no início da sua comissão, o Brigadeiro António de Spínola decretou o abandono de destacamentos nesta região Sul: primeiro Gandembel, mais adiante Sangonhá, Balana, Cacoca e Mejo, ou seja, preparou-se a prazo a tragédia de Guileje. Infografia do nosso blogue.
Vista aérea do destacamento em Sangonhá, vendo-se nitidamente a pista de aviação, imagem do nosso blogue

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 24 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28209: Notas de leitura (1943): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28123: Humor de Caserna (276): No dia em que faz 82 anos, o luso-americano (e nosso camarada, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona) João Crisóstomo recebe das mãos de Aristides Sousa Mendes a Comenda da Ordem da Liberdade...


  • Tradução (PT): (No interior do acolhedor apartamento de João e Vilma em Queens, Nova Iorque) / JOÃO: 82 anos! Muitas memórias fantásticas... mas alguns assuntos pendentes...

  • Tradução (PT/EN): (Exterior, com vista para a Sede da ONU em Nova Iorque) / ARISTIDES (visão): Hoje não, senhores! A minha consciência tem um encontro marcado... / Career Diplomats



  • Tradução (EN): ARISTIDES: Happy Birthday, João! For Foz Côa, for East Timor, for me... this should have arrived a long time ago! / Commendation of the Order of Liberty


    Tradução (EN): JOÃO (limpando uma lágrima): Aristides?! The best gift of all. But the greatest reward was being able to fight.

      

    Fonte:
    Prompting e orientação editorial: Luís Graça
    Textos e imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
    Geração gráfica assistida por IA:
    Google (2026). Gemini (versão de 22 de junho de 2026) [Grande modelo de linguagem].



    1. O nosso amigo e camarada João Crisóstomo é membro da nossa Tabanca Grande desde 26 de julho de 2010, sentando-se à sombra do nosso poilão sob o nº 432 (somos já 915, entre vivos e mortos); é régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona (Queen, NY) e membro também da Magnífica Tabanca da Linha (Algés, Oeiras)...  Tem cerca de 3 centenas de referências no nosso blogue.

    Foi combatente na Guiné, em 1965/67, ex-alferes miliciano atirador de infantaria, CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67).

    Nasceu em Torres Vedras, A-dos-Cunhados, em 22 de junho de 1944. Está na terra do Tio Sam desde 1975, primeiro como emigrante, e depois naturalizado norte-americano. Vive em Queens, Nova Iorque,  é casado em segundas núpcias em 2013 com a esloveno-americana Vilma.  É pai de 1 filha e de 1 filho, e avô de 3 netos. Vem a Portugal mais do que uma vez por ano. Está "retired" mas não "inativo"...

    Já fez de tudo, desde mordomo a empresário da restauração... João Crisóstomo foi mordomo da antiga primeira-dama Jacqueline Kennedy Onassis, que o inspirou e a ser um ativista de grandes causas, culturais e sociais, que iriam marcar e mudar o mundo, como:
    • "Save the Coa Site Movement, USA” (Defesa das Gravuras Rupestres de Foz Coa, EUA) (1995);
    • Aristides de Sousa Mendes (1996);
    • LAMETA (Luso-American Movement for East- Timorese Autodetermination) (1998)
    • Dia da Consciência  (2004, 17 de junho);
    • Encerramento de Consulados Portugueses (2006);
    • Luso-Americano refém das FARC na Colômbia (2008);
    • Colaboração com a ASTIL:  Construção da Escola São Francisco de Assis, Timor-Leste,. Liquiçá, Manatti, Boebau, (2017-2018).
    Em suma, é uma vida com muitas causas. 

    João Crisóstomo, também conhecido como o "senhor Timor", é católico praticante, de espírito ecuménico, com uma relação privilegiada com o Vaticano e representantes das três grandes religiões monoteístas, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo,

    Nos últimos 30/40  anos,  esteve presente  em todas as grandes causas que atrairam o interesse geral das comunidades luso-americanas da costa leste dos Estados Unidos e que, de um modo ou de outro, também se situavam dentro do círculo alargado dos direitos humanos ou dos interesses,  declarados ou não, do país onde nasceu, Portugal.

    Foi o vencedor do Prémio Tágides 2023 na Iniciativa “Portugal no Mundo”, por todas as iniciativas que desenvolveu em prol da Ética e da Integridade.

    Em resultado da elevada dedicação a causas justas recebeu já as seguintes distinções (além do Prémio Tágides, 2023):
    • 1998 - International Rock Art Congress Award (USA)
    • 2001 - Angelo Roncalli Medal, International Raoul Wallenberg Foundation;
    • 2001 - Outstanding Service to Society Award, Edison State College;
    • 2002 - Visas for Life Award;
    • 2004 - “Aristides Sousa Mendes Medal” da International Raoul Wallenberg Foundation (IRWF);
    • 2005 - Luis Martins de Sousa Dantas Medal, IRWF;
    • 2005 - Recognition Certificate, Government of Canada.

    Se pudéssemos atribuir-lhe uma condecoração em nome do seu (e nosso) país de origem, Portugal, ele seria há muito Comendador da Ordem da Liberdade. Faz hoje 82 anos (*).

    Numa BD bem humorada (**), a nosso pedido, a IA do Gemini / Google pô-lo a receber das mãos do Aristides de Sousa Menses (Cabanas de Viriato, Carregal do Sal, 1885 - Lisboa, 1954) a Comenda da Ordem da Liberdade que  já deveria ter recebido há uns anos atrás. Ele já fez mais por Portugal e a Lusofonia do que muitos diplomatas de carreira... 


    (**) Último postde da série > 18 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28110: Humor de caserna (275): E se os portugueses nunca tivessem chegado ao Brasil?