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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28218: Notas de leitura (1944): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Foi num desses sábados frutuosos que adquiri na Feira da Ladra, "Depois da Guerra", de Luís Rosa, edição de autor de 1990, ainda por cima com dedicatória. Luís Rosa ganhou notoriedade em obras de índole profissional e em romances como "O Claustro do Silênci", "O Amor Infinito de Pedro e Inês", "O Terramoto de Lisboa". Estas memórias do que viveu em Sangonhá foi a sua primeira e única incursão do que viveu na Guiné, temos obras aparentadas, como a do José Brás e as suas "Vindimas no Capim","As Ausências de Deu", de António Loja, "As Noites de Mej", do Luís Cadete, mas há algo de profundamente enriquecedor nesta memória da ocupação de Sangonhá, ficamos com a geografia dos aquartelamentos decididos quer por Louro de Sousa quer por Arnaldo Schulz e que António Spínola mandou abandonar. Estranho muito nunca se falar como Guileje ficou altamente vulnerável depois dos abandonos de Sangonhá, Cameconde e Cacoca e Mejo, por tais decisões. Fala-se muito do que representou o abandono de Madina do Boé e esquece-se de como Guileje ficou entregue a si próprio. Coisas estranhas da historiografia da guerra colonial.

Abraço do
Mário



Recordar o nosso confrade Luís Rosa e o seu livro sobre Sangonhá, perto de Guileje - 1

Mário Beja Santos

Em 2010, publiquei no nosso blogue a recensão do livro recentemente publicado do Luís Rosa Guiné 63/74 - P6137: Notas de leitura (91): Depois da guerra, as recordações da região de Cacine... e algo mais , de Luís Rosa - II (Beja Santos) fazendo o reconhecimento que era uma obra a todos os títulos convidativa da leitura, um documento singular sobre um dos destacamentos acima de Cacine e de Gadamael destinado à proteção fronteiriça junto de uma área vital para o PAIGC, o denominado corredor de Guileje. Acresce que Luís Rosa descreverá a ocupação militar efetiva de Sangonhá, e entre outros acontecimentos relevantes que ele testemunhará é o aparecimento do inferno de Guileje.

A 1.ª edição foi de autor, em 1990, tinha o título "Depois da Guerra"; a 2.ª edição data de 2009, foi quando fiz a recensão, tecendo elogios e o reconhecimento do testemunho, mas deplorando um final de narrativa artificioso, vácuo, descabido. Voltei a adquirir na Feira da Ladra e com uma dedicatória do autor a 1.ª edição, lia de um só fôlego, reconhecendo que a qualidade memorial justificava que aqui a revisitasse.

Tudo começa no cais do Pidjiquiti, a unidade do nosso alferes parte num velho batelão em direção ao sul, conversa-se sobre os acontecimentos do Pidjiquiti de 3 de agosto de 1959, a calamidade que concorreu para o levantamento nacionalista; o batelão viaja perto da ilha do Como, nas semanas anteriores a esta viagem tinham ali decorrido, entre fevereiro e março de 1964, combates ferozes; avista-se ao longe a península do Cantanhez e o canal que a separava da ilha de Melo, assim se chega a Cacine onde o autor nos conta a história do comerciante Costa que tinha um poder soberano sobre a população local, o seu poder despótico acabou mal.

Viaja-se para Sangonhá, quando aqui chegam ouviram três tiros em Canefaque, gente do PAIGC enviara a mensagem na nossa chegada ao Quitafine, a toda a área de Cacine a Cabedu, de Cameconde à ilha de Melo. “A tropa instalava-se precariamente, desesperadamente. Sangonhá era uma bela povoação colonial, situada no meio de um luxuriante pomar de mangueiros, bananeiras e árvore de cola, com uma bela vivenda servindo de enfermaria e casas de colmo e terra batida, alinhadas ao longo de mais de um quilómetro de estrada, que, mais adiante, atravessava a fronteira.” Do outro lado, tropas e população apoiante do PAIGC deslocava-se por Sansalé e Kandiafará, havia por aqui posto médico e armazenamento de armamentos e víveres.

Constroem-se as despesas de Sangonhá, uma extensa vala que mais tarde seria substituída pelas espessas paredes de chapa de bidon, com terra a meio, casamatas subterrâneas cobertas de grossos troncos de palmeira. Inevitável, chegou a hora do batismo de fogo. E o palco da guerra vai sendo enxameado de acontecimentos até então impensáveis: o interrogatório a alguém que aparecera, foi espancado até que se descobriu que era um diminuído mental; a sexualidade dos soldados, o descobrimento de que existia o Irã, uma religiosidade, uma crença que toma conta do africano, mesmo quando é islamizado; o novo interrogatório a um velho que fora apanhado a passar informações para os guerrilheiros feito por um alferes que decidiu a sentença de morte, e temos depois o olhar de Luís Rosa sobre aquela geografia da guerra:
“A princípio sente-se mais o isolamento. As estradas estavam cortadas por inúmeros obstáculos, minas e árvores enormes, que nenhuma força parecia capaz de demover. Os vinte quilómetros que ligavam ao braço do rio Cacine, em Gadamael, eram a única ligação a tudo o que ficava para além daquele mundo estranho da guerra. Gadamael servia de ancoradouro e descarga apressada das lanchas e batelões.

A opressão do desamparo tornava-se mais pesada pela certeza que tínhamos da impossibilidade de sermos socorridos e pela sensação de que, se ali acabássemos, apenas algum tempo depois dariam pelo nosso fim. Com o chegar das chuvas, a estrada transformava-se num atoleiro de regos profundos de lama inconsistente, como pântano impedindo que os pesados camiões transitassem, sob o risco de ficarem com o bojo assente no chão. Apenas o avião, à quarta-feira, sobrevoava o quartel fazendo um círculo em volta e deixando cair o saco do correio, afastando-se depois, com o abanar das asas, como ave do paraíso. Se o abastecimento não podia ser trazido pelo rio ou pela estrada, porque não havia meios para o fazer chegar, ou porque o recrudescer da guerra e a inoperacionalidade das estradas tornava a operação uma aventura imprevisível, começávamos a contar os dias para que ainda tínhamos alimentos e o avião era ainda o último alento do socorro esperado. Varria as copas das árvores em voo rasante, lançando sacos, caixas e atados. Tudo caía na clareira do arame farpado. Íamos recolhendo, depois, o que ficara disperso numa grande extensão, ora em mil bocados de caixotes desfeitos, ora suspensas as embalagens no alto dos ramos ficando penduradas como em árvores de Natal retendo as prendas.”


Tomaram-se severas medidas de segurança, abriu-se uma enorme clareira para criar uma pista de aviação, e Luís Rosa conta as façanhas da chegada das primeiras avionetas, cumpriam-se as ordens de Bissau para que a pista tivesse pelo menos 400 metros de comprimento, trabalhou-se a valer para desbastar o arvoredo. Com aquela pista de aviação os militares de Sangonhá sentiram-se mais seguros e menos sós. Saberemos também que Luís Rosa comandava homens de intensa religiosidade, não faltava a hora do terço, era o cabo Aires quem orientava a reza. Disserta-se sobre a religiosidade, o poder das crenças, a fé e como tudo se conjuga com um ambiente de guerra.

E segue-se um episódio de luto, dor e saudade, a história do Braga, homem dos sete ofícios, um artista a trabalhar madeira. “Pedi-lhe um dia que me fizesse uma cadeira de encosto, que se desmontasse toda em ripas, de modo a formar um pequeno molho dentro do saco dos livros e pertences, que levava sempre a um canto do camião. A cadeira ficou bela, em pau rosa, idealizada pelo engenho do Braga, sem um prego ou parafuso, apenas suportado o conjunto pelas espigas, harmoniosamente concebidas.” O Braga foi numa operação a Marela uma pequena povoação além-fronteira, ficava num ponto a meia jornada para os guerrilheiros que no sul se dirigiam para a fronteira, passando por Sansalé. Encontrou-se um local de refúgio da guerrilha, houve matança, seguiu-se intenso tiroteio, procedeu-se ao controlo de mortos e feridos, descobriu-se que tinha morrido o Braga. O alferes não esconde a comoção, ficara-lhe a cadeira, lembrou-se que o Braga lhe tinha dito que havia um acabamento a fazer, e dirige o seu pensamento para este último trabalho do Braga: “A obra está sempre completa no ponto em que a deixamos.”


Luís Rosa (Alcobaça, 1939 - Lisboa, 2020): Alferes Miliciano da CART 640 (Sangonhá, 1964/66)
Para melhor entender os acontecimentos vividos em Sangonhá e narrados por Luís Rosa no seu romance "Depois da Guerra", edição de autor de 1990, reeditado em 2009 na Editorial Presença com o título Memória dos Dias sem Fim. Logo no início da sua comissão, o Brigadeiro António de Spínola decretou o abandono de destacamentos nesta região Sul: primeiro Gandembel, mais adiante Sangonhá, Balana, Cacoca e Mejo, ou seja, preparou-se a prazo a tragédia de Guileje. Infografia do nosso blogue.
Vista aérea do destacamento em Sangonhá, vendo-se nitidamente a pista de aviação, imagem do nosso blogue

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 24 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28209: Notas de leitura (1943): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28123: Humor de Caserna (276): No dia em que faz 82 anos, o luso-americano (e nosso camarada, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona) João Crisóstomo recebe das mãos de Aristides Sousa Mendes a Comenda da Ordem da Liberdade...


  • Tradução (PT): (No interior do acolhedor apartamento de João e Vilma em Queens, Nova Iorque) / JOÃO: 82 anos! Muitas memórias fantásticas... mas alguns assuntos pendentes...

  • Tradução (PT/EN): (Exterior, com vista para a Sede da ONU em Nova Iorque) / ARISTIDES (visão): Hoje não, senhores! A minha consciência tem um encontro marcado... / Career Diplomats



  • Tradução (EN): ARISTIDES: Happy Birthday, João! For Foz Côa, for East Timor, for me... this should have arrived a long time ago! / Commendation of the Order of Liberty


    Tradução (EN): JOÃO (limpando uma lágrima): Aristides?! The best gift of all. But the greatest reward was being able to fight.

      

    Fonte:
    Prompting e orientação editorial: Luís Graça
    Textos e imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
    Geração gráfica assistida por IA:
    Google (2026). Gemini (versão de 22 de junho de 2026) [Grande modelo de linguagem].



    1. O nosso amigo e camarada João Crisóstomo é membro da nossa Tabanca Grande desde 26 de julho de 2010, sentando-se à sombra do nosso poilão sob o nº 432 (somos já 915, entre vivos e mortos); é régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona (Queen, NY) e membro também da Magnífica Tabanca da Linha (Algés, Oeiras)...  Tem cerca de 3 centenas de referências no nosso blogue.

    Foi combatente na Guiné, em 1965/67, ex-alferes miliciano atirador de infantaria, CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67).

    Nasceu em Torres Vedras, A-dos-Cunhados, em 22 de junho de 1944. Está na terra do Tio Sam desde 1975, primeiro como emigrante, e depois naturalizado norte-americano. Vive em Queens, Nova Iorque,  é casado em segundas núpcias em 2013 com a esloveno-americana Vilma.  É pai de 1 filha e de 1 filho, e avô de 3 netos. Vem a Portugal mais do que uma vez por ano. Está "retired" mas não "inativo"...

    Já fez de tudo, desde mordomo a empresário da restauração... João Crisóstomo foi mordomo da antiga primeira-dama Jacqueline Kennedy Onassis, que o inspirou e a ser um ativista de grandes causas, culturais e sociais, que iriam marcar e mudar o mundo, como:
    • "Save the Coa Site Movement, USA” (Defesa das Gravuras Rupestres de Foz Coa, EUA) (1995);
    • Aristides de Sousa Mendes (1996);
    • LAMETA (Luso-American Movement for East- Timorese Autodetermination) (1998)
    • Dia da Consciência  (2004, 17 de junho);
    • Encerramento de Consulados Portugueses (2006);
    • Luso-Americano refém das FARC na Colômbia (2008);
    • Colaboração com a ASTIL:  Construção da Escola São Francisco de Assis, Timor-Leste,. Liquiçá, Manatti, Boebau, (2017-2018).
    Em suma, é uma vida com muitas causas. 

    João Crisóstomo, também conhecido como o "senhor Timor", é católico praticante, de espírito ecuménico, com uma relação privilegiada com o Vaticano e representantes das três grandes religiões monoteístas, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo,

    Nos últimos 30/40  anos,  esteve presente  em todas as grandes causas que atrairam o interesse geral das comunidades luso-americanas da costa leste dos Estados Unidos e que, de um modo ou de outro, também se situavam dentro do círculo alargado dos direitos humanos ou dos interesses,  declarados ou não, do país onde nasceu, Portugal.

    Foi o vencedor do Prémio Tágides 2023 na Iniciativa “Portugal no Mundo”, por todas as iniciativas que desenvolveu em prol da Ética e da Integridade.

    Em resultado da elevada dedicação a causas justas recebeu já as seguintes distinções (além do Prémio Tágides, 2023):
    • 1998 - International Rock Art Congress Award (USA)
    • 2001 - Angelo Roncalli Medal, International Raoul Wallenberg Foundation;
    • 2001 - Outstanding Service to Society Award, Edison State College;
    • 2002 - Visas for Life Award;
    • 2004 - “Aristides Sousa Mendes Medal” da International Raoul Wallenberg Foundation (IRWF);
    • 2005 - Luis Martins de Sousa Dantas Medal, IRWF;
    • 2005 - Recognition Certificate, Government of Canada.

    Se pudéssemos atribuir-lhe uma condecoração em nome do seu (e nosso) país de origem, Portugal, ele seria há muito Comendador da Ordem da Liberdade. Faz hoje 82 anos (*).

    Numa BD bem humorada (**), a nosso pedido, a IA do Gemini / Google pô-lo a receber das mãos do Aristides de Sousa Menses (Cabanas de Viriato, Carregal do Sal, 1885 - Lisboa, 1954) a Comenda da Ordem da Liberdade que  já deveria ter recebido há uns anos atrás. Ele já fez mais por Portugal e a Lusofonia do que muitos diplomatas de carreira... 


    (**) Último postde da série > 18 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28110: Humor de caserna (275): E se os portugueses nunca tivessem chegado ao Brasil?

    Guiné 61/74 - P28119: Parabéns a você (2498): Cor Art Ref António José Pereira da Costa, ex-Alf Art da CART 1692/BART 1914 (Sangonhá e Cameconde, 1968/69) e ex-Cap Art, CMDT da CART 3494/BART 3873 e da CART 3567 (Xime, Mansambo e Mansabá, 1972/74) e João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé e Fá Mandinga, 1965/67)


    _____________

    Nota do editor

    Último post da série de 20 de Junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28116: Parabéns a você (2497): Cherno Baldé, Gestor de Projectos, amigo Grã-Tabanqueiro da Guiné-Bissau

    quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

    Guiné 61/74 - P27705: E as nossas palmas vão para... (35): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convivas na festa do 16º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algés, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte VI

    Foto nº 47 >  Mais uma mesa, com alguns "veteranos" da Tabanca da Linha (e pelo menos dois da Tabanca Grande)


    Foto nº 48 > Um "pira": Vitor Lourenço Laranjeiro da Cova da Piedade. Pertenceu à Cart 2439, Canquelifá, 1968/70



    Foto nº 49 > O Vitor Laranjeiro e António Varanda


    Foto nº 50> António Casquilho Alves (Lisboa) e João Pereira da Costa.(Lisboa): sempre de óculos escuros, desde que foi operado às cataratas...(João Pereira da Costa, ex-fur mil Pel Rec Info / BART 2857, Piche, 1968/70,  fundador e administrador do blogue do BART 2857 (Piche, 1968/70), é membro da nossa Tabanca Grande, nº  736, desde 20/2/2017). 

    Quanto ao António Alves,  não precisa de convite para se juntar à Tabanca Grande, a mãe de todas as tabancas.


    Foto n reº 51 > à esquerda, utro "pira", o Carlos Cabral de Oeiras, SM em Bissau (69/71). o do meio é o superintendente chefe da PSP, reformado, Presidente do Núcleo de Oeiras-Cascais da Liga dos Combatentes, Isaías Fernando Ferreira Teles: oficial do exército, da arma de infantaria, Isaías Teles nasceu em Bragança em 1946, passou pelos TO de Guiné (onde esteve como alferes na região de Tombali), Angola e Moçambique; em 1985 transitou para os quadros da PSP onde chegou ao posto de superintendente chefe; gostávamos que se sentasse connosco à sombra do poilão da Tabanca Grande: também não precisa de convite formal.

    À direita, o cor inf ref Fernando José Estrela Soares (ex-comandante da CCAÇ 2445, Cacine, Cameconde e Có, julho de 1968 / dezembro de 1970) (o  F. J. Estrela Soares é membro nº 786 da Tabanca Grande, desde 10/4/2019),



    Foto onº 52 > Da esquerda para a direita, o António Varanda (Lisboa); depois, ao centro o nosso já veterano Manuel Jesus B. Aleixo de Mação, da Cart 2440, Piche 68/70, e a seguir é o já referenciado Carlos Cabral.
     
    Magnífica Tabanca da Linha > Restaurante Caravela d' Ouro > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >

    Fotos (e lege4ndas) © Manuel Resende (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.


    1. Continuação da fotorreportagem do último almoço-convívio da Tabanca da Linha, Algés, 16 de janeiro de 2026, em que participaram 73 "magníficos" dos 76 inscritos. Fotos do Manuel Resende, régulo da Tabanca da Linha. 

    (Continua)

    quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

    Guiné 61/74 - P27589: Em busca de... (330): Maria João Sá Lopes pretende contactar camaradas de seu tio Vítor Manuel da Silva de Sá Lopes, ex-Fur Mil Op Esp da CART 3567, falecido em 21 de Maio de 1973, numa emboscada a uma coluna auto na estrada Mansabá-Mansoa


    1. Mensagem de Maria João Sá Lopes, enviada hoje mesmo ao nosso Blogue atravé do Formulário de Contacto do Blogger:

    Caro Luís Graça e editores do blogue,

    Escrevo-vos com o coração cheio de esperança na vossa vasta rede de camaradagem.

    Sou sobrinha do Furriel Miliciano de Operações Especiais Vítor Manuel da Silva de Sá Lopes, natural de Água Longa (Santo Tirso), que serviu na CART 3567, integrada no BCAC 4612, em Mansoa/Mansabá.

    O meu tio faleceu em combate no dia 21 de Maio de 1973, numa emboscada na zona de Cutia, quando a coluna seguia de Mansabá para Mansoa.

    Encontrei recentemente o relato emocionante do Dr. António Vasconcelos de Castro sobre esse dia trágico, que descreve a chegada das viaturas a Mansoa e o sacrifício do meu tio e dos seus camaradas.

    Gostaria de pedir a vossa ajuda para chegar aos antigos camaradas da CART 3567 (mobilizada pelo RAL 5 de Penafiel) ou do BCAC 4612.

    O meu objetivo é:
    Tentar encontrar fotografias onde o meu tio apareça (em grupo, no quartel ou em operações).

    Recolher algum testemunho de quem tenha convivido com ele e que possa partilhar um pouco de como ele era enquanto camarada de armas.

    Ele encontra-se sepultado em Ermesinde e a nossa família guarda com muito respeito a sua memória, mas faltam-nos as imagens desse tempo que ele viveu convosco na Guiné.

    Agradeço antecipadamente toda a ajuda que puderem dar na divulgação deste apelo no vosso blogue.

    Com os melhores cumprimentos e estima,
    Maria Joao Sá Lopes


    Estrada Mansabá-Mansoa > © Infogravura Luís Graça & Camaradas da Guiné

    2. Comentário do editor Carlos Vinhal

    Cara amiga Maria João
    Muito obrigado pelo interesse em saber notícias do seu tio Vítor.

    Conheço um camarada do seu tio, o Luís Bateira, também ele Furriel Miliciano da CART 3567, a quem enviei já a sua mensagem, pedindo para entrar em contacto consigo.

    Da tertúlia do nosso Blogue, faz parte o Coronel António José Pereira da Costa que, enquanto Capitão, comandou em Mansabá a CART 3567. Também enviei para ele a sua mensagem.

    Esperemos que pelo menos um deles nos possa dar alguma informação.

    A título informativo, fica aqui a nota do falecimento na mesma emboscada dos Soldados:
    - Francisco António Cordeiro, natural do concelho de Torre de Moncorvo
    - Jaime do Livramento Alexandre, natural do concelho de Alcobaça e
    - José de Jesus Pessoa, natural do concelho de Cantanhede.

    Eu também estive em Mansabá, a minha CART 2732 esteve ali colocada entre Abril de 1970 e Fevereiro de 1972. A CCAÇ 2753 substituiu-nos naquela data até à chegada da CART 3567 em Abril do mesmo ano.

    Também nós perdemos naquela maldita estrada, em Mamboncó, em Dezembro de 1971, dois companheiros do meu pelotão, o Manuel Vieira e o José Espírito Santo Barbosa, a pouco tempo de terminarmos a nossa comissão de serviço e irmos para Bissau aguardar embarque para regressarmos definitivamente a casa.

    Por agora é tudo quanto podemos fazer por si e pela memória do seu tio.
    Continuamos ao seu dispor, vá-nos dando notícias do que conseguir obter.

    Os nossos cumprimentos

    _____________

    Nota do editor

    Último post da série de 24 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27349: Em busca de... (329): Fur Mil Art Silva, de Rio Tinto - Porto, que fez parte da CART 6552/72 (Cameconde, Cacine e Cabedú, 1973/74), companhia que, estando mobilizada para S. Tomé, acabou por ir cumprir a sua comissão de serviço na Guiné (João Ferreira, ex-Fur Mil Art da CART 6254/72)

    sexta-feira, 7 de novembro de 2025

    Guiné 61/74 - P27394: A nossa guerra... a Petromax (2): o destacamento da Ponta do Inglês (jan 65 /out 68), onde a iluminação do perímetro de arame farpado era feita com garrafas de cerveja cheias de querosene (António Vaz, 1936-2015)




    Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Xime > Ponta do Inglês > O destacamento da Ponta do Inglês, um dos muitos "bu...rakos" onde viveu gente nossa , entre janeiro de 1965 e outubro de 1968. Teve um gerador que nunca chegiu a funcionar. Nem petromax tinha ! (*)

    (...) "As garrafas de cerveja penduradas no arame farpado, cheias de combustível, tinham que ser continuamente acesas nas noites de chuva forte ou de vento. O risco que a malta corria nessas circunstâncias, sendo a única coisa iluminada na escuridão, tornando-se um alvo fácil era enorme, embora, que me lembre, nunca tenha havido flagelações nessas alturas. (...)

    As garrafas também funcionavam como sistema de deteção e alerta: a aproximação de elementos IN do arame farpado, fazia-as tilintar... O sistema acabava por ser pouco fiável devido ao vento, à chuva e... aos macacos-cães.

    Ilustração de Vera Vaz, filha do nosso camarasa António Vaz  (2012). 



    António Vaz (1936-2015)
    1.  Nunca será demais lembrar os "bu...rakos" onde vivemos, como toupeiras.

    Um dos mais famigerados foi o da Ponta do Inglês, no subsetor do Xime (sector L1). O topónimo tem já perto de meia centena de referências no nosso blogue. Mesmo depois da retirada das NT, a Ponta do Inglês continuou a ser um nossos "ossos duros de roer". Havia sempre contacto com o IN, quando as NT progrediam na antiga estrada Xime-Ponta do Inglês, há muito invadida pelo mato e interdita. No dia 26 de novembro, vai fazer 55 anos que a CART 2715 (Xime, 1970/72) e a CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71) sofreram uma brutakl emboscada com 6 mortos e 9 feridos graves (Op Abencerragem Cadente) (mais um revés nas NT que não vem referido no livro da CECA, correspondente à atividade operacional de 1970/74)


    Excerto de um poste nosso saudoso camarada 
    António Vaz (1936-2015),ex-cap mil, CART 1746
     (Bissorã e Xime, jul 1967/jun 69) (fot0 de 2012,
    à direita).
     



    O destacamento da Ponta do Inglês
    onde nem petromax havia

    por António Vaz (1936-2015)


    A Cart 1746 saiu de Bissorã a 7 de Janeiro de 1968,  seguindo de Bissau para o Xime via Bambadinca,  a bordo da barcaça Bor. 

    Um Grupo de combate seguiu diretamente para a Ponta do Inglês onde rendeu o pessoal da CCAÇ 1550.

    Este Pelotão da Cart 1746 era comandado pelo alf mil Gilberto Madail (hoje uma figura pública) que lá permaneceu cerca de 4 meses,  sendo substituído por outro,  comandado pelo alf mil João Guerra da Mata que lá esteve até 8 de otubro, data em que este destacamento foi abandonado (por ordem do comando-chefe).


    Francisco Pinheiro
    Torres de Meireles (1936-1965).
    Era natural de Paredes. Tem nome de rua
    no Porto.

    A Ponta do Inglês foi ocupada e os abrigos construídos em dezembro de 1964 na Op Farol pela CCAÇ 508,  comandada pelo malogrado cap inf Pinheiro Torres de Meireles (1936-1965), morto em combate na Ponta Varela (**).


    Este destacamento teve sempre uma triste sina porque não tinha meios senão para..
     estar. 

    A dispersão de meios que encontrámos no sector L1 a isso conduzia. Nunca serviu de nada a não ser castigar, sem culpa formada, as guarnições que para lá eram enviadas.

    Não controlavam nada na foz do Corubal e nada podiam fazer em conjunto com o pessoal do Xime para manter aberto o itinerário Ponta do Inglês / Xime porque a companhia do Xime ocupava também Samba Silate, Taibatá, Demba Taco 
    e Galomaro. Assim o seu isolamento era, foi, 
    praticamente total.

    Os géneros só a Marinha os podia levar e o mesmo se pode dizer das munições, correio, tabaco, combustível, etc.

    A chegada dos abastecimentos era motivo de alegria geral como se pode ver nas imagens que junto.

    Por muito que o pessoal controlasse os gastos, a falta de quase tudo fazia-se sentir. Bem podia o comando da companhia pedir insistentemente pela vias normais a satisfação dos pedidos que não conseguíamos nada. 

    Cheguei a tentar meter uma cunha directamente na Marinha, mas as prioridades eram outras. Como alguns géneros recebidos da companhia que lá tínhamos rendido,  estavam deteriorados, a situação ainda foi pior. Esta situação originou, a pedido do alf Madail, o Fado da Fome,  que o Manuel Moreira ilustrou nas quadras populares da sua autoria.

    O destacamento da Ponta do Inglês era a pequena distância da margem (direita) do Rio Corubal e tinha a forma quadrangular. A guarnição era formada por 1 GComb  / CA RT 1746 + 1 Esq/Pel Mort 1192 + Pel Mil 105.

    O destacamento era formado por 4 abrigos principais nos vértices para o pessoal, para a mecânica e rádio. O combustível e as munições ficavam na parte mais perto do Corubal; na parte central sob uma árvore frondosa (poilão ?) um abrigo mais pequeno onde ficava o alferes, o enfermeiro e logo ao lado o forno do pão e uma cozinha, tudo muito rudimentar. 

    Tinha o espaldão do morteiro 81 na parte central. Não tinha, ao contrário do Xime, paliçada e apenas duas fiadas de arame farpado.

    Os abrigos eram de troncos de palmeira com as indispensáveis chapas de bidão, terra e não eram enterrados. Uma saída na direcção do rio e outra no lado oposto para as idas à água e à lenha. No destacamento havia um Unimog para estas tarefas.


    Manuel Vieira Moreira
    (1945-2024)
    ex-1º cabo mec auto
    A água era tirada a balde de um poço existente a cerca de 700 metros do arame farpado que também era utilizado pela população, totalmente controlada pelo IN, e pelo próprio IN, sem nunca este ter aproveitado as nossas idas à água e à lenha para nos incomodar e vice-versa


    Escreveu  o Manuel Moreira (1945-2014)

    O poço era um só,
    Estava longe do abrigo,
    Dava a água para nós
    E também p’ro Inimigo.

    Nunca percebi por que razão se fez o Destacamento, afastado do único poço com água potável... Uma proposta de sã convivência? O caso é que resultou.

    O que se passou nos tempos infindáveis em que o gerador esteve avariado, assunto já abordado neste blogue, por quem o foi substituir, depois de aturados 
    pedidos a Bissau sem que se resolvesse em tempo útil,   é inenarrável. (***)

    As garrafas de cerveja penduradas no arame farpado, cheias de combustível,  tinham que ser continuamente acesas nas noites de chuva forte ou de vento. O risco que a “malta” corria nessas circunstâncias, sendo a única coisa iluminada na escuridão, tornando-se um alvo fácil era enorme, embora, que me lembre,  nunca tenha havido flagelações nessas alturas.

    Flagelações houve muito poucas (seis),  sem grandes consequências, a água do poço nunca foi envenenada e mesmo sabendo que a resistência oferecida pelas NT, aquando dos ataques, fosse de nutrido fogo mantendo o IN em respeito, penso que este nunca empenhou efectivos suficientes e capazes para provocar danos consideráveis. 

    No fundo o IN sabia que,  enquanto aquele pessoal ali estivesse enquistado, a tropa do Xime, com a dispersão acima referida, estaria muito menos apta a fazer operações complicadas.

    As relações entre o pessoal podem considerar-se muito boas,  não havendo atitudes condenáveis, que até seriam possíveis num ambiente concentracionário como aquele. 

    A convivência com a milícia logo de início se mostrou muito favorável porque, abastecendo-se de géneros junto das NT, passaram a pagar muito menos do que anteriormente,  porque os preços eram os mesmos que nos eram debitados sem alcavalas de qualquer espécie. 

    Não me recordo da existência de familiares a viverem com o pessoal africano, mas segundo o testemunho do tabanqueiro Manuel Moreira, uma mulher deu à luz na época em que lá esteve e foi o 1.º cabo aux enf Cordeiro Rodrigues, o " Palmela", ajudado por ele que assistiram ao parto.

    Com a falta de géneros tudo se aproveitava incluindo a caça, que se resumia a tiro de rajada para bandos de aves grandes, pernaltas (não sabemos quais) e se caiam nas redondezas eram o pitéu desse dia. 

    As noites eram passadas como se calcula, com as sentinelas nos quatro cantos do quadrado e a malta a ver e a ouvir os rebentamentos que vinham da direcção de Jabadá, de Tite, Porto Gole e do Xime, claro. Pode ser sinistro mas não é difícil pensar que muitos diriam: 

    − Antes eles do que nós!...

    Como de costume, depois das tarefas de rotina, quando o calor era menos intenso, seguia-se o eterno futebol com bolas dadas pelo Movimento Nacional Feminino (MNF), de péssima qualidade, substituídas pelas tradicionais trapeiras. 


    João Guerra da Mata

    Num dos reabastecimentos que se fizeram conseguimos levar, para além de gado mais miúdo, algumas vacas que, como sabemos, na Guiné são de pequeno porte. 

    Como o futebol também farta,  houve alguém que sugeriu tourear uma das vacas que ainda estava viva para tardios bifes.

    Foi uma festa com as peripécias inerentes à Festa Brava e todos os dias “a las cinco en punto de la tarde” soltava-se a vaca e era um corrupio de faenas com cornadas… incompetentes. O tempo foi passando e já só restava um dos pobres animais para animar os fins da tarde. 

    Como o reabastecimento nunca mais chegava e o atum com arroz já não se podia ver, e muito menos comer, o alf Mata teve de decidir entre o partido pró-tourada e o partido pró-bife. 

    Não foi fácil, mas acabou por vencer este último. Convocou-se o soldado condutor J. Viveiro Cabeceiras que também era padeiro, magarefe e pau para toda a obra, que procedeu à matança. Começando a esquartejar a rês,  vai ter com o Alferes e informa-o que a vaca estava tísica, pulmões quase desfeitos. 

     
    − Come-se a vaca ou não se come a vaca? 

    Nova discussão e resolveu-se não aproveitar as vísceras e apenas o músculo. Assim se comeu carne assada sem problema de maior. Quando esta acabou voltou-se ao atum aos enlatados,  tudo coisas que já escasseavam mas o pessoal andava triste com a falta dos fins de tarde taurinos. Então o Cabeceiras foi ter com o alferes Mata e disse-lhe:

    - Meu alferes, a malta anda tão triste que se quiser e autorizar eu faço de vaca pois guardei os... cornos.

    E assim de conseguiram mais uns fins de tarde…

    Felizmente com a redistribuição das Forças no terreno, iniciada pelo brig Spínola, foi a Ponta do Inglês evacuada sem problemas em 7 e 8 de Outubro de 1968, pondo-se fim ao disparate da sua existência. 

    Há uma enorme falta de informação (para mim) sobre a evacuação da Ponta do Inglês; nem na história do BART 1904, nem na da CART 1746, apenas é mencionada a data em que se efectuou. 

    Tenho ideia que,  para além do pelotão da CART  1746,  da secção  de Morteiros e do pelotáo de milícia,  estiveram na Ponta do Inglês pessoal de outras unidades a montar segurança (mas quais?) enquanto o pessoal carregava a barcaça Bor de todo o material e bagagem da rapaziada. Estivemos nas imediações da Ponta Varela a assegurar a passagem da Bor a caminho de Bambadinca. Foi uma operação, para mim sem nome, que envolveu mais meios que não recordo.

    Segundo informação de oficiais do BART 1904, o brig Spínola com o respectivo séquito aterrou na Ponta do Inglês, já ia adiantado o carregamento da Bor, mandando evacuar a segurança, depois de se ter armadilhado o que estava determinado... Só depois reparou que já não havia segurança nenhuma e que ele e os outros oficiais que o acompanhavam tinham ficado, como hei-de dizer, abandonados na margem do Corubal com o pessoal do ou dos helis a chamá-los quando se aperceberam da situação.

    O pelotão da Cart 1746 chegou ao Xime sem problemas e todos tivemos uma enorme alegria por voltarmos a estar juntos. ....E na verdade o que vos doi... É que não queremos ser heróis (Fausto).

    António Vaz (2012) (****)

    (Revisão / fixação de texto, título: LG)

    _________

    Notas do editor LG:

    (*) Vd poste de 4 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27384: A nossa guerra... a petromax (1): Quem é que ainda se lembra dos candeiros a petróleo ? Em 1964, em Guileje, Gadamael, Ganturé, Sangonhá, Cacoca, Cameconde... Em 1967/68, em Ponate, Banjara, Cantacunda, Sare Banda, Ponta do Inglês...

    (**) O que diz a CECA (2015):

    (...) Em 19 e 20Jan65, realizou-se a operação "Farol",para ocupação e instalação dum aquartelamento na Ponta do Inglês. 

    O ln emboscou as NT, sofreu baixas não estimadas e foram capturadas granadas de mão e de lança-granadas foguete. 

    Em 20Jan, forças da CCaç 526 e CCav 678, durante um reconhecimento na área Ponta do Inglês - Buruntoni, destruíram um acampamento com 15 casas a cerca de 600 metros a sul da antiga tabanca da Ponta do Inglês, tendo capturado diversas munições; encontraram alguns abrigos no lado sul da Ponta do Inglês-Xime, no local da emboscada feita às NT em 19 e destruíram 2 casas a leste de Ponta do Inglês. (...)

    Fonte: Excerto de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014), pág  311.


    Em comentário ao poste P7590 (****), o José Nunes, ex-1º cabo mec eletricidade, BENG 447, 1968/70; escreveu:

    (...) "O aquartelamento da Ponta do Inglês estava operacional em abril de 1968, quando aí nos deslocámos pra montar o grupo gerador, ficava junto ao rio e não havia cais, o Unimogue avançou rio dentro até da LDP [Lancha de Desembarque Pequena] de onde se descarregou o gerados a pulso. 

    A iluminação era feita [, até então,] com garrafas de cerveja com uma mecha, cheias de combustível, e as havia a servir de alarme, havia muitos macacos na zona que causavam problemas, ao agarrar o arame farpado da zona de protecção. Foi uma permanência de horas por causa das marés." (...)



    terça-feira, 4 de novembro de 2025

    Guiné 61/74 - P27384: A nossa guerra... a petromax (1): Quem é que ainda se lembra dos candeiros a petróleo ? Em 1964, em Guileje, Gadamael, Ganturé, Sangonhá, Cacoca, Cameconde... Em 1967/68, em Ponate, Banjara, Cantacunda, Sare Banda, Ponta do Inglês...



    Candeeiro antigo a petróleo Hipólito de 350 velas
    (Com a devida vénia, OLX: anúncio já não disponivel)


    Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca) >  Destacamento da Ponte do Rio Udunduma > Setembro de 1973 > CART 3494 (Xime e Mansambo, 1971/74) > Uma foto rara : assinalado a amarelo está um candeeiro a petróleo de camisa, um petromax, possivelmente de 350 velas, que era fabricado em Portugal pela Casa Hipólito, de Torres Vedras. 

    "A mesa polivalente, onde se comia, escrevia, lia,  jogava e conversava. Em suma: o espaço de socialização e de partilha. Da esquerda para a direita: Gregório Santos, José Sebastião, Ricardo Teixeira e eu [Jorge Araújo] participando no 'mata-bicho' das tardes, preparando-nos para mais uma noite de muitas estrelas."

    Foto (e legenda): © Jorge Araújo  (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
     




    Capa do livro "Casa Hipólito : história, memórias e património de uma fábrica torriense / Joaquim Moedas Duarte ; pref. José Amado Mendes ; rev. cient. Jorge Custódio. - 1ª ed. - Torres Vedras : Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras : Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, 2017. - 376 p. : il. ; 23 cm



    1 Quem se lembra do velho "petromax" que iluminou muitas das nossas noites de breu na Guiné ? E nomeadamenmet nos primeiros anos da guerra, em destacamentos perdidos no mato ...

    Eu nunca tive o "privilégio" de ter um pretomax no destacamento da ponte do rio Udunduma, na missão do sono em Bambadincanzinho, nas tabancas fulas em autodefesa que fui reforçar ou no destacamento do reordenamento (de população balanta e mandinga) de Nhabijões !... 


    Fonte: Anúncio do OLX
    Mas há quem se lembre... O petromax, das fotos acima, era da  Casa Hipólito, de Torres Vedras. Era um candeeiro a petróleo, de camisa.. Havia vários modelos, todos a petróleo/querosene, só mais tarde evoluiu para o gás...  

    Havia candeiros de 150 velas, 250 velas, 350 velas, 500 velas... Pelo que vejo nos anúncios do OLX, estes candeeiros antigos podem ainda hoje valer entre os 50 e os 150 euros...Os modelos novos podem custar 300, 400, 500 euros...

    O de 500 velas (ou CP="candle power") era o de topo de gama. 

    O de 150 velas dava para 10 horas (1 litro de querosene / petróloe). Aplicaçáo: Uso doméstico, iluminação de tenda pequena ou posto de sentinela;

    O de 250 velas tinha um autonomia de 7 horas, dava para iluminar um secção do perímetro de
    arame farpado, uma cozinha de campanha, um ficina.

    O de 350 velas (5 horas de autonomia) iluminava um de pátio, um pequeno acampamento, uma enfermaria.

    O de 500 velas (4 horas de autonomia) iluminava superfícies maiores: quartéis, destacamentos, missões religiosas, médios / grandes acampamentos. Um candeeiro Petromax de 500 CP (ou velas) é comparável, em brilho, a quatro lâmpadas incandescentes de 100 W, mas concentrando a luz num feixe mais intenso.

    Náo sabemos qual(quais) o(s) modelo(s) disponibilizado(s) pela Intendência. Mas pelo menos o de 150 velas já existia em 1967, 

    "Petromax" era/é  uma marca registada, de origem alemã, fabricada em Portugal sob licença,a partir de 1949. Mas a Hipólito também tinha modelos próprios.


    2. Ter um petromax em casa, no meu tempo de miúdo, era uma novidade, uma  coqueluche. Usava-se na pesca aretsanal e na pesca ao candeio (o pescador mais "abonado"; ainda me lembro da lanterna, luminária  ou lampião a carbureto)... Nas oficinas, para trabalhar à noite. E os mais remediados passaram a substituir o velho candeeiro a petróleo pelo petromax, enquantio não chegava a eletricidade de Castelo de Bode (a barragem foi inaugurada em 21/1/1951).

    A palavra "petromax" entrou no nosso vocabulário nos anos 50. E o termo já está hoje grafado nos  nossos dicionários.

    Temos diversas referências ao uso do "petromax" na iluminação das nossas instalações militares no CTIG (a par das garrafas de cerveja que, depois de vazias,  eram cheias de petróleo, levavam uma tampa  furada por onde passava uma mecha, torcida ou pavio funcionando à noite como luminária ou candeeiro improvisado).

    Segundo a descrição da Wikipédia, "consta de um depósito, onde está introduzida uma bomba de pressão, do qual sai um tubo tendo na extremidade um vaporizador e fixa a este uma camisa em seda em forma de lâmpada, protegida por um cilindro em vidro. No cimo tem uma chaminé por onde saem os gases." (Vd, imagem acima).
     
    Para quem quiser saber mais, aconselha-se uma visita à página do Facebook Memórias da Casa Hipólito de Torres Vedras, da autoria de Joaquim Moedas Duarte, criada no âmbito do Mestrado em Estudos do Património, da Universidade Aberta de Lisboa. 

    Sabemos que esta grande empresa metalúrgica (o maior empregador da região) forneceu diversos equipamentos de iluminação para as Forças Armadas. Começou por ser uma pequena oficina de latoaria no início do séc. XX. Algumas décadas depois era já uma grande metalúrgica, com 1400 colaboradores.


    3. Vejamos algumas referências ao petromax no CTIG:

    Já temos uma série "A minha guerra a petróleo" (*), da autoria do ex-cap art (hoje coronel na reforma) António J. Pereira da Costa, membro da nossa Tabanca Grande.

    Iremos citá-lo em próximo poste. Inspirados naquele título, é que nos lembrámos de repescar postes com referência a este descritor, "petromax". 

    Em todo o caso, convém lembrar que a "A minha guerra a petróleo" (título que o autor voltou a usar no livro de memórias que publicou, sob a  chancela da Chiado Books, em 2019) tem um sentido metafórico e irónico. Mais diria que é também  uma amostra da literatura "pícara" que se tem publicado sobre a nossa guerra.

     Temos que revisitar esta série. Mas para já registe-se que o tom  que o nosso Tó Zé (para os amigos da Amadora)  usa, é  muitas vezes reflexivo e sarcástico, evocando as dificuldades logísticas e humanas da guerra (por exemplo, o combustível escasso, o calor, o esforço físico e moral, a burocracia). Neste contexto, a expressão “a petróleo” serve também para sublinhar   o carácter absurdo, tecnicodependente e mecanizado da guerra moderna,  que não funcionaria sem máquinas, motores, material, combustível, e sobretudo sem  uma máquina pesada que se impõe sobre o indivíduo. Aliás, nenhuma guerra.

    Física e metaforicamente falando, foi de facto uma "guerra a petróleo", a nossa... Nalguns caso, um pouco mais evoluída, do ponto de vista da tecnologia com a introdução do "petromax " e a seguir do "gerador elétrico"...

    Tudo indica, entretanto, que nos primeiros anos da guerra, na Guiné, o uso do "petromax" (ou lanterna de incandescência...)  fosse mais generalizado, servindo inclusive para iluminar o perímetro de defesa dos aquartelamentos, como no caso de Bedanda, por exemplo, ao tempo do nosso camarada Rui Santos, em 1963, bem como outros aquartelamentos  e destacamentos.

    Cite-se, na região de Tombali, e ao longo da fronteira  com a Guiné-Conacri,  no 1º semestre de 1964, destacamentos como  Guileje, Gadamael, Ganturé, Sangonhá, Cacocca, Cameconde, etc.

    Mas também na zona Leste, na região de Bafatá: Ponta do Inglês,no subsector do Xime (setor L1), Banjara, Cantacunda, Sare Banda, etc., no subsector de Geba (sector L2)... Ou na região do Cacheu, Ponate, por exemplo...

    Em sítios isolados (destacamentos, tabancas em autodefesa, etc.), o uso do "petromax" levantava questões de segurança. Era um alvo fácil . E talvez por isso fosse distribuído com parcimónia. Não sabemos, por exemplo, quantos camaradas nossos morreram, de tiros isolados, à noite, disparados por "snipers". Ou de ataques junto ao arame farpado, como Sare Banda, 1968.

    Depois vieram os geradores e passou a haver luz elétrica, pelo menos à noite... Mas, nos destacamentos, em Ponate, em 1966,  em Banjara, em 1967, na Ponta do Inglês, em 1968, no Biombo, em 1970, no rio Udunduma, em 1973, etc. continuava a recorrer-se ao "petromax".


    Sangomhá, 1964 (**)

    (...) "Depois de, em Ganturé, existirem as condições mínimas de sobrevivência para a instalação das tropas que aí permaneciam, o Pel Rec Fox 42 juntamente com tropas recém chegadas à Guiné [CART 640 ] e com um Pelotão de Milícias rumou até Sangonhá a 21 de maio de 1964.

    Como de costume segue-se a capinagem, a vedação de arame farpado em volta da tabanca, que seria agora um quartel, a colocação de cavaletes para instalação dos candeeiros a petróleo (petromaxes), a que alguns “valentes” iam dar pressão de ar durante a noite, sempre que necessário." (*)

    .
    Sare Banda ,8 de setembro de 1968 (***)

    (...)  Sare Banda (...) estava perto de Sinchã Jobel (importante base do PAIGC, e muito bem equipada, como é claro pelo material que deixaram), e é natural que fosse atacada.

    O alferes morto foi o Carlos Alberto Trindade Peixoto. O outro morto foi o Furriel Raul Canadas Ferreira. Mas as circunstâncias da morte deles não estão devidamente relatadas.

    Foi assim: este, como todos os destacamentos da CART 1690, não tinha luz eléctrica, nem mesmo um miserável gerador. Eles estavam os dois numa tenda a jogar às cartas, com um petromax aceso (depreende-se, aliás, do relatório as péssimas condições de instalação). Para os guerrilheiros foi muito simples, foi só apontar o RPG2. (...)


    Banjara, 1967 (****)

    De qualquer modo, as companhias deviam ter, em "stock", este precioso utensílio... mas era preciso garantir a disponibilidade de querosene/petróleo iluminante e de "camisas"...
     .




    Guiné > Zona leste > Geba > Banjara > CART 1690 (1967/69) > Excerto de uma requisição de material, com data de 9/6/67, feita pelo alf mil Alfredo Reis,  na altura a comandar o destacamento de Banjara.

    Alguns dos artigos requisitados (excerto):
    • fósforos, 
    • palha de aço,
    • camisas para petromax de 150 velas.
    • torcida e vidro (?) para o frigorífico (...),
    • pregos para pregar as chapas,
    • aerogramas,
    • selos, 
    • 12 esferográficas (uma vermelha e as outras azuis),  
    • bloco de cartas,
    • Omo e sabão, 
    • uma garrafa de whisky, 
    • Sumol ou outros sumos [...]

    Foto: © Alfredo Reis (2007). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

    (Continua)

    (Revisão / fixação de texto, itálicos, negritos: LG)
    ____________

    Notas do editor LG:


    (*) Vd, poste de 6 de maio de 2019 > Guiné 61/74 - P19752: Notas de leitura (1175): A Minha Guerra a Petróleo, por António José Pereira da Costa, Chiado Books, 2019 (Mário Beja Santos)
    (***) Vd. poste de 28 de maio de 2005 > Guiné 63/74 - P28: Um ataque a Sare Banda (1968) (A. Marques Lopes)

    (****) Vd. poste de 20 de novembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15388: Álbum fotográfico de Alfredo Reis (ex-alf mil, CART 1690, Geba, 1967/69) (3): O que é um homem precisava no mato, num miserável destacamento como o de Banjara, em 1967 ?