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sábado, 3 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27600: S(C)em Comentários (85): O que é que o PAIGC entendia por "zonas libertadas"? (Zeca Macedo, ten DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74, a viver nos EUA desde 1977)

José Macedo, em 1971,
quando frequentava 0 1º ano da 
Escola Naval (que não completou).
Foi 2ten RN, DFE 21 (Cacheu e Bolama,
1973/74); vive nos EUA desde 1977.

1. Comentário do Zeca Macedo, ao poste P27583 (*):

Camaradas parece que existe muita confusão sofre o que queria o PAIGC dizer que controlava 2/3 do território da Guine Bissau. 

Estava o PAIGC a afirmar que nessas zonas Portugal não exercia soberania efectiva (exemplo da Coboiana), o PAIGC governava na prática, a população vivia sob instituições criadas pelo PAIGC (armazéns do povo, hospitais, escolas) e a guerrilha tinha superioridade operacional. 

Quando o PAIGC afirmava controlar 2/3 do território e chamava a essa parte de "área libertada" estava a usar o termo com um sentido politico, militar e simbólico. 

As "zonas libertadas" (ZL) eram espaços onde o PAIGC instalava estruturas de "Estado Paralelo", organizando escolas, postos de saúde, tribunais populares, sistema de recolha de impostos e comités locais de administração. 

Nas chamadas ZL o PAIGC tinha liberdade de movimento militar. Os guerrilheiros circulavam, recrutavam e treinavam combatentes. Montavam bases, depósitos de armamentos, fardas e munições.

Era território fora do controlo efectivo da administração colonial portuguesa. Eram zonas onde Portugal não conseguia manter presença permanente excepto em operações pontuais (Ilha do Como, Bachile, Madina e outros) e a autoridade prática era exercida pelo PAIGC.

Espero que este pequeno texto que estou a submeter, com a ajuda da IA/Gemini, possa esclarecer o significado de "zonas libertadas". (**)

Feliz Ano Novo

Zeca Macedo, tenente DFE 21
Vila Cacheu, Bolama
Guine Bissau 1973-74

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025 às 18:03:00 WET 
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Notas do editor LG:


(**) Último poste da série > 14 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27527: S(C)em Comentários (84): O povo Balanta / Brassa foi empurrado para os braços do PAIGC pelo comportamento inicial, pouco prudente, das chefias militares portuguesas... Claro, pagou um preço muito alto: foi a "carne para canhão" do Amílcar Cabral (Cherno Baldé, Bissau)

Guiné 61/74 - P27599: Os nossos seres, saberes e lazeres (716): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (237): Granada, Carrera del Darro e depois à volta da Alhandra - 4 (Mário Beja Santos

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Quando se pega num guia tipo Michelin e se pesquisa em Granada, encontramos três estrelas, o topo da excelência. Podemos ficar a saber o elementar sobre o alojamento, a restauração, os entretenimentos, os diferentes pontos do comércio. Os guias remetem para a Capela Real e para a Catedral, o que encontrar no casco histórico, as igrejas, privilegia-se no centro da cidade a Carrera del Darro que vai da Porta de Santana e acaba no Passeio dos Tristes. Passeamos por aqui deixando para trás a cidade moderna e o panorama muda por completo, parece que estamos num povoado antigo, vemos pontes de pedra e depois começam a aparecer edifícios de referência como o Museu Arqueológico, a Igreja de S. Pedro e S. Paulo, os banhos árabes e também a Igreja de Santa Ana e S. Gil. Mas é no guia tipo Michelin que vemos as três estrelas dadas à Alhambra e ao Generalife, e depois chegamos ao Palácio de Carlos V que é contemplado com duas estrelas.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (237):
Granada, Carrera del Darro e depois à volta da Alhandra - 4

Mário Beja Santos

Antes de entrar propriamente na Carrera del Darro, um dos lugares icónicos de Granada, e mesmo antes de caminhar para o monumento individual mais visitado do mundo, a Alhambra, importa explicar que esta rua de Granada, a Carrera del Darro é de uma indizível beleza. Granada situa-se nas férteis margens do Rio Genil, o Darro é seu afluente, divide as colinas do Sacromonte e Albaicín de Alhambra. Percorremos a rua e sentimos a história, há para aqui uma reminiscência do período da prosperidade económica de Granada, no tempo da dinastia Nasrid, talvez o ponto mais alto da cultura islâmica em solo espanhol. Teve comunidade judaica, era local de refúgio para os mouros expulsos da pátria.
Viveu séculos de declínio, nos séculos XVII e XVIII. Foi muito importante para a descoberta não só europeia de Granada quando o jornalista Washington Irving publicou os seus Contos de Alhambra, em 1832, e os pintores românticos descobriram os motivos orientais do castelo vermelho.

Despeço-me da Carrera del Darro falando da Igreja de S. Pedro e S. Paulo e dos banhos árabes, situados ali perto. A primeira imagem que vos mostro foi tirada ainda no passeio em Albaicín, sei perfeitamente que não há nada nela de espetacular, mas está ali o protótipo do modo de viver andaluz, as persianas protetoras do imenso calor e aquele branco, uma genuína herança árabe, para repelir os raios solares.

Ali à saída do Museu Arqueológico temos a Igreja de S. Pedro e S. Paulo em estilo mudéjar (é um estilo que se aplica a edifícios cristãos que tem influências da arte hispano-árabe) edifício do século XVI. O seu interior é claramente maneirista e barroco, é de planta de cruz latina com seis capelas. A nave central tem nas suas paredes uma coleção de magníficas cornucópias com emblema da irmandade dedicada à adoração de Cristo no sacramento da eucaristia; todas as suas seis capelas estão devidamente ornamentadas. Da sua torre, que, confesso subi um tanto amedrontado, uma escadaria íngreme que prossegue numa torre com a escada em caracol com precária proteção, tem-se uma vista soberba sobre a colina da Alhambra.


O protótipo da casa andaluza
A Igreja de S. Pedro e S. Paulo, perto do Museu Arqueológico de Granada, é visível uma torre da Alhambra, estamos na Carrera del Darro.
Vista do Altar-Mor da Igreja de S. Pedro e S. Paulo
Púlpito e pormenor do interior na Igreja de S. Pedro e S. Paulo
O assombroso teto em caixotão da Igreja de S. Pedro e S. Paulo
Os banhos árabes de Granada são os mais importantes de toda a Espanha. O nome espanhol é El Bañuelo, situam-se perto do que resta da Ponte de Cadí, têm a típica estrutura árabe, remontam aos séculos XI e XII, estão muito bem conservados. Estão formados por várias salas que têm a ver com o vestuário, os pontos de reunião e massagem e banho. Têm belas abóbadas onde não faltam capitéis romanos, visigodos e do período do califado. Cá fora veem-se perfeitamente as torres e as muralhas da Alhambra.
O que resta da Ponte de Cadí, fez parte da época de ouro árabe de Granada, era conhecida como Porta Ponte, resta este poderoso pilar e um tramo do arco em ferradura.
Procuro com estas três imagens mostrar o que há de fascinante nesta caminhada, o Rio Darro no fundo, o casario em paralelo à rua, parece que está pendurado, e as pontes que funcionam ligam sinuosamente a rua à monumentalidade da Alhambra.
Uma rua tipicamente árabe no casco histórico de Granada, na vizinhança da Carrera del Darro
Praça de Bib-Rambla com a fonte barroca chamada de Neptuno
Entrada na Alhambra pela Porta da Justiça
A Porta da Justiça vista com mais pormenor. A “Puerta de la Justicia” foi construída em 1348, sob o reinado do Sultão Yusuf I, o que faz dela uma das entradas mais antigas de. A Porta da Justiça também era conhecido por outros nomes, como Bib Axarea ou Portão dos Exames, devido à sua localização perto de tribunais e escritórios administrativos.
O desenho e os pormenores de construção refletem a arte Nasrida no seu período mais refinado. Este arco maciço em forma de ferradura ergue-se alto com entalhes intrincados que o adornam de cima a baixo. O arco mais exterior está adornado com inscrições que louvam Alá e versículos do Alcorão, enquanto uma moldura quadrada interior ostenta belos padrões de arabescos que significam o paraíso na terra. A parte superior alberga um balcão ao ar livre – “balcão do carcereiro” – que era utilizado para fazer anúncios públicos.

Porque agora o passeio prossegue para a inexcedível beleza da Alhambra. Recorde-se que os árabes chegaram a este ponto da Andaluzia no século VIII, o lugar tinha o nome de Castilia, eles mudaram o nome para Medina Elvira, a capital do território granadino. Fez-se anteriormente uma breve súmula do Califado de Córdova, referindo que é no tempo dos Almóadas e dos Almorávidas que Granada ganha imponência. De facto, a época mais gloriosa da Granada árabe inicia-se no ano de 1236 quando Granada passa a ser de facto e de direito a capital da Espanha muçulmana. Foi precisamente durante este esplendoroso período que a Alhambra se tornou no monumento único que é.
Não sendo possível visitar o seu interior, atrelei-me a uma visita guiada; há quem diga que o nome da Alhambra resulta de pôr em castelhano, palavras árabes que significam castelo vermelho. Pois precisamente é na harmonia arquitetónica do arco em ferradura da Porta da Justiça que a visita guiada vai começar.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 27 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27577: Os nossos seres, saberes e lazeres (715): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (236): A Sevilha de um viajante apressado, nem pode acudir à Sevilha essencial: Granada, ainda com a Alhambra à distância - 3 (Mário Beja Santos

Guiné 61/74 - P27598: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte I: Arribas do Mar (Ribamar, Lourinhã), a família (o pai, a mãe, o avô materno)


Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025)

Lourinhã > Ribamar/Porto Dinheiro ou Atalaia/Porto das Barcas ? > c. 1920 > A família Maçarico tinha um estaleiro de construção naval, em Ribamar. Com a industrialização e a modernização dos estaleiros navais, o avô paterno do Horácio Fernandes acabou por emigrar para a América, nos anos 20.  Nunca mais voltou nem deu notícias, deixando na terra a mulher e três filhos menores, entre eles o pai do Horácio.  Soube-se, muito mais tarde (por volta de 1959, quando o Horácio estava para ser ordenado padre e o seu passado da família foi escrutinado, por denúncia)  que já tinha morrido na Califórnia.

Fonte: Cortesia do Espaço Museológico de Ribamar: Olhar o Mar (Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. Na sua dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), Horácio Fernandes descreve, nas páginas 102-106,   a sua terra, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã, que é também a terra da minha bisavó paterna, Maria Augusta (Maçarico) (1864-c.1938), que era irmã da Maria da Anunciação, bisavó paterna do Horácio].

Descreve igualmente as 3 figuras da família que o marcaram: o pai, José Fenandes Nazaré;  a mãe, Elvira Neto; e o avô materno, sacristão  (nascido por volta de 1875)... 

O avô paterno, António Fernandes (Maçarico),  nunca o chegaria a conhecer: quando oo Horácio disse a Missa Nova, em 1959, ele já tinha morrido na América, na Califórnia. Foi um dos últimos construtores navais de Ribamar.

O Horácio nasceu em 1935. É uma história de vida, bem dura, em tempos muito difíceis, que merece ser conhecida dos nossos leitores. 

 A maior parte de nós, que nasceu já dez ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica (aqui resumida, na sua dissertação de mestrado,  em pouco mais de 3 dezenas de páginas). 

Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [ Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].

Francisco Caboz é o "alter ego" do Horácio Fermandes, entretanto falecido, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos). (O livro está esgotado, não sei se os herdeiros terão intenção de fazer uma 2ª edição ou reimpressão.)

O Horácio Fernandes vestiu o hábito franciscano, tendo sido ordenado padre em 1959. Foi capelão  no exército e na marinha mercante. Deixou o sacerdócio em 1972. Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006 doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro.

Lourinhã > c. 1920 > Alvarina de Jesus Sousa, da família Maçarico. Morreu em 1922, de tuberculose, a terrível doença da época. Era filha de Francisco José Sousa, da Lourinhã, comerciante de peixe, e de Maria Augusta, de Ribamar.



Maria Augusta de Sousa  (Ribamar, 1864- Lourinhã, c.1934). S/ d.

A  avó materna do meu pai Luís Henriques (1920-2012), Maria Augusta, nasceu em 28 de outubro de 1864, em Ribamar, ou melhor, em Casais de Ribamar, hoje integrados na vila de Ribamar. Pertencia ao clã Maçarico: filha de Manuel Filipe e Maria Gertrudes. ( A sua ascendência está documentada até, pelo menos, a meados do séc. XVIII.)  

Veio a  casar na Lourinhã, com um peixeiro, Francisco José de Sousa (1864-1939). O casal teve 7 filhos.   Terá morrido com “cerca de 88 anos”, segundo o meu pai, ou seja no início dos anos 50, o que ponho em dúvida. Já li ou ouvi  algures outras datas: 1920, 1934…

Fotos: arquivo da família.

 

Excertos da dissertação de mestrado "Francisco Caboz: de angélico ao trânsfuga: uma autobiografia" (FPCE / UP, 1995) 

CAPITULO 4º - A CONSTRUÇÃO DA VOCAÇÃO, A MISSÃO E A DESCONSTRUÇÃO DO HABITUS (pp. 102-136)


Parte I -  Arribas do Mar (Ribamar, Lourinhã), a família (o pai, a mãe, o avô materno) (pp. 102/106)

«Casinha de pobre,
Lareira de altar,
Borralho quentinho
E tudo a rezar. »

 (Afonso Lopes Vieira)

(...) "Este capítulo tem um registo assumidamente duplo: é fenomenológico, biográfico, no tratar a vida de Francisco Caboz, tal como ela foi vivida por si e dita; é sociológico, analítico, na medida em que é significativa de uma ordem económica social e política. Da dialéctica das duas resultará, porventura, a nosso ver, a proficuidade do método que utilizamos." (...) (pág. 102)


1- Arribas do Mar

Arribas do Mar, aldeia de Francisco Caboz, estava predestinada a ser viveiro de três vocações sacerdotais nos anos 30/40. Isolada entre dois concelhos «saloios», Lourinhã e Torres Vedras, a agricultura de subsistência e a pesca sazonal eram os seus únicos recursos.

Lisboa, que distava 50 Km, ficava muito longe, já que as estradas que lhe davam acesso eram intransitáveis e o percurso inseguro, sujeitos os transeuntes a frequentes assaltos. Só a pé ou a cavalo é que era possível transpor tão curta-longa distância. O mar era a única saída possível.

Sempre com o credo-na-boca se o mar embravece, esta gente é ao mesmo tempo desconfiada, crente e devota. Quase todos analfabetos, prostam-se e veneram, temendo alguém que é mais do que eles e que constantemente os ameaça. Santos, bruxos, mulheres de virtude, todos são requisitados em marés de azar: doenças dos homens e dos animais, do corpo e da alma, amores estragados e maresias.

A escola existia, mas secundariamente em relação à omnipresença do Mar: o mais importante era saber:

  • fazer um "côvo" para apanhar lagosta, lavagante ou navalheira;
  • fazer um camaroeiro e uma sartela para atrair o peixe na maré vazia;
  •  consertar uma rede;
  • medir os fundões em braças;
  • lançar a poita;
  • manejar a vela, o remo e o leme;
  •  «safar a tralha», o que não se aprendia nos bancos da escola.
A aldeia de Francisco era, digamos assim, a realização nas suas potencialidades mais substantivas do salazarismo, enquanto projecto político: imobilismo social, pobre, conformada, trabalhadora, disciplinada vivendo o quotidiano ao ritmo do anti-quotidiano (...).

-102- 


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2. A família de Francisco



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 - 103 - 

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- 106 - 

(Continua)

(Seleção, edição, revisão / fixação de texto, título: LG)


Capa da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto:  Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, 147 pp. (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

Guiné 61/74 - P27597: Parabéns a você (2450): António Ramalho, ex-Fur Mil Cav da CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71)

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Nota do editor

Último post da série de 28 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27579: Parabéns a você (2449): António Figuinha, ex-Fur Mil Enfermeiro da CCS/BCAÇ 2884 (Bissau, Buba e Pelundo, 1969/71)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27596: Notas de leitura (1880): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (7) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Os reveses sucedem-se, diz o editor que há problemas graúdos na tipografia, e vem por aí um grande abalo, a morte do presidente da Direção, António Flamengo, homem de grande prestígio, o seu desaparecimento marca o Boletim mais do que a compreensível consternação. Vimos anteriormente que as colaborações se vão reduzindo, há apelos sucessivos para o pagamento das quotizações. Em 1965 será muito pior, o Boletim só terá uma edição, de janeiro a dezembro. Teixeira da Mota escrevera ao presidente, fazendo-lhe um relato dos seus trabalhos sobre os Rios da Guiné, estava assessorado por António Carreira e Rogado Quintino. É um documento redigido com extrema vivacidade de que aqui se publicam alguns parágrafos. O Boletim já não esconde que se encontra num estado de orfandade, à deriva.

Um abraço do
Mário



Uma publicação guineense de consulta obrigatória:
O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné – 7

Mário Beja Santos

A crise está instalada, o sonho da publicação regular do Boletim apagou-se. Em 1964 aparecerão dois números, um de janeiro a março e outro de abril a dezembro. A guerra instalada está a deixar marcas profundas. O desânimo ainda é contido, mas ainda se procura mostrar que existe um poder reivindicativo e há o anseio de participar nas decisões ou fazer reverter as medidas que condicionam a iniciativa privada. Escreve-se no primeiro dos números o seguinte:
“Luta a Associação por se impor nos sectores económicos, já que, por função constitui elemento consultivo do Governo da Província. Os seus 700 associados de todas as proveniências, à face dos acontecimentos, encaram o futuro sombrio, agravado por uma carência de recursos, entre os quais não é o menor importante a falta de unidade entre eles mesmos. O Governo apoia, as entidades oficiais prometem, os organismos oficiosos auguram. Mas no confronto com os territórios vizinhos e concorrentes, o panorama não se modifica e mais do que nunca há fé pouco lisonjeira para a Guiné.
Os recursos agrícolas sempre foram mal aproveitados; as indústrias de transformação, até há pouco existentes, são hoje exíguas; a regularização dos rios mais do que descuidada; a rede rodoviária abandonada; apenas dois técnicos agrícolas e ausência de crédito; o elevado custo dos transportes para as madeiras; o quase monopólio da mancarra; o descuido dos produtores de coconote cujo teor de acidez e impurezas o desvalorizam irremediavelmente.”


Há sempre avisos, consultórios, noticiário económico. Ficamos a saber que o Prefeito Apostólico da Guiné, D. João Ferreira fez uma Conferência na Associação com o título "Juventude, Educação e Liberdade".

A Associação, mesmo atendendo ao futuro sombrio, marca a sua cadência de exigências e o que a seguir se escreve é merecedor da atenção dos investigadores:
“Nos domínios da agricultura, continua a maior parte dos trabalhadores carecida dos favores da técnica. Trabalha-se na incerteza, um objetivo imediato da recuperação de terrenos para o cultivo de arroz, quando milhares de hectares de campo continuam incultos, por falta de apoio ao trabalhador.
Não se vê uma charrua, não se lobriga um trator. Os métodos agrícolas são primitivos, as pragas de séculos, a rentabilidade da terra de baixíssimo teor, o descoroçoamento uma constante, a desesperar.”


E prossegue o diagnóstico, começando pela mancarra o coconote e as madeiras: “São os principais produtos de exportação da Província da Guiné. Cerca de sete firmas locais exportam mancarra. Três deles são agentes dos fabricantes, na Metrópole. Aos restantes cabe a situação de enteados, investindo avultados capitais na compra para se sujeitarem ao tempo, ao aviltamento do preço de venda. A Metrópole, onde apenas três ou quatro grandes empresas o podem fazer, é o exclusivo importador.” E dá-se uma sugestão que é a de, à fixação de contingentes de exportação na Província, corresponda na Metrópole, por ofício da Comissão Reguladora de Oleaginosas, a pré-distribuição dos lotes de mancarra de todos os exportadores e, principalmente, daqueles que não representam interesses estranhos pelos únicos fabricantes nacionais: CUF, Sabões e Macedo & Coelho, como exclusiva forma de impedir que os nomeados continuem sujeitos aos jogos de empurra, e cheguem a termo da campanha sem terem assegurada a colocação do produto.

Veja-se o que se escreve sobre o coconote:
“A liberalização preconizada, deu os seus resultados em relação ao coconote. À maior exigência dos mercados estrangeiros e à concorrência de outros produtores, se deve, pelo menos, a valorização do coconote guineense. Reduziu-se o teor de impurezas; baixou a acidez, a produção escoa-se com regularidade.”


Tece-se uma dura crítica ao que se passa no setor dos transportes, isto quanto à indústria e comércio de madeiras, observando que a Sociedade Geral e a Companhia Colonial de Navegação afirmam não lhes interessar o transporte de madeiras da Guiné para a Metrópole, não se podendo também esquecer os preços proibitivos da rentabilidade dos fretes. A concorrência das empresas brasileiras que exploram as florestas da amazónia revelava-se esmagadora.

E o editorial ainda apontava com esperança para o futuro desde que se criassem serviços agrícolas tecnicamente eficazes, se fomentasse a produção do arroz, se eliminassem os direitos de exportação em madeiras, borracha, castanha de caju, frutas e leguminosas.

O número que vai até dezembro é bastante incolor, mas traz uma novidade, uma carta-artigo de Teixeira da Mota dirigida ao então presidente da Associação, António Flamengo, dá-lhe informações pessoais:
“Com a ajuda e colaboração de outras pessoas (entre elas António Carreira e Rogado Quintino) estou a preparar a publicação de uma série de volumes, em português e francês, onde serão editadas e comentadas antigas descrições portuguesas relativas aos Rios da Guiné, dos séculos XVI e XVII, parte delas completamente desconhecidas até agora, e que vêm trazer grandes novidades e surpresas.
Nessas velhas páginas revela-se o conhecimento verdadeiramente extraordinário que os portugueses então já tinham dos costumes e características dos numerosos grupos étnicos que vão dos Jalofos do rio Senegal aos Limbas dos montes da Serra Leoa. Para além da ação, também se revelam muitos revezes e fracassos, e muitos homens movidos apenas por propósitos e ambições ilegítimas.


Alguns casos, entre muitos. Um Diogo Carreiro, que por força das circunstâncias foi educado de pequeno em Marrocos, se tornou uma autoridade em questões islâmicas, foi Ministro do Xerife, conseguiu fugir para Portugal, meteu-se num barco com o qual venceu um navio de franceses na barra do Senegal (1565!), subiu este rio com o intento de chegar a Tombuctu e descobrir as fontes do ouro transportado pelas caravanas do deserto para Marrocos, e acabou por morrer às mãos de um Jalofo, ficando sepultado à beira do rio, passando depois o seu túmulo a ser venerado pelos nativos, que o consideravam um grande doutor das leis islâmicas. Um tal Ferreira, cristão-novo do Crato, alcunhado o ‘Ganagoga’ porque falava todas as línguas dos nativos, deslocando-se livremente por todos os matos (1580!), e que veio a casar-se com uma filha do Imperador dos Fulas de Galam, no alto Senegal. Um Roque Lopes de Castelbranco, natural de Santiago, que indo pelo rio de Buba numa embarcação, vendo dois elefantes a atravessar de uma margem para outra, cavalgou um deles e dentro de água o matou à punhalada. Um tal Henriques, ourives, que viveu entre os Bagas do Rio Nuno, em época em que estes se dedicavam a colecionar as caveiras dos brancos que abatiam, para utilizar como taças para a bebida. Dois portugueses, um branco e outro preto, náufragos de um galeão na Costa da Libéria, e que indo por terra se incorporaram no exército dos terríveis Sumbas, então assolando a Serra Leoa e aí praticando os mais violentos atos de canibalismo. Outros portugueses, servindo como arcabuzeiros e artilheiros nas lutas entre fações nativas na Serra Leoa ou ajudando o Rei dos Cassangas.”


E prossegue falando da missionação dos Jesuítas, a sua ação na Serra Leoa, e muitos mais outros casos, um nunca acabar. Cinco anos depois de ter escrito esta carta-artigo Teixeira da Mota regressava à sua muito querida Guiné, desta vez como chefe do Estado Maior do Comando da Defesa Marítima da Guiné, foi aí que o voltei a ver, em 1969, estadia curta, teve colisões frontais não só com a Marinha como com o Comando-Chefe, acabou a sua comissão em Angola.

Veremos no próximo número que a vida está cada vez mais difícil para editar este Boletim.


Brigadeiro Arnaldo Schulz, Governador da Guiné, 1964-1968
Publicidade nos tempos da licra
Mulher Nalu
Lavadeiras no rio Geba
Rapariga da etnia Pajadinca
Choro de Manjacos

Estas quatro imagens foram retiradas de alguns números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1964

(continua)

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Notas do editor

Vd. post de 26 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27574: Notas de leitura (1878): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (6) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 29 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27583: Notas de leitura (1879): Um comandante do PAIGC, o homem dos mísseis Strela e de Guidaje, vem depor para a História (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27595: In Memoriam (565): Horácio Neto Fernandes (1935 - 2025): Do Colégio Seráfico a Capelão Militar do BART 1913 (Catió, 1967/69) (Beja Santos)


Horácio Fernandes (Lourinhã, Ribamar, 1935 -
Porto, 2025)



Capa do livro de Horácio Neto Fernandes  -  "Francisco Caboz, A construção e a desconstrução de um Padre”. Porto: Papiro Editora, 2009. 

Fotos: arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1. A nota de leitura é da autoria, como é habital, do nosso crítico literário, o Mário Beja Santos (ex-alf mil, cmdt, Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) (*)

Vale a pena reediatá-la em homenagem ao nosso camarada ex-alf graduado capelão Horário Neto Fernandes (1935-2025). O seu livro de memórias está esgotado.

Horácio Neto Fernandes, nascido em Ribamar, Lourinhã, é um dos 113 capelães militares que prestaram serviço no CTIG (**).  Vi nº 42 da lista, era também franciscano (fui à sua "missa nova!,  em 1959), e esteve lá dois anos, primeiro em Catió e depois em Bambadinca e Bissau, de novembro de 1967 a novembro de 1969.

Há aqui um pormenor intrigante, para mim: nunca nos encontrámos em Bambadinca, nem eu conheci nenhum capelão, entre julho de 1969 e maio de 1970, em Bambadinca, no primeiro batalhão, a que esteve adida a minha companhia, a CCAÇ 2590/CCAÇ 12: refiro-me ao BCAÇ 2852 (1968/70). 

Além do Horácio Neto Fernandes (nº 42) (que esteve no CTIG de 1/11/1967 a 3/11/1969), cite-se mais os seguintes capelães, da Ordem dos Frades Menores (OFM), por ordem alfabética (pode ser que alguém nos diga a que batalhão pertenceram estes capelães):
  • José António Correia Pereira (nº 84): de 26/3/1972 a 21/3/1974;
  • José de Sous Brandão (nº 79): de 25/9/1971 a 22/12/1973:
  • José Marques Henriques (nº 97): de 28/4/1974 a 9/10/1974):
  • Manuel Gonçalves (nº 58): de 19/7/1969 a 30/6/1971;
  • Manuel Maria F. da Silva Estrela (nº 11): de 27/9/1963 a 14/8/1965;
  • Manuel Pereira Gonçalves (nº 91): de 28/5/1968 a 29/6/1974):

Do Colégio Seráfico a Capelão Militar do BART 1913

por Beja Santos


Beja Santos
1. O livro de Horácio Neto Fernandes é de um sofrimento pungente, uma longa viagem de construção e desconstrução de um sacerdote católico.

Os primores literários, diga-se sem qualquer hesitação, situam-se fundamentalmente nas memórias registadas a fogo no menino de 11 anos que, muito mais tarde, cursará Filosofia e Teologia, e que depois rezará missas por casas senhoriais.

O narrador insiste que a desconstrução desse padre está diretamente associada aos seus tempos de capelão militar, esteve no BART 1913, na região Sul e depois em Bambadinca. A prosa aqui afrouxa, o que temos que lamentar, não possuímos de forma integral nenhum relato do género, há um desequilibro na desconstrução do padre. Mas é um documento que tem parágrafos arrepiantes, pode imaginar-se o tormento que foi passar a escrito tais memórias.

Horácio Fernandes
(1935-2025)
2. "Francisco Caboz, A construção e a desconstrução de um Padre”, por Horácio Neto Fernandes (Papiro Editora, 2009), é um relato ímpar pela simplicidade do que documenta, pela coragem em pôr por escrito recordações por vezes pungentes da criança sofrida que o adulto guardou em bom recato. 

Algures, na Lourinhã [, em Ribamar,] num ambiente de pobreza austera, um menino solícito e participativo nas fainas duras do campo e das pescarias do pai, guardou esculpido a cinzel as memórias de um meio rústico, das brincadeiras das crianças e da religiosidade dos actos litúrgicos, dos bodos e da catequese. 

Terá sido na escola primária, no princípio dos anos 40, que se sentiu impelido a ser padre. Com 11 anos partiu para o Colégio Seráfico, em Braga, partiu com o enxoval mínimo, como ele descreve: 

“As botas que deviam ser dois pares: umas pretas, para usar com o uniforme da mesma cor e outras para trazer no dia-a-dia ficaram reduzidas a um só par, dado pelo padrinho, sapateiro, que também era pobre. O sobretudo preto para completar o uniforme e fazer face ao rigoroso Inverno minhoto, também foi riscado da extensa lista enviada pelo seminário, por falta de dinheiro"

Mais tarde, vai ser fortemente penalizado por estas carências. Não teve outro remédio senão pintar as botas de tinta preta, quando havia saídas em que se usasse o uniforme. A princípio, ainda resultou, mas depois este artifício foi descoberto pelo Perfeito que passava revista aos uniformes, antes da saída do Colégio Seráfico para o passeio semanal, às quintas-feiras. A sentença foi varrer os recreios e o salão.

O padre construiu-se a partir deste colégio que era um pesado e frio edifício de quatro pisos, circundado por densa e verdejante mata. Outra nota: 

“O portão sul, apenas utilizado pela comunidade para sair para a cidade, dava para um bairro chamado Areal, de gente pobre, vivendo em condições higiénicas miseráveis e que eram os principais clientes da igreja do Colégio. Quando avistavam os frades, as criancinhas descalças e de grandes barrigas ao léu, aproximavam-se para pedir um santinho, pequenas pagelas com imagens de santos”

Tudo compartimentado na organização deste Colégio, e bem hierarquizado. O regulamento era muito severo, cheio de proibições, à menor desobediência o Perfeito disparava duas ou mais bofetadas.

Francisco não esqueceu a composição do pequeno-almoço, do almoço e do jantar, as diversões, os passeios, as orações e a composição dos estudos. É uma descrição por vezes arrepiante, o leitor segue-o pelos lugares, envolve-se nos sacrifícios e nas medidas disciplinares, Francisco é tão evidente que aceitamos que se tenha habituado a cumprir sem pestanejar, sentindo-se sempre devedor dos padres. 

Cresce e habitua-se a afastar as tentações da carne. Aliás, segundo o director espiritual, as mulheres catalogavam-se da seguinte maneira: 
  • as freiras que se tinham consagrado a Deus; 
  • as mulheres casadas, sobretudo as mães dos padres, porque tinham dado um filho a Deus; 
  • depois as outras mulheres que procriavam; 
  • e as solteiras eram sempre um perigo porque causavam maus pensamentos aos homens. 
No final do 5º ano partiu para o Convento do Varatojo, agora era um rapaz de fato preto e chapéu na cabeça, é aqui que ele vai fazer um ano de noviciado, aqui também há castigos e penitências para as faltas. A nova etapa serão três anos de curso filosófico e depois quatro anos de curso teológico, no Seminário da Luz, em Carnide. 

De vez em quando, Francisco corre o risco de ser expulso, uma vez enviam uma carta anónima denunciando um tio que vivia amancebado, era o suficiente para a sua expulsão, felizmente que tudo se esclareceu. Temo-lo agora padre, em Agosto de1959, começa a sua missão, reza missas em casas senhoriais, presta serviço religioso nas igrejas, é professor.

A desconstrução de um padre começa nas suas hesitações ou vacilações: está apto a exercer a sua missão de sacerdote? 

Se o autor carpinteirou admiravelmente o contexto onde nasceu um padre e o modo como ele foi construído, há que confessar que esta desconstrução é descosida, frouxa, perdeu o nervo, é uma narrativa arrancada à força, um testemunho que não agarra o leitor pela gola.

3. Imprevistamente, é indigitado para capelão militar, frequenta a Academia Militar, aprende a manejar a G3 e ouve o bispo de Madarsuma a explicar a razão do compromisso com a pátria e a razoabilidade da guerra aos terroristas, Portugal estava a defender a civilização cristã contra as agressões externas.

É nomeado capelão militar no BART 1913, segue para Catió num DO pilotado pelo lendário sargento Honório. É logo praxado na sala de oficiais, à mesa, no almoço, o major passa-lhe fotografia com mulheres nuas e Francisco pergunta-lhe se eram fotos da mulher dele, valeu o médico do batalhão que conseguiu que o caso ficasse abafado. 

Temos uma descrição de Catió como uma vila isolada e cercada de florestas e rios com um administrador cabo-verdiano, um administrador adjunto alentejano e uma dúzia de cipaios; havia duas casas comerciais e um comerciante conservava o seu estabelecimento na outra margem do rio, num local chamado Ganjola, onde esteve um destacamento que depois veio a ser abandonado com consequências sérias para Catió. 

É uma descrição cuidada mas pouco vibrante, sabemos que houve ataques à sede do batalhão mas ele é praticamente omisso quanto ao seu relacionamento com os militares. Há igualmente uma descrição de Cabedu, um aquartelamento mais a sul onde Francisco apanhou um susto quando os guerrilheiros invadiram a pista e entraram na povoação. 

Pouco também ficamos a saber do seu múnus apostólico fora do quartel, ele é lacónico: 

“Francisco nunca foi visita assídua nem das populações nem dos comerciantes brancos. Naturalmente reservado, nunca actuou como se fosse o pastor do rebanho com as obrigações inerentes. Tinha o papel de capelão, procurava desempenhá-lo, mas pouco mais do que isso”

As suas homilias eram obrigatoriamente para falar do heroísmo dos nossos soldados e da vida difícil da Guiné. O BART 1913 foi rendido, Francisco foi colocado em Bambadinca, numa zona que ele classifica como a mais cobiçada pelo inimigo. Adoece e entretanto a sua comissão chegou ao fim, regressa em Dezembro de 1969. Com o dinheiro que juntou, vai estudar e ajuda a irmã, que está a tirar o curso de contabilidade.

Já muito hesitante sobre a sua missão sacerdotal, alistou-se no clube Stella Maris, uma organização religiosa que cedia capelões para as companhias marítimas. Descreve o seu trabalho com um pouco mais de vivacidade, é neste tempo que toma a decisão de não voltar ao convento: 

“Era levado por uma explosão de vida, nunca antes sentida”

E fica-se por aqui, diz ao leitor de uma forma sacudida que havia experimentar uma nova vida: 

“Sentia dentro de si a primavera da vida a borbotar de uma forma quase imparável”

Escandalizando a família e as senhoras mais devotas da terra, passou a usar o traje civil, depois escreveu ao provincial a comunicar-lhe que ia abandonar o sacerdócio. Concluiu os seus estudos universitários e dedicou-se a muitas actividades no Ministério da Educação. Não sente nostalgia do que deixou para trás.

Há momentos de grande elevação em toda esta carpintaria narrativa. Temos aqui rememorações que mereciam ser revistas, acompanhamos uma formação mediante um esforço quase pungente de tudo dizer, sem azedumes nem ressaibos. Mas há um desequilíbrio na desconstrução do padre que merecia mais afeiçoamento à escrita, ganhava o depoimento e teríamos aqui um relato suficientemente vigoroso para poder constar no que há de melhor no memorialismo e nas confissões de um capelão militar.

(Revisão / fixação de texto: CV / LG)
____________

Notas de CV/LG:


Guiné 61/74 - P27594: O nosso blogue em números (107): Ao longo do ano de 2025, tivemos um número de visualizações de páginas superior a 2,09 milhões (e 4,51 mil comentários)


Gráfico nº 1 - Visualizações de página ao longo do ano de 2025:
2,09  milhões (e 4,51 mil comentários)

Fonte: Blogger (2026)



Ilustração: IA generativa (ChatGPT / Open AI),
composição orientada pelo editor LG


1. O nosso blogue atingiu, no final do último ano, mais de 17,8 milhões de visualizações de páginas (grosso modo, de "visitas", o que não é exatamente igual a "visitantes", que podem ser regulares ou ocasionais) (Gráfico n.º 1) (*)

Esta contagem é apurada da seguinte maneira:

(i) 1,8 milhões desde o início do blogue, em 23/4/2004 até final de maio de 2010 (de acordo com o nosso primeiro contador);
e
(ii) c. 16 milhões, desde então até 31/12/2025 (segundo o contador do Blogger).

Importa recordar que, no início do blogue, no período de abril de 2004 a maio de 2010, tínhamos um outro contador (o Bravenet); o saldo acumulado de visualizações de páginas não transitou automaticamente, a partir de 1 de junho de 2010. Quando o Blogger disponibilizou um contador, começou a contagem no zero...
 
Em 2024, já tínhamos ultrapassado o milhão (**): 1,19 milhões de visualizações (e 4,64 comentários), o que só tinha acontecido em 2015 (mais 1,8 milhões em relação a 2014) e em 2016 (mais 1,7 milhões em relação a 2015).

Em 2025, o número de visualizações de páginas foi maior no 2.º semestre (n=1,25  milhões do que no 1.º semestre.  (Mas não o nº de comentários, c. 2,11 mil).

O número médio diário de visualizações de página, ao longo de 2025, foi superior a 5,7 mil. O dia com o número mais baixo (n=1426) foi 12/4/2025, um sábado.


2. Achamos que não vale a pena desagregar este número pelos meses do ano. Mas sabemos, de acordo com a experiência passada, que o movimento é variável conforme os meses, as semanas e os dias: por exemplo, houve vários picos, em 2022, com valores acima das 30 mil visualizações diárias (Gráfico nº1):
  • 33,8 mil (em 29 de maio);
  • 35,9 mil (em 12 de outubro);
  • 35,5 mil (em 23 de dezembro).
Mas estes picos não têm qualquer significado estatístico (são "outliers"): em geral estão associados à atividade de robôs que fazem capturas de página.

Por outro lado, o nosso servidor, o Blogger, faz hoje um controlo mais apertado, do que no passado, sobre o SPAM e outras visitas indesejáveis na caixa de comentários.


3. O nosso blogue, por outro lado, é seguido, regularmente por:

(i)  Arquivo.pt ("uma infraestrutura de investigação que permite pesquisar e aceder a páginas da web arquivadas desde 1996", sendo o principal objetivo "a preservação da informação publicada na Web para fins de investigação") (de 2008 a 2024 já fez 121 "capturas" do nosso blogue).

(ii) Internet Archive: desde 11 de junho de 2007 a 7 de novembro de 2025 fez 299 "capturas" do nosso blogue. (É o maior arquivo da Web, já guardou mais de bilião de páginas (nos EUA e no Brasial, diz-se um trilião): 

Num e noutro temos lá recuperado páginas, em português, que desapareceram, ou foram descontinuadas.

Já agora convém saber a diferença entre o Arquivo.pt e o Internet Archive
  • O Arquivo.pt: recolhas exaustivas da Web portuguesa
  • pesquisa por termo e por endereço
  • possibilidade de computação automática dos dados arquivados para fins de investigação
O Internet Archive: recolhe a Web mundial e parcialmente a Web portuguesa (e permite apenas pesquisa por endereço ).