domingo, 10 de dezembro de 2006

Guiné 63/74 - P1354: Testemunhos sobre o Marcelino da Mata, a pedido de sua filha Irene (1): De 1º Cabo Comando a Torre e Espada (Virgínio Briote)

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Guiné > 1966 > Comandos a caminho de Bafatá, junto ao Dakota para operações na região do Xitole. O 1º Cabo Marcelino da Mata (hoje coronel na reforma, e com 69 anos de idade) é o primeiro da esquerda, na segunda fila (assinalado a vermelho). Dois dos actuais membros da nossa tertúlia também constam da foto: O Alf Mil Briote, o segundo, a contar da esquerda, da primeira fila (assinalado a verde); e o então Capitão Rubim (hoje coronel na reserva), o 6º da primeira fila, também a contar da esquerda (assinalado a amarelo).

Foto: © Virgínio Briote (2005). Direitos reservados.


1. Em 4 de Outubro de 2006, recebi uma mensagem de e-mail da filha do Marcelino da Mata, Irene Rodrigues da Mata, a pedir a colaboração da nossa tertúlia:

Gostaria de saber se é possivel mandar-me informações sobre o meu pai, Marcelino da Mata. Gostaria de saber mais sobre ele, sobre as missões dele em África.

Para o ano o meu pai fará 70 anos e eu gostaria de lhe oferecer um bibliografia sobre ele e a vida e as missões dele .

Já conversei com alguns dos amigos do meu pai e eles concordaram em ajudar-me. Agradeceria muito se me pudesse ajudar neste trabalho, dando-me informações e fotos sobre ele.

O meu único problema é que eu estou a estudar em inglaterra, mas se me puder mandá las através de e-mail ou indicando-me sites onde poderia encontrar informação sobre ele, seria uma grande ajuda.

Fico lhe imensamente agradecida....
Irene Rodrigues da Mata.


2. Mandei, como de costume, a toda a tertúlia um pedido de colaboração, uma vez que já vários filhos de antigos combatentes nos contactaram a pedir ajuda. Alguns dos nossos tertulianos que o conheceram, de mais perto, na Guiné, já responderam à Irene Mata. Hoje começo por publicar o testemunho do Virgínio Briote, que mandou de imediato o seguinte e-mail à Irene.

Irene,

Conheci o teu Pai em Junho de 1965 em Bissau. O Marcelino já na altura era uma lenda da guerra que então se travava na Guiné. Nos comandos em Brá o então cabo Marcelino da Mata foi o 1º homem do grupo que eu comandava, os Diabólicos.

Estou a recolher fotos e documentos da época que eventualmente te possam interessar. Tenho muito gosto em o fazer e, desta forma, prestar também a minha homenagem a um homem não muito fácil e, por isso mesmo, muitas vezes incompreendido, mas com o qual mantive boas relações.

Entretanto podes procurar algumas imagens e alguns textos do Marcelino daqueles tempos no blogue, Tantas Vidas.

Um abraço,
vb


3. O editor do blogue fez um primeiro comentário, a 6 de Outubro, a este e-mail do Virgínio Brite:

Obrigado, Virgínio... Há muitos preconceitos contra o Marcelino da Mata... Não gostaria que o fuzilássemos, simbolicamente, aqui no blogue... É um nome incontornável da guerra colonial, um mito... A mim, que não o conheci, interessa-me o homem...

Achei bonito o gesto da filha... Tu que o conheceste, de tão perto, podes falar dele com o rigor, a isenção e a objectividade que nos faltam, a nós... Espero que isso possa ser também ocasião para uma (re)visita à tertúlia...

Entretanto, o que é feito de ti ? O Tantas Vidas parou em Julho... O que se passa ? Como vai a tua saúde ? Hoje fiz-te uma pequena homenagem, remetendo os nossos tertulianos para alguns dos teus "belos, intimistas e perturbantes" textos... Não há ninguém a falar das mulheres na guerra como tu... Acho que está na altura de arranjares uma editora e publicares uma selecção dos teus textos... Até 14 [de Outubro, na Ameira].


4. Novo pedido da Irene Mata, em 7 de Outubro de 2006, em resposta ao Virgínio Briote:

Sr. Virgínio, muito obrigada por me estar a ajudar.

Agradeço-lhe imenso por me ter mandado Informação sobre o meu pai. Estou muito impressionada pelo o que o meu pai fez e conquistou tanto aqui como na Guiné. Mas mais ainda estou contente por ele ter feito muitos amigos, de ter conhecido pessoas que o ajudaram e que lhe admiram.

Mas tenho uma dúvida: É verdade que o meu pai não pode entrar na Guine porque a PAIGC anda-lhe a perseguir e que tem um forno pronto para o meter la dentro ? Ou será que isso é só uma lenda ???

Eu ouvi essa historia quando era mais nova, mas, agora estou na dúvida... Será que me podia esclarecer, sff ?

Fico-lhe muito agradecida.


5. Entretanto, o Virgínio tinha respondido ao editor do blogue, a 7 de Outubro, nestes termos:

Caro Luís,

Claro que continuo a frequentar diariamente o foranada. É um gosto ver aparecer gente quase todos os dias. O Vinhais, o Beja, o Tino, o Marques dos Santos, o Vítor David, o Idálio, o Mexia, o Jorge Cabral que não conheço mas é como se o tratasse por tu quando leio as incríveis histórias que ele tão bem desenha, o Lema da Marinha, técnico e preciso nas descrições, o Pedro Lauret que já conhecia de nome, o Rebocho e os trabalhos dele com os corpos dos nossos camaradas que eu já nem sabia que houvesse gente desta por cá, as pontuadas do Tunes de vez em quando. Pessoal tão diferente, de comum apenas 24 meses passados há mais de 30 anos! Para a nossa história, a de Portugal, o foranada é uma obra inédita, até sinto pudor em palavrar.

O Tantas Vidas acabou. Eventualmente uma ou outra correcção, umas fotos para tratar e pronto. Amanhã vou a Esposende, procurar no sótão da casa da minha mãe algumas imagens do Marcelino da Mata para enviar à filha.

Obrigado Luís pelo teu cuidado, felizmente tenho-me aguentado. E ansioso por dar um abraço aos foranadas que aparecerem na Ameira, pena é que não veja o Tunes, o Beja Santos, o famoso Pira de Mansoa, o Mendes, o Coronel Lopes e tantos outros trabalhadores desta obra que tu tão bem coordenas.

Um abraço,
vb


6. Novo e-mail do Virgínio, dirigido à Irene:

Irene:

Gostei de ler a sua mensagem. Conheci o seu Pai, Marcelino da Mata, então 1º cabo do Exército, em Maio ou Junho de 1965. Vi-o em Brá, um aquartelamento do Exército Português a meia dúzia de kms de Bissau na estrada para o aeroporto de Bissalanca.

Era um jovem com bom aspecto, ar de reguila, aspecto enérgico. Ele tinha feito a opção pelo Estado Português e como militar teve que combater o PAIGC, o Partido que então encabeçava a luta armada contra o colonialismo português. Foi a decisão que tomou, tal como milhares de Guineenses e, por isso, passou a ser um inimigo do PAIGC.

Fez parte dos primeiros comandos que existiram na Guiné. Participou em inúmeras batalhas em praticamente todo o território. Foi sempre um militar muito valente e, por iso, várias vezes condecorado, desde a Cruz de Guerra (várias) até à Torre e Espada (a mais alta condecoração nacional e só atribuída em casos excepcionais).

Depois houve o 25 de Abril, ele estava na Guiné, a independência veio logo a seguir em Setembro de 1974 e o Marcelino, tal como vários militares que se distinguiram na luta ficou com a vida em perigo. Muitos dos que lá ficaram foram fuzilados e ele saiu da Guiné e fez muito bem porque se lá tivesse ficado já não era vivo há muito.

Penso que hoje, com tanto tempo passado, se ele regressasse ao chão que o viu nascer, nada lhe aconteceria. Mas a Irene sabe, as previsões só são isso. Nunca se sabe o que poderia suceder.

Quanto a essa história do forno, pode ser só isso, uma história apenas. E pronto Irene, podíamos estar aqui a falar do seu pai o dia todo e se calhar ainda nos esqueciamos de muita coisa.

E os seus estudos como vão? O que está a tirar?

Um abraço,
vb

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