segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Guiné 63/74 - P16369: Em, bom português nos entendemos (14): a história da Cadi do dr. Adão Cruz e a expressão em crioulo "ka-misti" ou "n'ka-misti"(não quero) (Cherno Baldé, Bissaau)

Comentário do Cherno Baldé ao poste P16356 (*)

[Foto à esquerda, Cherno Baldé, o nosso "agente" em Bissau (na realidade, este "menino" de Fajonquito, hoje homem grande, pai de 4 filhos, casado com um bonita nalu, quadro superior com formação universitária na ex-URSS e em Portugal, representa todos os nossos amigos guineenses que não têm forma de comunicar connosco, e que mantêm, com os portugueses, antigos combatentes, fortes laços afetivos, baseados numa experiência e num respeito comuns)]....

Caros amigos,

Com algum atraso, mas esperando chegar a tempo de corresponder ao desejo de alguns amigos que pedem a minha opinião, aqui vai:

1. A tradução da Tabanca Grande (Editores) esta correcta. o "ka" ou "ca" é um prefixo que dá a forma negativa da palavra em crioulo da Guiné, mas que pode tomar certas variações, por ex: "ka-misti"="n'ka-misti" (não quero); "n'kana-bai" (não vou).

2. Quanto à história [do dr. Adão Cruz], devo dizer que, se se tratar de uma ficção, estou de acordo com a apreciação da malta em geral, mas se se tratar da descrição de um acontecimento factual, então eu teria algumas reservas, sobretudo no referente a descrição do contexto, pois o nome Cadi (de origem árabe, Cadijah) é pouco provável que fosse utilizado, naquela altura, pelo grupo Balanta (ver Balanta animista) e, mesmo que fosse, seria do grupo chamado Balanta-Mané, que por força de uma "colonização" ou assimilação Mandinga dos séculos anteriores à chegada dos europeus a África, é o mais próximo dos Muçulmanos, mesmo se muitos continuam nas práticas culturais dos seus antepassados animistas. Os Balanta-Mané habitam maioritariamente a região de Cacheu, áreas de Bigene, Barro, Binta e Guidage e a região de Óio (Bissorã e Farim).

O contexto utilizado como fundo da narrativa é um contexto plausível, na altura, para a zona leste ou algumas partes da zona sul (Aldeia Formosa, Guilege, Gadamael, etc.), onde a interação com a população decorria em condições mais amigáveis, mesmo se predominava a desconfiança, própria de uma guerra subversiva.

Com um abraço amigo,
Cherno Balde (**)

4 de agosto de 2016 às 11:25
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 2 de agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16356: Os nossos médicos (87): Cadi suma outra mulher (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547)

(**) Último poste da série > 9 de fevereiro de 2016 > Guiné 63/74 - P15726: Em bom português nos entendemos (13): "Nhanhero" e não "nanheiro": é o nome para o instrumento fula, cordófono, do qual o Valdemar Queiroz "Embaló" contou aqui uma edificante história (Cherno Baldé, Bissau)

2 comentários:

Adao Cruz disse...

Caro Cherno Baldé, muito prazer em falar contigo. Tratemo-nos por tu, pois assim é que deve ser, e é muito mais democrático. Muito obrigado pelos oportunos esclarecimentos, que registarei, pois estamos sempre a aprender. Sim meu caro Cherno Baldé, a história da Cadi, rigorosamente verdadeira, é enternecedora e constitui um marco indelével, de relação humana, na minha vida de homem e de médico. Como tu dizes, não seria fácil acontecer noutras terras, mas ali em Bigene, e um pouco pela minha acção, passe a presunção e a vaidade, a tropa e a população eram quase uma família. Como médico fiz tudo o que pude, como militar, nada de relevante. Até era tido como subversivo. A minha "bíblia" era o livro "Os Condenados da Terra" (Les Damnés de la Terre)de Frantz Fanon. O comandante de batalhão gostava muito de mim, mas dizia que eu parecia um médico de asilados, ao que eu respondia: meu comandante, eu fui feito médico civil e não militar. Mais uma vez perdoa-me a vaidade, mas tive um grande orgulho quando a população de Bigene, em peso, se veio despedir de mim à pista, com lenços no ar e lágrimas nos olhos. O próprio piloto da avioneta confessou-me que nunca tinha visto tal coisa e deu meia dúzia de voltas no ar antes de subir. Talvez o Cherno tenha razão, só num ambiente destes a história da Cadi poderia ter acontecido.

Um grande abraço do Adão

Cherno AB disse...

Caro amigo Adao Cruz,

Obrigado por fazer fe na minha observacao, como sempre digo aos meus amigos do Blogue, eu fui um simples faxina no quartel, melhor dizendo "um Rafeiro de quartel" como haviam muitos, mas que durou por mais de 4 anos e que me deu a possibilidade de observar e de questionar muitas coisas que se passavam ao meu redor.

Sensibilizou-me bastante a descricao que acabas de fazer sobre os prisioneiros, facto veridico que eu posso confirmar pela minha propria experiencia no quartel onde passei a minha infancia.

Um abraco amigo,

Cherno Balde