terça-feira, 9 de agosto de 2016

Guiné 63/74 - P16374: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (25): Relatório de Operações do último almoço-convívio da CART 1689

1. O nosso camarada José Ferreira da Silva (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), enviou-nos o Relatório de Operações do último almoço-convívio da sua Unidade para integrar as suas "Outras Memórias da Minha Guerra".


Outras memórias da minha guerra

24 - “O nosso fim está próximo”

(… assim, a modos de “Relatório de Operações” do último almoço-convívio da CART 1689)

Por incrível que pareça, os militares da nossa CART 1689 assinalam, em convívio almoçarado, não a data do seu regresso da guerra, mas o da partida. Mas ninguém sabe porquê ou de quem foi a ideia.

Lá, todos os dias 26 eram motivo de satisfação, de alegria e de bebedeira. Isto justificava-se porque a contagem era implacável e só a sua soma, mês a mês, nos daria o descanso, o regresso e a libertação. Cada mês que passava parecia mais uma senha de uma lotaria que nos ajudaria a obter o prémio final. Era por isso que a importância festiva se acentuava mais e mais à medida que os meses passavam.
Saturados de guerra, deixámos passar uns onze anos sem nos termos reencontrado. Excepcionalmente, os que eram vizinhos, iam-se encontrando mas sem qualquer tipo de manifestação festiva ou com carácter de regularidade. Porém, chegou-se à conclusão que havia muitas saudades daquelas amizades de excepção que se havia criado. Foi o falecido Mariz que juntou, o “núcleo duro” dos graduados, no Restaurante D. Sancho, perto da Curia. A partir dali, procuraram-se contactos, através do “passa a palavra” e de anúncios em jornais (JN e Bola). Então, reunimos em Crestuma 2 ou 3 vezes, mas o número de presenças não evoluía. A malta havia seguido a sua vida, após a chegada da guerra e dispersou-se, inclusive pelo estrangeiro.

Alguns camaradas, chegados da África do Sul, da Alemanha e da França, procuraram os amigos que nunca mais viram. Nessa altura, destacámos o entusiasmo do Sá, do Peixoto e do Netinho que, apoiados pelo Miranda, conseguiram aumentar significativamente o número de participantes nesses encontros anuais. Depois entrou em cena o “Póvoa” (José Ribeiro) que, graças à sua dedicação e capacidade organizativa, atingiu-se um grau de excelência, nesses eventos.

Como a malta da CART 1689 é, quase na sua totalidade, oriunda do norte, não admira que os encontros se tenham feito cá para cima. Todavia, devemos realçar o grupo de “Lisboetas” que tem sido verdadeiramente exemplar. E foi por isso que organizámos um encontro na Cova da Piedade, para onde fomos de autocarro. Por influência do Borges das Transmissões (aquele “técnico” que se propôs recuperar o barco ”Tolan”, virado no Tejo), fomos à sua terra, lá nos arredores de Seia. Também já fomos à Guarda por “exigência” do Saraiva, grande entusiasta destes encontros. Cabe aqui realçar os nomes de Seixas, Mendes, Ferreira, Vilela e Azevedo que têm assegurado a continuidade destes convívios. Estou a lembrar-me de encontros em Amarante, Esmoriz, Maia, Famalicão, Ermesinde, Gaia, Póvoa de Varzim, Felgueiras, Braga,

Assim, pelo menos uma vez por ano, por altura do 26 de Abril, voltamos a ver-nos e… voltamos a afastar-nos. Sim, a afastar-nos. É que o número de participantes vai diminuído, seja por incapacidade física, menos interesse ou por ausência forçada devida a… mobilização definitiva para as bandas do Além.

Na igreja da Falperra. Valente e Miranda em primeiro plano - Foto de Dália Carneiro 

Na concentração deste ano de 2016, beneficiámos de uma óptima organização do Ferreira de Braga. Fomos à missa à Igreja da Falperra, passámos pelo Sameiro e pelo Bom Jesus. Fomos participar num verdadeiro banquete lá para os lados de Póvoa de Lanhoso. O convívio decorreu maravilhosamente(!). Deu para falar com toda a gente, fossem camaradas ou seus familiares. E deu para recordar/estender/repetir/adulterar (involuntariamente, devido à degradação dos neurónios – ou pelo decurso do tempo ou pelo álcool ingerido) as histórias do costume. Tirando uma ou outra discussão provocatória de (pretensos) divisionistas da Pátria (entre Norte e Sul) ou alimentadores da eterna rivalidade futeboleira, tudo funcionou em ambiente cada vez mais tolerante e mais amistoso.

Silva e Miranda juntos da bandeira d”Os Ciganos” - Foto de Dália Carneiro 

Durante esses relatos, notei que muitos já andam muito longe da verdade dos factos guerreiros ocorridos, deturpam-nos (involuntariamente), inventam histórias e outros… não se lembram de nada. É a vida!

Entre outras conversas, ouvi quem afirmasse que num ataque a Cabedu, se disparam umas cento e tal granadas de morteiro 81. (Será que havia assim tantas granadas no quartel?) Outro disse que vira um Furriel a tentar fazer fogo com um outro morteiro, apoiando-o nas costas de outro Furriel. E, como lamento da morte de um Alferes (que morreu devido a ferimentos nesse ataque, atingido dentro do abrigo mais seguro – o das transmissões), lembrou a sua bravura por ter vindo para a parada expondo-se ao fogo IN, apoiando a resposta ao ataque.

Também assisti às dúvidas de um Furriel, afirmando que a viagem do Norte para Lisboa não podia ter sido feita numa só noite, porque o comboio, naquele tempo, andava muito devagar. Portanto, segundo ele, a saída de Viana do Castelo fora no dia 25 de Abril e não na madrugada do próprio dia 26, dia do embarque no Uíge.



Desta vez, nem o Capitão Maia, nem o Alfero Branquinho apareceram. Foi a vez de alguns Furriéis botarem palavra.

Cheguei a ouvir um Furriel afirmar que o seu Alferes não estivera na OP da implantação do novo quartel de Gandembel, quando, afinal, esteve todo o tempo. E que, ele mesmo, em dado momento, chegara a comandar o Batalhão.

Enfim, um exemplo de afirmações que nunca ouvira antes. Não sei se a malta já está afectada por problemas de saúde ou é consequência de… medicação. A verdade é que se nota, cada vez mais, que alguns já acusam muito esquecimento, muita deturpação e muito cansaço cerebral.

De repente, como se estivesse ao espelho, sinto um calafrio e pensei:
- Será que eu também já estou afectado? Não, não pode ser.

A certa altura, abeirei-me do Valente, que eu havia ido buscar a Oliveira de Azeméis e que já não pode conduzir viaturas em virtude de um acidente sofrido numa pescaria na Barragem de Castelo de Bode, e perguntei-lhe:
- Está tudo bem? Porque estás tão calado?
- Olha, Silva, desta vez estou para aqui a observar a malta e verifico que o nosso fim está próximo. Lembras-te de quantos homens tinha a nossa Companhia? 153! - Sabes quantos estão aqui? 19! A maioria são familiares e a gente nem repara. Cada vez vêm mais familiares a acompanhar-nos, e sabes porquê? Porque nos vêm trazer e amparar. Andam a dar-nos as últimas alegrias.

Logo o tentei animar:
- Deixa-te de merdas, a malta está contente, vê se pensas em coisas boas e se tratas do “isco especial”, para voltarmos a pescar.

O Grande Valente, numa “bolanha do vale do Mondego” prepara-se para dar mais uma aula de bem pescar ao colega/amigo/vizinho Silva, companheiros de grandes lutas pela honra e dignidade dos militares da Cart 1689. 

Com o Valente nas pescarias do Douro - Porto Antigo

Durante a sobremesa, o (político) experimentado Cepa, como sempre, manifestou a sua preocupação quanto ao “sacrificado” para a organização do próximo encontro. Para isso, fala-se com o “Póvoa”, para dar o seu habitual apoio e a sua prestimosa opinião. Seguem-se algumas trocas de palavras e “democraticamente” chega-se à conclusão de que o Seixas nos quer de novo em Felgueiras. Ninguém o contraria, nem as razões históricas do meio século da nossa saída de Viana do Castelo, alteraram a decisão. O Cepa acrescentou algumas palavras de afecto aos resultados do escrutínio. Felicitou os camaradas da guerra e, mais uma vez, desejou o melhor para todos os presentes.

De seguida falou o Miranda. Logo um sinal de que já estava “tocado”. (Pudera, sem sua Mulher Maria José a travá-lo e com a Filha Dália a fazer de condutora privativa, estava em roda livre). Quis exteriorizar toda a sua amizade ao grupo mas, sempre polémico e, em tom de brincadeira, claro, acabou lançando as mesmas farpas que tanto ocupavam os velhos tempos de caserna. E já gritava:
- “Abaixo os benfiquistas”, “morte aos mouros”, “o culpado foi Afonso que não tinha nada que ir conquistar Lisboa”…

Para que a coisa não aquecesse mais, tentei que ele mudasse o discurso de impropérios divisionistas e logo me acusou:
- Tu, cala-te que também és meio mouro, porque Crestuma fica do lado de lá do Rio Douro.

O que valeu foi que os incomodados da Cova da Piedade, de Massamá e de Loures atiraram-se a ele e levaram-no para junto do Bar.

Tive então a oportunidade de dizer alguma coisa. As palavras do Valente encaixaram na minha mente e parecia que não fugiam. É que também me vieram à cabeça as dificuldades que passei este inverno, com a deficiência respiratória que me tem atacado e com o AIT que sofri.
Pedi a intervenção e logo me emocionei. Assaltou-me essa ideia pavorosa de que me poderia estar a despedir. E, por outro lado, olhava para todos e pensava: Quem dentre eles poderá não estar cá no próximo ano? 

Dominada a comoção, cuja razão não poderia exprimir, corri com os olhos todos os presentes naquele salão.

“Caros camaradas, 
É com grande prazer que reunimos hoje mais uma vez. Já o fazemos há uns anitos. Convivemos abertamente, sentindo-nos regressados àqueles tempos da nossa juventude. Até parece que voltamos a ter os tais vinte e tal anos. 
Tempos em que fomos espremidos e postos à prova extrema de todas as nossas capacidades. 
Tempos em que cimentámos a nossa solidariedade e a nossa amizade. 
Reparo que continuamos a olhar lá para longe, onde irmanados, vivemos os anos mais importantes das nossas vidas. São essas as sensações que ainda nos unem e que nos levarão até à morte. 
Reparo também que já somos poucos, e que, possivelmente, não nos iremos encontrar muitas mais vezes. 
Por isso, caros amigos, se me permitem um conselho de um dos mais velhos, vamos olhar mais para quem vive ao nosso lado. Olhar mais para quem sempre olhou por nós. Quem sempre nos acompanhou, nos tolerou e nos amou. 
Julgo que ainda poderemos retribuir o amor e a atenção a esses entes mais queridos. 
Eles bem o merecem!” 

Brindámos, comemos o último pedaço de bolo e abraçámo-nos, mais que nunca. Notei que havia lágrimas naqueles sorrisos de alegria. Alguns abeiraram-se de mim e incentivaram:
- Força Silva, para o ano cá estaremos!

Mas houve quem me segredasse:
- Ó Silva, sei bem onde você queria chegar. O nosso fim está próximo.

Pensei, falando comigo mesmo: "Pode ser. Mas, depois, depois, tudo continua… nas cenas dos próximos capítulos".

Silva da Cart 1689
____________

 Nota do editor

Último poste da série de 23 de maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16125: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (24): Memórias de guerra ou guerra de memórias?

7 comentários:

josé Pereira disse...

Grande Ze ,adorei mais um dos teus artigos.Afinal,como dizia o outro teu camarada,ja estás para ca do rio douro,portanto mais respeitinho pelos "mouros".Claro que serás sempre o nosso "morcão"fixe.Afinal essa palavra ja faz parte do dicionario do Porto
Olha meu caro,deixa-te de merdas,como tu gostas de dizer,e vivamos a vida no presente e não pensarmos em coisas que poderão surgir. A vida é bela.......viva a amizade.
Um abração
Ze de lamego.

Jorge Portojo disse...

Sigamos em frente até onde der. Um abraço Zé e a toda 1689.

Anónimo disse...



Oh Zé Silva! Escreveste tão bem, com arte e com humor como só tu sabes, mas vai-te fornicar, para quê essa teu regresso, em itálico, ao ventre materno e familiar, como quem se despede das raízes, com culpas do tempo esbanjando com bandalhos e vagabundos como tu. Serás um mouro renegado, um cristão arrependido ou um um judeu disfarçado atrás desse nariz que te denuncia. Até amanhã e que o Fernando Pessoa te inspire, para me dares uma boa resposta.
Um abraço. Francisco Baptista

jteix disse...

Só agora fiquei a saber que o Sr. Silva era "cigano" e "meio mouro", sem desprimor para os ditos!... Um abraço Zé Ferreira, vou plagiar este teu discurso, para um encontro da minha Companhia, ou quem sabe... do Bando, é rigorosamente aquilo que penso, mas sem saber dizê-lo!...
cumprim/jteix

José Botelho Colaço disse...

Gastarem-se cento e tal granadas numa noite durante um ataque a Cabedu não me surpreende porque os relatórios enviados para o comando de sector nem sempre eram reais e diziam por exemplo que durante certo ataque gastaram-se 50 granadas quando na realidade se tinham gasto só 20,
Cito um exemplo real que se passou na minha companhia caç. 557 e o pelotão de morteiros 912 num ataque ao quartel do Cachil Ilha do Como na noite de 16 de Novembro de 1964 nessa noite em resposta ao ataque ao quartel foram gastas 216 granadas só de de morteiro 81 se não tivesse-mos esse material em reserva embora clandestino possivelmente hoje não estaria aqui escrever este comentário. Como é do conhecimento geral este procedimento era e penso que é punível como crime de guerra caso o comando viesse a conhecer.
Um Ab Colaço.

José Ferreira disse...

Caros amigos

Por imposição do Francisco Baptista, vi-me obrigado a ir procurar o Sr. Pessoa. Já tinha morrido, mas deixou uma frase na porta:

"Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre."

No regresso a casa encontrei outra Pessoa, a D. Albertina, que me disse:
- Olha Zeca, o mundo é muito cruel. Quer queiras ou não, mais tarde ou mais cedo e quando menos esperas, "bais co caralho". Por isso, come bebe e f fotografa enquanto cá andares, porque este mundo são dois dias e um dia e três quartos já foram "prós Carvalhos" .
Abraço
JF Silva

Hélder Valério disse...

Caro Silva

Li, li e reli.
Devagar, mastigando as palavras, as ideias subjacentes e também 'antevi' o futuro próximo.
Claro que a 'marcha da vida' é inexorável.
Que, por isso, o "efectivo" irá sempre diminuindo, mas deve-se sempre ir teimando em manter estas sessões de terapia revitalizante.

Ah, e está muito bem escrito!

Hélder Sousa