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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27671: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (13): a morte do pastor alemão que salvou a vida de homens e… a minha perna direita!


Guiné _ Região de Tombali > Cufar >  CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67.> Cão de guerra, o "Cadete". Foi formada pela CCAÇ 763 uma secção de caés de guerra, de que o "Cadete" era o chefe. Uma experiência única no CTIG. (*)

Foto (e legtenda) : © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.
 


(

Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72;
(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;
(iii) tem já 130 de referências, no nosso blogue;
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje;
(v) é professor de educação física, reformado;
(vi) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas;
(vii) tem página pessoal do Facebook;
(viii) é autor do livro "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).



Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (13):   a morte do pastor alemão que salvou a vida de homens e… a minha perna direita!

por Jaime Silva


Eu não esqueci a única operação do meu pelotão com a ajuda de um cão de guerra (pastor alemão). Foi no Norte de Angola,  na zona dos Dembos.

Após saltarmos dos Hélis, progredimos e, pouco depois, somos confrontados com uma emboscada. Reagimos, tiroteio, silêncio, fase de expetativa e foi o momento de decidir também a atuação do cão:

– Buscs, busca, ataca, ataca ! – ordena o tratador.

Enquanto aguardávamos pelo regresso do cão, protegi-me atrás de uma árvore e, quando olho para o chão, vejo, mesmo encostado ao meu pé direito uma mina antipessoal meia destapada…. Presumivelmente, teria sido pisada pelo cão, aquando da perseguição aos guerrilheiros. 

Entretanto, montámos segurança ao local e o comandante da Companhia, experiente, levanta-a, retira-lhe o detonador, guarda-a no bolso…E continuámos a progressão para assaltar o objetivo.

Já perto da base, o cão deteta uma emboscada e investe sobre os guerrilheiros e no tiroteio é atingido mortalmente. 

á me tinha salvado o pé direito e salvou, certamente, a vida dos paraquedistas que progrediam na frente do pelotão!

De acordo com as normas, o tratador cortou-lhe uma orelha como prova da morte do animal em combate, no regresso ao Batalhão. (**)

Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pág. 94.

(Revisão / fixação de texto, título: LG)


2 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

São sempre muito humanos, sensíveis e comovente estes testemunhos do Jaime, de resto ilustrativos das realidades vividas por tantos de nós durante a Guerra Colonial.

A história,. sucinta, do pastor alemão que salvou vidas, incluindo possivelmente a perna direita do Jaime, é um exemplo tocante do papel que os cães de guerra desempenharam em situações extremas.

Eu não sabia que o BCP 21 tinha cães de guerra. No nosso blogue, temos dois testemunhos, o do Mário Fitas e do João Sacôto, no sul da Guiné, logo nos primeiros anos da guerra. E agora o do Jaime, no norte de Angola (c. 1970/72).

A descrição da emboscada, da mina antipessoal, e do sacrifício final do cão em combate é um relato que fica na nossa memória.

Não é demais destacar o livro do Jaime, meu amigo, "mano", camarada e conterrâneo, que eu tive o privilégio de prefaciar "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial"... É mais uma das muitas obras que os antigos combatentes têm escrito, e que encontram no nosso blogue, há mais de 20 anos (!), um espaço condigno, atento, solidário e generoso, para a sua divulgação.

Acresce o facto de o Jaime ter sido autarca, professor de educação física, treinador de andebol e agora autor, e de quem se pode apontar como exemplo de que como a experiência da guerra marcou toda uma geração e se estendeu para além do teatro de operações (Angola, Guiné ou Moçambique), influenciando a vida cívica e cultural de muitos de nós.

Uma geração que dá muito valor à paz, à memória, à dignidade, à liberdade. E que se recusa, mesmo 50 anos depois, a ser instrumentalizada como arma de arremesso da luta político-partidária.

J. Gabriel Sacôto M. Fernandes (Ex ALF. MIL. Guiné 64/66) disse...

Obrigado Luis Graça. Um forte abraço, JS