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sábado, 17 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P26744: E as nossas palmas vão para... ( 29): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convívivas na festa do 16º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algès, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte I

 

Foto nº 1 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > O bolo... Não podia faltar...16 anos, bolas, bolos!, são 8 comissões de serviço na Guiné!... Compareceram 73 convivas dos 76 inscritos!... Algumas caras novas, como sempre... O que é bom: a Tabanca da Linha está viva e recomenda-se.


Fotio nº 2 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63ºalmoço-convívio > 16º aniversário > O António Graça de Abreu, de microfone em punho, falando em nome dos cofundadores da Tabanca da Linha, em 2010...Além  dele, estavam ali o Zé Carioca (à esquerda) e o Mário Fitas (à direita)...  Não consegui ouvir o "discuro", mas por certo foram evoados os nomes dos dois anteriores régulos, já falecidos, o Jorge Rosales e o Zé Manuel Diniz.

O camarada que está em primeiro plano, de perfil, é um "periquito", fez 200 km de Penamacor até Algés para estar connosco: palmas para ele (não vem na lista o seu nome e eu,q ue estiva a falar com ele, não retiveo nome)


Foto nº 3 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63ºalmoço-convívio > 16º aniversário > O bolo foi regado um velhinho uísque de malta, oferecido pelo  Victor Luz (Setúbal)... Não, o António Graça de Abreu não está a leiloar a garrafa...Deu 73 goles...


Foto nº 4 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63ºalmoço-convívio > 16º aniversário >  "Strathconon" ("a belend of single malt scotch whiskies"), dauqle que vinha "From Scotland with Love for the Portuguese Armed Forces"...
Obrigado,  Victor Luz!


Fotio nº 5 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63ºalmoço-convívio > 16º aniversário > Cantaram-se os parabéns a você... Ao centro, o Victor Luz, o António Marques (outro histórico da Tabanca da Linha) e  o Mário Fitas.

Foto nº 6 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > Um homem discretíssimo, "low profile", de quem nunca se fala, a não ser do rodopé ou  legenda da fotogaleria, por causa dos créditos fotográficos: é que ele é o régulo, o administrador, o secretário, o tesoureiro, o organizador, o "public-relations", o  fotógrafo,  o editor do Facebook da Magnífica... Manuel  Resende ( à direita),  e o seu ajudante de tesouraria (desta vez o José Rodrigues, de Belas).   

Fotio nº 7 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63ºalmoço-convívio > 16º aniversário > A mesa do canto direito, com vistas, largas, para o estuário do Tejo...

 
Foto nº 8 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Da esquerda para a direita, Abílio Duarte (Amadora), um "periquito" (antigo alferes dos "Lacraus", a CART 2474 / CART 11, a que pertenceu o Abílio, e com quem eu também estive em Contuboel, junho/julho de 1969)(Alpoim Almeida Ribeiro, se náo erro.)


Foto nº 9 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  O Luís Paulino, à diierta: nunca falha,k quer faça sol ou chuva...Quemn desta vez falhou foi o Manuel Macias, também ele um "Lacrau"... Estava de "férias" da Trumplândia...



Foto nº 10 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > Da esquerda para a direita,  Daniel Gonçalves (Carcavelos), Joaquim Grilo Almeida (Lisboa) e Adolfo Cruz (Algés).


Foto nº 11 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Da esquerda para a direita, João Rosa (Lisboa), António Andrade (Oeiras) e Daniel Gonçalves (Carcavelos)... Também eles nunca costumam falhar à chamada.

Foto nº 12 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Mesa com direito a reserva e onde se sentou o casal Crisóstomo (que partia no dia seguinte para Nova Iorque)


Foto nº 13 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Vilma e João Crisóstomo

Foto nº 14 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário >  Luís Graça (Lourinhã, e editor deste blogue) e Vilma Crisóstomo (Nova Iorque)

Foto nº 15 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > Joaquim Pinto Carvalho  (Cadaval) e o Luís da Cruz Ferreira (o "Beatle"), autor do livro de memórias "Os Có Boys" (ed. autor, Cascais, 2025, 184 pp., de que ele trouxe uns tantos exemplares para divulgação).


Foto nº 16 > Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 14 de janeiro de 2026 > 63º almoço-convívio > 16º aniversário > Da direita para a esquerda, Manuel Leitão (Mafra), o filho Pedro, e o João Rebelo (Lisboa) ( O Manuel Calhandra Leitão foi 1º cabo, Pel Mort 1028, Enxalé, 1965/67; é membro  nº 867 da Tabanca Grande; aparece quando também o João Crisóstomo vem).

Fotos: © Manuel Resende  (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legtendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Cascais > São Domingos de Rana > Adega Zé Dias > 14 de janeiro de 2010 > Uma foto histórica... Alguns dos 10 magníficos que fundaram a Magnífica Tabanca da Linha (sete dos quais membros da Tabanca Grande): da esquerda para a direita: 

(i) Zé Dias (dono do restaurante);

(ii) António Fernandes Marques (ex-fur mil at inf, CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1969/71); 

(iii) José Manuel Matos Dinis (1948-2021) (ex-fur mil at inf, CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71) (foi coorganizador de muitos dos convívios posteriores, juntmente com o Jorge Rosales); 

(iv) Manuel Domingos ( falecido logo a seguir, nesse ano, era do Batalhão do Rogério Cardoso, era fadista amador com prémios); 

(v) Rogério Cardoso (ex-fur mil art, CART 643 / BART 645, Bissorã, 1964/66); 

(vi) António Graça de Abreu (ex-alf mil, CAOP1, Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74);

 (vii) José Carioca (ex-fur mil trms e cripto, CCAÇ 3477, Gringos de Guileje, Guileje, 1971/72);

 (viii) Jorge Rosales (1939-2019 (ex-alf mil da 1.ª CCAÇ, Farim, Porto Gole e Bolama, 1964/66) (foi o primeiro régulo da Tabanca da Linha); 

e (ix) Zé Caetano.

Falta o Mário Fitas (ex-fur il op esp, CCAÇ 763, Cufar, 1965/66) (que deve ter sido o fotógrafo)

Foto (e legenda): © Manuel Resende (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Eu acho que o Manuel Resende ainda vai ter saudades desta azáfama toda, desta saudável excitação, deste "eustress" (ou stress bom),  que é chamar a capítulo a Magnífica Tabanca da Linha, de dois em dois meses, para fazer prova de vida e marcar presença no Restaurante Chave d'Ouro, em Algés, e ocupar todo o 2º piso com vistas esplêndidas sobre um rico pedaço do nosso querido Portugal...

Vai ter saudades, sim, senhor,  quando, chegada a idade-limite  dos 100 anos (para os régulos), ele tiver mesmo que se reformar por imperativo legal...

As minhas, as nossas, palmas, vão antes de mais para ele, que logo no princípio do ano de 2026 conseguiu, com a eficiência e a discrição do costume, organizar mais este convívio... especial, porque foi festa de aniversário da Tabanca.

(Continua)

(Seleção, edição e legendagem das fotos: LG)




Lista dos 76 inscritos no 63º almoço-convívio. Compareceram 73.

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Nota do editor LG:

Último poste da série >11 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P26726: E as nossas palmas vão para... (28): A Magnífica Tabanca da Linha que comemora 4ª feira, dia 14, 16 anos de existência... (De "menino da Linha" a "Magnífico" vai uma grande distância... Saibam como: podem ainda inscrever-se, até ao final de 2ª feira, no próximo 63º almoço-convívio)

Guiné 61/74 - P27643: Os nossos seres, saberes e lazeres (718): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (239): Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 6 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Ando por aqui sempre com a sensação de uma visita de médico, a visita à Mesquita era ponto obrigatório, as escolhas subsequentes, caso do alcázar dos reis católicos, a judiaria, os museus, os bairros típicos, preferiu-se optar por um passeio descontraído depois da visita à Mesquita e reservar a manhã seguinte, antes de partir para Tavira, ao bairro de Santa Marina e visitar cuidadosamente o Palácio de Viana, uma casa senhorial com surpreendentes jardins. Tudo começou andando à volta da Mesquita, contemplou-se o Pátio das Laranjeiras e com roteiro na mão percorreram-se as sucessivas etapas de construção entre os séculos VIII e X. Para surpresa do visitante há uma brochura em português que delineia o faseamento da construção, mostrando as sucessivas ampliações, as portas, tudo começando, como se procurou aqui mostrar na Mesquita fundacional de Abderramão I, que adota em planta um modelo basilical inspirado nas de Damasco e Jerusalém. Não deixa também de surpreender a reutilização de materiais onde não falta inspiração helenística, romana e visigoda. Pois vamos continuar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (239):
Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 6

Mário Beja Santos

Córdova, durante o período do domínio romano, foi capital da Bética, uma das cidades mais importantes da Península Ibérica. Com a conquista árabe, converteu-se na cidade mais cosmopolita e refinada do ocidente. O legado romano foi enorme, em Córdova surgiram figuras de grande estatura como Séneca, o Retórico, e seu filho, o filósofo estoico e percetor de Nero, Séneca, bem como o poeta Lucano. Córdova foi conquistada em 711, os emires residiram na cidade desde 711. Em 755, Abderramão I, o único sobrevivente Omíada da matança ordenada pelos Abássidas, criou o Emirato independente, não reconhecendo a Bagdade mais do que a supremacia religiosa. No século IX, durante o reinado de Abderramão II haverá um grande florescimento cultural. Em 929, Abderramão III proclama o Califado de Córdova, com independência total. É um tempo de paz e prosperidade que favoreceu um esplendor cultural sem precedentes. Reina a tolerância religiosa permite às cultural judaica, cristã e muçulmana um convívio pacífico. Córdova torna-se na grande capital de todo o ocidente. A sua população chegou a superar os 250 mil habitantes, havia 3 mil mesquitas, uma infinidade de lojas e banhos, teve universidade, bibliotecas, edifícios sumptuosos.

No século XI deram-se intensas lutas internas que desembocaram na dissolução do Califado, surgiram os chamados Reinos de Taifas. Destacaram-se muitas personalidades neste período tanto no campo científico (caso da astronomia, matemáticas e medicina), como no filosófico, em que os nomes mais salientes foram o muçulmano Averróis, um comentador muçulmano da obra aristotélica, e o judeu Maimónides, filósofo e médico.

Em 1236, Fernando III, o Santo, reconquistou Córdova, mas a presença muçulmana tornou-se inextinguível, com destaque para a Mesquita, a cidade continua marcada por uma urbanização de cunho árabe.

A Mesquita-Catedral atrai todos os anos milhões de turistas, vêm procurar contemplar um monumento único no mundo. Sobre a basílica visigótica de São Vicente erigiu-se entre os séculos VIII e X a Mesquita tal como a conhecemos. Depois da Reconquista, os cristãos enxertaram uma catedral gótica, e daí o visitante contemplar um edifício tão heterogéneo, formado por dois oratórios completamente distintos.

Uma breve síntese das imagens que se seguem. Vou caminhando em direção à Mesquita, passo por duas belíssimas portas do lado direito e entro num edifício que hoje dá pelo nome de Palácio de Congressos e Exposições, antigo hospital.

Uma das entradas para a Mesquita-Catedral de Córdova, Património da Humanidade desde 1984, a sua construção original começou em 784 d.C., tinha na base uma basílica visigótica.
A imagem mostra uma estátua de Dom Quixote sentado numa pilha de livros, localizada no pátio do Palácio de Congressos de Córdova.
Retábulo da capela do antigo hospital de São Sebastião em Córdova, a capela foi concluída em 1516, atualmente, o edifício do antigo hospital funciona como o Palácio de Congressos e Exposições de Córdova.
A imagem mostra uma porta de entrada arqueada para a Mesquita-Catedral de Córdova, apresenta uma mistura única de estilos arquitetónicos islâmicos e cristãos, refletindo a sua história de conversão de mesquita para catedral.
Já estou no interior desta obra-prima da arte muçulmana, a sua planta responde ao esquema tradicional da Mesquita árabe que tem a sua origem na casa do profeta Maomé em Medina: um recinto retangular fechado, um pátio de abluções, a sala de orações e um minarete. Abderramão I iniciou a construção da Mesquita com 11 naves que se abrem ao Pátio das Laranjeiras. Na sua construção utilizaram-se colunas de mármore e capitéis de edifícios romanos e visigóticos. Com o objetivo de elevar o conjunto recorreu-se à sobreposição de dois pisos de arcos, dispondo-se as colunas com um segundo piso com pilares, solução de grande originalidade Abderramão II fez a primeira ampliação, Al-hakam II voltou a ampliar e construiu o Mihrab (é um nicho em arco ou reentrância na parede de uma mesquita que indica a Qibla, isto é, a direção de Meca). Por último, Almansor acrescentou 8 naves paralelas às primeiras (reconhecem-se porque o pavimento é de cor vermelha, deu-lhe as dimensões definitivas.

Estou no Pátio das Laranjeiras, tem este nome devido às laranjeiras plantadas pelos cristãos depois da Reconquista. Os muçulmanos antes de iniciar as suas orações deviam realizar abluções na fonte do pátio. Vejamos agora o Minarete, o ponto alto destinado ao chamamento para a oração. Abderramão III foi quem ordenou a construção do minarete monumental de 47 metros, o que testemunha a grandeza do autoproclamado Califa. Foi modelo para a construção posterior de famosos minaretes, como os de Sevilha, Marraquexe e Rabat. Embutido na torre do campanário, pode ver-se a sua estrutura e decoração no interior.

Em 1589, um terramoto afetou gravemente a estabilidade do minarete a que se havia acrescentado um corpo superior de campanário. No Pátio das Laranjeiras pode observar-se o que terá sido o primitivo minarete.
Começa aqui o espetáculo surpreendente, contraste entre os elementos cristãos e o bosque de colunas e árvores. Logo chamo a atenção a cor e as sombras, a formosura dos arcos em ferradura (herança visigótica) apresentam uma alternância de aduelas vermelhas e brancas. Esta bicromia enriquece com as tonalidades dos fustes das colunas em que predominam os tons acinzentados e róseos.
Inicia-se a visita pela zona mais antiga da construção, passamos pela nave central da primeira Mesquita e ainda não se consegue ver o mihrab. As naves correm perpendiculares ao muro da quibla é nesta direção que se orienta o muçulmano a rezar, é o muro voltado para Meca. Não deixa de surpreender a magnificência da decoração onde não existe a figura humana, devido aos preceitos religiosos muçulmanos, daí os artistas terem desenvolvido ao máximo os elementos decorativos de inspiração vegetal ao geométrica.
Numa zona reservada a peças soltas de inestimável valor, destaquei uma placa de pedra esculpida com um padrão de rosetas e círculos entrelaçados.
O teto de caixotões de madeira restaurado na imagem é do interior da Mesquita-Catedral de Córdova, apresenta intrincados padrões geométricos e caligráficos, típicos da arte islâmica e mourisca.
Uma fascinante mistura de arquitetura mourisca e elementos cristãos, como se pode ver na rosácea.

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 10 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27623: Os nossos seres, saberes e lazeres (717): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (238): Ver a Alhambra por um canudo, visitar o Palácio de Carlos V e partir para Córdova - 5 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27642: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IV: Vigiar e punir


Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025).

Será capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69), 
e autor do livro de cariz autobiográfico "Francisco Caboz:  a construção 
e a desconstrução de um padre" (2009)


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que durante a guerra colonial será capelão militar. 


No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz,  seu "alter ego".  Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 págunas, a duas colunas,  cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, aos 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos três postes anteriores  já publicados(*), ele apresentou-nos, 
sucintamente;

(i)  a sua terra natal,  "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa  decisão.

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo (um sistema de poder disciplinar onde se vê sem ser visto, onde a visibilidade e a vigilância constante, mesmo que potencial, levam à internalização e à normalização do comportamento, o que é favorecido pela própria arquitetura; o indivíduo, neste caso, o "angélico", o aluno do seminário menor, age corretamente por se sentir sempre observado, mesmo sem um vigilante visível, o Prefeito omnipresente, omnisciente e omnipotente como Deus, cujo papel é "vigiar e punir", promovendo assim o autocontrolo e a aparente conformidade com as regras instituídas; o panoptismo é comum a colégios internos, seminários, conventos, prisões, reformatórios, hospitais psiquiátricos, quartéis, etc.)

É uma história de vida, sofrida bem dura, em tempos muito difíceis (antes, durante e depois da II Guerra Mundial), que merece ser conhecida dos nossos leitores. O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4ª classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio  seráfico, a que ele chama "angélico").

A maior parte de nós, que nasceu já 10 ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica  

Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)

O nosso camarada e amigo Horácio Fermandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre em 1959,  antes de completar os 24 anos.  Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959. 

Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969), tendo terminado a sua comissão no HM 241 com uma crise de paludismo. Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006 doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavós,  paternas, nascidas na década de 1860, eram irmãs, e pertenciam ao clã dos Maçaricos (Ribamar, Lourinhã).

A história de vida do Horácio é a de muitos de nós, que fizemos o percurso clássico de mobilidade social através da educação, num Portugal rural e pobre dos anos 40/50/60.  

Os seminários regulares e diocesanos foram uma estratégia de sobrevivência e ascensão social para jovens de origens humildes, que não tinham acesso ao sistema de educação, elistista, e socioespacialmente segregado, do Estado Novo (liceus que só existiam nas capitais de distrito e univerdades, apenas 3,  localizadas em Lisboa, Coimbra e Porto).


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IV: Vigiar e punir

por Horácio Fernandes

4.1.2. Antes de vir para o Seminário, era castigado, sobretudo pelo meu pai que exercia o poder de punir, poucas vezes, mas, quase sempre, deixando marcas bem visíveis. 

Contudo, tinha a minha mãe que funcionava como almofada protectora das iras de meu pai. Com ela, podia negociar: fugia para o fundo do quintal, fazia mil juras de não tornar a partir a garrafa de petróleo, ou não deixar as minhas irmãs sozinhas e ela prometia não dizer nada a meu pai. 

No Seminário, porém, não havia lugar a diálogos. O Prefeito tinha sempre razão. Eu nunca vi um Prefeito pedir desculpa ao angélico. Se o Prefeito ouvia barulho, perguntava quem estava a falar. Se ninguém se acusava, imediatamente corria todos à bofetada ou à reguada. Levavam culpados e inocentes.

Eu tinha de estar em vigilância permanente e arranjar todos os subterfúgios para não ser castigado. Havia, contudo, uma situação traiçoeira, em que fui apanhado várias vezes: nos longos estudos de duas horas, em absoluto silêncio, esgotava-se a paciência do Prefeito que vigiava o amplo salão e a dos alunos desejosos de irem para o recreio. Cansado de estar no seu altaneiro cadeirão, o Prefeito vinha refugiar-se num pequeno cubículo, onde havia uma telefonia e alguns livros, mas de onde podia visionar todo o salão de estudo, sem os alunos se aperceberem. 

Era a hora da descontracção para nós que começávamos a cochichar uns com os outros, julgando que não estávamos a ser observados. Porém, havia uma cortina vermelha a cobrir a porta que dava para o salão e o Prefeito podia através dela observar tudo, sem ser visto pelos alunos. Quando menos se esperava, ouvia-se uma porta abrir e uma voz bradar:

- Quem está a falar, vá para a frente de joelhos!

Era o toque a rebate. Os mais desprevenidos encaminhavam-se para a cabeceira do salão, onde presidia o crucifixo e a pesada régua, escondida na mesa da secretária. Esperava-nos o Prefeito com o manto tirado e mangas arregaçadas. Um a um, subíamos os três degraus do estrado, onde nos esperava meia dúzia de reguadas que faziam estremecer o salão, até o Prefeito esgotar as forças, ou descarregar a bílis.

Mais tarde, comecei a aprender com os mais sabidos.

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Se se levantassem os mais velhos, ou algum mais amigo do Prefeito, também ia, pois sabia que ia ser perdoado. Se não, ficava sentadinho a fazer que estava em profunda reflexão, até a tempestade acabar.

Recordo-me de algumas vezes estar a perguntar alguma coisa ao colega e, antes de reparar, caía uma bofetada em cima, com toda a força, que nem tinha tempo de me voltar. 

Na escola primária, ainda sabia porque apanhava. Era por não saber as lições. No Seminário, estava ao sabor da boa ou má disposição do Prefeito, que, ora era severo, ou perdoava, quando falávamos nos recreios, depois de apitar segunda vez para dentro, na formatura, nos corredores, na camarata, no estudo, no refeitório, na igreja ou na sala de aula à espera do professor. 

Aconteceu até, algumas vezes, que as bofetadas eram tão violentas, que afectavam a audição, tendo um colega meu de se sujeitar a tratar por causa disso.

No 3º ano fui acusado de escrever palavras obscenas no papel higiénico das casas de banho do salão de estudo. O Prefeito, depois de um exame minucioso aos cadernos, obrigou-me e a mais três colegas a escrever, dezenas de vezes, palavras com as mesmas letras, na sua presença. 

Por fim, mandou em paz os meus colegas, mas repetia a acusação contra mim. Baseava-se na semelhança da minha letra com a dos escritos e por diante dele fazer sempre letra diferente, sinal de que estava a mentir.

Como continuasse a negar, mandou-me um sábado e domingo para a enfermaria, separado dos outros, o que, para mim, era sinal de que ia ser expulso. Na segunda feira, o filho do trolha que continuava a trabalhar nas casas de banho com o pai, ao ser interrogado, confessou que foi ele. Pois nem uma desculpa. Fui chamado à prefeitura e deram-me a notícia de que afinal foi engano e podia juntar-me aos outros.

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4.1.2.- Os rituais da punição

Para os Prefeitos a mínima falta ao Regulamento do Colégio era considerada uma ofensa a si próprios. Não eram eles que aos sábados liam enfadonha e sistematicamente todos os deveres dos angélicos?

Havia, contudo, uma hierarquia de faltas que era punidas severamente. Alguns colegas de Francisco foram inapelavelmente mandados embora diante de todo o Colégio reunido ad hoc. Depois de exposto com as cores mais negras o terrível crime cometido, eram mandados com toda a solenidade para a enfermaria como se estivessem leprosos, até que o pai os viesse buscar.

Francisco lembra-se de alguns destes crimes: um teve o atrevimento de ler em férias o «Amor de Perdição». Outro comprou uma revista às escondidas, quando foi ao médico com o irmão enfermeiro. Outro comprou um jornal e outro atreveu-se a ler a revista brasileira «Cruzeiro» que um padre lhe passou e outro colocou no correio uma carta para que os pais o viessem buscar, sem que o Prefeito a lesse.

O Regulamento era peremptório: Toda a correspondência e quaisquer escritos tinham de ser lidos pelo Prefeito. Escrever para pessoas do sexo feminino, ainda que fossem de família era proibido, a não ser para madrinhas, ou freiras.

O castigo variava consoante o lugar onde foi cometido e as representações do castigador. Se no refeitório o angélico ia cumpri-lo na mesa da correcção os dias que o Prefeito determinasse. Aí, numa mesa toda ensebada, onde se colocavam os pratos sujos comia em silêncio, até cumprir o castigo. 

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Nos recreios podia ser o ficar de joelhos. Na igreja ou camarata metia reguada de certeza. Nas chamadas amizades particulares a exemplaridade do castigo era mais cénica: os suspeitos por vezes eram obrigados a confeccionar e transportar cartazes alusivos às representações que o Prefeito fazia do crime, percorrendo os campos de recreio com todos os alunos a assistir. Um desses cartazes tinha dois corações pintados e atravessados com uma seta e com os dizeres: nós amamo-nos!

Todo o castigo justo ou não tinha de ter o beija-mão no fim. Se o castigado não o fizesse espontaneamente,  punha-se a mão ostensivamente à frente para que ele cumprisse o ritual. Quem se recusasse, não cumpria o regulamento e dava sinais de orgulho. Portanto não servia. 

Quantas vezes, com as mãos a ferver de reguadas, Francisco era obrigado a beijar submisso as mãos estendidas de quem o o tinha castigado. Era, explicava o Regulamento (cap. II), o agradecimento por ter sido castigado. Quem castigava tinha sempre razão. Reclamar não se permitia nem tinha razão de ser: a primeira e última instância era sempre a autoridade do Prefeito, representante de Deus.

- 116 - 


(Continua)

Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 115-116 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parêrnteses retos, bold, itálicos, título: LG)
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Nota do editor LG:

(*) Vd. postes anteriores: 



Guiné 61/74 - P27641: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (12): o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro


Capa do livro de John P- Cann, "Os Flechas: os caçadores guerreiros do Leste de Angola, 1965-1974, tr-. do ingl. Carnaxide, Oeiras: Tribuna da História, 2018, 128 pp. 


Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72;

(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;

(iii) tem  já 130 de referências, no nosso blogue; 
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; 

(iv) é professor de educação física, reformado;

(v) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; 


(viii) é autor do livro  "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (12):   o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro

por Jaime Silva

Não, não esqueci o interrogatório do pide… e o silêncio do guerrilheiro (*).

Este acontecimento passou-se em Léua, no Leste de Angola. Decorria o mês de abril de 1972. A meio da tarde aterraram, no nosso destacamento, quatro helicópteros, donde, de um deles saiu um agente da PIDE e um guerrilheiro capturado.

A chegada dos Hélis tinha como objetivo transportar um grupo de combate para assaltar uma base guerrilheira. Segundo o pide, o guerrilheiro iria confessar e dizer onde a mesma se situava.

Para esse assalto foi destacado o meu pelotão. Esperámos… esperámos… mas do pide não havia novidades. 

A determinada altura, o comandante da esquadra de Helicópteros chama a atenção ao comandante de companhia para o adiantado da hora, e da dificuldade de teto e luz do dia para efetuar o percurso de ida e volta. Por isso, o meu comandante ordenou-me que fosse perguntar ao agente se demorava muito o interrogatório.

Chego ao local e transmito a mensagem ao pide que, face ao silêncio absoluto do guerrilheiro, não tinha conseguido “sacar-lhe” nenhuma informação. E incomodado pelo seu fracasso, julguei, diz-me:

 – Espere aí, sr. alferes, ele vai, já, bufar tudo. 

De seguida, pergunta-lhe:

   Como te chamas?

Um silêncio absoluto por parte do guerrilheiro e, ato contínuo, o agente rapa de um pau –  tipo taco de basebol – e acerta-lhe com força no nariz e pergunta novamente:

 
– Como te chamas? 

Depois, face ao repetido silêncio daquele homem, repete o mesmo golpe nos joelhos, nas canelas e nos tornozelos

E eu, perplexo saio dali, imediatamente.

Felizmente para o guerrilheiro, homem de grande coragem, que não traiu os seus camaradas.

E, felizmente, também para o meu grupo de combate, pois a operação foi abortada, o que significou “menos uma no pelo”!


Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pp- 93-94

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste anterior da série > 5 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27604: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (11): o guerrilheiro do MPLA, morto a norte do rio Cassai, no leste de Angola, que era também alfabetizador

(**) Possivelmente capturado pelos Flechas

Sobre os Flechas, há um livro  do historiógrafio militar norte-americano, John P. Cann. Ver aqui excerto Diário de Notícias > Redação DN > 25 de abril de 2018 > "MPLA chacinou um quarto dos "Flechas"após fim da guerra colonial em Angola" (...)

(...) Cerca de 25% dos mais de 2.000 Flechas angolanos, que lutaram ao lado de Portugal, foram "chacinados" pelo MPLA nos primeiros sete meses após o fim da guerra colonial portuguesa em Angola, indicou hoje um historiador norte-americano.

John P. Cann, entrevistado pela agência Lusa a propósito do seu mais recente livro "Os Flechas – Os Caçadores Guerreiros do Leste de Angola – 1965/74", publicado pela editora Tribuna da História, indicou que só numa operação, realizada em Mavinga, na província de Cuando-Cubango (sudeste), as forças do Movime
nto Popular de Libertação de Angola (MPLA) abateram 130 bosquímanos.

Os Flechas, inicialmente conhecidos por Corpo Auxiliar, foram uma força especial indígena criada em 1966 em resposta a uma necessidade da Polícia Internacional de Defesa do Estado 
– Direção Geral de Segurança (PIDE/DGS) para a recolha de informações de interesse político-militar português no Leste de Angola.

No início, a força criada pelo antigo inspetor da polícia política portuguesa António Fragoso Allas, com os "tentáculos" das ações desestabilizadoras portuguesas a estenderem-se também ao Congo, Namíbia, Zaire (atual R D Congo) e Zâmbia, contava com apenas oito homens, mas, até 1974, ultrapassaram os 2.000.

Os bosquímanos, recrutados entre a milenar população de caçadores coletores que residem nas planícies e savanas do leste de Angola, Namíbia e deserto do Karoo (região semidesértica na Africa do Sul), têm uma pequena estatura e rosto de aparência asiática, sendo especialistas em operações de reconhecimento.

Segundo John Cann, que se reformou dos "Marines" em 1992, tendo, então, feito um doutoramento em Estudos de Guerra no Kings College, na Universidade de Londres, os Flechas revelaram "grande competência" em operações conjuntas com forças terrestres regulares, respondendo à PIDE/DGS, que os integrou como organização paramilitar, e também ao comandante local do Exército português.

"Quando a guerra acabou, ficou rapidamente claro que os Flechas eram um grupo em perigo. Famílias atrás de famílias foram assassinadas numa série de massacres. Num só caso, cerca de 130 bosquímanos foram mortos a tiro num genocídio sangrento nos arredores de Mavinga", referiu o antigo Marine norte-americano.(...)

Parece haver aqui um erro ou lapso nos números ou na redação do texto:

(i)  "cerca de 25% dos mais de 2.000 Flechas angolanos [que eram bosquímanos], que lutaram ao lado de Portugal, foram "chacinados" pelo MPLA nos primeiros sete meses após o fim da guerra colonial portuguesa em Angola"; 

ou (ii) "25% do total do bosquímanos do Leste de Angola foram mortos" ?

Continunando:

(...) "Mais tarde, foi estimado que cerca de 25% dos bosquímanos angolanos foram mortos nos primeiros sete meses de poder do MPLA. Como consequência, muitos fugiram para a África do Sul, onde se juntaram às Forças Armadas Sul-Africanas para formar o Grupo de Combate Alfa, que se tornaria, depois, o Batalhão 31", acrescentou.

Questionado sobre se há dados relativamente às baixas entre os Flechas durante o período do conflito em Angola (1961/74), John Cann disse não ter encontrado, ao longo das investigações feitas, quaisquer estatísticas.

"Devem existir em algum lugar. Mas, inicialmente, os Flechas eram utilizados em missões de espionagem, de recolha de informações, uma vez que eram claramente uma força passiva. No entanto, após alguns encontros desafortunados com forças inimigas, ficou claro que o arco e flecha não conseguiriam bater o armamento moderno", afirmou.

John Cann lembrou que as coisas mudaram a partir do momento em que uma pequena patrulha de bosquímanos foi capturada e torturada.

"A partir daí, os Flechas foram armados com uma espingarda automática ligeira. A sua filosofia de combate passava por evitar o confronto direto, o que permitiu manter reduzidas as baixas. Se tivesse de fazer uma estimativa, diria que o número de baixas em combate estará no intervalo entre 1% e 2%, ou seja, entre 20 a 40 mortes", disse.

Hoje em dia, realçou o capitão de mar e guerra aposentado da Marinha dos Estados Unidos, os bosquímanos residem maioritariamente na África do Sul, onde grande parte de se integrou nas forças de segurança locais. (...)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27640: Memórias cruzadas da região de Gabu: as origens do desassossego em Copá e as sequelas da metralha entre o Natal de 73 e 7Jan74: a morte do furriel "Ranger" Luís Filipe Pinto Soares (Jorge Araújo)

Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil Op Esp/RANGER, CART 3494
(Xime-Mansambo, 1972/1974)


1. Mensagem do nossos camarada Jorge Araújo com data de 15 de Janeiro de 2026:

Caro Luís, bom dia deste outro lado do mundo.
Espero que tudo esteja sob controlo, em particular com a saúde. Nós, por cá, também investimos na sua manutenção.

Seguindo a tua sugestão, enviei o texto separado das imagens que, espero, dê certo. Trata-se do tal pedido que havia feito ao camarada Eugénio sobre a morte do fur Pinto Soares, em 7 de Janeiro de 1974, já lá vão 52 anos... é incrível como o tempo passa.

Talvez, amanhã, consiga enviar-te mais uma narrativa.

Fica bem. Um forte abraço nosso desde o deserto.
Jorge Araújo.


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MEMÓRIAS CRUZADAS DA REGIÃO DE GABÚ:

AS ORIGENS DO DESASSOSSEGO EM COPÁ E AS SEQUELAS DA METRALHA ENTRE O NATAL’73 E 07JAN74

A MORTE DO FURRIEL “RANGER” LUÍS FILIPE PINTO SOARES

- PARTE III -

1 – INTRODUÇÃO

Como resposta ao interesse manifestado pelo jovem Rafael Gonçalves (P26616, de 25Mar2025), aluno da Escola Secundária Augusto Cabrita, no Barreiro, sobrinho/neto do nosso camarada Luís Filipe Pinto Soares, furriel de operações especiais, em aprofundar o contexto em que ocorreu a morte, em 7 de Janeiro de 1974, do seu tio/avô, fez agora cinquenta e dois anos, foi possível encontrar novos elementos que nos permitem ver, com mais clareza, o cenário do “Desassossego em Canquelifá” e suas consequências – causas versus efeitos da Guerra.


Para a elaboração deste texto, foi excelente o contributo dado pelo camarada Eugénio Pereira, furriel da CCaç 3545 (1973/1974), que, para além de imagens da época, ajudam a situar a problemática da ocorrência, peças importantes na (re)construção do puzzle das memórias, em particular, desta Unidade Metropolitana.

2 – CONTEXTUALIZAÇÃO DA OCORRÊNCIA

Para enquadramento historiográfico desta narrativa, socorremo-nos do livro de memórias de Amadú Djaló, “Guineense, Comando, Português”, ex-alferes comando graduado (Bafatá, 1940-Lisboa, 2015), citando alguns episódios por ele vividos, em conjunto com os restantes elementos da CCAÇ 21, entre Copá e Canquelifá, no período acima titulado.

2.1 – “GUINEENSE, COMANDO, PORTUGÊS”, de Amadú Bailo Djaló

(…) No final de 1973 e início de 1974 “Canquelifá estava muito diferente. As tabancas que havia à volta, junto às fronteiras com o Senegal e com a Guiné-Conacri estavam todas arrasadas, a população tinha desaparecido. A zona estava nas mãos do PAIGC e Canquelifá agora era um local muito perigoso, sempre à espera de ataques, do lado do Senegal ou da Guiné-Conacri. As estradas estavam semeadas de minas, se Canquelifá precisasse de apoio à noite, não podia ser socorrida por estrada, de noite não se podia picar estradas. Foi nesta situação que encontrámos Canquelifá.

Estavam ali duas companhias, uma de europeus (CCAÇ 3545) e a nossa (CCAÇ 21), oito pelotões ao todo. Fizemos um programa de saídas, todos os dias de manhã saía um bigrupo nosso até a uma distância de cinco a sete kms e regressava por volta das duas da madrugada. Julgávamos que, a partir dessa hora, era mais difícil haver ataques do PAIGC. Num dia saía um bigrupo de africanos, no dia seguinte um de europeus. Desta forma, cada bigrupo descansava três dias.

Em algumas dessas saídas, deixávamos o quartel, de manhã muito cedo, na direcção de Nhunanca. Depois de andarmos um bom bocado, entrávamos numa lala (clareira), quase sem árvores, com o capim muito alto, Depois de atravessarmos para o outro lado da lala, permanecíamos aí algum tempo, até cerca das 15:00 horas, quando decidíamos abandonar o local. Caminhávamos mais dois ou três kms e emboscávamo-nos. Ocupávamos dois caminhos, o que ia para Nhunanca e o que levava a Chauara. Ficávamos durante cerca de uma hora e regressávamos, contornando o quartel e entrando pela entrada contrária à saída para Copá.

Numa dessas saídas, em 7 de Janeiro de 1974 (2.ª feira), na “Acção Minotauro”, um dos nossos bigrupos, comandado pelos alferes Ali Sada Candé e Braima Baldé, quando estava emboscado, a cerca de dois kms do aquartelamento, avistou, por volta das 16:00 horas, um grupo do PAIGC a atravessar a lala. Estavam a deslocar-se na direcção do quartel [de Canquelifá]. O nosso bigrupo foi no encalço deles, a observarem o que iam fazer. Cerca de um quilómetro andado o pessoal do PAIGC parou, debaixo de uma grande árvore. Um deles estava a preparar-se para subir a árvore, quando o nosso bigrupo os atacou, de surpresa. O pessoal do PAIGC fugiu como pôde, deixando no local três guerrilheiros mortos, as armas e um rádio Racal que, viemos a descobrir mais tarde, tinha sido perdido por nós em Morés, em 23 de Dezembro de 1971.

[Nesse dia] era a vez do meu grupo ficar no aquartelamento, mas quando começámos a ouvir o tiroteio saímos imediatamente. Quando os encontrámos o caso já estava arrumado. Ajudámo-los a trazer os corpos dos guerrilheiros que depositámos junto à parada.

Nesse mesmo dia 7 de Janeiro, por volta das 17:30 horas, o PAIGC desencadeou um ataque a Canquelifá. Ou de represália, ou porque também tinha ouvido os tiros. Um dos primeiros mísseis acertou na central eléctrica e uma grande bola de fumo negro começou a subir. De vez em quando paravam os bombardeamentos, depois recomeçavam. Durou quase a noite toda este ataque.

A tabanca ardeu e ficou completamente destruída. Morreram durante o ataque quatro pessoas, um furriel europeu [Luís Filipe Pinto Soares, da CCAÇ 3545 - P16127], um soldado negro (Donsa Boaró, da CCAÇ 21), o soldado Mica Djaló Baldé (do 6ºPelArt/GAC7) e um rapaz de cerca de 13 ou 14 anos [Iala Colubali, natural de Bajocunda, Nova Lamego] que trabalhava para o furriel europeu que tinha morrido” (op.cit., pp.268-270).


Reitero os votos de BOM ANO.
Obrigado pela atenção
Um abraço.
Jorge Araújo.
AD; 15.Jan.2026

Foto 1 - A kalach capturada ao Tenente Ramón Maestre Infante (cubano), um dos dois mortos recuperados pelas NT. O outro era o Jaime Mota (cabo-verdiano).
Foto 2 – O fur. Soares com elementos do seu Gr Comb (é o 5.º da esq.)
Foto 3 – O fur Soares é o 1.º da dtª.
Foto 4 – O fur Soares é o 5.º em baixo (esq/dtª)
Foto 5 – localização do abrigo do fur Soares, com vala de segurança
Foto 6 – Os nomes dos elementos do abrigo do fur Soares
Foto 7 – as urnas dos dois mortos do dia 7 de Janeiro de 1974
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Notas do editor:

Vd. postes de:

15 de fevereiro de 2022 > Guiné 61/74 - P23001: Memórias cruzadas da região de Gabu: as origens do desassossego em Copá e as sequelas da metralha entre o Natal de 73 e 7Jan74 (Jorge Araújo)
e
25 de março de 2025 > Guiné 61/74 - P26616: Em Homenagem a Luís Filipe Pinto Soares (1950-1974), Fur Mil Op Esp da CCAÇ 3545/BCAÇ 3883, que faleceu em combate no dia 7 de Janeiro de 1974 (Jorge Alves Araújo, ex-Fur Mil Op Esp)