1. O nosso amigo Nelson Herbert, jornalista reformado da VOA - Voice of America, nascido em Bissau, de pais cabo-verdianos, membro da nossa Tabanca Grande, sabe do grande amor que temos por Cabo Verde,em geral, e pelo Mindelo, em particular. Acabou de nos dar ontem, às 21h30, a informação sobre esta publicação, que interessa aos nossos leitores e a alguns de nós, mais em particular
Ele sabe bem porquê: o pai dele, o Armando Lopes (1920-2018); o pai do Hélder Sousa, o Ângelo Ferreira de Sousa (1921-2001),; o pai do Luís Dias, o Porfírio Dias (1919-1988); o pai do Augusto Silva Santos, o Feliciano Delfim Santos (1922-1989); o meu pai, Luís Henriques (1920-2012) eram todos veteranos da II Guerra Mundial, expedicionários em Cabo Verde, a quem neste blogue tratamos com a ternura da expressão “Meu pai, meu velho, meu camarada”…
São apenas cinco dos seis e mil tal homens que poderiam ter todos morrido ou sido aprisionados, se o arquipélago tivesse sido invadido. Hitler e Mussolini, de um lado, e os Aliados, do outro, sabiam do valor estratégico do Sal e de São Vicente.
Mas não foi apenas o arquipélago de Cabo Verde (Vicente, Santo Antão e Sal) onde estiveram expedicionários...As ilhas atlânticas (Madeira, Açores e Cabo Verde) tiveram (e continuam a ter) uma posição privilegiada nas "autoestradas do Atlântico".
Para além dos 6500 para Cabo Verde, Salazar mandou mais 30 mil homens para os Açores e mil para a Madeira. Portugal fez na altura um brutal esforço de guerra (em homens, material, meios logísticos e financeiros), que é desconhecido ou mal conhecido de todos nós (portugueses e cabo-verdianos).
2. Com a devida vénia, transcreve-se então a postagem do Facebook Memórias d' Mindelo > 29 de janeiro de 2025, 16h56, de resto ilustrada com fotos também do nosso blogue (as três primeiras que reproduzimos acima, agora reeditadas por nós).
O autor do blogue é Lucas Leite Monteiro (LLM), "alfacinha", "mindelense apaixonado", também conhecido como jovem empresário agrícola (Projeto Ecofarm Cabo Verde, em Ribeira Grande de Santo Antão, onde os seus avós tinham propriedades, e onde faz agora produção orgânica de frutas e legumes).
A sua página Memórias d'Mindel tem 9 mil seguidores, e está a caminho de um milhão de visualizações:
Através de cada fotografia antiga, cada história partilhada e cada recordação de infância, mantemos viva a chama da "Morabeza" e a elegância histórica da nossa cidade do Monte Cara.
A nossa página cresce porque o amor por São Vicente não tem limites. É um privilégio ver como estas imagens unem gerações, desde os que viram estas ruas crescer até aos mais novos que hoje as descobrem através da Memórias d'Mindel.
Ao unir gerações, garante que o "sentir" mindelense não se perde no tempo, transformando a saudade de uns na herança de outros.
(...) O que este marco representa:
- Ponte Geracional: O diálogo entre os mais velhos (os guardiões da memória) e os novos (os continuadores da história).
- Alcance Global: A diáspora cabo-verdiana, espalhada pelo mundo, encontra na nossa página um "regresso a casa" diário.
- Preservação Viva: A história de Mindelo deixa de estar apenas no imaginário e passa a estar na palma da mão de todos.(...)
3. Facebook Memórias d' Mindelo > 29 de janeiro de 2025, 16h56,
O Porto Grande na Mira do Mundo: Mindelo e a Segunda Guerra (1939-1945) - 1ª Parte
Houve um tempo em que o destino do mundo, jogado entre mapas de generais e gabinetes de guerra em Londres e Berlim, passava obrigatoriamente pelas águas azuis da nossa baía.
Entre 1939 e 1945, o Mindelo não era apenas a cidade-porto; era a sentinela do Atlântico Médio, um "porta-aviões" de pedra que tanto Aliados como o Eixo desejavam controlar a todo o custo.
A fortaleza de São Vicente
Enquanto a Europa ardia, Mindelo militarizava-se. Portugal, sob a neutralidade vigilante de Salazar, sabia que o Porto Grande era o seu bem mais precioso e, simultaneamente, o mais perigoso. Para desencorajar invasões, a ilha transformou-se: a sede militar mudou-se da Praia para o Mindelo e as nossas encostas ganharam "dentes" de aço.
Quem hoje sobe à Ponta João Ribeiro ou ao Morro Branco ainda encontra as cicatrizes dessa época. Ali foram instaladas baterias de artilharia pesada (peças de 150mm) prontas para fustigar qualquer navio que ousasse entrar no canal sem autorização.
No Lazareto, as metralhadoras antiaéreas apontavam ao céu, temendo que os aviões da Luftwaffe ou da Royal Navy transformassem o nosso porto num cenário de bombardeamento.
Entre a "Alacrity" e a "Felix"
O que poucos sabiam na altura, é que estivemos por um fio. O Mindelo esteve na mira de dois planos secretos de invasão:
• A Operação Alacrity:
Os ingleses, liderados por Churchill, tinham planos prontos para ocupar o Porto Grande à força se sentissem que a neutralidade portuguesa vacilava.
• A Operação Félix:
O plano de Hitler que previa tomar Cabo Verde para fechar as rotas de abastecimento que vinham do Sul.
O Mindelo viveu esses anos num estado de "blackout" constante, com as luzes da cidade apagadas à noite para não servir de guia aos submarinos ("U-Boats") que rondavam as nossas águas, caçando comboios de mantimentos.
O Pão e a Espada
Para a memória coletiva do povo de Soncente, porém, a guerra não trouxe apenas canhões; trouxe a "Crise".
Enquanto o Porto Grande fervilhava de navios de guerra e batalhões expedicionários vindos da Metrópole, a população enfrentava a fome severa de 41-43. O contraste era cruel: o porto estava cheio de importância estratégica, mas os estômagos estavam vazios pelo bloqueio das rotas comerciais.
Os soldados expedicionários, que enchiam as ruas do Mindelo, trouxeram novas dinâmicas, amores de guerra e histórias de além-mar, mas também partilharam a escassez de um tempo em que o horizonte, em vez de trazer o pão, trazia o medo do perscópio de um submarino.
O quotidiano militar no Mindelo
A chegada de milhares de soldados de Portugal continental (os "expedicionários") alterou completamente a dinâmica da cidade:
- Mão de obra: os soldados ajudaram em infraestruturas, mas também pressionaram o já escasso stock de alimentos;
- Vigilância: o Porto Grande passou a ter patrulhas constantes e o uso de luzes na cidade era estritamente controlado para evitar ser um alvo fácil à noite ("blackout").
Um legado de silêncio
Hoje, as ruínas das baterias militares são monumentos ao silêncio. Lembram-nos de que o Mindelo já foi o centro de um xadrez global.
Lembrar a Segunda Guerra no Mindelo é honrar a resiliência de um povo que, isolado no meio do oceano, viu o mundo passar pela sua baía e sobreviveu para contar a história.
Fotos: Cabo Verde Postcard/ Luís Graça & Camaradas da Guiné 61/74
Texto/Pesquisa: Memórias d'Mindel (LLM)
As principais referências bibliográficas para estas informações são:
António Leão Correia e Silva: Um dos maiores historiadores de Cabo Verde, obra - Nos Tempos do Porto Grande.
Daniel A. Pereira: Pelos seus estudos sobre a história política e diplomática de Cabo Verde.
Arquivos Militares de Portugal: Relatos sobre o envio das Forças Expedicionárias (1941-1945) para São Vicente.
Planos de Guerra (Aliados e Eixo): Documentos desclassificados sobre a Operação Alacrity (Inglaterra/EUA) e a Operação Felix (Alemanha), que comprovam o interesse estratégico no Porto Grande.
(Seleção, revisão/fixação de texto: LG, com a devida vénia, e os parabéns ao autor)
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Nota editor LG:
17 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27433: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (15): recordações do meu tempo de menino e moço (Carlos Filipe Gonçalves, ex-fur mil amanuense, CefInt / QG / CTIG, Bissau, 1973/74)






1 comentário:
Com a loucura e a ganância que estão a varrer este mundo, as nossas pequenas ilhas atlânticas (Madeira, Açores, Cabo Verde, Canárias, etc.) correm um sério risco de serem de novo objeto da cobiça dos querem cometer o pecado mais infame do mundo: a "Hybris"...
Do grego ὕβρις, "hybris" significa orgulho excessivo, arrogância, insolência, ambição desmedida: refere-se um comportamento que ultrapassa os limites humanos, desafiando os deuses e/ou ordem natural das coisas.
Um pecado que leva à ruína, punição divina ("Némesis"), catástrofe, sendo o oposto da virtude grega da "Sophrosyne" (prudência, bom senso).
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