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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27650: Notas de leitura (1887): "Soldadó", de Carlos Vale Ferraz; Editorial Notícias, 1997 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
Nunca entendi este discreto silêncio dos editores de Carlos Vale Ferraz face a esta extraordinária narrativa publicada em 1997 pela Editorial Notícias. É uma tragicomédia como não há outra na literatura da guerra colonial, numa atmosfera que prima pelo grotesco, onde sobressai a teatralidade de figuras únicas desta literatura, um recém-comandante chegado a um temível destacamento de guerra, analisa-se o processo que poderá levar à condecoração de um soldado básico multifuncional, de cangalheiro a fiel de armazém e guarda-costas de prostitutas, assomam o Capitão Gorgulho, veio castigado, o Majorué, o oficial de Operações mais divertido de toda esta literatura, um Segundo-Comandante pouco dado à inteligência, o anarca Capitão Baltazar, um Capelão cheio de latinório, mas com muitas culpas no cartório quanto a sexo escondido e respetivas doenças. Soldadó merecia sair da sombra e voltar ao nosso convívio, aquela instituição militar já não existe e muito bem podia ter acontecido naquela guerra colonial o que aqui se conta com a verve de humor que nos faz rir a bandeiras despregadas.

Um abraço do
Mário



Soldadó, uma das obras mais belas de Carlos Vale Ferraz

Mário Beja Santos

Dedicado “Aos que gostam de mim”, a obra Soldadó, de Carlos Vale Ferraz foi publicada em 1997 pela Editorial Notícias. Penitencio-me de ter sido avaro na recensão dediquei a esta mirabolante, herética e apoplética narrativa. Sou levado a concluir que ler o livro para fazer a recensão tem a nobre exigência de a ele voltarmos com a memória arrefecida, é este um desses flagrantes casos em que se retoma a leitura, surgem revérberos caleidoscópios, novos ângulos, outro sentido das frases, uma maior subtileza para as mensagens que correm na estrada principal. Soldadó não era o livro humorístico, do bota-abaixo, de corrosivas caricaturas da instituição militar. Bem vistas as coisas, este soldado bronco, de obediência e fidelidade caninas, o mais improvável dos heróis, toda aquela atmosfera teatral em que vai decorrer a inquirição que poderá permitir a condecoração do Soldadó, revela o talento e a verve cáustica do escritor que põe em causa os consagrados valores da guerra colonial perfilhados pelo Estado Novo. Vamos aos factos.

Ele chama-se Fergusino do Ó, vem de um lugar ermo do Nordeste Transmontano, descoberto pela GNR quando andou a percorrer itinerários para o censo de 1960. Não é atirador Infante, cavaleiro ou artilheiro, é um soldado básico, pau para toda a obra, suficientemente ajustável para agir como cangalheiro, sacristão, fiel de armazém, projecionista de filmes pornográficos, guarda-costas daquelas meninas que vêm episodicamente minorar a vida agreste dos militares em Mueleka (será Mueda?).

Iremos conhecer a sua história tudo contado em ambiente fechado onde protagonizam figuras ímpares da literatura da guerra colonial: o recém-chegado Comandante, um vigoroso Tenente-Coronel de Infantaria a quem o cabelo cortado à americana, rapado dos lados nivelado no topo com qualquer máquina da família dos aparadores de relva, assemelhava a um boxeur retirado dos ringues; o Segundo-Comandante, um major pacato e gorducho, responsável pelos assuntos administrativos, cujo verdadeiro nome ninguém sabia e a quem todos tratavam por Segundo, o nosso Segundo, uma criatura apagada, de estômago atazanado por uma úlcera, sujeitando-se a uma dieta rigorosa, tinha fama de pouco dotado de inteligência; o narrador das diligências sobre a vida e obra do Soldadó, o Capitão Gorgulho, um inofensivo professor primário, de pernas curtas, braços compridos e peludos, viera punido para Mueleka, mas não parecia nada incomodado com a punição que o retirara do honroso posto à frente de tropas em campanha; a inesquecível figura do major de Operações, Majorué, um primor nos dichotes, nos comentários com vitriolo, ninguém lhe leva a palma. Outros surgirão, como o Capelão e o Alferes do Pelotão de Intendência.

Que pretende contar o Capitão Gorgulho de tudo quanto se sabe sobre o Soldadó? Veio de Cabeça Seca, quando chegou ao Regimento de Infantaria 13, havendo falta de espaço das casas quadriculadas dos mapas de registo passou a ser Soldado do Ó e depois Soldadó. À primeira vista, parecia destinado a ser atirador, o pior foi quando lhe puseram uma arma nas mãos, andou hilariante a disparar rajadas, todos se puseram de acordo que ele devia ser afastado do convívio com as armas de fogo, foi reclassificado como soldado básico. Veio a convocatória para a guerra, o assunto parecia tê-lo deixado indiferente. Também se faz uma reflexão sobre a tentativa de civilizar aquela gente de Cabeça Seca, enviou-se um padre, um bom homem que não foi bem-sucedido nas intempestivas discussões com o feiticeiro da terra, no fundo as gentes de Cabeça Seca tomavam como mau agoiro a presença de estranhos no seu seio.

E também se conta o cerimonial da partida do contingente militar no cais de Alcântara, vale a pena tomar nota do que escreve o autor:
“A magalagem pendurada nos bordos do Niassa era mais que moscas em boca de cão morto e cá em baixo juntava-se uma multidão de paisanos maior que um tapete de formigas carregadeiras dentro de um açucareiro. Acenavam desesperadamente aos militares embarcados e estes respondiam desensofridos, como se tivessem esquecido alguma coisa muito importante em terra, saltavam e guinchavam, demonstrando uma incompreensível raiva de condenados, ali conduzidos presos por uma corda.”


O recém-chegado comandante vai de assombro em assombro, faz perguntas aos outros oficiais, recebe respostas calmas e aparentemente sustentáveis. É nisto que bate à porta um Capitão, o Capitão Baltazar, fala-se do trabalho do Soldadó na sua atividade de cangalheiro. O Capitão Baltazar solta um prolongado uivo, o Majorué anuncia que ele está apanhado pelo clima, o comandante anda lívido com todos estes disparates que presencia.

O Segundo-Comandante elogia as atividades do Soldadó como cangalheiro:
“A princípio custara-lhe um pouco desenrascar-se, porque os corpos apareciam todos desengonçados das minas e outros vinham já muito rijos e era preciso dobrar-lhes os membros à força, mas com boa vontade tudo se resolvia. Ultimamente até os lavava para limpar o sangue e a pólvora, preferia os mortos pequeninos, para caberem nas urnas logo à primeira e de cara composta. No cemitério, enterrou dois mortos de cova, em beliche, para poupar espaço e trabalho.”


Entra em cena o Alferes do Pelotão de Intendência, era o responsável pelo Soldadó. Estamos já em Mueleka, foram contadas todas as peripécias da viagem, é nisto que o Majorué se revela desabrido com o Capelão e denuncia-o pelas suas piruetas sexuais, deixa o Capelão encavacado. O Alferes continua a sua apreciação das atividades do Soldadó, era doido por guardar armamento, incapaz de desperdícios, recolhia dos falecidos ouro e prata, notas e moedas. E, imprevistamente, acontece o seu feito heroico, o Comandante Militar e a sua comitiva vieram visitar Mueleka, é durante a visita que acontece um vendaval de fogo, prontamente o Soldadó, a peito descoberto, despejou os carregadores da espingarda, mais as fitas disponíveis na metralhadora, contra a orla da mata à sua frente, só parou depois de ter sido ferido por um estilhaço, o Soldadó será o único ferido daquela estranhíssima refrega, o General entendeu que se devia fazer o reconhecimento, a sua comitiva estava ansiosa por partir, ninguém gostara daquele inesperado tiroteio, e o recém-chegado Comandante fica ainda mais atónito quando se descobre que todo aquele foguetório tinha sido operação montada dentro de Mueleka.

O Alferes da Intendência, encarregado de organizar o processo do Soldadó herói descobre um facto estarrecedor: o Soldadó está há quatro anos em Mueleka, mais uma história difícil de descalçar a bota.

Não é nada conveniente contar como tudo acabou, quem faz recensões não é desmancha prazeres, se houver mistificação e mentira em todo aquele feito heroico era necessário levá-lo a bom porto. Foi o que aconteceu, dentro de alguns anos o povo de Cabeça Seca erguerá um monumento a esse militar de sublime comportamento.

Se é verdade que falta a Soldadó a dimensão de Nó Cego, a obra-prima de Carlos Vale Ferraz, porventura a mais importante obra de toda a literatura da guerra colonial, reconheça-se que esta tragicomédia devia ser reeditada, é uma narrativa de arromba.
Carlos Vale Ferraz, pseudónimo literário do Coronel Carlos de Matos Gomes (1946-2025)
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Nota do editor

Último post da série de 16 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27639: Notas de leitura (1886): Notas soltas sobre a renovação do nacionalismo imperial português (Mário Beja Santos)

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