Pesquisar neste blogue

sábado, 24 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27666: Os nossos seres, saberes e lazeres (719): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (240): Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 7 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Aqui prossegue e termina a visita à Mesquita-Catedral de Córdova. Temos de agradecer aos príncipes Omíadas terem feito de Córdova a metrópole mais relevante do Ocidente, deixaram-nos esta construção feita entre os séculos VIII e X uma joia única da arquitetura mundial, continua na vanguarda de toda a arte islâmica. É monumento nacional desde 1882 e património da humanidade desde 1984, tendo ainda a classificação dada pela UNESCO de Bem Valor Universal Excecional. Procurou-se de forma abreviada falar da estrutura com as diferentes ampliações, recordou-se que a Mesquita não era apenas um local de oração, aqui se faziam conferências, se praticava justiça. No século XVI construiu-se a Catedral. Mas já no século XV se tinha criado a Capela de Villaviciosa, o resultado é uma mistura de arte islâmica de grande beleza, a sua Cúpula é do século IX; para se fazer a Catedral houve que derrubar 63 colunas. Nunca houve atrevimento em mexer em dois pontos altos deste património de altíssimo valor, o mihrab e a maqsura, que no momento em que visitei estavam em restauro. É ocioso dizer, mas não resisto: visitar a Mesquita da Catedral de Córdova é conhecer o que há de mais faustoso da arte islâmica. Vou agora à última etapa, o Palácio Viana.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (240):
Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 7


Mário Beja Santos

Não é possível regatear ou procurar comparações com a espantosa singularidade do espaço da Mesquita da Catedral de Córdova, onde se entrecruzam vestígios da Basílica visigoda de S. Vicente (meados do século VI), a primitiva mesquita (século VIII), a primeira ampliação (século IX), a intervenção de Abderramão III (século X), a segunda ampliação, durante o califado Omíada (século X), a última ampliação, por ordem de Almansor (século X), e as obras do século XV até ao século XVII, envolvendo uma Capela-mor e um cruzeiro. Para minha surpresa entrego ao visitante uma brochura onde se vê claramente o espaço quadrangular que abarca o Pátio das Laranjeiras com a Porta do Perdão, a Torre Campanário e a Porta de Santa Catalina, bem como a Porta das Palmas, seguindo-se as sucessivas ampliações desde a Mesquita de Abderramão I.

Para desfrutar de uma visita que nos leve a entender as sucessivas construções, a brochura inclui um plano guia onde se destacam a Mesquita fundacional, que se mostrou no texto anterior, com a reutilização de materiais romanos, helenísticos e visigodos, o visitante fica deslumbrado com o módulo de construção baseado na sobreposição de uma dupla arcada; vê-se depois a ampliação de Abderramão III que se concretiza em 11 capitéis feitos por artesãos locais, temos depois a ampliação de Alhaken II, criou sumptuosidades, introduziu claraboias que conferem mais iluminação; há, depois, o mihrab, que é muito mais do que o nicho que orienta a oração, é um trabalho ornamental dos mosaicos que provém da tradição vicentina; está ali enquistada a Capela Real; e a rematar esta transcendente sequência de preciosidades arquitetónicas e artísticas a ampliação de Almansor, isto para já não falar do cruzeiro onde se vê um perfeito diálogo entre o gótico, o renascimento e o maneirismo, lá em cima uma imensa claraboia que inunda de luz o conjunto.

É esta a viagem que vamos fazer depois da construção de Abderramão I.


Um pormenor do Pátio das Laranjeiras com a torre campanário ao fundo
Entrelaçamento de arcos à entrada da capela da Villaviciosa. Foi uma ampliação no século X por Alhaken II. Esta ampliação foi a mais sumptuosa de todas. Todas as colunas e capitéis foram trabalhados para este edifício. É surpreendente a riqueza ornamental que se centra à volta do mihrab, autêntica joia da Mesquita.
O mihrab é um nicho ornamentado na parede que indica a direção de Meca, para onde os muçulmanos rezam, sendo o espaço mais sagrado de uma mesquita. A estrutura é um exemplo notável da fusão de estilos arquitetónicos islâmicos e cristãos, com elementos omíadas, visigodos, góticos, renascentistas e barrocos. Apresenta arcos em ferradura e colunas de mármore e jaspe recuperadas de edifícios romanos e visigodos anteriores.
Arco da Mesquita, a beleza dos tons azulados e o surpreendente canelado que se adossa ao ponto superior
Pormenor do arco da Mesquita, permitindo ver a riqueza dos cambiantes de cor
Uma floresta de colunas na ampliação de Alhaken II
Outra perspetiva
Mais outra perspetiva
O fabuloso cromatismo de um vitral islâmico
A caminho da Catedral. Cabe aqui lugar um comentário. No século XVI, mesmo com oposição do cabido, o Bispo do D. Alonso Manrique obteve autorização para erguer uma catedral no centro da Mesquita. Mesmo que se queira reconhecer beleza e riqueza a esta catedral, houve imediatamente críticas, logo do Imperador Carlos V: “Haveis destruído o que não existia em lugar nenhum para construir algo que se pode encontrar em qualquer lugar.”
Teto da Capela Maior no lugar conhecido pelo nome de Lucernario de Villaviciosa
A maqsura em restauro. Referiu-se que a ampliação de Alhaken II é a mais sumptuosa de todas. Está perto do mihrab. É surpreendente a riqueza ornamental do mihrab, autêntica joia da Mesquita. A maqsura é um nicho octogonal que, tal como o mihrab, foi trabalhado por artistas bizantinos que realizaram os maravilhosos mosaicos que decoram o seu arco de entrada e a magnífica cúpula que o antecede. Este espaço estava reservado ao califa, nada tem a ver com as cúpulas da arte cristã. A abóboda da maqsura é considerada a abóboda mais formosa da Mesquita.
Para construir esta catedral foram destruídas 63 colunas em tempo recorde. É uma igreja em forma de cruz latina, as suas alfaias religiosas são de uma enorme riqueza.

Houvesse tempo e a visita continuaria pela Sinagoga, pelo Museu Provincial de Belas Artes, não havendo tempo para tudo, aponta-se como objetivo um passeio pela Judiaria. Em Córdova, durante o período do califado, viveu uma grande comunidade judaica, Córdova foi um centro espiritual e social dos judeus. Resta o labirinto das suas estreitas ruelas e pequenas praças encantadoras. Ainda houve oportunidade de uma curta visita ao Museu Arqueológico, está na hora de descansar, amanhã ainda se quer percorrer a Ponte Romana, bisbilhotar os Pátios Cordoveses e visitar o Palácio de Viana, assim se porá termo a esta curta visita Andaluza.

(continua)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 17 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27643: Os nossos seres, saberes e lazeres (718): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (239): Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 6 (Mário Beja Santos)

Sem comentários: