sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Guiné 61/74 - P23601: Notas de leitura (1492): "Diário Pueril de Guerra", por Sérgio de Sousa; Editoral Escritor, 1999 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Fevereiro de 2020:

Queridos amigos,
O diário de Sérgio de Sousa centra-se em Sagal, Moçambique, há emboscadas, muitas minas anticarro e muito sofrimento com as minas antipessoal. É um diário que dura menos de um ano, irá culminar com um acidente brutal que deixará este alferes-miliciano com incapacidade. O autor chamou-lhe inicialmente Diário de Guerra. O semanário O Jornal publicará em 1981 dois excertos. Assume o documento como um diário íntimo, não encontrei, em tudo quanto li até hoje, ninguém a ler tanto, a comentar tanto, a desnudar-se, tinha medo, como ele escreverá, da desintegração da personalidade, falará sempre mais de si, descurando gentes e ambientes. Quando, décadas depois, publica o que escrevera meticulosamente, e numa caligrafia arredondada e bem legível, dirá que já não é a mesma pessoa, como se fosse possível fazermos cisões de tal modo brutais em que os tempos de juventude deixassem de fazer parte do que prossegue na maturidade e na velhice. Mas reconheça-se que Sérgio de Sousa não tem rival nos diários de guerra.

Um abraço do
Mário



Um caso ímpar na literatura diarística da guerra colonial (1)

Mário Beja Santos

Intitula-se "Diário Pueril de Guerra", seu autor é Sérgio de Sousa, Editoral Escritor, 1999. Sérgio de Sousa pertencia à CART 2718, que partiu para Moçambique em 20 de maio de 1970, seguiu para Sagal, a sua unidade militar dependerá do BART 2918. O que cativa neste documento de um jovem de 23 anos, assumidamente snob, ledor compulsivo, que viajou por Franças e Araganças, é o olhar que lança, em permanência, para o que deixou do seu círculo de afetos, como este mesmo círculo de afetos o ajuda a urdir o grau de resignação como ele vive a guerra. Irá penitenciar-se no posfácio, escrito décadas depois, que perpassa o seu documento um desesperado egocentrismo, sobretudo pelo que ali é omitido, pouco ou nada saberemos de Sagal, é parcimonioso nas referências às operações, no entanto não deixa de empolar os múltiplos incidentes e acidentes. “E não há nenhuma referência à paisagem do planalto onde vivi durante meses e que, como se presumirá, era avassaladora. Nem a um espetáculo único que então presenciei, quando atravessei uma parte da floresta que tinha ardido, enterrando os pés nas cinzas quentes, e a nossa movimentação fazia mexer o ar parado, provocando a queda das árvores que se mantinham eretas, carbonizadas, até que a nossa passagem as fez cair, desfeitas. Não me detive quase a falar das pessoas com quem convivi. Em contrapartida, anotei uma série de temas que na altura pensava interessarem-me, e que não me parece hoje que tivesse o valor que lhe atribuía”.

Temos o embarque no Niassa, observa o que os outros leem, nota que os soldados dormem em beliches apinhados nas cobertas. Doze dias depois, chegam a Luanda, para ele é uma cidade ocupada pela tropa, entra nas casas de espetáculos, a viagem prossegue, lê Roger Vailland; os Dez Dias Que Abalaram o Mundo, do John Reed, a 13 de junho saem à noite de Lourenço Marques, seguramente que o impressionou pois fala dela com alguma abundância:
“Nascida sobre uma prancheta de desenho, Lourenço Marques parte dos caraterísticos edifícios coloniais, de dois pisos, de madeira, sendo o inferior recuado, de modo ao passeio ficar coberto pelo outro piso, varanda ou telhado, assente em finas e espaçadas colunas de ferro, implantadas na borda do passeio. Assim nas três ou quatro ruas estreitas, junto ao porto.
Depois vêm, nas longas avenidas do centro, os bons edifícios não muito altos, onde se aloja o melhor comércio e os bancos. E já os prédios com mais de uma dezena de andares conquistam espaços na baixa e se difundem, ao longo das rasgadas avenidas que ganham uma periferia, de vivendas antiquadas para o interior, modernas e luxuosas ao longo da costa.
No caminho para o aeroporto, os bairros indígenas, imensos, no meio de um deles uma lixeira municipal. Situam-se à porta da cidade branca, para o interior, sendo as habitações mais próximas as mais decentes, segue-se a favela; algumas fábricas erguem-se por ali.
O urbanismo de Lourenço Marques vinca a sua realidade racista. Na cidade racionalizada, elegante, luxuosa, só penetram os negros dos serviços que se apresentam limpos e decentemente vestidos. Além dos serviços, nada mais há na vida da cidade branca que lhes seja acessível. Os brancos nada têm que fazer nos bairros indígenas, por isso não entram lá”
.

Também não perdeu a oportunidade de entrar nos cabarés laurentinos. A viagem prossegue pela beira até chegar a Nacala, depois Porto Amélia, finalmente Mocímboa da Praia. Já ouviu várias vezes falar na Operação Nó Górdio, ele irá participar nela. A sua unidade parte de Mocímboa da Praia para Diaca, e chega-se a Sagal, considera que as instalações são bastante razoáveis, pertenciam a uma antiga exploração algodoeira. A casa senhorial é ocupada pela messe de oficiais.

Já se respira a Operação “Nó Górdio”, como ele escreve no seu diário:
“Consiste num cerco a uma região onde o inimigo se encontra, e intervenções de limpeza no interior desse cerco. A picada fica a constituir parte do limite da área cercada; ao longo dela as nossas tropas hão de emboscar-se e executar patrulhamentos (…) Levámos grande parte da manhã e toda a tarde para percorrer os seis quilómetros de picada nova aberta três dias antes; nela foram detetadas e rebentadas dez minas anticarro e removidos bastantes abatises. Numa das vezes em que, ao ser detetada uma mina fizemos reconhecimento pelo fogo para, prevendo a hipótese dela ser comandada, afugentar o acionador, o inimigo respondeu com fogo de presença”.

No início de julho, Sérgio de Sousa sai com o seu grupo de combate para montar uma emboscada em Chindorilho. A “Nó Górdio” já está a decorrer. A Berliet que seguia à frente estrondeia, segue-se uma emboscada, caíram na zona de morte o Unimog, uma Fox e um Granadeiro. Finda a emboscada retiram da Fox o condutor, tinha uma perna perdida, fora uma bazucada que lhe acertara. “Juntei os meus homens e fomos fazer uma batida ao local de onde partira a emboscada. Encontrei a uns trinta metros da picada, o capim pisado e um cadáver cuja cabeça terminava no maxilar inferior, daí para cima não restava nada. Devia tratar-se de um rapaz. Vestia calções curtos verdes e uma camisola às riscas brancas e azuis, calçava alpercatas e tinha ao lado uma Simonov e sob o corpo, presa à cinta, uma granada de bazuca”. A emboscada dura vários dias, regressam a Sagal. Deixa no diário a ideia de que o inimigo se está a escapar ao cerco, são largas as malhas por onde pode passar. Dias depois parte para nova operação, também relacionada com a “Nó Górdio”, nada de especial acontece. Durante os dias em que se manteve emboscado leu a Guerra Revolucionária, de Mao Tsé Tung. ´

A operação dura já quinze dias, começa-se a falar dela, há poucas ilusões do seu sucesso:
“Segundo as imprecisas notícias que chegam até aqui, comando do cerco norte, as bases foram tomadas, mas nelas apenas se capturou material, os ocupantes fugiram; quanto à pretendida desorganização, não foi atingida. Os guerrilheiros continuam a contornar a população. Perspetivas: a operação termina, os guerrilheiros reabastecem-se de armamento em pouco tempo e caem-nos em cima com toda a forma da organização que não lográmos destruir”. Lê, chegam-lhe jornais, cartas do pai e dos amigos, dá nota dos filmes estreados, da vida musical, de uma exposição de Vieira da Silva, da morte de Elsa Triolet. E confidencia: “O autor deste diário é um indivíduo tímido. Por isso faz gala em ser pedante, antipático, descortês. Ostenta um certo luxo e finge que não conhece alguns conhecidos, socialmente desfavorecidos. Para os colegas arvora um ar superior, polido, frio; para os mais íntimos e familiares mostra-se indelicado. Amigos, tem muito poucos e é-lhes extremamente sincero, deixa-os partilhar de toda a sua verdade; gosta de abrir-se. De si mesmo procura esconder o bluff que é; na realidade, opina sobre livros, teorias, ideologias, conceitos, acontecimentos de que apenas sabe o nome; tem muito medo de ser desmascarado”.

A Operação “Nó Górdio” chega ao fim, Sagal deixou de ser a pior zona, agora é Nangololo, escreve. E a 30 de julho regista uma nova perda, o Furriel Rocha pisa uma mina antipessoal. Deixa um comentário no seu diário: “Pertence a uma família remediada, é eletricista, os seus horizontes são uma vida pacata, no emprego, ao lado da moça de quem gosta e em contacto com a família. Para realizar este futuro foi-lhe imposto como condição realizar a presente guerra. Ele jogou a sua sorte e perdeu. Se a mim me acontecesse a desgraça que o vitimou, eu merecia-o. Porque sei o crime que cometo empenhando-me numa guerra colonial. Tal como as cadências aceleradas e os acidentes de trabalho são exemplos da violência da classe exploradora sobre a trabalhadora, também os estropiados e mortos desta guerra colonial são casos da violência da classe que a quer, sobre aquela que é obrigada a fazê-la”.

(continua)

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Nota do editor

Último poste da série de 8 DE SETEMBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23599: Notas de leitura (1491): Monumenta Missionaria Africana – coligida e anotada por António Brásio; Agência – Geral do Ultramar - Lisboa / MCMLXV (1) (Paulo Cordeiro Salgado, ex-Alf Mil Op Especiais)

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Guiné 61/74 - P23600: Estórias do Zé Teixeira (59): O Senhor Augusto - Parte II (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381)

1. Em mensagem do dia 1 de Setembro de 2022, o nosso camarada José Teixeira (ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70) enviou-nos a estória do Senhor Augusto, de que publicamos hoje a segunda de três partes.


O Senhor Augusto

José Teixeira

Parte II


Veio o tempo das uvas maduras. O senhor Augusto passava o dia sentado à sombra de um castanheiro, na borda da vinha, bem lá no alto, e a noite numa palhota construída com canas de milho seco, junto ao muro. Vigiava para impedir que as uvas da patroa fossem parar ao lagar de outrem, pois havia, na aldeia, quem gostasse de provar vinho doce em primeira mão, com as uvas alheias.

Eu deixava a minha mãe no campo e ia para a beira dele fazer-lhe companhia e ouvir as suas histórias. Eram as cobras que falavam; os ratos que caçavam gatos; o Gato das Botas de cano alto, ou a do “Pedro Pedrinho, Pedro Pedrão que, depois de burro, foi Sabichão”, contos a que ele aumentava sempre um ponto, para delícia minha, mas a de que gostei mais foi a das rãs que caíram dentro de um tacho cheio de claras de ovos. Uma sentiu-se perdida, desistiu de lutar e morreu afogada. A outra bateu tantas vezes com as patas, que as claras se transformaram em castelo e ela se salvou. História intricada, essa, que me punha a pensar como é que as claras de ovos, com que a minha mãe fazia o bolo quando havia festa na quinta, ou os filhos da patroa vinham almoçar, serviam para fazer castelos dentro de um tacho. Uma coisa me ensinava ele! Nunca se deve desistir dos nossos sonhos e de lutar pela vida.

E tantas outras histórias que ele tirava da sua memória, em que estavam guardadas e cheias de pó. Segundo ele, só eu tivera a ousadia de lhas ir buscar ao velho sótão, cujo telhado, os seus cabelos que nunca conheci, se perdera com os ventos do tempo.

Sabia onde havia as mais doces uvas naquela imensa vinha que enchia meia dúzia de pipas de saboroso mosto, um verde de categoria. Então, mal eu chegava, dizia-me:
– Ó meu rapaz, vai ao bardo da leira debaixo, lá bem no fundo há umas uvas brancas de estalo. Come até te fartares. Se a patroa vier, eu tenho um ataque de tosse, e tu foges, ouviste!

Situação que se foi repetindo durante o verão, ora na leira debaixo, ora na latada, ora… (O mestre é que sabia!). Voltava, então, para junto do simpático velhinho para ouvir mais uma história.

Até que cheguei à idade de ir para a escola.

Começou o princípio do fim da minha meninice, em que misturava o trabalho de guardar os ovelhas da patroa com as brincadeiras com os rapazes da vizinhança, com brinquedos e casinhas, construídos na nossa imaginação, ou pela nossa imaginação, como naquela tarde em que descobrimos uma forma de andar de carro por uma ribanceira, transformando um ramo de carvalho em moderno meio de transporte, com um garoto sentado e outro a fazer de burro, puxando, numa correria desenfreada, até chegar ao carreiro novo. Como consequência, foram-se os fundilhos das calças e choveram umas vergastadas no traseiro, com uma fina vara de mimosa.

E quantas vezes, abandonava os meus colegas de brincadeira e ia à procura do meu amigo velhote. Havia sempre fruta fresca e madura, e mais uma história por detrás de um sorriso maroto e profundamente cativante, ou, então, a repetição de uma já conhecida, mas com novos intervenientes, pois o senhor Augusto acrescentava sempre um novo pormenor para lhe dar outro sabor.

O meu velho amigo tinha uma arma de carregar pela boca. Era a sua companheira na barraca onde se acolhia durante a noite, num dos cantos da vinha à sua guarda. A patroa mandava-o carregar a arma com zagalotes. Ele garantia-lhe que sim, mas carregava a velha espingarda com muita pólvora seca, para que fizesse muito barulho e poucos estragos.

Uma noite de pouco luar, apareceram por lá os amigos do alheio. O vigia estava atento. Seguiu-os à distância. Apontou a arma para o alto e disparou. O estrondo foi tão grande que se ouviu em todo o lugar.

No dia seguinte, o meu amigo, logo que me viu, disse-me:
– Ó meu rapaz, tu nem sabes o que me aconteceu esta noite… Levei cá um coice!
Fiquei atarantado, e na minha inocência, comentei:
– Mas… o senhor Augusto não tem burro!
– Ó rapaz, foi o canhangulo que me deu um coice – e apontava para a arma encostada ao castanheiro, sorrindo.

De seguida, contou-me os acontecimentos da noite.
– Apareceram dali, daquele lado, estás a ver aquele tronco de carvalho? Eram dois homens com uma cesta. Foram por ali, rodearam aquela borda e saltaram para vinha, e eu a segui-los. Passaram para parte de dentro do bardo e começaram a colher uvas. Os malandros sabiam onde é que as uvas estavam maduras, mas eu também sabia. Aproximei-me de mansinho. Apontei a arma para o alto, e pum! O fumo foi tanto que quando passou, já não se via ninguém. Mas, assustados, foram-se, e não voltam, podes crer.

O que mais me intrigara foi saber que as armas davam coices.

(Continua)

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Nota do editor:

Último poste da série de 7 DE SETEMBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23598: Estórias do Zé Teixeira (58): O Senhor Augusto - Parte I (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381)

Guiné 61/74 - P23599: Notas de leitura (1491): Algumas (breves) notas sobre missionação (I) - Missionaria Africana - coligida e anotada por António Brásio; Agência - Geral do Ultramar - Lisboa / MCMLXV (Paulo Cordeiro Salgado, ex-Alf Mil Op Especiais)


1. Mensagem do nosso camarada Paulo Cordeiro Salgado (ex-Alf Mil Op Especiais da CCAV 2721, Olossato e Nhacra, 1970/72), com data de 3 de Setembro de 2022:

Caros Camaradas,
Atrevo-me a caminhar por matérias de que não faziam parte das minhas preocupações literárias - a Missionação. O que farei é, somente, trazer alguns breves apontamentos.

Uma saudação amiga, Camaradas.
Ver abaixo:
Paulo Salgado



Algumas (breves) notas sobre missionação – I

Paulo Salgado

Fui espicaçado, e bem, pelo Mário Beja Santos, um excelente crítico e historiador atento, ao observar-me, recentemente, ser incompreensível não abordar eu, nas minhas narrativas mais recentes1, aspectos da missionação. Estas minhas narrativas debruçam-se, no essencial, sobre aqueles que não fazem parte das elites e que não constam dos compêndios ou das obras laudatórias e encomiásticas, ou seja, do povo que demandou o Império, se Império houve.

E tendo eu conhecido pessoalmente alguns frades franciscanos que ainda residiam na Guiné-Bissau aquando da minha estada neste País, em 1990-92, em actividade de cooperação, vinte anos depois da minha ida à guerra, tive de meter mãos à obra e ir em busca do que fartamente se produziu sobre a presença dos missionários. É uma faceta humana incontornável.

Eis-me, pois, chegado, à Monumenta Missionaria Africana – coligida e anotada por António Brásio, (Agência – Geral do Ultramar. Lisboa – MCMLXV). O meu objectivo é focar aqui, neste espaço bloguista, aberto a tantas e variadas manifestações memorialistas, alguns breves esquiços sobre a presença de missionários nos territórios d’além-mar, no século XVII, pois é deste período de tempo que trata abundantemente esta compilação.
(No entanto, sei bem que o Beja Santos nos conforta com belas páginas sobre diversos temas, incluindo a referência a actividades missionárias de franciscanos - ver no blogue).

Ora, pretendi referir-me, obrigatoriamente, a um grande estudioso que dedicou uma vida de mais de quarenta anos a um trabalho notável – a abordagem a este tema tão importante da nossa História: o Padre António Brásio. Para minha leitura prévia, e, assim, trazer breves notas para conhecimento de eventuais interessados, é bom relembrar que não sou historiador, mas um curioso escritor/narrador, servi-me do texto do Padre David Sampaio Barbosa2. Aponta-nos este estudioso o caminho da imensa obra de António Brásio. Claro que António Brásio cultivava um enorme respeito pelas culturas tradicionais africanas, ainda que eivado pela corrente política que as décadas de quarenta, cinquenta e sessenta, força ideológica do estado Novo, fossem de feição ideológica marcante na defesa do Império. Admitiu sempre António Brásio que a nossa presença secular histórica houvera sido fundamental para os homens africanos e para a defesa da civilização. Segundo David Sampaio Barbosa, Brásio «acreditou, anos seguidos, na justeza da causa de Portugal e na linearidade duma presença que acreditava benéfica para as populações nativas».

Possivelmente, António Brásio, já nos meados da década de sessenta, sentiu que se aproximava o fim da posição universalista defendida pelo Estado Novo, e que o pulsar da História se converteria, a breve trecho, em mudanças que o processo histórico universal impunha e impõe.

A quantos competirá abalançarem-se a prosseguir o que se contém nesta obra, um manancial para os historiadores interessados na História da Missionação e, a fortiori, pela História de Portugal? A mim, que procuro bases para as minhas narrativas ficcionais, ainda que baseadas em factos e personagens históricas, tão-só me interessam algumas passagens que envolvem encontros e desencontros, problemas e sucessos, de alguns missionários, e como eles, alguns soldados e marinheiros. Delas trarei duas notas, proximamente3.

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Notas:
1 - Que agora me escuso de referir por conveniência própria.
2 - Pe. António Brásio, A Paixão pela História Missionária David Sampaio Barbosa. Missão Espiritana, Vol. 13, n.º 13. Artigo 5.º 2008.
3 - Aliás, no meu livro Guiné – Crónicas de Guerra e Amor abordei as dificuldades que os frades capuchinhos enfrentaram ao logo da costa; no caso, ainda que ficcionalmente, mas atento às vicissitudes da missionação, uma crónica desse livro sobre um frade na região de Cacheu: “Frei Cipriano”.

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Nota do editor

Último poste da série de 6 de Setembro de 2022 > Guiné 61/74 - P23592: Notas de leitura (1490): Damião de Góis (Alenquer, 1502- Alenquer, 1574): um humanista europeu... Curiosamente, entre os seus ensaios, encontra-se um estudo sobre o povo Lapão (Samiska Folket) e o seu modo de vida.(José Belo, Suécia)

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Guiné 61/74 - P23598: Estórias do Zé Teixeira (58): O Senhor Augusto - Parte I (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381)

1. Em mensagem do dia 1 de Setembro de 2022, o nosso camarada José Teixeira (ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70) enviou-nos a estória do Senhor Augusto, de que publicamos hoje a primeira de três partes.


O Senhor Augusto

José Teixeira

Parte I

Toda a gente tinha uma grande estima por aquele velhinho alegre. Depois de uns anos em França, onde participara na tristemente célebre batalha de La Lys, durante a Primeira Guerra Mundial, regressou à sua terra natal e por lá ficou, como moço de lavoura.

Os caminhos da vida e a doença óssea que o sacrificava, uma sequela da sua alimentação deficiente durante os anos em que estivera envolvido na guerra, foram-lhe roubando as forças para trabalhar, mas não a vontade. Vivia da compreensiva caridade das gentes do povoado. No verão, era contratado pelos proprietários das terras para guardar os pomares e as vinhas. Mas o seu maior prazer era a conversa, e toda a gente o ouvia respeitosamente, até as crianças gostavam das suas belas histórias, sempre acompanhadas de ruidosas gargalhadas.

Habitava um casebre no cimo do lugar Novo, construído com pedras mal talhadas, coberto a colmo. No inverno, o vento invadia o compartimento, assobiando pelos buracos. A chuva acossada pelo vento escorria pelas paredes, transformando o chão térreo num lamaçal. No verão, aquela porta era a janela do seu mundo que nem de noite se fechava. De lá, o seu olhar viajava pela encosta que se estendia até ao rio, atravessada por caminhos e carreiros, ora protegidos pelas sombras de frondosos castanheiros, bem lá no fundo, ora por eucaliptos que trepam rapidamente às alturas, sugando o húmus da terra, tão necessário para a manter produtiva. Casas aos magotes davam forma aos lugares em redor das quintas dos senhores da terra, com as suas vinhas e prados que matizavam o ambiente ao sabor das estações do ano. Estradões de terra batida partiam das casas senhoriais e, serpenteando pela encosta, perdiam-se lá longe, na estrada que nos transportava à vila. Os matos agrestes e as giestas abriam-se na primavera, dando um toque colorido de amarelo àquele ambiente carregado, com a esperança dos prados.

A minha relação com ele não começara da melhor maneira.

Estava eu, no campo, a guardar as ovelhas da Dona Aninhas, a patroa, quando vi a aproximar-se aquele velhinho curvado pelos anos, de pernas arqueadas, cobertas por umas calças rotas que de tão sujas não tinham cor, a arrastar-se nuns grossos tamancos, apoiado num arrocho. De nariz adunco e boca sem dentes, com uns restos de cabelo branco a roçar-lhe o pescoço, e duas lanternas verdes focadas em mim. Parecia-me um sorridente fantasma naquele cair da tarde fria de maio.

Parou no meio do íngreme caminho que o levava a casa para descansar um pouco, e esboçou um cândido sorriso, mas eu estava de tal modo assustado com a sua figura, que tremia como varas de junco verde, tocadas pelo vento de inverno.

Alargou o seu sorriso e perguntou-me:
– Ó rapaz, tu sabes porque é que as galinhas não têm dentes?
– Não senhor… – Respondi com voz trémula e abafada, com os olhos fixos no chão, encolhido dentro de mim.
– Eu também não sei, mas um dia vou saber. Quando elas falarem, vou perguntar-lhes e elas vão dizer-me, podes crer – e deu uma sonora gargalhada.

Continuou o seu rape-rape pela encosta acima e eu fiquei a matutar. Como é que as galinhas falam, se eu só ouço o có-có-ró-có-có do galo pela manhã, tão cedinho, que, às vezes, até me acorda? Bem, as galinhas cantam. A minha mãe a cada passo me diz: A galinha está a cantar é porque tem ovo no cu, ou então, a galinha já cantou, vai buscar o ovo, rapaz! Se cantam…

Certo é que, nesse dia, quando a minha mãe me foi chamar para a ceia, encontrou-me no poleiro a falar com as galinhas, sem, contudo, obter resposta, a não ser o seu cacarejar por sentirem um intruso por perto.

Com o tempo, fui-me habituando àqueles olhitos marotos, de um verde que, noutros tempos, ofuscaria qualquer cachopa casadeira, e a que o cansaço das agruras da vida tirara todo o brilho, mas não a alegria de viver sorrindo.

Veio mês de junho, com as frutas no pomar. Um convite aos amigos do alheio para encherem os bolsos e a abada. A patroa chamou o senhor Augusto e deu-lhe a tarefa de se sentar por lá, para afugentar os mais audaciosos, em troca de uma tijela de caldo e a ceia regada com um copito de verde tinto.

Ao fim de algum tempo, eu, que também tinha direito ao caldo da patroa por lhe guardar as ovelhas, já me sentava no colo dele para comer o “modinho” da sua tigela, e ouvir-lhe as histórias que só ele sabia contar com uma ênfase gestual que me fazia rir às gargalhadas.

Calvo e sem dentes, é verdade, com os anos a pesar-lhe duramente nas suas peles encarquilhadas, mas sempre alegre. Era um prazer ouvi-lo. Até os criados mastigavam mais lentamente o parco conduto para ouvirem o velhote, como era conhecido.

Da guerra, nem falar, pois o nosso velhinho, irritado, dizia: – Isso não são histórias para cachopos. – E não se ouvia nem mais uma palavra da sua boca.

Um dia, com um copito a mais, abriu-se um pouco. Começou por perguntar-me se eu sabia porque é que os dentes lhe fugiram da boca. Como já me tinha caído um dente de leite, foi fácil responder-lhe.
– Bem, comigo não foi bem assim, mas diz-me o que aconteceu ao teu dente – quis saber.
– Caiu-me ao chão, e o galo comeu-o.
– Antes o galo que o rato. Estás com sorte, rapaz, vais dar um bom cantador.

Não me deu tempo para lhe perguntar porquê, e continuou.
– Pois eu, quando fui para a tropa, tinha a boquinha cheia de dentes, não me faltava nem um. A maldita guerra rebentou e levou-mos. Não ficaram lá todos, mas quando regressei a casa, depois de passar uns meses no hospital a curar esta perna maldita que me mata de dores, começou a cair um atrás do outro e fiquei assim, nesta figura. Careca, perneta e desdentado.

– Conte, conte histórias da guerra, devem ser as mais lindas que tem para me contar.
– Enganas-te, meu rapaz. (Gostava muito de me chamar “meu rapaz”). As histórias que vivi na guerra são muitas, e bem dolorosas, podes crer, mas irão comigo para a cova. Vou falar-te dos meus dentes, e é se queres. – Conte, conte.
– Estava na tropa quando rebentou a guerra…
– O que é uma guerra?…
– Chiu! Não faças mais perguntas, senão… Como te dizia, a guerra rebentou lá longe. Fomos logo metidos aos milhares num comboio, e só parámos quando já se ouviam os canhões.

Fez um longo silêncio. Parecia que as palavras se recusavam a sair-lhe da boca, enquanto as lágrimas lhe caíam suavemente pelas faces. Respirou fundo e continuou, limpando os olhos com as costas da mão.
– Passámos muita fome. Os franceses e os ingleses, ali ao lado, tinham comida todos os dias, e da boa. Nós manjávamos rações de combate, quando as havia. Até os freds! A gente via-os ao longe a cozinhar.
– Quem eram os freds?
– Eram os alemões, rapaz. Vá, deixa-me continuar. Enquanto eles comiam fruta em conserva todos os dias, nós, os portuguesitos, nem vê-la pelo cano da espingarda. Ficávamos ali entrincheirados meses e meses ao frio, ao calor, com fome… a morrer…
– O que faziam na guerra?
– Eu não te disse já que as histórias da guerra iam comigo para a cova? Tem juizinho!
– Agora só tenho as gengivas para mastigar a côdea seca do pão que a patroa me manda a meio da manhã para o mata-bicho.

(Continua)

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Nota do editor

Último poste da série de 30 DE JULHO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23474: Estórias do Zé Teixeira (57): Amores em tempo de guerra: III - Amores proibidos (3): Binta!... Binta!... (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381)

Guiné 61/74 - P23597: Agenda Cultural (811): A Orquestra Médica Ibérica (de que faz parte o nosso grã-tabanqueiro João Graça) irá dar, no domingo, dia 11 de setembro, na Aula Magna da Universidade de Lisboa, um concerto solidário, a favor da Associação Portuguesa contra a Leucemia





CONCERTO SOLIDÁRIO - ORQUESTRA MÉDICA IBÉRICA

Classificação: M/06 anos

Duração: 90 min. c/ intervalo

Sessão Única: domingo, 11 de setembro de 2022, às 17h00

Local: Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, ao Campo Grande

Bilhete: 10 (dez) euros

Bilhetes à venda em ticketline.pt e mais informações em www.orquestramedicaiberica.com


1. A Orquestra Médica Ibérica reúne médicos e estudantes de medicina de Portugal e Espanha, que, além da saúde, tem outra grande paixão: a música. E, entre os músicos, estará o João Graça, psiquiatra no IPO e violinista, membro da nossa Tabanca Grande
.

No seu concerto de estreia, em Lisboa, irão estar em palco 70 profissionais de saúde, no próximo domingo, da 11 de Setembro pelas 17 horas na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa.

Juntam-se num concerto solidário cuja receita da bilheteira reverte inteiramente a favor da Associação Portuguesa Contra a Leucemia.

Vão interpretar obras icónicas da música clássica e ibérica, dirigidos pelo maestro Sebastião Castanheira Martins (ele próprio médico, interno de psiquiatria no Hospital Amadora-Sintra):


(ii) A Ver o Mar - Pequena sinfonietta marítima (1999), do português Eurico Carrapatoso (n. 1962);

(iii) Sinfonia n.º 9, em mi menor, op 95, mundialmente conhecida como "Sinfonia do Novo Mundo", da autoria do compositor checo Antonin Dvorak (1841-1904) (foi escrita e estreada, em 1893, quando o popular compositor estava nos EUA a dirigir o Conservatório de Nova Iorque).

Guiné 61/74 - P23596: Historiografia da presença portuguesa em África (333): Impressões da Guiné de um missionário franciscano, início da década de 1940 (5) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Novembro de 2021:

Queridos amigos,
Aqui findam as impressões do Padre António Joaquim Dias, desta feita elencam-se as suas referências à alimentação da população guineense e faz-se menção da comunicação por ele proferida nas Comemorações do V Centenário da Descoberta da Guiné, obviamente que aproveitou o material que já transcrevemos do Boletim Mensal das Missões Franciscanas e Ordem Terceira a partir de 1942, descobre-se agora que ele também assina Dias Dinis, convirá agora juntarmos as intervenções da mesma pessoa, mais adiante se fará recensão do trabalho que ele publicou na revista BIBLIOS, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É a singularidade de um olhar de um missionário que comprovadamente se afeiçoou às duras tarefas de criar escolas, igrejas, residências, passando alguns anos sem auferir um rendimento, contando com o compadecimento de quem podia dar para eles poderem estar ao serviço de Deus.

Um abraço do
Mário


Impressões da Guiné de um missionário franciscano, início da década de 1940 (5)

Mário Beja Santos

Que grande surpresa, estas Impressões da Guiné escritas por um missionário que ali viveu mais de oito anos, são documentos que ele vai publicando ao longo dos anos no Boletim Mensal das Missões Franciscanas e Ordem Terceira, ainda não sei o que nos reserva este conjunto de cartapácios, a verdade é que há imagens magníficas sobretudo no noticiário guineense. O padre António Joaquim Dias regressou a Portugal depois de oito anos e meio de apostolado missionário em terras da Guiné e resolveu vazar no Boletim Mensal das Missões Franciscanas e Ordem Terceira a partir do número de novembro de 1942 em diante impressões e dados históricos da presença missionária franciscana na antiga Senegâmbia Portuguesa.

Chegou a hora de nos despedirmos deste missionário tão observador, primeiro ele vai dizer-nos o que viu sobre a alimentação da população guineense e depois faz-se uma síntese do seu trabalho sobre as missões católicas da Guiné Portuguesa. Deixaremos para outro texto o seu trabalho publicado na revista BIBLIOS, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1943, intitulado As Missões Católicas na Evolução Político-Social da Guiné Portuguesa.

O arroz constitui a base da alimentação destes povos. Cultivam-no desde tempos imemoriais, provavelmente trata-se de uma importação do Oriente. Os pântanos são inundados pelas grossas e abundantes chuvas, que os fertilizam carreando para eles o húmus das terras enxutas. Os Balantas são os maiores agricultores, semeiam sempre o arroz em terras enxutas. Depois transplantam-no para os pântanos, onde mercê do intenso calor ele se desenvolve rapidamente. O arroz é descascado no pilão e crivam-no em cestos indígenas de folhas de palmeira. Os indígenas cultivam duas variedades de milho-painço a que chamam milhinho. E os Mandingas semeiam milho junto das próprias palhotas. Come-se o arroz acompanhado de algum peixe e por vezes carne de animais domésticos ou da vária caça. Ao peixe e à carne, por vezes temperado com ervas e legumes, dá-se o nome de mafé. Comem acocorados, levam a mão à cabaça e formam uma bola que dirigem diretamente para a boca. Lavam os dentes com o indicador da mão direita. Entra em função, depois desta lavagem, o volumoso palito, pequeno troço de pau branco e macio, que vai escovando a dentadura.

O Padre Dias refere igualmente outras fontes alimentares, como a criação de gado, o cultivo do Fundo, a mandioca, a batata-doce, os inhames e o amendoim, bem como algumas variedades de feijão. E recorda-nos o papel da cola e os frutos como a laranjeira, a tangerineira, a toranjeira, o abacaxi, a anona, o coco, o tamarindo e a papaia, bem como a malagueta. As fontes de pescado que destaca são o caranguejo (cáquere) e a ostra. Refere por último a aguardente de cana-sacarina e o vinho de palma, dizendo deste último que é o suco branco extraído do fruto da palmeira do coconote. E aqui acabam as impressões sobre a Guiné.

O Padre Dias foi convidado a apresentar uma comunicação no Congresso Comemorativo do V Centenário do Descobrimento da Guiné e não se fez rogado, cingiu-se à revivescência da vida missionária da Guiné a partir de 1931 com os missionários franciscanos que tinham sido desviados de Moçambique. Durante muitos anos, um único sacerdote foi todo o clero da colónia, o Padre José Pinheiro ainda estava vivo após mais de 30 anos ao serviço da Guiné. Reiterando nesta comunicação o que já escrevera em diferentes números do Boletim Mensal das Missões Franciscanas e Ordem Terceira recorda que os Franciscanos se estabeleceram na vila de Cacheu, lançaram as bases da Missão Central de Bula, em chão de Brames ou Mancanhas, viviam à mingua, em acomodações de barro, montou-se a Residência Missionária de Bula com a respetiva capela-escola. Em 1933 apareceram quatro Irmãs Hospitaleiras Portuguesas, nasceram as escolas de Có, do Churo e Cacanda, a assistência religiosa à vila de Farim, a abertura do asilo de infância desvalida de Bor, a escola do Pelundo. Em 1941 O Arauto, jornal mensal da missão de Bolama, e o único da colónia, é o meio de propagação no trabalho missionário. A situação tem vindo gradualmente a melhorar, há oito missionários, 29 professores indígenas assalariados, um seminário menor, uma creche, uma maternidade, 32 escolas diurnas e 3 noturnas, um colégio de ensino secundário, uma tipografia. Dá-nos conta do movimento religioso, da assistência em enfermagem, onde inclui o serviço das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras Portuguesas, o Hospital e Maternidade de Bissau, o asilo e a creche de Bor, na manhã de 25 de maio de 1946.

No termo da sua comunicação agradece ao ex-governador da colónia, major Ricardo Vaz Monteiro o seu estímulo para a construção de igrejas na sede de cada circunscrição administrativa.

Um ponto curioso é que no Boletim da Agência Geral das Colónias diz-se que esta comunicação foi apresentada pelo Padre Dias Dinis, cabe agora ir à procura dos trabalhos que este assinou e juntar-lhes aqueles que são meramente assinados pelo Padre António Joaquim Dias.

Balantas, na construção de uma palhota
Guiné - Mulheres mandingas junto do poço. (Dentro já ficam prontas as tulhas para o arroz).
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Notas do editor:

Vd. poste anterior de 31 DE AGOSTO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23574: Historiografia da presença portuguesa em África (331): Impressões da Guiné de um missionário franciscano, início da década de 1940 (4) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 7 DE SETEMBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23594: Historiografia da presença portuguesa em África (332): Região de Tombali, "chão balanta"? [Cherno Baldé, n. circa 1960 / Carlos Schwarz da Silva, "Pepito" (1949-2014)]

Guiné 61/74 - P23595: Os nossos seres, saberes e lazeres (524): Viagem no Douro (Francisco Baptista, ex-Alf Mil Inf)

1. Mensagem do nosso camarada Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616 / BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), com data de 31 de Agosto de 2022:


VIAGEM NO DOURO

Num dia quente de Agosto apanhei o comboio, no Porto, na Estação de Caminhos de Ferro de Campanhã com destino à Estação do Pocinho. O destino final era Brunhoso, a minha aldeia, no concelho de Mogadouro. Percorrer a linha do Douro, contemplando o rio e as encostas que o ladeiam, era um regresso aos tempos da juventude, quando esse percurso fazia parte da minha aprendizagem escolar e do meu crescimento. Foi com um misto de curiosidade e de saudade que o voltei a fazer. 

O calor como sempre era abrasador, o Douro é uma fornalha, não faz pão mas faz bom vinho, como sempre o possível arrefecimento era efectuado pelas janelas das carruagens abertas. Antigamente, em tempos de maior afluência o comboio poderia ir à pinha, com uns passageiros sentados e outros de pé, todos eles ou a sua grande maioria transmontanos e alguns beirões à mistura. Passados tantos anos quase não vi transmontanos entre os viajantes que enchiam todos os lugares sentados do comboio.

Como transmontano, senti-me só entre turistas nacionais de outras origens e alguns estrangeiros a tirar fotografias ao curso do rio, às suas margens e às encostas do vale. Na estação do Pinhão quase todos os passageiros saíram,  provavelmente para regressarem nos barcos turísticos que navegavam no rio ou de comboio. A maioria dos que ficaram saíram na estação do Tua, muito próxima. Na minha carruagem ficámos dois autóctones dessas paragens, eu e uma senhora que me disse ser natural da Beira Alta, emigrantes internos, a morar no litoral e a lamentar o estado de degradação dos edifícios das estações de comboio.

O vale do Douro que divide as províncias de Trás-os Montes e a Beira Alta, é o vale mais espectacular de Portugal e um dos mais belos da Terra, uma obra prima da natureza que a mão de muitos homens transmontanos, galegos e beirões, há séculos lapidaram, quando construíram os socalcos, onde foram plantadas as vinhas que produziram e produzem os vinhos mais afamados do país. Quando o percorremos todos os nossos sentidos ficam alerta, admiramos os grandes espelhos de água do rio com águas calmas e abundantes devido às barragens construídas, o verde das videiras nos socalcos, que em degraus sobem as encostas, e as outras tonalidades de verde de plantas, arbustos e árvores, perto das margens ou a subir as encostas a esmo, adivinha-se o sabor e o cheiro do vinho fino e dos vinhos de mesa encorpados associados à região vinícola do Douro. 

Há outros vales que rasgam a província de norte a sul, onde correm os rios Sabor, Tua, Corgo, o Tâmega também, muito apreciados pelos amantes da natureza, pois sem terem a monumentalidade do vale do Douro têm muita beleza e tinham há algumas dezenas de anos também vias férreas que completavam a Linha do Douro de modo a transportar os transmontanos às suas vilas e aldeias.

Grande parte dos muitos milhões que a União Europeia enviou para Portugal, depois de 1985, para desenvolver a indústria, o comércio e o turismo, alguns governos não sabendo o que fazer a tanto dinheiro, para mostrar obra, iludir os eleitores e engordar a classe política construíram estradas e auto-estradas, algumas úteis, outras inúteis e desnecessárias. Os ramais das linhas de comboio que percorriam esses vales laterais a norte desses afluentes do rio grande, foram abandonados e escondidos por um governo, sem qualquer consulta às populações que serviam.

Em Trás-os-Montes, a beleza dos montes que em formas mais cónicas ou pontiagudas, formam uma espécie de mar encapelado, perderam muito do seu encanto que não se concilia com a velocidade de vias rápidas ou auto-estradas. Bastava uma auto-estrada, uma via rápida e algumas estradas melhoradas. Se os políticos do cimento e do asfalto, refestelados nos gabinetes do ar condicionado de Lisboa, tivessem percorrido os montes e vales da província, e soubessem ver o que o poeta Miguel Torga viu em toda a sua beleza e dimensão, provavelmente teriam conservado e melhorado todas as vias férreas dos vales menores. Os turistas que vêm de todo o país e do mundo inteiro para admirar o vale do Douro, tal como os naturais da província, agradeceriam, se pudessem viajar e espraiar a vista por eles e dar-lhes mais vida também.

Resta-me dizer que desembarquei do Pocinho, no lado sul, Beira Alta, também já chamada Beira Transmontana, onde o Douro ao receber o caudal do Sabor, se espraia num grande lago de águas calmas, rodeado de grandes hortas verdejantes a sul e a norte. A norte dará início ao fértil vale da Vilariça que acompanha o Sabor alguns quilómetros, mais para riba, corre entre encostas mais áridas e de maior declive, onde havia muitas oliveiras e amendoeiras e havia, antes da construção da barragem nas margens mais planas, as oliveiras centenárias.

No Pocinho esperava-me, de automóvel, um casal de simpáticos emigrantes no Canadá, ele António Martinho Magalhães, meu primo de Brunhoso, e a esposa Aluína Afonso, de Genísio, Miranda. Fomos comer a posta à mirandesa em Mogadouro, de que todos nós os naturais do planalto sentimos saudades inadiáveis quando voltamos lá.

Dia feliz, apesar do calor tórrido, 38 graus, uma viagem agradável, com boas memórias, bom almoço, boas companhias.


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Nota do editor

Último poste da série de 3 DE SETEMBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23582: Os nossos seres, saberes e lazeres (523): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (66): Voltar à minha querida Bruxelas, depois da pandemia - 4 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P23594: Historiografia da presença portuguesa em África (332): Região de Tombali, "chão balanta"? [Cherno Baldé, n. circa 1960 / Carlos Schwarz da Silva, "Pepito" (1949-2014)]


Distribuição das povoações do Cantanhez, segundo J. P. Garcia de Carvalho (1949) (Desenho de A. Teixeira da Mota) (*)


I. Os militares portugueses que estiveram na Guiné, no período da guerra colonial / guerra do ultramar (1961 / 74), a começar pelos oficiais (quer do QP quer milicianos),  tinham muito poucos conhecimentos etnográficos e historiográficos sobre o território (a não ser alguns estudiosos como o oficial da Marinha, A. Teixeira da Mota e, claro, os agentes da administração colonial... e os missionários). 

Não admira, por isso, que haja por vezes, nos nossos escritos, informações erróneas ou menos precisas como, por exemplo, dizer que a região de Tombali é (ou era, naquele tempo)  "chão balanta". (**)

(...) "A população de Bedanda é hoje predominantemente fula, quando a região foi sempre,
ao longo dos anos, chão balanta.(...) (In:"Panteras à Solta", de Manuel Andrezo, ed. autor, s/l, 2010, pág. 76)

É verdade que os balantas, nos anos 60, estavam em maioria, demograficammete falando e constituíam, só por si, o grosso da guerrilha.  Mas a sua presença na região não tinha mais do que 40 e tal anos... Vários grupos étnicos foram passando por aqui ao longo dos séculos, a começar pelos nalus... 

A este respeito, vamos reproduzir dois pontos de vista, guineenses, o do Cherno Baldé (assessor do nosso blogue para as questões etno-linguísticas) e o do nosso saudoso amigo engº agrónomo Carlos Schwarz da Silva, "Pepito" (1949-2014), cofundador e líder histórico da ONGD AD - Acção para o Desenvolvimento, com sede em Bissau.


(i) Cherno Baldé (n. circa 1960, em Fajonquito, economista, vivendo em Bissau), comentário ao poste P23590 (**):

(...) Alguns esclarecimentos que se impõem sobre a situação da área de Bedanda, conforme descrita no presente Poste:

1. (...) "Sabe-se que populações balantas emigraram, nos anos 20/30, para a região de Tombali e ali desenvolveram a cultura do arroz. No sul, os balantas (mas também biafadas, mandingas, nalus, sossos...) são aliciados pelo PAIGC. A economia da região fica totalmente desarticulada. Bedanda, em pleno chão balanta, é agora ocupada maioritariamente por fulas fugidos do Cantanhez e doutras partes."

Efectivamente, como descrito no incio deste parágrafo, os Balantas no sul não estão no seu práprio "chao", são imigrantes que vieram do Norte onde está situado o seu chão, mais ou menos na região situado entre os rios Geba e Cacheu ou Farim. 

Bedanda, assim como toda a Peninsula de Cubucaré (maior parte da região de Tombali, que vai de Guileje até Cabedu na foz do rio Cumbijã), é chão Nalu, mas que estava sob domínio Fula desde a segunda metade do Século XIX. 

Por isso os régulos assim como os Chefes de Tabancas são da etnia Fula sem surpresas porque estão em terras conquistadas a ferro e fogo quando a presença portuguesa na zona se limitava a alguns presidios e feitoras, nomeadamente Bolama e, mais tarde, Buba, para contrariar ao avanço do exército do estado fula de Futa-Djalon. 

Foram os portugueses que promoveram e encorajaram o regresso de Nalus e Biafadas às suas terras de origem donde tinham sido expulsos pelos novos conquistadores vindos das montanhas de Boé e de Futa-Djalon, estando praticamente acantonados em algumas ilhas e zonas de tarrafo nos rios e na costa maritima. E, ironia do destino, serão estes (Biafadas e Nalus) os primeiros a se levantar contra a presença militar portuguesa no ataque ao quartel de Tite em 23 de janeiro de 1963.

2. (...) "O capitão não aceitava que a população sob o controlo das suas tropas vivesse pior do que a população controlada pelos guerrilheiros. Do lado deles não havia falta de arroz, mancarra, mandioca e óleo. Do lado da tropa tinham apenas cana, tabaco e panos que os comerciantes traziam de Bissau, e o arroz que compravam às mulheres dos guerrilheiros." (...)

Evidentemente que sim, era o estado normal das coisas antes do eclodir da guerra em 1963. Para aquelas populações, o mais importante era a sua subsistência social e económica dentro dos limites e condições materiais que lhes permitiam sobreviver e não a guerra, num circuito comercial multissecular de trabalho e de troca de produtos que consideravam normalissimo, não fora as alterações repentinas, surgidas do conflito em presença e da vinda, cada vez mais numerosa de forças expedicionarias destinadas a impulsionar a contraguerrilha. 

E, na opinião de muitos analistas, teria sido esta a fase em que, de facto, os portugueses perderam a guerra, ao perderem a possibilidade do controlo da população, designadamente Balanta que, incompreendidos e maltratados acabaram por vacilar para o lado dos "terroristas" com os quais, à partida, não partilhavam os seus ideais politícos e nem tinham quase nada em comum, sendo a maioria de origem urbana e pertencentes a outras etnias do país e dos países vizinhos.

Estes relatos e bravatas de "heróis de Ponta Cabral" são muito tipicos dos primeiros anos do conflito quando a guerra ainda parecia quase "uma brincadeira de mau gosto de um punhado de pretinhos do Ultramar". (...)


Guiné-Bissau > Região de Tombali > Sector de Bedanda > Iemberem > Simpósio Internacional de Guileje  (1-7 de março de 2008)> Visita ao sul > Dois homens grandes da Guiné, o Engº Agrónomo Carlos Schwarz (Pepito, para os amigos), fundador e director executivo da AD - Acção para o Desenvolvimento, e o Aladje Salifo Camará, régulo de Cadique Nalu e Lautchandé, antigo Combatente da Liberdade da Pátria, o rei dos nalus, na altura com 87 anos e entretanto já falecido em 21 de janeiro de 2011, em Cadique, capital do seu reino. O rei dos nalus considerava o Pepito como "filho adoptivo". (***)

Foto (e legenda): © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservad
os. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


(ii) Carlos Schwarz da Silva, "Pepito" (Bissau, 1949 - Lisboa, 2014), engº agrónomo, cofundador e director da AD - Acção para o Desenvolvimento. Excertos do poste P3070 (**)

(...) O reduzido número de fontes escritas torna muito difícil conhecer com detalhe a história do povoamento humano de toda a zona de Cantanhez. (...)

Recorremos a alguns documentos a que tivemos acesso (...). Na ausência de outras fontes, recorremos a entrevistas aos mais velhos, Homens Grandes, portadores e transmissores da História oral de geração em geração (...).

(...) Parece (...) indiscutível que os Nalus eram o povo que habitava esta zona, em especial os sectores de Cubucaré e Quitafine, e em alguns pontos isolados do Cubisseco, quando aportaram os primeiros portugueses a esta costa de África.

(...) Com a Convenção Franco-Portuguesa de 1886, procede-se a uma nova delimitação das possessões  do rei dos  Nalus: a França cedia a Portugal a zona de Cacine por troca com a Casamança.(...)

(...) Por volta de 1860 dá-se a invasão Fula que vêm de Boké na Guiné-Conakry e do Boé no Futa Djalon que apertam os Nalus contra o mar e os obrigam a refugiarem-se nas ilhas de Melo e de Como, certos da dificuldade dos Fulas em se confrontarem com a água.

De forma inesperadamente rápida os Nalus começam voluntariamente a converter-se ao islamismo e consequentemente a abandonarem a escultura, muito semelhante à dos Bagas da Guiné-Conakry, de rara beleza e simbologia.

Trinta anos depois (1890) dá-se a chegada dos Sossos, vindos de Boffa na actual Guiné-Conakry, os quais se aliam aos Nalus para se oporem ao expansionismo Fula.

É por volta de 1896 que grande parte dos Nalus que habitavam as ilhas passam ao continente e, chefiados por Cube, antigo escravo e depois batulai do régulo Fula do Forreá, fundam inicialmente a tabanca de Cabedú e sucessivamente as de Calaque, Cafal, Cauntchinque e por último, em 1926, Cadique.

Mais recentemente, por volta dos anos 1920, verifica-se a chegada massiva dos Balantas, vindos da zona de Mansoa, os quais, numa fase inicial, não são recebidos muito cordialmente pelos Nalus.

Segundo Garcia de Carvalho, na altura Chefe de Posto Administrativo de Bedanda, em 1946, os Nalús, em número de 910 almas estavam repartidos por três territórios englobando 19 tabancas:
  • Regulado de Guiledje: tabanca de Cafunaque (8 pessoas)
  • Território de Cantanhez: tabancas de Catomboi (5), Camecote (15), Camarempo (15), Sogoboli (25), Catchmaba Nalú (30) e Caiquene (25)
  • Território de Cabedu: tabancas de Cafine (60), Calaque (50), Cafal (100), Fonte Iamusa (20), Cai (10), Cassintcha (40), Catombakri (40), Cabedú (200), Catesse (50), Catifine (50), Cabante (20) e Ilhéu de Melo (40).

Por outro lado, Artur Agusto Silva, recorrendo ao Censo de 1960 que apresenta números credores de confiança, assinala a existência em toda a zona, e não exclusivamente na antiga Bedanda, 3009 Nalus.

Com o início da luta de libertação nacional desencadeada em 1963, os Nalús acabam por aderir na sua quase totalidade ao movimento pela independência da Guiné-Bissau, vivendo e sendo protagonistas exemplares na construção das primeiras zonas libertadas, em Cantanhez. (...)

Em 1946 havia 1295 Futa-Fulas em todo o sector de Cubucaré, o que representava 0 segundo grupo com maior número de habitantes. (...) 

Nos anos 1920, os Balantas, fruto dos massacres perpetrados em Nhacra e Mansoa por Teixeira Pinto, na chamada guerra de pacificação, e pelos trabalhos forçados a que eram sujeitos na construção de estradas, decidem imigrar para o sul, primeiramente para o Cubisseco e depois para Tombali.

Inicialmente o seu relacionamento não foi bom com os Nalus que não os receberam bem. Mais tarde a situação modificou-se, tendo estes aprendido as técnicas de orizicultura de bolanha salgada e passado a praticá-las. Instalaram-se nas zonas ribeirinhas, ao longo do rio Cumbijã, praticando um sistema de produção de bolanha, em que o arroz de bolanha salgada era o elemento quase exclusivo do sistema. 

Rapidamente passaram a ser a etnia mais numerosa, tendo sido registados 7165 habitantes em 1946, em 29 tabancas do sector de Cubucaré.

(...) Chefiados por Lourenço Davy, um número muito reduzido de Sossos terão chegado a Cantanhez vindos de Boké, por volta de 1891, criando a tabanca de Camecote, muito perto da de Iemberém.

Especialmente ligados ao comércio, impõem a sua língua como o crioulo de Cantanhez. Embora em 1946 apenas com 490 habitantes concentrados em 4 tabancas, acabam por determinar que a língua sossa seja falada por todas as outras etnias como instrumento financeiro de comercialização dos produtos. (...)

Se, nos primeiros 15 anos do pós-independência (1973), a situação das migrações para a região de Cantanhez não sofreu mudanças significativas, já nos últimos 15 anos se vem registando uma tendência para um acentuado crescimento demográfico. (...) (****)

[ Selecção / revisão / fixação de texto/ negritos: LG ]
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Notas do editor:



terça-feira, 6 de setembro de 2022

Guiné 61/74 - P23593: (In)citações (218): Reflexão (muito básica) (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68)

© ADÃO CRUZ


REFLEXÃO (muito básica)

adão cruz

Há dias, num café perto de minha casa, uma mulher entrou e perguntou quanto custava um rissol. Um euro, responderam do balcão. A mulher encolheu os ombros e ia a sair, quando eu disse que lhe pagava o rissol e uma bebida. Agradeceu muito, comeu o rissol e tomou um café.

Lembrei-me então do que se havia passado numa pequena tasca do Porto, que já não existe, onde se comiam as melhores papas de sarrabulho. Deliciava-me eu com uma tigelinha das ditas, quando um dos dois homens que estavam de pé ao fundo do balcão, bebericando cada um o seu copito de vinho tinto, ao ver as minhas papas fumegantes, perguntou ao dono do restaurante quanto custava uma malga de papas. Dois euros, respondeu o patrão. Tinham ar de pobres e sem cheta e por isso ficaram-se pela pergunta. Claro que eu tinha todo o gosto em pagar-lhes a malga de papas. Ainda esbocei um gesto, mas contive-me. Tive receio de que se sentissem humilhados perante as outras pessoas. Fiquei triste e arrependido de não lhes ter oferecido a porra das papas.

No fim da refeição, na pausa do café, peguei no jornal, e logo numa das primeiras páginas deparei com o anúncio de que estava para sair a nova bomba da Mercedes, que custava à volta de duzentos mil euros. Parei um pouco, retirei os olhos do jornal, espetei-os na porta da retrete ao fundo da sala e perguntei a mim mesmo que merda de mundo é este. E concluí que, sendo o Homem uma estrutura tão complexa e interessante, foi muito mal acabado. Eu sou um amante das Neurociências e quanto mais leio mais deslumbrado fico com as maravilhas do nosso cérebro. Mas, na prática, confesso sentir que toda a engrenagem está desconjuntada e enferrujada. Na verdade, tudo no homem deveria funcionar de maneira a que a nossa vida nunca rompesse a órbita do equilíbrio. Assim como é impossível que a chuva seja de sangue, como é impossível que o sangue seja de água, como é impossível expirar para dentro e inspirar para fora, deveria ser impossível haver quem tenha um carro de duzentos mil euros e quem não tenha dois euros para comer umas papas de sarrabulho.

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Nota do editor

Último poste da série de 1 DE SETEMBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23576: (In)citações (217): Reflexão (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68)

Guiné 61/74 - P23592: Notas de leitura (1490): Damião de Góis (Alenquer, 1502- Alenquer, 1574): um humanista europeu... Curiosamente, entre os seus ensaios, encontra-se um estudo sobre o povo Lapão (Samiska Folket) e o seu modo de vida.(José Belo, Suécia)

1. Mensagem do nosso amigo e camarada José Belo, um dos milhões de portugueses da diáspora para quem a casa portuguesa foi pequena:

Data - segunda, 15/08/2022, 12:36
 Assunto . Ainda Damião de Góis

Caro Luís

Julgo ter-se obtido algum debate entre Camaradas quanto aos últimos textos.

Vou enviar-te um texto mais completo sobre a muito interessante figura a nível europeu que foi Damião de Góis.

Como todos os grandes e reconhecidos pensadores portugueses da época teve um triste fim às mãos da Santa Inquisição.

Como inesperada curiosidade para mim  encontra-se entre as obras de Damiao de Góis um ensaio dedicado ao estudo do povo Lapão e à vida na Lapónia.

Verdadeiramente... ”as malhas que o Império tece”.

Dentro de uma semana regresso para os States onde conto mais uma vez “perder-me” em viagem de automóvel nas estradas rurais do Deep South americano, Louisiana e Mississippi, onde se acaba sempre por redescobrir todo um passado que muitos julgam há muito terminado.

Será um longa e saudável pausa nas... ”com-pura-vens”!

Um abraço, 
JBelo
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[Imagem  acima: Retrato de Damião de Góis (1502-1574). Fonte: Wikimedia Commons (com a devida vénia... Imagem do domínio público).

(...) "Retrato de Damião de Góis, óleo sobre tábua, talvez da autoria de Jan Gossaert (1478-1532) ou outro autor flamengo desconhecido, baseado numa gravura de Philips Galle de 1587 que, por sua vez, toma inspiração de um desenho de Albrecht Dürer realizado entre 1520 e 1521. Localização desconhecida." (...)  
]


2. Notas de leitura: Damião de Góis (1502-1574): um humanista europeu (**)
 
por José Belo


Um português que foi figura de referência do Humanismo europeu. Dotado de profundo espírito crítico e de um conhecimento verdadeiramente enciclopédico. Nasceu (em 1502) e morreu (em 1574) em Alenquer 
[onde há o Museu Damião de Góis e das Vítimas da Inquisição: vd. aqui o vídeo, disponível no You Tube,  Damião de Góis na História de Alenquer e Portugal)].

De nascimento nobre, passou dez anos da sua juventude na corte de D. Manuel I. Em 1523 foi nomeado Secretário da Casa de Comércio de Portugal em Antuérpia. Posteriormente foi encarregado de importantes missões diplomáticas e comerciais através da Europa. (1528-1531).

Em 1533 abandonou todas as funções governamentais para se dedicar exclusivamente aos seus estudos humanistas. Época em que criou fortes contactos com Martinho Lutero.

Criou também grande amizade pessoal com Desidério Erasmo que muito o veio a influenciar.

Estudou em Pádua entre 1534-1538, mudando-se depois para Lovaina por um período de seis anos

Foi feito prisioneiro aquando da invasão francesa dos Países-Baixos, mas libertado após intervenção do Rei D.João III que o chamou a Portugal.

Em 1548 foi nomeado Responsável Mor da Torre do Tombo. Dez anos mais tarde, por escolha do Cardeal D. Henrique, escreveu a crónica do Rei D. Manuel I, que termina em 1571.

Este trabalho “histórico-independente” desagradou a algumas das famílias nobres importantes que de imediato procuraram encontrar razões que o incriminassem perante a Santa Inquisição.

Os contactos com Lutero e Erasmo, a forte e sentida crítica, por escrito, ao massacre dos Cristãos Novos efectuado em Lisboa no ano de 1506 , foram aproveitados nestas incriminações.

O Cardeal D. Henrique, nas suas funções de Grande Inquisitor, critica Damião de Góis e proíbe todas as suas publicações em Portugal.

A Ordem dos Jesuítas usa a importante figura de Simão Rodrigues na acusação directa de luteranismo nas ideias de Damião de Góis.

O somatório de todas estas acusações resultou na prisão do escritor, sendo este sujeito a uma série de interrogatórios que duraram quase dois anos.

Enviado para o Mosteiro da Batalha, é posteriormente libertado para vir a morrer na sua terra natal (Alenquer) em circunstâncias rodeadas de mistério.

Damião de Góis compôs algumas obras musicais de qualidade. Possuía também importante coleção de pinturas da época.

Curiosamente, entre os ensaios de Damião de Góis encontra-se um estudo sobre o povo Lapão (Samiska Folket) e o seu modo de vida.

Tenho que admitir ter este lusitano, com mais de quarenta anos de vivências na Lapónia sueca, lido este estudo como uma verdadeira mensagem vinda… do outro lado do tempo!

As estranhas “malhas que o Império tece”!

Um abraço do JBelo


 José Belo, jurista, o nosso camarada luso-sueco, cidadão do mundo, membro da Tabanca Grande:

(i) tem repartido a sua vida agora entre a Lapónia (sueca), Estocolmo e os EUA (Key West, Florida); 

(ii) foi nomeado por nós régulo (vitalício) da Tabanca da Lapónia, recusando-se a jubilar-se do cargo: afinal todos os anos pela primavera, corre o boato de que a Tabanca da Lapónia morre para logo a seguir ressuscitar, como a Fénix Renascida; 

(iii) na outra vida, foi alf mil inf, CCAÇ 2391, "Os Maiorais", Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70); 

(iv) é cap inf ref (mas poderia e deveria ser coronel, se ele tivesse tratado da papelada a tempo) do exército português; 

(v) durante anos alimentou, no nosso blogue, a série "Da Suécia com Saudade"; tem escrito, utimamente, no blogue, sobre portugueses ilustres espalhados pelo mundo (e alguns esquecidos ou menos bem lembrados em Portugal);

(vi) tem cerca de 230 referências no nosso blogue.
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 10 de agosto de 2022 > Guiné 61/74 - P23512: Notas de leitura (1473): Eduardo Lourenço (1923-2020): afinal, quem são os portugueses, e o que significa ser português? (José Belo, Suécia)

(**) Último poste da série > 5 de setembro de  2022 > Guiné 61/74 - P23590: Notas de leitura (1489): "Panteras à solta", de Manuel Andrezo (pseudónimo literário do ten gen ref Aurélio Manuel Trindade): o diário de bordo do último comandante da 4ª CCAÇ e primeiro comandante da CCAÇ 6 (Bedanda, 1965/67): aventuras e desventuras do cap Cristo (Luís Graça) - Parte VII: A incrível história do soldado 25, cabo-verdiano, aliciado pela amante, uma "mulher do mato" de Cobumba, para cometer um acto de alta traição: tomar o quartel e matar todos os tugas...