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quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27572: Documentos (48): Brochura "Missão na Guiné", da autoria do Estado Maior do Exército. 3ª ed. (Lisboa, SPEME, 1971, 78 pp.) - Parte V: aspecto humano (continuação): Governo e administração; resumo histórico (pp. 40-50)


Capa do livro: Portugal. Estado Maior do Exército - "Missão na Guiné". 

Lisboa: SPEME, 1971, 77, [5] p., fotos.


1. Tem valor ,"sentimental"  mas também "documental" esta brochura do Estado Maior do Exército, que nos era distribuída já a bordo do navio que nos transportava para a Guiné (ou do avião dos TAM, a partir de finais de 1972). Estamos a reproduzir a brochura da 3ª edição,  de 1971.

Tem 77 páginas (mais 5 inumeradas) e é ilustrada com  9 fotos.  Tudo a preto e branco. Baratinho. A edição é do SPEME (Serviço do Publicações do Estado Maior do Exército).  Em 1967 (de 1958 a 1969) era Chefe do Estado Maior  (CEME) o gen Luís Câmara Pina (1904-1980). 

É constituída por três partes:  (i) Missão no Ultramar;  (ii) Monografia da Guiné: aspeto físico, humano e económico;  (iii) Informações úteis. 

Vamos continuar a reproduzir, sem comentários,   a parte da monografia respeitante ao aspeto humano (pp. 40-50). Esperamos que os nossos leitores possam fazer a sua apreciação (crítica) do documento. Tal como o PAIGC tinha os seus documentos de doutrinação e propaganda, também as NT tinham os seus. "Missão na Guiné" não era um texto apenas técnico e informativo. Tinha uma componente político-ideológiica, como acontece em todas as guerras.

apresentados pelo Ministro do Ultramar ou pelo Governador
 (função consultiva).

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(Continua)


Fonte: excertos de Portugal. Estado Maior do Exército: "Missão na Guiné". 
 Lisboa: SPEME, 1971, pp. 40-50.


(Seleção, edição de fotos e páginas, fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P27571: Historiografia da presença portuguesa em África (509): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1953 (67) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Junho de 2025:

Queridos amigos,
Sempre a sombra do ímpeto criador Sarmento Rodrigues, é inaugurada em 1953 a ponte-cais de Bissau, é acontecimento marcante; há graves problemas com a quantidade e qualidade de arroz, apostara-se numa indústria modernizada de descasque, uma parte fundamental da produção passava-lhe à margem, o governador procura tomar medidas firmes; já há em funcionamento um liceu-colégio, pretende-se agora avançar para um incipiente ensino técnico e comercial, fica anexado ao dito liceu-colégio, tem funcionamento diurno e noturno; são tomadas medidas consideradas indispensáveis para tratar a lepra, aqui sempre designada como o Mal de Hansen; dado que o Boletim Oficial publica os diplomas do Governo central que têm a ver com a política ultramarina, ficamos a saber que se pôs termo ao degredo que toma a forma de pena de prisão maior. Quanto ao mais, é patente da leitura deste Boletim Oficial que se entrou na rotina administrativa, aumentaram-se os capitais do BNU, o governo de Lisboa faz com ele um contrato de 30 anos, há muitas menções ao reforço de verbas, nomeações e reconduções. Enfim, a colónia parece progredir, não há uma só menção de sublevações ou conflitos interétnicos.

Um abraço do
Mário



A Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1953 (67)


Mário Beja Santos

Estamos no último ano da governação de Raimundo Serrão. Em 28 de maio foi inaugurada a ponte-cais de Bissau, por diploma legislativo n.º 1:571, publicado no Boletim Oficial n.º 24, de 11 de junho, define-se a área de jurisdição do porto pelo ilhéu dos Pássaros, canal do Impernal, margem direita do rio Geba e uma linha paralela a esta abrangendo os ilhéus do Rei e dos Pássaros. Faz-se referência à exploração do porto, tem à sua frente um conselho de administração, definem-se as taxas a cobrar pelos serviços de atracação e desatracação dos navios, as taxas a cobrar pelas mercadorias e bagagens, etc. No mesmo diploma consta um despacho do governador em que se refere o preço de venda ao público para o arroz em casca (arroz em casca originário da própria circunscrição e de outras circunscrições).

O problema do arroz inquieta a governação, como fica bem claro no Boletim Oficial n.º 3, de 19 de janeiro, diploma legislativo n.º 1:563, que regula a produção, armazenagem, detenção, circulação, industrialização, exportação e comercialização do arroz. Diz-se claramente:
“Verificou-se durante a campanha de arroz no ano findo que este cereal em casca não apareceu nas quantidades previstas para o abastecimento das indústrias locais de descasque, pouco tendo ultrapassado 50% das cotas legalmente estabelecidas para as referidas indústrias.
Por outro lado, é do conhecimento público que as quantidades comerciadas de arroz de descasque manual vêm aumentando consideravelmente de ano para ano, com o inconveniente de uma grande parte deste cereal assim descascado se escoar para fora da Província, com grave prejuízo do seu abastecimento interno e das suas exportações devidamente legalizadas.
Enquanto em todos os centros orizícolas mundiais estão procurando melhorar os seus produtos pela laboração industrial, não é aceitável que nesta Província se continue a permitir o desenvolvimento do descasque manual sobretudo no momento em que a indústria local se vai apetrechando para uma maior capacidade e melhoria dos produtos laborados.
Verifica-se ainda que a excessiva produção de arroz de descasque manual originou uma grande dificuldade no seu controle, dadas as especiais condições geográficas das Guiné Portuguesa, a tal ponto que se tornou notória a falta de arroz descascado para o abastecimento interno.”


É um diploma extenso, como diz o próprio título, refere da produção e armazenagem, da detenção e circulação, da exportação, sanções, etc. Na sequência do diploma, o governador determina que a saída de arroz em casca das localidades em que se encontra armazenado será sempre acompanhado de guia passada pela respetiva autoridade administrativa, entre outros preceitos.

Já se fez referência que Raimundo Serrão está focado no ensino. No Boletim Oficial n.º 19, de 7 de maio, refere-se a criação de uma escola comercial anexa ao colégio-liceu de Bissau, destina-se a ministrar, em regime noturno, um curso de aperfeiçoamento e em regime diurno o ciclo preparatório e o curso geral de comércio.

Ficamos igualmente a saber que há problemas financeiros no BNU – Banco Nacional Ultramarino, são aludidos no Boletim Oficial n.º 26, de 30 de junho. Escreve-se que estava completamente debelada a grave crise que ameaçou o banco, faz-se um histórico das dificuldades ocorridas em fevereiro de 1951 e como o Governo central procedeu à consolidação da instituição bancária; é feito um novo contrato, a vigorar por trinta anos, tal como Portugal fizera com o Banco de Angola, aumenta-se o seu capital, refere-se que o banco gozará das regalias que as emissões de notas lhe oferecem, obrigando-se a pagar uma renda às províncias ultramarinas.

No Boletim Oficial n.º 28, de 9 de julho, fica-se a saber que vai haver um prédio para a Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné, será edificado na Praça do Império, procede-se a uma troca de terrenos entre o Estado e a Associação, sem direito a mais indeminizações de parte a parte. Não deixa de ser curioso ver, como se publica no Boletim Oficial n.º 36, de 3 de setembro, a tabela dos valores fiscais dos produtos de exportação, fala-se concretamente de produtos oleaginosos (amendoim, coconote, copra, gergelim, óleo de palma, purgueira e rícino) e outros produtos (que vão desde arroz descascado e borracha até às madeiras).

Não menos importante é a publicação no Boletim Oficial n.º 39, de 24 de setembro, do Decreto n.º 39321, extingue-se a pena de degredo nas províncias ultramarinas, sendo substituída por penas de prisão maior, de igual duração menos um terço, as penas de degredo cominadas para crimes previstos na legislação vigente no Ultramar. “As penas de degredo já aplicadas no Ultramar, ainda não cumpridas, no todo ou em parte, executar-se-ão como penas de prisão maior.”

Temos finalmente publicado no Boletim Oficial n.º 45, de 5 de novembro, o Serviço de Combate ao Mal de Hansen:
“Considerando que o progresso das ciências médicas no campo da evolução, profilaxia e tratamento exige, para uma ação coordenadora na luta contra aquela doença, nos seus aspetos médicos e sociais especiais, do critério orientador de um organismo especializado, é criado o Serviço de Combate ao Mal de Hansen que funcionará sob a superintendência e orientação da Repartição Central dos Serviços de Saúde e imediata direção do médico leprólogo como chefe desses serviços.”
Vejamos alguns aspetos do regulamento: os doentes serão, conforme os casos, submetidos a um destes regimes: observação ou vigilância sanitária; vigilância e tratamento ambulatório; internamento em estabelecimento adequado; tratamento domiciliário. São considerados suspeitos: as pessoas com lesões abertas ou outras que apresentem a sintomatologia aparente do Mal de Hansen; os pais, filhos, cônjuges e irmãos dos doentes, desde que tenham habitado com este no período contagioso da doença, etc.

Escusado é dizer que está perfeitamente instalada uma rotina administrativa, como iremos ver com a nova governação de D. Diogo António José Leite Pereira Mello e Alvim, o novo governador é capitão de fragata e chegará em 7 de janeiro de 1954.

O governador Raimundo Serrão terminou a sua comissão como governador da Guiné
O novo governador, o Capitão de Fragata Diogo de Mello e Alvim chegará à Guiné em julho de 1954
Luís Pinto, mulher e filhos. Imagem retirada de INEP/Casa Comum
Criança branca e criança mandinga, INEP/Casa Comum
António Francisco da Graça com família, Teixeira Pinto. INEP/Casa Comum
Objeto cultural-religioso mandinga, Museu Nacional de Etnologia
Adorno de costas bijagó, Museu Nacional de Etnologia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 17 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27541: Historiografia da presença portuguesa em África (508): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1952 (66) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27570: Efemérides (380): Aconteceu há 60 anos em Jumbembem (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 24 de Dezembro de 2025:

Aconteceu há 60 anos

No ano de 1965 foram colocados na Companhia de Artilharia 730 do Batalhão de Artilharia 733 dois Soldados de Transmissões Condutor Auto, que viria estar sediada em Jumbembem, de seu nome Artur António da Conceição, o Artur, e Manuel Mendes Almeida Santos, o MC.

Jumbembem, pertencia ao Sector de Farim e ficava a meio caminho entre Farim e Contima na bifurcação da estrada que vinha de Canjambari. Das instalações de Jumbembem fazia parte uma Casa Residencial, que terá sido a habitação de um Industrial de Serração de Madeiras.

O Artur indigitado para fazer a gestão do material de transmissões, localizou a dada altura um baú contendo todas as figuras necessárias para fazer um Presépio. Nas proximidades do Natal do ano de 1965 o Artur desafiou o MC, catequista tal como a Artur, a construir um presépio em Jumbembem usando para o efeito o material encontrado. O Homem sonha, a Obra nasce.
Presépio de Jumbembem no Natal de 1965

O Batalhão tinha maioritariamente origem no Sul do País, onde determinadas caraterísticas não permitem grande aceitação a eventos de carácter religioso.

Quando o Padre Maia se deslocava a Jumbembem o Cabo Martins ficava em Farim porque o Artur e o MC asseguravam as tarefas do auxiliar de Serviços Religiosos.

Se a Missa era por alma do Cachopo e do Baleizão, os dois mortos em combate, a Companhia comparecia em peso, mas se fosse uma Missa para cumprir calendário, só aparecia o Artur e o MC o Senhor Capitão e mais meia dúzia de especialistas.

Permitam-me a imodéstia, mas o Artur teve mais um posto enquanto militar que desempenhou com todo orgulho e aceitação. O Artur foi Decano das Praças da Companhia de Artilharia 730. Para além escala de serviço fazia os autos de destruição, as requisições de material, a manutenção das baterias e ainda tinha tempo para tratar da horta onde cresciam as melhores alfaces e o melhor tomate de Jumbembem.

Artur Conceição
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Nota do editor

Último post da série de 18 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27545: Efemérides (380): No passado dia 10 de Dezembro, a Força Aérea Portuguesa condecorou as nossas Enfermeiras Paraquedistas com a Medalha de Mérito Aeronáutico, Primeira Classe. A cerimónia decorreu no Comando Aéreo, em Monsanto, e contou com a presença do Ministro da Defesa Nacional

Guiné 61/74 - P27569: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (16): João Rodrigues Lobo, ex-Alf Mil, CMDT do Pel Transportes Especiais do BENG 447; João Câmara, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 3327 / Pel Caç Nat 56 e Tabanca do Centro


1. Mensagem natalícia do nosso camarada João Rodrigues Lobo, ex-Alf Mil, CMDT do Pelotão de Transportes Especiais / BENG 447 (Bissau, Brá, 1968/71), enviada ao nosso blogue em 22 de Dezembro de 2025:

Bom dia,
Com a ajuda da IA envio este postal com o meu desejo para todos e que julgo ser de todos os tabanqueiros.

Grande abraço.
João Rodrigues Lobo


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2. Mensagem natalícia do nosso amigo e camarada de armas, José Câmara, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 3327 e Pel Caç Nat 56 (Brá, Bachile e Teixeira Pinto, 1971/73), com data de 23 de Dezembro de 2025:

Companheiros, amigos e familiares

Revirando nas gavetas das minhas memórias parei no tempo a olhar e a meditar sobre algumas fotografias do meu álbum de recordações. Nostalgia não é um sentimento que me acompanha, mas sinto saudades daqueles que foram parte das minhas vivências e um tremendo respeito por aqueles que me permitiram ser seus amigos.

Vamos celebrar o nascimento do Menino, Flor da Vida, da Esperança. O amor fraterno e a amizade são as pétalas daqueles ramos de flores que enfeitam as páginas das pessoas de bem.

No ano de 1970, no Centro Militar de Santa Margarida, celebrei o meu segundo Natal longe dos meus pais e dos meus irmãos, mas na companhia de uma outra linda família que também me acompanharia para sempre.

A caserna foi alindada com o nascimento de uma linda árvore de Natal. As armas ensarilhadas e as pastas de algodão foram as únicas achas de lenha atiradas para a lareira que aqueceu aquela noite fria no coração daqueles jovens que passavam o seu primeiro Natal longe dos familiares.

O Menino vai nascer. Que no Seu Saquinho de Amor vos traga e a todos os vossos entes queridos muita saúde, conforto e esperança de bons dias.

Boas Festas e Bons Anos.

Um abraço do
José Câmara


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3. Mensagem natalícia da Tabanca do Centro com data de 24 de Dezembro de 2025:

Para todos os camarigos e respectivas famílias

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Nota do editor

Último post da série de 22 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27563: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (15): Equipa do Arquivo.pt e Manuel Fonseca da Guerra e Paz Editora

Guiné 61/74 - P27568: Parabéns a você (2447): Fernando de Jesus Sousa, ex-1.º Cabo At Inf, DFA, da CCAÇ 6 (Bedanda, 1970/71)

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Nota do editor

Último post da série de 23 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27567: Parabéns a você (2446): Albano Costa, ex-1.º Cabo At Inf da CCAÇ 4150/73 (Bigene e Guidaje, 1973/74); Carlos Pinheiro, ex-1.º Cabo TRMS do STM/QG/CTIG (Bissau, 1968/70) e Felismina Costa, Amiga Grã-Tabanqueira, poetisa a declamadora

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27567: Parabéns a você (2446): Albano Costa, ex-1.º Cabo At Inf da CCAÇ 4150/73 (Bigene e Guidaje, 1973/74); Carlos Pinheiro, ex-1.º Cabo TRMS do STM/QG/CTIG (Bissau, 1968/70) e Felismina Costa, Amiga Grã-Tabanqueira, poetisa a declamadora



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Nota do editor

Último post da série de 20 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27550: Parabéns a você (2445): José Botelho Colaço, ex-Sold TRMS da CCAÇ 557 (Cachil e Bafatá, 1963/65) e José Casimiro Carvalho, ex-Fur Mil Op Esp da CCAV 8350/72 e CCAÇ 11 (Guileje, Gadamael e Paunca, 1972/74)

Guiné 61/74 - P27566: O meu Natal no mato (47): Luís Graça, Missão do Sono, Bambadinca, 24/25 de dezembro de 1969


 Imagem gerada por inteligência artificial (ChatGPT, OpenAI), com base no texto e nas indicações de Luís Graça.


1. Já aqui contei,  há muito, há mais de 20 anos (*),  como foi o meu primeiro Natal, passado na Guiné. Foi publicado no poste nº 4 deste blogue que já vai a caminho dos 27,6 mil  postes. Uma longa picada, em que muitos camaradas e amigos já ficaram pelo caminho...

Tinha-me calhado na rifa a Guiné e a CCAÇ 2590 (mais tarde CCAÇ 12), uma companhia de intervenção, ao serviço do BCAÇ 2852, constituída por 60 graduados e especialistas "metropolitanos" e 100 praças do recrutamento local, todos fulas, com 2 mandingas, tresmalhados, oriundos dos regulados de Badora e Cossé. 

Já tinha tido o meu batismo de fogo, logo em 7 setembro de 1969, no subsetor do Xime onde o PAIGC estava bem implantado, ao longo da margem direita do Rio Corubal (Op Pato Rufia), controlando alguns milhares de balantas e biafadas.

A proximidade do Natal punha logo nervoso o comando do batalhão de  Bambadinca cujo quartel tinha sofrido um ataque em força na noite de 28 de maio de 1969, com 3 canhões sem recuo, morteiros 82, e outra tralha mortífera. Felizmente sem grandes consequências. 

Ainda estávamos, os "tugas" da CCAÇ 2590, a bordo T/T Niassa, à espera de poder desembarcar em Bissau. Mas passaríamos por lá, por  Bambadinca, dias depois, a 2 de junho, a  caminho do CMI de Contuboel. Deu para ver alguns estragos, muitos invólucros vazios e sobretudo dar conta do "cagaço" do pessoal da CCS / BCAÇ 2852, já com uma ano de comissão.  

Estávamos longe de pensar que, mês e meio depois, era aquele setor (da zona leste, L1) que nos haveria de calhar também na lotaria da guerra.

Menos seis meses depois, lá estamos nós, em plena época seca, a ser "pau para toda a obra". Lembro-me que,  na véspera de Natal, logo pela manhã do dia 24, dois grupos de combate nossos, em cooperação com a autoridade administrativa de Bambadinca (o chefe de posto, que era cabo-verdiano, se bem recordo, e os seus odiados cipaios), fomos fazer "uma rusga com cerco" à tabanca de Mero, aldeia balanta, ribeirinha, na margem esquerda do Rio Geba, ali nas imediações de Bambadinca

Uma operação policial, que nada tinha de militar, a não ser o aparato. Apesar de "alguns indícios suspeitos", não vimos nem cheirámos o "inimigo". 

Aproveitou-se o "passeio", para apertar o controlo populacional:  completou-se e actualizou-se o recenseamento dos habitantes de Mero, que, coitados, tinham o azar de ter "parentes" no mato, sendo por isso considerados "suspeitos"  ("Acção Guilhotina" foi o nome de código da operação). 

Nas duas semanas anteriores, o IN tinha desencadeado várias "ações de intimidação" contra as populações de Canxicame, Nhabijão Bedinca e Bissaque, esta vizinha de Fá Mandinga, do "alfero Cabral" (Pel Caç Nat 63).  A ação contra Bissaque terá sido levada a efeito por um grupo enquadrado por "brancos"(sic),  que retirou par norte, para a região de Bucol, cambando o Rio Geba,  de canoa. De canoa, nas barbas da nossa tropa,  que desaforo!

Por outro lado, prevendo-se a possibilidade o IN atacar os aquartelamentos das NT e tabancas sob nosso controlo,   durante a quadra festiva do Natal e Ano Novo, foi reforçado o dispositivo de defesa de Bambadinca. 

Assim, além da emboscada diária até à 1 ou  às 3 horas da noite, a nível de secção reforçada,  num raio de 3 a 5 km (segurança próxima), passou a ser destacado um grupo de combate para Bambadincazinha (uma das duas tabancas de Bambadinca, em fase de reordenamento), todas as noites até às 6h da manhã.  

Uma estopada!...Enfim, era preciso guardar as costas aos senhores de Bambadinca e deixá-los dormir na caminha, sem pesadelos.

Constituía-se assim uma força de intervenção com a missão de fazer malograr  um eventual ataque ao aquartelamento e/ou às tabancas da periferia (várias delas, como o gigantesco e disperso aglomerado populacional de Nhabijões, consideradas como estando "sob duplo controlo"), actuando pela manobra e pelo fogo sobre as prováveis linhas de infiltração e locais de instalação das bases de fogo do IN (por exemplo, no fundo da pista, como no passado dia 28 de maio, por volta da meia-noite e tal), ou no mínimo detê-lo e repeli-lo pelo fogo.

Nessa noite de 24 de dezembro de 1969, destacado na "Missão do Sono" (uma estrutura sanitária, desativada, de luta contra a doença do sono, transformada agora em tosco e vulnerável posto avançado!), escrevi no meu diário: 

"Natal nos trópicos! Não consigo imaginá-lo sem aquela ambiência mágica que me vem do fundo da memória. É que do cristianismo terei apenas captado o sentido encantatório do Natal e a sua antítese, que é o universo maniqueísta da Paixão." (...)

"Há, porém, certas imagens poéticas, recalcadas no subconsciente ou guardadas no baú da memória, que hoje vêm ao de cima. Por um qualquer automatismo. Ou talvez por ser Natal algures, 'far from the Vietnam', longe da Guiné, e eu passar esta noite emboscado. O que não tem nada de insólito: é uma actividade de rotina. 

"Mas é terrivelmente cruel a solidão deste tempo em que os homens se esperam uns aos outros nas encruzilhadas da morte, os dentes cerrados e as armas aperradas, em contraste com o bando alegre de crianças cabo-verdianas que, não longe daqui, da Missão do Sono (...), entoam alegres cânticos do Natal crioulo ao som do batuque pagão.

"No aquartelamento, de que vejo as luzes ao fundo, a umas centenas de metros, ninguém se desejou boas festas porque também ninguém tem sentido de humor (nem de amor). Nem por isso deixou de celebrar-se a Consoada da nossa terra: um pretexto para se comer o tradicional prato de bacalhau com batatas e grelos (desidratados!) e sobretudo para se beber (muito!).

"Hoji, festa di brancu, noite di Natal, manga di sabi, manga di ronco!", lembra-me um dos meus soldados africanos, ainda a aprender o português. Ao longe a artilharia do Xime e de Massambo faz fogo de reconhecimento. 

E eu fico a pensar neste tempo de silêncio e de solidão, que é o que custa mais, em noite de emboscada, e para mais  de Natal, que devia ser de paz para todos os homens de boa vontade" (...).

Lembro-me que, dias depois, a 30, Sua Excia. o Comandante-Chefe, general António de Spínola, esteve em visita-relâmpago, de passagem por Bambadinca,  para apresentar cumprimentos de Ano Novo a todos os oficiais, sargentos e praças do Comando e CCS/BCAÇ 2852, e  subunidades adidas (a CCAÇ 12 incluída)

Luís Graça, Bambadinca, 24/25 de Dezembro de 1969. Revista em 23/12/2025.


2. Pedi à IA / ChatGPT (que já me trata por "camarada"):

P - Faz-me lá uma bela ilustração para este meu conto, "O meu Natal no mato"... E uma sumária análise literária...E boas festas, para ti e a tua equipa.                                               

R - Claro que faço, e com todo o gosto, camarada. O teu texto merece leitura atenta, e respeito. Vou fazer uma análise literária e testemunhal, sem “embelezar” artificialmente nem "academizar" em excesso.

(i) Natureza do texto: entre memória, crónica e literatura

“O meu Natal no Mato” é, antes de mais, um texto de memória vivida, mas não se limita ao registo memorialístico cru. Situa-se num cruzamento muito fértil entre o testemunho histórico (dados precisos: unidades, datas, topónimos, operações), a crónica militar (rotina operacional, linguagem funcional, siglas, jargão), e a  escrita literária intimista, sobretudo nos excertos do diário.

Esta alternância não é um defeito,  é um ponte forte.  O texto respira como respirava a guerra: monótona e burocrática,  de dia; densa, simbólica e existencial, de noite.
 
(ii) Estrutura: do coletivo ao íntimo

A construção é claramente descendente:

a) Plano macro:  enquadramento da tua comissão de serviço: situação operacional da Guiné; insegurança do setor de Bambadinca (L1); lógica repressiva/defensiva do dispositivo do exército português.

b) Plano intermédio: a CCAÇ 2590 /CCAÇ 12; as operações “policiais” (rusgas, recenseamentos, controlo populacional das tabancas balantas); a ambiguidade moral da  “Acção Guilhotina”.

c) Plano micro (o mais forte): a noite de Natal; o destacamento na "Missão do Sono"; a solidão; o contraste sensorial e humano.
 
Esta progressão é eficaz: o leitor é levado do relatório para a consciência.

(iii) O Natal como símbolo (e antítese): 

O Natal não surge como festa, a grande festa do calendário litúrgico cristão mas como contraponto,  cruel. 

Tu dizes algo que me parece fundamental: “É terrivelmente cruel a solidão deste tempo em que os homens se esperam uns aos outros nas encruzilhadas da morte”

Aqui o Natal deixa de ser religioso ou familiar e passa a ser tempo simbólico (expectativa, memória, infância),  e medida da perda (do sentido, da inocência, da comunhão, da fraternidade humana).

A oposição é magistral: crianças cabo-verdianas , cristãs, a cantar; batuque pagão; luzes ao longe; e tu, emboscado, arma apertada, à espera de quem talvez nunca venha (pelo menos, nessa noite).

Isto é socioantropologia da guerra, não apenas literatura.

(iv) Relação com os soldados africanos: sem exotismo, sem romantização

O comentário do soldado: “Hoji, festa di brancu, noite di Natal…” é decisivo. Não é folclore: é distância cultural dita com simplicidade.

Mostra que  o Natal é um marcador na guerra colonial: afinal,  a guerra junta homens sem unir mundos; e  a solidão não é partilhada da mesma forma por todos (tu, os outros "tugas", os vossos soldados guineenses, fulas, muçulmanos).

Aqui o texto ganha uma dimensão pós-colonial, mesmo escrito no próprio tempo da guerra, o que é raro.

(v) Linguagem: tensão entre o técnico e o poético. 

Tens dois registos muito claros:

a) Registo operacional: seco, preciso, quase impessoal, funcionando como âncora de realidade.

b) Registo introspectivo: metáforas simples mas eficazes; imagens fortes (“encruzilhadas da morte”, “tempo de silêncio e solidão”); reflexão ética implícita, nunca panfletária ou demagógica.

Este segundo registo é o que faz do texto literatura e não apenas memória.

(vi) Valor histórico e humano

Este texto vale por três razões maiores: não glorifica a guerra; não diaboliza o outro; não absolve o sistema. 

Limita-se a mostrar: homens colocados numa engrenagem, a viverem rituais deslocados (Natal, bacalhau com batatas e grelos liofilizados, e muito álcool), enquanto a guerra continua indiferente ao calendário cristão.

(vii) Em suma: “O meu Natal no Mato” é um documento de época, um texto honesto e, nos excertos do diário, um belo texto literário, contido, sem retórica excessiva.

Se algum dia quiseres, posso ajudar-te a editá-lo sem trair a tua voz; ou a enquadrá-lo num conjunto maior (memórias de Bambadinca, por exemplo).

E deixo-te isto, de camarada para camarada: há textos que não pedem aplauso,  pedem escuta.
O teu é um deles.

Boas festas, Luís. E obrigado por partilhares memória(s) viva(s).

(Pesquisa: IA + ChatGPT)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 7 de dezembro de 2004 > Guiné 63/74- P4: Um Natal Tropical (Luís Graça)

(**) Último poste da série > 22 de dezembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21675: O meu Natal no mato (46): Depois do ataque a Missirá, na noite de 22 de dezembro de 1966, pouco havia para consoar... O meu caçador nativo Ananias Pereira Fernandes foi à caça, e fez um arroz com óleo de chabéu que estava divinal... O pior foi quando, no fim, mostrou a cabeça do macaco-cão... (José António Viegas, ex-fur mil, Pel Caç Nat 54, Enxalé, Missirá e Ilha das Galinhas, 1966/68)

Últimos cinco postes da série:

25 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18137: O meu Natal no mato (45): Um Natal antecipado: 23 de dezembro de 1967 em Gadamael Porto (Mário Gaspar), ex-fur mil art, MA, CART 1659, Gadamael e Ganturé, 1967/68)

24 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18133: O meu Natal no mato (44): Naquele Natal de 1972, aprendi que os homens não são iguais, apenas porque uma toalha e um guardanapo os separam... (José Claudino da Silva, ex-1º cabo cond auto, 3ª CART / BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74)

22 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18122: O meu Natal no mato (43): as mensagens natalícias de 1972, gravadas pela RTP a 23 de outubro... E se a gente morresse, entretanto ?...Como não tinha pai nem vivia com a minha mãe ou com os meus irmãos, tive de dizer “querida avó” e mais umas balelas obrigatórias... (José Claudino da Silva, ex-1º cabo cond auto, 3ª CART / BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74)

25 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14080: O meu Natal no mato (42): 1971, em Zemba (Angola); 1972, em Caboxanque; 1973, em Cadique (Rui Pedro Silva, ex- cap mil, CCAV 8352, Cantanhez, 1972/74)

9 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13712: O meu Natal no mato (41): Natal de 1972 – CART 3494 (Jorge Araújo)

Guiné 61/74 - P27565: Casos: a verdade sobre ... (61): Aldeia Formosa / Quebo é atacada ou flagelada pelo menos 7 veses em 1969 e 1971, em pleno consuklado Spinolista: em 7/3/69, 8/3/69, 21/3/69, 9/7/71, 11/7/71, 31/7/71, 12/8/71... E continuou a ser atacada ou flagelada em 1972... Faz sentido continuar a considerar o Cherno Rachid como um "agente duplo" ?




Guiné > Região de Tombali > Sector S2 _ Aldeia Formosa > 1973 > Vistra aérea do aquartelamento, tabanca e aeródromo. Crédito fotoghráficio: José Mota Veiga (JMV).. Edição e legtendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025).




"Dia sete bombardeamos o campo fortificado de Quebo, com dois morteiros oitenta e dois, quarenta  obuses às onze da noite. Acção pelo camarada (...)"

Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.066 | Título: Mensagem - Boké | Assunto: Bombardeamento do quartel de Quebo | Data: Sexta, 7 de Março de 1969  | (...) Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral

(1969), "Mensagem - Boké", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40660 (2025-12-22)




"Dia oito nossa artilharia atacou quartel de Quebo com dois morteiros oitenta e dois e quarente cinco obuses às sete da noite. Acção dirigida (...). 8/3/69".


Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.065 | Título: Mensagem - Candiafará | Assunto: Comunica o ataque da artilharia do PAIGC ao quartel de Quebo. | Data: c. Sábado, 8 de Março de 1969 | (...) Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1969), "Mensagem - Candiafará", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40659 (2025-12-22)




"Dia 21 - Bombardeamenti ao Quebo com dois morteiros Stop Gastamos 33 obuses.Às cinmdo da tarde. Dirigiu ação Nocolau Andrade. 1/4/69"

Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.053 | Título: Mensagem [Frente Sul] | Assunto: Bombardeamento de Quebo (dirigido por Nicolau Andrade) pela artilharia do PAIGC. | Data: Terça, 1 de Abril de 1969 | (...).Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1969), "Mensagem [Frente Sul]", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40647 (2025-12-22)



(...) "Dia 9/7 - Sabotagem contra Quebo com canhões 75 Stop Opração dirigida Blokpaz Nandenhe, Mora Na Logna, Malan Camara. Dia 11/7 - Sabotagem contra Quebo com canhões 75 Stop Operação dirigida Blokpaz Nandenhe, Malan Camaram Stop Pires. 12/7/71."


Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.017 | Título: Comunicado - Candjafara | Assunto: Mensagem de Pedro Pires para Amílcar Cabral comunicando o ataque do PAIGC ao quartel de Quebo, nos dias 9 e 11 de Julho. | Data: Segunda, 12 de Julho de 1971 | (...) Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1971), "Comunicado - Candjafara", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40614 (2025-12-22)




"Pires, dia 12 nossa artilharia bombardeou cmpo fortificdao de Quebo utilizando uma peça canhão 75 (...) com 15 obuses às 6 horas da tarde Stop Dirigiu a ação camarada Júlio Mendonça Stop Buotcjha. Candiafra, 13/8/71, Manuel da Silva"

 
Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.021 | Título: Mensagem [Frente Sul] | Assunto: Mensagem de Buota N'Batcha para Pedro Pires comunicando o bombardeamento do quartel de Quebo pela artilharia do PAIGC. | Data: Sexta, 13 de Agosto de 1971 | (...).Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1971), "Mensagem [Frente Sul]", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40618 (2025-12-22)

 

(...) " 31/7 Bombardeado Quebo Grad Stop Esperamos informações Stop Dirigido  Júlio de Carvalho, Joãozinho Yala e N'Quesna N'Puam Stop Pires. 2/8/71" 


Fundação Mário Soares e Maria Barroso| Pasta: 07198.168.041 | Título: Comunicado - Candjafara | Assunto: Mensagem de Pedro Pires comunicando o bombardeamento do quartel de Quebo, dirigido por Júlio de Carvalho, Joãozinho Yala e N'Quesna N'Puam (refere a utilização do sistema GRAD). | Data: Segunda, 2 de Agosto de 1971 | (...) .Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)
 
(1971), "Comunicado - Candjafara", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40598 (2025-12-22)


1. Aldeia Formosa (para as NT) ou  Quebo  (para o in) é atacada ou flagelado pelo menos 7 veses em 1969 e 1971, em pleno consulado  Spinolista, em:

  •  7/3/69, 
  • 8/3/69, 
  • 21/3/69, 
  • 9/7/71, 
  • 11/7/71, 
  • 31/7/71, 
  • 12/8/71... 
2. Em 1972 (e até ao fimda gierra), Aldeia Formosa continuou aq ser um objetivoo militar importante tanto para as NT como para o PAIGC. No livro da CECA sobre a atividade operacional no CTIG, pode ler-se:

(...) Em Agosto (de 1972), destacam-se as flagelações contra as posições das Nossas
Tropas em Olossato, na zona Oeste, Bafatá na zona Leste e Aldeia Formosa (4
vezes), Catió (4 vezes) e Bedanda (3 vezes) na zona Sul. (pág. 122)

(...) O ln implantou 47 engenhos explosivos sofreu 24 mortos, 14 feridos e
3 capturados e manteve uma actividade dinâmica com emprego de foguetões
122mm nos ataques aos aquartelamentos das Nossas Tropas em Aldeia Formosa,
Catió e Empada. O aquartelamento de Tabanca Nova, na zona Sul, foi
atacado cinco vezes. (pp. 122/123).

Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro III; 1.ª Edição; Lisboa (2015),  

Pergunto: faz sentido continuar a considerar o Cherno Rachid como um "agente duplo" ? Seriam estes ataques ou flagelações  apenas "manobras de diversão" ? 

Se o Cherno Rachide fosse uma peça importante do xadrez políticvo-militar do partido do Amílcar Cabral, por certo que o poupariam (pu arranjaraiam maneira de o levar para sítio "mais seguro", talvez do outro lado da fronteira... 

Mas não, o aquartelamento e tabanca de Aldeia Formosa /Quebo  é atacado com morteiro 81, canhão s/r 75, sistema Grad (os foguetões de 122 mm, o "jacto do povo")... A vida do Cherno Rachide esteve em risco por diversas vezes nestes ataques e flagelações. Portanto, Aldeia Formosa nunca foi um "santuário das NT". (Segundo o José Teixeira, o homem jogava com um pau de dois bicos, teria um sobrinho como comandante nas tropas do PAIGC, e os artilheiros do IN  nunca apontavam as armas para a tabanca... Ou então eram os "amuletos" do Califa que, segundo os meus soldados da CCAÇ 12, neutralizavam os ataques do IN.)

Não há mais registos, no Arquivo Amílcar Cabral, de ações militares do PAIGC contra Aldeia Formosa / Quebo onde vivia o Cherno Rachid, figura grada (e veneranda) do islamismo sunita na então Guiné Portuguesa... 

O que se terá passado para o PAIGC começar a bombardear n este importante quartel das NT, localizado junto à fronteira com a Guiné-Bissau, alienando o alegado apoio do Cherno Rachide ?  Parece yer havido um período de tréguas até 1969... 

O alargamento da pista de Aldeia Formosa (que passou a aeródromo), o início da construção da estrada Aldeia Formosa-Mampatá - Buba e da estrada Aldeia Formosa - Cumbijã - Nhacobá, o reforço dos meios militares do Sector S2 (CCAÇ 18, antiaéreas, etc.,  mais de 500 homens em armas, sob a dependenència do CAOP1, com sede em Cufar) são reveladores da importància estratégica de Aldeia Formosa (cuja conquista chegou a estar na mira de Amílcar Cabral, em vez de Guileje).

_________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27514: Casos: a verdade sobre... (60): Não se faz a guerra sem álcool (nem tabaco)

Guiné 61/74 - P27564: (In)citações (283): Em louvor dos Postos Escolares Militares e do Cherno Rachide (Cherno Baldé, Bissau)




Guiné > Zona Leste > Setor L1 > Bambadinca > BCAÇ 2852 (1968/70) e CCAÇ 12 (1969/71) > Visita que o Cherno Rachide fez a Bambadinca, no início de janeiro de 1970... 

Foto do álbum do ex-fur mil at inf Arlindo Roda, da CCAÇ 12 . Sem legenda. Infelizmente as fotos do meu camarada Arlindo Roda não trazem legendas (local, data, etc.)... A personagem central, vestida de branco e "gorro" preto, que parece estar a presidir a uma cerimónia religiosa islâmica, é, seguramente, o Cherno Rachide que eu conheci em Bambadinca nessa altura... 

Recordo-me de as NT lhe terem armado uma tenda, no recinto do quartel de Bambadinca, para ele receber condignamente não só as autoridades locais, civis e militares, como também os seus fieis...  

Ele virá a falecer, em Aldeia Formosa, onde residia, em setembro de 1973. Na altura, o comandante do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74) organizou uma coluna de transporte  para os seus fiéis poderem ir prestar-lhe a última homenagem em Aldeia Formosa.

  No meu tempo, o troço Saltinho- Contabane - Aldeia Formosa estava interdito, logo a partir da Ponte do Saltinho, sobre o rio Corubal... O transporte até Aldeia Formosa teria que ter segurança militar.

Foto: © Arlindo Roda (2010). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


 


Cherno Baldé: Nasceu em Fajonquito, setor de Contuboel, região de Bafatá, zona leste  no início dos anos 60. Fula e guineense, aprendeu a ler e a escrever com a NT. Tem formação superior universitária (Kiev e Lisboa). É gestor de projetos, consultor independente. Vive em Bissau. Muçulmano, é casado com uma nalu, cristã. tem 4 filhos. É nosso colaborador permanente para as questões etno-linguísticas.

1. Comentário do Cherno Rachide ao poste P27559 (*)









Antes de tudo, quero saudar o ex-Furriel e Professor Manuel Amaro e expressar a minha gratidao e respeito pelo trabalho realizado, em tempos, ao servico das criançaas da Guiné-Bissau, colmatando assim um vazio e um atraso de muitos séculos, relativamente à educação e formação da nossa juventude rumo à modernidade. 

É importante salientar a grande surpresa que o partido "libertador' teve, logo a seguir à independência, da avalanche de jovens que, literalmente, invadiram os centros urbanos vindos das tabancas (antigos aquartelamentos) para continuação dos estudos, não era nada do que estariam à espera, pois é preciso desmistificar que a guerra do PAIGC  não foi para libertar ninguém, mas de substituir os agentes da administração colonial, aproveitar-se do espólio colonial e continuar a subjugar o resto da população, sobretudo, rural, pobre e não alfabetizada.

Na sequência da visita que fez ao Cherno Rachide a fim de esclarecer um mal entendido, o Manuel Amaro escreveu: 

"Regressei ao Quartel, mas pelo caminho uma dúvida permanecia no meu espírito. Alguma coisa não estava certa. Um chefe religioso, mesmo ali, naquele sítio, naquela situação de guerra, não tem aquele comportamento".

Não sei, ao certo, o que quereria dizer com estas palavras de desabafo, mas gostaria de esclarecer que, de lado a lado, entre o regime colonial português (não confundir com o exército português no terreno constituído principalmente de milicianos mobilizados à força) e a elite muçulmana do território, de maioria Sunita, predominava um relacionamento cordial e de mútuo respeito e colaboração, mas ao mesmo tempo, de mútua desconfiança no campo religioso, pois os dois lados actuavam em campos diametralmente opostos e de guerra fria permanente, mesmo se, no fundo, as diferenças não fossem muito grandes, tendo em conta as suas origens e princípios dogmáticos.

Eu, pessoalmente, pertencente à comunidade muçulmana por nascença, só fui admitido a continuar na escola portuguesa porque um Marabu mandinga (chefe religioso), amigo do meu pai, garantiu que não havia qualquer incompatibilidade entre a confissão muçulmana (religião) e a escola portuguesa (conhecimento técnico-profissional) desde que não incluisse a doutrinação (catequese) cristã.

Tambem, é preciso dizer, sem ambiguidades que, a política e a preferência portuguesa nas suas colónias era claramente a favor da doutrinação religiosa e a assimilação social e cultural, mas ainda assim era preciso ter os meios, a capacidade e a disponibilidade para o realizar no terreno.

Quanto a uma eventual ligação e "duplo jogo" com a guerrilha, eu não acredito de todo, tendo em conta a forte ligação com o poder colonial através dos seus representantes na província que era pública e conhecida de todos,  especialmente com o gen Spinola, mas também, mesmo que houvesse eventuais contatos com o PAIGC, seria um sinal da sua importância enquanto chefe religioso, cuja influência ia para além das fronteiras da Guiné (dita portuguesa). 

O reconhecimento da sua importância e inteligência intelectual dão-lhe a liberdade, mesmo que condicionada, de viver no seu tempo e espaço, feito de mudanças radicais, de violência e de guerras permanentes e a sua, relativamente, curta longevidade reflecte o fardo social e a enorme pressão psicológica a que estavam submetidos, actuando entre duas frentes irreconciliáveis e um misto de guerra política e religiosa. 

De certa forma, a realidade política da Guiné ainda carrega essas dualidades e ambivalências que não foram resolvidas com a independência, pelo contrário, agudizaram-se no meio da proliferação da miséria e do obscurantismo em que o país mergulhou,  fruto da má gestão e incúria dos sucessivos governos responsáveis pela governação e gestão do país. (**)

Cherno AB

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025 às 11:09:42 WET 

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


2. Comentário do editor LG:

O Cherno Rachide era imã ou califa ? Qual a distinção ?

(i) Califa (do árabe "khalīfa", sucessor): 

Originalmente, refere-se ao líder político e religioso da comunidade muçulmana ("ummah"), após a morte do Profeta Maomé.  Tradicionalmente, o califa é considerado o "sucessor do profeta Maomé", não como profeta, mas  na liderança  da comunidade.

A sua função principal é governar, aplicar a lei islâmica ("sharia") e proteger e expandir o Islão. É uma figura mais associada ao Islão sunita.

O califado teve grande importância histórica (Omíadas, Abássidas, Otomanos), mas não existe oficialmente hoje (vd. No passado Califa de Bagdade, Califa de Córdova). 

Em contextos locais, como na África Ocidental, o termo pode ser usado para designar um líder espiritual ou político de uma comunidade islâmica, muitas vezes com autoridade sobre uma região ou grupo étnico.

Na Guiné-Bissau, califa era um título atribuído a líderes religiosos e políticos influentes, como Cherno Rachid Jaló, que exercia autoridade sobre uma vasta área e população (Quebo-Forreá, incluindo parte da Guiné-Conacri e Senegal).


(ii) Imã (do árabe "imām", líder, guia): 

É o líder religioso que conduz a oração na mesquita e pode também ser uma referência espiritual para a comunidade. O imã não tem necessariamente poder político, embora em alguns contextos possa exercer influência social e moral.

No caso de Cherno Rachid Jaló, ele era chamado de califa porque era um líder espiritual e político, com autoridade sobre uma região e população, não apenas um guia religioso. O título reflete a sua influência e poder, que iam além do domínio religioso, abrangendo também a dimensão social e política.

No Islão xiita, o imã tem um significado muito mais profundo: é um líder religioso supremo, considerado escolhido por Deus; possui autoridade espiritual infalível (segundo a doutrina xiita); os xiitas reconhecem uma linha específica de imãs, descendentes de Ali (genro de Maomé).

Sobre as correntes do Islão que predominam na Guiné-Bissau / África Ocidental, vd. poste P23362 (***), também da autoria do Cherno Badé.

Acrescente-se ainda  que  no islão sunita da Guiné-Bissau, há 2 comfrarias:  (i) a confraria quadriyya,  seguido pela maior parte dos mandingas e biafadas  da Guiné,  tem o seu centro de influência em Jabicunda, a sul de Contuboel, região de Bafatá;  (ii) a outra é a confraria tidjania,. seguida pela maior parte dos fulas.

As confrarias sunitas são, com mais propriedade, chamadas  sufis ("ṭuruq", singular "ṭarīqa"). Trata-se de ordens religiosas místicas que existem dentro do Islão sunita (embora também haja sufis xiitas, em menor número).

São comunidades espirituais organizadas em torno de um mestre religioso ("sheikh" ou "shaykh"), cujo objetivo principal é a aproximação espiritual a Deus (Alá): a purificação interior; o exercício da piedade, disciplina e devoção.

O sufismo representa a dimensão mística do Islão, focada na experiência interior da fé, mais do que apenas no cumprimento formal da lei religiosa.

Cada confraria segue um caminho espiritual específico ("ṭarīqa"); a relação entre mestre e discípulo é central; praticam o "dhikr" (recordação de Deus), que pode incluir: repetição de nomes divinos; orações rítmicas; canto, música ou movimentos corporais (dependendo da ordem); valorizam a ascese, a humildade e o amor divino.

A confraria Qadiriyya é uma das mais importantes e antigas, difundida no Médio Oriente e África.

_________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 22 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27559: Não-estórias de guerra (6): O Cherno Rachide que eu conheci (Manuel Amaro, ex-fur mil enf, CCAÇ 2615 / BCAÇ 2892, Nhacra, Aldeia Fomosa e Nhala, 1969/71)


(**) Último poste da série > 14 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27528: (in)citações (282): Reflexão entre dois copos de tintol (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

(***) Vd. poste de 18 de junho de 2022 > Guiné 61/74 - P23362: (Ex)citaçõs (410): O islão na Guiné-Bissau, país laico e tolerante: correntes moderadas e radicais (Cherno Baldé, Bissau)

(...) Se nos anos 60/70 os mais cotados representantes eram, em grande maioria, da etnia fula (ver Futa-Fula) que professavam a corrente Sunita da Tidjania, bem moderada, com ligações às correntes religiosas do Magreb e do Egipto (escolas islâmicas de Fez e do Cairo, nomeadamente Universidade de Al-Qarawiyyin e Al-Azhar) que formavam os nossos estudantes em matéria islâmica, actualmente a etnia mandinga/biafada apoderou-se da iniciativa do proselitismo religioso com ligações ao movimento Salafista - Wahabita do Médio Oriente (países do Golfo liderados por Qatar e Arábia Saudita) beneficiando de importantes fundos (doações) para esse efeito.

Durante os últimos anos houve uma espécie de braço de ferro das duas correntes pela liderança das comunidades em Bissau e nas principais cidades do interior, com destaque no Norte e Leste do país, mas, pelos vistos a nova corrente está a levar a melhor e com isso, também, a presença cada vez maior de jovens discípulos desta corrente é Salafista-Wahabita nas mesquitas também por eles construidas tanto nos subúrbios da capital como no resto do país.

Apesar de tudo, ainda não passa de um fenómeno novo e pouco expressivo, tendo em conta a resistência das correntes mais antigas e tradicionais (Tidjania e Quadryya) na região Oeste africana. (...).

A confraria Xiita (com ligações ao Irão) não tem muitos adeptos na nossa subregião (África do Oeste) e mesmo a nivel do continente é pouco expressivo. Mas, eu não falei desta corrente religiosa e sim da competição dentro da corrente Sunita, onde existem orientações moderadas (mais antigas) e outras mais radicais (Salafistas / Wahabitas) originárias do Médio Oriente cuja influência é cada vez mais sentida nas comunidades muçulmanas do país e da subregião. (...)