Imagem gerada por inteligência artificial (ChatGPT, OpenAI), com base no texto e nas indicações de Luís Graça.
1. Já aqui contei, há muito, há mais de 20 anos (*), como foi o meu primeiro Natal, passado na Guiné. Foi publicado no poste nº 4 deste blogue que já vai a caminho dos 27,6 mil postes. Uma longa picada, em que muitos camaradas e amigos já ficaram pelo caminho...
Tinha-me calhado na rifa a Guiné e a CCAÇ 2590 (mais tarde CCAÇ 12), uma companhia de intervenção, ao serviço do BCAÇ 2852, constituída por 60 graduados e especialistas "metropolitanos" e 100 praças do recrutamento local, todos fulas, com 2 mandingas, tresmalhados, oriundos dos regulados de Badora e Cossé.
Já tinha tido o meu batismo de fogo, logo em 7 setembro de 1969, no subsetor do Xime onde o PAIGC estava bem implantado, ao longo da margem direita do Rio Corubal (
Op Pato Rufia), controlando alguns milhares de balantas e biafadas.
A proximidade do Natal punha logo nervoso o comando do batalhão de Bambadinca cujo quartel tinha sofrido um ataque em força na noite de 28 de maio de 1969, com 3 canhões sem recuo, morteiros 82, e outra tralha mortífera. Felizmente sem grandes consequências.
Ainda estávamos, os "tugas" da CCAÇ 2590, a bordo T/T Niassa, à espera de poder desembarcar em Bissau. Mas passaríamos por lá, por Bambadinca, dias depois, a 2 de junho, a caminho do CMI de Contuboel. Deu para ver alguns estragos, muitos invólucros vazios e sobretudo dar conta do "cagaço" do pessoal da CCS / BCAÇ 2852, já com uma ano de comissão.
Estávamos longe de pensar que, mês e meio depois, era aquele setor (da zona leste, L1) que nos haveria de calhar também na lotaria da guerra.
Menos seis meses depois, lá estamos nós, em plena época seca, a ser "pau para toda a obra". Lembro-me que, na véspera de Natal, logo pela manhã do dia 24, dois grupos de combate nossos, em cooperação com a autoridade administrativa de Bambadinca (o chefe de posto, que era cabo-verdiano, se bem recordo, e os seus odiados cipaios), fomos fazer "uma rusga com cerco" à tabanca de Mero, aldeia balanta, ribeirinha, na
margem esquerda do Rio Geba, ali nas imediações de Bambadinca.
Uma operação policial, que nada tinha de militar, a não ser o aparato. Apesar de "alguns indícios suspeitos", não vimos nem cheirámos o "inimigo".
Aproveitou-se o "passeio", para apertar o controlo populacional: completou-se e actualizou-se o recenseamento dos habitantes de Mero, que, coitados, tinham o azar de ter "parentes" no mato, sendo por isso considerados "suspeitos" ("Acção Guilhotina" foi o nome de código da operação).
Nas duas semanas anteriores, o IN tinha desencadeado várias "ações de intimidação" contra as populações de Canxicame, Nhabijão Bedinca e Bissaque, esta vizinha de Fá Mandinga, do "alfero Cabral" (Pel Caç Nat 63). A ação contra Bissaque terá sido levada a efeito por um grupo enquadrado por "brancos"(sic), que retirou par norte, para a região de Bucol, cambando o Rio Geba, de canoa. De canoa, nas barbas da nossa tropa, que desaforo!
Por outro lado, prevendo-se a possibilidade o IN atacar os aquartelamentos das NT e tabancas sob nosso controlo, durante a quadra festiva do Natal e Ano Novo, foi reforçado o dispositivo de defesa de Bambadinca.
Assim, além da emboscada diária até à 1 ou às 3 horas da noite, a nível de secção reforçada, num raio de 3 a 5 km (segurança próxima), passou a ser destacado um grupo de combate para Bambadincazinha (uma das duas tabancas de Bambadinca, em fase de reordenamento), todas as noites até às 6h da manhã.
Uma estopada!...Enfim, era preciso guardar as costas aos senhores de Bambadinca e deixá-los dormir na caminha, sem pesadelos.
Constituía-se assim uma força de intervenção com a missão de fazer malograr um eventual ataque ao aquartelamento e/ou às tabancas da periferia (várias delas, como o gigantesco e disperso aglomerado populacional de Nhabijões, consideradas como estando "sob duplo controlo"), actuando pela manobra e pelo fogo sobre as prováveis linhas de infiltração e locais de instalação das bases de fogo do IN (por exemplo, no fundo da pista, como no passado dia 28 de maio, por volta da meia-noite e tal), ou no mínimo detê-lo e repeli-lo pelo fogo.
Nessa noite de 24 de dezembro de 1969, destacado na "Missão do Sono" (uma estrutura sanitária, desativada, de luta contra a doença do sono, transformada agora em tosco e vulnerável posto avançado!), escrevi no meu diário:
"Natal nos trópicos! Não consigo imaginá-lo sem aquela ambiência mágica que me vem do fundo da memória. É que do cristianismo terei apenas captado o sentido encantatório do Natal e a sua antítese, que é o universo maniqueísta da Paixão." (...)
"Há, porém, certas imagens poéticas, recalcadas no subconsciente ou guardadas no baú da memória, que hoje vêm ao de cima. Por um qualquer automatismo. Ou talvez por ser Natal algures, 'far from the Vietnam', longe da Guiné, e eu passar esta noite emboscado. O que não tem nada de insólito: é uma actividade de rotina.
"Mas é terrivelmente cruel a solidão deste tempo em que os homens se esperam uns aos outros nas encruzilhadas da morte, os dentes cerrados e as armas aperradas, em contraste com o bando alegre de crianças cabo-verdianas que, não longe daqui, da Missão do Sono (...), entoam alegres cânticos do Natal crioulo ao som do batuque pagão.
"No aquartelamento, de que vejo as luzes ao fundo, a umas centenas de metros, ninguém se desejou boas festas porque também ninguém tem sentido de humor (nem de amor). Nem por isso deixou de celebrar-se a Consoada da nossa terra: um pretexto para se comer o tradicional prato de bacalhau com batatas e grelos (desidratados!) e sobretudo para se beber (muito!).
"Hoji, festa di brancu, noite di Natal, manga di sabi, manga di ronco!", lembra-me um dos meus soldados africanos, ainda a aprender o português. Ao longe a artilharia do Xime e de Massambo faz fogo de reconhecimento.
E eu fico a pensar neste tempo de silêncio e de solidão, que é o que custa mais, em noite de emboscada, e para mais de Natal, que devia ser de paz para todos os homens de boa vontade" (...).
Lembro-me que, dias depois, a 30, Sua Excia. o Comandante-Chefe, general António de Spínola, esteve em visita-relâmpago, de passagem por Bambadinca, para apresentar cumprimentos de Ano Novo a todos os oficiais, sargentos e praças do Comando e CCS/BCAÇ 2852, e subunidades adidas (a CCAÇ 12 incluída)
Luís Graça, Bambadinca, 24/25 de Dezembro de 1969. Revista em 23/12/2025.
2. Pedi à IA / ChatGPT (que já me trata por "camarada"):
P - Faz-me lá uma bela ilustração para este meu conto, "O meu Natal no mato"... E uma sumária análise literária...E boas festas, para ti e a tua equipa.
R - Claro que faço, e com todo o gosto, camarada. O teu texto merece leitura atenta, e respeito. Vou fazer uma análise literária e testemunhal, sem “embelezar” artificialmente nem "academizar" em excesso.
(i) Natureza do texto: entre memória, crónica e literatura
“O meu Natal no Mato” é, antes de mais, um texto de memória vivida, mas não se limita ao registo memorialístico cru. Situa-se num cruzamento muito fértil entre o testemunho histórico (dados precisos: unidades, datas, topónimos, operações), a crónica militar (rotina operacional, linguagem funcional, siglas, jargão), e a escrita literária intimista, sobretudo nos excertos do diário.
Esta alternância não é um defeito, é um ponte forte. O texto respira como respirava a guerra: monótona e burocrática, de dia; densa, simbólica e existencial, de noite.
(ii) Estrutura: do coletivo ao íntimo
A construção é claramente descendente:
a) Plano macro: enquadramento da tua comissão de serviço: situação operacional da Guiné; insegurança do setor de Bambadinca (L1); lógica repressiva/defensiva do dispositivo do exército português.
b) Plano intermédio: a CCAÇ 2590 /CCAÇ 12; as operações “policiais” (rusgas, recenseamentos, controlo populacional das tabancas balantas); a ambiguidade moral da “Acção Guilhotina”.
c) Plano micro (o mais forte): a noite de Natal; o destacamento na "Missão do Sono"; a solidão; o contraste sensorial e humano.
Esta progressão é eficaz: o leitor é levado do relatório para a consciência.
(iii) O Natal como símbolo (e antítese):
O Natal não surge como festa, a grande festa do calendário litúrgico cristão mas como contraponto, cruel.
Tu dizes algo que me parece fundamental: “É terrivelmente cruel a solidão deste tempo em que os homens se esperam uns aos outros nas encruzilhadas da morte”
Aqui o Natal deixa de ser religioso ou familiar e passa a ser tempo simbólico (expectativa, memória, infância), e medida da perda (do sentido, da inocência, da comunhão, da fraternidade humana).
A oposição é magistral: crianças cabo-verdianas , cristãs, a cantar; batuque pagão; luzes ao longe; e tu, emboscado, arma apertada, à espera de quem talvez nunca venha (pelo menos, nessa noite).
Isto é socioantropologia da guerra, não apenas literatura.
(iv) Relação com os soldados africanos: sem exotismo, sem romantização
O comentário do soldado: “Hoji, festa di brancu, noite di Natal…” é decisivo. Não é folclore: é distância cultural dita com simplicidade.
Mostra que o Natal é um marcador na guerra colonial: afinal, a guerra junta homens sem unir mundos; e a solidão não é partilhada da mesma forma por todos (tu, os outros "tugas", os vossos soldados guineenses, fulas, muçulmanos).
Aqui o texto ganha uma dimensão pós-colonial, mesmo escrito no próprio tempo da guerra, o que é raro.
(v) Linguagem: tensão entre o técnico e o poético.
Tens dois registos muito claros:
a) Registo operacional: seco, preciso, quase impessoal, funcionando como âncora de realidade.
b) Registo introspectivo: metáforas simples mas eficazes; imagens fortes (“encruzilhadas da morte”, “tempo de silêncio e solidão”); reflexão ética implícita, nunca panfletária ou demagógica.
Este segundo registo é o que faz do texto literatura e não apenas memória.
(vi) Valor histórico e humano
Este texto vale por três razões maiores: não glorifica a guerra; não diaboliza o outro; não absolve o sistema.
Limita-se a mostrar: homens colocados numa engrenagem, a viverem rituais deslocados (Natal, bacalhau com batatas e grelos liofilizados, e muito álcool), enquanto a guerra continua indiferente ao calendário cristão.
(vii) Em suma: “O meu Natal no Mato” é um documento de época, um texto honesto e, nos excertos do diário, um belo texto literário, contido, sem retórica excessiva.
Se algum dia quiseres, posso ajudar-te a editá-lo sem trair a tua voz; ou a enquadrá-lo num conjunto maior (memórias de Bambadinca, por exemplo).
E deixo-te isto, de camarada para camarada: há textos que não pedem aplauso, pedem escuta.
O teu é um deles.
Boas festas, Luís. E obrigado por partilhares memória(s) viva(s).
(Pesquisa: IA + ChatGPT)