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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27737: Documentos (55): A retiradada de Madina do Boé: a largura e a profundidade do rio Corubal em Cheche, medidas por uma ferramenta de IA, a partir de uma fotografia do Patrício Ribeiro, de 18/06/2018






Guiné-Bissau > Região do Boé > Rio Corubal > 30 de junho de 2018 > Rampa de acesso, na margem direita... Lavadeiras e canoas no rio. Veja-se a cor da água, esverdeada, na época das chuvas. 

Em 6/2/1969, o destacamento de Cheche ficava do outro lado, na margem sul (ou esquerda). E não havia rampa nenhuma... Segundo a análise técnica destas fotos, com a ajuda de uma ferramenta de IA (ChatGPT), teríamos as seguintes medidas deste troço do rio, em 30/6/2018:

Largura: ~150 metros | Profundidade no centro do canal: ~5 metros | Profundidade junto às margens: 0,5–2 metros

Em 6/2/1969, no auge da época seca, a profundidade deveria ser um povo menor, bem como a largura.

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

) 

 1. Com base nesta foto do Patrício Ribeiro, Guiné-Bissau, 18 de junho de 2018, "cambança" do Rio Corubal,  perguntámos a "menina IA" (do ChatGPT / Opena AI) qual  será a largura e a profundidade  aqui, nessa passagem entre as duas margens. Estamos na margem norte (direita). Do outro lado era o Cheche, de má memórisa, para sempre associado ao desastre das NT em 6/2/1969.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27736: Os 50 anos da indepedência de Cabo Verde (21): os cubanos que o Amílcar Cabral (i) quis "esconder"; (ii) queria que fossem "escurinhos, como ele; e, mais difícil, (iii) que "não morressem nem se deixassem apanhar" como o Peralta - Parte I


Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05222.000.243 | Título: Fernando de Andrade com um grupo de guerrilheiros do PAIGC e internacionalistas cubanosn| Assunto: Fernando de Andrade [irmão de Lucette de Andrade, esposa do Luís Cabral] com um grupo de guerrilheiros do PAIGC e grupo de internacionalistas cubanos | Data: 1963 - 1973  |  Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografia.

(1963-1973), "Fernando de Andrade com um grupo de guerrilheiros do PAIGC e internacionalistas cubanos", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43457 (2026-2-14)


Guiné > Alegadamente Região do Boé  > 1968 > Amílcar Cabral revistando as suas tropas

Fotograma do filme "Madina Boe" (Cuba, 1968, 38'), do realizador José Massip (1926-2014), obtido a partir da função "print screening" do teclado do PC e da visualização de um resumo, em vídeo (28' 22'') , disponibilizado no You Tube, na conta "José Massip Isalgué". O documentário foi carregado no You Tube no dia da morte do cineasta (ocorrida em Havana, em 9/2/2014). 

O documentário chama-se "Amílcar Cabral" (e pode ser aqui visualizado) (Imagem reproduzida com a devida vénia).


1. O jornalista Júlio Montezinho publicou no "Expresso das Ilhas" (Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde), edição nº 1260, de 21 de janeiro de 2026, um interessante  artigo sobre a participação dos cubanos, ao lado do PAIGC, na luta pela independência da Guiné e Cabo Verde (*)... 

Não diz muito mais do que aquilo que a gente já aqui sabia. Por exemplo, não diz quanto cubanos passaram pelo território da Guiné (não terão chegado a meio  milhar),  nem quantos morreram ou foram gravemente feridos (menos de duas dezenas) (**).

Alguns de nós, pelo contrário, começaram a entrar na paranoia de ver cubanos por todo o lado. Às centenas, aos milhares, uma invasão (!) (**)... "Brancos, que só podiam ser cubanos"... Mas não, o Amílcar Cabral não queria "brancos", queria "escurinhos", como ele... Lá tinha as suas razões... Ele,  que nunca foi um grande "cobói", terá acolhido,  porventura um pouco a contragosto, a ajuda dos "bons escoteiros cubanos"... Afinal Cuba dava lições ao mundo em matérias como a guerra de guerrilha... E o PAIGC tinha que aprender com os mestres. 

Enfim, ainda há muitos "mitos" para desmontar. 

Em todo o caso, munca foram particularmemnte queridos os cubanos que, achávamos nós,  nada tinham a ver com aquela guerra (nem com aquela terra). "Dor de corno" ?!...Se calhar, mas alguns cubanos diziam tinham lá antepassados que foram escravizados.

 Bom, sorte, sorte, apesar de tudo, teve o "capitão Peralta" a quem os páras do BCP 12 salvaram a vida, depois de gravemente ferido numa emboscada (Op Jove, corredor de Guileje, em 18 e novembro de 1969). 

O Peralta que, não tendo morrido, acabou por ser uma peça fora do baralho, que veio estragar o arranjinho entre o Amílcar Cabral e o Fidel Castro... E estes dois, que depois se tornaram amigalhaços, lá tiveram que arranjar uma desculpa de mau pagador para a presença, no corredor de Guileje, a milhares de quilómetros de casa (mais de 7 mil), daquele "ovelha tresmalhada".

Afinal, éramos todos bons rapazes, mas o Amílcar Cabral nunca chegou a pagar em vida  os favores que devia aos cubanos, mandando por exemplo os "seus balantas" para Cuba, para ir cortar cana de açucar na altura dela... Amor com amor se paga, diz o provérbio popular português.

Enfim, tem algum interesse em sabermos, pelo menos, como  é que eles, os cubanos, 500 anos depois, voltaram à  Guiné à procura das suas origens... (Esse era um dos argumentos utilizados pelo Cabral para justificar a sua presença em África.)

Vamos fazer, em dois postes,  uma síntese e análise crítica do  artigo cujo original está disponível "on line", aqui: País: A outra face da luta na Guiné (I) - A presença cubana na Guiné-Bissau que o PAIGC quis esconder | Por Jorge Montezinho, | Expresso das Ilhas, 25 jan 2026 9:14


A. Síntese: o papel de Cuba na luta do PAIGC


(i) Contexto e motivações

  • Autonomia cubana: ao contrário de outros apoiantes do PAIGC (como a URSS, a China ou até a Suécia), Cuba terá agido por iniciativa própria, motivada pela visão de 'Che' Guevara  do "internacionalismo proletário" e da da "luta contra o imperialismo ", pelo empenho pessoal de Fidel Castro e pelo interesse estratégico de Cuba  na África subsaariana como "laboratório revolucionário". 
  • Os contactos com o PAIGC remontam a 1963, mas a "ajuda cubana" só se  materializou  após a viagem de Guevara à África em 1964-65.
  • Primeiros contactos: em agosto de 1963, o PAIGC pediu formação militar e política para cinco combatentes, em Cuba; não se sabe ao certo se houve resposta, nem se esses cinco militantes chegaram a ir a Cuba (quanto mais fosse para provar um "Mojito", um "Daiquiri" ou uma "Cuba Libre"...).
  • Foi preciso esperar ano e meio para que, a partir da reunião entre o 'Che' Guevara e o Amílcar Cabral, em 12 de janeiro de 1965, em Conacri, se desse o início da "cooperação efetiva"entre o PAIGC e Cuba.
  • Em janeiro de 1966, Cabral, que gostava muito de viajar,  foi pela primeira vez a Cuba (não é "á Cuba", no Baixo Alentejo), chefiando a delegação do PAIGG  na  Conferência Tricontinental em Havana.
  • Após aqueles intermináveis discursos panfletários do Fidel Cabral (supomos que o do Amílcar Cabral fosse mais curto e comedido, até  para compensar), o Cabral e Castro foram "tabaquear o caso", como dizem os alentejamos: lá tiveram uma conversa (longa, claro...), a que apenas assistiu o Oscar Oramas,  na altura um alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores, mais tarde embaixador de Cuba em Conacri (, de resto, um homem afável, que eu irei conhecer, em Bissau, em março de 2008).  

(ii) A ajuda cubana: logística, militar e humana

  • Em maio de 1965, o navio "Uvero" levou a primeira remessa de ajuda cubana: armas (cerca de 60 caixas), alimentos e medicamentos a Conacri, cumprindo a promessa do 'Che' a Cabral.
  • Em 6 junho de 1966, chegam 31 "voluntários" cubanos, além de charutos, açúcar mascavado e outros mimos ( a revolução também se faz com estas coisas que fazem bem a alma).
  • Desses trinta e um, (i) onze eram especialistas em artilharia; (ii) oito motoristas; (iii) um mecânico; (iv) dez médicos (sete cirurgiões e três de clínica geral); e (v) um oficial de inteligência, o tenente Aurelio Ricard (Artemio), que era o líder do grupo.
  • Não sabemos (o jornalista cabo-verdiano não satisfaz a nossa curiosidade), quantos eram "brancos" e quantos eram "mais escurinhos", de acordo com as recomendações do Amílcar Cabral. A maior parte dos médicos seriam "brancos", mas quem sabe dessa parte é o Jorge Araújo, que é o nosso especialista em "internacionalistas cubanos":   teve, inclusive,  um duelo de morte, no Xime, com um deles  (já aqui contou essa história).
  • A missão mlitar cubana, sediada em Conacri (claro, não podia ser em Dacar, muito menos no Fiofioli...), reportava diretamente a Havana e era liderada por Víctor Dreke (veterano da guerrilha no Congo).
  • Além de formação de guerrilheiros, os cubanos passaram a participar em missões de combate e a fornecer apoio logístico e médico.
  • O grupo reportava diretamente à inteligência cubana em Havana, e em particular a Ulisses Estrada, chefe da Direcção 5 da DGI, que abrangia a África e a Ásia (um veterano, negro, da Sierra Maestra, que depois irá lutar ao lado de Domingos Ramos, no Leste da Guiné; estaria ao lado dele, segundo me confidenciou, em Bissau, em 2008, quando o Domingos Ramos foi mortalmente ferido em 11 de novembro de 1966, no ataque a Madina do Boé, ataque que redundou num enorme desaire para o PAIGC).
  • Apesar da ajuda, que foi bem vinda, Cabral  (que era pobre mas não era mal agradecido e sobretudo era inteligente)  fez questão de restringir o número de cubanos a 5 ou 6 dezenas de cada vez: tratava-se de preservar a autonomia do PAIGC, e não ferir o orgulho dos seus "cabra-matchu", como o 'Nino' Vieiria.
  • Aém disso, preferia "negros ou mulatos escuros para que se misturassem com o seu povo" (sic) (por favor, não venham agora acusar o Cabral de "racista": depois de morto, não se pode defender).
  • A presença cubana foi "mantida em segredo" (sic), a pedido do próprio PAIGC; em 1966 estava em curso uma grande operação contra Madina do Boé: foi adiada para 11 de novembro, no início da época seca; 350 combatentes do PAIGC atacaram o aquartelamento português com a intenção de dar cabo dos "tugas" e libertar  definitivamente o Boé; o PAIGC acabou por sofrer pesadas baixas; morreu o comandante Domingos Ramos (já aqui contámos como foi).
  • “A morte de Ramos foi um golpe duro”, lembrou um líder do PAIGC; issso levou Castro à acção; o líder cubano “sugeriu que fizessemos mais para ajudar”, recordou Oramas, “e Amílcar aceitou com grande prazer a nossa oferta de aumentar a ajuda”.
  • Castro convocou Dreke [Víctor Emilio Dreke Cruz, ex-comandante das Forças Armadas Revolucionárias Cubanas] que, desde que regressara do Zaire, chefiava o departamento que treinava os cubanos que iam para as missões militares no exterior e os estrangeiros que vinham a Cuba. Fidel confiou a Dreke "o comando da missão militar na Guiné’”. Castro também insistiu para que Dreke levasse alguns dos homens que estiveram com Dreke no Zaire, “os melhores”.
  • "Em fevereiro de 1967, comunicados militares portugueses começaram a mencionar que conselheiros cubanos estavam a operar com os guerrilheiros, e um mês depois a CIA, que estava á  coca, escreveu que 'pelo menos 60 cubanos... treinavam o PAIGC' ", escreveu o autor do artigo, Júlio Montezinho.
  • "Em fevereiro de 1967, Dreke voou para Conacri com Pablito Mena (outro veterano do Zaire) e Reynaldo Batista. Dreke era um comandante, membro do Comité Central e um homem que conhecia África e a guerra de guerrilha"; além disso, inspirava enorme confiança e respeito, diz o jornalista cabo-verdiano.
  • "Aprendemos muito com Moya [nome de guerra de Dreke]”, disse Arafam Mané, um comandante do PAIGC (recordam-se ? o puto biafada que deitou fogo ao capim, em Tite, em 23 de janeiro de 1963.). “Moya foi um líder excepcional”, disse o ex-presidente da Guiné-Bissau, Nino Vieira, por sua vez.
  • Os cubanos, por seu turno, ficaram impressionados com o empenhamento e a disciplina do PAIGC. “Tivemos uma experiência realmente amarga no Zaire e encontrámos algo completamente diferente na Guiné-Bissau”, observou Dreke.


(iii) Impacto estratégico e simbólico
  • Formação e especialização: os cubanos foram "cruciais" no treino dos combatentes do PAIGC, em áreas-chave como artilharia, minagem e uso de armas sofisticadas (ex.: RPG ou bazucas, canhões sem recuo, morteiros, antiaéreas); a sua presença, por outro lado, elevou o moral dos combatentes do PAIGC, que viam neles aliados dispostos a partilhar sacrifícios ( incluindo o da própria vida).
  • "Com o passar do tempo, os combatentes do PAIGC assumiram o papel de artilheiros, mas os chefes de bateria — aqueles que faziam os cálculos e dirigiam os artilheiros — foram, até ao fim, quase sempre cubanos", escreve o jornalista do "Expresso das Ilhas". (Não sei se o Manecas Santos concorda com esta "boca".)
  • Adaptação à estratégia de Cabral: embora preferissem táticas mais agressivas, os "cabra-matchu" cubanos respeitaram a estratégia de desgaste de Cabral, evitando confrontos diretos com os "tugas" que pudessem causar baixas elevadas (e a ira dos irãs).
  • "O estilo de Amílcar Cabral 'não era necessariamente o nosso',  comentou Enrique Montero, que chefiou a Missão Militar Cubana em 1969-70. Embora Cabral mantivesse um controlo rígido sobre a estratégia militar, passava a maior parte do tempo fora do país, em Conacri ou a viajar à procura de apoio estrangeiro. Ora, as actividades diplomáticas de Cabral mantinham-no afastado da linha da frente. Cabral não dirigia pessoalmente as operações militares. “Isto preocupava-nos”, explicou Dreke. 'A nossa formação e a nossa experiência ensinaram-nos que o líder tinha de estar na linha da frente.' "(diz Julio Montezinho)
  • Cinema e propaganda: Cuba vai usar entao o  a arma do cinema (vd. o documentário "Madina de Boé", de José Massip) para construir a imagem de um Cabral como um verdadeiro comandante,  um "cabra-matchu", um  líder presente na  linha da frente de batalha, mesmo que apenas... para russo  e cubano ver ( com a censura, era impossível  o filme passar nos nossos ecrãs). Isso ajudou a legitimar o PAIGC perante críticas internas e externas.
  • "Os cubanos tentaram disfarçar o facto com cinema. Um ano depois do primeiro contingente militar cubano ter chegado à Guiné-Bissau, chegou a primeira equipa de cinema, liderada pelo realizador Jose Massip. Massip realizou o filme Madina de Boé. O filme destaca-se por ser um dos poucos filmes em torno da luta de libertação em que Amílcar Cabral está, aparentemente, presente nas zonas libertadas. Convivendo com a população e os militares, Cabral enverga uma farda militar, partilhando a iconografia de outros líderes revolucionários da época."
  • "O líder do PAIGC voltaria a ser filmado por Massip em 1971 e desta rodagem permanece um diário do realizador. Em "Los Dias del Kankouran", Massip desvenda que Cabral lhe pediu para ser filmado no 'matu', para contornar críticas de que era alvo: a de se estar a transformar num intelectual urbano, baseado em Conacri, que não se expunha aos riscos da luta armada. Porém, o 'matu' onde Cabral foi filmado não era nas zonas libertadas, como a narrativa fílmica deveria conduzir o espectador a “ver”, mas sim o aquartelamento militar cubano em Kandiafara, território da República da Guiné. O cinema cubano colaborou na construção de uma imagem de Cabral como chefe de guerra".

(iv) O  caso Peralta e o segredo cubano

  • Captura e negação: em 1969, o capitão cubano Pedro Rodríguez Peralta foi capturado pelos portugueses,
  • Cabral negou a sua participação militar, como lhe convinha, descrevendo-o como um "visitante" dos médicos cubanos; ou seja, o rapaz veio em viagem turística, mas sem passaporte nem visto dos "tugas".
  • Portugal (leia-se, o Governo de Marcelo Caetano) usou a captura para provar o envolvimento estrangeiro. Mas Cuba manteve o bico calado.
  • Libertação tardia: Peralta só foi libertado uns meses depois do 25 de Abril de 1974,  apesar de tentativas, goradas, de troca com um "espião" dos EUA;
  • O caso ilustra a política de negação do PAIGC e o respeito de Cuba por essa posição, que também lhe convinha.
(Continua)

(Pesquisa, condensação, fixação / revisão de texto, negritos: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 3 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27698: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (20): E se tivesse havido um referendo em 1975 ? (Adriano Miranda Lima, cor inf ref, mindelense, que bebeu a água do Madeiral, a viver na diáspora desde 1963, e atualmente em Tomar)

(**) Vd. poste de 13 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26041: A nossa guerra em números (26): Aceitemos, provisoriamente, o número (oficioso) de 437 "internacionalistas cubanos" que terão combatido ao lado do PAIGC, "de 1966 a 1975"

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27735: Os nossos seres, saberes e lazeres (722): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (243): Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade -2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Aqui se volta a falar da exposição A Coleção da Casa das Histórias Paula Rego com a coleção da artista, visitável até 15 de março. Retiro observações da curadora Catarina Alfaro: "Ao longo da sua carreira, usou o desenho e a pintura para gerar um universo artístico tão disruptivo quanto belo, abordando temáticas que ecoam na vida de cada cidadão na contemporaneidade. Da projeção de tradições e dinâmicas familiares ao papel da mulher em cada época histórica, de contos e mitos à liberdade e à desigualdade, a artista luso-britânica produziu obras artísticas dotadas de integridade, harmonia e esplendor. Pelas diferentes salas passa-se em revista a vida da artista, obras que permitem uma visão panorâmica da sua evolução técnica e estilística, destaca-se o sentido transgressor e a necessidade de desafiar não só os restritos códigos morais vigentes à época, mas sobretudo a opressão sexual das mulheres; nas distintas fases da sua produção artística, os contos tradicionais e os contos de fadas serão sempre uma fonte fértil para o desenvolvimento do seu trabalho criativo (...) Esta exposição não ficaria completa sem que, na sua última sala, se desse uma especial atenção à construção das personagens femininas que se destacam na sua obra pela imponência física e expressividade emocional. Evidenciam-se três obras de uma série dedicada à depressão psicológica, em que a artista capta o sentimento de compreensão, construindo imagens ferozes de solidão e de sofrimento humano."

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (243):
Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade - 2

Mário Beja Santos

“Pintar é uma maneira de se lidar com a realidade, com o mundo de todos os dias, pois a pintar absorve-se tudo quanto há.”
Paula Rego


Estão patentes na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, duas exposições de arromba: uma, em que a coleção da artista parece entrar numa sala de espelhos, a coleção do Museu irá desdobrar-se pelos temas dominantes e transversais à sua obra; outra, a obra de Paula Rego é apresentada através da lente da moda e do vestuário, introduzindo pela primeira vez o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem. Vastidão de leituras, justifica que se vá faseando o que o leitor pode visitar até 15 de março, asseguro-lhe que não se arrependerá de ir contemplar Paula Rego em corpo inteiro, entrando mesmo nos bastidores onde os adereços patentes podem ajudar a descodificar este carrossel de emoções, de encontros e desencontros e de uma grande fiabilidade na defesa de causas e desmontagem de tabus.
Na continuação da visita, vale a pena focar o exemplo do trabalho de Paula Rego nos chamados primeiros anos. Entre 1952 e 1956 ela teve a sua formação numa reputada instituição londrina, a Slade School of Fine Art. Experiência que ela considerou traumática, com aspetos entusiasmantes. No entanto, o ensino aí praticado tinha como base a aula de desenho à vista. Recebeu um conselho do diretor da instituição, “ir pintando o que ia cá dentro na cabeça”. É um período fértil, vai projetar nas suas artes plásticas o protagonismo das mulheres, não faltará um carácter assumidamente político à ditadura que ocorre em Portugal, explora a arte figurativa, como se pode ver neste retrato do seu pai.

Fotografia correspondente aos primeiros anos como pintora
Paula Rego, Retrato de José Figueiroa Rego, 1954-55

Uma outra dimensão que a artista explorou e continuará a explorar até ao fim da sua vida prende-se com imagens familiares e enredos ficcionais: contos de fadas como Capuchinho Vermelho, romance A Relíquia de Eça de Queirós, são obras que ganham um novo sentido com elementos e histórias que apenas à artista dizem respeito. O mesmo acontece quando ela evoca as memórias de infância e o contexto familiar, também a rememoração é um tema de referência no seu desenho e pintura, caso das figuras maternais e imagens femininas familiares.
Paula Rego, sem título, 2001
Paula Rego, Encontro com Adélia, 2013, da série “A Relíquia”

Passado o período de afirmação, Paula Rego na exploração de múltiplos domínios dará imensa atenção aos contos tradicionais e contos de fadas. A sua arte pictórica nessa fase envolve histórias violentas e cruéis, esta aproximação sistemática aos contos de fadas e aos contos populares leva-a a estabelecer como plano de trabalho quer essas histórias como modos de composição onde não falta o enredo cénico, um embate entre uma arte aparentemente ingénua e a presença de grupos que aparentam estar em ensaios, gerando no espetador um aturdimento entre o indivíduo, um pequeno grupo e a tentativa de entendimento do quadro geral – qualquer coisa como um inconsciente coletivo, um ponto alto da psicanálise.
Paula Rego, O Ensaio, 1989

Na viragem do século vemos que as personagens femininas criadas pela artista se destacam pela sua imponência física e emocional. Os corpos revelam vivências e emoções, entram imediatamente no olho do espectador, numa série de obras em que criou poderosas imagens que exploram a dimensão paradoxal da depressão psicológica, podemos ver que são registos pessoais de expressão física do sofrimento associado à depressão. Algo que a artista vivenciou: “Em 2007 passei por uma depressão particularmente profunda; tentei encontrar a saída através do desenho e fiz estas obras.”
Paula Rego, Três, 2007, da série “Depressão”
Paula Rego, da série “Depressão”, 2007

A rememoração da infância pesa enormemente em todo o seu trabalho. Um exemplo pode ser dado numa série de gravuras intitulada As pranchas curvas, seis águas-fortes e águas-tintas, tem a ver com um poema do poeta francês Yves Bonnefoy. As imagens criadas a partir desta narrativa poética põe no centro uma criança sozinha no mundo que deposita num estranho, um barqueiro, as suas esperanças. A artista estabelece paralelismo entre a narrativa de Bonnefoy, histórias de figuras religiosas e episódios da sua história pessoal. São também imagens que revelam a esperança na salvação das crianças que procuram um destino diferente no outro lado do rio, auxiliadas na sua travessia por intrépidos barqueiros, estes parecem ser uma espécie de entidades mágicas.
Paula Rego, Manobrando o barco, 2009

Se no início da sua carreira, Paula Rego escolheu motivos políticos declarados, como a denuncia da ditadura salazarista, a partir dos anos 1990 ela começa a encenar no seu estúdio histórias num processo onde não falta uma dimensão espetacular. Em 2008, ela exprime pela primeira vez a sua vontade de expor um conjunto de desenhos com as respetivas cenografias. Isto acontece num momento coincidente com a sua plena maturidade artística, alcançada em Carga Humana, obra que assume a mesma escala das suas grandiosas pinturas a pastel.
Paula Rego, Carga Humana, 2007, um tríptico sobre o tráfico humano

Vamos agora despedir-nos desta primeira exposição e antes de entrar noutra intitulada O vestuário na obra de Paula Rego, sento-me confortavelmente num banco diante de uma imensa tapeçaria intitulada Batalha de Alcácer-Quibir, obra datada de 1966, aqui se mostra um pormenor da parte central da obra. Mas que projeto foi este?
Pormenor central da tapeçaria Batalha de Alcácer-Quibir.

Esta tapeçaria foi produzida na sequência de uma encomenda para um hotel no Algarve, mas acabou por não ser adquirida pelo dono da obra. Paula Rego apropriou-se de diversos meios técnicos e tradições: o uso da linha e da agulha intermedeia-se com a sobreposição de formas, devedora da imaginação e da intuição, mantendo-se a violência da utilização da tesoura e o rasgar apressado dos retalhos como elemento comum à prática da pintura-colagem. A artista inscreve no tema escolhido intenções de denúncia da demência da guerra, nem se poupa a histeria, esboçada no grito de guerra de uma fisionomia que se assemelha a um típico galo de Barcelos. Há faixas vermelhas a representar sangue que jorra de uma ferida mortal. É um trabalho singularíssimo, um itinerário que Paula Rego não voltou a trilhar. E vamos agora para a exposição O vestuário na obra de Paula Rego.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 7 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27712: Os nossos seres, saberes e lazeres (721): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (242): Paula Rego na sala de espelhos, harmonia e disrupção, justiça e iniquidade -1 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27734: Efemérides (383): O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o Dia dos Namorados”, é o ‘Dia da Amizade” (João Crisóstomo, ex-Alf Mil Inf)

1. Mensagem de 12 de Fevereiro de 2026 do nosso camarada João Crisóstomo, colaborador permanente, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 1439 (Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67); relações externas na diáspora lusófona; natural de Torres Vedras; luso-americano que vive em Nova Iorque desde 1977; ativista social, conhecido por causas como Foz Côa, Timor Leste, Aristides Sousa Mendes:

Caro Luís Graca,

O dia 14 de Fevereiro é para mim mais que "o dia dos namorados”, é o ‘Dia da amizade”: uma ocasião para contactar os meus amigos, fomentar amizades presentes ou mesmo passadas que precisam de ser alimentadas para não caírem no esquecimento. Amigos e boas amizades são o melhor que a vida me tem proporcionado; e eu quero que eles saibam da minha satisfação em os ter como amigos e da minha gratidão pela amizade que me têm concedido.

Com isto em mente, tentando contactar os nossos camaradas, fiz dezenas de telefonemas para os quatro cantos do mundo, da Holanda ao Canadá, mas mais uma vez com pouco sucesso que, parece, poucos são os que ainda apanham o telefone. Mas mesmo assim valeu a pena: se de alguns já só consegui saber notícias através de familiares, com outros foi uma alegria falar "ao vivo” com o Freitas na ilha da Madeira, o Henrique Matos no Algarve e alguns outros que me deram o prazer de dois minutos para, relembrando coisas, matar as muitas saudades dos tempos em que vivemos juntos. De outros, como do Cherno Baldé, recebi uma resposta que me encheu de alegria. Até o seu número de telefone me enviou! Se ir novamente à Guiné-Bissau não me parece ser mais possível concretizar, vou pelo menos tentar falar com ele um dia destes.

Se quiseres aproveitar algo disto (cortando e editando como achares pertinente)… que este é acima de tudo para "dar sinal de vida" e enviar aos nossos camaradas o abraço virtual que não posso dar pessoalmente. A todos os que lerem este… de coração um grande abraço.

Aliás parece-me que esta esta idéia de chamar “Dia da Amizade” a este dia não é de todo despropositado: "Thank you very much for your kind message in anticipation of February 14, as the Day of friendship”, foi parte da resposta do Sr. Arcebispo Gabriele Caccia, Representante do Vaticano nas Nações Unidas, a quem eu enviei uma mensagem. O facto de Sua Excelência mencionar "February 14, as the “Day of friendship” foi para mim quase um "reconhecimento oficial”…

No que pessoalmente nos diz respeito… não nos podemos queixar: embora sem a força e energia que no passado nos tem proporcionado eventos de maior amplitude, continuamos fazendo o que está ao nosso alcance. Como te disse,  a Vilma e eu fomos no dia 10 ajudar a celebrar (embora com alguma antecipação) o que eu chamo "Dia da Amizade” em vez de ‘dia dos namorados” para abranger toda a gente, mesmo que não tenham nenhuns “valentinos" nas suas vidas, aos “seniors" da nossa rua.

Entre as muitas fotos/memórias lá apostadas nas paredes, encontrei esta foto que junto, tirada em 2018 no dia em que, com o Rui Chamusco que cá estava na ocasião, fomos celebrar o Natal desse ano. As outras fotos foram tiradas neste dia. Como podes ver, a Vilma foi imediatamente absorvida e dominada pelo seu espírito de artista, e sentando-se numa das mesas juntou-se logo aos “seniors" que neste dia participavam numa sessão de arte dedicada à pintura…

Bom, já chega por hoje. Vou tentar mais alguns telefones…
Para ti, Alice, e teus queridos um bem apertado…
dos João e Vilma

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Nota do editor

Último post da série de 24 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27667: Efemérides (382): Conforme noticiado oportunamente, os nossos amigos e camaradas, Luís Graça e José Marcelino Martins, foram agraciados, respectivamente, com a Medalha de Honra ao Mérito da Liga dos Combatentes (grau Ouro) e Medalha de Honra ao Mérito (grau Prata), durante as Cerimónias comemorativas do 107.º aniversário do Armístício da Grande Guerra e 51.º aniversário do fim da Guerra do Ultramar

Guiné 61/74 - P27733: Documentos (54): A retirada de Madina do Boé (José Aparício, ex-cap inf, cmdt CCAÇ 1790, Madina do Boé, 1967/68 + CECA, 2014)


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Setor de Boé > Madina do Boé: vista aérea, tirada de DO 27, c. 1967.  As tão faladas colinas do Boé... "O resto era deserto", diz o fotógrafo, Manuel Coelho, um dos bravos de Madina do Boé, ex-fur mil trms, da CCAÇ 1580 (1966/68) (natural de Reguengos de Monsaraz, vive em Paço d'Arcos, Oeiras; tem 47 referências no nosso blogue, ingressou na Tabanca Grande em 12 de julho de 2011).

Foto (e legenda): © Manuel Coelho  (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 
1. Há operações que ficaram na nossa memória, por uma razão ou outra, em geral por más razões... A Op Mabecos Bravios (retirada do aquartelamento de Madina do Boé, sector L3, de 2 a 7 de fevereiro de 1969) é uma daquelas que  marcaram para sempre os combatentes da Guiné, que nela participaram ou que dela tiveram conhecimento, sendo seus contemporâneos. 

Marcou-nos a todos, aos daquele ano de 1969,  pela tragédia que ocorreu no rio Corubal, em Cheche, na derradeira travessia feita pela jangada de serviço. Durante a noite de 5 para 6 e ao longo da madrugada desse dia passaram por ela 55 viaturas, todas carregadas no limite, e algumas  centenas de homens.  À luz de holofotes, em condições precárias de segurança.


Mas faltam aqui ainda outras versões  sobre a retirada de Madinado Boé. Como se sabe, continua ainda haver  controvérsia sobre o  origem, as causas do acidente que provocou 47 vítimas mortais. 

2. Encontrámos esta versão,  que vamos reproduzir a seguir, no livro da CECA (2014), com o valioso testemunho do ex-comandante da infortunada CCAÇ 1790,  o então cap inf José Aparício, hoje cor inf ref, e antigo comandante geral da PSP de Lisboa.

Corrigimos as datas, que não estão corretas. Alterámos o topónimo usada pela CECA (Comissão para Estudo das Campanhas de África), embora na carta de Jábia o topónimo grafado seja Ché Ché. No nosso blogue temos usado a grafia Cheche (que tem mais de 7 dezenas de referências).

Já publicámos o depoimento do comandante da operaqção, o então cor inf Hélio Felgas (1920-2008). Publicámos também nesta série, "Documentos", o testemunho de dois ex-alf mil da CCAÇ 2405, o Paulo Raposo e o Rui Felício, nossos grão-tabanqueiros.

Continuará  a faltar-nos aqui o prometido testemunho do ex-alf mil José Luís Dumas Diniz, da CART 2338, responsável pela segurança da jangada que fazia a travessia do rio Corubal, em Cheche, aquando da retirada de Madina do Boé, e a quem competia cumprir as normas de segurança constantes da Ordem de Operaçáo, redigidas pelo cor inf Hélio Felhas, e superiorimente aprovadas pelo Com-Chefe que, de resto, fez várias visitas de héli, às NT,  ao longo da Op Mabecos Bravios.


Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché (grafado também como Cheche), na margem esquerda do Rio Corubal. Pela carta, o rio aqui teria 150 metros de largura.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)






Guiné-Bissau > Região do Boé > Rio Corubal > 30 de junho de 2018 > Rampa de acesso, na margem direita... Lavadeiras e canoas no rio, Veja-se a cor da água, esverdeada, na época das chuvas. Em 6/2/1969, o destacamento de Cheche ficava do outro lado, na margem sul (ou esquerda). E não havia rampa nenhuma... Segundo a análise técnica destas fotos, com a ajuda de uma ferramenta de IA (ChatGPT), teríamos as seguintes medidas deste troço do rio, em 30/6/2018:

Largura: ~150 metros | Profundidade no centro do canal: ~5 metros | Profundidade junto às margens: 0,5–2 metros

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


 A retirada de Madina do Boé

José Aparício (cap inf, cmdt, CCAÇ 1790, 
Madina do Boé, 1967/69) +  CECA, 2014)


Op Mabecos Bravios (de 2 a 7 de fevereiro de 1969)

Forças envolvidas:

Estas forças, com APAR [apoio aéreo], efectuaram uma escolta no itinerário Nova Lamego - Canjadude - Cheche - Madina do Boé ,  e regresso a Nova Lamego, pertencente à Zona Leste, Sector L3 [BCAÇ 2835].

Foi accionada mina A/C no cruzamento de Beli, sem consequências; e foram detectadas e destruídas 2 minas A/C entre Cheche e Canjadude. 

Durante a operação, Madina foi flagelada 4 vezes sem consequências.

No regresso, na travessia do rio Corubal, um acidente com a jangada que transportava forças de segurança da retaguarda, provocou a morte de 47 militares das NT (2 sargentos, 43 praças e 2 milicias).


Acidente no rio Corubal em 6 [e não 8] de Fevereiro de 1969 - Dados fornecidos pelo tenente-coronel José Ponces de Carvalho Aparício, à época Cmdt da CCaç 1790,  aquartelada em Madina do Boé.

" Na Guiné-Bissau nos anos 60 a travessia do Rio Corubal para a região do Boé era feita, como hoje, junto à povoação do Cheche  onde durante a guerra se encontrava ali em permanência uma força militar de um pelotão de infantaria, reforçado com uma secção de morteiros de 81 mm.

Esta travessia era então obrigatória para a rendição das forças militares portugueses estacionadas em Madina do Boé e Beli, e ainda para o reabastecimento daquelas forças que na época das chuvas (cerca de 6 meses) ficavam completamente isoladas.

Por isso, durante a época seca realizavam-se normalmente 2 colunas por mês, cada uma escoltada por uma companhia reforçada com um pelotão de autometralhadoras "Fox" ou "Daimler" e com protecção aérea permanente.

Cada coluna era constituída por um elevado número de viaturas, cerca de 20 a 30, carregadas com munições e reabastecimentos.

A travessia do rio Corubal era então feita por uma jangada constituída por uma plataforma sobre 2 canoas; um longo cabo ligando 2 pontos fixos instalados em cada margem corria numa roldana instalada na plataforma; a impulsão necessária para mover a jangada era dada pela força braçal dos militares puxando manualmente o cabo. Como segurança do movimento, uma embarcação "Sintex",  com motor fora de bordo, acompanhava lateralmente cada movimento de vaivém, pronta para qualquer emergência.


Em fevereiro de 1969 após a decisão do Comando-Chefe da Guiné de abandonar todo o Boé [Directivas n° 1/68 de 1 jun, 20/68 de 25 jul e 59/68 de 26 dez do Cmdt-Chefe] - sendo que  Beli já tinha sido abandonado meses antes retirando para Madina do Boé todas as forças ali estacionadas - foi desencadeada a Op Mabecos Bravios sob o comando do agrupamento nº 2957 [cmdt: cor inf Hélio Felgas]. 

Uma enorme coluna com cerca de 50 viaturas pesadas escoltadas por 2 Companhias de Caçadores 
 [,CCAÇ 2403 e CCAÇ 2405]  , e dois pelotões de autometralhadoras  [Pel Rec Daimler 1258, reduzido], e com apoio aéreo permanente, chegou a Madina do Boé na tarde de 07 de fevereiro de 1969 [lapso do autor, deve ser 4 e não 7] [, perfazendo cerc de 40 km].

Por decisão do comandante da operação, o número de dias previsto para a sua realização foi reduzido de vários dias, para libertar os meios aéreos empenhados.

Em vez da corda inicial, o movimento da embarcação era garantido pelo "Sintex" com motor fora de bordo amarrado à jangada, do lado de jusante do rio, e operado por um sargento de Marinha requisitado para o efeito. A velha jangada esteve sempre acostada na margem direita.

Nas travessias do rio durante a noite, com as viaturas foram também indo passando secções dos militares empenhados. 

No início da manhã de 6 [e não na tarde de 9]  de Fevereiro de 1969, na última e fatídica viagem, embarcaram a parte que restava dos militares das CCaç 2405 e da CCaç 1790, cerca de 80 a 90 militares  [na realidade, eram 4 Gr Comb, dois de cada subunidade, no máximo 120 homens].

A meio do rio, uma aceleração brusca do motor do "Sintex" fez erguer a frente de bombordo da jangada; tendo sido dada logo ordem para reduzir a velocidade, a jangada fez o movimento pendular inverso, desta vez mergulhando ligeiramente no rio a frente de estibordo, as canoas ficaram cheias de água mas o tabuleiro ficou flutuando, com os militares a bordo com água pelos tornozelos.

Chegados à margem direita, ao proceder-se à contagem constatou-se a falta de 47 militares das duas Companhias.

O Comandante da Operação 
 [cor inf Hélio Felgas] não permitiu que as duas Companhias [CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405] permanecessem no Cheche para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego.

O acidente em causa deu origem de imediato a um Auto de Corpo de Delito, e a longas e complexas averiguações, incluindo todos os aspectos da operação, que em 1970 terminaram em julgamento em Lisboa no 3.° Tribunal Militar Territorial.

O julgamento durou várias sessões e que terminou com a absolvição do único réu, o alferes miliciano,  comandante do Destacamento estacionado no Cheche [pertencente à CART 2338, Fá Mandinga, Nova Lamego, Canjadude, Buruntuma, Pirada, 1968/69,  o José Luís Dumas Diniz] ".
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Fonte: Excertos de: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da Actividade Operacional: Tomo II - Guiné -  Livro I  (1.ª edição, Lisboa, Estado Maior do Exército, 2014),
pp. 353-355. 
 
(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, negritos, itálicos,  título: LG)


2. Não havia nenhum major  (*) no Cmd Agrupamento nº 2957, a quem coube o planeamento e execução da Op Mabecos Bravios.  O Cmd Agr 2957 era uma estrutura leve, com no, topo, um coronel (Hélio Felgas) e um CEM (Chefe de Estado Maior), que na época devia ser o ten cor cav Manuel Xavier Ferreira Coelho

Ficha de unidade:

Comando de Agrupamento n.º 2957
Identificação Cmd Agr 2957
Unidade Mob: RAL I - Lisboa
Cmdt: Cor Inf Hélio Augusto Esteves Felgas | Cor Art José João Neves Cardoso
CEM: TCor Cav Emanuel Xavier Ferreira Coelho | TCor Inf Artur Luís Félix Teixeira da Silva
Divisa: -
Partida: Embarque em 09Nov68; desembarque em 15Nov68 | Regresso: Embarque em 19A9070

Síntese da Actividade Operacional

Em 18Nov68, rendendo o CmdAgr 1980,assumiu a responsabilidade da zona
Leste, com sede em Bafatá, e abrangendo os sectores de Bambadinca, Bafatá e
Nova Lamego e depois os novos sectores, então criados, com a consequente
reformulação dos respectivos limites, em Piche, em 24Nov68 e em Galomaro,
em 07Nov69. 

De 11Mar69 a 11Out69 e de 26Jul69 a 06Nov69, foram ainda constituídos,
transitoriamente, na zona Leste, o COP 5 e COP 7, respectivamente e
criado, em 26Jun70, o COT1.

Desenvolveu a sua actividade de comando e coordenação dos respectivos
batalhões e das forças atribuídas de reforço, planeando, impulsionando e controlando a respectiva actuação que foi, essencialmente, de patrulhamento, reconhecimento e de contacto com as populações e de acções sobre grupos inimigos infiltrados, com destaque para as operações "Lança Afiada", "Baioneta Dourada" e "Nada Consta", entre outras. 

Em 02/07Fev69, planeou e executou a operação"Mabecos Bravios", respeitante à evacuação dos aquartelamentos de Madina do Boé, Béli e Ché-Ché.

Em 01Ag070, já na fase de sobreposição com o Cmd Agr2970, passou a integrar
o CAOP Leste, então organizado por despacho ministerial de 20Jun70, pelo
que foi extinto e o seu pessoal recolheu a Bissau, a fim de aguardar o embarque de
regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa nº  121 - 2ª Div/4ª Sec., do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pág. 35.
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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27730: Documentos (53): A retirada de Madina do Boé (Rui Felício, ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70)