sábado, 27 de outubro de 2007

Guiné 63/74 - P2221: PAIGC: O Nosso Livro da 2ª Classe (1): Bandêra di Strela Negro (Luís Graça / Paulo Santiago)


Capa e contracapa de O Nosso Livro da 2ª classe, usado nas escolas do PAIGC.

Reprodução da Lição nº 5 - Bandêra di Strela Negro, pp. 20-21.

Fotos: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2007). Direitos reservados.

1. Já aqui apresentámos a capa e a contracapa de O Nosso Primeiro Livro, o manual escolar usado nas escolas do PAIGC, editado em 1966, pelo Departamento Secretariado, Informação, Cultura e Formação de Quadros do Comité Central do PAIGC (1)... Algumas imagens digitalizadas do livro chegaram-nos pela mão do nosso camarada A. Marques Lopes, ex- Alf Mil At Inf (hoje Cor DFA, reformado, CART 1690, Geba) / CCAÇ 3, Barro). Um exemplar do livro foi facultado pelo António Pimentel, ex- Alf Mil Rec Info, CCS BCAÇ 2851, Mansabá em Galomaro (1968/70). O Marques Lopes vive em Matosinhos e o Pimentel vive no Porto.

Na altura escrevi aqui o seguinte: "Amílcar Cabral, inimigo não do Povo Português mas do regime político de Oliveira Salazar/Marcelo Caetano, fez mais pela língua portuguesa do que muitos portugueses que por lá passaram, com responsabilidades políticas e militares, ao longo de 500 anos de relações dos portugueses com os guineenses. Amílcar Cabral sabia que o português (para além do crioulo) era um das bases indispensáveis para a criação de uma identidade nacional...

"Pessoalmente fiquei chocado, quando ao chegar a Contuboel em Junho de 1969 para fazer o IAO com os meus futuros soldados africanos da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 - fulas, velhos aliados dos portugueses... -, constatei que eles não falavam (nem muito menos escreviam) português"...

Hoje é a vez de agradecer ao Paulo Santiago (que vive em Águeda e foi Alf Mil, comandante do Pel Caç Nat 53, Saltinho , 1970/72). enviado, pelo correio. outro manual escolar do PAIGC, O Nosso Livro - 2ª Classe. Mandou-me, além disso, uma pequena nota que eu achei uma delícia:

"Luís: Penso que algumas das caixas que estão escritas, à mão, no livro, foram-no pela minha fulha [, Maria Luís,] quando frequentava a 2ª classe. Abraço. Paulo".

Em resumo: este exemplar, que o Paulo ainda não me disse como lhe chegou às mãos, ajudou crianças da Guiné, e pelo menos uma de Portugal, a aprender a ler e a escrever o português...

O livro foi "elaboradao e editado pelos Serviços de Instrução do PAIGC - Regiões Libertadas da Guiné" (sic). Tem o seguinte copyright: 1970 PAIGC - Partido Afrucano para a Independência da Guiné e Cabo Verde. Sede: Bissau (sic)... A primeira edição teve uma tiragem de 25 mil exemplares (!).

Foi, além disso, impresso em Upsala, Suécia, em 1970, por Tofters/Wretmans Boktryckeri AB.

Reproduzimos hoje a lição nº 5, sobre a Bandeira do PAIGC. A letra do hino é em creoulo, mas a lição é em português (mas como todas as demais). Repare-se nas instruções para os alunos:

1º - Vamos aprender esta poesia para a recitarmos
2º - Vamos desenhar e colorir a nossa bandeira


No filme da Diana Andringa e Flora Gomes, As Duas Faces da Guerra, recentemente estreado em Lisboa, são entrevistados dois militantes do PAIGC que estiveram muito ligados à elaboração destes manuais:

(i) Um português (ou caboverdiano ?), que o Jorge Cabral me apresentou no hall da Culturgest, no dia 19 de Outubro de 2007, e de quem infelizmente eu não consegui fixar o nome; vivia na Suécia, possivelmente como exilado político; era ele que fazia a revisão de texto dos manuais;

(ii) A esposa do Dr. Pádua, o alferes miliciano médico que desertou em Angola e aderiu ao PAIGC, sendo até 1966 (ano da chegada dos primeiros médicos e instrutores cubanos a Conacri) o único médico do PAIGC a trabalhar em hospital de rectaguarda, em Ziguinchor, no Senegal... A esposa do Dr. Pádua era angolana, e escreveu textos para estes manuais. Além disso, era locutora da Rádio Libertação, do PAIGC, em Conacri. Era ela a Maria Turra, a que já se referiram alguns dos nossos camaradas, confundindo-a no entanto com a segunda mulher do Amílcar Cabral (2).
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Notas de L.G.:

(1) Vd. posts de:

29 de Junho de 2007 > Guiné 63/74 - P1899: PAIGC: O Nosso Primeiro Livro de Leitura (A. Marques Lopes / António Pimentel) (1): O português...na luta de libertação

1 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1907: PAIGC: O Nosso Primeiro Livro de Leitura (2): A libertação da Ilha do Como (A. Marques Lopes / António Pimentel)

4 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1920: PAIGC: O Nosso Primeiro Livro de Leitura (A. Marques Lopes / António Pimentel) (3): O mítico Morés

9 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1938: PAIGC: O Nosso Primeiro Livro de Leitura (A. Marques Lopes / António Pimentel) (4): Catunco

(2) Vd. post de 27 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1216: A batalha (esquecida) de Canquelifá, em Março de 1974 (A. Santos)

(...) Nota de L.G.:

(...) Maria Turra era a locutora de serviço da Rádio do PAIGC, localizada em Conacri: vd. artigo do jornalista Joaquim Vieira, na edição do Expresso de 21 de Abril de 1984 > Como os rapazes viveram a paz e a guerra:

(...) "Os tempos da fraternidade estavam afinal mais próximos do que alguém podia imaginar no batalhão. Onze dias depois da Páscoa, na manhã de 25 de Abril, começaram a chegar a Sedengal notícias de um golpe de Estado em Lisboa. As primeiras informações foram recebidas através das emissões em português de Rádio Conakry. Alguns soldados não sabiam o que era um golpe de Estado, e procuraram informar-se. Algumas horas depois, a locutora - que os portugueses tratavam por Maria Turra - anunciou a prisão de Américo Tomás e Marcelo Caetano. A gaja está mas é maluca, houve quem comentasse" (...).

Por Maria Turra também era conhecida, entre as NT, a viúva de Amílcar Cabral: Vd. também post de 21 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCIV: Eu estava lá, na entrega simbólica do território (Mansoa, 9 de Setembro de
1974)(Magalhães Ribeiro)(...)

O Eduardo [Magalhães Ribeiro] diz que ficou famoso pela sua foto a arriar a bandeira verde-rubra , em Mansoa, na presença da Maria Turra (sic), como era conhecida entre os tugas - com o sentido de humor, que é típico da caserna, mas com respeito e até carinho - a viúva do Amílcar Cabral, que assistiu com outros destacados dirigentes do PAIGC a este momento histórico" (...).

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