Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025).
Será capelão militar em Catió e Bambadinca (1967/69),
e autor do livro de cariz autobiográfico "Francisco Caboz: a construção
e a desconstrução de um padre" (2009)
1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que durante a guerra colonial será capelão militar.
No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 págunas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, aos 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.
Nos três postes anteriores já publicados(*), ele apresentou-nos, sucintamente;
(i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);
(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão.
(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo (um sistema de poder disciplinar onde se vê sem ser visto, onde a visibilidade e a vigilância constante, mesmo que potencial, levam à internalização e à normalização do comportamento, o que é favorecido pela própria arquitetura; o indivíduo, neste caso, o "angélico", o aluno do seminário menor, age corretamente por se sentir sempre observado, mesmo sem um vigilante visível, o Prefeito omnipresente, omnisciente e omnipotente como Deus, cujo papel é "vigiar e punir", promovendo assim o autocontrolo e a aparente conformidade com as regras instituídas; o panoptismo é comum a colégios internos, seminários, conventos, prisões, reformatórios, hospitais psiquiátricos, quartéis, etc.)
É uma história de vida, sofrida bem dura, em tempos muito difíceis (antes, durante e depois da II Guerra Mundial), que merece ser conhecida dos nossos leitores. O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4ª classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama "angélico").
A maior parte de nós, que nasceu já 10 ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica

Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [ Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)
O nosso camarada e amigo Horácio Fermandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.
O Horácio Fernandes seria ordenado padre em 1959, antes de completar os 24 anos. Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959.
Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969), tendo terminado a sua comissão no HM 241 com uma crise de paludismo. Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.
Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos.
Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006 doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.
Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavós, paternas, nascidas na década de 1860, eram irmãs, e pertenciam ao clã dos Maçaricos (Ribamar, Lourinhã).
A história de vida do Horácio é a de muitos de nós, que fizemos o percurso clássico de mobilidade social através da educação, num Portugal rural e pobre dos anos 40/50/60.
Os seminários regulares e diocesanos foram uma estratégia de sobrevivência e ascensão social para jovens de origens humildes, que não tinham acesso ao sistema de educação, elistista, e socioespacialmente segregado, do Estado Novo (liceus que só existiam nas capitais de distrito e univerdades, apenas 3, localizadas em Lisboa, Coimbra e Porto).
História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte IV: Vigiar e punir
por Horácio Fernandes
4.1.2. Antes de vir para o Seminário, era castigado, sobretudo pelo meu pai que exercia o poder de punir, poucas vezes, mas, quase sempre, deixando marcas bem visíveis.
Contudo, tinha a minha mãe que funcionava como almofada protectora das iras de meu pai. Com ela, podia negociar: fugia para o fundo do quintal, fazia mil juras de não tornar a partir a garrafa de petróleo, ou não deixar as minhas irmãs sozinhas e ela prometia não dizer nada a meu pai.
No Seminário, porém, não havia lugar a diálogos. O Prefeito tinha sempre razão. Eu nunca vi um Prefeito pedir desculpa ao angélico. Se o Prefeito ouvia barulho, perguntava quem estava a falar. Se ninguém se acusava, imediatamente corria todos à bofetada ou à reguada. Levavam culpados e inocentes.
Eu tinha de estar em vigilância permanente e arranjar todos os subterfúgios para não ser castigado. Havia, contudo, uma situação traiçoeira, em que fui apanhado várias vezes: nos longos estudos de duas horas, em absoluto silêncio, esgotava-se a paciência do Prefeito que vigiava o amplo salão e a dos alunos desejosos de irem para o recreio. Cansado de estar no seu altaneiro cadeirão, o Prefeito vinha refugiar-se num pequeno cubículo, onde havia uma telefonia e alguns livros, mas de onde podia visionar todo o salão de estudo, sem os alunos se aperceberem.
Era a hora da descontracção para nós que começávamos a cochichar uns com os outros, julgando que não estávamos a ser observados. Porém, havia uma cortina vermelha a cobrir a porta que dava para o salão e o Prefeito podia através dela observar tudo, sem ser visto pelos alunos. Quando menos se esperava, ouvia-se uma porta abrir e uma voz bradar:
- Quem está a falar, vá para a frente de joelhos!
Era o toque a rebate. Os mais desprevenidos encaminhavam-se para a cabeceira do salão, onde presidia o crucifixo e a pesada régua, escondida na mesa da secretária. Esperava-nos o Prefeito com o manto tirado e mangas arregaçadas. Um a um, subíamos os três degraus do estrado, onde nos esperava meia dúzia de reguadas que faziam estremecer o salão, até o Prefeito esgotar as forças, ou descarregar a bílis.
Mais tarde, comecei a aprender com os mais sabidos.
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Se se levantassem os mais velhos, ou algum mais amigo do Prefeito, também ia, pois sabia que ia ser perdoado. Se não, ficava sentadinho a fazer que estava em profunda reflexão, até a tempestade acabar.
Recordo-me de algumas vezes estar a perguntar alguma coisa ao colega e, antes de reparar, caía uma bofetada em cima, com toda a força, que nem tinha tempo de me voltar.
Na escola primária, ainda sabia porque apanhava. Era por não saber as lições. No Seminário, estava ao sabor da boa ou má disposição do Prefeito, que, ora era severo, ou perdoava, quando falávamos nos recreios, depois de apitar segunda vez para dentro, na formatura, nos corredores, na camarata, no estudo, no refeitório, na igreja ou na sala de aula à espera do professor.
Aconteceu até, algumas vezes, que as bofetadas eram tão violentas, que afectavam a audição, tendo um colega meu de se sujeitar a tratar por causa disso.
No 3º ano fui acusado de escrever palavras obscenas no papel higiénico das casas de banho do salão de estudo. O Prefeito, depois de um exame minucioso aos cadernos, obrigou-me e a mais três colegas a escrever, dezenas de vezes, palavras com as mesmas letras, na sua presença.
Por fim, mandou em paz os meus colegas, mas repetia a acusação contra mim. Baseava-se na semelhança da minha letra com a dos escritos e por diante dele fazer sempre letra diferente, sinal de que estava a mentir.
Como continuasse a negar, mandou-me um sábado e domingo para a enfermaria, separado dos outros, o que, para mim, era sinal de que ia ser expulso. Na segunda feira, o filho do trolha que continuava a trabalhar nas casas de banho com o pai, ao ser interrogado, confessou que foi ele. Pois nem uma desculpa. Fui chamado à prefeitura e deram-me a notícia de que afinal foi engano e podia juntar-me aos outros.
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4.1.2.- Os rituais da punição
Para os Prefeitos a mínima falta ao Regulamento do Colégio era considerada uma ofensa a si próprios. Não eram eles que aos sábados liam enfadonha e sistematicamente todos os deveres dos angélicos?
Havia, contudo, uma hierarquia de faltas que era punidas severamente. Alguns colegas de Francisco foram inapelavelmente mandados embora diante de todo o Colégio reunido ad hoc. Depois de exposto com as cores mais negras o terrível crime cometido, eram mandados com toda a solenidade para a enfermaria como se estivessem leprosos, até que o pai os viesse buscar.
Francisco lembra-se de alguns destes crimes: um teve o atrevimento de ler em férias o «Amor de Perdição». Outro comprou uma revista às escondidas, quando foi ao médico com o irmão enfermeiro. Outro comprou um jornal e outro atreveu-se a ler a revista brasileira «Cruzeiro» que um padre lhe passou e outro colocou no correio uma carta para que os pais o viessem buscar, sem que o Prefeito a lesse.
O Regulamento era peremptório: Toda a correspondência e quaisquer escritos tinham de ser lidos pelo Prefeito. Escrever para pessoas do sexo feminino, ainda que fossem de família era proibido, a não ser para madrinhas, ou freiras.
O castigo variava consoante o lugar onde foi cometido e as representações do castigador. Se no refeitório o angélico ia cumpri-lo na mesa da correcção os dias que o Prefeito determinasse. Aí, numa mesa toda ensebada, onde se colocavam os pratos sujos comia em silêncio, até cumprir o castigo.
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Nos recreios podia ser o ficar de joelhos. Na igreja ou camarata metia reguada de certeza. Nas chamadas amizades particulares a exemplaridade do castigo era mais cénica: os suspeitos por vezes eram obrigados a confeccionar e transportar cartazes alusivos às representações que o Prefeito fazia do crime, percorrendo os campos de recreio com todos os alunos a assistir. Um desses cartazes tinha dois corações pintados e atravessados com uma seta e com os dizeres: nós amamo-nos!
Todo o castigo justo ou não tinha de ter o beija-mão no fim. Se o castigado não o fizesse espontaneamente, punha-se a mão ostensivamente à frente para que ele cumprisse o ritual. Quem se recusasse, não cumpria o regulamento e dava sinais de orgulho. Portanto não servia.
Quantas vezes, com as mãos a ferver de reguadas, Francisco era obrigado a beijar submisso as mãos estendidas de quem o o tinha castigado. Era, explicava o Regulamento (cap. II ), o agradecimento por ter sido castigado. Quem castigava tinha sempre razão. Reclamar não se permitia nem tinha razão de ser: a primeira e última instância era sempre a autoridade do Prefeito, representante de Deus.
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(Continua)
Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 115-116 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).
(Seleção, revisão / fixação de texto, parêrnteses retos, bold, itálicos, título: LG)
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Nota do editor LG:
(*) Vd. postes anteriores:
4 comentários:
Aquilo não era um seminário, preparando homens bons para, no seio dos outros homens, serem representantes de Deus na terra? Era o inferno, em carne viva. Seria mesmo?
O "colégio angélico" (colégico serãfico) era um seminário menor da Ordem Franciscana... Leia-se: Montariol, Braga. Um microcosmo da sociedade portuguesa da época, no auge do salazarismo... que se desenvolveu sob a tríade “Deus, Pátria e Família” , em que todos, a nossa geração de antigos combatentes, fomos educados.
A expressão “Deus, Pátria e Família” foi, de facto, um dos lemas mais emblemáticos do Estado Novo (1933–1974), o regime autoritário liderado por António de Oliveira Salazar. Era era mais do que um simples slogan, hoje velho e relho (mas de vez em quando "ressuscitado"), era o tríptico ideológico que condensava os valores fundamentais que o regime impunha à sociedade portuguesa.
Recorde-se que o salazarismo, sob o Estado Novo, apresentava-se há quase 100 anos atrás, como uma alternativa “ordeira” ao demoliberalismo (EUA) e ao comunismo (Rússia Soviética).
Deus=Igreja Católica, Apostólica, Romana;
Pátria=Nacionalismo imperial, serôdio e retrógrado, assente numa visão nostálgica da nossa "idade de ouro", a dos heróis dos Descobrimentos;
Família=Modelo falocrático, paternal, autoritário.
A santa trindade “Deus, Pátria e Família” não era mais do que um modelo ideológico que funcionava como instrumento de legitimação de um poder autoritário, unipessoal, difundido através de instâncias de propaganda e socialização (da escola às organizações oficiais, como a Mocidade Portuguesa, a Emissora Nacional, etc.), e depois reforçada por instrumentos de coerção estatal (censura, polícia política, exército, proibição dos partidos, ausência ou limitação dos direitos e liberdades, organização corporativa da economia, etc.).
Prefeito mas não Perfeito... são parónimos (semelhantes na escrita e pronúncia, mas diferentes no significado)... De vez em quando, trocamos as palavras... Perfeito= sem falha, defeitou ou erro; Prefeito= no caso do "colégio angélico", um pequeno ser despótico, vil, imbecil, formatado, com poderes delegados, de que usa e abusa... Também os conhecemos na tropa (e na guerra).
panóptico
pan-óptico
|ópt|
(an·-óp·ti·co)
adjetivo
1. Que permite ver todos os elementos ou todas as partes (ex.: pretendia construir uma prisão pan-óptica).
substantivo masculino
2. Modelo de prisão ou de torre de observação, idealizado para que os vigilantes possam facilmente observar todas as partes do edifício ou recinto, sem serem observados.
etimologia Origem: pan- + óptico.
Nota: Variante no português do Brasil: pan-ótico.
"panóptico", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/pan%C3%B3ptico.
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