segunda-feira, 18 de abril de 2016

Guiné 63/74 - P15985: Tabanca Grande (484): José António Almeida Rodrigues (1950-2016), grã-tabanqueiro nº 713, a título póstumo

1. O José António de Almeida Rodrigues (1950-2016) foi nosso camarada, pertenceu à CCAÇ 3489 (Cancolim, 1972/74), undidade de quadrícula do BCAÇ 3872 (Galomaro, 1972/74), o mesmo batalhão a que pertenceu o malogrado  António da Silva Batista (1950-2016), e outros camaradas nossos que integram a Tabanca Grande (como o Juvenal Amado, o Luís Dias, o Carlos Filipe, o Rui Batista, cito de cor)...

[, foto à esquerda: José António Almeida Rodrigues no almoço semanal da Tabanca de Matosinhos, em 12/10/2011, cortesia do blogue Coisas da Guiné, do nosso grã-tabanqueiro A. Marques Lopes]


Por estranha coincidência, o Rodrigues e o Batista morreram no mesmo dia (!), ambos com 66 anos feitos, e foram companheiros de cativeiro (nas prisões do PAIGC em Conacri, Boé e Boké). A história do Batista é conhecida, até porque o seu caso teve alguma mediatismo, foi falado nos jronais e na televisão. E sobretudo no nosso blogue, onde tem cerca de meia centena de postes. A história (não menos triste) do Rodrigues, essa, era-nos  desconhecida, até ao dia em que o A. Marques Lopes e o José Manuel Lopes, da  Régua, nos deram a conhecer o seu caso : é o único prisioneiro, português, do PAIGC que conseguiu, sem qualquer ajuda, evadir-se (do campo onde estava internado, na região do Boé) e chegar até ao nosso aquartelamento do Saltinho (, sede da CCAÇ 3490, a subunidade a que pertencia o Batista).

A história do Batista e do Rodrigues são distintas mas têm pontos em comum. Ambos foram feitos prisioneiros no mesmo ano (1972), com uma diferença de escassos meses (um em abril, outro em junho) e na mesma região (no sul da zona leste, setor de Galomaro)...  Estiveram ambos na prisão Montanha, em Conacri, sendo depois transferidos, a seguir ao assassinato de Amílcar Cabral,  para um campo de detenção na região do Boé.  

Foi aqui, em 7 de março de 1974,. que o Rodrigues ensaiou, com sucess, a sua fuga de 9 dias e 9 noites, uma odisseia em que o Batista, embora aliciado, não o quis acompanhar... O Batista será entregue às autoridades portuguesas só a 14 de setembro de 1974, no processo de troca de prisioneiros.. O Rodrigues chegou mais cedo a casa, mas o resto da sua vida será um inferno (**).

Ambos não viviam muito longe um do outro, o Batista na Maia, e o Rodrigues na Régua. O Batista era membro da nossa Tabanca Grande e participou, pelo menos, num dos nossos encontros anuais, na Ortigosa, Monte Real, em 2010. Também pertencia à Tabanca de Matosinhos onde foi sempre muito acarinhado.


Guiné-Bissau > Região de Bissau > Saltinho > Rio do Corubal, margem direita > 1 de março de 2008 > Foto tirada a grande distância, da ponte do Saltinho... Neste rio (o único verdadeiro rio da Guiné, na opinião de Amílcar Cabral), morreram afogados 46 militares portugueses das CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405, além de um civil guineense, no dia 6 de Fevereiro de 1969, na travessia de jangada, junto ao Cheche, na sequência da evacuação de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios). Poucos corpos foram então recuperados. Em março de 1974, terá chegado até aqui, exausto, um fugido do Boé, o nosso camarada José António Almeida Rodrigues (1950-2016)... Uma odisseia de 9 noites e 9 dias que, noutro país qualquer que não Portugal, daria um grande filme... Infelizmente este país trata mal (sempre tratou mal) os seus filhos e as suas memórias... LG

Foto (e legenda):  © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados.


2. Está na altura de reparar uma injustiça: a de resgatar o bom nome e a memória do Rodrigues que as NT (e até alguns camaradas do seu batalhão) chegaram a dar como "desertor".

O Rodrigues passa, a título póstumo,  a integrar a nossa Tabanca Grande, de acordo com a proposta do seu conterrâneo, camarada e amigo, José Manuel Lopes. É um ato de elementar justiça e a nossa maneira de homenagear um dos nossos, que muito sofreu em vida, na guerra e depois no regresso a casa. 

Pelas pesquisas que fizemos, a verdade é que não há resgisto do seu nome, pelo menos no Arquivo Amílcar Cabral (*), como prisioneiro e muito menos como desertor.  O que sabemos, por conversas com o Batista e com o Zé Manel Lopes, é o que o Rodrigues, rebelde, insubmisso, indisciplinado, causava problemas também  aos seus carcereiros, e não apenas aos seus superiores hierárquicos (quando estava em Cancolim). Na melhor oportunidade, quando a vigilância dos guardas do PAIGC abrandou, ele conseguiu fugir, de canoa, de noite, escondendo-se de dia, ao longo das margens do Rio Corubal, entre a região do Boé e o Saltinho...

O Zé Manel Lopes, que mais do que camarada para com ele, foi amigo e irmão, ajudou-o  a sair da miséria e do abandono em que vivia na Régua (até pelo menos ao ano de 2011) (***), já aqui nos contou a história do Rodrigues, uma história de infortúnio e de coragem.

Consultados os nossos editores e colaboradores permanentes, não há objeções a que o nome do Rodrigues passe agora a figurar, sob o nº 713 (****), na lista alfabética dos membros da Tabanca Grande. Tendo morrido há pouco tempo, vai diretamente para a lista dos que "da lei da morte já se libertaram". Compete-nos a nós, que ainda andamos por cá, lembrá-lo e honrar a sua memória.

Que a terra da tua terra, Zé Rodrigues, ao menos, te seja leve!...
____________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 26 de março de 2016 > Guiné 63/74 - P15905: A guerra vista do outro lado... Explorando o Arquivo Amílcar Cabral / Casa Comum (18): "Prisioneiros de guerra": Duarte Dias Fortunato, António Teixeira, em 1971 (e depois mais seis, por ordem alfabética: António da Silva Batista, Jacinto Gomes, José António Almeida Rodrigues, Manuel Fernando Magalhães Vieira Coelho, Manuel Vidal e Virgílio Silva Vilar)

(**) Vd, postes de;:

26 de março de 2016 > Guiné 63/74 - P15903: (De)caras (39): Nove noites e nove dias em fuga, do Boé ao Saltinho, a "odisseia" do José António Almeida Rodrigues, sold at inf, CCAÇ 3489 / BCAÇ 3872, Cancolim, 1972/74 (Depoimentos de José Manuel Lopes e Luís Dias)

25 de março de 2016 > Guiné 63/74 - P15901: (De)caras (37): Homenagem ao José António Almeida Rodrigues (1950-2016), ex-sold at inf, CCAÇ 3489 / BCAÇ 3872 (Cancolim, 1972/74)... Nove noites e nove dias, em fuga, escondendo-se de dia no mato, por vezes vendo e sentindo as tropas IN que o procuravam e, de noite, descendo o rio Corubal até encontrar o nosso quartel do Saltinho... Desertor ? Louco ? Herói ? Proponho a sua integração, a título póstumo, na nossa Tabanca Grande (José Manuel Lopes, Régua)

24 de março de  2016 > Guiné 63/74 - P15896: In Memoriam (248): Morreu também, ontem, o José António Almeida Rodrigues (1950-2016), natural da Régua... Era sold at inf, CCAÇ 3489 / BCAÇ 3872 (Cancolim, 192/74)... Foi companheiro de infortúnio, no cativeiro, em Conacri e no Boé, do nosso António da Silva Batista (1950-2016)... Fugiu dos seus captores, em março de 1974, andou 9 dias ao longo das margens do Rio Corubal até chegar ao Saltinho... Teve uma vida de miséria, mas também conheceu a compaixão humana, a solidariedade e a camaradagem... É aqui evocado pelo José Manuel Lopes.

6 comentários:

Bispo1419 disse...

Aplausos da minha parte para esta decisão.

Manuel Joaquim

Tabanca Grande disse...

Manuel Joaquim, obrigado. Este pobre camarada morreu e terá levado para a cova a suspeição (infamante) de ter sido um "desertor", e de inclusive ter fornecido aos "turras" informações de segurança que estariam na origem de um ataque a um destacamento do subsetor de Cancolim...

Ele nunca teve na tropa e ao longo da vida, provavelmente, oportunidade de se defender e de "limpar a sua imagem" perante a sua companhia e o seu batalhão... Se ele fosse desertor e se tivesse fornecido informações valiosas ao PAIGC, por certo que teria tido outro "tratamento"...e não teria que fugir dos seus captores.

Um abraço, gostei de te ver em Monte Real... LG

Tabanca Grande disse...

Mandei o seguinte mail ao Nuno Rubim:

Luís Graça
20:02


Nuno: Este homem, capturado pelo PAIGC em junho de 1972 no subsetor de Cancolim (setor de Galomaro),chegou a ser dado como "desertor". Esteve na "Montanha" até à morte do Amílcar Cabral, depois foi transferido com mais 7 companheiros de cativeiro para a região do Boé e do rio Corubal. Evadiu-se em março de 1974, e andou 9 noites (de canoa) e 9 dias (escondido), até chegar ao Saltinho... Alimentou-se de crustáceos e de fruta. Faleceu há pouco tempo. Teve uma vida de miséria... Foi interrogado em Bissau, por suspeita de colaboração com o IN.

Ouviste falar ? Tens alguma ideia do que se passou ? Algum relato do interrogatório ? Em que sítio examente é que ele (e os outros) estaria no Boé ? Quantos quilómetros terá feito, por dia, até chegar ao Saltinho ?... No Boé, os prisioneiros portugueses tinham alguma liberdade de ação, não era uma prisão típica...

Depois deste "incidente", foram levados para a região de Boké... No final foram entregues às NT, em 14/9/1974, sete homens (dos oito), incluindo o nosso "morto-vivo", o Batista... Morreram ambos no mesmo dia!.. Incrível...

Vê se tens mais alguma pista... Tentámos limpar a honra deste homem...Ab. Luis

Anónimo disse...

Nuno Rubim
20:57

Amigo

Os dados são poucos.

Vou ter de consultar os Perins de Jun 72 e Set 74. Correcto ?

O que era a “Montanha” ?

Não faço ideia do local no Boé.

Os interrogatórios, nestes casos, eram normalmente feitos com a “supervisão”da
Pide. É possível que exista alguma referência no processo da Pide existente na
Torre do Tombo.

Abraço
Nuno Rubim

Tabanca Grande disse...


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www.avast.com


Luís Graça


Obrigado, Nuno, a "Montagne" era a prisão do PAIGC em Conacri. Foi assaltada na Op Mar Verde e libertados os prisioneiros portugueses que lá estavam na altura (22/11/1970), como tu sabes. Voltou a ser utilizada depois, com tugas (8, incluindo o Batista e o Rodrigues) e "malandragem" do PAIGC... Vêr aqui:

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2016/03/guine-6374-p15906-guerra-vista-do-outro.html

Os "teus" Perintreps são preciosos... Um camarada, Manuel Joaquim, escreveu hoje o seguinte:


(...) "Um GCOMB da CCAÇ 1419 rendeu, em PONTE DE MAQUÉ, ... ...".

Fiquei agora a saber a data da minha ida para a PONTE DE MAQUÉ, 06julho1966. Lá esteve o meu GCOMB enfiado num bunker durante um mês. Mês este que ficou célebre pelo desenrolar do Campeonato do Mundo de Futebol em Inglaterra, o tal do Portugal-Coreia que transformou o Eusébio em herói nacional.

Manuel Joaquim" (...)


De vez em quando, vai alimentando a tua "nova série"...

Saudinha, abraço. Luis

Juvenal Amado disse...

Sempre tive a opinião de que ele foi apanhado à mão, aliás quem me contou como aconteceu, já me dava a versão.
O facto de se ter apanhado invólucros da G3 no ataque é perfeitamente justificável. Algum guerrilheiro resolveu gastar uns carregadores contra o quartel, como nós não desperdiçaríamos a oportunidade de fazer fogo com uma AK47, caso a tivéssemos à mão.
No fundo penso que o nosso camarada acabou por ser vitima de um "ricochete", derivado à deserção do Capitão e de um alferes e à situação mais menos complicada da companhia de Cancolim.
Lamentavelmente o jornal da caserna sempre foi pródigo em diz que disse.
Lembro-me dele e da sua fama de não jogar com os parafusos todos mas daí a ser desertor vai uma grande distância.

Dito isto, digo que é da mais absoluta justiça, que o seu nome seja limpo e que ele tenha um lugar entre nós.