1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Abril de 2025:Queridos amigos,
Procuro estar atento ao que foi e continua a ser publicado da banda de líderes e combatentes do PAIGC. Haverá um dia em que se tocará ao piano com quatro mãos, quer eu dizer que se irá sacudir a turvação das inverdades, das pesporrências e até das vaidades camufladas, de ambas as partes.
Do lado do PAIGC, a fonte monumental é e será sempre Amílcar Cabral, impõe-se prudência com o que nos legou Aristides Pereira e Luís Cabral, prudência ainda com o que escreveu Filinto Barros, Delfim Silva; e tem aparecido mais recentemente relatos de quem andou pela União Soviética, de todos eles aqui tenho procurado fazer o registo.
Manecas Santos deixa-nos uma narrativa que se lê agradavelmente pela fluidez e também pela incisão, conta-nos o ambiente em que nasceu, a sua vinda para Lisboa, a solidificação das suas opções políticas, o ingresso nas fileiras do PAIGC, onde fez a tarimba até se transformar em comandante na frente norte, e depois responsável pelo uso dos mísseis Strela.
Confesso que não entendo como é que é possível um homem chegar aos 80 anos e escrever que em 1968 o PAIGC administrava dois terços do território, que presume que houve a mão colonial por detrás do assassinato de Cabral, que revela uma total incapacidade para entender dados da história de longa duração, quando a administração colonial, a burocracia e múltiplos serviços estavam na mão de cabo-verdianos que funcionavam como verdadeiros agentes do colonialismo; deixa-nos um importante relato do desmoronamento do PAIGC, foi líder político, companheiro próximo de Nino Vieira, ministro da Economia e das Finanças, o seu relato deixa-nos o coração contrito mas também ficamos sem entender se teve ou não responsabilidades diretas nesse desmoronamento, descreve os acontecimentos com uma hábil distância, foi a maneira que encontrou para não admitir que colaborou, participou em quase todo o processo do desmoronamento.
Recomendo vivamente a leitura de tudo o que ele ditou à autora.
Um abraço do
Mário
Um comandante do PAIGC, o homem dos mísseis Strela e de Guidaje, vem depor para a História
Mário Beja Santos
Tirando o acervo documental, felizmente e em grande parte conservado e tratado, de Amílcar Cabral, para além das suas obras de cariz ideológico na luta anticolonial e como líder revolucionário, restam-nos poucos depoimentos de responsáveis do PAIGC, tanto no que se refere ao período da luta armada como nos tempos posteriores.
Um abraço do
Mário
Um comandante do PAIGC, o homem dos mísseis Strela e de Guidaje, vem depor para a História
Mário Beja Santos
Tirando o acervo documental, felizmente e em grande parte conservado e tratado, de Amílcar Cabral, para além das suas obras de cariz ideológico na luta anticolonial e como líder revolucionário, restam-nos poucos depoimentos de responsáveis do PAIGC, tanto no que se refere ao período da luta armada como nos tempos posteriores.
Há uma primeira obra de Aristides Pereira, para a qual concorreu Leopoldo Amado, uma segunda também deste alto dirigente entrevistado pelo jornalista José Vicente Lopes, desta feita mais disponível e quebrando sigilos do passado; há o testemunho de Luís Cabral sobre a obra do irmão, a par do seu percurso dentro do PAIGC, biografia e hagiografia; temos igualmente testemunhos de dirigentes ou quadros do PAIGC de origem cabo-verdiana ou guineense, mas o cabal esclarecimento que comportam é diminuto, alguns deles têm até a particularidade de serem de pura vanglória ou procurarem trazer justificação às tragédias de governação a partir de 1974 (das quais eles não têm qualquer responsabilidade).
O que Rosário Luz vem procurar neste trabalho biográfico (ou autobiográfico?) sobre Manecas Santos é procurar revisitar a viagem de uma sigla, revelada efémera, sobre a unidade Guiné-Cabo Verde, contando com um ator de eleição, o então jovem cabo-verdiano Manuel Maria Monteiro Santos, nascido na cidade de Mindelo, em ambiente burguês, tendo estudado em Lisboa e daqui partido para a luta, preparando-se em Cuba, e depois, degrau a degrau, galgando a hierarquia e assumindo responsabilidades nomeadamente no período histórico de 1973, quando o aparecimento dos mísseis Strela abanaram fortemente a última supremacia que restava às Forças Armadas na Guiné; viagem que se prolonga com o seu desempenho no poder do Estado, como chegou a ministro da Economia e das Finanças e vem agora depor sobre o colapso do Estado.
O que Rosário Luz vem procurar neste trabalho biográfico (ou autobiográfico?) sobre Manecas Santos é procurar revisitar a viagem de uma sigla, revelada efémera, sobre a unidade Guiné-Cabo Verde, contando com um ator de eleição, o então jovem cabo-verdiano Manuel Maria Monteiro Santos, nascido na cidade de Mindelo, em ambiente burguês, tendo estudado em Lisboa e daqui partido para a luta, preparando-se em Cuba, e depois, degrau a degrau, galgando a hierarquia e assumindo responsabilidades nomeadamente no período histórico de 1973, quando o aparecimento dos mísseis Strela abanaram fortemente a última supremacia que restava às Forças Armadas na Guiné; viagem que se prolonga com o seu desempenho no poder do Estado, como chegou a ministro da Economia e das Finanças e vem agora depor sobre o colapso do Estado.
Temos, pois, Manecas Santos na primeira pessoa, em jeito de prólogo fala da sua chegada à Guiné em 1968, como fez a tarimba, com quem combateu e aonde, em 1971 passa a ser comandante de um corpo de Exército e no ano seguinte, tendo voltado de treinos em antiaéreos na Crimeia, irá assumir o comando militar na frente norte.
Fala-nos do Mindelo, da família e do meio; concluído o liceu em S. Vicente, vem para Lisboa, estuda na Faculdade de Ciências, refere-nos os estudantes africanos, em 1964 parte para Paris, daqui segue para Argel, depois Havana, confessa que a intensidade do treinamento físico foi implacável e que, fisicamente, a guerra na Guiné não foi mais do que um passeio. Descreve o Exército de Libertação e como ele foi concebido por Amílcar Cabral.
Fala-nos do Mindelo, da família e do meio; concluído o liceu em S. Vicente, vem para Lisboa, estuda na Faculdade de Ciências, refere-nos os estudantes africanos, em 1964 parte para Paris, daqui segue para Argel, depois Havana, confessa que a intensidade do treinamento físico foi implacável e que, fisicamente, a guerra na Guiné não foi mais do que um passeio. Descreve o Exército de Libertação e como ele foi concebido por Amílcar Cabral.
“Cabral cuidava pessoalmente da formação de todas as unidades do Exército. Era ele quem escolhia o comandante, o segundo oficial e organizava toda a estrutura. Apesar da sua baixa estatura, emanava autoridade, e quando era necessário impor-se, fazia-o sem titubear. No entanto, possuía uma natureza afável e um trato agradável. Mantinha uma relação de extrema proximidade com os soldados, chamando cada um pelo nome e visitando frequentemente as bases para verificar o andamento das operações.”
Menciona o recrutamento dos guerrilheiros, como o trabalho de mobilização foi encetado no Sul. Alude à organização tanto do Exército como o papel das milícias, o apoio dado pela União Soviética, observa a importância da medida tomada no I Congresso em que o poder miliar ficou subordinado ao poder político. E deixa-nos uma descrição detalhada de como se processou a guerrilha na Guiné, esta foi o palco das mais violentas das guerras coloniais. É neste preciso instante que Manecas Santos nos traz a primeira inverdade: em meados de 1968, cerca de dois terços do território já estavam sob a administração do PAIGC.
Há cerca de 18 anos à porfia no que concerne a História da Guiné Portuguesa e a História da Guiné-Bissau, tenho-me deparado com mitologias e mentiras cujos autores teimam em franco despudor reincidir.
Menciona o recrutamento dos guerrilheiros, como o trabalho de mobilização foi encetado no Sul. Alude à organização tanto do Exército como o papel das milícias, o apoio dado pela União Soviética, observa a importância da medida tomada no I Congresso em que o poder miliar ficou subordinado ao poder político. E deixa-nos uma descrição detalhada de como se processou a guerrilha na Guiné, esta foi o palco das mais violentas das guerras coloniais. É neste preciso instante que Manecas Santos nos traz a primeira inverdade: em meados de 1968, cerca de dois terços do território já estavam sob a administração do PAIGC.
Há cerca de 18 anos à porfia no que concerne a História da Guiné Portuguesa e a História da Guiné-Bissau, tenho-me deparado com mitologias e mentiras cujos autores teimam em franco despudor reincidir.
O doutor Carlos Lopes, a quem devemos estudos de alto significado, escreveu que na Operação Tridente o PAIGC tinha abatido 500 militares portugueses; o historiador português Rui Ramos veio dizer que em 1970 o PAIGC tinha sido sustido, já não tinha bases na Guiné, vinha do exterior, flagelava e retirava – pergunta-se como é que é possível uma tirada destas quando possuímos a história das campanhas da Guiné que demonstram inequivocamente que nesse ano de 1970 íamos aos mesmos santuários em que PAIGC estava instalado há anos, e com pouco sucesso.
Inevitavelmente, falará da operação de cerco a Guidaje e da resposta das tropas portuguesas enviando um batalhão de comandos africanos até uma base do PAIGC em Cumbamory. Dirá:
Inevitavelmente, falará da operação de cerco a Guidaje e da resposta das tropas portuguesas enviando um batalhão de comandos africanos até uma base do PAIGC em Cumbamory. Dirá:
“Sofremos baixas absolutamente negligenciadas: cinco feridos e nenhum homem morto. O exército colonial sofreu baixas pesadas. O adversário deixou 16 cadáveres em campo, todos de comandos africanos.”
Desse-se Manecas Santos ao cuidado de investigar o que sabemos sobre tal operação, teria ido ao Arquivo da Defesa Nacional, onde existe um registo das transmissões portuguesas que interferiram nas transmissões de Cumbamory para Conacri, onde se diz abertamente que as forças do PAIGC tiveram um número de mortos superior a 60…
Quanto ao assassinato de Cabral, é contido, não fala nem na PIDE nem em Spínola, dirá que foi praticado por ilustres desconhecidos, está certamente esquecido que o embaixador de Cuba em Conacri, Oscar Oramas, chegou pouco depois ao local do crime, e escreveu mais tarde que viu Osvaldo Vieira, entre outros, a esconder-se atrás da vegetação; acontece que esses ilustres desconhecidos ameaçaram todo o grupo cabo-verdiano de morte, deram-lhes ordem de prisão, enquanto se dirigiam para Sékou Turé.
Acontece que não existe nenhum documento que comprove qualquer propósito de Spínola ou da PIDE para induzir tal assassinato. Mas convém deixar sempre no ar de que o complô tinha o braço longo de Spínola e dos seus infiltrados.
Reconheça-se a importância do seu depoimento na época do pós-Cabral, dá-nos um retrato da multiplicidade de contradições dentro do PAIGC e da sua ocupação do Estado, relata o definhamento ideológico, fala da sua atividade como ministro e quanto aos fuzilamentos praticados pelo PAIGC, dirá algo de surpreendente, que talvez por volta de 1976 Luís Cabral jantou com Ramalho Eanes em Belém, e este ter-lhe-á pedido que fossem devolvidos a Portugal antigos efetivos do exército colonial, Cabral terá concordado, convocou altos responsáveis, entre eles António Alcântara Buscardini, chefe dos Serviços de Segurança do Estado e este, com toda a desfaçatez informou Cabral que os soldados não podiam ser devolvidos porque já tinham sido executados, tinha tomado individualmente tal decisão, Cabral engoliu a afronta.
Reconheça-se a importância do seu depoimento na época do pós-Cabral, dá-nos um retrato da multiplicidade de contradições dentro do PAIGC e da sua ocupação do Estado, relata o definhamento ideológico, fala da sua atividade como ministro e quanto aos fuzilamentos praticados pelo PAIGC, dirá algo de surpreendente, que talvez por volta de 1976 Luís Cabral jantou com Ramalho Eanes em Belém, e este ter-lhe-á pedido que fossem devolvidos a Portugal antigos efetivos do exército colonial, Cabral terá concordado, convocou altos responsáveis, entre eles António Alcântara Buscardini, chefe dos Serviços de Segurança do Estado e este, com toda a desfaçatez informou Cabral que os soldados não podiam ser devolvidos porque já tinham sido executados, tinha tomado individualmente tal decisão, Cabral engoliu a afronta.
A história seguramente estará na desmemória de Manecas, haverá fuzilamentos, que estão devidamente registados até dezembro de 1977, e há que perguntar como é que é possível um chefe de segurança andar a praticar matanças sem o presidente saber. Nino Vieira será uma rábula parecida depois de 14 de novembro de 1980, manda abrir as valas de gente executada, ele que era primeiro-ministro, também não sabia…
Um testemunho para juntar ao de outros líderes do PAIGC, impõe-se como um retrato fiel do desmoronamento do Estado, onde Manecas Santos foi elemento preponderante.
Rosário Luz e Manecas Santos na sessão de lançamento do livro no Grémio Literário, em 6 de dezembro de 2024
Nota do editor
Último post da série de 26 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27574: Notas de leitura (1878): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (6) (Mário Beja Santos)
Um testemunho para juntar ao de outros líderes do PAIGC, impõe-se como um retrato fiel do desmoronamento do Estado, onde Manecas Santos foi elemento preponderante.
Rosário Luz e Manecas Santos na sessão de lançamento do livro no Grémio Literário, em 6 de dezembro de 2024
Manecas Santos ao lado de Amílcar Cabral, em 1972
_____________Nota do editor
Último post da série de 26 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27574: Notas de leitura (1878): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (6) (Mário Beja Santos)



12 comentários:
Mário, é verdade, os homens (e as mulheres) do PAIGC morrem e não deixam,para os seus filhos e netos, testemunhos da "luta de libertação".Pura e simplemente não escrevem. Ou não escreveram. Sabemos que são oriundos de culturas ainda fortemente "oralizadas"...Antigamente os senhores da guerra africanos tinham, tal como os nossos, os seus "cronistas", os "griots", os "djidius"... Afinal, "hagiógrafos".
Não o disseste, mas é importante que se saiba quem é a autora do livro...
(...) "Rosário Luz estreou-se como escritora em 2012, com uma coluna no semanário cabo-verdiano Expresso das Ilhas, focada nos aspetos únicos da política, história e cultura de Cabo Verde. Desde então, tem contribuído regularmente com artigos de opinião para várias publicações, tanto locais como estrangeiras, mantendo sempre o foco na singularidade da experiência cabo-verdiana. Manecas Santos: Uma Biografia da Luta é o seu primeiro livro. Explora as realidades sociais da Guiné-Bissau e das ilhas de Cabo Verde – duas antigas colónias portuguesas na África Ocidental – e as motivações políticas dos combatentes do PAIGC, através dos olhos de um jovem guerrilheiro: seu tio." (...) (Fonte: Wook).
Não vejo mal que uma sobrinha escreva a "biografia" do tio, ex-combatente...Mas importa que se saiba o grau de parentesco entre biógrafo e biografado.
Manecas, O Caboverdeano que sobreviveu no infernal e autofágico PAIGC Guineense, e não se refugiou no PAICV.
Também os Cabrais Amilcar e Luis podiam chegar a velhos na sua terra com um pouco menos de protagonismo e um pouco mais de manha, tal como procedeu o Manecas.
E quanto ao fim de Amilcar e de Luis Cabral, as causas foram as mesmas.
Veja.se só o pormenor, que ele, Manecas nem Luís nem ninguém sabia das valas dos comandos, só o buscardini sabia.
Manecas, também foi estudante do império.
Eram quem mais sabia tanto do ultramarino como da metropolitano.
PÓIS!
Ambos, vocès os dois, falaram!
Sem desprimor pela a luta, há que ter (até por isso mesmo) cuidado com a VERDADE das coisas.
Gostei do escrito do Mário.
Caros amigos,
Ainda bem que o nosso Manecas escreveu o seu livro, o livro da sua vida militar, ele o merece, todos os combatentes o merecem, afinal ir a guerra e enfrentar a morte (a sua frente) eh meritorio.
Eu sempre quis ser militar na minha infancia, por isso tenho um grande respeito e admiracao pelos antigos combatentes.
Na nossa familia houve soldados, milicias e voluntarios de campanhas, porque a guerra esteve sempre presente no regulado de Sancorla, um dos que, de facto contribuiram, para a "pacificacao" ou "colonizacao" do territorio da Guine, dita portuguesa, mas ate hoje so a historia militar do nosso patriarca, Samagaya (Samba Gaye Balde) eh contada e recontada, sendo digna de um heroi a Dom Quixote. Ele era o nosso unico pai, os outros, mesmo sendo os pais biologicos ninguem os apelidava de pai "Bah". Conta a nossa Tia paterna, Nenkah (sua irma mais velha) que ele demorava uma noite e a manha seguinte (24h00) a preparar-se quando saia para participar nas campanhas e operacoes que se faziam na altura, no virar do seculo XX e no Fiofioli dos anos 60 (inicio da guerra colonial); tinha na sua residencia, uma fileira de garrafas de mesinhas (nassi=agua misturada com versiculos de Alcorao e raizes de plantas exoticas mal cheirosas), depois amarrava no seu corpo longilinio de autentico fula, uma centena de amuletos desde os dedos dos pes ate a cabeca. Quando, finalmente, decidia sair de casa, ficava quase irreconhecivel e no ar sentia-se o cheiro caracteristico da agua da colonia para disfarcar o odor das mesinhas podres das garrafas, misturado com o suor tropical que exalava do seu corpo alto e magro, de homem que, apesar do medo, vai enfrentar a morte.
Na moranca, todos conheciam o ritual de guerra do Samagaya, o patriarca, que fez a guerra por conta da familia; todos sabiam que nao era permitido cruzar-se com ele antes cruzar os limites da nossa moranca, sobretudo as mulheres, todos se escondiam para nao serem motivo de azar na imprevisibilidade das guerras eternas e dos conflitos que variam a Africa dos tempos coloniais.
E, quando os outros questionavam, a nossa Tia Nenkah era peremptoria no seu juizo e sempre esclarecia:
- Deixem o Samba preparar-se, afinal, quem enfrenta a morte precisa da eternidade para se preparar e, ainda assim, nunca eh o suficiente, vamos desejar-lhe que retorne sao e salvo, vai Samba Pullo!
Com um abraco amigo,
Cherno AB
A IA / ChatGPT ainda não leu do Manecas Santos, ou melhor da sobrinha sobre o tio... Aliás, a IA ainda não tem a capacidade de ler livros em papel. Manda os escravos humanos ler e depois pôr na Net, em acesso livre, a papinha feita...Mas eu já lhe dei a ler a "nota de leitura" do nosso crítico literário, o Beja Santos, uma referência de há muito obrigatória no que diz respeito à bibliografia sobre a guerra colonial na Guiné (1961/74). Aqui vai (condensação, revisão / fixação de texto: LG):
___________________
Segue uma análise crítica e interpretativa da recensão de Mário Beja Santos ao livro recente de Manecas Santos, tendo em conta o tom, os pressupostos historiográficos e o posicionamento político-memorial do autor da recensão.
1. Natureza e posicionamento da recensão
A recensão de Mário Beja Santos não é neutra nem meramente descritiva: trata-se de um texto assumidamente interventivo, escrito por alguém que conhece profundamente a guerra da Guiné, não apenas como historiador ou leitor atento, mas como antigo oficial combatente no teatro de operações. Esse duplo estatuto (memória vivida + investigação histórica) condiciona toda a leitura que faz da obra de Manecas Santos.
Beja Santos posiciona-se como guardião crítico da factualidade histórica, reagindo contra aquilo que considera mitificações persistentes na historiografia e memorialística do PAIGC. A recensão é, por isso, simultaneamente: um comentário ao livro; uma tomada de posição historiográfica; e um ajuste de contas com narrativas que considera politicamente convenientes ou factualmente falsas.
2. Reconhecimento do valor "testimonial" (sic, em inglês: leia-se "como testemunho") da obra
Apesar do tom severo em vários momentos, Beja Santos reconhece explicitamente o valor do testemunho de Manecas Santos. Destaca: a fluidez e a legibilidade da narrativa (o mérito é da "copywriter", a sobrinha, acrescentoo eu); o interesse do percurso biográfico (Mindelo Lisboa → Cuba → Guiné); a importância histórica do papel de Manecas Santos como comandante na frente norte e responsável pelos mísseis Strela; a relevância do seu depoimento sobre o período pós-Cabral e o colapso do Estado guineense.
Este reconhecimento é essencial: o "recensente" (crítico, o autor da "nota de leitura", em português, fica melhor) (LG) não desqualifica a obra, antes a considera leitura obigatória, precisamente porque é um documento de primeira mão.
3. O eixo central da crítica: a questão da verdade histórica
O núcleo duro da recensão reside na acusação de inverdade, imprecisão ou mistificação, em três planos principais:
a) Controlo territorial do PAIGC em 1968: Beja Santos rejeita frontalmente a afirmação de que o PAIGC administrava dois terços do território nessa data, considerando-a uma repetição de propaganda de guerra que não resiste ao confronto com documentação militar portuguesa e arquivos contemporâneos.
Aqui, o crítico insere o livro numa tradição mais vasta de exageros estratégicos, comuns em memórias de ex-combatentes do PAIGC.
b) Operação de Guidaje e baixas militares
A crítica é particularmente dura neste ponto. Beja Santos acusa Manecas Santos de: minimizar as baixas do PAIGC; exagerar as perdas portuguesas; ignorar documentação existente no Arquivo da Defesa Nacional.
O autor da nota de leitura assume uma postura quase forense: não contesta a legitimidade do testemunho, mas exige confronto com fontes documentais, algo que considera ausente.
c) Assassinato de Amílcar Cabral
Beja Santos acusa Manecas Santos de manter uma ambiguidade calculada: não acusa diretamente a PIDE ou Spínola, mas deixa a suspeita no ar; esta ambiguidade é politicamente funcional e historicamente infundada, dado não existir prova documental de envolvimento português direto.
(Continua)
Crítica da IA/ChatGPT à "nota de leitura" do Beja Santos sobre o livro de memórias do Manecas Santos:
(Continuação)
4. A crítica moral e política: responsabilidade no desmoronamento do Estado
Talvez o ponto mais incisivo da recensão seja o seguinte:
Beja Santos entende que Manecas Santos relata o colapso do PAIGC e do Estado guineense com uma distância estratégica, descrevendo acontecimentos sem assumir responsabilidades diretas, apesar de ter sido: dirigente político; ministro; muito próximo de Nino Vieira (apesar de ser cabo-verdiano...),
A recensão sugere que essa distância narrativa é uma forma de autoproteção moral, permitindo denunciar o desastre sem admitir cumplicidade. Esta crítica estende-se também às explicações sobre os fuzilamentos (no tempo de Luís Cabral), que Beja Santos considera implausíveis ou evasivas.
5. Valor historiográfico da recensão
A recensão de Mário Beja Santos vale, em si mesma, como: um contributo historiográfico autónomo; um exercício de crítica das memórias políticas; um alerta metodológico sobre os riscos da autobiografia não confrontada com arquivos.
Mais do que “ler” Manecas Santos, Beja Santos dialoga e combate com ele, num plano que é simultaneamente histórico, político e ético.
6. Conclusão
A análise permite concluir que: Beja Santos reconhece o livro como testemunho indispensável; mas recusa aceitá-lo como relato confiável sem verificação; e vê nele mais um exemplo de como a memória do PAIGC continua marcada por silêncios, exageros e estratégias de autojustificação.
A recensão não fecha o debate, pelo contrário, convoca a escrita “a quatro mãos” da História, como o próprio autor sugere: uma história desmitificada, construída a partir do confronto entre memórias, arquivos e responsabilidades assumidas.
Em resumo, é um elogia (da IA) à postura intelectual do nosso crítico literário. A "nota de leitura" do Beja Santos parece-nos acertada, ponderada, positiva (valorizando o livro como contributo de alguém, com a importância histórica, militar e política, como o Manecas Santos no seio do PAIGC, para a partilha de memórias, de um lado e do outro, sobre a guerra colonial na Guiné. (LG)
Não é o Manecas Santos que afirma perentoriamente que os seus Strella abateram cinquenta e tal aviões e helicopeteros portugueses? Só abateram cinco, mas a mentirola dá jeito. Há quem acredite.
António Graça de Abreu
Alcindo Ferreira da Silva (by email)
30 dez 2025 15:27
Caro Luís Graça
Há já bastante tempo que só esporadicamente visito o blog. Hoje ao ler o post de Beja Santos sobre a morte de Amilcar Cabral penso que ele ainda não estará a par do seguinte acontecimento que já relatei a alguém da Guiné de que não me lembro o nome.
Por volta do Natal de 1973, estava em Ganturé com o DFE 8 ao mesmo tempo que a LFG comandada pelo 1º ten LUPI (não me lembro o nome da Lancha). Recebemos informação para acolher e dar apoio a um capelão da Marinha que seria acompanhado por um oficial fuzileiro. O capelão era o Comandante Alpoim Calvão que se deslocava sobre esse disfarce. Fizemos um lauto almoço na câmara da lancha e já no fim, quando conversávamos sobre a guerra o Calvão diz uma frase com este significado (ou estas palavras) " com alguma sorte o Amilcar em breve estará morto". Depois do almoço os botes do destacamento levaram-no a Farim onde se iria encontrar com um madeireiro com um nome muito conhecido, mas que não me lembro agora (seria Mário Soares?).
Este encontro com o Alpoim Calvão e estes dados foram passados há cerca de um ano em conferência via zoom por mim e pelo Lupi com pessoas que investigavam não só esta morte como também a de Titina Silã de que há dúvidas que tenha morrido no recontro com os botes de fuzileiros em que seguiam homens do meu destacamento, mas sim assassinada por gente do PAIGC.
Um abraço e boas entradas
Alcindo Ferreira da Silva
Camaradas parece que existe muita confusão sofre o que queria o PAIGC dizer que controlava 2/3 do territóio da Guine Bissau. Estava o PAIGC a afirmar que nessas zonas Portugal não exercia soberania efectiva (exemplo da Coboiana), o PAIGC governava na prática, a população vivia sob instituições criadas pelo PAIGC (armazens do povo, hospitais, escolas) e a guerrilha tinha superioridade operacional. Quando o PAIGC afirmava controlar 2/3 do território e chamava a essa parte de "area libertada" estava a usar o termo com um sentido politico, militar e simbólico. As ZL eram espaços onde o PAIGC instalava estruturas de "Estado Paralelo" organizando escolas, postos de saúde, tribunais populares, sistema de recolha de impostos e comités locais de administração. Nas chamadas zonas libertadas o PAIGC tinha liberdade de movimento militar. Os guerrilheiros circulavam, recrutavam e treinavam combatentes. Montavam bases, depósitos de armamentos, fardas e munições.
Era territorio fora do controlo efectivo da administração colonial portuguesa. Eram zonas onde Portugal não conseguia manter presença permanente excepto em operações pontuais ( Ilha do Como, Bashil, Madina e outros) e autoridade prática era exercida pelo PAIGC.
Espero que este pequeno texto que sestou a submeter, com a ajuda do GEMINI (IA) possa esclarecer o significado de ZONAS LIBERTADAS.
Feliz Ano Novo
Zeca Macedo, Tenente DFE 21
Vila Cacheu, Bolama
Guine Bissau 1973-74
Parte I (o blog diz-me que o comentário é demasiado longo)
Claro que Manecas sabe muito mais do que conta, dedicando-se a varrer para debaixo do tapete as suas culpas (nem que passivas). Não gosto pessoalmente dos hipócritas (vou-me ater aos vivos) Manecas dos Santos e Pedro Pires; apesar de concordar que, como testemunho parcial, o livro do primeiro tem o seu interesse (mas é exactamente o mesmo comportamento que o de Pedro Pires, com a sua fundação usurpando o nome de Cabral, depois de ter colaborado no seu assassinato: tentar limpar o nome para a história, pela mentira ou omissão), mas passados mais de 50 anos, era a verdade que o poderia libertar; oportunidade perdida pela sua arrogância e incapacidade de auto-crítica. E os guineenses "puros" também sabem muita coisa dos sapos (talvez bois fosse mais adequado - e não é simples superlativo de tamanho) que teve de engolir, na sua (indigna) sobrevivência colaboracionista com o PAIGC pós-20 de Janeiro de 1973. A grande novidade do testemunho do Comandante Alcindo Ferreira da Silva, é desfazer o grande desaguisado existente entre portugueses e guineenses acerca do assassinato de Cabral: os guineenses acusaram os tugas e a PIDE (ora Spínola chegou a querer prender o homem da PIDE em Bissau e só descansou quando obteve o colaborador que desejava - com provas dadas na África austral), e estavam errados, o coitado do Silva Pais, em plena crise dos 3G, confundia Guiledge com Guidage; mas isso não quer dizer que não tenha havido mão tuga, o próprio Comandante Alpoim Calvão nos enganou com essa verdade em letra de imprensa (como virou Sekou Touré contra Amílcar, utilizando a filha do referido Mário Soares de Pirada - utilize-se a Tabanca Grande para descobrir mais), misturando-a com a do MDLP (apesar de Portugal ainda hoje não ter reconhecido oficialmente a Operação Mar Verde, não viria mal ao mundo, passado tanto tempo, em reconhecer o papel de Alpoim). Já agora, para os fiéis do Comandante, isto em nada desmerece as idiossincrasias deste (talvez à data da publicação da sua biografia, há mais de uma dúzia de anos, ainda fosse cedo para o fazer). Por falar em Silva Pais, este encontrava-se em Paris, à data do 25 de Abril... e porquê? Por causa do prestígio de Alpoim junto da secreta francesa e de Jacques Foccart (monsieur FrançAfrique): é que os franceses, traumatizados nisto das guerras coloniais por Dien Bien Phu, nunca ousariam imaginar sequer algo parecido com o verde do mar e encomendaram um remake para vingar a afronta do referendo de 1958 (o respeito pela nossa tropa era tal que até adoptaram nome de código de pedra preciosa, igualmente verde, claro está). A "segunda temporada" da série foi suspensa pelo 25 de Abril. A história é para fazer e o Comandante Calvão foi decerto um actor principal, para o bem e para o mal... Já agora, em setembro de 74 foi ao palácio presidencial, arrancar o tal Mário Soares, que estava para ser fuzilado (terá sido quando se aperceberam da sua duplicidade?), mesmo nas barbas do Luís Cabral. Finalmente, tornou-se grande amigo de Nino, com quem conspirara (antes e) durante a purga se seguiu ao assassinato de Cabral.
Parte II
Concordo em especial com o autor das notas de leitura (Mário Beja Santos), quando diz lutar contra: "a turvação das inverdades, das pesporrências e até das vaidades camufladas, de ambas as partes". Por isso realço a importância do testemunho de Alcindo Ferreira da Silva, para repor a verdade. Atendendo às entrelinhas que se seguem à versão do assassinato (ilustres desconhecidos, senhor Manecas dos Santos? os autores materiais nem pensar, estes eram bem conhecidos, tanto pelos tugas como pelos turras, bodes expiatórios ideais para livrarem o Partido do "louco" que decerto os impediria de tomarem as casas, os carros, as mulheres de Bissau): a tal "decadência autofágica". Mesmo o testemunho de Oramas deve ser lido com cuidado: Osvaldo Vieira (que o primo mandaria depois envenenar) esteve durante toda a tarde do dia do assassinato (Osvaldo era conhecido por enfrentar, muitas vezes violentamente - por palavras e argumentos, claro) as ideias e as estratégias de Cabral... Seis meses antes, cheirara a conspiração e prendera os cabecilhas em Conacri (incluindo Momo Touré) mas Cabral mandou soltá-los. Nessa tarde fatídica. é possível que tenha tentado que Cabral (talvez confiasse demais na sua estrela, depois do primeiro tiro, ainda dizia para irem até ao secretariado, que tudo se resolveria) reagisse e lhe desse carta branca para desmantelar a conspiração, voltando a prendê-los. Muita gente ficou surpreendida com a sua presença no local do crime (só o médico português do PAIGC - nas suas próprias palavras - e as crianças da Escola-Piloto não sabiam o que se preparava), mas foi decerto com um sentimento de impotência que este foi constatar aquilo de que avisara Cabral (tal como os serviços secretos checos, aliás - eventualmente desobedecendo a ordens de Moscovo, que tinha um espião em "zona libertada" nesse fim de Janeiro de 1973): na linha "estás a ver? eu bem te disse". Voltando a Manecas, este não parece portanto tão fora da razão como pensa o Mário Beja Santos, quando afirma "Mas convém deixar sempre no ar de que o complô tinha o braço longo de Spínola e dos seus infiltrados." Spínola queria Amílcar Cabral vivo, o que se entende bem no guião da Op. Mar Verde (Sekou Touré: morto; Amílcar VIVO) e queria genuinamente negociar com ele, contra a opinião de Marcelo Caetano; não gostou do resultado (era um golpe, mas de Estado, não de mão; a casa de Amílcar não era para metralhar) e, não fosse este ter ameaçado retaliar, teria agredido o Comandante Alpoim na reunião do Estado-Maior convocada logo que as lanchas chegaram de Conacri.
Parte III
Em Janeiro de 1973 Alpoim estava na Administração do Porto de Lisboa, e estava nos píncaros da sua carreira militar (admiração da Armée française pela mais ousada operação de forças especiais do século XX) e desavindo com Spínola. Jogava por conta própria (não aderiu ao 25 por causa de um D), não era um infiltrado do mais velho; talvez essa ideia do Manecas venha do pós 11 de Março... O General Spínola foi claramente desautorizado pela teimosia do Presidente do Conselho (foi Salazar que o contratou mas logo a seguir caiu "da cadeira" - ou em banhos em São Julião da Barra, posto que não nos contentemos com versões oficiais) e na realidade, terá sido um pouco ao contrário (se alguém foi manipulado, foi o General Spínola, pelo Comandante Alpoim). A resposta de Fragoso Allas (homem mais de Spínola do que da PIDE) a Otelo sobre o assassinato (que a coisa teria corrido mal, se teriam excedido pois a ideia seria trazer o Amílcar vivo) dá que pensar: Spínola queria-o vivo; Alpoim queria-o morto. Já é tempo de fazer história, depois de meio século. O contacto de Allas no PAIGC era Nino... que, tal como Pedro Pires (a quem o General Spínola queria recusar apertar a mão no dia 10 de Setembro de 1974, só por pressão de Otelo e Vasco Lourenço o acabará por fazer, numa cerimónia curtíssima filmada pela RTP, disponível em arquivo), viria a ser presidente do seu país. Uma questão básica de investigação: a quem aproveita o crime? O discurso de Cabral no funeral de Nkrumah, pouco antes de morrer (está em vídeo no YouTube) conta-nos tudo por antecipação: foi o cancro da traição intestina que acabou com Cabral e a sua obra, mas tal mão parece ter tido realmente um dedo tuga. Uma tragédia, para Portugal e para a Guiné. Tal como com o Comandante Alcindo, fica o pedido, a quem tiver mais informações relevantes, que as partilhe.
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