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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27750: Os 50 anos da indepedência de Cabo Verde (23): Morreu a Amélia Sanches Araújo (1934-2026), a antiga locutora da "Rádio Libertação" (1964-1974), a famosa "Maria Turra", como era conhecida entre a malta do CTIG (Carlos Filipe Gonçalves, Praia, jornalista aposentado)


Foto nº 1


Foto nº 2

Amélia Sanches Araújo (Luanda, 1934 - Praia, 2026) (*)

Legendas: Foto nº 1 > Amélia Araújo gravando os trabalhos da I Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau para a Rádio Libertação, na "região libertada do Boé" (sic) . Data:  23 e 24 de setembro de 1973.

Fonte: Antena Um / Fundação Mário Soares / Casa Comum / Arquivo Amílcar Cabral (Com a devida vénia...)

Foto nº 2 > Amélia Araújo aos microfones da Rádio Libertação, a rádio do PAIGC, a emitir a partir de Conacri. Teve início em julho de 1967. Data da foto: c. 1967.

Amélia Araújo, a nossa "popular Maria Turra", que é "muito minterosa" (dizia o Zé Tuga), vivia há nos hoje em Cabo Verde. Era angaola, de origem cabo-verdiana. A sua voz pode ser aqui recordada no ficheiro áudio (10' 18'') do portal DW - Deutsche Welle ("Rádio Libertação: Fala o PAIGC").

Fonte: Antena Um / Fundação Mário Soares / Casa Comum / Arquivo Amílcar Cabral (Com a devida vénia...)


1. Postagem, no nosso Facebook, do nosso camarada Carlos Filipe Gonçalves, ex-fur mil amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74), radialista, jornalista, escritor, natural do Mindelo, a viver na Praia, Cabo Verde:

Faleceu Amélia Araújo, locutora da Rádio Libertação 1964/1974 conhecida entre a tropa portuguesa na Guiné por «Maria Turra».

Faleceu hoje 19 de fevereiro de 2026, na Cidade da Praia, Amélia Sanches Araújo, de origem cabo-verdiana, nasceu em Angola em 1934. Conhecida e popular apresentadora da "Rádio Libertação",  desde a sua fundação em 1964 com programas através de emissoras de países (como o Senegal, Guiné-Conacri e outros) que apoiavam o PAIGC.  Ficou conhecida entre a tropa portuguesa  por "Maria Turra". 

Apresentou na rádio, muitos textos de Amílcar Cabral a denunciar "a política enganosa dos colonialistas portugueses". Era casada com o alto dirigente do PAIGC José Araújo, que mais tarde a partir de 1980 desempenhou em Cabo Verde os cargos de ministro da Educação e da Justiça.

Carlos Filipe Gonçalves – Recordação da Rádio Libertação/Rádio Bissau em Setembro/Outubro de 1974 – Extracto do livro “Recordações de Um Furriel Miliciano, Bissau 1973 – 1974/75:

Fui talvez o único militar português que ficou em Bissau, depois de 10 de setembro de 1974, quando saiu o último Governador português. Passei a tabalhar na Rádio Bissau, depois Radiodifusão Nacional da Guiné-Bissau. Regressei a Cabo Verde em 22 de agosto de 1975. O livro ainda não publicado, descreve o último ano de Guerra vivido em Bissau em 1973/74 e depois o período de setembro de 1974 a agosto de 1974 depois da chegada do PAIGC a Bissau. Eis um extracto:


(...) "E foi numa dessas visitas do 'camarada' José Araújo à rádio em Bissau, que ouço uma voz conhecida, timbre inconfundível, pronúncia impecável do português… É a voz da 'Maria Turra'! Desde que entrara na rádio, tinha ouvido gravações com essa voz, mas nunca tinha visto a pessoa! Agora, ouço ao vivo aquela voz e vejo esta senhora, que me cumprimenta, educadamente… Conhecia agora a 'camarada' Amélia, cuja voz, desde que a Rádio Libertação viera para Bissau, passava nas gravações de abertura e anúncios da estação, ou nos programas que tinham sido gravados em Conacri e que muitas vezes, eram agora repetidos, nomeadamente as palavras de ordem de Cabral. 

Desfez-se para mim a imagem que fazia da 'Maria Turra'… Vejo senhora educadíssima, de bons modos, bem falante… claro, pronúncia e timbre impecáveis no português. Como sempre discreto, não digo nada, não comento. Pelas conversas do pessoal operador de som (fardado e armado) que veio de Conacri, fico a saber que a 'camarada' Amélia Araújo, é a mãe da Terezinha, a cantora de voz estridente, cujas gravações vindas de Conacri, passam muitas vezes na rádio. 

Eu conhecia bem aquela bobine, com uma vozinha de criança, muito ao gosto desses 'camaradas' operadores de som, uma gravação da participação de uma delegação cultural do PAIGC no 'Festival Internacional da Juventude' em Berlim, RDA, em 1973. 

Depreendi, seria a menina, que eu já conhecia, pois muitas vezes acompanhava o pai, nas visitas à rádio. Mas…, 45 anso mais tarde, venho a saber, que afinal, ela era a irmã da Terezinha! 

Esta, continuou a carreira de cantora, que se destacou mais tarde, no panorama da música cabo-verdiana, com muitos sucessos e actuações, integrou o conjunto Simentera, conhecido internacionalmente. 

Um belo, dia, numa conversa comigo, sobre a rádio em Bissau, afirmou: “Não! Não era eu, que ia à rádio em Bissau! Naquela época, eu, estava a estudar na União Soviética! Quem estava em Bissau, e ia à rádio com meu pai, era a minha irmã." (**)

(Revisão / fixação de texto: LG)

_____________

Notas do editor LG:


16 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

A Maria Turra tem 13 referências no nosso blogue...

Era, por incrível, que pareça uma "companhia" das horas mortas de muitos dos nossos camaradas, perdidos no imenso mato da Guiné... Diziam que era "muito mintirosa", mas gostavam de ouvir a sua voz doce...de angolana, de origem cabo-verdiana... Pelo menos, era uma voz de mulher!...

Confesso que não havia rádio, muito menos a "Rádio Libertação"...ou a Emissora Nacional. Ou sequer o PIFAS. Hoje tenho pena...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Carlos, muita malta confundia está Amélia com a mulher do Amilcar Cabral, a Ana.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Não havia acesso a fotos.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Não havia TV, internet...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

A Amélia foi uma "estudante da Casa do império". Como tantos outros.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Os meus soldados ouviam-na e às vezes comentavam comigo.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Claro que eles não eram simpatizantes do PAIGC.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Com exceção do Vítor Sampaio, mancanha de Bissau, reguila, que levou não sei quantas porradas.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Com exceção do Vítor Sampaio, mancanha de Bissau, reguila, que levou não sei quantas porradas.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Gostava de saber o que lhe aconteceu depois do 25 de abril. Deve ter logo trocado de farda.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Imagino que deverá ter sido uns dos cabeças de motim contra os tugas no Xime

Anónimo disse...

Tive o prazer de ouvir várias vezes a rádio e a Maria Turra.
Tinha alguns privilégios à noite.
Como também ouvi o nosso poeta...
Virgílio Teixeira

Tabanca Grande Luís Graça disse...

O "nosso poeta" que é de Águeda, não longe de ti...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

A "Maria Turra" não era apenas locutora, foi produtora, animadora, criadora de conteúdos... Acho que foi uma "mulher grande", respeitada na terra que a acolheu, Cabo Verde. Fiquei a saber que era filha de pai cabo-verdiano e mãe angolana...

Virgílio, depois da morte (e, muito antes, uma vez feitas as "pazes"...), deixamos de ter "inimigos"...Ela, pelo menos, lutou por aquilo em que acreditava. Eu lutei para defender a pele, a minha e a dos meus camaradas...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Recortes de imprensa:

Morreu Amélia Araújo, a “Voz da Luta” da Libertação Nacional

Expresso das Ilhas,19 fev 2026 11:57

Faleceu, aos 92 anos, Amélia Rodrigues de Sá e Sanches de Figueiredo Araújo, combatente da Liberdade da Pátria e uma das figuras marcantes da luta pela independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau.

Conhecida como a “Voz da Luta”, destacou-se como produtora, animadora e locutora principal da Rádio Libertação, desempenhando um papel central na mobilização e na chamada “guerra psicológica” contra o regime colonial.

Filha de mãe angolana e pai cabo-verdiano, Amélia Araújo nasceu em Angola, a 11 de Agosto de 1933. Estudou em Portugal, onde se casou com o cabo-verdiano José Eduardo de Figueiredo Araújo.

Durante a luta armada conduzida pelo PAIGC com vista à independência, afirmou-se pela voz que ecoava nas emissões da Rádio Libertação.

As suas primeiras experiências radiofónicas remontam a 1964, com o apoio do marido, dirigente do PAIGC e responsável pela área de informação.

Em 1966, Amélia Araújo e quatro companheiros guineenses foram enviados por Amílcar Cabral para uma formação de nove meses na União Soviética. Um ano depois, com o apoio da Suécia, que ofereceu um emissor e um estúdio, foi criada a Rádio Libertação. As emissões começaram oficialmente a 16 de Julho de 1967, inicialmente com 45 minutos diários, divididos em três blocos de 15 minutos.

Após a Independência Nacional, Amélia Araújo assumiu funções públicas em Cabo Verde.

Em 2015, o Governo galardoou-a com o Primeiro Grau da Medalha de Serviços Distintos, reconhecendo a sua abnegação, bravura e dedicação à causa nacional.

“Faleceu Amélia Araújo, a ‘Voz da Luta’, aquela que, nos quadros do PAIGC deu vida à Rádio Libertação e, pela palavra, indelevelmente, contribuiu para a libertação dos povos da Guiné e de Cabo Verde”, reagiu o Presidente da República, José Maria Neves, no Facebook.

O Chefe de Estado prestou homenagem à combatente que, conforme referiu, se armou até os dentes, literalmente, para, por palavras, lutar contra a subjugação e deu tudo de si para a reconstrução de Cabo Verde, no pós-independência. “Os alicerces do desenvolvimento durável só seriam construíveis graças ao empenhamento e à generosidade desses briosos jovens das décadas de 60 e 70 e cabouqueiros da República”, acrescentou.


(Revisão / fixação de texto, negritos e itálicos: LG)

JC Abreu dos Santos disse...

... citando (da propaganda ao PAIGC supra reproduzida): 'Maria Turra' «gravando os trabalhos da I Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau para a Rádio Libertação, na "região libertada do Boé" (sic)».
Há mais de meio século que, esse 'hoax' propagandístico da "I ANP-PAIGC", se encontra basto desmontado!
Em bom rigor factual - e o proprietário/editor deste weblog bem o sabe -, a suposta "I Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau" jamais ocorreu em território da Província Ultramarina da Guiné!
Outrossim: ao entardecer de domingo 23Set1973, foi fabricada, por Luís Severino de Almeida Cabral, a cerca de 10km norte da fronteira sul-sueste com a República da Guiné-Conackry, designadamente junto à margem oriental do curso médio de um dos afluentes do rio Feline, na mata da abandonada tabanca muçulmana futa-fula do Lougadjole; no exacto local onde, na manhã de 2ª feira 05Mar1973, o chefe turra Fidélis Cabral de Almada, havia determinado fuzilamento sumário de todos os kamaradas de Aristides Teodorico Barbosa, do 3º grupo de supostos implicados na morte "grande líder"...
Uma vez mais o proprietário/editor deste weblog, no seu afã "publicista", difunde informações incorrectas e azucrina leitores.