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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27730: Documentos (53): A retirada de Madina do Boé (Rui Felício, ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70)


O Rui Felício, que foi uma das vítimas do desastre do Cheche (ia na trágica jangada, tendo perdido 11 homens do seu pelotão em 6/2/1969), é um dos históricos do nosso blogue.

Entrou para a Tabanca Grande em 12/2/2006 (a par do Paulo Raposo). Ex-alf mil, CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), tem 35 referências. Advogado, é autor do blog Escrito e Lido 2010-2014, colaborou no blog Encontro de Geraçóes do Bairro Norton de Matos . É um talentoso contador de histórias, autor da série "Estórias de Dulombi". Natural de Coimbra, vive na Ericeira, Mafra.

A retirada de Madina do Boé

por Rui Felício (*)


1. Preâmbulo

Acabei de ler um texto escrito pelo camarada José Martins onde relata a sua experiência na zona de Madina do Boé (**).

Embora tenha reconhecido que não assistiu diretamente ao que se passou no célebre e lamentável desastre do Cheche, ocorrido no fatídico dia 6 de Fevereiro de 1969, o José Martins conheceu bem o local e a região e desenvolveu a sua descrição socorrendo-se de relatos e documentos alusivos ao sucedido.

E nota-se pelo seu relato que sofreu muito, e que ainda hoje sente as marcas do desastre, passados 37 anos sobre a sua ocorrência.

Ninguém, bem formado e sensível, poderia nunca, de resto, ficar indiferente a semelhante tragédia, ainda que, como o narrador José Martins, não tenha dela sido testemunha ocular.

Imagine-se então a ferida profunda que aquele desastre deixou a quem, como eu e muitos outros, foi não só testemunha ocular mas também, e principalmente, interveniente e vítima do colapso da artesanal jangada que servia de transporte aos militares e equipamentos que participaram na complexa, perigosa e cansativa operação de resgate da Companhia de Caçadores [CCAÇ 1790que se evacuou do célebre aquartelamento de Madina do Boé.

Desastre onde pereceram, segundo as estatísticas oficiais, 47 militares, onze dos quais, do pelotão que eu comandava… Permito-me destacar dois deles pelas relações especiais de amizade e de confiança que neles depositava, sem esquecer obviamente a dor causada pela morte de todos os outros:

(i) um, o furriel Gregório [dos  Santos Corvelo  Rebelo [,natural de Terra Chã, Angra do Heroísmo], açoriano de sotaque cerrado e quase ininteligível,  que assumia as funções, embora não protocolares, de meu substituto em todas as circunstâncias, no comando do pelotão, e que mantinha a orgânica disciplinar e operacional da pequena unidade militar;

(ii) o outro, o soldado Octávio [AugustoBarreira, [,natural de Suçães, Mirandela], transmontano de gema, homem rude, de uma só palavra, de têmpera sã, de antes quebrar que torcer, mas capaz de morrer para salvar a vida do seu amigo, e a quem eu atribuira as funções, também não protocolares, de meu guarda-costas.

Quem passou pela guerra colonial sabe que a escolha do guarda-costas recaía invariavelmente no soldado em que o alferes depositava maior confiança e amizade.

Aliás, como também é sabido, a designação de guarda-costas não tem a mínima conotação com a ideia que na vida civil se faz de alguém com este titulo ou funções. O guarda-costas era, acima de tudo, o soldado às ordens, o confidente, o amigo… E muito menos, ou quase nada, o protector da integridade fisica do alferes, ao contrário do que se possa pensar.

A perda destes treze homens, que recordo com saudade e dor, sempre que a memória da Guiné me vem à lembrança, e que ajudei a formar para a guerra, em Abrantes e Santa Margarida, após oito meses de convivência próxima nas diversas tabancas onde o pelotão esteve destacado, foi um choque tremendo, inolvidável, cuja lembrança ainda hoje me faz arrepiar a alma e assomar as lágrimas.

2. Sobre o desastre do Corubal

Feito o preâmbulo, entro de imediato no motivo que me levou a servir-me do espaço disponibilizado pelo camarada Luís Graça a quem, sem o conhecer pessoalmente [conhecemo-nos depois no nosso I Encontro Nacional da Tabanca Grande, em 15 de outubro de 2006, na Ameira], desde já transmito o meu aplauso pela feliz e dinâmica iniciativa da criação deste blogue.

É que é importante que seja a nossa geração, aquela que interveio, por obrigação ou por convicção ou por ambas as coisas, na guerra da Guiné, que tem que dar testemunho o mais exacto possível daquilo que por lá se passou.

Se assim não for, corremos o risco de a história ser deturpada, porque feita com base em documentos ou relatos nem sempre seguros, nem sempre fiéis… É por isso que, correndo o risco de desencadear alguma polémica, que não pretendo, achei que devia esclarecer alguns pontos do relato feito pelo José Martins a que atrás aludi.

Deduz-se daquele relato [do José Martins], publicado no blogue, que o desastre teria acontecido essencialmente devido a três factores:

(i) os militares descomprimiram e tentaram encher os cantis com água do rio, o que terá provocado, depreende-se, o desiquilíbrio da estabilidade da jangada;

(ii) teria sido ouvido um som abafado, semelhante a uma morteirada, que teria provocado agitação entre os militares e, em consequência, desiquilibrado a jangada;

(iii) que, após o acidente, a água do Rio Corubal terá tomado um tom avermelhado, querendo com isso dizer-se que os crocodilos que habitavam as águas do rio, teriam consumado a morte dos militares que caíram à água.

A versão dos acontecimentos, veiculada pelo José Martins, assenta, como já se disse, em relatos e documentos sobre os factos, dado que este camarada, como ele próprio confirma, não assistiu ao que se passou. Mas, não obstante a presumível credibilidade das fontes a que recorreu, posso garantir que não foi exactamente assim que as coisas se passaram.

E digo isto com a mais profunda convicção e a mais inabalável certeza de alguém que estava na jangada, caiu à água, nadou durante uns cinco minutos e a ela retornou após a mesma se ter de novo equilibrado.

São factos que não se apagarão jamais da minha memória, por mais anos que viva, e apesar de não estar de posse de documentos que os comprovem...


3. O fime da SIC sobre o desastre do Rio Corubal

O mais curioso é que no filme, da autoria de José [ManuelSaraiva, realizado por Manuel Tomás, que foi visto há uns anos atrás [, em 2009], por muitos milhares de portugueses através da sua transmissão pela SIC e pela distribuição de um vídeo feita na mesma altura pelo Diário de Notícias, são apresentadas aquelas mesmas razões como causas imediatas do desastre.

Já nessa altura contestei as conclusões do filme, e fi-lo por escrito e em reunião pessoal com o Director de Informação da SIC, Dr. Alcides Vieira, estando presente o realizador Manuel Tomás, que dirigiu a realização do filme.

Refiro que a carta entregue na SIC foi subscrita não só por mim mas por dezenas de ex-militares da CCAÇ 2405 que, por coincidência nessa mesma altura, no almoço de confraternização anual, a leram e assinaram.

A contestação dos factos descritos no filme foi feita nessa reunião na SIC, com a prévia concordância do Comandante da Operação, brigadeiro Hélio Felgas, e estando presentes, além de mim próprio, o capitão miliciano José Miguel Novais Jerónimo e o alferes mliciano Paulo Enes Lage Raposo [, ambos da CCAÇ 2405].

E ela foi por nós solicitada à SIC em virtude do impacto que a exibição do filme teve nos ex-militares que a ele assistiram e que tinham estado presentes na jangada naquele dia do desastre. Com efeito, no próprio dia da exibição do filme comecei a receber telefonemas de antigos camaradas, um tanto decepcionados e alguns até revoltados, pela inexactidão dos pormenores que ali eram descritos.

Todos nós três, presentes na dita reunião, participámos na operação de evacuação de Madina do Boé, e todos estávamos presentes no local do acidente no Cheche naquele dia 6 de fevereiro de 1969.

O capitão Jerónimo, comandante da CCAÇ 2405, e eu próprio, estávamos na jangada no momento do acidente, onde se encontrava também o alferes miliciano Jorge Rijo, oficial da CCAÇ 2405, com o seu pelotão.

O alferes miliciano Paulo Raposo, também oficial da CCAÇ 2405, já tinha feito a travessia do rio na viagem anterior, e encontrava-se na margem norte do Corubal com o seu pelotão, observando a tragédia (***)

Na referida reunião da SIC, o realizador Manuel Tomás argumentou que o filme fora realizado com fundamento em entrevistas e em documentos oficiais militares a que tinha tido acesso, pelo que considerava o filme suficientemente documentado.

E disse que esses documentos atestavam as razões acima referidas, isto é, que a jangada se virou porque, no essencial, teria havido disparos de morteiro que, supostamente vindos do IN, teriam criado o pânico nos militares, os quais, ao agitarem-se, teriam provocado o desiquilíbrio da jangada.

Perante a irredutível posição da SIC em manter a versão veiculada pelo filme, nada mais nos restou do que desistirmos do pedido que lhe fizemos para que fosse proporcionado esclarecimento público sobre as conclusões desse filme.

Foi dito, nessa reunião, ao Dr. Alcides Vieira e ao Sr. Manuel Tomás,  que, por muito credíveis que pudessem parecer os documentos militares em que fundamentaram a versão filmada, nenhum deles jamais desmentiria ou apagaria da minha memória e dos meus camaradas o que realmente se passou.

Mais importante que os documentos preparados no silêncio dos gabinetes militares, sabe-se lá com que inconfessados motivos, era a indesmentível memória daqueles que tinham sido protagonistas e vítimas do desastre.

É com o mesmo espírito de esclarecimento da verdade dos factos que volto hoje ao assunto, desta vez no ambiente mais acolhedor de um blogue criado e gerido por alguém como o Luís Graça que, tendo estado na Guiné, sabe melhor que ninguém que não queremos honrarias, distinções ou protagonismo público.

Queremos tão só que a história seja o mais verdadeira e exacta possivel... Esse é o legado que queremos deixar aos vindouros, para que jamais seja ignorado o sacrificio de uma geração inteira, retirada à sua despreocupada juventude para fazer uma guerra em longínquas terras, em nome dos seus deveres e obrigações para com a sua Pátria.


3. A verdade do que sucedeu

Mas então, o que se passou realmente naquela manhã de 6 de Fevereiro [de 1969]?

A CCAÇ 2405, comandada pelo cap mil inf Novais Jerónimo, integrava a coluna militar que tinha partido na manhã do dia anterior de Madina do Boé, rumo ao Cheche, e tinha como missão escoltar a Companhia de Caçadores [1790] evacuada daquele aquartelamento e que era comandada pelo cap inf Aparício (que, após o 25 de Abril, veio a assumir a função de Comandante Geral da PSP de Lisboa).

Ao fim desse dia a coluna chegou às imediações do rio Corubal, junto ao local de cambança para o Cheche. E durante toda a noite a jangada fez contínuas viagens transportando pessoal de apoio e, sobretudo, equipamentos militares e de transporte.

Ao amanhecer, as viagens de transporte entre as duas margens continuaram consecutivamente, até que chegou o momento em que na margem sul do rio Corubal já só restavam quatro grupos de combate, todos eles comandados pelos respectivos alferes, bem como os capitães Aparício e Novais Jerónimo. 

Além destes, encontrava-se o 2.º comandante da Operação [Mabecos Bravios], um major cujo nome já não recordo.

Segundo a rotina estabelecida e as instruções recebidas pelo responsável pela condução da travessia (alf mil Diniz), esperávamos na margem do rio que este responsável mandasse entrar metade do pessoal ainda ali estacionado, ou seja, dois dos quatro pelotões acima referidos.

É que a jangada, segundo bem explicou o alferes Diniz, tinha uma lotação de segurança de um máximo de 60 homens (2 pelotões). E o alferes Diniz assim fez, à semelhança do que tinha já feito dezenas de vezes ao longo da noite, zelando para que a carga da jangada não excedesse os limites de segurança estabelecidos.

Mandou entrar o meu pelotão e o do alferes Rijo, ficando na margem para a viagem seguinte, os dois pelotões da Companhia do capitão Aparício. 

Subitamente porém, assisti a uma conversa entre o 2.º Comandante da Operação e o alferes Diniz, em que este foi intimado pelo referido 2.º Comandante a mandar embarcar os dois pelotões restantes, dado que não se podia atrasar mais a operação.

Apesar dos argumentos do alf Diniz, tentando que em vez dos 4 pelotões embarcassem apenas dois, prevaleceu a autoridade da patente militar mais alta e assim acabaram por embarcar os 4 pelotões, para a derradeira viagem da jangada...

E foi de facto a sua derradeira e trágica viagem... 

Ainda não estavam percorridos 10 metros e já a jangada submergia e, de seguida, se virava projectando para a água quantos nela seguiam... E não me recordo de ter ouvido qualquer disparo de morteiro, antes do desastre... E não me lembro de ter detectado antes qualquer sinal de pânico entre os soldados... 

Aliás, a sua experiência operacional no teatro de guerra era já apreciável e não entrariam em pânico por um simples disparo de morteiro que estou seguro que não existiu.

Houve alguns disparos de morteiro, é verdade, mas após o desastre e feitos pelas NT, no intuito de prevenir qualquer aproveitamento do IN que eventualmente estivesse emboscado nas imediações.

Exceptuando os militares que infelizmente pereceram afogados no Corubal, passados poucos minutos, todos restantes retornavam à jangada que, pouco depois, se reequilibrou e retomou a sua viagem para a margem norte do rio. 

E eu fui um deles... Depois de me ter libertado da espingarda, das cartucheiras, das botas e das granadas, cujo peso me puxava inexoravelmente para o fundo...

Em nenhum momento descortinei qualquer tipo de pânico quando regressei à jangada e, talvez nervosos ainda do desastre, todos sorriamos e aceitávamos o banho forçado como uma dádiva divina depois de vários dias de sede e calor.

Ninguém se apercebeu de nenhum camarada em aflição ou pedindo socorro. Ninguém sequer sonhou que a tragédia tivesse atingido as proporções que tomou. Só na margem norte do rio, quando mandei formar o meu pelotão e o vi reduzido a quase metade é que tive consciência da desgraça que tinha acontecido.

E foi então que, algo descontrolado, me dirigi à margem do rio que engolira os meus soldados na esperança de ainda ver alguém... Mas a tragédia estava consumada de forma silenciosa, definitiva e rápida.

Em resumo e concluindo:

(i) o desastre do Cheche ficou a dever-se, em minha opinião, ao excesso de peso entrado na jangada;

(ii) e ela é corroborada por todos aqueles que, como eu, viajavam na jangada e que em conversas a seguir ao desastre manifestaram a mesma opinião;

(iii) note-se que a mesma jangada tinha já feito dezenas de travessias sob as ordens directas do Alf Diniz sem nunca se ter detectado qualquer problema;

(iv) esse problema surgiu de forma trágica na última travessia, ou seja, naquela em que o responsável Alf Diniz não pôde efectivamente proceder segundo o que estava estabelecido, deixando entrar na jangada o dobro da sua capacidade, por ordem do 2.º Comandante da Operação a que, pela natureza da hierarquia militar, não poderia opor-se;

(v) mas fê-lo, e disso dei testemunho no âmbito do inquérito que se seguiu, advertindo previamente o seu superior hierárquico para o facto de estar a infringir as determinações que tinha sobre a forma de fazer a travessia do rio e da lotação definida para a embarcação;

(vi) e estou convencido que a rapidez do desaparecimento das vítimas nas águas calmas, escuras e profundas do Corubal, se ficou a dever ao facto de todos transportarem consigo pesado equipamento de guerra que lhes tolheu os movimentos e os conduziu para o fundo do rio, de forma tão rápida, com a agravante de que a maior parte deles não sabia nadar;

(vii) finalmente, não posso deixar de fazer referência ao que o José Martins diz ter ouvido de "alguém que esteve no centro do acontecimento" de que as águas tomaram um tom avermelhado.

(viii) sei da existência de crocodilos naquele troço do rio Corubal.

(ix) sei que alguns dos corpos de soldados encontrados dias mais tarde, apresentavam sinais de terem sido dilacerados por crocodilos.

(x) mas sei também que as águas, naquele dia, e após o acidente, apenas apresentavam o tom natural verde escuro de um rio calmo e profundo e tenho dúvidas que os crocodilos tivessem estado presentes naqueles momentos, com o ruído de helicópteros sobrevoando as águas a baixa altitude, na tentativa de encontrar e socorrer algum soldado em dificuldades.

(xi) Não devemos dramatizar mais o que só por si já foi suficientemente dramático...


O Rui Felício, em 2013


4. Breves dados sobre a CCAÇ 2405 (1968/70)


Composição da CCAÇ 2405:

A CCAÇ 2405, à data dos acontecimentos, tinha a sua sede em Galomaro .

Comandante: Cap mil José Miguel Novais Jerónimo

1º Grupo de Combate – Alf mil Jorge Lopes Maia Rijo
2º Grupo de Combate – Alf mil Vitor Fernando Franco David
3º Grupo de Combate – Alf mil Rui Manuel da Silva Felício
4º Grupo de Combate – Alf mil Paulo Enes Lage Raposo

O 2º Grupo de Combate, comandado pelo alf mil Vitor David, não integrou a Companhia na operação de evacuação de Madina do Boé, ficando na sede da companhia em Galomaro, onde porém a acompanhou através dos meios rádio.

As baixas resultantes do desastre do Cheche foram sofridas pelos 1.º e 3.º Grupos de Combate, que viajavam na jangada na altura do acidente.

Rui Felício (***)
(Ex-alf mil inf CCAÇ 2405

[ Fixação / revisão de texto / negritos/ título: L.G.]


Montemor-o-Novo > Ameira > Herdade da Ameira > Restaurante Café do Monte >  I Encontro Nacional da Tabanca Grande > 14 de Outubro de 2006 > Da esquerda para a direita: Rui Felício, Maria Alice Carneiro (esposa do Luís Graça), António Pimentel (que veio propositadamente do norte, com o Hernâni Figueiredo. ambos antigos alf mil do BCAÇ 2851), o Victor David /1944-2024) e a esposa e, por detrás, o Paulo Raposo, o nosso amável anfitrião.

Foto (e legenda): Arquivo do Blogue Luís Grdaça & Camaradas da Guiné (2006)


Anexos

I. Mensagem de 16/2/2006 (****)

Camarada e Amigo Luís Graça:

Obrigado por teres publicado o texto que escrevi. Compreendo que queiras mais informações àcerca de alguns militares que refiro no texto. Lamentavelmente, porém, a estes anos de distância há pormenores que se apagam da memória, pelo que tenho dificuldade em identificar devidamente o major, 2.º Comandante da Operação e o alf mil Diniz.

Recordo-me do seguinte:

(i) a operação era comandada, no terreno, pelo então Coronel Hélio Felgas que comandava o Agrupamento sediado em Bafatá;

(ii) o  2.º  comandante, cujo rosto ainda me lembro, mas que só conheci naquele dia do desastre do Cheche, era major e, suponho eu, pertenceria igualmente ao referido Agrupamento de Bafatá;

(iii) quem o conhece bem, certamente, será o Capitão Aparicio que, se quiser, poderá dar uma achega a este assunto.

(iv) aliás, quando se levantou a questão na altura da transmissão pela SIC do tal filme, o capitão Aparício, então salvo erro já coronel, telefonou-me tentando convencer-me que as coisas não se teriam passado como eu dizia e que, embora elogiando-me (!!!), me disse que possivelmente após tantos anos eu já não estaria bem lembrado dos factos (!);

(v) o  elogio era um tanto descabido, dado que ele mal me conhecia; agradeci-lhe contudo a simpatia;

(vi) relativamente à minha eventual perda de memória, entendi a sua preocupação, na medida em que a minha versão dos factos contrariava os depoimentos que, no próprio filme da SIC, o cap Aparicio tinha feito e que davam como causa do desastre as tais "morteiradas" e algum pânico que se instalou entre os soldados;

(vii) quanto ao alferes miliciano Diniz, conheci-o apenas na travessia de Norte para Sul do rio Corubal no início da operação (ida para Madina de Boé) e que já estaria próximo do fim da sua comissão de serviço na Guiné;

(viii) sei que era o responsável pela travessia porque ele próprio se me identificou como tal quando embarquei com o meu Grupo de Combate, recebendo dele as instruções adequadas à colocação do mesmo dentro da jangada;

(ix) suponho que ele era o Comandante do destacamento do Cheche e que ali se encontrava habitualmente estacionado, pertencendo organicamente à Companhia de Canjandude.

(x) No entanto, não estou inteiramente certo que assim fosse.

Um abraço e uma vez mais o meu agradecimento pela paciência de teres lido o que escrevi...

Rui Felicio
ex-alf mil 
CCAÇ 2405 (Galomaro, 1968/69)
 

 2. Mensagem de 21/2/2010 (*****)

(...)  Reitero tudo o que disse o Paulo Raposo. E não o faço pela grande amizade que lhe tenho. Faço-o porque o que ele diz é a verdade.

Com efeito, como já antes escrevi e como já antes disse telefonicamente ao próprio cap Aparício, foi ele mesmo quem deu a ordem ao alf Diniz.

E também escrevi que este alferes alertou o cap Aparício para o facto de a ordem que lhe estava por ele a ser dada ser contrária às instruções que tinha. Isto é, que a jangada não poderia suportar uma lotação superior a dois grupos de combate, sendo certo que a ordem do cap Aparício significava o embarque do dobro dessa lotação.

Escrevi também então, que o alf  Diniz, contrariado, se conformou com a ordem recebida e lhe deu execução, em virtude da patente mais alta do cap Aparício.

Quanto ao major, tanto quanto julgo lembrar-me, era um oficial com funções de 2.º comandante da operação comandada pelo Cor Hélio Felgas.

Sempre estive convencido que ele estava no lado sul do rio. Pelo menos sei que o vi por lá. Talvez durante as travessias anteriores. Mas se o Raposo afirma que na altura do acidente ele estava já no lado norte, não tenho razões para duvidar do que ele diz.

Porque, sem querer que pareça que estou com ele a trocar galhardetes, o Paulo Raposo é um homem por cuja idoneidade e seriedade seria capaz de pôr as mãos no lume. E admito que neste caso do major a minha memória já me tenha atraiçoado.

Onde ela não me atraiçoa, e essas imagens ainda hoje as tenho presentes, é na própria catástrofe e no diálogo entre o cap Aparício e o alf Diniz. Passassem cem anos e jamais esqueceria. (...)

 Rui Felício

[Fixação / revisão de texto / bolda a vernelho / título: L.G.]

(**) Vd. post do José Martins > 6 de Fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - D: Madina do Boé, 37 anos depois
 
(***) Último poste da série : 12 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27726: Documentos (52): A retirada de Madina do Boé (Paulo Raposo, ex-alf mil, MA, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70)

(****) Vd. poste de 16 de fevereiro de 2006 > Guiné 63/74 - P526: A verdade sobre o desastre do Cheche (Rui Felício)

(*****) Vd. poste de 21 de fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5861: Ainda o desastre do Cheche, em 6 de Fevereiro de 1969 (4): Cem anos que viva nunca esquecerei as imagens da catástrofe e o diálogo entre o Alf Diniz e o Cap Aparício (Rui Felício)

Guiné 61/74 - P27729: Parabéns a você (2459): Miguel Rocha, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2367/BCAÇ 2845 (Olossato, Teixeira Pinto e Cacheu, 1968/70)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 10 de Fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27721: Parabéns a você (2458): José Brás, ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 1622 (Aldeia Formosa e Mejo, 1966/68)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27728: Fotos à procura de... uma legenda (198): Restos da "batalha de Madina do Boé"...




Guiné-Bissau > Região de Gabu > Picada de Cheche-Gabu > 1998 > Trinta anos depois ainda eram vísiveis (e chocantes) os sinais das emboscadas e das minas que fizeram do triângulo do Boé (Cheche, Beli e Madina) um verdadeiro cemitério para os homens e as suas máquinas...

No dia 6 de fevereiro de 1969, ficaram lá, sepultados para sempre, pelo menos 47 camaradas nossos, 19 da CCAÇ 2405 e 28 da CCAÇ 1790.

Fotos (e legenda): © Francisco Allen / Albano M. Costa (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Região de Gabu > Picada Cheche - Madina do Boé > Op Mabecos Bravios > A caminho de Madina do Boé > 3 de fevereiro de 1969 > Viaturas das NT  (Mercedes), abandonadas em colunas anteriores.


Guiné > Região de Gabu > *Picada Cheche. Madina do Boé > Op Mabecos Bravios > A caminho de Madina do Boé > 3 de fevereiro de 1969 > Viaturas das NT  (Mercedes), 
abandonadas em colunas anteriores.


Guiné > Região de Gabu > Picada Cheche. Madina do Boé  > Op Mabecos Bravios > A caminho de Madina do Boé >  3 de fevereiro de 1969 > Viatura das NT abandonada (Berliet)

Fotos do álbum do cor inf ref Hilário Peixeiro, que foi capitão no CTIG, cmdt da CCAÇ 2403 / BCAÇ 2851 (Nova Lamego, Piche, Fá Mandinga, Olossato e Mansabá, 1968/70), e que participou na Op Mabecos Bravios (retirada de Madina doo Boé, 2-7 de fevereiro de 1969).

Fotos (e legendas): © Hilário Peixeiro (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné-Bissau > Região de Gabu > Sector de Boé > 1 de julho de 2018 > Caminhos do Boé, com colinas ao fundo, no regresso a Canjadude e a Gabu (antiga Nova Lamego). Para o Cherno Baldé, "a região, com as suas mil e uma colinas, é simplesmente, a região mais bonita do pais" (**) 

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A estrada Nova Lamego - Canjadude - Cheche - Madina do Boé foi um cemitério de viaturas das NT. Não sabemos quantas lá ficaram abandondas. Talvez duas ou mais dezenas, 

Enquanto houve guarnições nossas no triângulo Béli, Cheche e Madina do Boé, faziam-se em geral 2 colunas por mês, durante a época seca, para abastecer o pessoal que defendia aquelas posições a sudeste, junto à fronteira com a Guiné-Conacri (**).

Minas, emboscadas, flagelações, ataques... eram frequentes. Tornou-se um pesadelo aguentar aquelas três guarnições. Praticamente desde o início da guerra.

Até que foi dada ordem para desactivar e retirar Beli (logo em meados de 1968) e depois Madina do Boé e Cheche (em 6/2/1969). 

Canjadude (CCAÇ 5, "Gatos Pretos", 1968/70), a sul de Nova Lamego, passou a ser a guarnição no Sector L3, a par de Cabuca (a leste), mais próxima da nova linha de fronteira, o rio Corubal.

Quem fez esta estrada, e sobretudo o troço Cheche-Madina do Boé, no âmbito da Op  Mabecos Bravios, como os nossos camaradas e grão-tabanqueiros Hilário Peixeiro (CCAÇ 2403) e Paulo Raposo (CCAÇ 2405), é que pôde  testemunhar, para a posteridade, que a zona do Boé era nessa altura um "pequeno" emitério de viaturas.  O Paulo Raposo contou 15.  O Hilário Peixeiro  fotografou algumas viaturas abandonadas na bermas da picada.  

O nosso saudoso Xico Allen (1950-2022), quando por lá andou em 1998, ainda apanhou algum do "ferro-velho" da guerra.

2. A retirada de Madina do Boé era inevitável?, perguntarão alguns leitores.  Já estava prevista: a sua defesa era, a prazo, insustentável do ponto de vista sobretudo logístico, financeiro, humano, psicológico e até militar (***).  

A alternantiva era construir-se uma "grande base" no Cheche, na margem norte (direita) do rio Corubal... Mas depois deste desastre, toda a gente, a começar pelo próprio Com-Chefe e Governador, António Spínola, ainda brigadeiro, quis esquecer o desastre de Cheche e ultrapassar o trauma...

Em último caso, continuaria a fazer-se a "retração do dispositivo"... E, para defender as "joias da coroa" (que eram Angola e Moçambique), o chefe do Governo, Marcelo Caetano, estaria na disposição de lançar aos cães o "osso" da Guiné.

Deu-se o "ouro ao bandido"?... O PAIGC, sem ter dado um único tiro em 6/2/1969, foi um "claro vencedor" da "batalha de Madina do Boé".  

Batalha que, acrescente-se, não tem qualquer paralelismo, nem de longe nem de perto, com a batalha Dien-Bien-Phu (na guerra da Indochina, de 13 de março a 7 de maio de 1954: recorde-se que após oito semanas de duros combates, as tropas do Viet Minh, com cerca de 80 mil homens, apoiados pela China, cercaram o campo fortificado de Dien-Bien-Phu, sofrendo 7,9 mil 900 mortos e 15 mil feridos, mas vencendo as tropas da União Francesa; entre os franceses, houve 2293 mortos e 5193 feridos, além de 11 721 soldados feitos prisioneiros (a maioria dos quais não sobreviveu a um brutal cativeiro, tendo sido repatriados apenas 3290 homens) (Fonte: Wikipedia).

Habilmente, e como seria de esperar, o PAIGC declarou o Boé como "área libertada", mesmo sem qualquer população, a não ser as escassas centenas de chimpazés e uns tantos solitários e sazonais elefantes, que utilizavam um corredor transfronteiriço...  

E passou a usar o Boé  como trunfo propagandístico, diplomático e até militar.  Em contrapartida, não havendo quartéis portugueses, o Amílcar Cabral perdeu porventura uma fonte dos seus belos prazeres, que era ver de binóculos, da sua colina favorita, o ataque à canhoada a Madina do Boé.

Morto o líder histórico, o PAIGC iria proclamar a independência unilateral da Guiné-Bissau,  quatro anos e meio depois, alegadamente em 24 de setembro de 1973, ainda em plena época das chuvas, e "algures" no Boé ou "nenhures" (mais provavelmente já no território da Guiné-Conacri, embora não haja ainda "provas concludentes", mas a fronteira era porosa, como se sabe).

Mais tarde, o PAIGC arranjaria outros topónimos menos polémicos,  ou mais "exóticos" mas "pacíficos": Lugaloje,  Vendu Leidi, Orre Fello... (que ninguém sabe,  mesmo na Guiné-Bissau, e a começar pela gente de Bissau, onde ficam, tirando talvez alguns "tugas", Médicos Sem Fronteiras, etc...). 

É  de notar: o PAIGC, ao que se saiba, não convidou nenhum jornalista independente (tirando uma equipa de cinema sueca). Não há "provas concludentes" de que o local onde onde nasceu a nova pátria, tenha sido o coração do  Boé. Nessa época não havia georreferenciação. Mas nem eram precisas as coordenadas do GPS, para as Nações Unidas aceitarem como "mais do que credível" e consumado o "facto histórico", e carimbarem o nascimento da nova Nação lusófona...

Em Madina do Boé é que nunca foi, apesar da narrativa algo triunfalista e mistificadora do PAIGC na época. 

Durante décadas muita boa gente, portuguesa e estrangeira, aceitou de "boa fé" (como eu, em 1973...) este embuste do partido de Luís Cabral, Aristides Pereira e 'Nino' Vieira.

Pena é que estas  e outras fotos não pudessem circular livremente pelas mãos dos portugueses, nessa época... As nossas mãezinhas, que nos pariram, deviam ter pelo menos o direito de saber por onde é que os desgraçados dos filhos andavam, na Guiné...
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 7 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27711: Fotos à procura de... uma legenda (197): Qual o comprimento e o peso desta píton-africana (ou "irã-cego") apanhada na região de Quínara ? (Boaventura Alves Videira, CCS/BCAÇ 1861, Buba, 1965/67)

(**) Vd. poste de 21 de julho de 2018 > Guiné 61/74 - P18863: Bom dia, desde Bissau (Patrício Ribeiro) (8): Os meus passeios pelo Boé - Parte II: 1 de julho de 2018: Béli (e a Fundação Chimbo Daribó), Dandum, Madina do Boé, Canjadude...

Guiné 61/74 - P27727: Convívios (1048): Almoço/Convívio do pessoal do BCAV 3846 (Ingoré, S. Domingos e Susana, 1971/73), a levar a efeito no próximo dia 15 de Março de 2026, em Aljubarrota (Delfim Rodrigues, ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro)


BCAV 3846 - GUINÉ, 1971/73

ALMOÇO DE CONFRATERNIZAÇÃO 2026

Caros amigos,

Recordaremos desta vez os épicos episódios da nossa história conjunta na Guiné-Bissau, em Aljubarrota. Chegamos há cinquenta e três anos e como se fosse ontem, teremos tempo para, num alegre e animado convívio, fortalecermos a nossa amizade.

O evento ocorrerá no Domingo, dia 15 de março de 2026 e será desta vez no

Restaurante A TABANKA, Quinta das Proenças, ALJUBARROTA

Apelamos a que compareças com a tua habitual alegria, se quiseres com a família e ou amigos, e que nos ajudes a divulgar esta iniciativa por todos os teus amigos que estiveram connosco na Guiné e não receberam este convite. Continuamos com dificuldade em ter a base de dados completa.

O programa será o seguinte:

Chegada e registo a partir das 12h00 e inicio do almoço às 13h00 com:

Entradas variadas (8 variedades)

Bebidas: vinho maduro, vinho frisante, águas, refrigerantes e cervejas

Sopa: legumes ou peixe

Pratos: Bacalhau à Casa ou Polvo à Lagareiro

Carne de vaca estufada ou Lombo de porco recheado

Sobremesas: doces e fruta laminada

Café e digestivos

Pelas 16h30 procederemos à cerimónia de corte do bolo comemorativo acompanhado de espumante, após o que daremos lugar ao encerramento.

O preço será de 40,00€ por bico a cobrar como de costume à entrada.

O único meio de pagamento será em notas visto a organização não ter Multibanco, MBWay, etc

(Crianças de 0 a 5 anos é grátis e de 6 a 11 anos pagam 50%)

Confirma a tua presença com urgência (max. até 7 de março) para:

Carlos Conceição (Xina) - tlm 919 489 378 e email: carlosconceicaonovoa@gmail.com

João Catarino - tlm 919 805 205 e e-mail: catarino.isilva@gmail.com

Abel Mirandatim - tlm 966 963 841 e email: miranda.abel@hotmail.com

Joaquim Monteiro - tlm 964 071 285 e e-mail: monteiro.quito@gmail.com

AVISA TODA A GENTE QUE CONHEÇAS DAS NOSSAS RELAÇÕES NO CTIGUINÉ

Até lá muita saúde!
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Nota do editor

Último post da série de 29 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27683: Convívios (1047): Devido ao temporal que assolou a região Centro, foi cancelado o 110.º almoço-convívio e comemoração do 16.º aniversário da Tabanca do Centro, sexta feira, dia 30 de Janeiro de 2026, na Quinta do Paul, Ortigosa, Monte Real, Leiria

Guiné 61/74 - P27726: Documentos (52): A retirada de Madina do Boé (Paulo Raposo, ex-alf mil, MA, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70)


Guiné > Zona Leste > Região do Boé > Cheche > 6 de Fevereiro de 1969 > A jangada, de reserva, com sobreviventes da tragédia de Cheche, no Rio Corubal, na retirada de Madina do Boé.

Foto (e legenda): © Paulo Raposo (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Paulo Raposo. Op Lança Afiada (Sector L1,
Bambadinca, 8-19 de março de 1969)


1. O Paulo Raposo (Paulo Enes Lage Raposo, de seu nome completo, hoje empresário hoteleiro, Hotel da Ameira, Montemor-o-Novo, onde realizámos o I Encontro Nacional da Tabanca Grande, em 20o6) tem cerca de 7 dezenas de referências no nosso blogue. Vive em Évora, segundo a sua página do Facebook.

Ingressou na Tabanca Grande, juntamente com o Rui Felício, em 12/2/2006.

Foi alf mil at inf, MA, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70), comandandio o 4º Gr Comb. 

Em março de 2006, ofereceu-nos uma cópia de uma brochura, manuscrita,  com o seu testetemunho  como  antigo combatente na Guiné (Parte I)  e a sua visão, mais propriamente política e geoestrátégica, da "guerra de África" (Parte II).

 O documento, policopiado, de 65 páginas, foi elaborado em 1977,  com o processo de descolonização ainda fresco fresco, na memória dos portugueses. Da primeira parte, publicámos 18 postes.

O seu relato da retirada de Madina do Boé e do desastre  de Cheche merece ser aqui destacado, na série "Documentos", em texto com revisão e fixação nossos. 

É nossa intenção reunir na série "Documentos" textos já publicados no nosso blogue, mas que estão dispersos em várias séries... E eventualmente outros, a publicar, da autoria de camaradas nossos que viveram, no terreno, esta tragédia. Começámos com o depoimento do comandante da Op Mabecos Bravios, o então cor inf Hélio Felgas (1920 - 2008).


A retirada de Madina do Boé

por Paulo Raposo


Paulo Raposo
Madina do Boé ficava junto à fronteira da Guiné-Conacri.  A companhia que lá estava [CCAÇ 1790] era flagelada quase todos os dias. Como estavam distantes, a sua capacidade ofensiva tinha sido praticamente anulada pelo IN.

O Comando-Chefe resolveu retirar aquela guarnição. Para a retirada, foi montada uma operação de grande envergadura [Op Mabecos Bravios]

Mais uma vez a nossa companhia [CCAÇ 2405]
foi chamada para tomar parte nessa operação, comandada superiormente pelo então cor inf Hélio Felgas [Comandante do Comando de Agrupamento 2957, de Bafatá]. (**)

Todas as companhias que tomavam parte nesta operação reuniram-se no quartel de Nova Lamego [a meio caminho, entre Bafatá e a fronteira leste, com a Guiné-Conacri]. Lá chegámos todos por fim [em 1 de fevereiro de 1969, domingo], jantámos uma ração de combate e dormimos sabe Deus como. 

Como a operação tinha 10 dias de duração, quando passámos por Bafatá a caminho de Nova Lamego, deitei no correio uma aerograma para os meus pais, para não ficarem preocupados com a ausência de notícias durante aquele período. O aerograma era muito singelo e a minha mãe desconfiou de algo.

Desde que eu embarcara, os meus pais escreviam-me todos os dias, além de outros amigos. Era coisa que melhor nos sabia, receber notícias de casa, quando estávamos a sofrer toda aquela adversidade.

No dia seguinte formou-se a grande coluna e largámos para Madina do Boé. [O cap Hilário Peixeiro, cmdt da  da CCAÇ 2403, diz  que  a enorme coluna partiu às 5h30, a caminho de Cheche, tendo atingido Canjadude às 9h00.]

Mais uma vez a Força Aérea tinha deslocado muitos meios para protecção. Estavam sempre no ar, a acompanhar a coluna, dois T6, fora os helis que andavam no seu vai-vem.

Chegados ao Cheche, junto ao Rio Corubal [por volta das 17h00], encontrámo-nos com um destacamento a nível de grupo de combate, comandado pelo alferes Diniz [José Luís Dumas Diniz, pertencente à CART 2338, Fá Mandinga, Nova Lamego, Canjadude, Buruntuma, Pirada, 1968/69 ].

Para a travessia do rio havia uma jangada, que levava um carro pesado de cada vez. Nós fomos os primeiros a passar para montar a segurança no outro lado da margem. Por ali passámos a noite enquanto os carros da coluna iam atravessando o rio. 

No dia seguinte  [3, terça feira], fizemos a pé o percurso até Madina do Boé. Foram 40 kms.

Aquela estrada parecia um cemitério de Unimogs e de GMCs. Até Madina havia para cima de 15 carros destruídos por efeito das minas. 

Geralmente o carro da frente, nas colunas, era chamado o arrebenta-minas. Ia cheio de sacos de areia para absorver a onda de choque da explosão da mina. O condutor, um voluntário, ia por sua vez, sentado em cima de um saco de areia. O problema às vezes era a falta de protecção das pernas.

Logo de manhã um T6, que nos sobrevoava, avisa-nos que havia IN à frente e portanto que devíamos ter cuidado. Por aqueles lados a vegetação era pouco densa e não havia população.

Em determinada altura sofremos um ataque de abelhas do mato. Foi terrível! O alferes Jorge Rijo [da CCAÇ 2405, cmdt do 1.º Gr Comb] foi o mais massacrado. As abelhas não o largavam, ele bem pedia ajuda, mas ninguém se aventurava. Coitado, mal recomposto lá continuou. Bem podia ter pedido uma evacuação, mas não o fez.

À medida que o dia ia avançando, o cansaço, a fome e a sede iam dando cabo de nós. A noite começou a cair e,  tal como é costume em África, caiu depressa. 

Foi nesta altura que nos começámos a desagregar, uns paravam, outros não, e foi assim que lá fomos chegando ao quartel de Madina do Boé. Entrávamos em pequenos grupos. Se o inimigo andasse por ali, tinha-nos apanhado à mão.

O capitão José Aparício, que comandava o aquartelamento, foi-nos espalhando pelos abrigos, recomendando para só nos deslocarmos entre abrigos pelas valas que por lá havia.

Como a cozinha já tinha sido desmantelada, deram-nos apenas uma sopa que nos soube muito bem. 

Os abrigos, onde dormimos no chão, eram muito abafados, devido a terem umas aberturas muito pequenas. Mais uma noite de primeira.

No dia seguinte  [4 de fevereiro, quarta feira], e com a luz do dia, é que nos apercebemos dos pormenores daquele aquartelamento. Eles viviam como toupeiras. As partes laterais dos abrigos tinham uns troncos de palmeiras deitados para se protegerem quando respondiam ao fogo em caso de ataque.

Estes troncos estavam todos queimados por cima. Nos ataques mais prolongados que tinham tido, e que foram muitos, as armas faziam tanto fogo e ficavam tão quentes que queimavam os troncos de palmeira.

Ainda rebentados da véspera, não nos deram descanso e lá nos mandaram ainda mais para Sul, precisamente para junto da fronteira, para fazer protecção avançada. 

Ali passámos 24 horas  [no dia 5, quinta feira], tempo necessário para as viaturas chegarem e serem carregadas com tudo o que a Companhia tinha.

Estas 24 horas foram passadas no maior silêncio pois o inimigo andava por perto. No nosso rádio bem o ouvíamos, em francês, a incitarem-se para nos atacarem.

No exterior e à volta de Madina do Boé, havia vários abrigos feitos e utilizados pelo inimigo para estarem mais protegidos quando lançavam qualquer ataque ao aquartelamento de Madina.

Por fim veio o regresso [dia 6, sexta feira].

De madrugada deram-nos ordem para fechar a coluna que já estava a serpentear a estrada. 

Se a nossa companhia [CCAÇ 2405] fechava a coluna, o meu grupo de combate [o 4.º, da CCAÇ 1790foi o último. 

Foi assim que a posição de Madina do Boé foi abandonada.

A nossa progressão até ao Rio Corubal, os mesmos 40 kms, foi novamente penosa, embora não tão perigosa uma vez que íamos todos em bloco.

Recordo-me que a coluna à vinda tinha levantado várias minas e, curiosamente, no regresso levantaram-se mais umas tantas, lá colocadas entretanto pelo inimigo.

Estacionámos na margem sul [ou esquerda], do rio Corubal, nós e a companhia de Madina [CCAÇ 1790], durante toda a noite para protecção. 

Durante a noite a jangada foi transportando para a outra margem todas as viaturas. Já de madrugada [do dia 6 de fevereiro de 1969, sexta feira] e,  passados todos os carros, foi a nossa vez de atravessar o rio.

Como tínhamos por hábito rodar as nossas posições assim que parávamos, a nossa companhia [CCAÇ 2405] passou para a frente da de Madina  [CCAÇ 1790], e o meu grupo de combate, por sua vez, passou para a frente da minha companhia.

Com o meu grupo de combate na frente, a companhia dirigiu-se para a jangada para fazer a travessia. A jangada já estava praticamente cheia e só coube o meu grupo.

Para trás ficaram dois grupos da minha companhia [CCAÇ 2405, o 1.º do alf Rijo e o 3.º, do alf Felício] e toda a companhia de Madina [CCAÇ 1790]. (***)

Durante a travessia aproveitámos para nos lavarmos um pouco e encher o cantil de água. Uma vez terminada a travessia, a jangada regressou para ir buscar o resto do pessoal.

Como ninguém quis ficar para trás, entre os que estavam do outro lado do rio, entraram juntos na jangada, para a última travessia.

Aqui facilitou-se. Eu estava do outro lado e assisti a tudo.

A jangada, ainda a poucos metros da margem, adornou para um dos lados (nascente) e atirou à água vários rapazes. Por falta de peso de um dos lados, a jangada adornou de repente para o outro lado, atirando outros tantos rapazes à água.

Depois disto a jangada ficou meio submersa. A meu lado estava um major (****)  que deitou as mãos à cabeça e disse: 

- Deus meu!

Como não vi ninguém a gritar ou a esbracejar, pensei para mim que talvez se tivessem afogado um ou dois rapazes. A jangada que estava de reserva, foi por duas vezes buscar o pessoal [vd. foto acima].

No Cheche estavam no chão dois helis que levantaram voo, nada podiam fazer ou ajudar.

Uma vez formadas as companhias, é que demos conta da extensão da tragédia: 45  homens afogados de ambas as companhias [na realidade, 47: 19 da CCAÇ 2405 e os restantes 28 da CCAÇ 1790, incluindo um assalariado civil].

Com as botas, o peso da cartucheira, das granadas e ainda a responsabilidade de não perder as armas, aqueles rapazes à medida que iam entrando na água, iam logo para o fundo, agarrando-se uns aos outros.

Pelo menos um dos rapazes da nossa companhia estava em França a trabalhar e regressara a Portugal só para cumprir o seu dever. Ali ficou.

A minha mãe,  assim que soube da notícia associou com o meu aerograma e ficou muito aflita. Telefonei-lhe de Nova Lamego para a descansar.

Acabada esta operação, quiseram responsabilizar pelo sucedido o capitão José Aparício e o alferes miliciano José Luís Dumas Dinis (*****).

Quem lá estivesse, tinha feito o mesmo. Só quem está metido nelas é que sabe da sua vida.

Acho que as ambições do brigadeiro Spínola aqui funcionaram em pleno. Ele não quis ficar com aquela nódoa na sua folha de serviço, pois já devia aspirar a voos mais altos, com Caetano no poder e Tomás no fim de um mandato.

Deixo aqui um pormenor que dá bem a ideia das voltas que o mundo dá.

Na sequência do 11 de março de 1975, Spínola segue para o Brasil, exilado. Com o general Eanes na Presidência é combinado o seu regresso a Portugal. Quem é que o vai buscar ao aeroporto? O ten cor Aparício, comandante distrital da PSP de Lisboa. Acasos do Destino.

Regressámos à nossa rotina das tabancas em autodefesa.

Extractos de: Raposo, P. E. L. (1997) - O meu testemunho e visão da guerra de África.[Montemor-o-Novo, Herdade da Ameira]. Documento policopiado. Dezembro de 1997. 27-31.

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, negritos, título : LG)
__________

Notas de L.G.

(*) Vd. poste de 7 de junho de 2006 > Guiné 63/74 - P854: O meu testemunho (Paulo Raposo, CCAÇ 2405, 1968/70) (10): A retirada de Madina do Boé

(**) Último poste da série : 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27717: Documentos (51): A retirada de Madina do Boé (Hélio Felgas, maj-gen, 1920-2008)

(***) "A Companhia de Madina [a CCAÇ 1790] seria a última a fazer a travessia, juntamente com dois Gr Comb da CCAÇ] 2405" (vd. poste P27717, com o depoimento de Hélio Felgas).

José Aparício, cmdt da CCAÇ 1790, por sua vez, fala em 80/90 homens (o que é pouco para 4 Gr Comb):

(...)  "No início da manhã de 6 [e não na tarde de 9] de Fevereiro de 1969, na última e fatídica viagem, embarcaram a parte que restava dos militares das CCaç 2405 e da CCaç 1790, cerca de 80 a 90 militares." (...)

A lotação máxima da jangada, em teoria, eram 50/60  homens  equipados (com armas, cartucheiras, cantis, camuflado, botas); mas estava preparada para "aguentar" 10 toneladas, diz o Hélio Felgas no seu depoimento.

O Rui Felício diz que foram 4 grupos de combate (no áximo 120 homens), a embarcar na jangada na última travessia.

(...) "As jangadas eram consideradas muito seguras e incapazes de se voltarem ou afundarem, desde que não fossem excessivamente carregadas.

Calculava-se que aguentariam um peso de dez toneladas. Mas para maior segurança a Ordem de Operação proibia que fossem transportados mais de 50 homens de cada vez. " (...)  (vd. poste P27717, com o depoimento de Hélio Felgas).

(****) Há dúvidas sobre quem seria este major....   O 2.º Comandante da Operação?  Se sim, estava na margem norte, com o Paulo Raposo. O Rui Felícío diz que houve uma major que deu ordem ao alf Felício para levar toda a gente (4 Gr Comb) na última viagem. Mas, mais tarde, admitiu que podia estar a fazer confusão. Na última travessia haveria apenas dois oficiais, com posto acima de alferes: o cap inf José Aparício (CCAÇ 1790) e o cap mil  inf José Jerónimo (CCAÇ 2405).

O Hélio Felgas não refere o nome de nenhum 2.º cmdt da operação. Poderia ser o maj inf  Cristiano Henrique da Silveira e Lorena, 2º cmdt e comdt do BCAÇ 2835 (Nova Lamego, Sector L3, que incluía o subsetor de Madina do Boé, 1968/70)?

 (*****) O único que foi julgado (e, felizmente, absolvido), no 3.º Tribunal Militar Territorial de Lisboa, em 1970, era o elo mais fraco da cadeia de comando, o alf mil José Luís Dumas Diniz, da CART 2338. (O gen António Spínola, em 1970,  testemunhou a seu favor).

Segundo o testemunho do Rui Felício, o major, 2.º cmdt da Op Mabecos Bravios (de que ele não sabia o nome) "puxou dos galões" e teria obrigado  o alf Diniz a autorizar que fosse  toda a gente (4 Gr Comb) na última travessia, com o argumento de que já era tarde... Esta versão foi depois revista pelo Rui Felício. As pressões sobre o Diniz só podiam ser de um dos dois  capitães. Ou de todo pessoal que estava impaciente por embarcar. Para esclarecer este ponto (fundamental), teríamos que ter acesso os autos do processo judicial.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27725: Historiografia da presença portuguesa em África (516): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1960 (74) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Agosto de 2025:

Queridos amigos,
Folheia-se de fio a pavio esta caterva de edições de 1960 e parece que se vive habitualmente, são repetidas as informações quanto à legislação do Ministério do Ultramar, o sistema de Previdência, o reforço de verbas, sucessivas nomeações e aberturas de concursos, anuncia-se o recenseamento geral da população e fica-se igualmente a saber que a Fundação Calouste Gulbenkian apoia a campanha contra a tuberculose, mantém-se alguma vigilância nos preços, em novembro o Ministro da Presidência, Pedro Teotónio Pereira, visita a Guiné, desconhecem-se por enquanto os motivos da visita, por aqui já tinha passado uma comissão militar de que fazia parte o Coronel Francisco da Costa Gomes para avaliar a natureza dos meios existentes e o que se impunha refazer na eventualidade de estalar a subversão, mas isso não consta no Boletim Oficial, as referências à eclosão de guerrilha em Angola aparecerão no Boletim Oficial de 1961, ano em que o Secretariado-Geral da Defesa Nacional dá como justificada a necessidade, em caso de guerra ou de emergência, chamar à colaboração com as Forças Armadas um corpo de voluntários.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1960 (74)


Mário Beja Santos

Podemos dizer que 1960 regista no Boletim Oficial da Guiné a rotina de uma colónia que vive na normalidade, com uma economia que ainda não sofreu convulsões, chegaram escassos efetivos militares, mas ainda não há uma atmosfera declarada de subversão. Daí os sucessivos números do Boletim Oficial falarem da Caixa de Previdência dos Funcionários Públicos da Guiné, dos acórdãos do Conselho Superior de Disciplina do Ultramar, acentua-se a publicação da legislação emanada do Ministério do Ultramar, há reforço de verbas, nomeações, concursos, publicou-se o Regulamento dos Colonatos Indígenas da Guiné, que tem por base um casal agrícola que compreenderá casa de habitação, terreno de cultura e poço. Anuncia-se o Recenseamento Geral da População; a Fundação Calouste Gulbenkian irá apoiar a campanha contra a tuberculose. Por conseguinte, tudo segue dentro de um velho normal.

No Boletim Oficial n.º 2, de 6 de janeiro, informa-se que o Ministro do Ultramar aprovou a emissão de notas para a Guiné, notas de 50, 100 e 500 escudos, com a efigie de Teixeira Pinto. No Boletim Oficial n.º 3, de 16 de janeiro, ficamos a saber como vai funcionar a Comissão de Censura, a censura à imprensa e aos espetáculos passará a ser feita na Guiné por uma única comissão com a constituição igual à da atual Comissão de Censura à Imprensa, há direito ao abono e gratificações. Dá-se a composição da comissão com presidente e vogais, ficamos a saber que o administrador do Conselho de Bissau exercerá a censura à imprensa periódica, revistas, ilustrações, magazines e publicações similares; o padre José Maria da Cruz Amaral terá competência na censura aos espetáculos.

No Boletim Oficial n.º 11, de 15 de março, publicam-se os estatutos do “Desportivo Clube de Bafatá”, agremiação recreativa-desportiva, recentemente fundada, a sua finalidade é promover e praticar todos os jogos desportivos e recreativos adaptáveis ao meio e promover passeios e festas para distração dos sócios, expansão do espírito associativo e progresso de Bafatá.

Cresce notoriamente a onda clubista. No Boletim Oficial n.º 28, de 9 de setembro, fica-se a saber que surgiu o “Club Desportivo e Recreativo do Gabu”; à semelhança do que vimos para o clube de Bafatá, o do Gabu tem as mesmas finalidades.

É agora o momento azado para falar do Recenseamento Geral da População, consta do Boletim Oficial n.º 50, de 10 de dezembro. Atenda-se aos pontos principais desta matéria:
“O Recenseamento Geral da População não autóctone realizar-se-á no próximo mês de dezembro de 1960, em data a afixar. Este recenseamento será precedido de um reconhecimento do território feito por meio de um inventário de prédios e fogos. Aos administradores de circunscrição e concelho incumbe a fiscalização das operações do recenseamento. Em todos os fogos deverá ser entregue, conforme os casos, um boletim de família ou de convivência, mas, se por qualquer motivo essa entrega se não verificar, o chefe da família ou da convivência requisitá-lo-á à autoridade administrativa. Constitui transgressão estatística a recusa de informações pedidas, o preenchimento inexato ou incompleto dos boletins de família ou de convivência. Os naturais da província, para serem incluídos no censo, deverão exibir o antigo cartão de assimilado ou fazer prova de que são cidadãos. Os indivíduos da raça negra ou dela descendentes, de territórios estrangeiros, para serem incluídos neste censo, farão a prova de que são cidadãos à face da sua lei nacional.”

Em Portaria subsequente, o encarregado do Governo, o Coronel de Cavalaria Luís Alberto Filipe Rodrigues, manda publicar providências orientadoras da execução do Censo Geral da População. “Não sendo embora totalmente diferentes as condições de realização do Censo da População autóctone e da não autóctone, a experiência recomenda que sejam separadas as operações concernentes à população autóctone da não autóctone.” E daí a coordenação dos diferentes censos terem pessoas diferentes.

Já estou a folhear o Boletim Oficial referente a 1961, não se perceciona qualquer atmosfera de agitação ou alarme, fala-se das condições de venda e preço do arroz de pilão; há menção de uma guerra em Angola no segundo Suplemento do Boletim Oficial n.º 15, datado de 18 de abril; e há também um Decreto-lei, o n.º 43568, do Secretariado Geral da Defesa Nacional onde se diz que em caso de guerra ou emergência poderá justificar-se a necessidade da população civil ser chamada, em regime de voluntariado, a colaborar com as forças armadas, e assim sendo cria-se em cada uma das províncias ultramarinas um corpo de voluntários.

O Ministro da Presidência, Pedro Teotónio Pereira, chega à Guiné em 15 de novembro
Velho Mandinga
Os famosos cetros dos reis Biafadas

Estas quatro imagens são provenientes do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa de 1960.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 4 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27701: Historiografia da presença portuguesa em África (515): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1959 (73) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27724: Foi há... ( 9): 57 anos: a retirada de Madina do Boé, vista pelo fotógrafo Hélio Felgas, na altura, cor inf, cmdt da Op Mabecos Bravios e do Cmd Agrupamento 2957 (Bafatá, 1968/70) - II (e última) Parte


Foto nº 2 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > c. 4/5 de fevereiro de 1969 >  Op Mabecos Bravios: apoio da FAP, na retirada do aquartelamento de Madina do Boé,  guarnecido pela CCAÇ 1790 (Madina do Boé, 1967/69) > Manobra de diversão, com os helis a simular a largada de tropas paraquedistas nas colinas que ladeavam o aquartelamento de Madina.

(...) "Fui para Madina na manhã da véspera do dia D. [ O dia D era 1 de fevereiro de 1969. ] Comigo foram 5 helicópteros pois eu queria executar com eles uma operação de diversão que consistia e, por duas ou três vezes, enviar os helis (vazios) para os locais de onde o PAIGC costumava bombardear o aquartelamento. Dava assim a ilusão de que estava colocando forças nesses locais, em emboscada.

A medida deve ter resultado pois nessa noite não houve bombardeamento a Madina.

Foi em completa calma que a complexa coluna auto se formou, com a parte dianteira já na estrada do Cheche.

Ao amanhecer iniciou-se o movimento com as viaturas e respectivos reboques completamente carregados e a grande maioria dos homens a pé.

Como era costume eu seguia à frente com o meu guarda-costas e o homem do posto-rádio. Só os picadores nos precediam, picando cuidadosamente a estrada com compridos ferros pontiagudos. E excelente trabalho fizeram pois nenhuma mina rebentou embora tenham sido levantadas 12 ou 14. (...)" (*)
 

Foto nº 3 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > s/d      Não temos a certeza de a foto ter sido tirada na altura da retirada de Madina do Boé. Se sim, terá sido a última missa celebrada neste histórico aquartelamento.

No livro da CECA sobre a atividade operacional no período que vai de 1967 a 1970, pág.  353, a legendagem da foto, sem data, diz o seguinte: "CCaç 1790: missa em Madina do Boé celebrada pelo Capelão-Mor das FA, brig Reis Rodrigues"

Fonte: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da Actividade Operacional: Tomo II - Guiné - Livro I (1.ª edição, Lisboa, Estado Maior do Exército, 2014), pág. 353.

O celebrante era, pois, António dos Reis Rodrigues (1918-2009), um dos homens mais influentes da hierarquia eclesiástica de então: 
  • assistente eclesiástico da Juventude Universitária Católica (JUC) (1947-1965);
  • capelão (desde 1947) e professor da Academia Militar (onde leccionava Deontologia Militar e Ética);
  • procurador da Câmara Corporativa, na VIII Legislatura (1961/65), como representante  da Igreja Católica;
  • responsável pelo programa religioso da RTP (até 1966);
  • nomeado em 1966 bispo auxiliar de Lisboa, sob o título de Bispo de Madarsuma, com as funções de Capelão-mor das Forças Armadas (1967-1975);
  • diretor da revista Flama;
  • temos uma foto com ele a dizer missa em Gandembel, no Natal de 1968.


Foto nº 4 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > c. 5  de fevereiro de 1969 >  Op Mabecos Bravios: retirada do aquartelamento de Madina do Boé, guarnecido pela CCAÇ 1790 (Madina do Boé, 1967/69) > Homens e material prontos para deixar a mítica Madina do Boé, numa coluna de mais de meia centena de viaturas.


Foto nº 5 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > s/d  >  A foto não deve ter sido tirada no decurso da Op Mabecos Bravios (retirada do aquartelamento de Madina do Boe, guarnecido pela CCAÇ 1790, Madina do Boé, 1967/69) > São momentos dramáticos depois da deflagração de uma mina A/C  na estrada Cheche - Madina do Boé... 

Pelo contrário, deve ter tirada em colunas anteriores. de abastecimento a Madina do Boé (e por mês, na época seca).  Não temos notícia de deflagração de minas, A/C ou A/O, no decurso da Op Mabecos Bravios (de 2 a 7 de fevereiro de 1969). O cor Hélio Felgas já visitara antes Madina do Boé, e pernoitara lá, inclusive. (*) 


1. São fotos, históricas, do  comandante da Op Mabecos Bravios,
 o então cor inf Hélio [Augusto Esteves ] Felgas (1920-2008) (foto à direita).

Reproduzidas com a devida vénia de Camões - Revista de Letras e Culturas Lusófonas, nº 5,  abril-junho 1999, pp- 8-15 (publicação editada pelo Instituto Camões; o nº 5, temático, foi dedicado ao "25 de Abril, revolução dos cravos").

Vêm inseridas num artigo do jornalista e escritor José Manuel Saraiva, "Excertos de Guerra", pp. 8-15, na citado número da revista Camões. (Seria mais tarde o autor do documentário, de longa metragem, que passou na SIC, em 2009, Madina do Boé - A retirada e em que, ainda antes de morrer, participou o Hélio Felgas)
 
Já publicámos anteriormente a primeira, nos pareceu merecer maior destaque (*P). Publicamos hoje as restantes fotos (4 das 5),  tiradas pelo então cor inf Hélio Felgas, comandante do Agrupamento 2957 (Bafatá, 1968/70)  e comandante da Op Mabecos Bravios (retirada de Madina do Boé, 2 a 7 de fevereiro de 1969).

Ficamos a saber que o  major-general Hélio Felgas era também um fotógrafo, amador,  de grande talento, sensibilidade e qualidade. 

Redescobri, há 10 anos atrás,  esta e outras fotos  num artigo do jornalista (antigo combatente no CTIG)  José Manuel Saraiva. A quem devemos estar  gratos por  ter sido um dos primeiros a atirar uma pedrada no charco do "silêncio" (e "silenciamento"...) a que foi votada a guerra colonial depois do 25 de Abril como tema de partilha de memórias e debate. Não foi o primeiro... Muito antes dele, uma década antes, o jornalista Afonso Praça levou a cabo uma iniciativa inédita, arrojada, contra a corrente e até contra os interesses do jornal onde trabalhava... 

Em boa verdade, foi o audoso jornalista e escritor Afonso Praça (Torre de Moncorvo, 1939 - Lisboa, 2011) (ele próprio antigo combatente em Angola) quem criou no iníco dos anos 80 uma secção semanal (ou um suplemento) que ocupava duas páginas, ilustradas, justamente intitulada "Memórias da Guerra Colonial", no extinto semanário "O Jornal", consideradpo próximo do Grupo dos Nove. Ainda existia o Conselho da Revolução (14 de março de 1975- 30 de setembro de 1982). 

Colaborei, entusiástica e regularmente, com o Afonso Praça, no desenvolvimento e manutenção desta iniciativa pioneira a que começaram a aderir diversos antigos combatentes.  Publicou-se uma dúzia de edições (durante perto de três meses, tenho que confirmar). 

Houve, entretanto,  pressões para acabar com a secção, confidencipou-me o Afonso Praça. Teriam vindo de alguém, com muito poder, do Conselho da Revolução ( nessa altura, o presidente deste órgão,k que tutelava a nossa democracia, era o gen Ramalho Eanes).

 Prometo voltar ao assunto, um dia destes. Mas foi aí, talvez, que começou o princípio da "democratização" da(s) memória(s) da guerra colonial... e que nasceu,  no meu caso, o "bichinho" da Guiné...

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