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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28244: (Ex)citações (448): Guiné: Na linha do tempo (José Saúde)


1.   O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem. 

Camaradas, 

Na linha do tempo 

 
Beja, antiga Pax Júlia, é uma cidade por onde passaram muitos dos camaradas militares que tiveram como destino o território da Guiné

Na linha do tempo 

Na linha do tempo, sempre finita para um ser vivo, recorro a ímpetos históricos e revejo-me absorvido pelas origens de uma cidade, onde habito, que foi fundada 400 anos a.C. pelo povo celta. Descreve a história que os Cónios, denominados, como os Cornistorgis, foram uma população que, nesses recuados tempos, coabitaram no burgo. No século III, também a.C., foram os cartagineses que terão restabelecido o maior tempo de permanência no lugar, sendo, contudo, a civilização romana aquela que romanizou as populações por ali existentes.

O nome de Pax Júlia surge intrinsecamente ligado ao período do Império Romano. Pax Júlia teve honras de metrópole e de uma enorme grandiosidade na Península Ibérica, albergando então uma das três jurisdições romanas da Lusitana. O Imperador Augusto terá sido o homem que deu origem ao nome de Pax Júlia. No ano de 1162 os cristãos reconquistaram o burgo e em 1524, a cidade recebeu o foral, mas antes, 1517, já tinha sido elevada a cidade.

Poder-se-á afirmar, com elevada segurança, que Beja foi berço de notáveis famílias. J de pedagogos e de humanistas na era do Renascimento. Diogo Gouveia, Francisco Xavier, conselheiro dos reis, D. Manuel I e de D. João III de Portugal, André Gouveia e António Gouveia, sintetizam algumas das figuras que brilharam no palco do humanismo em Portugal.

Conta a história que a primeira restauração dos muros de Beja, teve lugar no reinado de D. João III com recursos oriundos, por 10 anos, de dois terços dos dízimos das igrejas existentes, à época, na velhinha urbe. Diz ainda a lenda Beja, que esta foi uma pequena localidade rodeada por matagais onde uma cobra assassina se apresentava como um dos maiores problemas, e dúvidas. para a população em geral, sendo que solução do dilema passou por assassinar a serpente. O efeito gerado terá originado a morte de um touro que envenenado pela serpente, sucumbi-o. Neste contexto, eis-nos perante o brasão da cidade que exibe a presença de uma cabeça de touro. 

1ª página do jornal “República”, 2 de fevereiro de 1962, Recorte recolhido, com a devida vénia, por via da Internet

A história do Regimento de Infantaria (RI3), em Beja, é longa e a sua origem remonta ao ano 1648. É óbvio que não entramos pelo fastidioso texto em atravessar o campo da pormenorização. Mas, há um feito aventureiro que marcou o Estado Novo: o assalto ao quartel na noite de 31 de dezembro de 1961 para o de 1 de janeiro de 1962.

Tinha então11 anos e lembro-me desse acontecimento. Morava com a minha tia Maria, o marido, tio António, e filhas, Isabel e Ana, na Rua Ramalho Ortigão nº1, uma rua que nos conduz a outros pontos do Sul do país.

A missão teve como um dos principais protagonistas o capitão Varela Gomes (1924-2018). O assalto tinha incumbência uma ação contra o Regime. Na aventureira intentona participaram Manuel Serra, que antes tinha chefiado os civis no Golpe da Sé, o major Francisco Vasconcelos Pestana, o capitão Pedroso Marques, o tenente Brissos de Carvalho e Fernando Piteira Santos. No golpe estiveram envolvidos alguns civis, só que o objetivo não correu de acordo com os planos previamente delineados. Houve “negas” de última hora, resultando da negação dos militares, que viraram o bico ao prego, dois mortos ao que se soube. O major Galapez, segundo comandante do quartel, fez resistência, o golpe falhou e Varela Gomes foi gravemente ferido.

Com o rebentamento da guerrilha Ultramarina, primeiro em Angola, seguindo-se Moçambique e depois Guiné, constata-se que o RI3, de Beja, terá sido um antro onde foram depositados ao longo dos anos milhares de jovens camaradas com destino às três frentes de guerra. Ao largo da década de 1960 e princípios dos anos de 1970, tive a oportunidade de ver magotes de jovens rapazes que chegavam à velha Pax Júlia para se iniciarem no serviço militar obrigatório.

Envergando uma farda verde, uma boina que por vezes pouco ou nada se enquadrava com o perímetro da cabeça, de cabelo rapado e calçando umas botas militares de delgada memória, o jovem, feito militar à força, passeava-se pelas ruas da cidade e regozija-se pelo estatuto de homem valente. Enchia o peito e sentia-se já um defensor da Pátria. Por outro lado, a plebe, mais humilde que o fosse, via-os com alguma tristeza perante o futuro próximo do rapazito recém-chegado às fileiras do exército, sabendo o povo que o seu porvir passava consequentemente pela fatídica guerra além-fronteiras.

Ficava, porém, a certeza de que parte deles arranjava namoricos, alguns com criadas de servir em lares abastados, ou seja, de senhores endinheirados, outros ficavam-se pelo pedido de madrinhas de guerra, sabendo eles que ida para a guerrilha estava tão próxima, outros passeavam-se vaidosos pela cidade, outros dispersavam-se pelos cafés e cervejarias. Seguia-se a especialidade e o adeus deste cantinho à beira-mar plantado. E terão sido muitos dos camaradas que no RI3 iniciaram o facto de se tornarem militares. 

Quartel de Gabu envolvido numa selva que nunca “dorme" 

Tocadores improvisados acertavam as mãos nos instrumentos e os camaradas… gostavam!

Guiné esperou-nos

Dando continuidade à linha do tempo, nós antigos combatentes no território da Guiné, concretamente, somos pessoas que nos deparámos com uma selva que nunca “dorme”, que vimos as estrelas a brilhar num breu de uma noite repleta de mistérios, ou uma trovoada noturna onde proliferava o recurso aos nossos “ponchos”. que ouvimos os barulhos estridentes das armas de guerra, que contemplámos situações que jamais esqueceremos, ou de momentos, quiçá únicos, onde os divertimentos vinham à baila, principalmente em tardes de calor intenso onde dar uns toques numa bola se assumia como um prazer enorme, ou das noites passadas na messe de sargentos, onde o toque dos tocadores “deliciaram” a malta, momentos de laser que nos preenchia uma alma que se esvazia num tempo que, entretanto, se esgotava em tácitos objetivos que todos ambicionávamos.

Hoje, resta-nos perspetivar um amanhã melhor, já que as curvas das nossas vidas se limitam à esperança de continuámos a viver.    


José Saúde,
Abraços camaradas,
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 

__________

Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28092: (Ex)citações (447): O pessoal das transmissões: músicos, de talento (tirando eu que só tocava ferrinhos): o que é é feito de vocês, camaradas, Luís Dutra (já falecido), Eduardo Pinto, Victor Barros, Carlos Lã, Fernando Cruz, Fernando Marques, António Camilo, Miguel Pacheco, José Fanha, Nélson Batalha (já falecido), e outros, do meu curso de transmissões... (Hélder Sousa)


quarta-feira, 24 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28128: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (8): tropas e paisanos, e "a Guiné...para os guinéus"

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Foto nº 1 >  Foto de grupo, tirada à porta da igreja de Bafatá (pormenor)


Foto nº 1 B > Possivelmente, os pais (na segunda fila, do lado direito),  avós (nma terceira fila, de óculos escuros) e familiares e amigos da criança, mais o padre, missionário (em primeiro plano, à direita). A jovem mãe seria de origem libanesa.


Foto nº 1 > Foto de grupo, tirada à porta da igreja de Bafatá 


Foto nº 1 C > Foto de grupo, tirada à porta da igreja de Bafatá (pormenor): o Fernando Andrade Sousa é o primeiro da esquerda; o Joaquim Vidal Saraiva (alf mil médico) é o segundo da última fila, de óculos escuros e boné, Há mais 3 militares, fardados, que não identificamos. À esquerda do do Vidal Saraiva, pode ser o José Carlos Lopes, o ex-fur mil dos reabastecimentos...


Foto nº 1 D > Os padrinhos e a criança (ao colo da professora  Dona Violete)


Foto nº 2 > O almoço do batizado na casa dos pais da criança, em Bambadinca... Pelo que se depreende da visualização da imagem, a cerveja Cristal era muito popular na época... Se calhar, era por ser a mais barata... Os comerciantes de Bambadinca também estavam muito dependentes da tropa para efeitos de logística e segurança: os barcos civis que chegavam a (e partiam de) Bambadinca tinham segurança militar, pelo menos em dois pontos do rio Geba: Mato Cão e Ponta Varela...


Foto nº  2 A > O almoço do batizado na casa dos pais da criança, em Bambadinca (pormenor): um civil, em primeiro plano (talvez irmão ou cunhado da mamã libanesa), e o alf mil médico, Vidal Saraiva, já à civil.


Foto nº 2 B >  O almoço do batizado na casa dos pais da criança, em Bambadinca: O Fernando Andrade, de bigodinho, é o terceiro... (Ele já não se lembrava do bigodinho, à margem do RDM...). 

Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca) > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > Batizado de um filho de um casal de comerciantes de Bambadinca, para o qual foram convidados alguns militares da CCS/BCAÇ 2852 e da CCAÇ 12. Por volta de finais de 1969. A mãe da criança era libanesa, o pai possivelmente era português de origem metropolitana, talvez até transmontano (o padrinho, o alf mil Carlão,  era de Mirandela)  (Foto nº 1 B)...

Fotos: © Fernando Sousa (2018). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 3 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Bambadinca >  Abril de 1965 (?) > Festa da primeira comunhão > A menina branca, filha do chefe do posto de Xitole, ladeada pela Professora Primária Dona Violete (à esquerda, de óculos escuros) e a esposa de um dos comerciantes locais (à direita).



Foto nº 4 >Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Bambadinca > Foto nº 3 > Abril de 1965 (?) > Capela local > Um grupo de meninos e meninas (só uma das quais é branca, filha do chefe de posto do Xitole, a frequentar a escola primária em Bambadinca), no dia da comunhão solene, devidamente enquadrados por uma freira, católica, muito possivelmente missionária e estrangeira (italiana?)
 
Fotos do álbum do ex-Fur Mil At Manuel Bastos Soares,  natural de Vila Nova de Gaia e residente na Maia.
 
Fotos (e legendas): © Manuel Bastos Soares (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar. Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Foto nº 5 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá> Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Parada do aquartelamento, frente à escola primária > Memoriais de unidades que passaram por Bambadinca 

Foto (e legenda): © Humberto Reis (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legemdagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Nunca vi o chefe de posto de Bambadinca. Diziam que era cabo-verdiano. Tal como a professora primária, Dona Violete. E provalmente o encarregado da Casa Gouveia. Sei que havia uma pequena comunidade cabo-verdiana em Bambadinca. E que era cristã. Também havia, pelo menos, uma família de origem sírio-libanesa. Civis, "paisanos",  comerciantes, incluindo o Fernando Rendeiro (casado com uma guineense, mandinga, e pai de uma ranchada de filhos) e o Zé Maria (que a tropa dizia que era "turra"). De origem metropolitana, estes dois últimos. Mas todos apartados da hierarquia militar. Havia 7 casas comerciais em Bambadinca mas eu nunca as contei.  Também nunca vi o administrador de Bafatá (Guerra Ribeiro, transmontano de Chaves; será depois promovido a intendente).

Nunca vi o chefe de posto nem  a professora, que viviam connosco dentro do perímetro de arame farpado, serem convidados para cerimónias militares ou festas no quartel (Natal, por exemplo). 

Racismo, segregação, discriminação ?... Temos de ser cautelosos com as palavras e sobretudo evitar os "chavões" e o "sociologuês"...

Na metrópole, militares e civis também não conviviam... Como eu costumo dizer, simplificando a realidade, éramos os "três estados": clero, nobreza e povo...Na minha terra, eu também nao convivia com a elite local, e muito menos comia á sua mesa, encontrávamo-nos apenas na igreja, mesmo assim em espaços segregados...

Na Guiné, os oficiais e os sargentos milicianos e as praças  eram mais abertos e conviviam, informalmente, com os civis. Nalguns casos, poderia haver afinidades (pessoas da mesma terra ou região). Falo de Bambadinca, onde estive, de julho de 1969 a março de 1971. 

O Rodrigo Rendeiro, que estava na Guiné desde os 17 anos, e que era natural da Murtosa, convidava alguns de nós, milicianos, para comer o seu famoso "chabéu de galinha". Mas nunca nos apresentou a cozinheira, que era a mãe dos seus filhos. Teve uma aventura rocambolesca que já aqui contámos, quando se conseguiu evadir dos "libertadores" do PAIGC... Já faleceu. Mais recentemente ficámos a saber que tinha sido "informador" da PIDE/DGS e que terá tido problemas ainda na Guiné a seguir ao 25 de Abril. (A propósito, o Anjos de Carvalho,  em 1973, aparece em listas dos colaboradores militares, remunerados, da censura para as obras literárias...).


2. As fotos acima mostram uma cena, que já em tempos cataloguei, há dez anos atrás (*), como  "algo insólita", no TO da Guiné, numa zona de guerra, em Bambadinca, uma festa de batizado para a qual (tal como  na boda), como se costuma dizer, só vão os convidados... 

Mas,  como todas as "fotos de família", estas têm algo de ternurento... Perguntei-me na altura: quem seriam  estas pessoas, por onde andariam então (em 2016)... Algumas, eu conhecia-as, tinham sido meus camaradas... E dos civis, meus vizinhos, nem sequer tinha uma vaga lembrança... 

Afinal, morávamos perto, uns dos outros, durante, quase dois anos... Espantoso: eu vivia a 100 metros da escola, nunca vi, "ao vivo", a professora dona Violete (nem a sua mãe, que vivia com ela, na "casa da professora", anexa à escola primária, as duas enclausuradas). Tal como nunca vi o chefe de posto, nem me lembro de ter entrado no seu "estaminé" (que, se não erro, era junto ao depósito de água e à escola)..

O Fernando Andrade Sousa (ex-1º cabo aux enf da CCAÇ 12, 1969/71), que vive na Trofa (e que está doente, infelizmente, ele que foi uma dos mais entusiásticos participantes e organizadores dos convívios anuais do pessoal de Bambadinca desde os anos 90),  já não se lembrava  bem de toda a gente, muito menos dos civis. 

Disse-me ao telefone que;

(i) ele e o alferes Carlão eram os únicos representantes da CCAÇ 12; 

(ii) o Carlão fora convidado para padrinho possivelmente por ser da terra ou da região (Trás-os-Montes) de alguém da família da criança (pai ou avós);

(iii) a criancinha batizada era da "Casa Libanesa", de Bambadinca;

(iv) ele,  Fernando, "caiu lá de paraquedas", foi convidado porque fazia parte do pessoal do serviço de saúde, cujo chefe era o alf mil médico Joaquim Vidal Saraiva, da CCS/BCAÇ 2852 (que deve ter feito o parto, e que acabaria a comissão em maio de 1970) (**);

(v) o Silvino Aires Lopes Carvalhal (fur mil, SAM, CCS/BCAÇ 2852) também esteve presente;

(vi)  ficou de me mandar (mas não mandou...) mais fotos deste "batizo"  

O casal libanês  (ou ela, de origem libanesa, e o pai, português da metrópole, transmontano) que vivia em Bambadinca, moravam possivelmente numa das casas junto à rampa de acesso ao quartel,  do lado direito (no sentido descendente), talvez em frente à casa e loja do Fernando Rendeiro (que ficava do lado esquerdo), e que eu frequentava com alguma regularidade, tal como o bar / tasco do Zé Maria , já na zona ribeirinha... 

Os Rendeiro não aparecem aqui. Possivelmente o jovem casal, os pais da criança, aparecem,  na foto nº 1 B, ao centro, tendo a atrás os avós  e possivelmente um tio (o mais forte).

A cerimónia religiosa foi em Bafatá, onde a foto de grupo (nº 1) é tirada. Quer dizer que não havia padre em Bambadinca. O padre era missionário, possivelmente italiano (foto nº 1 B). Os missionários católicos italianos (do IPME) tiveram uma relação difícil com as autoridades portuguesas. Alguns foram presos ou expulsos (o missionário de Catió, o de Samba Silate....).

Os padrinhos da criança foram o alf mil António Manuel Carlão (Mirandela, 1947 - Esposende, 2018), ainda solteirinho, sem a sua Helena que há de vir depois morar para Bambadinca, e a única professora, branca, que lá havia,  a Dona Violete da Silva Aires (que segura a criança, e que era solteira, nascida em Cabo Verde; vivia no edifício da escola, com a mãe). (Foto nº 1 D).

O Fernando lembra-se de ter sido convidado, mesmo sem conhecer (nem privar com) a família. Dos militares, da CCS/BCAÇ 2852  (incluindo Carvalhal) e da CCAÇ 12 (o Fernando), terão sido convidados o pessoal dos serviços de saúde e do reabastecimento (incluindo o José Carlos Lopes, fur mil).

O fur mil enf João Carreiro Martins não aparece aqui, o que não admira: ele recusava-se a sair do arame farpado...  Aparece o alf mil médico Joaquim António Vidal Saraiva (1936-2015), acabado de chegar de Guileje em novembro de 1969 (foto nº 1 C) e que seguramente terá feito o parto da mamã libanesa...

As fotos devem ser de finais de 1969. E eu achava que deviam merecer generosos comentários. Se o Vidal Saraiva não tivesse morrido em 2015 (**), possivelmente estes fotos iriam ficar esquecidas no álbum do Fernando Sousa que pediu, a instâncias minhas, a um sobrinho para as digitalizar...  


3. Estamos a falar de coisas que a historiografia académica não tem abordado... E que são delicados como a "estigmatização" dos civis, comerciantes, metropolitanos, cabo-verdianos ou libaneses, bem como a administração ultramarina onde os cabo-verdianos estavam sobrerrepresentados, uns e outros "mal vistos" pela PIDE e pela tropa... (Mas quem é que queria ir viver e trabalhar para a Guiné?!... E quem numa guerra civil, como foi aquela, não joga com um pau de dois bicos ?)

Mal vistos, e depois marginalizados, com Spínola e a sua política de africanização da guerra e da administração. O slogan "A Guiné para os guinéus" era também uma provocação para o PAIGC de Amílcar Cabral.

Durante a fase final da guerra da Guiné, a política de Spínola procurou, de facto,  promover uma elite política, militar e administrativa guineense, reduzindo o peso relativo das tradicionais elites cabo-verdianas na administração do território. (Administração que, com ele, e com a guerra,  praticamente foi substituída por quadros militares.)

Como muitos cabo-verdianos eram vistos pelos serviços de informação e pela tropa  como potenciais simpatizantes do PAIGC, desenvolveram-se atitudes de desconfiança e, por vezes, de estigmatização e repressão.

Contudo, essa realidade deve ser entendida mais como uma estratégia política de reequilíbrio de poderes e de conquista das populações guineenses do que como uma política oficial de discriminação racial contra os cabo-verdianos (que até ao início cio dos anos 60  eram minorias relativamente influentes na administração, tal como os libaneses, no pequeno comércio).


Foto nº 6 > Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > CCS/BART 2917 (1970/72) > Festa de anos do 1º srgt Fernando Brito. Convívio no bar de sargentos, em meados de 1970: ainda estávamos em "lua de mel", os "velhinhos" da CCAÇ 12, e os "piras" do BART 2917, aqui representados pelo 2º Comandante, maj art José António Anjos de Carvalho, sempre fardado, sempre "militarista", amante do fado de Coimbra (já falecido, no posto de cor art ref), e o 1º srgt art Fernando Brito (1932-2014) (falecido no posto de major, depois de ter feito a Escola Central de Sargentos)...

À direita do Brito, a Helena, mulher do falecido alf mil at inf António Manuel Carlão, do 2º Gr Comb da CCAÇ 12 (o casal vivia em Fão, Esposende): à direita do Anjos de Carvalho, a esposa do major art, Jorge Vieira de Barros e Bastos (mais familiarmente conhecido por Bê Bê, era o major de operações do comando do BART 2917; mais tarde cor art ref); e à sua direita, a Isabel, a esposa do José Alberto Coelho, o fur mil enf da CCS/BART 2917 (o casal vive hoje, ou vivia até há uns anos, em Beja). Eram as únicas "três mulheres brancas", esposas de militares, que viviam no "quartel".

Em Bambadinca, mesmo dentro do perímetro de arame farpado onde viviam a professora, branca, cabo-verdiana (e a sua mãe), e o chefe de posto, também cabo-verdiano, os espaços de convívios eram socialmente segregados. Os oficiais vinham ao bar e messe de sargentos, os sargentos não podiam frequenta o bar e a messe de oficiais, os civis também não conviviam com a tropa dentro do "quartel"...E as praças tinham o seu  "refeitório e cantina"... E foi assim que fizemos todos a guerra...

Foto: © Vitor Raposeiro (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


(***) Último poste da série > 21 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28118: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (7): duas "retiradas finais": Bissau (15/10/1974) e Saigão (29-30/4/1975): (dis)semelhanças

domingo, 17 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28029: Humor de caserna (266): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXIV: as alucinações da IA

 


Gen Spínola, governador e comandante-chefe no CTIG (1968/73), s/d. Foto editada e reproduzida com a devida vénia do livro de Luís Nuno Rodrigues, "Spínola: Biografia" (Lisboa, A Esfera dos Livras, 2010, 748 pp.). Pertence ao Arquivo António Spínola, desconhece-se o autor. Poderá ter sido o fotógrafo oficial do general, no TO da Guiné,  Álvaro de Barros Geraldo ?


I. Há 2 meses atrás (em 12 de março) pedi a uma ferramento de IA que me selecionasse "algumas das melhores anedotas do general Spínola na Spinolândia (1968/73, quando foi Comandante-Chefe e Governador da então Guiné Portuguesa, hoje Guiné-Bissau)"... 

Listou-me dez... Bom,  pareceu-me logo que a maioria das "10 melhores anedotas"  listadas estavam longe de ser as "melhores". E, pior ainda,  vi logo que eram, pura e simplesmente,  "alucinações" da IA:

  • de facto, não há fotos do Spínola a fumar (e ele, aos 60, parecia ainda ter uma saúde de ferro):
  • não há testemunhos do "Caco Baldé" a caçar, e muito menos  hipopótamos (animais furtivos, que só saem de água para pastar, à noite; para mais, não faziam parte da dieta dos "tugas");
  • também não constava que o nosso general andasse a cavalo, para mais  branco, em Bissau, etc.. (é outra "anedota hilariante",  produto de uma outra ferramenta de IA, que está em concorrência com esta a que me refiro acima);
  • por outro lado, sexa,  o governador, devia saber dizer meia dúzia de palavras de crioulo tal como eu ou qualquer outro militar que convivesse com a população local, mas daí a dizer-se que "falava fluentemente o crioulo" vai uma distância;
  • não se usava no nosso tempo a expressão "chefes tribais" (mas sim 'régulos" e "dignitários religiosos");
  • sim, como aluno do Colégio Militar e depois oficial de cavalaria, produto da "Escola de Guerra", ele deveria saber dançar, como qualquer "oficial e cavalheiro" dos anos 30,  mas não dançaria em Bissau, já com os seus 60 anos, e muito menos com as bajudas; não a estou a vê -lo a dançar a coladera cabo-verdiana, ou a participar num batuque fula;
  • os jovens oficiais do QP que chegavam à Guiné, não vinham da "Escola de Guerra", mas sim da "Academia Militar" (designação em vigor desde 1959);
  • também não vejo o governador a "brincar" com a bandeira da República Portuguesa,  (ele não brincava com os símbolos nacionais);
  • nem estou a vê -lo  a usar, propriamente,   o "humor negro": era capaz de perder as estribeiras, isso sim e arrancar os galões a um oficial ou dar um par de bofetadas a um soldado;
  • enfim, na Guiné, nunca houve um 'rei", quando muito no passado o imperador do Mali, e depois o rei ( ou "mansa") do Gabu; havia reizinhos, régulos...

Ontem confrontei esta ferramenta de IA (que não vou citar...) com estas "incongruências"  e "alucinações", e obriguei-a a citar as fontes... O resultado sairá em próximo poste...  

Só  as anedotas nº 8 e  nº 0 me parecem "verosímeis" ou próximas do "espírito" do "anedotário da Spinolândia" (*). Se não se baseiam em factos reais ( o que é hoje impossível de comprovar), podiam pelo menos  ter acontecido e sido presenciadas por alguém.

 Em boa verdade, esta listagem “cheira” a geração automática de IA, denunciada por frases demasiado redondas, diálogos certinhos se mais,  com lições de moral implícita à laia de conclusão, ausência de contexto documental e, por fim,  estilo que remete para o guião cinematográfico. 

Enfim, parece-me um produto típico da IA, que usa  modelos de linguagem que “preenchem lacunas" de informação e conhecimento com recurso á chamada plausibilidade narrativa.

De qualquer modo, verosímeis ou não,  merecem figurar nesta série "Humor de Caserna", sobretudo como ilustração  das "calinadas"  ( para não usar outro termo mais feio) da IA e da necessidade de a utilizarmos com moderação, com humor e  com espírito crítico, cruzando inclusive as respostas de outras  ferramentas de IA (e outras fontes digitais  ou não).  Em suma, fazer aquilo que qualquer investigador  (seja jornalista, polícia, estudante ou cientista) faz ou deve fazer: a chamada "triangulação" de fontes  e "saturação" na pesquisa de dados e  informação para produzir conhecimento.

Em todo o caso,  há sempre aqui um "handicap": nenhum de nós (tirando algum oficial superior do QG, como o hoje, e felizmente ainda vivo,  cor inf Mário Arada Pinheiro) conheceu Spínola na "proximidade" ( já não digo "intimidade") do dia-a-dia.

II.  Resposta da IA, com data de 12/3/2026: 

Luís, aqui ficam algumas anedotas e episódios marcantes associados a Spínola e à Spinolândia do teu tempo:

1. "O Governador que falava crioulo"

Spínola era um dos poucos oficiais portugueses que falava fluentemente o crioulo guineense, o que lhe granjeou enorme respeito e proximidade com as populações locais. 

Diz-se que, em reuniões com chefes tribais, usava expressões e provérbios em crioulo para desarmar tensões e criar cumplicidade. 

Uma das suas frases famosas, em tom de brincadeira, era:

"Nka boka di brancu, boka di pretu!"

(Tradução livre: "Não é conversa de branco, é conversa de preto!"), usando a expressão para mostrar que estava do lado das populações e não apenas da hierarquia militar portuguesa.

2. "O leão e o hipopótamo"

Spínola era conhecido por caçar hipopótamos, uma atividade que, além de ser um desporto, servia para alimentar as tropas e as populações locais. Conta-se que, numa ocasião, depois de abater um hipopótamo, terá dito aos soldados:

"Isto não é caça, é serviço público!"

A anedota espalhou-se como exemplo do seu pragmatismo e da sua capacidade de transformar necessidades (como a falta de proteína) em oportunidades de aproximação às comunidades.

3. "A bandeira da Spinolândia"

Spínola tinha um sentido de humor irreverente e, por vezes, usava-o para criticar a burocracia de Lisboa. 

Diz-se que, em tom de brincadeira, chegou a sugerir que a Guiné deveria ter a sua própria bandeira — uma bandeira branca com um hipopótamo negro — para simbolizar a autonomia e a identidade local. 

A ideia, claro, nunca foi levada a sério, mas refletia o seu desejo de uma abordagem mais adaptada à realidade guineense, longe das ordens rígidas de Lisboa.

4. "O general que dançava"

Spínola era conhecido por participar em festas e cerimónias locais, onde dançava ao som dos ritmos africanos. Em certa altura, terá dito a um oficial que o criticava por "perder a dignidade":

"Se não dançar com eles, como quer que eles dancem connosco?"

Esta atitude contrastava com a postura rígida e distante de muitos outros oficiais, e ajudou a criar laços de confiança com as populações.

5. "O conselho aos jovens oficiais"

Spínola tinha um estilo direto e por vezes provocador. Conta-se que, numa reunião com jovens oficiais recém-chegados à Guiné, lhes terá dito:

"Esqueçam o que aprenderam na escola de guerra. Aqui, o manual de campanha é a sabedoria dos velhos da tabanca."

Esta frase refletia a sua crença de que a vitória na Guiné não passava apenas pela força militar, mas pela compreensão da cultura e das dinâmicas locais.

6. "O general e o tabaco"

Spínola era um fumador inveterado e, em reuniões longas, costumava oferecer tabaco aos chefes locais. Diz-se que, numa ocasião, um chefe tribal lhe ofereceu um charuto artesanal, ao que Spínola respondeu:

"Isto é que é tabaco de homem, não aquelas palhinhas de Lisboa!"

O episódio tornou-se simbólico da sua capacidade de se integrar e valorizar os costumes locais.

7. "A resposta a Lisboa"

Spínola era conhecido por desafiar as ordens de Lisboa quando considerava que não faziam sentido no terreno. Em certa altura, terá recebido um telegrama do governo a criticar a sua gestão. A sua resposta foi lacónica:

"Aqui, a 4.000 km de Lisboa, as ordens têm de ser temperadas com bom senso."

Esta frase resume bem a sua postura: pragmática, adaptativa e, por vezes, rebelde face à hierarquia.

8. "O general e as crianças"

Spínola tinha um carinho especial pelas crianças guineenses. Conta-se que, em visitas a tabancas, levava sempre rebuçados e brinquedos, e que, numa ocasião, uma criança lhe perguntou:

"Ó branco, tu és o rei da Guiné?"

Ao que Spínola respondeu, sorrindo:

"Não, sou só um soldado que gosta de vocês."

9. "O humor de caserna"

Entre os militares, Spínola era conhecido por frases de humor negro, típicas do ambiente de guerra. Diz-se que, numa altura em que as tropas estavam desmoralizadas, terá dito:

"Aqui, ou nos adaptamos ou nos tornamos alvo fácil. E eu não gosto de ser alvo fácil!"

O tom era de desafio, mas também de camaradagem, e ajudava a manter o moral das tropas.

10. "A despedida"

Quando Spínola deixou a Guiné, em 1973, a sua saída foi marcada por uma cerimónia emocionante, com milhares de guineenses a despedirem-se dele. Diz-se que, ao embarcar no avião, terá dito a um oficial:

"Deixo aqui o meu coração. O resto é política."

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série >  12 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28013: Humor de caserna (265): A ronda do sono e as sentinelas... desarmadas (Fernando de Jesus Anciães / Joaquim Pinto de Carvalho, CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852, Buba, 1971/73)

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27958: Humor de caserna (260): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXII: o cheirinho a roupa lavada (Joaquim Costa, ex-fur mil Arm Pes Inf, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Contuboel > Rio Geba > 1969 > Uma belíssima foto de uma lavadeira, em contraluz. O Valdemar Queroz atribuiu os créditos fotográficos ao seu "irmão siamês" Cândido Cunha.

Foto (e legenda): © Cândido Cunha / Valdemar Queiroz (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar. Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Guiné > Região de Tombali > Aldeia Formosa > Visita do General Spínola >  "Eu (o primeiro do grupo à esquerda a seguir ao sentinela) e o meu pelotão prestando honras militares ao General (ao centro) com o seu pingalim e à direita o comandante do quartel, na altura, mais conhecido pelo “Baga Baga”  [cmdt do BCAÇ 3852 (Aldeia Formosa, 1971/73), ten cor inf  José Fernando Oliveira  Barros Basto, que sucedeu ao o ten cor  inf António Afonso Fernandes Barata].

Foto (e legenda): © Jaoquim Costa (2021). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Joaquim Costa, ex-fur mil Armas Pesadas Inf, CCAV 8351/72,
"Tigres do Cumbijã" (Cumbijã, 1972/74


A roupa do Furriel pequenina: o cheirinho a lavdo e engomado

por Joaquim Costa

 Com a nossa chegada a Aldeia Formosa as mulheres locais acorreram em grupos à procura dos “periquitos” oferecendo os seus préstimos para a lavagem da roupa.

O dia da lavadeira era o mais esperado da semana no quartel. Vinham em rancho com os seus trajes coloridos, com a trouxa de roupa à cabeça e uma alegria contagiante nos rostos. Aguardavam impacientes junto ao sentinela a autorização para entrarem no quartel, o que geralmente acontecia ao meio da tarde, e era vê-las entrar em grande algazarra, de sorrisos rasgados, dispersando-se pelo quartel como rebanho comunitário acabado de chegar, do monte, ao povoado. (...)

Cada lavadeira lavava a roupa de vários militares mas nunca trocava uma única peça que fosse. Achava extraordinário como fixavam o nome de todos os militares e suas patentes. Mais extraordinário porque de 2 em 2 anos estes eram substituídos por outros, e assim sucessivamente ao longo dos anos. (...)

Certo dia, a minha lavadeira chegou com uma grande trouxa de roupa à cabeça lavada e já separada pelos diferentes donos. Colocou-a junta à porta da caserna dos furriéis e ficou à espera que aparecesse alguém para a entregar. Como não apareceu ninguém foi à procura. Entretanto, chega um colega que pega na trouxa e começa à procura, na tentativa de encontrar as suas peças. Deixou tudo numa grande desordem e não encontrou nada seu, nem podia já que esta não era a sua lavadeira.

Quando esta chega, quase ao mesmo tempo que nós (eu e mais dois camaradas, sem certezas julgo que o Carlos Machado e o António Gouveia), a rapariga fica muito preocupada e, ao mesmo tempo, indignada com o que fizeram à sua trouxa de roupa, desfazendo-se em desculpas com receio de ser despedida por desleixo.

Começámos a separar as nossas peças, tentando acalmar a simpática e eficiente lavadeira. Ela, um pouco mais calma e já com um sorriso nos olhos, tira as nossas mãos de cima da roupa e começa ela a distribuir: esta é do Carlos, esta é do António, esta é do furriel 'Pequenina'... esta é do Carlos, esta é do António, esta é do furriel 'Pequenina'….

Nem de propósito, este foi o dia em recebemos, pela primeira vez, a visita do “grande chefe” (General Spínola) a quem prestei honras militares com o meu pelotão com a farda bem lavada e engomada e o que fez Spínola retardar o gesto da continência,  dado o cheiro agradável a roupa lavada!... (**)

(Seleção, revisão / fixação de texto, título, negritos: LG)

terça-feira, 24 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27851: Esposas de militares no mato (2): Bambadinca, ao tempo do BART 2917 - Parte II

 

Guiné > Zona Leste > Bafatá > "Foto tirada no dia 30 de Março de 1971 em Bafatá, onde o grupo foi jantar, para celebrar os meus 24 anos. Na foto, e da esquerda para a direita temos:
  • Leão Lopes (de perfil) (ex-fur mil, BENG 447) e ex-esposa Lucília
  • Benjamim Durães (ex-fur mil , CCS/ BART 2917);
  • Fernando Cunha (soldado, condutor do Comandante do BART 2917);
  • Rogério Ribeiro (1º cabo enfermeiro, CCS/BART 2917);
  • Braga Gonçalves  (ex-alf cav, CCS/BCAÇ 2917) e ex-esposa Cecília
  • Isabel e o marido José Coelho (furriel enfermeiro, CCS/BART 2917); e
  • 1º cabo José Brás (condutor do 2º Cmdt)

O Leão Lopes era de Cabo Verde, ex-fur mil, BENG 447 (e hoje figura pública no seu país, ex-ministro da cultura, deputado,  escritor, pintor, cineasta, presidente da OGN Atelier Mar, professor universitário, etc., segundo refere o Benjamim Durães no poste P4399 (*).

O José Alexandre Pereira Braga Gonçalves, ex-alf mil cav, não fazia parte originalmente do BART 2917, tendo vindo de Bissu, para subtituir o tenente SGE Armindo Torres Teixeira, Chefe da Secretaria do BART 2917 (que foi em 18 jan 71  para Bissau).

Foto (e legenda): © Benjamim Durães (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 


1. Em Bambadinca, ao tempo do BART 2917 (1970/72), e da CCAÇ 12 (1969/73, mudar-se-ia depois para o Xime no 1º trimestre de 1973) sempre houve senhoras, esposas de militares, a residir no aquartelamento, que estava separado das duas tabancas, Bambadinca  e Bambadincazinho (reordenamento) por um perímetro de arame farpado.  Pertencia à circunscrição (e mais tarde concelho) de Bafatá. 

Era um posto administrativo importante. Em 1968 teria 2 mil almas. Hoje deve 15 ou 20 vezes mais. 

Tinha escola primária (4 classes), e casa para a professora (que era de origem cabo-verdiana, a D. Violete Aires da Silva). Tinha capela, que servia uma pequena comunidade cristã. 

Havia pelo menos 3 estabelecimentos comerciais (Casa Gouveia, Rendeiro e José Maria). Tinha mercado (indígena) e fontenário público (a nascnte de água era a um escasso quilómetro). Havia ainda estação dos CTT. Era possível ligar para Portugal, embora as ligações fossem morosoas. 

Tinha uma pista de aviação, mais tarde alargada para os T-6. Tinha estrada alcatroada (para o Xime, a sudoeste; e Bafatá e Nova Lamego, a nordeste), e ligação, por estrada terra batida para o sul (Mansambo,  Xitole e Saltinho). 

A escola e o edifício do posto administrativo, bem com as respetivas casas de habitação, ficavam dentro do perímetro militar. Tal como o Depósito de Água.

O aquartelamento possuia, desde 1968, boas instalações, construídas pelo BENG 447, no que diz respeito a edifícios de comando, messes e dormitórios para oficiais e sargentos. Tinha uma posição privilegiada num promontório, situado entre o rio Geba, a norte, e a bolanha de Bambadinca a sudeste

Era um dos melhores sítios, no interior da Guiné, para se viver, só superado talvez por Mansoa (mais próximo de Bissau, a 60 km, por estrada alcatroada) e seguramente por  Bafatá (segunda cidade da província, uma cidadezinha colonial, encantadora,  segura, limpa, cuidada, em 1969/71, conhecida por "Princesa do Geba"). 

Havia colunas todos os dias de Bambabinca para Bafatá, a 30 km. Nesse tempo, nunca houve nenhuma emboscada ou mina na estrada Bambadinca- Bafatá.

Bambadinca, além de sede de batalhão, tinha um destacamento de intendência e outro do BENG 447. Estava em curso, em Nhabijões, a construção do maior ou de um dos maiores reordenamentos da provincia. 

Era a porta de entrada no Leste. O seu porto fluvial, complementando o do Xime, era vital para o abastecimento do Leste. Havia ligações diárias entre o Xime e Bissau, de "barco turra".

Com a chegada da CCAÇ 2590/CCAÇ 12, em 18 de junho de 1969, Bambadinca tornou-se uma terra segura. O último (e único) ataque ocorrera em 28/5/1969, como resposta  á Op Lança Afiada (8-18 mar 1969).

De acordo com a legenda da foto acima, no 1º trimestre de 1971, Bambadinca teria a viver lá quatro esposas de militares: as 3 senhoras acima mencionadas mais a esposa do of op info major inf Barros e Basto. 

A Helena, mulher do alf mil Carlão, já havia regressado a Portugal em 17 de março de 1971, com o marido e os demais camaradas da CCAÇ 12.

Provavelmente o mais ilustre dos ex-militares que aparecem na foto acima, datada de Bafatá, 30 de março de 1971, é o Leãoo Lopes, na altura fur mil BENG 447, e entretanto figura pública na sua terra, Cabo Verde.

Escreveu ele, em resposta a um mail do Benjamim Durães, de 19/5/2009, com o convite para o 4º Encontro-Convívio da CCS do BART 2917, a realizar no ano seguinte, em Coruche, no dia 27 de março:

Leão Lopes

Caro Durães,

Ainda me visto de Leão Lopes, apenas isso. Mas o ex-camarada de Bambadinca envaidece-me e é uma grande honra responder por ele.

Não imaginas a emoção que ainda sinto por este reencontro. Já ninguém poderá duvidar que eu também lá estive. Vocês existem e a memória colectiva também. Eu próprio duvidei por vezes desta parte da minha história, quando alguns episódios vividos se confundiam com uma projecção ficcional não tendo por perto quem mos pudesse reavivar, corrigir, confirmar.

Imagina que eu me lembro sempre do nosso capelão Arsénio Puim, do dia em que a PIDE o levou, da minha / nossa revolta. E como eu gostaria de o reencontrar para lhe dar o abraço que não pude dar-lhe nesse dia. A PIDE tinha-me levado antes o Joãozinho e mais outros dos melhores operários nativos que eu tive no destacamento de engenharia. Destes nunca mais soube.

Há alguns anos estive em Bambadinca e, nas ruínas do que foi nosso quartel, encontrei Mariana, a nossa lavadeira, que me avivou na memória muita coisa difusa e talvez esquecida. Por exemplo, que eu pintei o retrato de um camarada. Quem seria?

Sim, lembro-me de alguns de vocês. De ti, do Braga Gonçalves, do Coelho, do Brás. Lembro-me do Vinagre, de Coruche (?) com quem fiz algumas traquinices,  inventando coisas para driblar o tempo. Chegamos a ser sócios numa moto e nunca contei a ninguém que por um triz teriam hoje que me juntar aos homenageados no minuto de silêncio dos vossos encontros. Sabem dele?

Ainda canto Zeca Afonso e as músicas popularizadas por Adriano Correia de Oliveira que nos ajudavam a resistir e a manter a moral acima de tudo.

As minhas condolências pelo Rebelo.

Parabéns a Luís Graça pelo blog. Um belíssima iniciativa, um belo slogan, um esforço de trabalho imenso.

Um dia destes, numa das minhas passagens por Portugal, tentarei abraçar-vos. Muito obrigado pela fotografia e por me teres procurado e achado.

Até breve, Leão Lopes


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Espectacular vista aérea do aquartelamento, tirada no sentido leste-oeste, ou seja, do lado da grande bolanha de Bambadinca.

Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-Fur Mil Op Esp, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

Foto: © Humberto Reis (2006).  Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 

Legenda:  do lado esquerdo da imagem, para oeste, era a pista de aviação (1) e o cruzamento das estradas para Nhabijões (a oeste), o Xime (a sudoeste) e Mansambo e Xitole (a sudeste). Vê-se ainda uma nesga do heliporto (2) e o campo de futebol (3).

A CCAÇ 12 começou também a construir um campo de futebol de salão (4), com cimento roubado à engenharia,  nas colunas logísticas para o Xitole.De acordo com a fotografia, em frente, pode ver-se o conjunto de edifícios em U: constituía o complexo do comando do batalhão (5) e as instalações de oficiais (6) e sargentos (8), para além da messe e bar dos oficiais (8) e dos sargentos (9).

Apesar do apartheid (leia-se: segregação socio spacial) que vigorava, não só na sede dos batalhões, como em muitas unidades de quadrícula, uns e outros, oficiais e sargentos, tinham uma cozinha comum (19).

Do lado direito, ao fundo, a menos de um quilómetro corria o Rio Geba, o chamado Geba Estreito, entre o Xime e Bafatá. O aquartelamento de Bambadinca situava-se numa pequena elevação de terreno, sobranceira a uma extensa bolanha (a leste). 

São visíveis as valas de protecção (22), abertas ao longo do perímetro do aquartelamento que era todo, ele, cercado de arame farpado e de holofotes (24). A luz eléctrica era produzida por gerador... Junto ao arame farpado, ficavam vários abrigos (26), o espaldão de morteiro (23), o abrigo da metralhadora pesada Browning (25).

 Em 1969/71, na altura em que lá estivemos, ainda não havia artilharia (obuses 14).

A caserna das praças da CCS (11) ficava do lado oeste, junto ao campo de futebol (3). Julgava-se que o pessoal do pelotão de morteiros e/ou do pelotão Daimler ficava instalado no edifício (12), que ficava do outro lado da parada, em frente ao edifício em U. Mais à direita, situava-se a capela (13) e a secretaria da CCAÇ 12 (14). Creio que por detrás ficava o refeitório das praças.

Em frente havia um complexo de edifícios de que é possível identificar o depósito de engenharia (15) e as oficinas auto (16); à esquerda da secretaria, eram as oficinas de rádio (17). 

Do lado leste do aquartelamento, tínhamos o armazém de víveres (20), a parada e os memoriais (18), a escola primária antiga (19) e depósito da água (de que se vê apenas uma nesga). 

Ainda mais para a direita o edifício dos correios, a casa do administrador de posto, e outras instalações que chegaram a ser utilizadas por camaradas nossos que trouxeram as esposas para Bambadinca (foi o caso, por exemplo, do Alf Mil Carlão, nosso camarada da CCAÇ 12, e mais tarde, o major BB, o Fur Mil Leão Lopes, do BENG 447, o Fur Mil Enf Coelho, da CCS/BART 2917).

Esta reconstituição foi feita pelo Humberto Reis, completada por mim (LG) e pelo ex-1º cabo cripto GG (Gabriel Gonçalves), todos os très da CCAª 12 (1969/71).


3. Comentário do editor LG:

 Apesar do nosso amável convite (*), o Leão Lopes nunca chegou a responder-nos, por isso, e com pena nossa,  não integra a nossa Tabanca Grande, onde "todos cabemos com tudo o que nos une e até com o que nos pode separar"... 

Não sei se ele já está reformado.  Mas como artista total que é (escritor, pintor, cineasta), não deve estar parado. Se por acaso o Leão Lopes nos ler, fica a saber que o convite continua de pé. 

Sentir-nos-íamos honrados e sobretudo felizes com a tua presenção,  Leão Lopes. E irias engrossar a presença dos amigos e camaradas da Guiné, que são filhos de Cabo Verde. Já temos malguns, mas não tantos quantos gostaríamos.

Na verdade, tínhamos uma saudável curiosidade em saber como era, para ti,  trabalhar em Bambadinca, em 1970/72, no destacamento do BENG 447 e,  ao mesmo tempo,  viver, um pouco à parte da tropa, sendo  casado (na altura com a Lucília) (**). Mantenhas.
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Notas do editor  L.G.: