segunda-feira, 24 de abril de 2017

Guiné 61/74 - P17277: Notas de leitura (950): Guerra da Guiné: Os atores, a evolução político-militar do conflito, as revelações surpreendentes - Apresentação dos três volumes alusivos aos aspetos operacionais na Guiné, da responsabilidade da Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974 (1) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Abril de 2017:

Queridos amigos,
Convidado para fazer a apresentação das 1500 páginas de uma resenha com trabalho muito sério, fiz bem aceitar a aprendi muito. Trata-se da primeira leitura cronologicamente sequencial que permite perceber que tanto Louro de Sousa como Arnaldo Schulz, confrontados com uma sublevação bem montada a partir da região Sul, que rapidamente atingiu a confluência do Geba com o Corubal e passou à região do Oio, reagiram com os meios disponíveis, mesmo sabendo que dispunham de efetivos à partida pouco motivados e desconhecedores das questões étnicas, como conduzir eficazmente à autodefesa das populações, restituir-lhes a possível tranquilidade, etc.
A partir de agora, abre-se um terreno promissor para que os investigadores desbravem caminho. Por exemplo, Louro de Sousa legou a esta comissão para o estudo das campanhas de África cerca de 3 mil documentos que estão por ler. E muito do espólio referente aos quatro anos da governação de Schulz ainda não está tratado. Isto para dizer que a guerra da Guiné continua por contar, do princípio ao fim.

Um abraço do
Mário

Mário Beja Santos durante a sua alocução


Guerra da Guiné:
Os atores, a evolução político-militar do conflito, as revelações surpreendentes

(Apresentação dos três volumes alusivos aos aspetos operacionais na Guiné, da responsabilidade da Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974))

Mário Beja Santos

Excelentíssimo Sr. Chefe do Estado-Maior do Exército,
Excelentíssimo Sr. Embaixador da República da Guiné-Bissau,
Distintíssimos Oficiais,
Senhoras e senhores,

Começo por agradecer o honroso convite que o Chefe do Estado-Maior do Exército me dirigiu para comentar nesta sessão pública os três espessos volumes produzidos pela Comissão para o Estudo das Campanhas de África. Os seus coordenadores, prudentemente, classificaram a sua laboriosa recolha falando em resenha e quanto aos acontecimentos marcadamente operacionais tiveram cuidado de os apresentar como “aspetos de atividade operacional”.

Para o leitor menos avisado, esta leitura poderá apresentar-se como entediante, redutora, de um desenho convencional de escrita em forma de relatório. Mas na verdade, esta recolha de elementos, resumos e estratos, soube contextualizar as atividades operacionais que os seus autores consideraram mais relevantes. Alertam para a perda de documentos e até para a incapacidade de análise de muitos outros documentos que estão depositados. Um incêndio destruiu o acervo da documentação elaborada e arquivada no Comando Territorial Independente da Guiné e no Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné. Haverá que repensar em que arquivos se poderão encontrar as possíveis cópias. Somos informados que há milhares de documentos oferecidos pelo General Loureiro de Sousa, Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné nos primeiros anos do conflito, notícia que deve chegar aos investigadores, de há muito perfilho que os dois primeiros Comandantes-Chefes precisam de ser estudados exaustivamente de modo a que a sequência cronológica de todo o conflito se torne mais inteligível.

Quanto aos documentos que hoje se tornam públicos, dir-se-á antes de mais que é uma parte da investigação que mais tarde ou mais cedo irá confluir como muitíssimos outros trabalhos, só assim se criarão as condições propícias para a organização de um trabalho científico sobre a história da guerra da Guiné, derrubando mitologias, pondo termo a presunções e especulações e eliminando os aparatos ideológicos de que há uma história exclusivamente feita por “vencedores”. Acresce que é no conhecimento aprofundado da história da guerra da Guiné que se irá encontrar a germinação do Movimento das Forças Armadas, a partir do ano crítico de 1973, da declaração unilateral da independência, da disposição de meios armamentistas postos à disposição do PAIGC, esgotados os meios para lhes fazer face, restava, como estava decidido, fazer a retração do dispositivo, abandonando largas faixas de território e preparar os efetivos para um embate tremendo, talvez um compasso de espera para as derradeiras negociações e a retirada das forças portuguesas.

Dispõe esta resenha de um mérito próprio e único: pela primeira vez passamos a dispor de uma cronologia sequencial do pensamento e ação durante o período da guerra, na ótica dos mais altos executantes, e como se cumpriu, em todos os escalões do dispositivo, por via de operações e até à resistência às arremetidas do inimigo. Digo sem qualquer hesitação que esta resenha ilumina todo o período anterior a 1968, que tem estado praticamente na obscuridade. Dito de outro modo: está exaustivamente estudado todo o período correspondente ao Governador e Comandante-Chefe António de Spínola, continua por se produzir investigação rigorosa sobre os períodos de Vasco Rodrigues/Louro de Sousa e não há um só estudo, pasme-se, sobre o período crucial em que Arnaldo Schulz governou e comandou a Guiné, entre Maio de 1964 e Maio de 1968.

Lê-se a documentação produzida por esta resenha e fica claro que tanto Louro de Sousa como Arnaldo Schulz foram incansáveis, com os meios que lhes puseram à disposição, para conter a guerrilha, ocupar o território da Província. Tinham fragilidades imensas: não disponham de informação segura sobre a estratégica da guerrilha e havia um absoluto desconhecimento das motivações das populações, de que lado se posicionavam, etc. Esta documentação revela que os dois primeiros comandantes-chefes foram confrontados com uma arremetida espetacular de subversão que em meses instalou o caos e todo o tipo de desarticulação na região Sul, que progrediu para o rio Corubal, se instalou no Oio, cortando no continente as duas grandes vias de comunicação entre a ilha de Bissau e os pontos mais ermos da região Leste.

A resenha contextualiza os antecedentes da luta de libertação, dá-nos a relação dos efetivos e do dispositivo das nossas tropas desde as vésperas do conflito armado e períodos subsequentes. A partir de 1959, graças ao encontro de um ideólogo de gabarito, Amílcar Cabral, e um campeão da agitação clandestina, Rafael Barbosa, preparou-se uma estratégia, formaram-se combatentes e agentes da subversão, acertou-se na seleção do território para desencadear a guerrilha a intimidação, o Sul, o PAIGC recebeu apoios da população Balanta e Beafada, as populações entraram em pânico, refugiaram-se em povoações importantes como Aldeia Formosa, Catió, Buba ou Cufar ou então fugiram para a República da Guiné. Qualquer ideia de que Louro de Sousa baixou os braços ou teve indecisão para se confrontar com a guerrilha cai por terra quando se leem as suas diretivas e o modo como usou os efetivos e o equipamento disponível, conduziu a operações no Morés, tentou suster os ataques da guerrilha entre o Corubal e o Geba e no final do ano de 1963 elaborou os termos para a operação “Tridente”, que marcaria a reocupação do Como. É um comandante-chefe crítico, sabe que as forças que comanda dispõem de fraco espírito ofensivo e deixa claramente escrito que a maioria dos órgãos de comando não faziam previamente cuidado das operações e não lhes davam continuidade lógica. Quando se vê escrito que neste período, e até mesmo com Arnaldo Schulz, se negligenciou a ação psicossocial na guerra da Guiné, também esta resenha desmonta claramente o mito e mostra como se fez um esforço enorme para montar autodefesa das populações.

Enquanto decorre a operação “Tridente”, no Quitafine, num lugar chamado Cassacá, os líderes do PAIGC promoveram um congresso de onde saíram decisões determinantes sobre a sua nova organização político militar. A resenha, é outro lado meritório da excelente documentação publicada, revela como o PAIGC ia consolidando as suas posições e aumentando a sua visibilidade. De 1963 para 1964 duplicaram os efetivos em forças terrestres, houve um reforço das forças navais e em meios aéreos, apareceram vários grupos de Comandos. A partir de 14 de Janeiro a operação “Tridente” dominou as atenções, mas prosseguiu a perseguição da guerrilha nas áreas de Bula, Mansoa, tentou-se desalojar os grupos instalados entre o Geba e o Corubal, reocuparam-se territórios que tinham sido abandonados por populações em fuga, caso de Guileje, Binta e Guidage.

Atribui-se ao mau relacionamento entre o Governador Vasco Rodrigues e o Comandante-Chefe Louro de Sousa a decisão de Salazar na sua substituição por uma só pessoa, Arnaldo Schulz, que anuncia não dar tréguas a combate dos guerrilheiros e acabar a guerra em poucos meses. Schulz assistirá, no entanto, a uma nova escalada e a demonstrações de força do PAIGC nas regiões de Gabu e de Boé, Teixeira Pinto será atacada. A república do Senegal, sobretudo a partir de 1965, começará a autorizar a infiltração a partir das suas fronteiras. Schulz procura responder alargando extensamente a malha de aquartelamentos, reforçando a africanização da guerra com muito mais tropa nativa e mais milícias. A resenha elucida o pensamento de Schulz e as suas atividades operacionais. As bases são atacadas, a troca retira e os guerrilheiros e as populações afetas regressam – é o eterno jogo do rato e do gato.

Num relatório anual da ação psicológica, com a data do último dia do ano de 1965, diz-se que a população sobre controlo das autoridades excede os 65% e que a população fora de controlo das autoridades ultrapassa os 28%, havendo ainda mais de 5% da população sobre duplo controlo. Em 1 de Dezembro de 1966, na sua diretiva n.º 26/C, Schulz refere-se assim ao PAIGC: “Apesar dos golpes sofridos no decurso dos últimos dois anos, a virulência política-miliar do inimigo não tem diminuído”. Alude ao crescimento de apoios internacionais à guerrilha (caso de Cuba), às facilidades concedidas pelo Senegal, ao facto de o PAIGC ter sido reconhecido pela Organização da Unidade Africana como o único legitimo interlocutor.

Em suma, o primeiro volume da resenha abarca os antecedentes das lutas emancipalistas na Guiné, o início da subversão e os primeiros anos do conflito num arco temporal que finda no ano de 1966.

O Embaixador Hélder Vaz Lopes, novo embaixador da Guiné, a conversar com o Chefe do Estado-Maior do Exército, Frederico Rovisco Duarte.

Com óculos, o General Garcia dos Santos

Ao centro, o General Almeida Bruno

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 22 de abril de 2017 > Guiné 61/74 - P17268: Notas de leitura (949): “As minhas aventuras no país dos sovietes”, por José Milhazes, Oficina do Livro, 2017 (Mário Beja Santos)

2 comentários:

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Ponham os capacetes!
O AGA vai atacar! Aí vem ele a provar que não foi assim. Que tava na maula, que mais um bocadinho e a malta se não se punha a pau ganhávamos "aquilo".
E se não atacar é porque anda distraído...
Um Ab. e um bom feriado

António J. P. Costa

Antº Rosinha disse...

Beja Santos é uma mais valia para não deixar esquecer aquele espaço de tempo que nos pôs contra o mundo inteiro.

Beja Santos vai a todas, analisa tudo e por todos os lados.

E procura ser sempre o mais isento possível, nos pontos de vista de cada qual.

Mesmo quando aparecem Generais ou capitães a justificarem-se militarmente pelas suas atitudes, ou mesmo quando aparecem outros a condenarem-se e até «auto-flagelarem-se», Beja Santos tudo esmiúça.

Pena que os principais protagonistas e vítimas daquelas guerras, o povo africano (sobas, régulos, secúlos e mulheres grandes)não soubessem escrever, aí Beja Santos fazia o circuito completo.

Agora que faz 43 anos que baixámos os braços, com 13 anos de atraso em relação à Europa colonial, devemos relembrar sempre aquele nosso esforço descomunal ao lado de milhões de africanos.

Como Beja Santos esteve lá ao lado desses mesmos africanos, que não sabiam escrever, e hoje sabendo não escrevem, pode falar sem quaisquer reservas.

Continua sempre BS