domingo, 23 de abril de 2017

Guiné 61/74 - P17271: Recortes de imprensa (86): Artigo de opinião de Fátima Ascensão, no DN Madeira, de hoje, intitulado Obrigada, ex-Combatentes


Alertados pelo nosso camarada Carlos Pinheiro, lemos, e reproduzimos aqui no blogue, com a devida vénia, um artigo de opinião da jornalista Fátima Ascensão, inserto no Diário de Notícias Madeira de hoje:

Obrigada, ex-combatentes

Esta gente continua a ter no seu ADN a garra e o espírito lutador que ganharam na sua juventude

Fátima Ascensão
23 Abr 2017

A dois dias de se comemorar o 25 de Abril, dei por mim a pensar no legado que os nossos ex-combatentes nos deixaram. Homens extraordinários que viveram cenários de guerra em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau e optaram por fazer uma revolução tranquila, sem armas e sem guerra civil.

Homens que aprenderam bem cedo o que realmente é importante e tiveram a garra necessária para mudar o que era preciso mudar. Não se deixaram levar pela manipulação dos discursos e, sem grande instrução escolar, sabiam o que queriam para o futuro de Portugal.

Transformaram o país e deram os primeiros passos para a criação de um sistema democrático no nosso país. Enfrentaram um regime autoritário com mais de 40 anos que governava em ditadura e fazia uso de todos os meios ao seu alcance para reprimir as tentativas de transição para um estado de direito democrático, numa época em que ter liberdade era um sonho e não uma realidade.

Sempre que se fala no 25 de Abril, a maioria das pessoas pensa nos Capitães de Abril como os grandes mentores da revolução, mas sem o apoio dos militares de patentes inferiores, o chamado soldado raso, os líderes da revolução nada teriam conseguido.

O treino militar de então, dado aos portugueses para prepará-los para o que iriam enfrentar em campo de batalha, treinaram a sua mente para avaliar o risco e dotaram-lhes de um espírito de sobrevivência e de luta.

Os sobreviventes desta guerra voltaram para Portugal com muitos traumas. Viram os seus colegas de campanha morrer e viram o horror do conflito. Alguns foram feridos em combate, deixando mazelas para o resto da vida e todos vieram afetados psicologicamente. Se não fosse o papel das famílias que os acolheram e apoiaram no regresso a uma vida civil, não sei o que seria destas pessoas.

Face ao que fizeram pela pátria, em minha opinião, o Estado Português nunca os tratou com o devido respeito e consideração. Ainda hoje, muitos dos sobreviventes desta guerra que estão entre os 65 a 75 anos, recebem reformas miseráveis, resultado de trabalhos mal remunerados, e sem qualquer proteção face às inúmeras políticas que se vão legislando. Estão esquecidos numa sociedade que só os homenageia com flores. Preferiam uma proteção social maior...

Mas atenção, esta gente continua a ter no seu ADN a garra e o espírito lutador que ganharam na sua juventude. Einstein dizia “A mente que abre uma nova ideia, jamais retorna ao seu tamanho original”. A sorte deste país é que a sua gente prefere a paz à guerra.

O mais interessante de toda esta dinâmica no fenómeno do 25 de Abril é que estes simples cidadãos influenciaram toda uma sociedade na pressão sobre as instituições para tornar Portugal um país livre.

A acrescer a tudo isto, a pobreza, a fome e a falta de oportunidades para um futuro melhor, frutos do isolamento a que o país estava votado há décadas, provocaram um fluxo de emigração que agravava, cada vez mais, as fracas condições da economia nacional.

Fartos do abuso de autoridade, a sociedade uniu-se para fazer a mudança em Portugal. Foram as pessoas simples, os simples soldados, os heróis sem cara, que mudaram Portugal. Mudaram as organizações governativas. Mostraram-nos que quem muda as organizações são as pessoas e não os planos per si.

Por isso, muito obrigada ex-combatentes pela herança que nos deixaram de um Portugal livre e por terem proporcionado os alicerces de uma sociedade baseada numa democracia. É esta a principal missão de qualquer geração – criar condições para melhorar a sociedade em que as gerações vindouras viverão. Todos vós cumpristes a vossa missão.

A minha geração tem muito a aprender convosco. Aprender que o coração da mudança somos todos nós porque toda e qualquer mudança resulta do nosso sentimento de quer mudar. E são as pessoas que mudam as organizações e não o contrário.

Nada pode ser imposto. Tem de ser um processo natural, partilhando o que está errado, os perigos de determinadas decisões, as mentiras instaladas e partilhando o que se quer para futuro. Ouvir e ouvir. Todas as pessoas mudam. As transformações do mundo assim o exigem.
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Nota do editor

Último poste da série de 14 de fevereiro de 2017 > Guiné 61/74 - P17048: Recortes de imprensa (85): O nosso camarada Armor Pires Mota no lançamento do livro da investigadora Sílvia Torres ("O jornaliismo português e a guerra colonial", Lisboa, Guerra & Paz, 2016, 432 pp.) na sua terra natal: Anadia, 2 de julho de 2016 (Excerto do "Correio do Vouga")

3 comentários:

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Face ao que fizeram pela pátria...
É aqui mesmo que está a questão.
Não tenho a certeza de ter combatido pela Pátria.
E hoje cada vez menos...
Um Ab e um Feliz e bem celebrado 25Barra4
António J. P. Costa

Anónimo disse...

Partindo do princípio de que a profissão militar é de combate, os que voluntariamente se profissionalizam nas Forças Armadas de um país, fazem-no não só para realizar essa vocação mas também ao serviço do seu país ...
Os do "contingente geral" que se lhes apresentam e as vão integrar como combatentes, não vão realizar essa vocação, mas obedecer aos imperativos da sua cidadania.
Os do "contingente geral" que aguentaram a Guerra do Ultramar durante 13 anos "faziam" Portugal, sabendo que Portugal nada "faria" por eles...
Manuel Luís Lomba

António José Pereira da Costa disse...

Ok Camarada

Quero esclarecer que não há relação entre a profissão militar e o serviço da Pátria. Ou por outra não é linear nem obrigatória.
O Serviço à Pátria faz-se guerreando ou de outras múltiplas e variadas maneiras: perfeição do trabalho dos operários, brilho dos intelectuais, genealidade dos artistas, capacidade dos seus técnicos e até dinamismo dos seus empresários, habilidade dos seus diplomatas... etc., etc. e mais etc.
Se é necessário guerrear, convém que o façamos todos, mas para isso é necessário que tal se justifique. De outra forma, falta qualquer coisa.

Um Ab.
António J. P. Costa

PS: Não quero falar dos Estudantes do Império, da expansão do comunismo, do colonialismo, do anti-colonialismo, do neo-colonialismo e outros lugares comuns (os do costume) já devidamente arejados.

Um Ab.