1. Em mensagem datada de 22 de Novembro de 2017, o nosso camarada Manuel Luís Lomba (ex-Fur Mil da CCAV 703/BCAV 705, Bissau, Cufar e Buruntuma, 1964/66) enviou-nos este artigo de opinião para publicação:
A Tabanca Grande, a Guerra “de libertação”, que tarda em acabar para os bissau-guineenses e a marca dela nos ex-combatentes do continente
Alegram-me os 10 milhões de visualizações do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, a Tabanca Grande tornou-se numa espécie de país virtual, com população superior à da Catalunha, uma nação sem exército e uma promessa de “libertação”, segundo os métodos de Gandhi ou de Mandela, com a consciente exclusão dos de Lenine, de Mao ou… de Amílcar Cabral.
Louvores ao seu “Homem grande” Luís Graça, ao seu mouro de trabalho Carlos Vinhal, extensivos aos co-editores Virgínio Briote e Magalhães Ribeiro. Um caso especial de sucesso do voluntarismo, de entranhada camaradagem, de pluralismo e do “dever de memória”.
No tocante a ex-combatentes expedicionários nos seus teatros, invoco os testemunhos do Dr. Albuquerque, especialista do setresse pós-traumático, de que a guerra ultramarina ficou colada à vida dos seus combatentes; do escritor Lobo Antunes “Não sei explicar, mas a maior parte do que sou, continua lá”; e do Coronel-Comando José Manuel Belchior, Presidente do Núcleo do Porto da Liga dos Combatentes, de que, como participante em várias tertúlias, nenhuma outra se mantém tão ligada à terra e à sua gente como as dos ex-combatentes da Guiné.
As emoções que vivemos foram tantas e tais, que se cristalizaram em sentimentos – digo eu.
Em suma: Não há cura para a guerra da Guiné, enquanto maleita nossa; e a “guerra de libertação” da Guiné tarda a acabar, para mal dos bissau-guineenses.
E quanto à sua história, sou recorrente na metáfora da prédica do Padre António Vieira, referida à relação da substância com a forma.
Em rigor histórico, o PAIGC nem conquistou nem ocupou Guileje. Mas no entender do historiador Fernando Rosas, esse acontecimento foi uma derrota militar portuguesa e uma ocupação vitoriosa do PAIGC; para o historiador Rui Ramos, por exemplo, seria fruto de uma desobediência e de uma retirada do Major Coutinho e Lima, aliás bem comandada e sucedida. Algo susceptível de acontecer cá por casa, com o mesmo que entra pelo “orifício” do pensar do António Graça Abreu e do pensar do A. J. Pereira da Costa – aproveito e protesto a ambos a minha mais elevada consideração.
Em rigor histórico, Madina do Boé e Guileje, duas tabancas fronteiriças e as únicas tabancas “libertadas” da Guiné, não o foram nem por conquista nem por ocupação: o PAIGC limitou-se a explorar o sucesso do seu abandono pelos portugueses. Uma oferta do General Spínola, rumo à sua vitória – digo eu.
A guerra de libertação dos bissau-guineenses só terminará quando forem superadas a sua orfandade de Amílcar Cabral e da administração portuguesa.
Amílcar Cabral foi responsável pela quimera do “absolutismo despótico” da Guiné (sob o nome de Socialismo), pela quimera da unidade com Cabo Verde, por recusar, pela violência, o pluralismo político aos seus concidadãos, por ter antecipado a fundação da sua nacionalidade, sem sustentação na nação, mas num exército desproporcional – o mesmo que a independência transformará de simples guerrilheiros em casta de oficiais superiores… sem soldados.
Portugal é responsável por ter enformado a Guiné, por a ter conservado contra ventos e marés, mas, sobretudo, por os seus militares a terem abandonado, consciente de que cediam a uma solução imposta do exterior, extemporânea e não adequada à sua consolidação como nação, tendo apenas como atenuante as tentativas de uma força de guerrilha, com o efectivo de menos de 10% da sua guarnição militar e com o apoio de cerca de 10% da sua população de 600 000 mil almas, porfiada em os correr a tiro.
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Nota do editor
Último poste da série de 14 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17765: (In)citações (111): Lembrando Setembro, o mês comemorável da Guiné, a sua Libertação, que intrujou todo o mundo e todo o mundo se deixou intrujar e os seus improváveis heróis (Manuel Luís Lomba, ex-Fur Mil Cav da CCAV 703)

1 comentário:
Caro Manuel Luis Lomba, obrigado pela tua intervenção, com manifestação de regozijo pelo nosso pequeno brilharete, que é chegar aos 10 milhões de visualizações ou visitas... Pela parte que nos toca, editores, autores, colaboradores permanentes (mas também a quem nos lê e comenta), obrigado pelo teu elogio ao nosso blogue, ao considerá-lo como "um caso especial de sucesso do voluntarismo, de entranhada camaradagem, de pluralismo e do 'dever de memória' "...
Como fundador, editor e administrador do blogue, compete-me registar a tua frase: "Não há cura para a guerra da Guiné, enquanto maleita nossa; e a “guerra de libertação” da Guiné tarda a acabar, para mal dos bissau-guineenses."...
Seria bom que outros que não eu, glosassem este teu mote...
Como eu costumo dizer, todos nós fizemos a história, na qualidade de atores, uns com mais protagonismo (Spínola, 'Nino' Vieira) do que outros (tu e eu)... mas não nos compete escrevê-la... Esse é o ofício dos historiadores, já que a história é (ou deve ser) uma ciência... Mas isso não nos impede de pôr os pontos nos ii em afirmações ou conclusões de académicos, como o Fernando Rosas ou o Rui Ramos, que nem sequer são especialistas em história da guerra colonial...
Em história, como de resto em outros domínios das "ciências sociais", não há conclusões de definitivas... Daqui a 50 anos, teremos muito mais investigação historiográfica sobre o séc. XX, a sociedade portuguesa, a "guerra colonial", a Guiné-Bissau, a "guerra de libertação", etc. Mas nessa altura já não estaremos cá para pôr os pontos nos ii dos futuros Fernando Rosa, Rui Ramos, René Pélissier, Patrick Chabal, Leopoldo Amado, etc.
O que deve ser (re)confortante para nós, que combatemos naquela guerra, é a possibilidade, teórica e prática, de escrevemos as nossas memórias, de apresentarmos os nossos pontos de vista, de acresentar os nossos comentários, etc., sem pedir autorização a ninguém, muito menos aos académicos, aos investigadores, aos histporiadores... O shistoriadores não são donos da história... Essa é a função do nosso bloguee... E, como tu dizes, e bem, com plurismo, com rigor, com elevado sentido de camaradagem e, em muitos casos, com afeto... Sentido de camaradagem, empatia, afeto etc. são "coisas" que o historiador "encartado" não pode manifestar...
Não penso que existam muitos blogues como o nosso, ou com a longevidade do nosso... E, no essencial, temos sabido lidar, pior ou melhor, com as questões ditas "fracturantes"...
Um alfabravo, Luís
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