sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Guiné 61/74 - P18009: Notas de leitura (1017): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (10) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Setembro de 2017:

Queridos amigos,
Com este texto atingimos 10 anos da vida do BNU em Bolama. Tudo I República.
Vale a pena insistir, não existem no Arquivo Histórico do BNU quaisquer documentos entre 1903 e 1915, só escassas imagens que não ajudam a compreender nem a contextualizar o que se passou nesse período que persiste na obscuridade. Não há referências à campanha de Teixeira Pinto, só aparece um documento alusivo à partida de Abdul Indjai para Cabo Verde, onde falecerá. No entanto, esta documentação é riquíssima em elementos económicos e financeiros e na muitíssima turbulência da vida governativa, onde não faltaram revoltas, levantamentos e sedições.
Para meu conforto, entreabriu-se mais uma porta para um melhor conhecimento da Guiné Portuguesa.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (10)

Beja Santos

Caminhamos para o fim da I República, há uma vertente de modernização na Guiné. Começam-se a cantar hossanas, é patente que a política concebida e executada por Velez Caroço começa a dar os seus frutos.

Em 1925, é dado à estampa uma Memória da Província da Guiné, é seu autor Armando Augusto Gonçalves de Moraes e Castro, funcionário colonial. É um homem esperançado, deslumbrado e não o esconde no prefácio do seu escrito:

“Falar da Guiné é falar da colónia portuguesa que mais caráter possui de terra africana; é falar, dentre as possessões que constituem o nosso domínio colonial, daquela que melhor situação financeira desfruta, daquela que tem mais personalidade, sem mistelas equívocas, sem arremedos bacocos.

A Guiné é, de facto, a mais rica das nossas províncias africanas, nas possibilidades de produção agrícola.

Quem for ativo e inteligente, quem entender que os seus braços devem servir para mais alguma coisa do que roçar malandramente pelo mármore rachado dos cafés, quem tiver na vida o grande sonho de vir a ser rico pelo esforço próprio, aqui encontrará o El Dourado das suas legítimas ambições.
Porque a Guiné, com a quermesse bizarra e multicolorida das suas onze raças, e diversas subraças, formando um bloco notável de aproximadamente 800 mil habitantes; com a maravilha pessoalíssima da sua fauna; com a sua ornitologia, opulenta e variada, em que as cores das aves dir-se-iam fugidas de uma paleta de pintor impressionista, pela diversidade ofuscante dos tons; com a abundância da sua herpetologia; com a variedade dos seus espécimes entomológicos; com a riqueza da sua concheologia; a Guiné com a sua flora variegada até ao impossível; com o sensível incremento que está sendo dado à sua agricultura, transformando em fontes de riqueza o que era até há bem pouco uma desoladora extensão de solo inaproveitado…”.

Tais louvores aparecem mais contidos no olhar do historiador. Na sua "História da Guiné, Portugueses e Africanos na Senegâmbia, 1841-1936", Volume II, Editorial Estampa, 1997, René Pélissier ajuíza a atividade de Velez Caroço. Escreve o seguinte a partir da página 204:

“O primeiro mandato de Velez Caroço conhecerá uma febre de construções no sertão, afetando as sedes da quase totalidade das 14 circunscrições. Porém, este governador manter-se-á, principalmente, como o homem das estradas e das pontes e, como consequência, o do trabalho indígena obrigatório e não remunerado. Infelizmente, o otimismo musculado de Velez Caroço vai ver-se desmentido”.

Para além das estradas, pontes e radiotelegrafia, Velez Caroço ver-se-á envolvido numa nova campanha de Canhabaque, entre Março e Maio de 1925. Deixará a colónia em Dezembro de 1926. Bolama e o gerente da filial do BNU acompanham as questões momentosas de um movimento de desagrado à administração do governador:

“Rompeu hostilidades, em primeiro lugar, ostensivamente, o Capitão de Engenharia João Pedro da Costa, com o relatório dirigido ao Ministro das Colónias, verberando a administração do governador, que classifica de perdulária. Esse relatório, verdadeiro libelo contra Velez Caroço, foi organizado um tanto levianamente, ressentindo-se da falta de provas jurídicas, e por isso, e ainda porque sendo o ministro e o governador democráticos, não sortiu o efeito que o autor desejava: uma sindicância àquilo a que o governador chama a sua obra. Dizem-nos que o governador facilmente destruiu as acusações que lhe foram feitas. O certo, porém, é que o Capitão Pedro da Costa não foi até hoje castigado militarmente. Pouco depois, era o Engenheiro Costa secundado na campanha pela Associação Comercial de Bissau, elegendo como seu representante para o concelho legislativo o Dr. Alçada Padez, advogado naquela cidade e particular amigo do Engenheiro João Pedro da Costa.
Passaram então a revestir certo interesse para o público as sessões do Conselho Legislativo onde o Dr. Padez entrou em franca oposição. Dá-se a Revolta Militar e o governador embarca apressadamente para o seu posto, de cabeça levantada, segundo ele, e sorrateiramente, segundo a oposição”.

Não pararam as acusações e os ataques dos opositores a Velez Caroço.

Chegaram as eleições para o representante da Guiné no Conselho Superior das Colónias, parecia que a campanha anticarocista atingiu o auge. O gerente de Bolama desce aos pormenores:

“O truque da posição foi coroado com êxito raras vezes registado nas colónias. Apesar de todas as trapaças concebíveis em matéria de eleições, da banda dos apaniguados do governador, a lista governamental apenas conseguiu vencer pela ridícula maioria de 60 votos! É de notar que aqui em Bolama, onde o governador reside, e onde a maioria dos eleitores são funcionários, a oposição, habilmente manejada pelo Tenente-Coronel Médico Dr. Monteiro Filipe venceu Velez Caroço por 40 votos!

Isto só por si seria bastante para que o atual governador se convencesse que era de mais na Guiné. Mas não. Ele não o compreende assim e mantém-se à frente da colónia, embora divorciado da opinião política que o detesta, aguardando uma salvadora revolução democrática que lhe dê força que sente faltar-lhe na atual situação.

Parece que o atual ministro as Colónias mantém por tudo quando se está passando na Guiné um desprezo superior”.

 Praia de Ofir - Bolama

O relatório de 1926 tem uma valiosa componente económica e procede à situação da colónia com bastante cuidado. Vejamos agora a situação da colónia deixando para mais tarde o quadro económico e financeiro da Guiné no relatório de exercício de 1926, ver-se-á que é extremamente útil. Estava agora em funções um encarregado do governo, o novo governador será alguém que deixará nome, Leite de Magalhães. Vejamos como o gerente se refere a este período de transição:

“A obra do atual encarregado de governo tem já factos que demonstram bem o acerto e desinteresse com que pretende governar. Empenhado em ressuscitar a Guiné e fazer dela valor seguro e real que representa no nosso Império Colonial, começou por moralizar os diferentes serviços públicos, reduzindo nuns, ao mínimo indispensável os servidores da colónia que pesavam exageradamente no seu orçamento, reorganizou-se o quadro administrativo, começando por uma acertada divisão do território da província em sete circunscrições e dois concelhos, que trouxe como consequência o alijamento de muitos funcionários que nada produziam; extinguiu-se o Corpo da Guarda Fiscal, corpo militar aparatoso mas inútil, composto na sua maioria por cabo-verdianos, sem noção dos seus deveres e que eram sem dúvida dos maiores contrabandistas (…) Estão-se reorganizando os serviços aduaneiros com o mesmo intuito de economia; foram dispensados muitos contratados que para nada prestavam; foram suspensos todos os contratos de empreitadas; paralisam as obras do Estado que vinham absorvendo uma enorme parte das receitas da província, obras em que a fiscalização e os desperdícios eram tamanhos que toda a gente se arrepiava com tão grande desmazelo”.

O gerente não esconde uma profunda animosidade pela administração de Velez Caroço e adianta um episódio onde se insinua que o então governador praticava arbitrariedades e prepotências:
“Um facto queremos ainda salientar a V. Exas., que pela sua importância e significado é preciso ponderar.

No governo passado, há anos, ausentou-se do Forreá um régulo dos mais poderosos daquela região, chamado Cherno Cali. Levou na fuga atrás de si muitas centenas de pessoas e muito gado. As perseguições de um administrador, dos que se recrutam por favor da política, sem conhecimentos e sem a noção da responsabilidade que sobre ele pesava, originaram a resolução do régulo Cali, oficial de segunda linha do Exército por seus bons serviços ao país.

Despovoou-se o Forreá, região rica, abundante de coconote; não se lavraram mais as suas terras; não se justificava já a existência de uma circunscrição naquele território. Várias tentativas se fizeram no sentido de conseguir o seu regresso no governo passado. Tudo inútil, pois desconfiado, como todos os da sua raça, esperava que lhe fizessem pior ou o sobrecarregassem com alguma pesada multa em gado. Pois logo no começo do governo do Capitão Saldanha o régulo Cali pediu licença para regressar à sua terra de onde se exilara forçado pelos vexames e perseguições a que o sujeitaram. Estava certo que a forma vexatória e injustificada como fora perseguido, desaparecera, para não desmentir a maneira branda como sempre tratamos os portugueses filhos dos nossos domínios africanos. Este facto, por si só, quando outros não avultassem já, diz bem do alto conceito em que é tido o encarregado do governo da Guiné entre os próprios indígenas”.

(Continua)
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Notas do editor:

Vd. poste anterior de 17 de novembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17978: Notas de leitura (1015): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (9) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de20 de novembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17991: Notas de leitura (1016): "40 anos de impunidade na Guiné-Bissau", relatório da responsabilidade da Liga Guineense dos Direitos Humanos, publicado em 2013 (1) (Mário Beja Santos)

3 comentários:

Anónimo disse...

Afinal este cronista era um fofoqueiro, maldizente, má língua, talvez invejoso do vizinho (aquilo em Bolama é tão pequenino, que se devia ouvir tudo na casa do vizinho ao lado).

Aquela gente devia ter tanto tempo vago, que sem televisão, nem futebol nem rádio, se não fosse a má língua, como é que iam passar o tempo?

Isto é que foram 500 anos de vida!

500 dos 900 a que temos direito.

Ainda conheci 18 anos assim, era engraçado.

Tabanca Grande disse...

Camarada, então essa assinatura ? Ficou no teclado do computador... De qualquer modo, obrigado pelo comentário... O editor LG.

Antº Rosinha disse...

Não tens que agradecer!