1. Agora que se passaram 50 anos da independência de Cabo Verde... Que ninguém contesta, embora o processo pudesse ter sido mais "maneirinho", "amigável", com mais "morabeza", com fado, morna, coladera, grogue e vinho verde à mistura... Uns anos antes.
Que pena termos perdido, na devida altura, essa oportunidade histórica de dar ou reconhecer aos cabo-verdianos o direito à autodeterminação.
Bom, valha-nos ao menos a consolação de hoje sermos países democráticos, "irmãos" e "amigos", falando a mesma língua, sem contencioso... Que as "pedrinhas nos sapatos" que ficaram na memória dos bons e maus momentos da nossa convivência passada, não nos impeça hoje de continuar a celebrar os 50 anos da independência do arquipélago (1975-2025), terra da morna, da coladera, da morabeza, do doce crioulo, do sol, do sal, do sul do nosso imaginário... Terra do Travadinha, do Bana, da Cize... De grandes poetas e músicos.
Pessoalmente, tenho orgulho em Cabo Verde, onde o meu pai foi, por dever patriótico, expedicionário, em 1941/43. O meu pai e o pai dos nossos amigos e camaradas Hélder Sousa, Luís Dias, Augusto Silva Santos, Nelson Herbert...
E há tanto ainda para saber e contar... Da nossa história comum
Claro, já estou a ouvir ao longe os mais críticos e radicais (de ambos os extremos do espetro político): "pedrinhas"... ou "pedregulhos" ?
Não, nos compete, a nós, antigos combatentes, portugueses, cabo-verdianos, guineenses, entrar nesse jogo de "ajustes de contas"... Os regimes políticos passam, os povos ficam. De pé, como as árvores, com as suas fundas raízes, os seus ramos, as suas flores, os seus frutos... Ramos que também têm de ser podados.
Lembrei-me , isso, sim, de apresentar à "menina IA" (aliás, a duas, uma "americana" e outra "europeia, francesa"), mais uma questão do domínio do "sexo dos anjos", neste caso da "história contrafactual": "E se...?"
E se... Cabo Verde tivesse sido invadido ?
Não foi, felizmente, nem foi invadido nem ocupado nem atacado por nenhum dos beligerantes durante a II Guerra Mundial. Os que morreram lá (6 dezenas de "expedicionários", "nossos pais, nossos velhos, nossos camaradas"), foi por doença, acidente, desgosto, saudade, tristeza, fome, sede, paixão, morabeza...
E ainda bem que não foi atacado, invadido e ocupado (falo por mim, que tinha lá o meu futuro progenitor, entre 1941 e 1943; se o 1o. cabo Luís Henriques tivesse morrido ou sido aprisionado, talvez eu não tivesse nascido, em 1947, nem muito menos conhecido a "cova do lagarto", que era Bambadinca, na antiga Guiné portuguesa...).
Mas se fosse, ou tivesse sido.... atacado, invadido, ocupado durante a II Guerra Mundial ? Poderia, sim, forma condicional do verbo poder. Felizmente não o foi. Mas, pelo menos, essa possibilidade foi seriamente ponderada tanto pelos Aliados como pelo Eixo, sobretudo devido ao valor estratégico das ilhas de São Vicente e Sal.
Bom, o resto do arquipélago poderia ser vendido em leilão aos ratos da especulação imobiliária, com exceção talvez de Santo Antão que tinha água e milho, e Santiago, onde já havia um campo de concentração, no Tarrafal, coisa que dava sempre jeito aos novos senhorios...
O que é que as meninas da IA (ChatGPT/OpenAI e Le Chat/Mistral) dizem sobre isto ?
Aqui vai uma "condensação" do que apurei da minha amena conversa com elas, as "meninas da IA" (a americana, e a francesa)... Sobre a Gronelândia, não sei o que pensam (se é que elas "pensam mesmo")...Mas sobre a hipótese pouco provável de uma invasão duas ilhas em causa (São Vicente e Sal), elas parece que estão de acordo.
Muito doutoralmente, dizem-me o que eu já sabia: que "há vários factores políticos, militares e geoestratégicos" (sic) que fizeram com que "isso nunca se concretizasse".
E a acontecer, seria mais provável que a iniciativa pudesse vir do lado... dos Aliados. Imaginem!...Logo os "democratas". (Agora, percebo por que é que o Salazar, que era bimbo, e pouco ou nada, republicano, e muito menos laico, não gostasse mesmo nada dos americanos, protestantes, capitalistas e demoliberais!)...
Mas vamos por pontos.
(i) Valor estratégico (relativo) de Cabo Verde
Cabo Verde ocupava (e ocupa ainda) uma posição crítica no Atlântico médio, particularmente relevante durante a guerra naval e aérea (e, nomeadamente, durante a II Guerra Mundial, em plena Batalha do Atlântico, quando ainda não havia misseis balísticos hipersónicos, intercontinentais..com ogivas nucleares.
- São Vicente (leia-se: Porto Grande – Mindelo): um dos melhores portos naturais do Atlântico; importante ponto de reabastecimento de carvão, desde meados do séc. XIX, com a navegação a vapor, mais tarde, com combustíveis líquidos, como a nafta e o fuelóleo; nó de cabos telegráficos submarinos, vitais para comunicações internacionais, e nomeadamente de ligação entre a Europa, a África e o Novo Mundo;
- Ilha do Sal: uma ilha plana, sem montes, mas também sem água doce, excelente para a aviação de longo curso; potencial base aérea para controlo de rotas entre a Europa e a África, e a Europa e a América do Sul; valor acrescentado com a evolução da guerra aérea, e já dotada de um aeródromo construído antes da guerra pelos italianos, em tempo recorde;
- está bem, amigos e manos mindelenses, o Porto Grande não era assim tão grande, visto pelos olhos dos beligerantes, era um porto importante, sim, mas a sua ocupação não traria vantagens decisivas para nenhuma das partes; as infraestruturas em Cabo Verde não estavam preparadas para suportar uma grande operação militar, o que reduziria o seu interesse estratégico; enfim, eram "peanuts";
- e depois as ilhas eram, naquele tempo, pobrezinhas, nem uma couve nem uma alface, enfim, ausência de recursos críticos: ao contrário de outras colónias (com "pitróleo", no Norte de África, sem falar das matérias-primas do Congo Belga, . Seetc.); a vossa santa terrinha não possuía recursos naturais que justificassem uma invasão de grande envergadura; e já bastava a fome de criar bicho, que lá se passava em anos de seca, desgraça e mortandade como foram os de 1942/43;
Mesmo assim, Cabo Verde estava "debaixo de olho" dos beligerantes, ou seja, no radar estratégico de Alemanha, Itália, Reino Unido e EUA. Porque quando um gajo começa uma guerra, não gosta de perder (nem que seja a feijões!)
(ii) Interesse das potências do Eixo
- Alemanha nazi: a Kriegsmarine e a Luftwaffe viam Cabo Verde como uma possível base de apoio aos U-boots (submarinos), a famigerada alcateia dos "lobos cinzentos" mais temidos da história; ponto de interdição / interceção das rotas marítimas dos Aliadas; enfim, parece terem existido estudos preliminares (no papel) sobre ocupações de ilhas atlânticas (os alemães, nazis, não brincavam em serviço, e eram duros de roer);
- Itália fascista: interesse mais teórico e dependente do apoio do poderoso aliado alemão; ao Mussolini garganta, bravata, fanfarronada, blá-blá, não lhe faltava, mas a "Grande Itália" também era um império de papel, de opereta, como o de Salazar, sem capacidade naval e muito menos aérea para uma operação autónoma tão distante (de Roma ao Mindelo eram mais de 5 mil quilómetros, hoje é tudo ao virar da esquina com o GPS, o Google Earth, a IA);
- limitações decisivas do Eixo: falta de superioridade naval no Atlântico; ausência de bases próximas (África Ocidental); dificuldade extrema em manter linhas de abastecimento; risco de resposta imediata britânica; a Kriegsmarine estava já sobrecarregada com a Batalha do Atlântico e a Regia Aeronautica italiana tinha limitações operacionais fora do Mediterrâneo, o "Mare Nostrum" dos romanos.
Na prática, uma invasão do Eixo era altamente improvável, embora fosse temida (em Lisboa e em Londres) (Afinal, "quem tem cu, tem medo".)
(iii) Interesse dos Aliados (Reino Unido e EUA)
Paradoxalmente, o maior risco para a soberania portuguesa em Cabo Verde vinha dos... Aliados, não do Eixo.
- Reino Unido: tinha "planos de contingência" para ocupar "preventivamente" Cabo Verde, evitando que caísse nas mãos do megalómano do Hitler que queria construir o "Reich dos Mil anos" e de quem de resto o Salazar não gostava muito, por não ir à missa nem se confessar na Quaresma, aliás achava que era uma bárbaro, identificando-se muitio mais com o Mussolini, embora este fosse demasiado histriónico, espalhafatoso e demagógico para o seu gosto (e estragava a sagrada tríade, Deus, Pátria e Família: tinha uma amante);
- era uma estratégia, a britânica, semelhante portanto à da ocupação, em 1940, da Islândia e das ilhas Faroé;
- os Aliados, especialmente o Reino Unido, tinham interesse em manter Portugal neutro para garantir o acesso aos Açores (e às rotas aéreas e marítimas do Atlântico Norte), de maior valor estratégico que Cabo Verde (que não tinha vacas leiteiras); uma invasão deste arquipélago, de resto disperso, poderia comprometer essa relação, mesmo que fosse "paternalista" e "enviesada" (para invocar quando desse jeito aos "bifes");
- Estados Unidos: após 1941, os EUA consideraram Cabo Verde (e mais ainda os Açores) crucial para a protecção de comboios; patrulhamento anti-submarino; enfim, havia planos (não executados) para ocupação caso Portugal não cooperasse com os Aliados, e sobretudo com os EUA;
- os americanos (ainda o Trump não era nascido...) exerceram pressão diplomática sobre Salazar para que Portugal não cedesse bases aos "boches"; em troca, prometiam apoio económico e militar, o que, garantem as meninas da IA, desincentivou qualquer eventual movimento do Eixo sobre Cabo Verde (e os Açores);
- medo de uma reação em cadeia: uma invasão de Cabo Verde poderia levar a uma escalada indesejada, com Portugal a alinhar-se formalmente com o Eixo ou a permitir a utilização de outras bases (como as de Angola ou Moçambique, riscos em sais minerais, desculpem, em diamantes, minérios, petróleo, gás natural);
- mas havia outras prioridades (tal como no caso de Timor): os EUA e o Reino Unido focaram-se em teatros de operação mais críticos, como o Norte de África, a invasão da Itália e a preparação para o Dia D; uma operação em Cabo Verde seria um desvio de recursos sem um ganho estratégico claro, significativo; "o quê, ir fazer uma operação anfíbia no Porto Grande, só para beber um grogue e ouvir a Césaria Évora cantar uma morna ?!... Ah, I'm sorry, pensava que a Cize já tinha nascido nessa época...Desculpem, nasceu em 27 de agosto de 1941, vou tomar boa nota", diz a menina da ChatGPT.
(iv) Porque é que, afinal, Cabo Verde nunca foi ocupado? Ou pelo menos Mindelo e o seu "Porto Grande" ?
- Neutralidade portuguesa: Salazar, que não era "saloio" mas beirão, manteve uma "neutralidade pragmática"; essa neutralidade era mais favorável aos Aliados, mas cuidadosamente equilibrada.
- Aliança Luso-Britânica: a mais antiga aliança diplomática do mundo ainda em vigor (Tratado de Windsor, 1373) funcionou como forte travão político a uma ocupação aliada directa: uma invasão de território português poderia arrastar Portugal para o conflito, cenário que nem os Aliados nem o Eixo afinal desejavam;
- a Alemanha e a Itália não tinham interesse em violar essa neutralidade, o que levaria a uma reação britânica ou mesmo à entrada de Portugal na guerra do lado dos Aliados, complicando ainda mais o raio do "tabuleiro de xadrez" da II Guerra Mundial;
- os Aliados, especialmente o Reino Unido, tinham interesse em manter Portugal neutro para garantir o acesso aos Açores (e às rotas aéreas e marítimas do Atlântico Norte); para quê estragar uma relação que até nem funcionava mal de todo (tirando a "magna questão do volfrâmio", vendido aos alemães para fabricar bombas!);
- diplomacia: Portugal acabou por permitir o uso de bases nos Açores (em agosto de 1943, com efeitoa a partir de outubro, quando o Salazar, que não era parvo, viu que a sorte das armas estava traçada), e isso reduziu drasticamente a necessidade de ocupar Cabo Verde; permitiu aos Aliados controlar as rotas do Atlântico Norte e monitorizar os movimentos da Kriegsmarine (marinha alemã);
- custos militares: a ocupação das ilhas atlânticas portuguesas violaria a neutralidade portuguesa, criaria problemas diplomáticos desnecessários, exigiria forças que os Aliados (ou as potências do Eixo) preferiram empregar noutros teatros, teria custos militares e humanos acrescidos, enfim, era mais uma "chatice";
- lealdade das populações: a população local era leal a Portugal, garante a menina da IA francesa, apesar de a Pátria portuguesa ser mais "madrasta" do que "mãe" para os cabo-verdianos; e, além disso, havia uma força militar, não negligenciável de 6 mil e tal homens (mal equipada, é verdade, mas sempre era um regimento, com porta-estandarte, corneteiro e tudo!), que ofereceriam alguma resistência a uma eventual invasão, implicando sempre um acréscimo de custos humanos e logísticos para qualquer potência invasora;
- falta de infraestruturas: embora Mindelo fosse um porto natural relevante, as infraestruturas em Cabo Verde não estavam preparadas para suportar uma grande operação militar, o que reduziria o interesse estratégico; a engenharia militar teria que trabalhar no duro, a fazer horas extraordinárias, sem cerveja, só "grogue", mornas e coladeras...
(v) Conclusão
Sim, teoricamente, Cabo Verde podia ter sido invadido ou ocupado durante a II Guerra Mundial, especialmente São Vicente e e até o Sal (sem falar em Santo Antão, que era a "horta" do Mindelo). Houve planos no papel e receios reais, sobretudo por parte dos Aliados. Mas o Eixo não tinha capacidade real para o fazer, embora não se importasse nada de "abocanhar" tanto os Açores como Cabo Verde. A diplomacia (portuguesa, britânica, americana...) foi decisiva para evitar esse cenário.
Cabo Verde era, afinal, uma alternativa menos crítica: embora fosse importante para a navegação e a aviação, a sua localização mais a sul do Atlântico tornava-a menos prioritária do que os Açores para o controle das rotas entre a Europa e a América do Norte.
Cabo Verde acabou por ser um exemplo clássico de território estratégico, protegido mais pela diplomacia do que pela força militar.
Concluindo o nosso TPC (que deu um trabalho do caraças): meninos e meninas do Mindelo, a não-invasão de Cabo Verde pode ser explicada por um conjunto de factores:
- neutralidade portuguesa e o respeito por essa neutralidade (que o respeitinho naquele tempo ainda era muito bonito);
- prioridades estratégicas dos Aliados e do Eixo noutros teatros de operação (a tropa deles tinha mais que fazer);
- limitações logísticas e militares;
- diplomacia e negociações que evitaram a escalada do conflito;
- valor estratégico relativo das ilhas face a outros territórios.
Cabo Verde acabou por ser um "ponto cego" estratégico (gosto desta metáfora!), onde nenhuma das partes viu vantagem suficiente para justificar uma invasão.
Nota do editor LG:
Último poste ds série > 24 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27665: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (18): Quando Hitler e Churchill cobiçaram o Porto Grande, Mindelo, São Vicente, que Salazar mandou transformar em fortaleza do Atlântico Médio (Texto: Memórias d'Mindel, página do Facebook de Luís Leite Monteiro) - Parte II





























