quarta-feira, 19 de abril de 2017

Guiné 61/74 - P17260: Os nossos seres, saberes e lazeres (208): Tavira fenícia, árabe, portuguesa; a cidade e a água (2) (Mário Beja Santos)

Tavira - Quartel da Atalaia


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) com data de 12 de Janeiro de 2017:

Queridos amigos,
Desta feita o passeio é por monumentos portugueses, já se registou o que foi fenício e almóada, o viandante não foi a Balsa, e bem gostaria de ter ido, fica par a próxima, o que aqui se mostra são traços do renascimento tavirense e a presença militar, uma constante, Tavira foi frequentada por muitos sargentos milicianos que aqui se prepararam para marchar para a guerra. A memória é por vezes labiríntica e enquanto o viandante percorria o exterior do quartel da Atalaia lembrou-se de uma conversa havida em Missirá, na noite de 4 de Agosto de 1968, com o furriel Zacarias Saiegh, que lhe disse que tinha passado por Tavira, inolvidável era a sua lembrança daquela cidade diretamente a beijar a ria e o oceano, lembrava-se dos passeios pela serra inóspita, maior contraste não podia haver. Certo e seguro, Saiegh não voltou a Tavira, partiu para os Comandos Africanos e foi fuzilado em Porto Gole, em Dezembro de 1977, ao que parece nunca se saberá porquê, no mundo dos ajustes de contas haverá vácuos na História, para o viandante este vácuo é dor pelas perdas humanos que sofreu.

Um abraço do
Mário


Tavira, a cidade e o quartel (2)

Beja Santos 

Tavira é uma cidade de muitas igrejas, conventos, ermidas e capelas, espaços ajardinados, pontes, muralhas, um espaço público de enlevo que é a Biblioteca Álvaro de Campos, uma reconversão da antiga cadeia civil, projeto do arquiteto Carilho da Graça, é bom cirandar pela cidade, ver as suas portas com caráter, resquícios do manuelino, visitar o Palácio da Galeria, que será o futuro museu da cidade e passar pelo imponente quartel, um expoente da arquitetura pombalina, aqui foram formados muitos sargentos milicianos que deram com os costados nos teatros da guerra.





Subindo a colina de Santa Maria, observa-se a interseção de diferentes estilos desde o gótico ao renascentista e barroco. Convém recordar que Tavira, logo no primeiro quartel do século XVI, era o mais próspero centro urbano do Algarve, beneficiava da situação estratégica no contexto da expansão portuguesa, funcionava como a retaguarda das praças do Norte de África. Não há viandante que não se impressione com os vestígios arquitetónicos góticos, as portas de arco quebrado até chegar ao sóbrio portal da Igreja de Santa Maria do Castelo que, segundo a tradição, foi construída sobre a antiga Mesquita Maior. Na igreja restam algumas capelas góticas. O viandante embevece-se com a porta principal, com quatro arquivoltas com arco quebrado, capitéis com temas vegetalistas, que beleza dentro dos cânones da sobriedade.




 O período renascentista, é esta a modesta opinião do viandante, tem duas jóias preciosas em Tavira: a Igreja de Misericórdia e a Loggia do Palácio da Galeria, o tal onde se podem observar poços rituais fenícios. Neste tempo distinguiu-se um arquiteto local, André Pilarte, que já trazia pergaminhos do seu trabalho no Mosteiro dos Jerónimos. É ele que projeta e dirige a construção da Igreja da Misericórdia, em meados do século XVI. A igreja é de uma enorme riqueza, tem azulejaria preciosa, um esplendoroso altar-mor, um belo órgão, aqui assistiu a um concerto com o soprano finlandês Olga Heikkilä, cantou Puccini, Strauss, o das valsas, Franz Lehár, Sibelius, Grieg e muito mais.


As recordações militares são muito intensas em Tavira. Logo a evocação dos combatentes, em ponto central da cidade. No exterior, impressiona o que resta do forte de Santo António de Tavira, também conhecido por forte do Rato ou forte da ilha das Lebres, na foz do rio Gilão, junto à barra da cidade de Tavira. Destinava-se a proteger a entrada da barra, isto no reinado de D. Sebastião. Acontece que houve alterações profundas na linha de costa, perdeu utilidade. Na Guerra da Restauração foi sujeito a remodelação. Perdeu função militar em 1840. Consta que vai ser concessionado, bom seria que não se perdesse este belo património.



Muito estranhou o viandante quando viu a referência ao Regimento de Infantaria n.º 1, assentou praça como aspirante em Queluz, em 1968, assim se designava. À cautela, depois de andar ali às voltas, e sabendo que daquelas instalações partiram inúmeros sargentos milicianos para a guerra, consultou a Wikipédia. Quanto ao Regimento de Infantaria n.º 1 a sua origem remonta a 1648, foi conhecido como Regimento de Infantaria de Lippe, homenagem ao organizador do exército português. Conheceu muitas danças e contradanças, o Regimento foi transferido em 2015 para a cidade de Beja. Aqui é o quartel da Atalaia, é imponente, durante a guerra colonial deu outra vivacidade ao burgo, o militar foi homenageado num ponto certo, tem estátua junto da estação ferroviária, agradece-se o que fez pela Pátria, o seu zelo e dedicação continuados, para todo o sempre.




(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 12 de abril de 2017 > Guiné 61/74 - P17239: Os nossos seres, saberes e lazeres (207): Tavira fenícia, árabe, portuguesa; a cidade e a água (1) (Mário Beja Santos)

2 comentários:

José João Braga Domingos disse...

Que saudades.

Mário, se voltares a Tavira conta as barbearias que ainda lá existem pois em 1972 creio que
o seu número andaria entre 30 e 40.

Um abraço

José João Domingos

José Nascimento disse...

Ainda hoje andei por Tavira