Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022
Guiné 61/74 - P22967: Notas de leitura (1416): “A crise alimentar e o estado socialista na África Lusófona”, por Rosemary E. Galli, artigo publicado na Revista Internacional de Estudos Africanos, n.º 6 e 7, Janeiro/Dezembro de 1987 (1) (Mário Beja Santos)
Queridos amigos,
É uma tremenda injustiça não se dar o devido relevo aos trabalhos desta investigadora norte-americana. Este artigo é comprovativo de alguém que investiga e que sabe arrumar o pensamento. Rosemary Galli irritou muito as elites do PAIGC entre os anos 1970 e 1990, pôs a nu muita ingenuidade e desconhecimento: estavam a repetir de portas e travessas uma estratégia que já tinha sido elaborada no Estado Novo. Ainda hoje continuam no limbo as denúncias de René Dumont que deitou abaixo a euforia do modelo industrial que se pretendia instituir na Guiné-Bissau, um sorvedouro de divisas que arrasaria o sistema financeiro, como arrasou.
Um abraço do
Mário
A economia guineense: Do desenvolvimento colonial a Nino Vieira (1)
Beja Santos
O artigo “A crise alimentar e o estado socialista na África Lusófona” por Rosemary E. Galli, publicado na Revista Internacional de Estudos Africanos, n.º 6 e 7, janeiro/dezembro de 1987, oferece-nos uma extraordinária síntese do que aproxima a perspetiva colonial para o desenvolvimento agrícola e como este mesmo desenvolvimento foi encarado pelos dirigentes do PAIGC de Luís Cabral a Nino Vieira. Rosemary Galli é um nome importantíssimo na investigação da Guiné-Bissau, é coautora de uma obra incontornável “Guinea-Bissau: Politics, Economics and Society” (1987) e autora de “The Political Economy of Rural Development” (1981), ao tempo era professora universitária em Iowa, no Wartburg College.
Na introdução, a autora justifica-se: “Este ensaio sustenta que as fontes da política governamental na África Lusófona seriam tanto históricas como contemporâneas, e que foram legitimadas por um modelo de acumulação derivado simultaneamente da tradição socialista e da prática do Governo colonial. De facto, em pouco se diferenciavam”.
A lógica do Estado Novo é bem conhecida: uma política de extração de excedentes agrícolas e minerais das colónias destinadas a fornecer matérias-primas para as indústrias portuguesas; esses produtos eram vendidos nos mercados mundiais em troca de divisas que ajudassem a equilibrar a balança comercial portuguesa. Com o objetivo de estimular o comércio com Portugal, Salazar elevou os preços da importação do algodão, do açúcar e dos óleos vegetais ligeiramente acima dos níveis do mercado mundial. Os camponeses foram obrigados a cultivar produtos tais como o algodão em Angola e Moçambique e amendoim na Guiné. Outra das políticas utilizadas foi a de encorajar a produção em grande escala de colheiras. Esperava-se que os camponeses fornecessem a mão-de-obra nestas plantações, e o regime estabeleceu uma legislação laboral que, para muitos, era uma forma moderna de escravatura. Tratava-se de acumulação primitiva na sua forma mais crua.
Vale a pena tomar à letra o essencial da argumentação de Rosemary Galli. O desenvolvimento da agricultura da Guiné teve sempre lugar no contexto de uma economia regional integrada na economia mundial. Floresceu sem qualquer intervenção direta por parte do Estado. A partir do século XIII, os guineenses constituíam parte da economia e da sociedade da Senegâmbia dominada pelo Império Mandinga do Mali. Os principais povos do litoral da Guiné – Balantas, Manjacos, Papéis, Brames – foram empurrados ao longo da costa pelos súbitos de um império que estava em plena expansão – os Mandingas. O Mali controlava o comércio internacional da África Ocidental. O comércio atlântico começou quase os portugueses transformaram as áreas costeiras em animados centros de comércio. Estabeleceram-se em claves com autorização dos governantes locais, forneciam-se produtos manufaturados em troca de ouro, marfim e, sobretudo, escravos. Os comerciantes Mandingas e mais tarde Fulas deslocaram-se para as zonas costeiras para estar perto dos entrepostos europeus.
Com a abolição do tráfico de escravos, os guineenses viraram-se para a produção de mercadorias agrícolas, a principal colheita de exportação era o amendoim. As primeiras plantações situavam-se nas ilhas Bijagós e no continente ao longo do Rio Grande.
Portugal iniciou a sua ocupação da Guiné em finais do século XIX. Em finais da década de 1980, os Balantas iniciaram a primeira de uma série de migrações maciças em direção ao sul da Guiné, para a área de Fulacunda e mais tarde para Catió, tornaram-se preponderantes no Tombali e em Quinara, construíram elaborados arrozais. Embora os portugueses fizessem concessões de terras a comerciantes portugueses, cabo-verdianos e de outras origens, os Balantas eram quem de facto possuía as terras e estabelecia uma relação comercial com os concessionários. Na década de 1920, Catió tornou-se o celeiro da Guiné e por volta de 1930 passou a exportar arroz. A influência do comércio português até ao Estado Novo foi bastante difusa. Os franceses controlavam o comércio do amendoim, os alemães e os belgas tinham desenvolvido o comércio da borracha e de produtos derivados da palmeira até à I Guerra Mundial e o arroz encontrava-se nas mãos de pequenos comerciantes, sendo a produção e a recolha feita por camponeses.
O Estado Novo tentou instituir um monopólio comercial português. Colocou o comércio de importação e exportação nas mãos da Companhia União Fabril, que operava na colónia através da Companhia António Silva Gouveia. Uma vez que as sucursais da Casa Gouveia não conseguiam cobrir todo o país, uma série de outros comerciantes portugueses e sírio-libaneses foram autorizados a funcionar como agentes de recolha, e a administração colonial estabeleceu uma quantidade de centros comerciais tornando obrigatória a entrega de colheitas aos compradores oficiais sediados nesses centros. O comércio obrigatório foi complementado pelo cultivo obrigatório do amendoim. O Estado Novo distribuiu aos produtores variedades de amendoim melhoradas. A partir dos anos 40, os funcionários administrativos locais passaram a ser responsáveis pela demonstração de novas técnicas de produção e novas culturas junto dos produtores rurais. Os Serviços Agrícolas distribuíram variedades de arroz e de amendoim altamente produtivas e procuraram introduzir a tração animal.
Nos anos 50 e 60, uma expansão significativa do número de portugueses residentes em Bissau e outras localidades foi responsável pela alta percentagem de importações de alimentos e vinho. Além disso, o regime colonial recrutou cerca de 5 mil cabo-verdianos e guineenses com instrução para os níveis inferiores da administração e das empresas comerciais. Estes também adotaram padrões portugueses de consumo que, especialmente após a independência, limitaram severamente os recursos nacionais. Os dirigentes do PAIGC que levaram a colónia à independência tiveram origem neste estrato privilegiado mas contaram com o apoio de uma grande parte da população rural. Na altura da independência prometeram apoio governamental ao desenvolvimento rural mas as políticas levadas a cabo tenderam a agravar a frágil situação dos produtores, provocada especialmente pela guerra de libertação nacional.
(continua)
Fotografias e comentários da doutoranda Lúcia Bayan, que amavelmente cedeu este precioso material ao nosso blogue:
A produção e comercialização do vinho de palma ocorrem na época seca. A recolha e produção são feitas pelos homens e a comercialização pelas mulheres.
Para a colheita do vinho de palma, os homens trepam ao cimo das palmeiras, com a ajuda de um cinto, feito essencialmente com o caule de uma folha da palmeira. Chegados ao topo, ferem o tronco da palmeira e recolhem o vinho (a seiva) para garrafas de plástico, através de um funil feito com uma folha, um instrumento que parece uma flor.
O vinho é recolhido uma vez por dia e despejado em bidões de 25 litros, que são guardados em pequenos recintos no mato. Aqui o homem gere o grau de fermentação, de acordo com as necessidades do mercado.
Depois as mulheres levam os bidões até aos mercados e pontos de venda. Nos primeiros, o vinho é trocado por outros produtos, vendido à unidade ou a granel a comerciantes senegaleses, sendo estes os principais compradores. Nos segundos, o vinho é vendido a granel aos senegaleses.
O comércio a granel é muito forte. Na época seca, uma carrinha senegalesa percorre a estrada, entre São Domingos e Varela Iale, uma vez por semana, parando em todos os mercados das tabancas, que ficam junto à estrada, e em pontos de venda, instalados junto à estrada para servir as tabancas mais afastadas, como, por exemplo, Catão. No pico da época, Março e Abril, a carrinha senegalesa faz esta viagem duas vezes por semana. Sendo assim uma importante fonte de rendimento para os Felupe.
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Nota do editor
Último poste da série de 31 DE JANEIRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P22952: Notas de leitura (1415): "Guerra da Guiné", da autoria do Coronel Fernando Policarpo; Quidnovi, 2006 (Mário Beja Santos)
Guiné 61/74 - P22966: (Ex)citações (401): A Suécia... sempre original (José Belo) - Parte II: A cidade de Södertälje, com mais de 70 mil habitantes (,sede de grandes empresas conhecidas como a Scania, a AstraZeneca e a Alfa Laval), vai usar corvos-da-nova-caledónia para recolher as beatas do chão
Corvo-da-nova-caledónia (Corvus moneduloides). Gravura de John Gerrard Keulemans,
1877. Fonte Catálogo dos Pássaros no Museu Britânico, Volume 3. Imagem do domínio público. Cortesia da Wikimedia Commons.
1. Mensagem do José Belo:
Data - terça, 1 fev 2022, 12:34
Assunto - A Suécia... sempre original (*)
Caro Luís
Um pouco de ar de New Orleans (ou NOLA como se diz localalmente)...
Seguem dois artigos, do jornal inglês "The Guardian", um sobre corvos "funcionários camarários" para apanhar "beatas", e outro relacionado com as pontes construídas para as renas sobre algumas autoestradas da Laponia.
Um grande abraco com votos de saúde. J. Belo
https://www.theguardian.com/world/2021/jan/20/sweden-to-build-bridges-for-reindeer-to-safely-cross-roads-and-railways
https://www.theguardian.com/environment/2022/feb/01/swedish-crows-pick-up-cigarette-butts-litter
.
2. Comentário do editor Luís Graça:
José, a tua segunda pátria, a terra dos teus filhos, onde vives há quatro décadas, é de facto um país "sui generis"... (muito mais rico, de resto, que o nosso, embora equivalente em população, com um PIB per capita de 45, 9 mil euros , contra os 19,4 mil euros de Portugal).
E o segundo exemplo que nos mandas (*) não deixa também de nos fazer sorrir e sobretudo refletir... Pôr corvos (de uma espécie que é oriunda da Nova Caledónia, e que revelam um grau de inteligência pouco vulgar entre as aves e os demais animais não primatas), a apanhar as beatas dos fumadores sem educação cívica, é uma ideia original... Faz parte de um projeto de uma autarquia sueca que quer manter as ruas limpas e reduzir os custos da limpeza urbana...
A cidade de Södertälje, com mais de 70 mil habitantes (,sede de grandes empresas conhecidas como a Scania, a AstraZeneca e a Alfa Laval, e que fica acerca de 30km a sudoeste de Estocolmo), gasta 20 milhões de coroas suecas (mais de 1,9 milhões de euros) na limpeza das ruas. A redução de custos da limpeza de beatas, feitas pelos "novos almeidas", poderia atingir os 75%.
Aqui vão mais alguns excertos do artigo, fazendo eu (e o resto da Tabanca Grande, em coro!) votos de que estejas a passar um maravilhoso dia de aniversário!...
3. Suécia: município usa corvos para recolhar as beatas do chão
Os corvos-da-nova-caledónia (Corvus moneduloides) estão a ser cobaias de uma experiência-piloto na cidade de Södertälje, perto de Estocolmo, ao serem utilizados para apanhar, com o bico, as beatas lançadas no chão. Por cada beata, recolhida e depositada numa máquina desenhada para o efeito, o corvo recebe um pouco de comida.
Christian Günther-Hanssen, fundador da Corvid Cleaning, empresa que está por detrás do projeto, diz que os corvos da Nova Caledônia, membros da família dos pássaros corvídeos, são tão bons em raciocínio quanto uma criança humana de sete anos, de acordo com a investigação mais recente, pelo que seriam os pássaros mais adequados para este tipo de tarefa.
Günther-Hanssen acrescenta: “Eles são mais fáceis de ensinar e também há uma chance maior de aprenderem uns com os outros. Ao mesmo tempo, há um risco menor de eles comerem qualquer lixo por engano."
[ Tradução, resumo, adaptação livre, fixaçáo de texto, para efeitos de publicação neste poste: LG]
Fonte: Daniel Boffey - Swedish firm deploys crows to pick up cigarette butts. The Guardian, Tue 1 Feb 2022 09.35 GMT... Com a devida vénia...
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Nota do editor:
(*) Último poste da série > 4 de fevereiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22965: (Ex)citações (400): A Suécia... sempre original (José Belo) - Parte I: as "renoducts", pontes para as renas sobre as linhas férreas e estradas da Laponia...
Guiné 61/74 - P22965: (Ex)citações (400): A Suécia... sempre original (José Belo) - Parte I: as "renoducts", pontes para as renas sobre as linhas férreas e estradas da Laponia...
No país dos Samis (, lapões, é um termo racista...)... As renas do Zé Belo, que também estão ser a vítimas das alterações climáticas... Foto do álbum do autor (2021)
José Belo, jurista, o nosso luso-sueco, cidadão do mundo, membro da Tabanca Grande, reparte a sua vida entre a Lapónia (sueca), Estocolmo e os EUA (Key West, Nova Orleans...); (ii) foi nomeado por nós régulo (vitalício) da Tabanca da Lapónia, agora jubilado; (iii) na outra vida, foi alf mil inf, CCAÇ 2391, "Os Maiorais", Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70); (iv) é cap inf ref do exército português; (v) durante anos alimentou, no nosso blogue, a série "Da Suécia com Saudade"; (vi) tem 215 referências no nosso blogue; e (vii( faz hoje anos.
Assunto - A Suécia... sempre original (*)
Caro Luís
Um pouco de ar de New Orleans (ou NOLA como se diz localalmente)...
Seguem dois artigos, do jornal inglês "The Guardian", um sobre corvos "funcionários camarários" para apanhar "beatas", e outro relacionado com as pontes construídas para as renas sobre algumas autoestradas da Laponia.
Um grande abraco com votos de saúde. J. Belo
https://www.theguardian.com/world/2021/jan/20/sweden-to-build-bridges-for-reindeer-to-safely-cross-roads-and-railways
https://www.theguardian.com/environment/2022/feb/01/swedish-crows-pick-up-cigarette-butts-litter
2. Comentário do editor Luís Graça
Tens razão, a tua segunda pátria (?) , a terra dos teus filhos, onde já vives há mais anos do que aqueles que viveste em Portugal e no seu ex-império, é um país... "original". Pelo menos onde se pode dizer que economia, concertação social, democracia, equidade social (igualdade de oportunidades) e ecologia até podem "rimar"...
A primeira destas pontes terá começado já a ser construída (ou estará construída) em 2021, na cidade oriental de Umea, segundo a emissora pública Sveriges Radio. “Renoducts” é o nome destas pontes, uma junção da palavra reno (renas) e de viaduct (viaduto).
O aquecimento global está já ter um impacto devastador nas 250 mil renas da Suécia e nos 4.500 proprietários indígenas Sami (lapões), com licença para as pastorear. (Em média, 55,5 renas por rebanho..). Algumas pastagens de inverno ainda estão a recuperar de secas e incêndios florestais que atingiram, sem precedentes, o Norte da Suécia.
Os líquens constituem uma parte fundamental da dieta das renas. Ora está-se a tornar difícil para elas encontrar os líquens, no inverno, agora mais quente e húmido. Em vez de neve, cai chuva. Quando as temperaturas descem abaixo de zero, formam-se entretanto camadas impenetráveis de gelo no solo em vez da normal crosta de neve macia. Nestas circunstâncias, as renas são incapazes de sentir o cheiro do líquen ou de escavar para chegar até ele...
Estes animais, para além do sua função ecológico e cultural, têm grande importância económica para as populações locais, sendo criadas pelo valor da sua carne, da sua pele e das suas hastes...
As doze "renoducts" cuja construção está planeada n Norte, nos condados de Norrbotten e Västerbotten, pretendem mitigar ou aliviar a situação... E, pelo menos, as autoridades já não terão, de futuro, de fechar a principal autoestrada norte-sul, a E4, quando um rebanho estiver em trânsito.
Guiné 61/74 - P22964: Parabéns a você (2032): José Belo, Cap Inf Ref, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2381, "Os Maiorais", (Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70) e Dr. Mário Bravo, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 6 (Bedanda e Bisau, 1971/72)
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Nota do editor:
Último poste da série 2 de fevereiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22957: Parabéns a você (2031): Germano Santos, ex-1.º Cabo Op Cripto da CCAÇ 3305 (Mansoa, 1970/73)
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022
Guiné 61/74 - P22963: Efemérides (362): Faz hoje 49 anos que a CCAÇ 12 e a CART 3494 sofreram uma emboscada em Ponta Varela, Xime, sofrendo um ferido ligeiro e o IN 2 mortos e 1 ferido... E para mim foi o batismo de fogo (António Duarte)
1. Mensagem do António Duarte
Data - 3 fev 2022, 18:59
Boa tarde Camaradas e Amigos.
Faz hoje 49 anos que a CCAÇ 12 e a CART 3494 tiveram uma emboscada perto de Ponta Varela. (**)
Para a terceira geração da CCAÇ 12 foi o primeiro contacto com o IN e jâ com o capitão Simão, o cap mil inf José António de Campos Simão.
Participámos neste "evento" três membros da nossa Tabanca: eu, o António Sucena Rodrigues, infelizmente já falecido, e o Jorge Araújo, da "subtabanca" de Abu Dhabi (Emiratos Árabes Unidos).
O João Candeias da Silva e o Emílio Costa (os dois da CCAÇ 12) com os quais mantenho contacto, pessoalmente com o Candeias e por mensagem com o Emílio, também foram recordados deste acontecimento.
De salientar que o Jorge Araújo da CART 3494, já tinha tido outros contactos, um deles com 1 morto do nosso lado (fur Bento em 22 de abril de 1972).
Daquilo que me recordo no regresso ao Xime, o Araújo relatou que teve mesmo num frente a frente com um homem do PAIGC (à época a CCAÇ12, ainda estava em Bambadinca).
Fica a curiosidade que um dos nossos, na troca de carregador vazio por um segundo, cheio, perdeu o primeiro e acaba por chegar ao quartel com menos um carregador de G3. Consequência, teve de o pagar. Rídiculo. Penso que foram 5 escudos, mas o nosso primeiro não perdoou.
Assim era, um guerra poupadinha e com contas certas.
E pronto, por hoje é tudo.
Estranho, passado tantos anos ainda recordamos estes temas. A experiência foi mesmo traumatizante.
Abraço,
Cart 3493 (Mansambo) e Ccaç 12 (Bambadinca e Xime( (1971/74)
Guiné 61/74 - P22962: Depois de Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74: No Espelho do Mundo (António Graça de Abreu) - Parte XXVI: Antigua Guatemala, Guatemala, 2016
Fotos (e legenda): © António Graça de Abreu (2021) Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. Continuação da série "Depois de Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74: No Espelho do Mundo", da autoria de António Graca de Abreu [, ex-alf mil, CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74. (*)
Escritor e docente universitário, sinólogo (especialista em língua, literatura e história da China); natural do Porto, vive em Cascais; autor de mais de 20 títulos, entre eles, "Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura" (Lisboa: Guerra & Paz Editores, 2007, 220 pp); é membro da nossa Tabanca Grande desde 2007, tem já três centenas de referências no blogue.
Antigua Guatemala, Guatemala, 2016
por António Graça de Abreu
Texto e fotos recebidos em 23/10/2021
Nesta América Central, 2016, venho por aí acima, 130 quilómetros desde o Oceano Pacífico, subindo montes, por estradas rasgadas nas encostas de montanhas vulcânicas que se elevam até aos 4.000 metros. Só no caminho, aqui à volta, passamos por quatro vulcões, o Pacaya, o Água, o Fuego e o Acatenango.
A Guatemala tem a particularidade de contar com trinta e um vulcões, quatro deles activos. É, por isso, um país ciclicamente sujeito às calamidades naturais, tremores de terra, erupções vulcânicas com a lava escorrendo por penhascos e desfiladeiros, devorando, ao avançar, terras férteis, vilas e aldeias.
A cidade de Antigua, conhecida localmente como La Antigua, foi fundada por colonizadores espanhóis em 1543, como escrevi encravada entre vulcões. Foi a primeira capital do país, quase totalmente destruída por um terramoto, seguido de grandes inundações, em 1773. Nessa altura construíu-se uma nova capital, a actual cidade de Guatemala, na planura de um vale, mais segura e de mais fáceis acessos, a 50 quilómetros de distância.
Parto à descoberta da Antígua Guatemala, património Mundial pela Unesco. Uma urbe colonial traçada em quadrícula, ruas pavimentadas com um velhíssimo empedrado, casas térreas com pátios interiores quadrados, à moda andaluza, jardins com buganvílias, água a correr, espaços frescos para viver e habitar. Duas dezenas de igrejas e capelas, treze conventos, tudo edificado há três ou quatro séculos, algumas construções já muito arruinadas. É o testemunho dos tempos de Espanha e da fé cristã assumida pelo povo desta terra onde a morte precoce e inesperada espreitava a cada esquina. Implorava-se a protecção de Cristo ou da Virgem Maria, pedia-se um pouco de felicidade em vidas breves, ansiava-se por um descanso eterno. Ingratos, sinuosos, inesperados os caminhos do Céu.
Na Antigua Guatemala metade da população é constituída por pessoas da etnia maia e os traços identitários de cada um saltam à vista. Não contaminados por sangue espanhol, ou europeu, os maias têm a pele mais escura, o cabelo muito negro e liso, os narizes aquilinos, os olhos grandes, encovados que me pareceram sempre tristes. Vestem, no entanto, roupas coloridas em trabalhados entrançados de lã. São a gente mais pobre e desfavorecida da Guatemala, um país onde me dizem que uma dúzia de famílias muito ricas controlam quase toda a produção de açúcar, café, bananas e borracha, as principais exportações do país. Será mesmo assim?
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Nota do editor:
(*) Último poste da série > 24 de janeiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22935: Depois de Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74: No Espelho do Mundo (António Graça de Abreu) - Parte XXV: Berlim, Alemanha, 1969
Guiné 61/74 - P22961: As tuas melhoras, camarada!... (2): Mário Gaspar, ex-Fur Mil At Art, Minas e Armadilhas, CART 1659, "Zorba", Gadamael e Ganturé, 1967/68), está há várias semanas internado no Hospital das Forças Armadas
Mário Gaspar, ex-Fur Mil At Art, Minas e Armadilhas, CART 1659, "Zorba" (Gadamael e Ganturé, 1967/68), lapidador de diamantes reformado, e colaborador sénior do nosso blogue (com 130 referências no nosso blogue)
1. SMS que me mandou o Mário Gaspar, em 27/1/2022,às 9h39:
Camarada Luís Graça:
Estiu hospitalizado no Hospital das Forças Armadas há dez dias. Problemas complicados.
Abraços para todos,
Mário Vitorino Gaspar
2. Telefonei-lhe ontem, ainda lá estava, com dificuldades em falar, mas sentindo-se melhor. Mandou "um abraço para a Tabanca". Já lhe tinha respondido, também por SMS, às 15h57, do dia 27:
Tempos tramados, Mário. Só vejo notícias dessas, tristes. A malta está-se a ir abaixo das canetas... Mas tu és como a Fénix Renascida... Vais sair pelo teu pé... Ou não fosses um "Zorba"|...
Agora tens que te deixar tratar. Vai dando notícias. Estás num bom hospital. Força para ti. Estou na fisioterapia.
Abraço fraterno, Luís
Ele vai gostar de receber um SMS ou até uma chamada de viva voz, dos amigos e camaradas da Guiné. Aqui fica o seu nº de telemóvel: 936 214 284 . (*)
3. E, a propósito da sua companhia, a CART 1659... Eles não eram "Os Zorbas", mas tão apenas "Zorba"... Divisa: "Os Homens não morrem"..."Zorba" (**)
Vd. aqui a ficha de unidade:
Companhia de Artilharia nº 1659
Identificação: CArt 1659
Unidade Mob: RAC - Oeiras
Crndt: Cap Mil Art Manuel Francisco Fernandes de Mansilha
Divisa: "Os Homens não Morrem" - "Zorba"
Partida: Embarque em 11 Jan67; desembarque em 17Jan67 ! Regresso: Embarque em 300ut68
Síntese da Actividade Operacional
Em 19Jan67, rendendo a CCaç 798, assumiu a responsabilidade do subsector de Gadamael, com um pelotão destacado em Ganturé, e ficando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 1861 e depois do BArt 1896 e ainda do BCaç 2834.
Em Ju168, face à intensificação da actividade de patrulhamento de itinerários e emboscadas na linha de infiltração inimiga na região de Guileje, o destacamento de Ganturé foi reforçado, temporariamente, por outro pelotão da companhia.
Em 200ut68, foi rendida no subsector de Gadamael pela CArt 2410 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.
Observações - Tem História da Unidade (Caixa n." 81 - 2.a Div/d." Sec, do AHM). Tem cerca de
Fonte: Excertos de: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 7.º Volume - Fichas das Unidades: Tomo II - Guiné - 1.ª edição, Lisboa, Estado Maior do Exército, 2002, pág.448. (Com a devida vénia...).Notas do editor:
(*) Último poste da série > 28 de janeiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22945: As tuas melhoras, camarada !... (1): Padre Mário de Oliveira (ex-alf mil capelão, CCS/BCAÇ 1912, Mansoa, 1967/68), hospitalizado, em Penafiel, com múltiplos traumatismos, mas consciente, depois de grave acidente automóvel
(**) Vd. poste de 19 de abril de 2018 >Guiné 61/74 - P18537: O Cancioneiro da Nossa Guerra (7): "Marcha de Regresso" (Recolha de Mário Gaspar, ex-fur mil at art, MA, CART 1659, "Zorba", Gadamael e Ganturé, 1967/ 68)Guiné 61/74 - P22960: No céu não há disto... Comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (31): "Iscas com elas..."
Apenas um reparo: podiam ter uma corzinha de salsa, fica sempre bonito no prato. E tanto quanto me lembro, a minha mãe adicionava, à marinada, um pouco de baço raspado, para engrossar o molho. Vou pergntar ao "chef" Tony (Levezinho) qual é a sua receita secreta... Aposto que ele também adora iscas (ou, como dizia, o alfacinha do tempo do seu avô, os "bifes de cabeça chata")...
Aqui o resumo do trabalho:
(...) "Nesta dissertação, apresentamos um estudo de caso sobre o prato tradicional Iscas de Fígado com/sem Elas. A partir de uma abordagem antropológica, analisamos o modo como este prato se tornou num símbolo e o seu papel como oferta gastronómica da cidade de Lisboa, num âmbito temporal que vem desde o século XIX até à actualidade, bem como a sua relação com o turismo. O ponto de vista dos anfitriões, em particular no que respeita aos restaurantes do centro da cidade, foi um dos aspectos analisados neste trabalho.
Os resultados da pesquisa documental, dos levantamentos e das entrevistas efectuadas permitiu-nos identificar as características deste prato no âmbito da gastronomia portuguesa. Consequentemente, possibilitou-nos estabelecer uma perspectiva histórica e social da sua forma de consumo no espaço da cidade, reconhecer o seu papel no âmbito dos processos de patrimonialização que subsequentemente enformam as estratégicas de divulgação turística; e, finalmente, examinar a presença deste prato na oferta gastronómica da cidade de Lisboa.
A legitimação antropológica da patrimonialização deste prato, em virtude da sua relevância gastronómica no contexto dos hábitos e vivências alimentares específicos da cidade de Lisboa, convive com a inexistência de divulgação institucional deste património no âmbito do turismo, o que tem fomentado o desconhecimento desta realidade gastronómica por parte de muitos anfitriões e profissionais de restauração. Simultaneamente, e de forma paradoxal, verifica-se a presença das Iscas de Fígado com/sem Elas numa vasta percentagem de restaurantes e casas de comida no centro histórico de Lisboa. (...)
___________
Nota do editor:
Último poste da série > 29 de agosto de 2021 > Guiné 61/74 - P22495: No céu não há disto... Comes & bebes: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande (30): Bacalhau com couves no forno, à moda da minha avó Maria, que era do Minho (Valdemar Queiroz)
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022
Guiné 61/74 - P22959: Agenda cultural (798): Apresentação do livro "Guerra, Paz... e Fuzilamentos - Guiné 1970-1980" da autoria de Manuel Bernardo, dia 15 de Fevereiro, pelas 15h00, na Livraria-Galeria Municipal Verney, Rua Cândido dos Reis, 90 - Oeiras. A obra será apresentada pelo Coronel Tirocinado Comando Raul Folques
GUERRA, PAZ... E FUZILAMENTOS - GUINÉ 1970-1980
Da autoria do Cor. Manuel Amaro Bernardo
BARROSO da FONTE
Por ocasião dos 28 anos da inauguração do Monumento Nacional aos Combatentes do Ultramar, situado junto ao Forte do Bom Sucesso, em Belém, Lisboa, chega aos escaparates das melhores livrarias do país, a obra: GUERRA, PAZ... E FUZILAMENTOS - GUINÉ 1970-1980.
Assina este livro de livros, o Coronel Manuel Amaro Bernardo que nasceu em Faro, em 1939 e que é «um oficial reformado do Exército Português. Desde 1977, passou a fazer investigação sobre a História Contemporânea mais recente, tendo publicado nove livros até 2013». Extratos desses livros relacionados com a Guiné, mais aditamentos posteriores, reaparecem, em 472 páginas, algumas das quais já faziam parte de outra obra com idêntico título, em 2007.
Não conheci pessoalmente este meu coetâneo, ele do quadro permanente e eu miliciano. Mas a sua vasta obra, coerente, patriótica, disciplinada e rigorosa sempre me alentou a formar e a formatar essas virtudes culturais e cívicas que me nortearam, como jornalista e autor, nestes 68 anos de militância ininterrupta que completo em 24 deste mês. Na minha biblioteca pessoal, exposta ao público, na Cidade Berço, que chegou a ter vinte e três mil títulos, antes de enviar partes para Timor, Câmara de Montalegre e associações periféricas, consegui adquirir, cerca de um milhar de obras de militares de todas as ideologias. Prefaciei várias, editei dúzias (como editor) e como recensor literário, li muitos mais.
Confesso que uma leitora que pessoalmente não conheço mas que me privilegia com a sua amizade e a qual considero, uma espécie de anjo da guarda de todos, frequenta, em Lisboa, os centros culturais recomendáveis para as apresentações de livros.
A Editora Âncora, por exemplo, pegou no programa «Fim do Império» que foi criado pelo Coronel Manuel Barão da Cunha, quando foi funcionário da Câmara Municipal de Oeiras, no sector Cultural.
A maior parte dos livros dos militares de Abril, quer do quadro quer milicianos, primam pela entrega das obras que nos últimos 25 anos se têm publicado. Os amigos do livro, já conhecem os locais das apresentações. E, mal sabem de mais um, logo partilham essa presença, mesmo à distância.
Com mais esta obra assim aconteceu. Acabei de ler, reler e anotar elementos para uma recensão. Manuel Amaro Bernardo, Alberto Ribeiro Soares, Jorge Golias, Jorge Lage, Manuel Barão da Cunha, todos coronéis da Guerra do Ultramar, são figuras de alto nível intelectual e académico que aprecio ter à mão para reconhecer que todos fizemos parte do mesmo ciclo. Esse ciclo prejudicou a todos, quer os profissionais das armas, quer os milicianos. Aqueles viram interrompidas as suas carreiras às portas do generalato. No meu caso que foi o de muitos milhares, que atrasaram os seus cursos superiores o seu casamento, a reconstrução das suas vidas familiares. Nunca, alguém, corrigiu esta aberração. Mas ela existe desde que a democracia ficou institucionalizada. Esse quisto, quicá furúnculo gangrenoso, é irreversível
Compensações? Somente os 310 ex-políticos e juízes que durante toda a sua vida receberão, mensalmente, pensões de luxo, entre 883 e os 13.666 euros. Mas estas verbas, conhecidas por «subvenções mensais vitalícias» nada têm a ver com os restantes rendimentos do trabalho profissional desses sortudos.
Este livro de um comentador bem documentado, obriga a uma reflexão sobre os 48 anos de democracia em construção. Edição da Âncora - programa Fim do Império.
Barroso da Fonte
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Nota do editor
Último poste da série de 23 DE JANEIRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P22932: Agenda cultural (797): Museu do Aljube, Resistência e Liberdade, Lisboa: exposição temporária, de 13/1 a 20/3/2022: "A Guerra Guardada: Fotografias de Soldados Portugueses em Angola, Guiné e Moçambique (1961-74)
Guiné 61/74 - P22958: Historiografia da presença portuguesa em África (302): "Subsídios para a História de Cabo Verde e Guiné", as partes I e II foram editadas em 1899, o seu autor foi Cristiano José de Senna Barcelos, Capitão-Tenente da Armada (6) (Mário Beja Santos)

Queridos amigos,
Do que até agora se transcreveu do importantíssimo trabalho de Senna Barcelos, a continuidade que o autor pretendeu dar à sua ampla investigação que se inicia com as primeiras viagens à região da Senegâmbia, e passando por três dinastias, dá perfeitamente para compreender o papel subalterno que era politicamente conferido à subcolónia, tudo era decidido em Cabo Verde, o governador punha e dispunha, embora as nomeações para Cacheu e Bissau viessem de Lisboa. O que agora se reporta corresponde ao período de intervenção de Honório Pereira Barreto, que sai claramente engrandecido na narrativa de Senna Barcelos. Barreto não só compra porções de território e oferece-os à Coroa, como troca correspondência bem frontal com os franceses em Gorée. E os ingleses também estão à espreita, não querem só a Serra Leoa, ambicionam estacionar no Rio Grande de Buba e apoderar-se de Bolama. Tudo é sempre precário em Bissau, como iremos ver na continuação e conclusão destes Subsídios para a História da Guiné e de Cabo Verde, parte IV, 1910, sublevações, homicídios, raptos, cercos à fortaleza e à povoação limítrofe serão fartura.
Um abraço do
Mário
Um oficial da Armada que muito contribuiu para fazer a primeira História da Guiné (6)
Mário Beja Santos
São três volumes, sempre intitulados Subsídios para a História de Cabo Verde e Guiné, as partes I e II foram editadas em 1899, a parte III, de que ainda nos ocupamos, em 1905; o seu autor foi Cristiano José de Senna Barcelos, Capitão-Tenente da Armada, oficial distinto, condecorado com a Torre e Espada pelos seus feitos brilhantes no período de sufocação de sublevações em 1907-1908, no leste da Guiné.
Estamos em 1837, Honório Pereira Barreto está atentíssimo ao que se passa na região do Casamansa, assiste à gradual infiltração francesa. Em 16 de junho, dava conta ao Ministro da Marinha e do Ultramar da ida do governador da Gorée ao rio Casamansa numa escuna de guerra, com o fim de ocupar uma das margens, fazendo-se ali um estabelecimento comercial. Enviou-lhe cópias da correspondência trocada entre as novas autoridades e o comandante e governador do Senegal. O governo de Lisboa manifesta-se pouco sensível à gravidade da situação. Ora a presença a francesa tem o seu histórico.
Senna Barcelos é minucioso em toda esta documentação sobre a presença francesa no Casamansa, a troca de correspondência com o Ministro da Marinha e Ultramar é abundante. Logo a carta de Sá da Bandeira, datada de 21 de junho de 1838 em que dá notícia que a rainha ordena ao governador-geral de Cabo Verde que expeça ordem ao governador de Bissau para que com a maior brevidade erija um forte com bandeira portuguesa na margem do sul da embocadura do rio Casamansa, no mesmo braço do rio em que se acha o estabelecimento francês feito em 1828. E há os protestos de Ziguinchor pela atitude soberana e provocatória de barcos de guerra franceses. O cinismo deixa de ter limites na gula francesa, veja-se a carta do comandante da ilha de Gorée, G. Dagorne enviada para Ziguinchor:
“Tenho a honra de vos informar oficialmente que acabamos de adquirir em nome de Sua Majestade, o rei dos Franceses, na aldeia mandinga de Selho, um terreno destinado para estabelecer uma feitoria. Estando convencido que as relações mais extensas, que esta circunstância vai estabelecer entre o comércio e os habitantes de Ziguinchor, serão úteis e agradáveis a ambos os lados, eu espero que as embarcações mercantes francesas, que navegarem no Casamansa para cima e para baixo, longe de experimentarem o menor embaraço neste lugar, onde comandais, acharão pelo contrário todo o bom acolhimento e benevolência, que prestam ordinariamente as nações civilizadas e amigas”.
Honório Pereira Barreto deu-lhe prontamente a resposta:
“Acabo de ser informado pelo comandante de Ziguinchor que Vossa Excelência a bordo de um navio de guerra passou aquele presídio, foi pelo rio acima e comprou um terreno aos Mandingas em Selho. Por este motivo o supradito comandante protestou contra semelhante ato e eu da minha parte me dirijo a Vossa Excelência para dizer que a compra que Vossa Excelência fez do terreno nada influi, muito bem sabe que não tinha direito algum de passar a bandeira portuguesa dentro do rio Casamansa; e que Vossa Excelência não fez mais do que usar do direito da força que nada valida, e assim eu protesto contra uma tal agressão por Vossa Excelência cometida”.
Todas estas peripécias estão minuciosamente inventariadas por Senna Barcelos, dá-se mesmo conhecimento ao governador da Gâmbia de tudo quanto se está a passar, mas da Gâmbia não chegaram os socorros pedidos por Honório Pereira Barreto. O governador do Senegal insiste com os direitos históricos franceses, sempre refutados e o governador de Cabo Verde informa da situação para Lisboa.
Mas os acidentes não acabam por aqui, vão-se estender a Bolama, isto enquanto Honório Pereira Barreto procura adquirir mais parcelas na Guiné. Ele passa por Bolama em dezembro de 1937, é governador da Guiné, e ratifica a posse da ilha, onde Caetano Mozolini e Aurélia Correia possuíam boas propriedades agrícolas e urbanas na região oeste.
(continua)
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Notas do editor
Poste anterior de 26 DE JANEIRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P22941: Historiografia da presença portuguesa em África (300): "Subsídios para a História de Cabo Verde e Guiné", as partes I e II foram editadas em 1899, o seu autor foi Cristiano José de Senna Barcelos, Capitão-Tenente da Armada (5) (Mário Beja Santos)
Último poste da série de 2 DE FEVEREIRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P22956: Historiografia da presença histórica portuguesa em África (301): mapa francês dos anos de 1680 que mostra a região de Casamansa, Cacheu Farim e Bissau
Guiné 61/74 - P22957: Parabéns a você (2031): Germano Santos, ex-1.º Cabo Op Cripto da CCAÇ 3305 (Mansoa, 1970/73)
Nota do editor
Último poste da série de 29 DE JANEIRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P22948: Parabéns a você (2030): Luís Graça, Fundador e Editor deste nosso Blogue, ex-Fur Mil Armas Pesadas de Infantaria da CCAÇ 2590/CCAÇ 12 (Bambadinca, 1969/71)
Guiné 61/74 - P22956: Historiografia da presença histórica portuguesa em África (301): mapa francês dos anos de 1680 que mostra a região de Casamansa, Cacheu, Farim e Bissau
La coste d'Afrique | A costa ocidental de África
La coste d'Afrique depuis la rivière de Gambie jusques à celle de |Cherbe (?) ou Madrebombe (?), presentée à Monsieur "monseigneur de Pontchaulyaire (?) | Mapa da costa da África Ocidental desde o rio Gâmbia ao de Cherbe (?) ou Madrebombe (?), apresentado a Monsenhor de Pontchaulyaire (?)
Eschelle de quarante lieuz (?) françaises et anglaises | Escala de quarenta lugares (?) franceses ingleses
Farim colonie portugais... Gesves (?), colonie portugaise | Farim, colónia portuguesa... Geba (?), colónia portuguesa
Fotos (e legendas): © João Schwarz da Silva (2022). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. Mensagem de João Schwarz da Silva, membro da nossa Tabanca Grande, nº 768, desde 30 de março de 2018. (Recorde-se que o João nasceu em Alcobaça em 1944, e foi para a Guiné pela primeira vez com 4 anos. Depois da morte do seu avô Samuel Schwarz em Lisboa, em 1953, voltou para Bissau onde frequentou o Colégio Liceu Honório Barreto, onde a mãe era professora, até à sua vinda para a universidade, em Lisboa, em 1960; vive em Paris; é o autor da página Des Gens Intéressants, onde tem perpetuado as memórias de amigos e familiares; Tem já uma dezena e meia de referências no nosso blogue.)
Data - quarta, 26/01/2022, 08:52
Assunto - Mapas da Guiné
Caro Luis
Nas minhas andanças pela BNF - Biblioteca Nacional de França, em Paris, descobri um mapa muito interessante que mostra a região da Guiné nos anos 1680. Aparentemente o mapa est baseado nas viagens de um Michel de la Courbe que era delegado da companhia do Senegal e que visitou Cacheu, Bissau e Farim.
Aqui vão as imagens.
Um grande abraço
João Schwarz da Silva