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segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Guiné 61/74 - P23691: Agenda cultural (819): Conferência sobre Bases Aéreas de Portugal - BA 11 - Beja e BA 12 - Bissalanca, Guiné, no dia 20 de Outubro de 2022, às 18h00, Palácio da Independência, Largo de São Domingos (ao Rossio)

C O N V I T E

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Nota do editor

Último poste da série de 7 de Outubro de 2022 > Guiné 61/74 - P23681: Agenda cultural (818): doclisboa'22- festival internacional de cinema, 6-16/10/2022: Retrospectiva - A questão colonial: 35 filmes - Parte II: Guiné, Angola, a memória e as novas batalhas. Mesa redonda, dia 8, às 15h00 (Cinema São Jorge) e às 19h00 (Cinemateca)

Guiné 61/74 - P23690: Notas de leitura (1504): "Deixei o meu Coração em África", por Manuel Arouca; Oficina do Livro, 2016 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Fevereiro de 2020:

Queridos amigos,
Manuel Arouca é um bom confecionador de literatura de passatempo, não falta nem drama com ciúme, militares estropeados, heróis da guerra, desgraçados morais, sinais evidentes de que o Estado Novo caminha para a sua perdição. A questão de fundo é a inverosimilhança, não é preciso ser antigo combatente para imaginar um furriel em Guileje, que recebe a visita de figuras gradas do Movimento Nacional Feminino, na comitiva vem a mulher que é o enlevo do seu coração, desencadeia-se uma tempestade de fogo, e aquele furriel, que gosta de tirar fotografias insólitas à Robert Capa, escapa-se para o mato com a mulher apaixonada atrás, capta imagens extraordinárias de gente estorricada pelo bombardeamento aéreo; inverosímeis são também as passeatas de ski aquático em Gadamael. Tudo bem apimentado com bebedeiras de estrondo, ambientes luxuosos, muita roupa de marca, carros que custam fortunas, e um final feliz depois de um longo labirinto de equívocos. Pode-se dizer que é a televisão que vem até à literatura, e não o inverso.

Um abraço do
Mário


Deixei o meu coração em África, por Manuel Arouca (2)

Mário Beja Santos

Na década de 1980, Manuel Arouca [foto à direita] ganhou notoriedade com um bestseller intitulado "Filhos da Costa do Sol". Podemos considerá-lo romancista, argumentista e guionista. O seu romance "Deixei o meu Coração em África", Oficina do Livro, 2005 (trata-se da 2.ª edição, que serve de base para esta apreciação) tem como protagonista o Furriel Rodrigo, menino de boas famílias que se entrosam com outras boas famílias, numa circulação entre Lisboa, Sintra, Estoril e Cascais, famílias com muitos negócios, com enorme apreço pelo Estado Novo, a geração de Rodrigo vê emergir sinais de inconformismo com a ordem estabelecida. Há muito álcool, sexo, estranhas sinas do destino que provoca casamentos equívocos, condenados a caírem na água, mas com bodas da maior popa e circunstância, com caçadas e a alta sociedade possidente a marcar presença.

O Furriel Rodrigo Pereira dos Santos vai para Guileje e mais tarde para Gadamael. Manuel Arouca nasceu em Porto Amélia, a presença de Moçambique no romance é uma quase inevitabilidade. Rodrigo é amigo de um jovem banqueiro, Ricardo, com muitos interesses em alguns pontos da colónia; como é amigo de Chico, um ilustre advogado, que depois de Isabel, a grande paixão de Rodrigo, se ter divorciado de Armando, um canalha da pior espécie, com ela vive e convive.

É bom que o leitor atine que há uma senhora africana que é atropelada por Isabel, no Estoril, em 1989, larga um bom maço de papéis que Isabel recolhe, são as memórias de Rodrigo, como solução de trama não deixa de ser um bom “chapéu velho” para que a narrativa tenha seguimento, mesmo com saltos cronológicos, vê-se perfeitamente que o autor domina a técnica do folhetim e conhece bem os condimentos do melodrama. Ricardo foi para a guerra, em Lourenço Marques é recebido com estadão, jantar no Grémio Civil, onde se traja habitualmente a rigor, mas naquela noite é tudo à desportiva, com camisas Lacoste ou Fred Perry, vestidos em linho, sedas naturais, chiffons e organzas. Não faltou nenhum barão das Finanças, Ricardo sente-se atraído por Guida, uma beleza espetacular, viajam de avioneta, são cenas dignas do filme África Minha, frequentam clubes, é tudo um forrobodó, no Sul de Moçambique ninguém fala em guerra, é um dado remoto lá muito em cima. Seguem para Nacala, a seguir entra no palco da guerra, perto de Vila Cabral, não irão faltar caçadas e encontro com Jorge Jardim. Voltamos a Guileje, os ataques sucedem-se, as colunas de reabastecimento são um inferno, não falta também um ataque de abelhas, Rodrigo escreve ao pai a dizer que não há solução militar para aquela guerra, é preciso que os apoiantes do Estado Novo suportem a tese de Spínola, é imperativo uma reconciliação de todos os guineenses, mesmo sabendo-se que o regime rejeita categoricamente conversações com os “terroristas”. O pai de Rodrigo almoça com um ministro de Salazar no Grémio Literário, uma conversação cheia de asperezas, o ministro tem que sair à pressa, fora avisado que o seu nome estava ligado ao escândalo dos Ballet Rose. O Capitão Ivo Ferreira, um amigo de coração de Rodrigo em Guileje, recebe ordens para abandonar Guileje, é vítima da política de Spínola, todos os cabo-verdianos têm que abandonar lugares de comando. Abreviando, um dos amigos de Rodrigo é traído pela mulher que anda com um escroque, quando Rodrigo for a Lisboa para casar desanca-o de tal modo que o energúmeno será hospitalizado; outro amigo terá a sua paixão africana, há casório religioso e civil, uma mina leva-lhe as pernas. Não esquecer, tal como nas telenovelas, Rodrigo gosta de Isabel que casará com Armando, Rodrigo com Leonor, dinheiro para ali não falta, tudo com estadão e bebedeiras.

Regressado do casamento agridoce, Rodrigo é transferido de Guileje para Gadamael. Se toda esta África é já uma arte escritural sempre à superfície, se todo o absurdo da descrição daquele ataque a Guileje em que o Furriel Rodrigo no meio de uma tempestade de fogo corre para a mata acompanhado de Isabel para fotografar as imagens de um ataque aéreo ao grupo guerrilheiro, agora o absurdo fala mais alto, o Furriel Rodrigo irá ter conversações com uma figura de proa do PAIGC, fará ski aquático, com um zebro dotado de um motor potente, Armando, mais onzeneiro do que nunca, manda missivas ao ministro de Salazar, em tom ciclotímico, umas vezes é a euforia da captura do capitão cubano Pedro Peralta, no decurso da Operação Jove, no ano seguinte revelará a profunda deceção por Spínola, por causa do massacre de vários oficiais, em 20 de abril de 1970. Como é próprio de gente fina, Spínola há de visitar o quartel de Rodrigo, trata-o por tu, irá comer chabéu de peixe feito à base de tainhas acompanhado com água das pedras. Há para ali umas lambuzadelas de etnografia e etnologia, casamentos, choros, fanados. E o fim da comissão de Rodrigo é em Bissau, Armando teve à beira de levar um bom par de tabefes, com muito espanto Rodrigo vê marchar os comandos africanos, o comandante é o Capitão Baga, irmão-gémeo de Sima, o chefe guerrilheiro com quem Rodrigo teve conversas sigilosas, claro está.

A guerra acabou, Rodrigo comparece no casamento de Isabel, pouco antes da cerimónia têm uma conversa acalorada, é um arrebatado dueto de amor, com mais poesia só o que Shakespeare pôs nas bocas de Romeu e Julieta. A descrição dos ambientes é sempre de fausto, de grandeza, naquela declaração de amor Rodrigo preparava-se para lhe levantar o vestido, a mãe de Isabel entrou e não se apercebeu daquele furor. Entramos na reta final, a africana recuperou a consciência, chama-se Páscoa, andou nas Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, tem um magnetismo muito especial, Rodrigo tinha desaparecido com o pretexto que estava canceroso, deu à costa, Páscoa foi a fiel portadora do documento que Rodrigo foi laboriosamente escrevendo no arvoredo guineense. Numa atmosfera de ópera, dá-se o reencontro entre Isabel e Rodrigo. Rodrigo descobre que é pai do filho de Isabel. Necessariamente que toda esta saga termina em bem, à custa de outros corações destroçados: “Isabel e Rodrigo abraçam-se. Ela encosta-lhe a cabeça no peito. As palavras são completamente desnecessárias. Sentem-se um ao outro como nunca na vida se tinham sentido”.

É esta a síntese de um melodrama que começa em 1968 e desabrocha em 1989, pelo caminho andou-se pelo Sul da Guiné, houve um rol de intrigas, casais trocados, e depois do 25 de Abril aquela besta do Armando andou na trafulhice, depois de ter calcorreado vários partidos. Fica por esclarecer se Manuel Arouca não vai voltar a pôr Rodrigo Pereira dos Santos de novo na Guiné, já que ele ali deixou o coração.
Imagem de uma coluna entre Aldeia Formosa e Buba, retirada do blogue Guiné 1968/69, referente à BCAÇ 2834, com a devida vénia
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Nota do editor

Último poste da série de 7 DE OUTUBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23682: Notas de leitura (1503): "Deixei o meu Coração em África", por Manuel Arouca; Oficina do Livro, 2016 (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P23689: "Despojos de Guerra" (Série documental de 4 episódios, SIC, 2022): Comentários - Parte II - Luís Graça: Percebe-se agora melhor por que é que a PIDE/DGS, os seus agentes e os seus informadores, tiveram um tratamento tipo "português suave", a seguir ao 25 de Abril de 1974


Carta de Angola (1968). Escala 1 / 2 milhões. Posição relativa de Luso, Luanda e Benguela. 

Fonte: Excerto de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo I; Angola; Livro 2; 1.ª Edição; Lisboa, 2006, pág. 8 (Com a devida vénia...)


1. Comentário de Luís Graça ao poste P23677 (*):

Vi na quinta feira (e revi depois, com mais atenção) este 1º episódio ("A informadora"). 

Não tinha expectativas muito altas, porquanto o jornalismo de investigação  em televisão é caro, muito caro. E depois gostava que a série documental, em 4 epísódios, fosse mais explícito sobre o sentido do título genérico "Despojos de guerra"...

Cortesia de Mosurlow / 

Mas, pensando bem, parece haver um fio condutor entre os vários episódios: 

(i) o trabalho (sujo e perigoso, em todas as guerras) do "colaboracionismo" (1º episódio);

(iii)  a "ingratidão" e a "injustiça" do colonizador que abandona os seus "harkis" (o termo, de origem árabe, tem um sentido depreciativo, na Argélia, e refere-se aos "auxiliares" norte-africanos que lutaram do lado dos franceses, durante a guerra da independência da Argélia, em 1954-62 (2º episódio); 

(iii) menos óbvia, é a inclusão do episódio do Miguel Pessoa e da sua futura companheira Giselda, nossos queridos amigos e camaradas, na sequência do abate, por um Strela, do primeiro Fiat G-91, em 25 de março de 1973, sob os céus de Guileje (3º episódio, "Corredor da Morte";

(iv)  e, no quarto episódio, esse mais óbvio, os "filhos do vento", os "restos de tuga": como em todas as guerras, esses, sim, são "despojos de guerra", já o Miguel e a Giselda não sei se não se vão ofender...

Quanto às fontes documentais, não me pareceu haver nada de novo (nomeadamemte filmes de arquivo inéditos, a não ser talvez imagens de tropas do MPLA e de um interrogatório, no mato, a prisioneiros portugueses) e com o reparo de não se identificar a sua origem, com exceção das imagens do Arquivo RTP...

Voltaram a usar-se, sem citar a fonte, imagens já estafadíssimas do documentário "Guerre en Guinée" [, "Guerra na Guiné", ORTF, Paris, 1969] , há muito disponível no portal do INA - Institut national de l'audiovisuel (13' 58'') e... no nosso blogue

O vídeo da ORTF, feito no decuros da Op Ostra Amarga,  tem sido utilizado "ad nauseram" pelas nossas televisões quando se fala da guerra colonial, à falta de "material nacional" (que era isso que competia fazer  à RTP de então e aos fotocines do exército).

A única novidade é o uso da técnica de "colorização" de filmes e imagens antigas, a preto e branco. É uma técnica há muito disponível no mercado mas pouco frequente em documentários da nossa televisão... Imagino que não seja uma técnica barata... Gostei de ver imagens de Luanda de 1961, cidade que só conheci a partir de 2003...

Quanto à Sebastiana Valadas..., bom, temos de reconhecer que é um achado. Como e onde é que a terão desencantado? Através, seguramente, dos arquivos da PIDE/DGS... Parece que vive no Alentejo, pelo que li no Expresso, de 18/2/2022. Teria ido  com os pais, com oito anos, para Angola, fugindo presumivelmente da miséria onde nasceu... E, como não terá conhecido outro paraíso, sentia-se angolana (mais do que portuguesa) de alma e coração...

A entrevista, semi-diretiva, feita pela Sofia Pinto Coelho, acho que é de "antologia"... A jornalista consegue obter informações que são dignas de nota: 

(i) Angola em 1961 não tinha "nada a ver com Portugal" (sic); 

(ii) Luanda "rivalizava" com Lisboa, no desenvolvimento, no  progresso, no chique, no "glamour"; 

(iii) "Gostava de viver a guerra" (sic), apesar de ter vivido com o credo na boca e ter estado entre fogos cruzados dos militares dos vários movimentos nacionalistas em confronto em Luanda; 

(iv) Admirava a Kalash, russa, que os guerrilherios do MPLA empunhavam  quando vinham à sua loja para se abastecerem de tabaco, sal, peixe seco, vinho  e outros produtos ("umas vezes pagavam, outras não"); 

(v) "eu e o meu marido demos cabo da 4ª Região Militar do MPLA" (uma fanfarronada...): 

(vi) e, afinal, fomos utilizados como "carne para canhão", lá no cu de Judas,  e aqui estou eu, expulsa de Angola, a morrer na miséria, sem direito sequer a uma pensão pelos meus serviços (e do meu marido) ao País... enquanto a PIDE/DGS estava, em 1972,  no "bem-bom" do Luso.

O casal (a Sebastiana e o marido, Avelino Durães, nome de guerra "Ferro",  apresentados como "agentes duplos") caiu na asneira de ficar em Angola, depois da independência, apesar dos avisos da própria polícia política de que ambos poderiam  correr sérios riscos de morte pelos resultados da Op Fina Flor, em 1972, em que foi preso entre outros o comandante João Arnaldo Saraiva de Carvalho, futuro general embaixador e chefe da polícia nacional de Angola... (Com ele terão sido captutados 6 elementos do MPLA e 3 terão sido mortos, não sabendo nós se esta Op Fina Flor foi exclusivamente pela PIDE/DGS ou pelo Exército.)

A expressão "agente dupla" é talvez abusiva: estes "cantineiros do mato", lá no "cu de Judas" (título de um conhecido romance do António Lobo Antunes), limitaram-se a "jogar com o pau de dois bicos", como aconteceu na Guiné com os comerciantes, poucos, que restaram no interior depois do início da guerra, em 1963.

A entrevista com o João Arnaldo Saraiva de Carvalho (nome de guerra, "Tetembwa", mestiço, que eu presumo ser  filho de pai português e de mãe angolana, que vem do interior para estudar em Luanda, tendo feito o 7º ano no Liceu Salvador Correia, onde teve como colega de turma o futuro presidente da república José Eduardo dos Santos, e que depois vai para Coimbra frequentar o curso de direito... e que entretanto é mobilizado para Guiné e decide desertar, fugindo com a esposa, também colega de curso, e seguindo o caminho que trilharam muitos outros africanos que estudavam nas universidades portuguesas (Lisboa, Coimbra e Porto): neste caso, a França, a Zâmbia, a URSS...)... Essa entrevista, dizíamos, não é feita pela equipa da SIC, portanto não é material de "primeira mão", remonta a 2015, é de fonte angolana, está disponível na Net:

https://www.tchiweka.org/pessoas/joao-saraiva-de-carvalho

Ficámos a saber que a Associação TCHIWEKA de Documentação (ATD) "é uma pessoa colectiva de carácter voluntário e sem fins lucrativos, com a missão fundamental de promover e divulgar actividades culturais, científicas e educativas que contribuam para preservar a memória e aprofundar o conhecimento da luta do Povo Angolano pela sua independência e soberania nacional"...

No sítio da ATD publica-se também a "Ordem de serviço do MPLA nº 28/71 (Lusaka), de Daniel Chipenda",  com a nomeação do Comando da 4ª Região: Mwandondji (comissário político com funções de comandante), Augusto Alfredo «Orlog» (operações), João Saraiva de Carvalho «Tetembwa» (adjunto do comando). 

Nunca tínhamos ouvido falar desta IV Região Militar do MPLA. Recorde-se que o Daniel Chipenda (1931-1996), antigo jogador de futebol  da Académica de Coimbra e do Benfica, saído clandestinamente de Portugal em 31 de agosto de 1962, foi o responsável pela abertura da Frente Ldo este do MPLA.  A primeira acção a primeira acção no Leste terá ocorrido em 16 de maio de 1966, na região de Lumbala,  e nela terão morrido sete soldados portugueses. Mas depois perdeu influência, em 1972, devida à contra-ofensiva das NT. (Vd. CECA, 2006, op cit, p. 152).

... Em 1972, o "Tetembwa" é preso por denúncia dos agentes duplos, a Sebastiana e o marido... Como recompensa, a PIDE, face ao grande "ronco" (como dizíamos na Guiné), aumenta a avença mensal do "Ferro"  para o dobro, oito contos  (antes recebia quatro contos pelos seus serviços, dele e da esposa), além de uma recompensa choruda de 30 contos (o equivalente, a preços de hoje, a 7.253,42 €)... (Tudo isto documentado em papel timbrado da PIDE.)

Depois da independência, o casal que decidira, levianamente (?),  continuar em Angola, é preso, certamente por denúncia ou buscas da polícia, o "Ferro" é torturado pelo próprio "Tetembwa" mas nunca terá confessado quem denunciou a presença deste comandante e do seu grupo na loja, em Cassai-Gare (estação do caminho de ferro da linha de Benguela, província de Moxico, cuja capital era o Luso, hoje Luena), no leste, na região dos diamantes... Ao fim de ano e meio de prisão, foi solto, sem julgamento, e expulso para Portugal onde entretanto viria a morrer...

Acho que o episódio vale sobretudo pelas "confidências" (cruas, despudoradas, mas sinceras e serenas, autênticas, com alguma basófia aqui ou acolá, quiçá demasiado ingénuas..., confundindo-se às vezes ingenuidade com desassombro) desta mulher, que é entrevistada na cozinha da sua casa (no Alentejo?) enquanto ela e outra matam e depenam um enorme galo (que seguramente não era o da UNITA)...

Claro que ela sabia que, na vida e na guerra, é difícil (e sobretudo perigoso) servir dois senhores, manter dois amores, defraldar duas bandeiras... (Sem querer, ela denuncia alguma atração por aqueles rapazes de vinte anos a que ela chama "turras", que até eram bem parecidos e educados...).

Malhas que o império teceu... e cujos "despojos" ainda chegam às "praias lusitanas" da nossa memória...

Por que é que eu gostei da entrevista? Porque a verdadeira "vedeta", a protagonista, é a Sebastiana, a entrevistada, não a entrevistadora... É importante que estas pequenas grandes histórias fiquem registadas, para a História, para a nossa memória e para memória futura, sem retoques, sem comentários, sem quaisquer preocupações com o "politicamente correto"... Ficamos também a saber o importante papel que a PIDE/DGS desempenhou na guerra, com a sua tentacular (e eficaz) rede de "informadores"...

E não brincavam em serviço: quando a Sebastiana e o marido são descobertos e denunciados pelos "negócios" com o MPLA (afinal, um bom "cliente", naquele cu de Judas...), o casal, que tinha filhos pequenos, terá ficado sem alternativa: ou colaboravam com a PIDE (correndo o risco de ficar sem  ou o então o  Durães "apanhava 20 anos no Tarrafal" (sic)... 

Percebe-se melhor então por que é que o rapaz era um grande consumidor de ansiolíticos... enquanto a mulher, com o seu ar "felino" (a avaliar pela foto de quando era nova) adorava a guerra e o cheiro da pólvora e devia ter fantasias com as  fardas e as armas ("lindas") dos "turras"...
 
...Percebe-se também agora melhor por que é que a PIDE/DGS, os seus agentes e os seus informadores, tiveram um tratamento tipo "português suave" a seguir ao golpe militar do 25 de Abril... Amor com amor se paga... E, como dizia o outro, não há almoços grátis... (**)
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Notas do editor:

(*) Vd,. poste de 6 de outubro de  2022 > Guiné 61/74 - P23677: Agenda cultural (818): "Despojos de guerra", série em quatro episódios, de 40' cada, sobre a guerra colonial: estreia hoje na SIC, no Jornal da Noite

(**) Último poste da série > 9 deoutubro de 2022 > Guiné 61/74 - P23687: "Despojos de Guerra" (Série documental de 4 episódios, SIC, 2022): Comentários - Parte I - António Rosinha e Valdemar Queiroz: as diferenças entre a guerra de Angola e o "inferno da Guiné"

Guiné 61/74 - P23688: Parabéns a você (2106): Manuel Resende, ex-Alf Mil Art da CCAÇ 2585/BCAÇ 2884 (Jolmete, 1969/71)

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Nota do editor

Último poste da série: 9 de outubro de 2022 > Guiné 61/74 - P23686: Parabéns a você (2105): Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro da CCAÇ 414 (Guiné e Cabo Verde, 1963/65)

domingo, 9 de outubro de 2022

Guiné 61/74 - P23687: "Despojos de Guerra" (Série documental de 4 episódios, SIC, 2022): Comentários - Parte I - António Rosinha e Valdemar Queiroz: as diferenças entre a guerra de Angola e o "inferno da Guiné"


Cortesia da SIC (2022)

1. "Despojos de guerra": série de 4 episódios, está a passar 
na SIC, durante o mês de outubro. No passado dia 6 
foi a estreia da série, com a exibição do 1º episódio ("A informadora", 51' ).  Publicam-se os primeiros comentários dos nossos leitores, António Rosinha e Valdemar Queiroz.




Sinopse: 

No auge da guerra colonial em Angola, uma comerciante e o marido avisavam a PIDE (polícia política) quando os guerrilheiros iam à sua loja abastecer-se de mantimentos. Sebastiana Valadas revela qual era o seu nome de código, quanto recebiam pelas informações e como prendiam os “turras”. Depois da descolonização, um deles ajustou contas e mandou prendê-la.
 
"Com recurso a imagens de arquivo extraordinárias e pela primeira vez submetidas a um processo de colorização inédito em Portugal", a série documental "Despojos de Guerra" é uma coprodução da Blablabla Media com a SIC, tendo o o apoio à inovação audiovisual do ICA – Instituto do Cinema e Audiovisual. A realização é da jornalista Sofia Pinto Coelho cuja equipa contactou o nosso blogue para cedência de algumas imagens e contactos.
 

Vd, também artigo no Expresso, de 18/2/2022.

Entretanto, apareceram  já, no nosso blogue, alguns comentários sobre a série e este primeiro episódio, que parilhamos com os nossos leitores, na montra grande (*).

(i) Antº Rosinha (**)

Antº Rosinha,
II Encontro Nacional
da Tabanca Grande,
Pombal, 2007.
Foto: LG


Valdemar, esta pequena reportagem sobre a senhora 
comerciante, que atraiçoou o comandante do MPLA  [João Sebastião Arnaldo de Carvalho, "Tetembwa", comandante adjunto da 4ª Região do MPLA] já bem nos finalmentes da nossa guerra [, em 1972] , dá um pouco para entender as enormes diferenças entre o que se passava em Angola durante 13 anos e o inferno da Guiné.

Embora a reportagem vá buscar as lembranças dos massacres 
do Norte com a UPA do 15 de Março de 1961, que foi mesmo e apenas na região dos Bacongos, mas que apesar de esse partido UPA/FNLA ainda hoje apenas continue nas eleições com 1%, continua sempre na nossa memória aqueles massacres, mas que não teve nunca a ver com esta região do Luso, que a senhora da galinha   [Sebastiana Valadas] que estava a mais de 1000 Km.

Também trabalhei nesta região pela Junta de Estradas. A povoação de Cassai Gare, que tem uma estação dos caminhos de ferro de Benguela, é uma região onde nunca houve guerra a sério, ou seja a UNITA andava por ali mas bem controlada pelos Flechas e PIDE, e já quase no fim uma franja do MPLA instalou-se na vizinha Zâmbia, dizia-se que seria a "facção Chipenda". Mas seria em número tão reduzido e com pouco armamento, que não se lhe conheceu qualquer actividade.

De notar que medido no Google Earth, de Cassai Gare até à fronteira mais próxima (Catanga) são 150 km, mas se for para a fronteira da Zâmbia que vai pelo Cazombo,  são mais de 300 Km.

Portanto, esse grupo atraiçoado pela senhora da galinha já demonstrou muita audácia onde dominava a UNITA e mesmo esta não andava muito à vontade porque os Ganguelas não gostavam deles.

Valdemar, vou dar uma informação sobre esses comerciantes que durante os treze anos de guerra em Angola, em todo centro, sul, litoral sudoeste e interior sudeste (Congo à parte) falavam em geral mais que um idioma, que era uma arma de defesa muito importante.

O angolano naquele tempo vivia em tribos muito fechadas umas das outras e falava apenas a sua língua e mal o português.

É o que me cumpre informar sobre o que vi na SIC e o que me lembro há mais de 45 anos, e o que vi no Google Earth, onde se reconhecem as casas dos comerciantes já meio em ruinas.

7 de outubro de 2022 às 00:16


(ii) Valdemar Queirox (foto à esquerda) 
(ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70):

Antº. Rosinha, não dá para comparar a guerra na Guiné e o que se passava na extensa Angola.

A galinha pareceu-me um galo. A senhora tinha naquele lugar, junto da estação, quase a família toda, ficou sozinha mais outra e nunca lhes fizeram mal, nem com um dedo.

Estes comerciantes "colons" eram conhecidos por serem informadores dos dois lados, e tanto uns como outros sabiam disso.

O meu compadre, casado com a madrinha do meu filho, teve durante muitos anos um restaurante no norte de Angola, junto da fronteira com o Congo e zona de implantação da UPA/FNLA. Dizia que camionistas faziam milhares de quilómetros para ir lá comer bife à ...(não me lembro). Tínhamos grandes discussões por ele ser salazarista, mas tinha uma bandeira da FNLA.

A realização da reportagem arranjou a coisa de maneira a não ferir suscetibilidades.

7 de outubro de 2022 às 02:59


(iii) Antº Rosinha;

Valdemar, a Guiné não tinha nenhuma comparação com Angola, no entanto o grande sonho de Cuba e União Soviética era alcançar primeiro Angola e depois África do Sul.

E taticamente, usaram o ponto fraco e mais fácil e mais barato e com menos riscos, a Guiné-Bissau.

E mesmo depois da independência usavam a Guiné e Cabo Verde para apoio logístico para aquela guerra de 28 anos em Angola. Essa, sim, guerra africana a  sério.

Mas essa dos comerciantes, e toma atenção, os camionistas que faziam milhares de quilómetros por um bife. Camionista era uma profissão considerada como se fosse uma especialidade, em Angola, tinham a mesma fama de jogar com pau de dois bicos.

Em geral ser-se Camionista era ser dono do próprio camião e que no Congo da UPA deslocava-se em coluna militar mas no resto de Angola viajava por conta e risco e até contrabando fazia para os países vizinhos com mercadorias sem "guia", vez por outra apanhados pela polícia.

Essas duas actividades, comerciantes e camionistas, tipo caixeiros viajantes,  é que foram no meu entender os grandes colonialistas à portuguesa, contacto total com as etnias porque o resto não passávamos de uns funcionários à espera do tempo passar.

Mas não pensemos que esses comerciantes "do mato" e os camionistas, durante a guerra não estavam conectados com os Governadores de distrito e com a PIDE e com os Chefes de posto.

Essa gente comprovadamente eram aqueles que melhor sabiam utilizar a Psico, a maneira deles, e como sabiam utilizar os idiomas tribais, conseguiam pôr os clientes a fazer-lhe a protecção que precisavam.

E como em 1961 aconteceu com a UPA no Norte o tal terrorismo, que a mulher do galo fala nisso, serviu de lição e dali para a frente tudo ficou de pé a trás.

Eu e centenas de colegas das Estradas, outros de Geologia e Minas, e várias outras missões, também agrónomos, corríamos tudo, mas olho no burro olho no cigano, e onde houvesse comerciantes estacionavamos sempre, e até se pernoitava e pedíamos conselhos.

Essa insignificante reportagem da mulher com o galo, é muitíssimo elucidativa de um dos pormenores que se passavam em Angola.

Quase incompreensível para quem tenha vivido a guerra da Guiné, e até para muitos milhares de portugueses que apenas viveram nas cidades de Angola.

O povo não tinha a mínima fé nos 3 movimentos, 3 sem falar nas facções do MPLA que depois se viu a mortandade do 27 de maio de 1977 entre eles.

Era o povo que nos segurava, 13 anos fabulosos "escandalosamente" que eu vivi.

Evidentemente que enquanto houvesse uma mina na estrada estávamos em guerra.

Mas o mais perigoso para a tropa, onde ficou muita gente,  foi aquelas estradas para pequenas velocidades, mas que os unimog guiados por jovens motoristas largavam-se,  até eu andei aos trambolhões.

7 de outubro de 2022 às 12:09


(iv) Valdemar Queiroz:

Então, quer dizer que aqueles milhares de jovens que morreram na guerra da Guiné, em Angola e Moçambique foi para defesa dos interesses dos EUA, e não teve nada a ver com o barrete salazarado do Portugal de Rio de Onor a Timor ...e quem se lixou foram os mexilhões da costa vicentina?|

7 de outubro de 2022 às 13:44
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 6 de outubro de  2022 > Guiné 61/74 - P23677: Agenda cultural (818): "Despojos de guerra", série em quatro episódios, de 40' cada, sobre a guerra colonial: estreia hoje na SIC, no Jornal da Noite

(**) António Rosinha: 

(i) ) beirão, tem mais de 130 referência no nosso blogue;

(ii) é um dos nossos 'mais velhos' e continua ativo, com maior ou menor regularidade, a participar no nosso blogue, como autor e comentador;

(iii) andou por Angola, como topógrafo, nas décadas de 50/60/70, do século passado;

(iv) fez o serviço militar em Angola, sendo fur mil, em 1961/62;

(v) diz que foi 'colon' até 1974 e continua a considerar-se um impenitente 'reacionário' (sic);

(vi) 'retornado', andou por aí (com passagem pelo Brasil, já sem ouro, nem pedras preciosas...), até ir conhecer a 'pátria de Cabral', a Guiné-Bissau, onde foi 'cooperante', tendo trabalhado largos anos (1987/93) como topógrafo da TECNIL, a empresa que abriu todas ou quase todas as estradas que conhecemos na Guiné, antes e depois da 'independência';

(vii) o seu patrão, o dono da TECNIL, era o velho africanista Ramiro Sobral;

(viii) é colunista do nosso blogue com a série 'Caderno de notas de um mais velho'';

(ix) pelo seu bom senso, sabedoria, sensibilidade, perspicácia, cultura e memória africanistas, é merecedor do apreço e elogio de muitos camaradas nossos, é profundamente estimado e respeitado na nossa Tabanca Grande, fazendo gala de ser 'politicamente incorreto' e de 'chamar os bois pelos nomes';

(x) a ele poderá aplicar-se o provérbio africano, há tempos aqui citado pelo Cherno Baldé, o "menino e moço de Fajonquito": "Aquilo que uma criança consegue ver de longe, empoleirado em cima de um poilão, o velho já o sabia, sentado debaixo da árvore a fumar o seu cachimbo". 

Guiné 61/74 - P23686: Parabéns a você (2105): Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro da CCAÇ 414 (Guiné e Cabo Verde, 1963/65)

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Nota do editor

Último poste da série de 3 DE OUTUBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23663: Parabéns a você (2104): Hélder Valério de Sousa, ex-Fur Mil TRMS STM (Piche e Bissau, 1970/72)

sábado, 8 de outubro de 2022

Guiné 61/74 - P23685: Os nossos seres, saberes e lazeres (530): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (71): Voltar à minha querida Bruxelas, depois da pandemia - 9 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Agosto de 2022:

Queridos amigos,
Nova alteração de programa, e sem perda de tempo apontou-se o azimute para uma viagem de intensas recordações, começou-se no Palácio da Justiça, ali perto há uma das mais anfractuosas panorâmicas de Bruxelas, é tudo mesmo desafogado, emergi em Marolles, sempre a calcorrear lugares conhecidos, tudo imagens que quero conservar na retina, é aqui que elas chegam ao coração sem precisar de as conservar num ficheiro de computador. Peregrinação com alguma melancolia, não escondo, é a primeira viagem no continente europeu desde que fiquei em casa em março de 2020, e o caso é que fui recebido de braços abertos, mesmo com os profundos desgostos das perdas que o vírus levou. A manhã de amanhã, assim o espero, leva-me ao sonho que agitava homens de vários quadrantes políticos, no início do século XX, era preciso que as cidades fossem humanas, dispusessem de jardins, dessem simultaneamente privacidade e comunicação intervicinal, é o que eu amanhã desejo poder contar-vos.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (71):
Voltar à minha querida Bruxelas, depois da pandemia - 9

Mário Beja Santos

Olha, novo adiamento, a visita às cidades-jardins de Watermael-Boitsfort acontecerá amanhã, e bem cedo, foi acordado com os meus guias, a meio da tarde rumo para Lisboa, só não lhes digo que estou saudoso para voltar. Cogito o que fazer, como me desenvencilhar deste imprevisto, a resposta vem instantânea: começas hoje onde acabaste ontem, mesmo ao lado do Palácio da Justiça. Dito e feito, nada de metropolitano, viajo de autocarro desde a periferia para a cidade, aproveito e vou me despedir de Marolles, que já foi bairro proletário, que aqui recebeu catervas de imigrantes, desde judeus da Europa de Leste a marroquinos, espanhóis e portugueses, tem história densa de gente albergada de classe média, agora faz jus a região alternativa, gente com dinheiro, nunca vi tanto Jaguar e Porches por estas ruas.
A primeira imagem é o meu imenso adeus, fica com este céu límpido para me receberes, o que gostaria que fosse em breve, é uma panorâmica imensa que não cabe na minha modesta câmara, lá ao fundo ainda se vislumbra a cúpula de outro matacão aparentado com o Palácio da Justiça, a Basílica de Koekelberg, fui lá uma vez e está feito para toda a vida. Fica na retina esta imagem, desço à Rua do Eclipse, não deve nada à beleza, mas deu título a um dos mus livros mais recentes e que me deu enorme prazer escrever, mete Guiné, registo autobiográfico e umas boas pitadas de ficção.
Para que o passeio não seja uma estafa, paro aqui e acolá. Para dizer a verdade, escolhi sempre hotéis económicos, fixei-me no hotel George V em Anneessens, eu seguia por um itinerário de gente alternativa, parava nesta igreja, Notre-Dame aux Riches Claires, na rua do mesmo nome, anos depois um enorme incêndio devorou o seu miolo, vim aqui em romagem de saudade.
Cheguei à praça de Santa Catarina, está bom tempo e apetece-me um almoço de peixe. A igreja é do século XIX, construíram-na num terminal de canais, e sobre os fundamentos de uma capela do século XII, pode-se ver pela imagem que é uma arquitetura híbrida, tem formas góticas e decoração barroca, o mobiliário do interior, todo ele do século XIX, é requintado. Enorme a sua nave principal e um transepto modesto, desproporcionado para tal dimensão. A igreja acolhe uma Virgem Negra, alvo da veneração de muitas gerações de peregrinos, reza a lenda que foi miraculosamente tirada das águas, data do século XVIII. A igreja goza deste nome porque tem como patrona Santa Catarina de Alexandrina, uma das mártires dos primeiros séculos do cristianismo. Já vi esta igreja em estado deplorável, será porventura a última a ter um urinol para homens mesmo encostado a uma das suas faces.
Nova etapa, peregrinação à Librairie Tropismes, nas Galerias Saint-Hubert, não faz mal nenhum um mergulho em toneladas de papel, sobretudo tomar conhecimento dos títulos mais recentes. Dou-me bem com este ambiente, tudo bem catalogado, há sempre a hipótese de se pegar num livro e folheá-lo bem sentado. Putin e agressão à Ucrânia merecem destaque.
Voltei a Marolles, é um dos eixos do meu afeto por Bruxelas, nunca me canso de ver montras com mais de um século e parar diante da casa de Pieter Bruegel, está no altar-mor dos meus santos da pintura. Nunca me canso de olhar as obras deste mestre de técnicas e de assuntos, pasmo-me sempre com a sua conceção e execução, ele pode exprimir toda a gama de emoções, desde o repouso mais absoluto de uma paisagem invernal ao ribombar da queda dos anjos. Trata com bonomia as vulgaridades do quotidiano, a patinagem no gelo, a mestria com que fixa multidões como é o caso do recenseamento em Belém, não me canso deste desenhador excecional, só os génios da pintura é que nos dão esta possibilidade de mirar horas a fio os traços, os ritmos, as pontuações, as transparências, o jogo de profundidades, a eloquência dos volumes. Nesse dia não fui a nenhum museu ver Bruegel, limitei-me a ficar especado em frente da casa onde viveu, mas aproveito para aqui mostrar imagem de um dos seus quadros mais famosos.
Jogos Infantis, Pieter Bruegel, 1560, no Kunsthistorisches Museum Wien

Foi um belo dia de passeio, tomo o metro para Anderlecht, não venho ver nenhum jogo de futebol, nem venho de novo visitar a casa de Erasmo, fui convidado a jantar com Mathieu Beuys, a mana e a mãe, a minha querida amiga Ika Vazvasoff, pelo caminho olho para uma varanda e enterneço-me com a voluptuosidade destas rosas amarelas, tenho a dita de conservar no meu pequenino jardim uma roseira que me oferece quase todo o ano rosas amarelas, lembro-me da minha casa, a que regresso amanhã. Resta dizer que foi um belíssimo jantar, tanto pela convivência como pelo excelente menu belga.

(continua)

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Notas do editor:

Poste anterior de 1 DE OUTUBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23659: Os nossos seres, saberes e lazeres (528): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (70): Voltar à minha querida Bruxelas, depois da pandemia - 8 (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 3 DE OUTUBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23666: Os nossos seres, saberes e lazeres (529): Trabalhos de pintura da autoria de Jaime Machado, ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 2046 (3)

Guiné 61/74 - P23684: Mi querido blog, por qué no te callas?! (7): Campanha dos 900 membros da Tabanca Grande até ao fim de 2023... Toca a "tocar o burro"... Porque, como diz o provérbio guineense, Buru tudu karga ki karga si ka sutadu i ka ta janti (O burro, com pouca ou muita carga, se não é açoitado, não anda)...



Guiné > Região de Bafatá > Fajonquito > CCAÇ 674 (1964/66) > O fur mil mec auto Sérgio Neves, já falecido, irmão do nosso grã-tabanqueiro Tino Neves, a "tocar o seu burro".

Foto (e legenda): Constantino Neves (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2022)

1. O nosso blogue, Luís Graça & Camaradas da Guiné, reunidos numa comunidade virtual a que chamamos Tabanca Grande (e que é a mãe de todas as tabancas...), precisa de "sangue novo"... 

Nos últimos dez anos (entre 2012 e 2021) entraram em média 26 novos membros para a Tabanca Grande (vd. Gráfico acima). Em 2021,  que foi ano de pandemia (tal como o de 2020), tivemos 31 novos membros, dos quais 13 a título póstumo.

Este ano de 2022, temos a registar apenas 9 (nove!) entradas, quando devíamos ter pelo menos o dobro... A crise não é só demográfica (*)... Mas temos que inverter a tendência pós-pandémica e chegar aos 900 membros até ao final d0 próximo ano de 2023... 

Até hoje, somos 864 (dos quais 124 já não estão entre os vivos). Falta-nos, pois, 36 para chegarmos aos 900.

Há dias comparámos o nosso blogue um burro velho mas teimoso, que se recusa a envelhecer e, no fim, a ir, ordeiramente, para o matadouro... Vamos, quando chegar a nossa vez, mas a espernear, a bracejar e a gritar (se não nos tirarem a voz...).

Dizem que os burros podem viver entre 30 e 40 anos, em média, podendo excecionalmente chegar ao meio século... No caso do nosso blogue, a sua expectativa de vida já não pode ser tão grande; não é que o "burro" seja muito velho (tem 18 anos), os "donos" (os camaradas que o editam, alimentam, comentam, leem, divullgam, etc.) é que estão a ficar velhotes... Mesmo assim, na Web 18 anos  é quase uma eternidade! (*)

Mas igualmente dissemos, em introdução ao poste P23672 (*),  que ao nosso blogue, além da metáfora do burro, também se aplica o provérbio guineense em crioulo: 

"Buru tudu karga ki karga si ka sutadu i ka ta janti" (O burro, com pouca ou muita carga, se não é açoitado, não anda)...

E fizémos um apelo, ou melhor um desafio: Caros leitores, toca a... "tocar o burro"!...  O mesmo é dizer: tragam "gente nova"!... 

Faltam-nos padrinhos e afilhados, o mesmo é dizer, "sangue novo"... A "velhice" tem que fazer a sua parte, "apadrinhar" os "periquitos", trazer novos "amigos e camaradas da Guiné", que se queiram sentar à sombra do poilão da Tabanca Grande... 

Há muitos camaradas que têm páginas (interessantes) no Facebook ou pertencem a grupos de antigos combatentes no Facebook, mas que não se sentam à sombra do nosso poilão... 

Está na altura de apresentarem as duas fotos da praxe (uma antiga e outra atual) e fazerem o pedido de ingressso, por emal, com duas linhas de apresentação: "Sou o fulano de tal, estive na companhia tal, passei pelos sítios e tal, e gostava de partilhar as minhas fotos e outras memórias da Guiné com os amigos e camaradas da Guiné"...

Amigos e camaradas da Guiné: não deixemos que sejam os nossos queridos mortos a alimentar os que ainda estão vivos... 

Nos últimos dois ou três anos temos crescido, infelizmente, à custa dos "mortos": camaradas, entretanto falecidos,  que tinham uma ligação ao blogue (várias referências, fotos, histórias...) mas que, em vida, nunca chegaram a  formalizar  o seu pedido de inscrição... (Nalguns casos, por exemplo, não tinham um endereço de email, mas tinham o email da filha, do filho, do neto, ou do sobrinho)...

Não queremos ser cínicos como o "cangalheiro" ou "gato pingado" da nossa terra, que diz, a lamuriar-se: "Eu não quero que ninguém morra, só quero é que a minha vida corra"... 

2. Campanha dos 900 até ao fim do ano de 2023:

Endereços de email dos nossos editores de serviço:

(i) Luís Graça (Alfragide / Amadora  e Lourinhã):

luis.graca.prof@gmail.com

(ii) Carlos Vinhal (Leça da Palmeira / Matosinhos):

carlos.vinhal@gmail.com

(iii) Eduardo Magalhães Ribeiro (Maia):

magalhaesribeiro04@gmail.com

(iv) Jorge Araújo (Almada e Abu Dhabi):

joalvesaraujo@gmail.com

(v) Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

luisgracaecamaradasdaguine@gmail.com


CAMARADA, FAZ ISSO POR TI, PELOS TEUS FILHOS E NETOS, POR TODOS NÓS!

(i) Traz as tuas fotos (e vídeos), as tuas histórias e memórias, divulga e salvaguarda os teus aerogramas, cartas, relatórios, diários, poesias, documentos militares, papéis esquecidos, guardados no sótão, num velho baú ou "mala de cartão", reconstitui as tuas memórias, recorda os sítios por onde passaste, viveste, combateste, amaste, sofreste, viste morrer e matar, mataste, e perdeste, eventualmente, uma parte do teu corpo e da tua alma...

(ii) Ajuda os teus ex-camaradas a reconstituir o puzzle da memória da Guiné e da guerra que lá travaste (1961/74)...

Faz-te bem, a ti e a eles, a todos nós, ex-combatentes, portugueses, guineenses ou cabo-verdianos...

(iii) Cumpres o teu "dever de memória", prestando também, desse modo  um pequeno/grande  serviço à geração dos teus filhos e dos teus netos...

Para que eles, ao menos, não possam dizer, desprezando o teu sacrifício: "Guiné?... Guerra do Ultramar? Guerra de África? Guerra Colonial?... Não, muito obrigado/a, nunca ouvi falar!"

(iv) Faz isso... mais uma vez, pela tua Pátria, Mátria, Fátria...

Faz isso, por ti, por todos nós... Pelas razões que entenderes... E sobretudo para que, num belo dia destes, quando morrermos todos, não nos venham dizer que fomos a geração do "soldado desconhecido" (tal como a dos nossos avôs que combateram e morreram na I Grande Guerra, na Flandres, em Angola, me Moçambique)... A geração que foi sepultada na "vala comum do esquecimento"...

Num próximo poste, acrescentaremos algo mais sobre o que somos e não somos enquanto blogue... E quais são as nossas regras de convívio, aqui, neste blogue...

PS - Camarada, contariamente ao Facebook, aqui no blogue quem vai editar as tuas fotos e textos são os nossos editores... Tens que mandar os teus materiais para um ou mais dos nossos  endereços de email: o resto é depois connosco... E aqui, prometemos-te, "ficarás mais bem servido"...
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Nota do editor:

(*) Vd. poste de 5 de outubro de  2022 > Guiné 61/74 - P23672: Mi querido blog, por qué no te callas?! (6): A todos os meus confrades, aqui deixo o registo de um punhado de reflexões sobre o futuro do nosso blogue (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P23683: Companhias e outras subunidades sem representantes na Tabanca Grande (6): CART 240, mobilizada pelo GACA 2 (Bissau, Varela, Susana, Quinhámel, jul61 / out63)


Torres Novas > GACA 2 > Fevereiro de 1960 > Da esquerda para a direita: três aspirantes a oficiais milicianos [1- O nosso Jorge Picado; 2- Trancas de Carvalho (colega do ISA - Instituto Superior de Agronomia); 3-Almada Negreiros] e um alferes QP (, o quarto, no lado direito). (*)

Foto do álbum do Jorge Picado, que dez anos  depois seria mobilizado para o CTIG como cap mil (CCAÇ 2589/BCAÇ 2885, Mansoa,  CART 2732, Mansabá e CAOP 1, Teixeira Pinto, 1970/72).

Foto (e legenda): © Jorge Picado  (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Temos muito poucas referências ao GACA 2 (Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº 2), em Torres Novas. E menos ainda à CART 240, que foi por ele mobilizada.  

Desta subunidade, não temos nem uma única imagem, nem sequer do brasão ou guião. Nem sabemos qual era a sua divisa... 

Não temos também nenhum representante, desta subunidade que foi reforçar o CTIG, em meados de 1961. 

No entanto, sabemos que os ex-militares da CART 240 se terão encontrado, em 15 de junho de 2010, em Torres Novas, no seu 14.º Convívio. O organizador era o António Pereira (contactos: 249 825 476 – 939 375 240). A notícia foi dada pelo blogue "Leste de Angola", em 17 de abril de 2010. E nós lemos a notícia, tardia, no Arquivo.pt.

No GACA 2, em fevereiro de 1960, por lá andou o nosso querido amigo e camarada, Jorge Picado, a dar recruta... (*)


Companhia de Artilharia n.º 240 

Identificação:  CArt 240

Unidade Mob: GACA 2 - Torres Novas
Cmdt: Cap Art Manuel Fernando Ribeiro da Silva | Cap Mil Inf António Gomes de Oliveira e Sousa

Divisa: 

Partida: Embarque em 30jul61; desembarque em 30jul61 | Regresso: Embarque em 19out63


Síntese da Actividade Operacional

Foi colocada em Bissau, onde manteve a sua sede durante toda a comissão, sendo integrada no dispositivo e manobra do BCaç 236, a fim de colaborar na segurança e defesa das instalações e das populações da área.

Em princípios de fev62, destacou um pelotão para guarnecer a povoação de Varela, em substituição da CCaç 74, o qual ficou integrado no dispositivo do BCaç 239.

Em finais de fev63, o pelotão foi transferido para Susana, recolhendo a Bissau no mês seguinte.

A companhia destacou ainda pelotões para Quinhámel, de princípios de agosto de 62 a meados de setembro de 62 e novamente a partir de abr63, e para Nhacra, a partir de meados de jul63.

De 1 a 27jun63, foi atribuída em reforço do BCaç 356, com vista à realização da operação "Seta", na região do Quínara, nas áreas de Iusse, Bissássema, Nova Sintra e Jabadá.

Em 180ut63, foi rendida pela CArt 564, a fim de efectuar o embarque de regresso. (**)

Observações - Não tem História da Unidade.

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002,. pág. 433
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 23 de março de 2014 > Guiné 63/74 - P12891: A cidade ou vila que eu mais amei ou odiei, no meu tempo de tropa, antes de ser mobilizado para o CTIG (24): Um longo percurso que começou em Vendas Novas, passando por Cascais, Torres Novas, Queluz, Lisboa, acabando em Mafra (Jorge Picado)

(**) Último poste da série > 2 de outubro de 2022 > Guiné 61/74 - P23661: Companhias e outras subunidades sem representantes na Tabanca Grande (5): CCS / BCAÇ 697 (Fá Mandinga, 1964/66)

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Guiné 61/74 - P23682: Notas de leitura (1503): "Deixei o meu Coração em África", por Manuel Arouca; Oficina do Livro, 2016 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Fevereiro de 2020:

Queridos amigos,
Manuel Arouca, moçambicano de Porto Amélia, que diz ter tido uma adolescência rebelde, e que descreve cenas moçambicanas neste seu romance, procurou criar uma fantasia digna de um melodrama e ficcionou um palco dos mais duros que se possa imaginar para pôr o personagem, Rodrigo Pereira dos Santos, um menino fino, dado à boa libertinagem, e que no meio daquele arrebol de afetos se mantém fiel à Isabel, noiva de um bom sacana, que na Manutenção Militar de Bissau tudo faz para denegrir Rodrigo que anda em Guileje a tirar fotografias espantosas de peito feito, quase indiferente aos morteiros 120. 

Se algo de muito bizarro se procurasse na literatura da guerra colonial passa pela inacreditável viagem de uma dama grada do Movimento Nacional Feminino até Guileje e de uma fuga de Rodrigo com Isabel pelo meio das matas para assistir a um bombardeamento de Fiats, no meio do delírio até uma cobra venenosa foge de Isabel, como se esta tivesse dotada de poderes sobrenaturais. Assim concebeu Manuel Arouca o amor em tempos de guerra, veremos para a semana que o melodrama até tem ingredientes para acabar bem.

Um abraço do
Mário



Deixei o meu coração em África, por Manuel Arouca (1)

Mário Beja Santos

Manuel Arouca [foto à direita] é nome conhecido não só da literatura de entretenimento como autor de argumentos de telenovelas e séries televisivas e mesmo argumentos de cinema. A recensão desta obra justifica-se porque o personagem, Rodrigo Pereira dos Santos, foi furriel em Guileje, estamos em 1968 e 1969, o primeiro período da sua comissão. Chancelado por uma arquitetura muito comum à chamada literatura de aeroporto, não falta na obra a tentativa de caraterização da atmosfera da vida das classes altas da linha da Costa do Sol, de Sintra e Lisboa, há para ali bastante volúpia, sexo e desejo de aventuras. Para o leitor mais interessado sobre os aspetos capitais da trama, avança-se com o que vem escrito na badana da capa:

“Isabel recebe um manuscrito em condições inesperadas e misteriosas. O seu autor, Rodrigo, desaparecido há seis anos e dado como morto, relata as experiências e as vivências, os factos e as emoções, os encontros e os desencontros que marcaram a sua vida. O leitor é levado numa viagem que, por um lado, o transporta aos loucos anos 60 na alta sociedade lisboeta; e, por outro, à sedução de África. Se encontramos a guerra de guerrilha, difícil e intensa, deparamo-nos também com o glamour de uma vida aventureira, célebre pelos safaris, helicópteros e pela ousadia do quotidiano das fazendas. Uma história que reflete tanto os avatares da guerra como as encruzilhadas do amor de uma sociedade representativa de um Portugal esquecido por alguns e inesquecível para muitos”.

Tudo começa no Estoril, Isabel atropela uma africana que era portadora de uma boa resma de papel A4, a sinistrada é hospitalizada e Isabel vai ler todos aqueles papéis que trazem o nome de Rodrigo, trata-se de um relato autobiográfico em que Isabel está no seu pódio de afetos. Este Rodrigo, que levou uma adolescência em libertinagem, tinha como referência modelar o seu tio Rodrigo, herói da I Guerra Mundial, condecorado pelo Presidente dos Estados Unidos. A narrativa está toda intercalada entre vários tempos e ambientes, Rodrigo já está em Castelo Branco, a Guiné à vista, regressamos ao ambiente familiar, às festas em Cascais, fala-se mesmo muito naquele conjunto de festas emblemáticas coincidentes com a morte política de Salazar, tudo portanto em 1968, Rodrigo é doido por sexo e duas jovens, mesmo em hesitação emocional, têm papel preponderante no seu coração, Leonor e Isabel. 

Tudo se passa em atmosferas seletas, há ministros de Salazar e senhoras muito ativas no Movimento Nacional Feminino. Numa lubricidade bem temperada, Rodrigo quer ir às de facto com Leonor, esta troca-lhe as voltas. E Rodrigo parte para a Guiné, no Uíge, vai-nos apresentando outros participantes. Cita-se Fernando Pessoa, ficamos a saber alguma coisa de quem é o Bastos, nascido em Moscavide, que foi preparado para a vida por uma prostituta profissional, a Fernandinha, e Jaime, nascido em Penacova, licenciado em Direito, fez a recruta em Mafra e conseguiu a extraordinária proeza de ser despromovido por inépcia, manda o bom senso que já estamos no inacreditável.

Entrámos em plena intriga romanesca, o rival de Rodrigo chama-se Armando, é oficial da Manutenção Militar em Bissau, um bajulador de primeira, escrevia ao ministro de Salazar e pai de Isabel cartas contando coisas sobre Amílcar Cabral que vêm em centenas de livros e faz uma apologia do General Spínola, assim:

“O General Spínola não transpira, o que é um fenómeno com este clima. É um homem extremamente metódico. Toma o pequeno-almoço cedo, come sobretudo fruta, especialmente papaias. Não bebe café, bebe sempre um copo de água morna a seguir à refeição porque ajuda à digestão. De seguida, visita as unidades. Ao meio-dia, impreterivelmente, está de volta ao Palácio do Governador. À uma hora, almoça. Uma refeição sóbria, até porque tem problemas de rins”.

 E por adiante, até chegarmos ao polo da admiração: 

"O General Spínola, e isso é unânime entre os oficiais que com ele contactam mais diretamente, inverteu a filosofia da guerra implantada por Schulz, posicionava as tropas num sistema clássico de quadrícula e corria atrás dos acontecimentos. Éramos arrastados pelas atividades do inimigo. Spínola traz um conceito novo, e cria uma estratégia própria, a de ter iniciativa. Não há dúvidas de que com Spínola temos uma nova Guiné. Até no que concerne aos transportes das tropas que chegam da metrópole e são, depois, enviadas para os respetivos quartéis. No tempo do General Schulz, eram na maior parte das vezes enviadas em lanchas pelos braços do mar, sem qualquer proteção, alvo fácil de ataques que poderiam facilmente derivar numa tragédia de grandes proporções. O Comando-Chefe classifica esta forma de colocar as tropas no seu destino de total irresponsabilidade”.

Se até este momento a narrativa é de uma piroseira minimamente cuidada, chegámos ao descaro de quem não estudou e atira umas bojardas apimentadas de santificação.

Estamos agora em casa de Isabel, que lê embevecidamente o manuscrito, ela está na companhia de Chico, presume-se que é o marido, há lá uma criança com seis anos que fala só e constantemente com a mãe. Rodrigo conta a viagem para Cacine numa LDG, aqui houve separação de tropas, seguiram para Gadamael Porto, e no dia seguinte, às revoadas, eram largados de avioneta em Guileje. O Comandante da Companhia é o Capitão Ivo Ferreira, cabo-verdiano altamente patriota, leva o obus até perto da fronteira e larga umas boas ameixas em bases onde se acantonam gente do PAIGC. Rodrigo fotografa tudo, o capitão açambarca o material fotográfico, dá-o como confiscado. O médico, o Dr. Branco, é um alcoólico incorrigível. Guileje é flagelada com morteiros 120, Rodrigo, impávido e sereno, tira fotografias a esmo no meio da algazarra. Começam as baixas, morreu o Santos, alguém que esperava o fim da comissão para entrar num seminário. As cartas de Rodrigo para Isabel são incandescentes, não faltam saudades e pedidos de companhia.

Estamos agora em janeiro de 1969, os amigos e a família chique de Cascais e arredores encontram-se, a guerra colonial é coisa que não existe nas suas vidas. Mas algo de extraordinário vai acontecer, a mulher do ministro de Salazar, uma alta graduada do Movimento Nacional Feminino, vai a Bissau levar uma oferta de vulto, faz-se acompanhar de Isabel. Quem vai a Bissau também vai a Guileje, as senhoras são recebidas com pompa e circunstância, no meio da receção calorosa estoira um foguetório, a gente do PAIGC não perdia oportunidade de indispor as visitantes. Decorre a flagelação informal e desta vez Rodrigo sai do quartel na companhia de Isabel, embrenham-se na mata, vai tirar fotografias ao ataque aéreo, saiu de Bissalanca uma parelha de Fiats G-91 que destroem a força atacante, fica tudo esturricado. Um dos amigos de Rodrigo naquele grupo de alta sociedade era Ricardo, filho de um dos milionários moçambicanos, um jovem que só vestia no Pestana e Brito, está numa Companhia de Comandos que parte para Moçambique. Vamos assistir à descrição da vida da gente fina em Lourenço Marques e até a um encontro com Jorge Jardim. Armando, em Bissau, destila mentiras e informa o ministro de Salazar que a guerra na Guiné estava praticamente ganha.

“As visitas do General Spínola aos nossos aquartelamentos são momentos épicos. Nas tabancas próximas, antes das visitas, estas são aliciadas com ofertas, como aguardente de cana e folhas de tabaco. Depois, as bases inimigas que se encontram mais próximas das nossas posições são bombardeadas impiedosamente. No seio dos terroristas instala-se o medo e a discórdia. Já não falta muito para que eles icem a bandeira branca, implorando tréguas, pois dificilmente aguentarão por muito mais tempo a nossa pressão e a das próprias populações da Guiné”.

(continua)
Carlos Santos, da Companhia de Cavalaria 8350 ‘Os Piratas de Guileje’. Imagem retirada do jornal Correio da Manhã, com a devida vénia

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Nota do editor

Último poste da série de 3 DE OUTUBRO DE 2022 > Guiné 61/74 - P23665: Notas de leitura (1502): "De África a Timor", uma bibliografia internacional crítica (1995-2011), por René Pélissier; Centro de Estudos Africanos da Universidade de Porto e Edições Húmus, 2014 (Mário Beja Santos)