quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Guiné 61/74 - P23677: Agenda cultural (818): "Despojos de guerra", série em quatro episódios, de 40' cada, sobre a guerra colonial: estreia hoje na SIC, no Jornal da Noite



1. Press release da produtora Blablabla Media, com data de 3 do corrente:



Despojos de Guerra estreia esta quinta-feira 
no Jornal da Noite da SIC


É já esta quinta-feira, dia 6, que a SIC promete mostrar a guerra colonial portuguesa como nunca a viu: a cores. 

A estreia do primeiro dos quatro episódios da série documental DESPOJOS DE GUERRA terá lugar no Jornal da Noite. 

Assinada por Sofia Pinto Coelho, a mais recente coprodução documental da Blablabla Media revela histórias extraordinárias de espionagem, patriotismo, sobrevivência e romance, dando voz às encruzilhadas que inesperados protagonistas enfrentaram em tempos de guerra e de descolonização. 

Figuras como a de Sebastiana, a informadora — uma anónima comerciante portuguesa que, no auge do conflito em Angola, se viu tornar agente dupla e influenciar o curso da guerra naquele país. 

Disponível na Opto desde o dia 19 de fevereiro, DESPOJOS DE GUERRA destaca-se pelo recurso a imagens de arquivo inéditas e pela primeira vez sujeitas a um processo de colorização.



Cada semana, um novo capítulo (40' ):

A INFORMADORA (Ep. 1 - 6 out) |

 No auge da guerra colonial em Angola, uma comerciante e o marido avisavam a PIDE quando os guerrilheiros iam à sua loja abastecer-se de mantimentos. Sebastiana Valadas revela qual era o seu nome de código, quanto recebiam pelas informações e como prendiam os “turras”. Depois da descolonização, um deles ajustou contas e mandou prendê-la.

Disponível na Opto, em versão alargada

COMBATENTE AFRICANO (Ep. 2 - 13 out) | 

Milhares de africanos combateram ao lado dos portugueses na guerra colonial. Com a descolonização, foram deixados à sua sorte. Alguns foram fuzilados ou perseguidos pelos novos poderes e mesmo para receber tratamentos médicos é-lhes dificultada a vinda a Portugal. Como é possível que não se faça justiça perante estes homens que estiveram na dianteira da guerra, como é o caso do antigo Cabo Luís Silva?

Disponível na Opto, em versão alargada

CORREDOR DA MORTE (Ep. 3 - 20 out) | 

O que significará dar a vida pela pátria? Contrariados ou voluntariosos, foi o que fizeram 800.000 jovens a partir de 1961. A Guiné estava transformada no mais duro e mortífero campo de batalha e foi para lá que foram enviados o piloto-aviador Miguel Pessoa e a enfermeira paraquedista Giselda Antunes.

Disponível na Opto, em versão alargada

LAÇOS DE SANGUE (Ep. 4 - 27 out) | 

Chamam “filhos de tuga” aos mestiços nascidos das relações entre militares portugueses e mulheres africanas que foram deixados para trás. Entre a revolta e a esperança, ainda hoje tentam encontrar um nome de pai e descobrir a outra metade da sua identidade, como sucede aos irmãos Elva e José Maria Indequi.

Disponível na Opto, em versão alargada


Copyright (C) 2022 | |Blablabla Media :b | All rights reserved
__________

Nota do editor:

16 comentários:

João Carlos Abreu dos Santos disse...

... li a sinopse: com toda a evidência, é mais do mesmo; não irei ver...

Antº Rosinha disse...

JCAS, tens que ter paciência, sabemos que este tipo de encomendas jornalísticas, muito disfarçadamente, é feita para auto-satisfação para os anti-colonialistas de coração, principalmente os que orgulhosamente deram o salto.

Em oposição àqueles que deram com os "costados lá".

Não confundo quem deu o salto para ganhar o pão de cada dia, com aqueles que tinham a ajuda do paizinho com bolsas de estudo, que lhes permitiu estudar e formatar estes discursos e certas mentalidades anticoloniais-

Vou assistir, só faço zapping se houver futebol.

João Carlos Abreu dos Santos disse...

... Caro Rosinha, a "conversa" não lhe era (nem é) dirigida, posto o que a minha pessoa não é para aqui chamada.
E não lhe consinto me dirija palavra, sequer nos termos em que o fez: «tens que ter paciência».
Não nos conhecemos de parte alguma.
Não me trata por tu.
E passe bem.

Antº Rosinha disse...

Senhor João Carlos Abreu dos Santos peço desculpa pelo meu atrevimento.

Valdemar Silva disse...

Até achei uma reportagem interessante, parecia feita para agradar a todos os clubes do campeonato.
E aquele galo devia ser uma especialidade. Se as cenas com as senhoras a depenar o galo e a falar de situações de 30 contos fossem feitas a preto e branco devia ser uma obra prima de cinema.

Mas, não devia ter sido autorizado a SIC transmitir aquelas coisas por causa das criancinhas.

Saúde da boa
Valdemar Queiroz

Antº Rosinha disse...

Valdemar, esta pequena reportagem sobre a senhora comerciante, que atraiçoou o comandante do MPLA, já bem nos finalmentes da nossa guerra, dá um pouco para entender as enormes diferenças entre o que se passava em Angola durante 13 anos e o inferno da Guiné.

Embora a reportagem vá buscar as lembranças dos massacres do Norte com a UPA do 15 de Março de 1961, que foi mesmo e apenas na região dos Bacongos, mas que apesar de esse partido UPA/FNLA ainda hoje apenas continue nas eleições com 1%, continua sempre na nossa memória aqueles massacres, mas que não teve nunca a ver com esta região do Luso, que a senhora da galinha diz que estava a mais de 1000 Klm.

Também trabalhei nesta região pela Junta de Estradas.

A Povoação de Cassai Gare, que tem uma estação dos caminhos de ferro de Benguela, é uma região onde nunca houve guerra a sério, ou seja a UNITA andava por ali mas bem controlada pelos flexas e PIDE, e já quase no fim uma franja do MPLA instalou-se na vizinha Zambia, dizia-se que seria a "facção Chipenda".

Mas seria em número tão reduzido e com pouco armamento, que não se lhe conheceu qualquer actividade.

De notar que medido no Google Earth, de Cassai Gare até à fronteira mais próxima (Catanga) são 150 klm, nas se for para a fronteira da Zambia que vai pelo Cazombo são mais de 300 Klm.

Portanto esse grupo atraiçoado pela senhora da galinha já demonstrou muita audácia onde dominava a UNITA e mesmo esta não andava muito â vontade porque os ganguelas não gostavam deles.

Valdemar vou dar uma informação sobre esses comerciantes que durante os treze anos de guerra em Angola, em todo centro, sul, litoral sudoeste e interior sudeste, (Congo a parte)
falavam em geral mais que um idioma, que era uma arma de defesa muito importante.

O angolano naquele tempo vivia em tribos muito fechadas umas das outras e falava apenas a sua lingua e mal o português.

É o que me cumpre informar sobre o que vi na SIC e o que me lembro há mais de 45 anos, e o que vi no Google Earth, onde se reconhecem as casas dos comerciantes já meio em ruinas.

Cumprimentos



Valdemar Silva disse...

Ant. Rosinha, não dá para comparar a guerra na Guiné e o que se passava na extensa Angola.
A galinha pareceu-me um galo.
A senhora tinha naquele lugar, junto da estação, quase a família toda, ficou sozinha mais outra e nunca lhes fizeram mal, nem com um dedo.
Estes comerciantes "colons" eram conhecidos por serem informadores dos dois lados, e tanto uns como outros sabiam disso.
O meu compadre, casado com a madrinha do meu filho, teve durante muitos anos um restaurante no norte de Angola, junto da fronteira com o Congo e zona de implantação da UPA/FNLA. Dizia que camionistas faziam milhares de quilómetros para ir lá comer bife à ...(não me lembro). Tínhamos grandes discussões por ele ser salazarista, mas tinha uma bandeira da FNLA.
A realização da reportagem arranjou a coisa de maneira a não ferir suscetibilidades.

Abraço e cuidado com as correntes d'ar
Valdemar Queiroz

Antº Rosinha disse...

Valdemar, a Guiné não tinha nenhuma comparação com Angola, no entanto o grande sonho de Cuba e União Soviética era alcançar primeiro Angola e depois África do Sul.

E taticamente usaram o ponto fraco e mais fácil e mais barato e com menos riscos, a Guiné Bissau.

E mesmo depois da independência usavam a Guiné e Caboverde para apoio logístico para aquela guerra de 28 anos em Angola. Essa sim guerra africana a a sério.

Mas essa dos comerciantes, e toma atenção, os camionistas que faziam milhares de quilómetros por um bife, CAMIONISTA era uma profissão considerada como se fosse uma especialidade, em Angola, tinham a mesma fama de jogar com pau de dois bicos.

Em geral ser-se camionista era ser dono do próprio camião e que no Congo da UPA deslocava-se em coluna militar mas no resto de Angola viajava por conta e risco e até contrabando fazia para os países vizinhos com mercadorias sem "GUIA", vez por outra apanhados pela polícia.

Essas duas actividades, comerciantes e camionistas, tipo caixeiros viajantes é que foram no meu entender os grandes colonialistas à portuguesa, contacto total com as etnias porque o resto não passávamos de uns funcionários à espera do tempo passar.

Mas não pensemos que esses comerciantes "do mato" e os camionistas, durante a guerra não estavam conectados com os Governadores de distrito e com a PIDE e com Chefes de posto.

Essa gente comprovadamente eram aqueles que melhor sabiam utilizar a PSICO, a maneira deles, e como sabiam utilizar os idiomas tribais, conseguiam pôr os clientes a fazer-lhe a protecção que precisavam.

E como em 1961 aconteceu com a UPA no Norte o tal terrorismo, que a mulher do galo fala nisso, serviu de lição e dali para a frente tudo ficou de pé a traz.

Eu e centenas de colegas das Estradas, outros de Geologia e Minas, e várias outras missões, também agrónomos, corríamos tudo, mas olho no burro olho no cigano, e onde houvesse comerciantes estacionavamos sempre, e até se pernoitava e pedíamos conselhos.

Essa insignificante reportagem da mulher com o galo, é muitíssimo elucidativa de um dos pormenores que se passavam em Angola.

Quase incompreensível para quem tenha vivido a guerra da Guiné, e até para muitos milhares de portugueses que apenas viveram nas cidades de Angola.

O povo não tinha a mínima fé nos 3 movimentos, 3 sem falar nas facções do MPLA que depois se viu a mortandade do 27 de maio entre eles.

Era o povo que nos segurava, 13 anos fabulosos "escandalosamente" que eu vivi.

Evidentemente que enquanto houvesse uma mina na estrada estávamos em guerra.

Mas o mais perigoso para a tropa, onde ficou muita gente foi aquelas estradas para pequenas velocidades, mas que os unimog guiados por jovens motoristas largavam-se até eu andei aos trambolhões.

Cumprimentos

Valdemar Silva disse...

Antº. Rosinha
Então, quer dizer que aqueles milhares de jovens que morreram na guerra da Guiné, em Angola e Moçambique foi para defesa dos interesses dos EUA, e não teve nada a ver com o barrete salazarado do Portugal de Rio de Onor a Timor.
...e quem se lixou foram os mexilhões da costa vicentina.

Valdemar Queiroz

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Vi na quinta (e revi hoje, com mais atenção) este 1º episódio ("A informadora"). Não tinha expectativas muito altas, porquanto o jornalismo de investigação é caro, muito caro. Gostava que o documentário fosse mais explícito sobre o sentido do título genérico "Despojos de guerra"...

Mas, pensando bem, parece haver um fio condutor entre os vários episódios: o trabalho (sujo e perigoso, em todas as guerras) do "colaboracionismo" (1º episódio); a "ingratidão" e a "injustiça" do colonizador que abandona os seus "harkis" (o termo, de origem árabe, tem um sentido depreciativo, na Argélia, e refere-se aos "auxiliares" norte-africanos que lutaram do lado dos franceses, durante a guerra da independência da Argélia, em 1954-62 (2º episódio); menos óbvia, é a inclusão do episódio do Miguel Pessoa e da sua futura companheira Giselda, nossos queridos amigos e camaradas, na sequência do abate, por um Strela, do primeiro Fiat G-91, em 25 de amrço de 1973, sob os céus de Guileje )3º episódio, "Corredor da Morte"; e, no quarto episódio, esse mais óbvio, os "filhos do vento", os "restos de tuga"...

Quanto às fontes documentais, não me pareceu haver nada de novo, e com o reparo de não se identificar a sua origem, com exceção do Arquivo RTP...Voltaram a usar-se, sem citar a fonte, imagens já estafadíssimas do documentário "Guerre en Guinée" [, "Guerra na Guiné", ORTF, Paris, 1969] , há muito disponível no portal do INA - Institut national de l'audiovisuel (13' 58'') e... no nosso blogue. Tem sido utilizado "ad nauseram" pelas nossas televisões quando se fala na guerra colonial...

A única novidade é o uso da técnica de "colorização" de filmes e iamgens antigas, a preto e branco. É uma técnica há muito disponível mas pouco frequente em documentários da nossa televisão... Gostei de ver imagens de Luanda de 1961, cidade que só conheci a partir de 2003...

Quanto à Sebastiana Valadas..., bom, temos de reconhecer que é um eachado. Como e onde é que a terão desencantado ? Através, seguramente, dos arquivos da PIDE/DGS...A entrevista, semi-diretiva, feita pela Sofia Pinto Coelho, acho que é de "antologia"... A jornalista consegue obter informações que são dignas de nota: (i) Angola em 1961 não tinha "nada a ver com Portugal" (sic); (ii)Luanda "rivalizava" com Lisboa, no progresso, no chique, no "glamour"; (iii) " Gostava de viver a guerra" (sic), apesar de ter vivido com o credo na boca e ter estado entre fogos cruzados dos militares dos vários movimentos em confronto em Luanda; (iv) Admirava a Kalash, russa, que os guerrilherios do MPLA traziam quando vinham à sua loja para se abastecerem ("umas vezes pagavam, outras não"; (v) "eu e o meu marido demos cabo da 4ª Região do MPLA"; (vi) e, afinal, somos utilizados como "carne para canhão" e aqui estou eu, expulsa de Angola, sem direito a pensão pelos meus serviços (e do meu marido)...

O casal (a Sebastiana e o "Casa Nova", seu marido, nome de código na PIDE) caiu na asneira de ficar em Angola, depois da independência, apesar dos avisos de que poderia correr riscos de morte pelos resultados da Op Fina Flor, 1972, em que foi preso entre outros o comandante João Arnaldo Saraiva de Carvalho, futuro general e chefe da polícia nacional de Angola...

(Continua)

Tabanca Grande Luís Graça disse...

(...)

(Continuação)

A entrevista com o João Arnaldo Saraiva de Carvalho (nome de guerra, "Tetembwa", filho de pai português e de mãe angola, que veio do interior para Luanda para estudar, tendo feito o 7º ano no Liceu Salvador Correia, onde teve como colega de turma o Eduardo dos Santso, e que depois vai para Coimbra frequentar o curso de direito... entretanto é mobilizado para Guiné e deserta, com a esposa, também colega de curso, seguindo o caminho normal nestas circunstâncias: França, Zâmbia, URSS...)... Essa entrevista, dizíamos, não é feita pela equipa da SIC, portanto não é material de "primeira mão", remonta a 2015, é de fonte angolana, está disponível na Net:

https://www.tchiweka.org/pessoas/joao-saraiva-de-carvalho

("A Associação TCHIWEKA de Documentação (ATD) é uma pessoa colectiva de carácter voluntário e sem fins lucrativos, com a missão fundamental de promover e divulgar actividades culturais, científicas e educativas que contribuam para preservar a memória e aprofundar o conhecimento da luta do Povo Angolano pela sua independência e soberania nacional").

No sítio da ATD publica-se também a "Ordem de serviço do MPLA nº 28/71 (Lusaka), de Daniel Chipenda, sobre nomeação do Comando da 4ª Região: Mwandondji (Comissário político com funções de Comandante), Augusto Alfredo «Orlog» (Operações), João Saraiva de Carvalho «Tetembwa» (Adjunto ao comando)."

... Em 1972, o "Tetembwa" é preso por denúncia dos agentes duplos, Sebastiana e o marido... Como recompensa, a PIDE, face ao grande "ronco" (como dizíamos na Guiné) aumenta a avença mensal do "Casa Nova" para o dobro (antes recebia três contos e tal pelos seus serviços, dele e da esposa), além de uma recompensa choruda de 30 contos (o equivalente, a preços de hoje, a 7.253,42 €)... (Tudo isto documentado em papel timbrado da PIDE.)

Depois da independência, o casal que decidiu continuar em Angola, é preso, certamente por denúncia, o "Casa Nova" é torturado pelo próprio "Tetembwa" mas nunca terá confessado à polícia quem denunciou a presença do "Tetembwa" e do seu grupo na loja, em Cassai-Gare (estação do caminho de ferro da linhade Benguela), no leste, na região dos diamantes... Ao fim de ano e meio de prisão, foi solto, sem julgamento, e expulso para Portugal onde entretanto viria a morrer...

Acho que o episódio vale sobretudo pelas "confidências" (cruas, despudoradas, mas sinceras e serenas, autênticas, sem basófia, quiçá demasiado ingénuas...) desta mulher, que é entrevistada na cozinha da sua casa (em Trás-os-Montes ?) enquanto ela e uma empregada matam e depenam um enorme galo (que seguramente não era o da Unita)...

Claro que ela sabia que, na vida e na guerra, é difícil (e sobretudo perigoso) servir dois senhores, manter dois amores... (Sem querer, ela denuncia alguma atração por aqueles rapazes de vinte anos a que ela chama "turras", que até eram bem parecidos e educados...).

Malhas que o império teceu...e cujos "despojos" ainda chegam às "praias lusitanas" da nossa memória...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Por que é que eu gostei da entrevista ? Porque a verdadeira "vedeta", a protagonista, é a Sebastiana, a entrevistada, não a entrevistadora... É importante que estas pequenas grandes histórias fiquem registadas, para a História, para a nossa memória e para memória futura, sem retoques, sem comentários, sem quaisquer preocupações com o "politicamente correto"... Ficamos também a saber o importante papel que a PIDE desempenhou na guerra, com a sua tentacular (e eficaz) rede de "informadores"...

E não brincavam em serviço: quando a Sebastiana e o marido são descobertos e denunciados pelos "negócios" com o MPLA (afinal, um bom "cliente", naquele cu de Judas...), o casal, que tinha filhos pequenos, ficou sem alternativa: ou colaboravam com a PIDE ou o então marido "apanhava 20 anos no Tarrafal" (sic)... Percebe-se porque é que o rapaz era um grande consumidor de ansiolíticos... enquanto a mulher, com o seu ar "felino" (a avaliar pela foto de quando era nova) adorava a guerra e o cheiro da pólvora e as fardas e as armas ("lindas") dos "turras"...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

... Percebe-se também agora melhor por que é que a PIDE, os seus agentes e os seus informadores, tiveram um tratamento "portuguguês suave", a seguir ao golpe do 25 de Abril... Amor com amor se paga... Não há almoços grátis...

Antº Rosinha disse...

A comerciante "colaborante" para os dois lados, naquela região haveria igual a ela várias centenas tanto ao longo do CFB como mais para o interior (Cazombo, "os cús de judas").

Todas as regiões estavam controladas pela PIDE sim, o papel que lhe competia, mas entrava tudo numa cadeia desde os comandantes das unidades militares, os Governadores de Distrito, os Chefes de Posto que ao contrário do que se depreende da acção de Spínola, na Guiné que se isolou desses relacionamentos, colaborava tudo em conjunto.

Era em Bissau facil ouvir dizer que o caso dos Majores que Spínola foi contra todas as provas apresentadas pela PIDE.

No entanto os Governadores em princípio Majores ou Ten cor. começaram a actuar com a mesma política spinolista, perante os Sobas.

Mas acertaram o passo com todas as outras partes.

Os verdadeiros senhores daquela guerra foram os Governadores de Distrito, Spinolas sem monócolo.

Sou de opinião de Luís Graça, no 25 de Abril os militares terão compreendido o papel da PIDE nos treze anos de guerra.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Escreve o Expresso, 18 Fevereiro de 2022 10:00:

https://expresso.pt/sociedade/2022-02-18-pide-nao-tivemos-escolha.-mandavam-nos-para-o-tarrafal

(...) " É de forma desassombrada que Sebastiana Valadas se orgulha de ter sido agente secreta da PIDE (polícia política) no auge da guerra colonial. “Se não fossemos nós, os “turras” (terroristas) teriam matado muita gente! Nós conseguimos destruir a 4.ª Região Militar do MPLA!! Não ficou nem um – fugiram.”

Sebastiana e o marido eram comerciantes em Cassai-Gare, uma povoação isolada no Leste de Angola, a mais de 1000 quilómetros de Luanda. Em 1968, quando a guerrilha se instalou na zona, passaram a fornecer-lhes mantimentos. Sal, tabaco, óleo, sabão e gasóleo eram essenciais para quem vivia no mato. Quando a PIDE descobriu que o casal ajudava o inimigo, forçou-os a tornarem-se informadores. “Não tivemos escolha. Ameaçaram-nos que nos mandavam presos para o Tarrafal.”

Atribuíram a Avelino Durães – marido de Sebastiana – um nome secreto: “Ferro”; e combinaram os códigos para o envio de mensagens cifradas. Os relatórios da PIDE revelam que passava informações pormenorizadas sobre a localização de acampamentos (que tinham nomes como “Venceremos”, “Vingança” ou “Ho Chi Minh”), armamento, rotas de abastecimento e os nomes dos guerrilheiros – “Metralhadora”, “Limpa tudo”, “Longa Marcha” eram algumas das alcunhas.

(...) É de forma desassombrada que Sebastiana Valadas se orgulha de ter sido agente secreta da PIDE (polícia política) no auge da guerra colonial. “Se não fossemos nós, os “turras” (terroristas) teriam matado muita gente! Nós conseguimos destruir a 4.ª Região Militar do MPLA!! Não ficou nem um – fugiram." (...)

Sebastiana e o marido eram comerciantes em Cassai-Gare, uma povoação isolada no Leste de Angola, a mais de 1000 quilómetros de Luanda. Em 1968, quando a guerrilha se instalou na zona, passaram a fornecer-lhes mantimentos. Sal, tabaco, óleo, sabão e gasóleo eram essenciais para quem vivia no mato. Quando a PIDE descobriu que o casal ajudava o inimigo, forçou-os a tornarem-se informadores. “Não tivemos escolha. Ameaçaram-nos que nos mandavam presos para o Tarrafal.”

Atribuíram a Avelino Durães – marido de Sebastiana – um nome secreto: “Ferro”; e combinaram os códigos para o envio de mensagens cifradas. Os relatórios da PIDE revelam que passava informações pormenorizadas sobre a localização de acampamentos (que tinham nomes como “Venceremos”, “Vingança” ou “Ho Chi Minh”), armamento, rotas de abastecimento e os nomes dos guerrilheiros – “Metralhadora”, “Limpa tudo”, “Longa Marcha” eram algumas das alcunhas.

(...)

Tabanca Grande Luís Graça disse...

EXpresso, 18/2/2022

(Continuação)

(...) Cassai-Gare, situada dentro da reserva extensa de caça da Cameia, resumia-se à estação de comboio e quatro casas – todas de familiares de Sebastiana. Quando os guerrilheiros pretendiam abastecer-se, enviavam recado por um emissário. No dia e hora combinado (sempre de noite) apareciam, em grupos de seis ou sete. Se a luz da casa de banho estivesse acesa, era o sinal de que o caminho estava livre. “Jantavam connosco! E muitas vezes ficavam por lá a beber e a jogar às cartas com o meu marido. Só que a PIDE entregava-nos comprimidos para colocarmos nas garrafas de vinho e eles, ao fim de um bocado, ficavam a dormir como se estivessem mortos, horas a fio. Vinham os militares, carregavam-nos ao ombro, metiam-nos no comboio e só acordavam na cadeia!”

Ninguém desconfiava porque Sebastiana e o marido escolhiam criteriosamente a cadência e a altura certas para as capturas e faziam também jogo duplo. Por vezes ajudavam guerrilheiros, escondendo-os em sua casa ou iam à PIDE pedir a libertação de algum deles. “Nós não queríamos que morresse ninguém. Tinham de ser presos, não tinham que ser mortos!” Mas não conseguiam evitar o que se passava na cadeia. “Davam-lhes lavagens ao cérebro, que eu sei lá. Queimavam-lhes as unhas, a outros tiravam-lhe um dedo, picavam-nos, torturavam-nos mesmo. A um rapaz marcaram-lhe a fogo o mapa de Angola nas costas!”

A PIDE angolana, dirigida por São José Lopes, que tinha uma eficaz rede de informadores, reconheceu que o colaborador “Ferro” era “astuto” e Sebastiana considerada “não menos esclarecida e agressiva na obtenção de notícias”. O casal passou então a receber cerca de 4 contos de ordenado mensal, uma soma assinalável à época. De cada vez que uma operação resultasse em cheio, obtinham ainda gratificações que podiam ir de garrafas de whisky até montantes elevados, como sucedeu, em 1972, com a operação “Fina Flor”, em que receberam 30 contos. Nesse dia, morreram 3 guerrilheiros e 6 foram capturados. Entre eles estava João Saraiva de Carvalho – o “Tetembwa” -, hoje general angolano reformado. Foi um valioso trofeu de guerra. Era estudante universitário em Coimbra e quando foi mobilizado para a guerra, desertou, aderindo à guerrilha. Quando o prenderam, na loja de Sebastiana, estava a pôr tabaco para dentro de um saco e não teve tempo de reagir. “Queria levar tudo para a mata, como se fosse um senhor muito fino: pasta de dentes, papel higiénico, queria tudo.” A operação “Fina Flôr” foi uma machadada importante para o MPLA, que ficou de sobreaviso, ao ponto da PIDE ter avisado o casal: “correm perigo, pelo que convém que se acautelem ao máximo”. (...)

https://expresso.pt/sociedade/2022-02-18-pide-nao-tivemos-escolha.-mandavam-nos-para-o-tarrafal