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sábado, 10 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27621: Historiografia da presença portuguesa em África (512): O Novo Atlas Escolar Português: Histórico-Geográfico, de João Soares (1878-1970), que teve sucessivas edições atualizadas (de 1925 a 1971)



Mapa geral da província da Guiné: escala 1: 2  milhões (c. 1940): ainda com muitas imprecisões


Mapa geral da província da Guiné: escala 1: 2 milhões  (c. 1940): metade ocidental; inclui a capital Bissau, e sedes de circunscrição como  Bolama, Mansoa, São Domingos, Farim, Fulacunda, Catió


Mapa geral da província da Guiné: escala 1: 2 milhões (c. 1940): metade oriental; inclui Bafatá e Gabu (mais tarde, Nova Lamego) 







Mapa da Província da Guiné, escala 1: 2 milhões. Reprodução, a preto e branco, de uma de uma das versões do mapa da Guiné de João Soares (1878-1970) (parte integrante do seu "Novo Atlas Escolar Português: Histórico-Geográfico, Lisboa, Livraria Sá da Costa), que teve diversas edições atualizadas, desde os anos 20 aos anos 70: a 1ª edição é de 1925; a 2º é de 1934; a 4ª é de 1951; a 9ª é de 1963; a 11ª é de 1971...O livro era originalmente impresso em Itália, Novara, no Instituto Geográfico de Agostini. Foi um verdadeiro "best-seller".


1. Este atlas, muito usado no ensino (nomeadamente liceal)  em Portugal durante o século XX, incluía mapas detalhados das colónias portuguesas da época (além de Portugal e das ilhas adjacentes).. Um dos mapas específicos era o da Guiné (colónia e depois "província" com a reforma ultramarina de 1951). 

 Teve várias edições ao longo das décadas de 1920 a 1960, sendo frequentemente atualizado. As edições dos anos 40, por exemplo, eram comuns nas escolas.

O político, professor e pedagogo João Lopes Soares, pai do histórico Mário Soares (cofundador e líder do Partido Socialista e ex-Presidente da República Portuguesa) não era cartógrafo. Fundador e diretor do Colégio Moderno, tinha sido também professor nos Pupilos do Exército.

Pela grafia dos topónimos, esta versão do mapa da Guiné parecia-nos ser anterior ao acordo ortográfico de 1945, e sobretudo à "reforma toponímica" de 1948.

Recorde-se que se deve ao então capitão de fragata Sarmento Rodrigues, governador da colónia da Guiné, o primeiro esforço sério para grafar e uniformizar os topónimos (nomes geográficos) guineenses, através da Portaria nº 71, de 7 de julho de 1948 (*)...

A grafia dos topónimos era até então ao gosto e jeito de cada um (como, de resto, se pode comprovar pelo mapa geral de João Soares). Eis alguns exemplos:
  • Contubo-el,
  • Faha, 
  • Xitoli, 
  • Bissoram, 
  • Mandina,
  • Pitche, 
  • Dandum (Dando)
  • Gam Sancó, 
  • Enchalé, 
  • Goli (Porto Gole)
  • Contabani, 
  • Mansôa, 
  • Cumbidjan, etc. 
Por outro lado, havia localdades importantes que pura e simplesmente desapareceram ou mudaram de nome: Samogi, Banhingará, Farancunda, Paotchi,  a norte; Todos os Santos, Bissari, Dejombe, Bolola, Cumbidjan, a sul...  E grande parte dos nomes que aparecem,  são estranhos ou desconhecidos para nós, que fizemos a guerra (1961/74) e conhecemos as cartas dos anos 50 (vd. mapa geral da província, de 1961, anterior portanto à guerra)...

Fica-se até com a impressão de que a  Guiné dos anos 20/30/40 era outro país... Ou então estamos perante um "tsunami" ou um ""terramoto" que, com a guerra, varreu todo o território, de alto abaixo... (**).

Bissau já era a capital. E Gabu ainda não era Nova Lamego. Canchungo aparece, ainda não era Teixeira Pinto... (no mapa a cores). (Confr0ntando os dois mapas, a constata-se que a versão que reproduzimos ao alto, a preto e branco, é posterior à que se segue abaixo, a cores.) (*)

Como atlas histórico-geográfico,  também tem lacunas: náo faz referência ao chão mandinga, chão felupe, chão mancanha...E a designção "fulas pretos" também não é inclusiva (tradicionalmente os fulas dividiam-se em forros, pretos e futa-fulas).

Há um pormenor decisivo para datar os dois mapas: é a designação "província" em vez de "c0lónia".. Portanto, estas duas versões (uma a preto e branco e outra a cores) têm que ser de 1951 ou data posterior. 

Mas as alterações introduzidas foram mesmo pontuais...  Enfim, não estamos a discutir o "sexo dos anjos" mas quase...A conclusão que podemos tirar é que até ao ao tempo governador Sarmento Rodrigues, na segunda metade da década de 1940,  havia um desconhecimento grande desta parcela do império colonial...

Dividimos o(s) mapa(s) em duas metades, a oeste e a leste. E em quatro quadrantes: 

A = Norte / Noroeste: região do Cacheu, habitada sobretudo por Manjacos Papéis e Balantas
B=  Sul / Sudoeste:  regiáo de Bissau, arquipélago dos Bijagós,região de Quénra e parte de Tombali: habiatads por Papéis,Beafadas, Nalus
C= Norte / Nordeste: região Leste (Bafatá e Gabu), habitada por Fulas Pretos (sic);
D= Sul / Sudeste: regiáo Leste ): Fulas Pretos, Futa Fulas


Fonte:Fotocópia a preto e branco do atlas de João Soares (c. 1940/50), Veja-se, para detalhes mais precisos, a cópia a cores, a seguir (descobrimo-la, já depois de pronto este poste...)(**)

Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camtadas da Guiné)






Cópia da Portaria nº 71, de 7 de julhode 1948  (Lisboa, Imprensa Nacional, 1948)









Guiné > Atlas de João Soares (c. 1940/50) > Escala: 1/2 milhões. Teve várias edições nos anos 40/50 e era usado no ensino liceal. 

Cortesia do prof Armando Tavares da Silva (1939-2023), nosso grã-tabanqueiro, especialista da história da Guiné no período que vai de 1878 a 1926, abarcando o essencial das "campanhas de pacificação". 




Capa do livro de Armando Tavares da Silva. “A Presença Portuguesa na Guiné, História Política e Militar (1878-1926)” (Porto: Caminhos Romanos, 2016, 972 pp.)
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de  7 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26122: As nossas geografias emocionais (30): A "toponímia" da colónia ou a "Babel linguística": Bafatá devia ter sido grafada como "Báfata" e Gabú como "Cabo" (do mandinga "caabu")...


(**) Último poste da série > 8 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27616: Historiografia da presença portuguesa em África (511): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1955 (69) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27620: Notas de leitura (1883): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (8) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Creio que o Boletim desapareceu de morte natural em 1966, o falecimento do presidente da Direção, António Flamengo constituiu uma pesada perda, terá diminuído bastante o número de associados, as rubricas dos primeiros anos envolvendo legislação consultório, informação de contactos estabelecidos com as autoridades, os dossiês económicos, etc, vão minguando, o Boletim tenta socorrer-se de colaboradores externos como Teixeira da Mota, e nos últimos números apresenta-se um diagnóstico socioeconómico publicado em novembro de 1965 que, por um lado, se revela totalmente alheio aos acontecimentos inerentes à luta armada, e, por outro lado, não esconde críticas à natureza oligopolista do comércio de exportação entregue, esmagadoramente, a três empresas, que têm as suas sedes na Metrópole, onde se utilizam as respetivas matérias-primas exportadas da Guiné. Este boletim, estou seguro, interessará todos os investigadores que queiram conhecer o import-export destes anos cruciais da década de 1960.

Um abraço do
Mário



Uma publicação guineense de consulta obrigatória:
O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné – 8


Mário Beja Santos

Foi verdadeiramente traumático o desaparecimento de António José Osório Flamengo, alegam-se outras razões para a perda de periodicidade do Boletim. Quem assume a responsabilidade deste não esconde as extremas carências da vida associativa:
“De todos é conhecido de sobejo as dificuldades enormíssimas que na Província se foram acumulando desde o ano de 1963, resultante da situação anormalíssima que tivemos de enfrentar, guerra que teria forçosamente de mais fazer ruir as já debilitadas condições da nossa balança de pagamentos”.


Ainda se procura reagir, informa-se os associados que está definido o projeto da piscina, falta ainda uma máquina para fazer o furo para a captação de água. Publica-se a segunda parte do artigo de Teixeira da Mota intitulado “Um Príncipe de Bissau batizado em Lisboa no ano de 1994”.

Saltando para o número de janeiro a junho de 1966, retira-se do relatório da Direção: “Queremos referir no comércio uma concorrência desmedida, desleal e até antieconómica, que se tem vindo agravando e a que qualquer Direcção, que agora seja eleita, certamente terá junto dos jovens de procurar sanar e rápida e vigorosamente como se impõe, dadas as gravíssimas consequências que poderão advir para todo o comércio, e ainda para a economia da Província.”

Faz-se uma exposição dos assuntos superiormente tratados, destacam-se:
“– Contrabando que se faz com chapas de zinco ondulado, vendendo-se por preço a que o comércio estabelecido não pode concorrer;
- A quase nula afluência de autóctones a Bissau para ali venderem os seus produtos, devido à adopção de medidas de segurança que poderiam ser atenuadas;
- Solicitaram-se medidas idênticas às já estabelecidas para os transportes marítimos de Bissau para Bafatá, que fossem aplicadas a Farim, estabelecendo-se uma carreira de barcos do Estado;
- Denúncia do abuso do contrabando de sapatilhas, chinelas, laranjadas, receptores e transístores, colchas, tapetes, etc.”


Não se esconde que as receitas da Associação continuavam na sua curva descendente. Dá-se a notícia do oferecimento da Gulbenkian, na pessoa do Dr. Azeredo Perdigão, para uma exposição com alguns valiosíssimos quadros de artistas contemporâneos. Foi recebido um subsídio de trezentos contos para a construção da piscina. A Associação ofereceu uma Espada de Honra ao Governador Arnaldo Schulz pela sua promoção a General.

Um dado de considerável importância é a publicação do diagnóstico apresentado pela Comissão Técnica do Planeamento e Integração Económica da Província da Guiné, estudo datado de novembro de 1965.

O diagnóstico, escreve-se, respira fundadas esperanças no potencial agrícola da Província, se se metodizar a produção. São consideradas estimulantes as possibilidades reais das culturas do arroz, da mandioca, do caju, da palmeira do azeite e da bananeira; conclui-se que a cana sacarina é uma cultura pouco favorável. Apresenta-se um quadro desolador da pesca, admite-se que tudo pode mudar com a abertura de uma estância frigorífica em Bissau. Também o diagnóstico cita algumas potencialidades reais no campo das indústrias transformadoras e complementares da agricultura, potencialidades essas que teriam de obedecer a um critério de prioridades.

Também se reconhece que o desenvolvimento da Província está mal servido de crédito. O BNU usa uma taxa de desconto tal que torna o dinheiro local mais caro que o de Angola, Moçambique e Macau. Termina o diagnóstico concluindo que dadas as contingências da Província, tão anormais, terá de ser o Estado a incrementar as diversas atividades, por pouco se esperar da iniciativa privada, nada confiante; e de que será indispensável a montagem do serviço de financiamento, com uma Caixa de Crédito Agropecuário.

Relendo com mais cuidado o estudo, acho que vale a pena ainda referir que os autores consideram que o aspeto negativo da economia guineense tem a ver com a sua característica oligopolista, já que a comercialização da mancarra e do coconote é exercida pelas três grandes empresas locais, que não estimulam o progresso da Província, já que fazem incidir as suas atividades sobre a exportação daqueles produtos, que representam 92,7% da exportação.

O último número que se encontrou deste Boletim é o de julho a setembro de 1976. Ainda há o recurso nestes últimos números tão minguados ao aparecimento de alguns artigos de carácter pedagógico, e parece-me bem curioso o contributo de Alexandre d’Almeida que em dado passo das suas referências culturais fala na indústria dos panos, a panaria.

Segundo ele, proviria da República da Guiné, os panos do Rio Pongo, os chamados panos da costa, proferidos em Cabo Verde por longo tempo.
“E como o Arquipélago necessitou de braços do Continente africano para as suas necessidades de colonização e fomento, e porque o vestuário característico da maioria da gente importada era o clássico e tradicional pano, a indústria de tecelagem e tintura prosperaria, porquanto, ainda por largas décadas, subsistiria a diferenciação primitiva entre amos e servos, a começar pela indumentária.
Na nossa já longínqua meninice víamos uma velhinha, escrava-liberta dos nossos avós, proceder à tintura de panos chamados galãs com a diluição de pães cinchados de folhas trituradas de anileira, secas, em coada de potassa obtida de cinzas de caule de bananeira, campeche e capa-rosa, na qual mergulhava o pano cru, por dias sucessivos, com refegos adequados à estampagem desejada. E durante esta fase dizia-se que o pano estava ‘na tinta’. Igualmente, ainda nos lembramos de um velho tecelão, também descendente de gente importada e que estivera na Demerara (Guiana holandesa) a trabalhar numa leva de escravos, que de lá trouxe o mester, e que nos entretinha com tantas histórias da terra e o tratamento que ele e companheiros suportaram, até o milagroso resgate.
Ora, estas singelas referências não corroboram, em parte, em que a indústria proviera da Costa africana e nunca levada da Metrópole pelos colonizadores reinóis do Arquipélago? O tear, o mais rudimentar possível, é ainda uma cópia perfeita do que hoje é usado na Guiné, e ele laborava algodão branco e amarelo crescido nas ilhas, esfiado em dobadouras, igualmente rudimentares.”


Perguntou-se à Biblioteca Nacional de Portugal se havia outros números do Boletim. A resposta é de que nem um havia. Existe uma coleção na rede das bibliotecas de Lisboa, e o número de Boletins existentes coincide com o número daqueles que eu pude ler na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Bolanha de Pessubé
Pescadores Mancanhas
Sapateiros Mandingas
Mulher Fula

Estas quatro imagens foram retiradas de vários números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1965
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Notas do editor

Vd. poste anterior de 2 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27596: Notas de leitura (1880): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (7) (Mário Beja Santos)

Último post da série de > 7 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27613: Notas de leitura (1882): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte VI: "Apenas dois capelães foram expulsos do Exército"

Guiné 61/74 - P27619: Humor de caserna (231): "Filhos da p*ta, m*rda, car*lho!... Quem me acode?!... Os filhos da p*ta... matam-me!": debaixo de fogo, até um padre diz asneiras: o capelão militar, madeirense, Adelino Apolinário Silva Gouveia, que o saudoso Alcídio Marinho (1940-2021), do Porto, Miragaia, evoca e homenageia aqui




Alcídio [José Gonçalves] Marinho (1940-2021), ex-fur mil inf, CCAÇ 412 (Bafatá, 1963/65); membro da nossa Tabanca Grande desde 23/9/2011, vivia no Porto, era de Miragaia; ei-lo aqui em Monte Real, no Palace Hotel, 4 de Junho de 2011, no VI Encontro Nacional da Tabanca Grande,  empunhando  o estandarte da CCAÇ 412, "Capacetes Verdes"; era um dos nossos "veteraníssimos", conheceu os duros anos do início da guerra no CTIG, foi Prémio Governador da Guiné, em 1964.

Foto: © Manuel Resende (2011). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 



1. Esta história pícara, contada pelo nosso 
saudoso  Alcídio Marinho   (1940-2021), merece ser reproduzida (e comentada) aqui na série "Humor de caserna". 

É uma dupla homenagem, ao autor e  aos nossos capelães no tempo em que alguns deles acompanhavam as NT em operações no mato, com os riscos inerentes, nos primeiros anos da guerra.



Humor de caserna (231) >  "Filhos da p*ta, m*rda, car*lho! Quem me acode? Os filhos da p*ta... matam-me!": debaixo de fogo, até um padre diz asneiras: o capelão militar, madeirense, Adelino Apolinário Silva Gouveia

por Alcídio Marinho  (1940-1921)


Na lista dos 20 primeiros capelães militares que serviram no CTIG, de 1961 a 1974,  está o padre Adelino Apolinário da Silva Gouveia (*), que eu conheci: pertenceu ao BCAÇ 506.

Acompanhou o pessoal da CCAÇ 412 em muitas operações e deslocava-se aos vários destacamentos no mato, para rezar missa e dar apoio religioso e psicológico a todo  o pessoal. 

Era como um irmão nosso. Tive algumas conversas com ele. Era madeirense. Mais tarde, saiu de padre e casou, morava em Lisboa. [ Foi nomeado, por concurso , assessor principal do INIA - Instituto Nacional de Investigação Agrária, em 2002; conhecio-o pessoalmente, quando a Alice Carneiro trabalhava no Ministério da Agricultura e e Pescas. (LG)] 

O episódio mais caricato a que assisti, passado com ele, foi o seguinte:

A 27 de fevereiro de 1964 foi lançada a "Operação Marte" à Ponta de Inglês [, subsetor do Xime], onde a nossa companhia sofreu três emboscadas. 

Na primeira ficou ferido um soldado da minha secção, com um tiro de pistola, pelas costas. Ele que seguia pelo interior do mato, deu a correr para a estrada [Xime-Ponta do Inglês], apesar de lhe ter recomendado que,  em caso de ataque, enfrentasse o mesmo, que eu iria socorrê-lo. Quando olho para o lado, está ele deitado, dizendo:

– Marinho, estou ferido.

Verifiquei onde estava ferido e sosseguei-o, dizendo:

– Ó pá,  isso não é nada, tem calma, eu vou chamar o enfermeiro.

Tinha levado um tiro de pistola. Só se via nas costa do seu lado esquerdo, na direcção do baço, uma pequena roseta, por onde tinha entrado o projéctil e veio alojar-se na frente, onde se via uma pequena mancha escura. Nunca foi retirada e ainda, actualmente, se apalpa o projéctil, na sua barriga.

Na segunda emboscada eles atacaram mesmo junto á estrada, e um dos turras viu o capelão Apolinário Gouveia meter-se atrás da roda traseira dum Unimogue e toca de fazer fogo com uma PPSH ("costureirinha").

Então só se ouvia uma voz que gritava:

–  Filhos da pu...ta, mer...da, cara..lho! Quem me acode? Os filhos da puta... matam-me!

Começamos a atacar o local donde vinha o fogo, afastando o perigo do Unimogue. Eis, quando vimos sair,  debaixo do Unimogue, o Padre Apolinário Gouveia, branco como a cal da parede, com a pistola Walther na mão, tremendo todo como varas verdes. Começámo-nos todos a rir.

Diz ele:

– Se alguém disser o que ouviu e viu, eu juro, a pés juntos, que é tudo calúnias e participo do engraçadinho.

A malta ainda mais se riu. Continuámos a marcha, e sofremos a terceira emboscada. Fomos atacados por enxames de abelhas.

Naquele pedaço de estrada, nas árvores das bermas, tinham colocado, lá no alto, uma espécie de cortiços, pareciam melões, feitos de barro, onde estavam as abelhas. 

Quando começou a emboscada, atacaram-nos e, ao mesmo tempo, atiraram aos cortiços, que caíram e partiram, destruindo o habitat das abelhas.

Estas, furiosas, atacavam tudo e todos. Um motorista, o Cândido, caiu e as abelhas atacaram-no e, coitado, acabou por falecer. Tinha em cima dele mais de um palmo de abelhas.

Tirei do meu bornal um volume de tabaco , que distribui pelo pessoal, indicando que metessem nos lábios três ou quatro cigarros e os acendessem e soprassem para fora, fazendo fumo. Também cortámos capim e toca a fazer archotes para fazer fumo e afastar as abelhas, pois elas eram aos milhares.

Fui picado por uma abelha, na orelha direita que,  passado pouco tempo, ficou dura como uma tábua e do tamanho duma mão.

Entretanto, na refrega da emboscada, ouvimos e vimos o capitão Braga, descalço, tinha tirado as botas e tentava despir-se, parecia um louco e berrava muito.

Os pés já estavam todos queimados, eram duas horas e meia da tarde, o sol queimava e as areias da estrada torravam, de quentes que estavam (52º,  ao sol).

O furriel enfermeiro Silva teve que sedar o capitão. Aí acabou a operação. Toca a voltar para Xime e Bambadinca. 

Alcídio Marinho
CCaç 412

[Revisão / fixação de texto: LG]

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Lista dos capelães militares que serviram no CTIG, de 1961 a 1974 (excerto): são os primeiros vinte nomes da lista (de 1961 a 1966), de um total de 102 (Exército) (a Força Aérea e a Armada tiveram 7 e 4, capelões militares, no CTIG, respetivamente) (*).

Até à realização do 1º Curso de Formação de Capelães Militares (Academia Militar,  21 de agosto - 17 de setembro de 1967), eram todos voluntários, em princípio. E o seu número não ultrapassava a centena e meio. No 1º curso foram formados 58, incluindo os nossos grão-tabanqueiros Horácio Fernandes, Libório Tavares e Mário Oliveira, já falecidos.

________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 25 de outubro de 2016 > Guiné 63/74 - P16636: Os nossos capelães (5): Relação, até à sua independência, dos Capelães Militares que prestaram serviço no Comando Territorial Independente da Guiné desde 1961 até 1974 (Mário Beja Santos)
 

Guiné 61/74 - P27618: Os nossos capelães (19): Relembrando o 1 º Curso de Formação de Capelães Militares (Academia Militar, 23 de agosto - 17 de setembro de 1967)


Lisboa > Academia Militar > 23 de outubro de 2017 > Comemoração  dos 50 anos do 1º curso de formação de capelães militares. 

Foto: Agência Ecclesia (reeditada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, com a devida vénia...)







1º Curso de Formação de Capelães Militares, realizado na Academia Militar, de 23 de agosto a 17 de setembro de 1967. Lista  dos sacerdotes, graduados em aspirante a oficial, que o frequentaram, por ramos das Forças Armadas (Marinha, Força Aérea e Exército).

Fonte: Ordinariato Castrense  (sítio da Diocese das Forças Armadas e das Forças de Segurança)

  
I.  Os participantes (n=58) foram, pela primeira vez, nomeados pela hierarquia religiosa. (Náo sabemos se havia alguns voluuntários.) 

O critério nem sempre era transparente. Houve quem contestasse. Até então, e desde o início da guerra em Angola, os capelães eram voluntários, coo padre Bártolo Paiva Pereira, que chegou a capelão- chefe, com o posto de major graduado.Mas não tinham  formação específica (que passou a ser prevista no art. 10º do decreto-lei nº 47188, de 8 de setembro de 1966, entretanto já revogado).

O número de capelães, até meados de 1966, e quando a guerra já ia em velocidade de cruzeiro, não ultrapassava a centena e meia, conforme se pode ler nº 7 do preâmbulo do dipoma legal que veio promulgar a estruturação da assistência religiosa nas forças armadas:

(...) 7. Conforme acordo entre o Governo Português e a Santa Sé, para instauração do Ordinariato ou Vicariato Castrense, pode-se agora dar conveniente organização à assistência religiosa nas forças armadas no momento em que o número de sacerdotes ao serviço como capelães militares atinge, por força das necessidades de defesa do ultramar, cerca de centena e meia de indivíduos. (...)

Na prática foi instituido um "serviço militar obrigatório" para os padres católicos, de que eles até então estavam isentos:


(...) Art. 8.º - 1. No cumprimento da obrigação do serviço militar que lhes incumbe, conforme as disposições legais vigentes, os sacerdotes são chamados ao serviço efectivo, em número suficiente para ocorrer às necessidades de cada um dos ramos das forças armadas.

2. Tendo em atenção o menor prejuízo possível para a cura de almas, conforme o preceituado no artigo XIV da Concordata, bem como, por outro lado, o grau de saúde e as qualidades que revelarem para o género de actividades a que se destinam, a escolha dos sacerdotes a chamar ao serviço efectivo será feita pelo Ordinário Castrense, por entendimento com os respectivos superiores eclesiásticos:

a) Como regra, entre os sacerdotes, com mais de 28 anos de idade e menos de 35, que, em regime de voluntariado, forem apresentados pelos seus superiores;

b) Não havendo voluntários em número suficiente, entre os sacerdotes que perfizerem 30 anos de idade no ano civil em curso, principiando pelos mais novos e de acordo com as quotas periòdicamente fixadas para cada diocese, ordem ou congregação religiosa, na proporção do seu clero." (...)


(...) Art. 10.º - 1. Após a incorporação, os sacerdotes frequentam um curso destinado a ministrar-lhes os necessários conhecimentos de natureza militar e pastoral. Este curso será regulamentado por portaria conjunta do Ministro da Defesa Nacional e dos Ministros e Secretário de Estado de cada um dos departamentos das forças armadas.

2. Os sacerdotes que terminarem o curso com aproveitamento são considerados capelães militares e vão prestar serviço como eventuais no ramo das forças armadas a que pertencem.

3. Os capelães militares que excederem as necessidades imediatas do serviço regressam às suas dioceses, ordens ou congregações religiosas, podendo ser ulteriormente convocados até aos 35 anos.

4. Os sacerdotes que não obtiverem aproveitamento no curso são abatidos ao serviço, sem prejuízo do procedimento disciplinar que porventura deva ser adoptado quando se verifique negligência ou falta de aplicação.(..)


II. Não consta que ninguém (a começar pelo Mário de Oliveira)  tenha chumbado, logo no 1º Curso, de 1967, mas houve logo questões que foram levantadas e não terão sido respondidas. De qualquer modo, no contexto político da época, não seria previsível nenhum contestação ao decreto-lei nº 487188, de 8 de setembro de 1966.

Entre as matérias dadas, neste curso acelerado, de menos de um mês,  destaque-se (entre parênteses, o nome e posto do formador): 

(i) assuntos ultramarinos (ten cor inf Hélio Felgas);

(ii) educação física (cap inf Barroso Capela e cap inf Fonseca Cabrinha);

(iii) topografia (cap inf Correia Hormigo);

(iv) educação militar (cap cav Lopes Saraiva);

(v) armamento e material (ten inf Monteiro de Azevedo):

(vi) vicariato castrense e serviço de assistência religiosa no Exército (ten cor graduado capelão Alves Cachadinha);

(vii) deontologia (Dom António dos Reis Rodrigues, bispo de Madarsuma);

(viii) serviço de assistência religiosa na Armada  (capitão de fragata graduado capelão José Bernardino Correia de Sá):

(ix) pastoral castrense  e serviço de assistência religiosa na Força Aérea (ten cor graduado capelão João Ferreira);

(x) espiritualidade do capelão militar (cap grad capelão José Martins da Veiga);

(xi)  psicologia militar (cap grad Eduardo José Gomes de Almeida);

(xii) organização e missão da Força Aérea (cor pilav Eduardo Augusto Ferreira);

(xiii) cartas aeronáuticas e navegação aérea ( ten cor pilav António Caritas Silvestre);

(xiv) material aéreo e apoio logístico (major engenheiro da FA, António Pedro da Silva Gonçalves);

(xv) princípios de aerodinâmica (major engenheiro da FA, Cândido Manuel Passos Morgado).

O Horácio Fernandes, que foi chamado aos 32 anos para substituir um colega que tinha perdido a mãe, diz ficou reprovado na "prova física", mas acacou por passar "como todos os outros". Também refere que havia cunhas: os lugares mais desejados eram, obviamente, na Forçla Aérea e na Armada. Ele irá parar a um batalhão de artilharia, que já tinha 8 meses de comissão, e estava colocado no sul da Guin+e, em Catió (BART 1913).

III. Destaque para alguns capelães deste curso que foram mobilizados para a Guiné (ou outros TO)  e de quem já aqui falámos em postes anteriores:
  • Horácio Neto Fernandes (1935- 2025) (*)
  • Mário Pais de Oliveira (1937-2022) (*);
  • Libório Tavares (1933-2000) (*):
  • Delmar Barreiros (Armada);
  • Carlos Manuel de Sousa Dias;
  • José Rabaça Gaspar (Joraga) (Moçambique) (divulgou, em 2002, na Net, o "Cancioneiro do Niassa");
  • António Francisco Gonçalves Simões;
  • José dos Santos Tourais Pereira.
(*) Membros da Tabanca Grande

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Nota do editor:

Útimo poste da série > 22 de maio de 2023 > Guiné 61/74 - P24333: os nossos capelães (18): Ainda o caso do Arsénio Puim, CCS/BART 2917 (Bambadinca, maio de 1970/maio de 1971): nova informação produzdia pelo jornalista António Marujo, "Sete Margens", 19/5/2023

Vd, os primeiros postes da série:

25 de outubro de 2016 > Guiné 63/74 - P16638: Os nossos capelães (6): Libório [Jacinto Cunha] Tavares, o meu Capelini, capelão dos "Gatos Negros", açoriano de São Miguel, vive hoje, reformado, em Brampton, AM Toronto, província de Ontario, Canadá (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70)


17 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13616: Os nossos capelães (4): O bispo de Madarsuma, capelão-mor das Forças Armadas, em Gandembel, no natal de 1968 (Idálio Reis, ex-alf mil, CCAÇ 2317, Gandembel / Balana, 1968/69)

5 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13577: Os nossos capelães (3): O capelão do BCAÇ 619 ia, de Catió, ao Cachil dizer missa... Creio que era Pinho de apelido, e tinha a patente de capitão (José Colaço, ex-sold trms, CCAÇ 557, Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65)

5 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13576: Os nossos capelães (2): Convivi com o ten mil Gama, de alcunha, "pardal espantado"... Muitas vezes era incompreendido, até indesejado por alguns, pois tinha coragem para denunciar os abusos, quando os presenciava (Domingos Gonçalves, ex-allf mil, CCAÇ 1546 / BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68)

5 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13575: Os nossos capelães (1): Conheci em Bedanda o ten mil Pinho... Ia visitar-nos uma vez por mês para dizer missa... E 'pirava-se' logo que podia (Rui Santos, ex-alf mil, 4.ª CCAÇ, Bedanda, 1963/65)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 . P27617: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte III: O nº 27, do Colégio Seráfico


Francisco Caboz, "alter ego" de Horácio Fernandes
(Ribamar, Lourinhã, 1935 - Porto, 2025)


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que durante a guerra colonial será capelão militar, 

No capº IV  daquele trabalho académico, ele narra e comenta em 3 dezenas de páginas a história de vida de Francisco Caboz, o mesmo é dizer, a sua autobiografia. 

 Nos dois postes anteriores (*),  ele apresentou-nos. sucintamente,   a sua terra, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e  o avô materno  (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara)... 

O avô e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram na sua decisão de "quer ser padre".

É uma história de vida, sofrida bem dura, em tempos muito difíceis (antes, durante e depoois da II Guerra Mundial), que merece ser conhecida dos nossos leitores. O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46,  completou a 4ª classe e seguiu para o seminário dos franciscanos (em Montariol, em Braga). 

A maior parte de nós, que nasceu já 10 ou mais anos depois do Horácio, ainda se reconhece nesta narrativa autobiográfica  

Foi a partir deste trabalho académico que, 14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [ Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)

Francisco Caboz é o "alter ego" do Horácio Fermandes, entretanto falecido, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos). 

O Horácio Fernandes seria ordenado padre em 1959. Foi alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969), tendo terminado a sua comissão no HM 241 com uma crise de paludismo. 

Andou ainda na marinha mercante (transporte de ytropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006 doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro. Ainda somos parentes, pelo lado paterno: as nossas bisavós, Maria Augusta e Maria da Anunciação (nascidas na década de 1860) eram irmãs, e pertenciam ao clã dos Maçaricos (Ribamar, Lourinhã).

A história de vida do Horácio é a de muitos de nós, que fizemos o percurso clássico de mobilidade social através da educação, num Portugal rural e pobre dos anos 40/50/60.  Os seminários regulares e diocesanos foram uma  estratégia de sobrevivência e ascensão social para jovens de origens humildes, que não tinham acesso ao sistema de educação, elistista, e socioespacialmente  segregador, do Estado Novo (liceus que sõ existiam nas capitais de distrito e univerdades localizadas em Lisboa, Coimbra e Porto).


História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte III:  O nº 27, do Colégio Seráfico  

por Horácio Fernandes


4.O Seminário

 4.1. O Angélico


A ideia de ser padre começou a ganhar vulto, quando se repercutiram à volta de mim calorosos incentivos. Era a professora que repetia que gostava de que algum aluno seu fosse padre e o meu avô, para quem a sua maior dita era ter um neto padre. 

O ser padre aparecia-me como a única saída, para ultrapassar as limitações da minha família de parcos recursos, concentrar em mim as atenções das pessoas que me rodeavam e ser o herói de meu avô. 

É neste contexto que respondo às perguntas insistentes se quero ser padre com o «sim».

A minha única dúvida era se os padres eram «capados», como tinha ouvido dizer a alguns rapazes mais velhos. Desfeita esta dúvida, com uma consulta ao meu tio, que me assegurou que não, ficaram ultrapassados todos os obstáculos.

Este «sim» mobiliza imediatamente em redor de mim todas as atenções, não só da minha família, como das devotas da terra. 

O meu avô retirou debaixo do colchão mais umas notitas, fruto das suas economias, para ajudar a comprar o enxoval para o futuro «ministro» de Deus. As senhoras devotas de Arribas do Mar ofereceram-se para confeccionar alguma roupa e marcar outras,  pois a partir daí tinha um número atribuído pelo Seminário, o 27. 

Mesmo assim, faltavam muitas peças do longo «enxoval» pedido. Meu pai viu-sé obrigado a contrair um empréstimo e fui pagar apenas a mensalidade mínima: cinquenta escudos.
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Com a cabeça cheia de das histórias de missionários, que a professora lia na aula às quartas feiras e os meus 10 anos, lá fui eu, juntamente com mais dois colegas, de abalada até ao Colégio Angélico, que distava mais de 300 quilómetros. 

A acompanhar-me em tão longa viagem de comboio, ia meu pai e a irmã de um desses colegas.

A viagem teve o seu quê de novidade e de cansaço. Chegámos cerca das 10 horas da noite, à última estação de caminho de ferro, que distava cerca de 4 bons quilómetros do Colégio. 

Uma carrejona levou as malas dos meus colegas e o meu saco às riscas, onde levava o enxoval, num carrinho de mão,  e nós fomos atrás dela. Nas subidas, ainda ajudávamos a empurrar o carro.

Como já tinha tocado a sineta para o silêncio obrigatório, o irmão porteiro levou-nos à secção da enfermaria, para não perturbar os outros e mandou meu pai e a irmã do meu colega de regresso à cidade, porque ali era clausura e não podiam entrar pessoas estranhas à comunidade.

 Depois de nos entregarem a Deus lá foram atrás da carrejona, à procura de comida e dormida e fui-me deitar.

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4.1.1 A domesticação do corpo e espírito em vários cenários

 
A domesticação de Francisco, embora operada dia a dia, obedecia a rituais próprios e estava centrada em quatro cenários: 

  • o refeitório, 
  • a camarata, 
  • o salão de estudo 
  • e a sala de aulas. 


Panopticamente situados, os Prefeitos tudo comandavam e vigiavam: comandavam através de gestos ou sinais sonoros, como apito, campainha, sineta, palmas,  e vigiavam todas as conversas, passos e procedimentos dos alunos. 

E quando não podiam estar presentes, o que era raro, lá estava o mais velho ou os graixas, como eram conhecidos os preferidos, prontos a comunicá-lo ao Prefeito.

Desde que Francisco entrou no Colégio Angélico, uma cortina panóptica correu-se sobre o seu quotidiano. A partir daqui, é barro para ser moldado, já não por uma professora catequista, mas pelos oleiros sagrados. 

A interiorização dos rituais do prémio,  do castigo, do silêncio, da subordinação, do aniquilamento do self vão reconvertê-lo de homem velho em homem novo, «criado em justiça, verdade e santidade» (S. Paulo).

O «mandato» do sistema de ensino salazarista para o subsistema de ensino convencional (ver cap. II da dissertação), resulta num aniquilamento do corpo e alma do Francisco e a inculcação de um habitus que o transforme num ser passivo, obediente, conformado, interiormente reconstruído, para ser administrador do sagrado. Tem de deixar de ser Francisco e converter-se numa caricatura de «fradinho» e «padrezinho», traçado pelas hierarquias eclesiásticas, em conúbio com o regime salazarista.

Esta moldagem consistia em cortar com todas as amarras que o ligavam ao mundo, e fazer de cada angélico um eterno devedor do subsistema.

 Para isso, impunha-se o apagamento de todas as referências relacionadas com a sua identidade pessoal e  familiar: correspondência, datas de aniversário, apelidos de família, pares e amigos, opções pessoais, respeitantes à sua apresentação pública, como o cabelo e as vestes [5].

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Em troca, passava a ser um barro moldável nas mãos da instituição religiosa. Os novos pais eram os superiores, representantes de Deus e eleitos com evocação do Espírito Santo. Os amigos eram os Santos, preferencialmente os da respectiva família religiosa, cujas referências biográficas, ainda que reinventadas,  eram exploradas até à exaustão.

O ensino confessional hierarquizava também as mulheres pela excelência simbólica. As não consagradas as Deus eram as inimigas do corpo e da alma dos homens. Aos eleitos, vocacionados, os melhores, ficava vedado subordinar-se aos encantos femeninos. De outro modo, perderiam a supremacia do seu status. Por isso, havia que subalternizá-las, para que o homem não perdesse a excelência da masculinidade. 

Traduzido em linguagem simbólica, o Angélico tinha de combater os três principais inimigos da alma: mundo, demónio e carne.

Cenário 1 [Refeitório]

O dia começava impreterivelmente ao som de uma sineta. Era, aprendi depois, o toque  regulamentar para a formatura em direcção à igreja  para a missa matinal.

 Vesti-me à pressa e mandaram me juntar aos cerca de 200 rapazes que   desciam as escadas em silêncio. Assisti à missa, ainda meio estremunhado, fazendo os gestos que os outros faziam e de novo me integrei na formatura  para o refeitório, em absoluto silêncio e braços  cruzados, como os outros.

O refeitório dos alunos  era um amplo salão, com mesas de madeira surrada,  sem qualquer revestimento, onde,  três vezes por dia,  os alunos comiam em pratos e chávenas de  alumínio, todas amachucadas dos trambolhões e  algumas sem pegas.

Quando os outros viraram a chávena atacaram o meio «papo seco»,  também fiz o mesmo.

De repente, à palavra mágica «prosit» (seja útil!),  pronunciada pelo Prefeito, o silêncio quebrou-se , uma torrente de vozes inundou o salão.

(Continua) 

Cenário 2 [Camarata]

Ao outro dia de manhã acordei às 5 horas e 45 minutos da manhã, excepto aos domingos em que me era concedido o privilégio de ficar na cama, mais uma saborosa hora. 

Um bater de palmas cadenciado indicava que o dia ia começar. De Inverno custava tanto sair do quente para o cimento da camarata! Mas nem S. António me valia!

Se não saltava logo da cama, ou ficava a dormir porque não ouvia as palmas,  tinha uma visita inesperada: a sandália do Prefeito dava um pontapé na perna da cama de ferro que me abalava todo, ou era pegado por uma orelha, apertando pouco a pouco, até que era atirado para fora. 

Meio autómato, devido ao sono, e debaixo dos lençóis, trocava as calças do pijama pelas costumeiras para não faltar a santa modéstia,  como mandava o Regulamento.

(Continua)

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 [5] As únicas referências documentais a Francisco Caboz que se conservam no Colégio Angélico, para além das pautas de classificação escolar, são ; a data de entrada, 3/10/46; o número de ordem 1117; a filiação, local de nascimento e a diocese ( «Livro de Matrículas do Colégio Angélico», 1938-1960).

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Cenário 1 [Refeitório] (continuação)

Os encarregados recebiam as cafeteiras, por um balcão fechado, que separava o refeitório dos padres,   dos alunos e da cozinha. 

Começaram a encher as chávenas, sob o olhar vigilante do Prefeito, não fosse algum servir-se duas vezes de «banacau», uma mistura de leite com um pó a saber a cacau.

 Mesmo assim, para mim,  cujo pequeno almoço era geralmente um bocado de pão com o resto do peixe cozido de véspera, sabia bem. Todos eram obrigados a beber, sem pestanejar. 

Olhava para tudo aquilo, meio pasmado, quando um colega me perguntou de que terra era. Eu disse, ingenuamente, que era da Lourinhã. «Da Lourinhã?!...» replicou o outro numa risota. «Então és da Terra dos Parvos!». Num instante, o remoque foi repetido por toda a mesa: «olha, é da Lourinhã!...». 

Eu nem os ouvia, tão absorto estava na observação de tudo. Só despertei, quando o Prefeito bateu as palmas. Como se tivesse tocado a corneta de um batalhão, todos emudeceram e a ordem veio peremptória:

«Os angélicos que chegaram ontem à noite, vão à portaria buscar as malas!»

Na portaria, esperava-me novamente o meu pai que, entretanto, calcorreara o longo e íngreme caminho da véspera, desde a cidade até ao cimo do monte, onde se erguia o Colégio Angélico.

Uma desagradável surpresa nos esperava: a irmã do meu colega foi notificada que seu irmão tinha sido rejeitado, porque tinham recebido informações de que a mãe, viúva recente, se tinha amantizado com outro homem. 

A decepção para todos foi enorme. Passados uns dias, foi mesmo despedido.

Mas, nova provação havia de me bater à porta. Depois das férias do Natal, fui chamado ao Prefeito. Ainda lembrado da rejeição do meu colega e porque quando o meu pai me chamava, ou a professora, era para me castigar, lá fui a tremer e não me enganei. 

Disse-me que me tinha de ir embora,  porque meu pai tinha escrito a avisar que não podia pagar a mensalidade que já era mínima.

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Sem palavras, comecei a chorar. Por essa razão ou por outra,  mandou-me lá ir no dia seguinte. Comunicou-me, então, que uma benfeitora   do Fundão, que nunca cheguei a conhecer, ficaria  minha madrinha e pagaria a mensalidade, ficando  eu com a obrigação de lhe escrever uma carta  a agradecer, no fim de cada trimestre.  

Fiquei aliviado de um peso de toneladas.

É verdade que sentia muitas saudades da família, mas, às escondidas, ia fazendo versos à terra e à minha mãe, num caderninho que guardava religiosamente dos Prefeitos. Ir-me embora, naquela altura, era dar um tremendo desgosto a toda a família, ao meu avô e a todos os que me ajudaram a ir para o Seminário. 

Por isso, agarrei-me àquela tábua de salvação. A minha vontade era corresponder a tanta bondade dos benfeitores, sem olhar a sacrifícios. Sentia-me um eterno devedor.


Cenário 2 [Camarata] (continuação)

Depois, saltava da cama, punha a toalha ao pescoço e ia a correr à casa de banho e ao lavatório lavar a cara e os dentes. Sempre em rigoroso silêncio, que na camarata era ainda mais exigente.  

Os mais apressados já estavam na formatura para a igreja, não sem antes pedirem a bênção ao Prefeito, beijando-lhe a mão. Este, aos que eram da sua predileção, geralmente dispensados de varrer o Colégio, por serem encarregados, nomeados por si, retribuía com um sorriso, ou dizendo umas graças. Aos outros estendia, impassível, a mão para a beijarem.

Dentro do rol dos sacrifícios, havia o duche em água gelada, ao sábado, fosse inverno ou verão, pois não havia em todo o Colégio água aquecida para os angélicos. 

Ninguém podia apresentar-se diante dos outros em roupas interiores.  Os banhos eram devidamente vigiados, em compartimentos fechados, com chuveiro individual e com o tempo controlado, não fosse algum angélico aproveitar o tempo para coisas indecentes.

Outro pecado que não constava da minha lista e que agora era considerado o mais grave, pois acarretava quase sempre imediata expulsão, eram as chamadas «amizades particulares». 

Os Prefeitos andavam sempre à cata dos incautos. Era perigoso ser amigo de alguém, a não ser do Prefeito. Nos meus inocentes 12 e 13 anos andava distraído com os jogos, a que sempre aderia por gosto e nunca fui acusado por isso. 

Porém, alguns meus colegas que não gostavam muito de jogar à pela, bandeiras, andebol ou voleibol, foram bem incomodados. 

Aliás, as restrições à livre circulação eram evidentes: 

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  • era proibido falar com os padres ou irmãos; 
  • era proibido andar apenas dois alunos; 
  • era proibido  sair campo de recreio; 
  • era proibido gozar  a bela  sombra das árvores da mata;
  •  era proibido ir buscar as bolas, quando estas passavam a rede para os castanheiros do fundo; 
  • era proibido ir à camarata ou ao sótão,  durante o dia; 
  • era proibido ficar muito tempo a tomar banho,
  •  e, até se vigiava o tempo que o aluno   demorava na casa de banho.

Cenário 3 [Salão de estudo] 

 
No salão de estudo, enfileiravam-se as cerca de 200 cadeiras individuais, com uma tampa que  levantava, resguardando um compartimento, onde  se colocavam os livros e os cadernos.

 Todos  os  sábados, devia fazer a limpeza à minha carteira,  deixá-la aberta para trás, para que o Prefeito passasse revista.

  Aliás, fui conduzido a este salão  tal como tinha entrado: atrás dos outros

Na minha qualidade de n° 27  que o Prefeito baptizou de Caboz, coube-me uma carteira, onde guardei os  livros emprestados pelo Colégio, alguns já meio desfeitos. Os cadernos eram adquiridos pela   Prefeitura e englobados nas despesas gerais, a enviar trimestralmente aos meus pais.  

No sótão, onde se guardavam as malas, o ritual foi um pouco diferente. Apenas tinha trazido um grande saco que minha mãe retirara do enxoval    e recebi uma mala velha do comum, onde depositei a roupa que trazia.

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Mas a arrumação não ficou por aqui. Deram-me ainda o lugar n° 27 no refeitório, na capela, na camarata e no cacifo aberto do salão de recreio para guardar o calçado e na formatura depois de o  medirem a rigor e ir ao corte de cabelo, segundo as normas do Colégio.

 Sob a jurisdição de um angélico mais velho, o padrinho, aprendi a fazer a cama. Com o inverno à porta, faltavam-me os cobertores e a colcha,  que eram caros.

 A conselho do preceptor, lá me dirigi novamente ao comum, onde me arranjaram um cobertor de papa e uma colcha meio desfiada. Não era suficiente, mas com a roupa de vestir a fazer peso aos pés e um pijama de flanela, lá me fui aguentando. 

Em altas camaratas viradas a sul e a poente, rasgadas por amplas janelas, onde o vento era rei e senhor e sem qualquer conforto, só o Menino Jesus que presidia no meio da camarata ao sonho dos angélicos, ao colo de Santo António, não tinha frio, porque era de pedra!

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Cenário 4 [Sala de aulas] 


As salas de aula,  de inverno, viradas a norte,  eram outro suplício. Desconfortáveis, com pavimento de cimento e sem qualquer aquecimento, largas janelas mal calafetadas e que deixavam entrar o frio e a chuva gélida vinda dos lados da serra da Espinheira. 

Sem agasalhos suficientes, tiritava de frio. Nem a calça de pijama e dois pares de camisolas de interiores que trazia às escondidas, por debaixo da bata castanha, às riscas, que era o uniforme em dias de semana, me valiam. 

E o inesperado aconteceu: numa das aulas , o professor que era ao mesmo tempo de Música e de Matemática, bem nutrido, aliás dos poucos que se dignavam rir para os alunos, mas que, quando se zangava, dava estalos de arrombar a cara ao mais valente, pôs-me em plena aula o epíteto de «engelhado». 

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Foi uma risota para os outros colegas, geralmente mais bem enroupados que eu. 

Um acidente inesperado veio em meu socorro: um colega, ruído de saudades, fugiu do Colégio, de noite, e seguindo pela via férrea, foi desembarcar sozinho e a pé, à estação de Nine, sua terra natal. Por sorte, deixou o sobretudo.

 Estava regulamentado que quem abandonasse o Colégio, não tinha direito ao enxoval, ficando para o comum: desta vez, fui o beneficiado.

 Depois de suplicar humildemente e de apanhar o sermão do costume, sobre o enxoval que devia ter trazido e não trouxe, lá me dispensaram o sobretudo.

Mas não foi tudo. Em lugar dos sapatos pretos do uniforme, tinha trazido apenas dois pares de botas pretas, dadas pelo meu padrinho, sapateiro, que me recomendou que as engraxasse para passarem por sapatos. 

Na revista da quinta feira e domingo era um castigo! Com os alunos alinhados militarmente, eu bem me escondia atrás dos outros, para que o Prefeito não me visse as botas. A princípio, ainda passava, porque as calças encobriam; mas quanto mais crescia, mais se viam as caneleiras das botas. 

Sistematicamente, era rejeitado para o passeio e aos domingos levava uma descompostura, ou o castigo de ficar a varrer o salão.

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(Continua)

Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto:  Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 109-114  (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parêrnteses retos, bold, itálicos, título: LG)


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Nota do editor LG: