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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27695 : História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII: Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos


Lourinhã > Ribamar > c. 1959 > Da esquerda para a direita  os então padres franciscanos (Ofm - Ordem dos Frades Menores)  Horácio Neto Fernandes (1935-2025) e Júlio Alberto Maçarico Fernandes (1934 -  falecido, no Canadá, em data desconhecida)


De acordo com o   "livro da família Maçarico", tanto o Horácio  como o Júlio eram meus parentes: no caso do Horácio,  as nossas bisavós paternas, Maria da Anunciação e Maria Augusta,  nascidas por volta de 1860, eram irmãs;  no caso do Júlio, o  seu avô materno, Manuel Filipe Maçariço, era o primeiro dos cinco irmãos, machos, da Maria da Anunciação e da Maria Augusta.  
Um outro irmão do clã Maçarico foi  José Martinho.



 José Martinho ficou conhecido por Frei José de Cristo (Ribamar, Lourinhã, 1861 - Varatojo, Torres Vedras, 1937). Vestiu o hábito aos 16 anos, em 1888, iniciando assim o Noviciado. Trabalhou e deixou obra artística em vários conventos  (Montariol, Braga; Colégio de Tuy, Galiza; Varatojo, Torres Vedras) como carpinteiro-entalhador, arte que já vinha da famíla. Morreu aos 76 anos, com quase meio século de vida religiosa. Era tio-avô do Júlio, e tio-bisavô do Horácio (e meu...). 

O Júlio foi missionário, OFM, em Moçambique (João Belo, Mavila, Zvala, Maxixe). Regressou à metrópole em 1970. Saiu da ordem, franciscana, nessa altura. Emigrou para o Canadá, lá casou e lá morreu, em data que desconheço.

Fui de resto à missa nova de ambos, em agosto de 1959, com uma semana de intervalo. Eu tinha 12 anos. Lembro-me da terra (casas, ruas...) toda engalanada com ramos de palmeira, eucalipto, flores, numa alegria indescritível. Ainda não havia igreja, na altura Ribamar nem sequer era freguesia. Começava-se a ganhar bom dinheiro com a pesca da lagosta. E os filhos da terra deixaram de ir para o Varatojo, começavam a estudar no Externato Dom Lourenço, na sede do concelho, Lourinhã, inaugurado em 1958.

Há um quarto Maçarico, o João Maria Maçarico, nascido em 1937, que também estudou nos Franciscanos (Montariol, Varatojo, Leiria, Luz). Não chegou a ser ordenado padre. Frequentou o 4º ano de teologia. Formou-se depois em Economia e Finanças. Foi técnico superior na Portugal Telecom. Fez uma comissão de serviço em Moçambique, como alferes miliciano (1966/67). Era primo direito do Júlio Fernandes, do lado paterno, neto de Manuel Filipe Maçarico.


Ribamar da Lourinhã era uma terra vizinha de Varatojo, sofrendo portanto a sua influência. A restauração da Província Portuguesa da Ordem Franciscana ou dos Frades Menores (OFM) oficializou-se no final de 1891, após a extinção das ordens religiosas em 1834. Embora tenham sido expulsos, os franciscanos organizaram o seu regresso progressivo, celebrando o 1.º centenário desta restauração em 1991. Mas em 1888 o "Maçario" José Martinho já era noviço no Varatojo.

A família Maçarico tinha tradição na arte da construção naval e da capintaria. (LG)

Fonte: Américo Teodoro Maçarico Moreira Remédio (1943-2024)- Vila de Ribamar e as famílias mais antigas: Família Maçarico: Árvore genealógica: 500 anos de história. Ribamar, Lourinhã: ed. autor, 2002,  pag.123.

PS - Américo Maçarico (foto à direita, acima),     que era 1º ten ref da Armada, morreu  aos 80 anos, em Ribamar, em finais de 2024.  Nasceu em Ribamar, em 1943. Fez diversas comissões no ultramar:   Angola (1964/66), Moçambique (1967/69), Timor (1972/74).Tinha mais de 41 anos de serviço na Armada. Passou à reserva em 1999.


1. Estamos a reproduzir excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do Horácio Fernandes, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG ( 1967/69). 

No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constitui família.

Nos  seis postes anteriores  já publicados(*), ele fala-nos, 
sucintamente, de:

(i)  a sua terra natal,  "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram: o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno (nascido por volta de 1875/80, o sacristão da freguesia o Ti João das Velas de Santa Bárbara);

(ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa  decisão;

(iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra, Ribamar, Lourinhã), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigora o panoptismo;

(iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos Prefeitos;

(v) o 6º ano, quando passa a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras);

(vi) segue-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela) e depois de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em 1959).

(vii) até ser mobilizado para a Guiné, em 1967, ele conta-nos, muito sucintamente, o que foi a sua vida. 


2. É uma história de vida que merece ser conhecida dos nossos leitores. Testemunho de uma época. Autópsia de uma "total institution" que eram os ainda os seminários das ordens regulares, e nomeadamente da Ordem dos Frades Menores (OFM): Montariol / Braga, Varatojo / Torers Vedras, Leiria, Carnide / Lisboa...

O Horácio nasceu em 1935. Em 1945/46, completou a 4ª classe e seguiu para o seminário menor dos franciscanos (o colégio seráfico, a que ele chama angélico), em Montariol, Braga. 

Até ser ordenado padre,  passará por Varatojo / Torres Vedras, Leiria e Carnide / Lisboa, completando 13 anos de estudo e formação em regime de disciplina apertada.

O Horácio Fernandes seria ordenado padre,  ainda antes de completar os 24 anos.  Lembro-me de ter ido à sua Missa Nova, em 15 de agosto de 1959, na sua terra, Ribamar, Lourinhã. 

É um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e  Estado Novo (1926-1974).

14 anos depois, ele publicaria o seu livro de memórias "Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.) (Vd. foto capa à direita.)

nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes faleceu, recentemente, em novembro de 2025, aos 90 anos.


Foi depois alferes graduado capelão, em rendição individual, no BART 1913 (Catió, setembro de 1967 - maio de 1969) e no BCAÇ 2852 (Bambadinca, no 2º semestre de 1969). Chegaria ao CTIG com 32 anos, regressaria com 34.

Andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972, antes de completar os 37 anos. 

Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha. 

Reencontrei-o por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro.  




História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VII:   Ordenação, Missa Nova, professor de externato, capelão de freiras e servidor de famílias ricas na Comporta aos domingos

por Horácio Fernandes


4. 5. Ordenação e Missa Nova (12)

Seis meses antes, juntamente com mais 4  colegas, entre eles o meu primo (13), comecei a aprender as cerimónias da Missa, com a ajuda de um Mestre  de Cerimónias. 

Não cabia em mim de contente. Ia  ser a minha verdadeira entronização em Arribas do Mar [lRibamar, Lourinhã], perante os olhares atónitos daquela gente. 

A cerimónia na Sé Catedral de Lisboa, com  a assistência dos meus pais e de muita gente de  Arribas do Mar, foi o primeiro passo de uma corrida  alucinante, que ia durar todo o mês de agosto de  1959. 

Depois, foi a primeira missa no convento [na Luz, Carnide, Lisboa], com  os recém-ordenados. Todos queriam participar e  beijar-me as mãos, ainda recém-ungidas e sentia-me  importante. 

De casa recebia cartas a revelar-me todos os  preparativos da grande festa. O meu primo  [Júlio Fernandes],celebraria num domingo e eu no seguinte. Uma  festa não ensombrava a outra. A minha festa, asseguravam-me, era mais de todo o povo.

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A Missa Nova, na minha terra, foi além de todas as expectativas. A cerca de um quilómetro de distância, foi toda a população esperar-me com foguetes e procissão a preceito. 

Estavam presentes as autoridades da terra e o meu padrinho de Missa Nova foi o Presidente da Câmara [João Ferreira da Costa, presidente da edilidade, entre 1958 e 1970].    

A missa foi cantada, pelos meus colegas que vieram acompanhar-me. O significado foi maior, porque foi no local da futura igreja, com toda a solenidade. A minha família era cumprimentada por todos e recebeu também as honrarias. Eu nem sabia para onde me havia de voltar, com tanta gente a querer beijar-me a mão de recém-sacerdote.

Seguiu-se o almoço para dezenas de convidados, no recinto, à frente da minha casa toda engalanada e servido pelas pessoas da terra. As despesas foram todas cobertas com ofertas do povo de Arribas do Mar. 

Não me enganara. O povo aderiu entusiasticamente. Tudo se conjugou, portanto, para ser uma festa de arromba. Dormi essa noite em casa dos meus pais, mas ao outro dia vieram buscar-me. 

Regressava agora ao quotidiano do ser padre.

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Nota do autor:

(12) Missa Nova era a primeira missa do Presbítero, depois da Ordenação Esta designação estendia-se, contudo, a outras missas celebradas solenemente em vários locais para onde estivesse convidado

Nota do editor LG

(13)  Falhou esta nota de riodapé. O primeiro era o Júlio Alberto Maçario Fernandes, que seria missionártio OFM em Moçambique, até 1970.

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4. 5. Depois de 13 anos de inculcação do 'habitus' sacerdotal, Francisco com 23 anos feitos já não era o jovem tímido de fato preto e chapéu na cabeça, mas sentia segurança da própria legitimação.

Francisco assumia que foi escolhido e  ungido para sempre (Tu es sacerdos in aeternumentre 47 companheiros e detinha o poder simbólico de administrador do sagrado: perdoar pecados, fazer filhos de Deus pelo baptismo, celebrar a Eucaristia, pregar a palavra de Deus.

Tinham-lhe inculcado que a sua presença era requerida pelos pobres pagãos, que lá longe, em África, pediam, suplicantes, a graça do baptismo para poderem ir para o céu. Sem pensar em compensações terrenas, havia de ser querido pelos fiéis e combatido pelos infiéis, por ser o representante da Santa Igreja «a Nossa Mãe".

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As representações de criança transformaram-se em realidade e não obstante o duro caminho que teve de encetar,  sentia-se recompensado.

À medida que se aproximava o momento da Ordenação, Francisco sentia todo o protogonismo de quem tinha sido vencedor. Tinha conseguido ser o herói não só do seu avô, como dos devotos que tinham confiado nele.

Afinal era a mesma geração que o viu ir para o Seminário, agora mais amadurecida e com mais dinheiro. O povo de Arribas do Mar, culturalmente, mantinha ainda a subordinação ao sagrado, embora estivesse a dar os primeiros passos na senda do progresso económico. O motor substiuira a vela e os barcos de maior calado ganharam outra autonomia. Com a descoberta de novos bancos de pesca e equipados de novas tecnologias, as estadias de 8 e 15 dias em Sesimbra, Cascais, Setúbal e Algarve, abriram brechas no seu ruralismo fechado.

Francisco, alheado dos problemas sociais e vestido do seu duplo hábito, apenas via o povo cristão que era preciso alimentar da palavra de Deus. As suas representações do ser padre e missionário estavam ainda intactas. Afinal, pensava, tinha valido a pena tantos sacrifícios

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5.  Missão

A lógica da instituição era geralmente encaminhar os padres mais novos para os Colégios, os tidos como mais «observantes» (14)  para Mestres de noviços e coristas, e os restantes para as Missões. Para Prefeitos de Disciplina eram escolhidos os maiores domesticadores, sem qualquer formação em Pedagogia. Desta normalidade, ficavam de fora os favoritos na instituição, que, ou por mérito próprio, ou com algum patrocínio,tinha acesso aos saberes da Igreja, numa Universidade transnacional, trampolim mais directo para o poder.

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Nota do autor:

(14) Que, no discurso simbólico, significa, mais conformados com o 'habitus'.

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Francisco, pautado pela normalidade, nunca questionou as tarefas que lhe destinavam os Superiores. Construira, contudo, a par das suas representações simbólicas, o desejo de ajudar a família. O 'habitus', contrariamente ao estatuído, não tinha desenraizado Francisco da primeira instância de socialização. O sangue falava mais alto que o 'habitus'.

Verdadeiramente, Francisco nunca interiorizou que tinha deixado a sua família, e tinha se integrado na família institucional, onde foi domesticado. Nunca lhe deram o afecto e o carinho de uma família. Os superiores não eram os pais. Eram os chefes. A casa não era dele, por mais que no Noviciado e Coristado lhe tentassem meter isso na cabeça. Aí comia e dormia e passava a maior parte do tempo, mas isso não bastava para a considerar sua casa. Nunca encontrou aí um espaço familiar, mas um lugar em que alguém mandava e obrigava a cumprir os Regulamentos e os outros obedeciam, ou procuravam refúgio em famílias amigas.

 O poder sacralizado dos Superiores, envolto em cenários simbólicos de investidura medieval, nunca foram interiorizados por Francisco. A família religiosa, eclesial, nunca substituiu a geneológica. Desde que o desenraizaram das suas raizes familiares, viveu sempre órfão, agarrado às suas representações.

A missão trazia ainda o inevitável contacto com os problemas afectivos da vida real, que tão zelosamente tinham sido escondidos no Colégio Angélico,  Noviciado e Coristado. Os maiores clientes habituais de Francisco eram do sexo feminino, que procuravam na relação espiritual o alívio catársico e simbólico para as suas preocupações e angústias.

Contudo, o 'habitus', estava ainda vigilante qual Prefeito, embora imperceptivelmente fosse abalando as estrumas panópticas ab intra e ab extra.

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Cenário 1 - Professor no Externato,   Capelão de freiras nos dias úteis e servidor   de famílias ricas aos domingos.

O lugar que os Superiores me   destinaram, sem o mínimo de interferência da   minha parte, foi o de professor no Externato,  que funcionava no rés-do-chão do Seminário [em Leiria]

Fui incumbido de dar aulas de Ciências   da Natureza, disciplina em que tinha que estudar   mais que os alunos. Contudo, à força de   persistentes apelos à memória, os meus   alunos não fizeram má figura no liceu.  

Nos dias de semana, o despertar era às  7 horas e ia celebrar missa a um Colégio de  freiras. Ao domingo, levantava-me ainda mais  cedo, pois havia que celebrar missa para os  lados de Setúbal, numa quinta de pessoas muito importantes no meio financeiro (14A),.

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Sempre com a veste regulamentar e sandálias nos pés descalços, fosse inverno ou verão, apanhava o eléctrico até à Baixa, descia a pé até ao Terreiro do Paço e aí tomava o barco para Cacilhas. Depois era a camioneta para uma vila próximo de Setúbal  onde um empregado da quinta me esperava numa furgoneta de caixa aberta.

Cheio de entusiasmo fazia todos os domingos, e dias santos este percurso para; celebrar missa para meia dúzia de criados. Os patrões, a quem estavam reservados genuflexórios de veludo, só assistiam à missa, nas festas principais do ano, mas, assim, ficavam com a consciência tranquila.

No Natal e Páscoa pedia licença para ir um ou dois dias antes, pernoitando numa casa anexa dos hóspedes. Aproveitava para ensaiar cânticos com o pessoal da quinta. 

Numa festa de Natal fiquei muito admirado, porque pedi a uma filha dos senhores para acompanhar os cânticos ao órgão da capela e recebi, como resposta, que não acompanhava os criados.

Conservo, contudo, outras recordações: futuros pretendentes aos tronos europeus e embaixadores participavam nas recepções. Só foi uma vez convidado a estar presente e, não obstante a amabilidade de todos, senti-se usado como um adereço desnecessário.

Ao fim do mês era portador de um cheque para o Seminário, não sei de quanto; porque nunca abri o envelope. Por vezes, aparecia péla quinta um capelão militar, amigo do filho dos senhores, que cumpria o serviço militar, mas não me ligava. Alinhava com o filho do patrão a transpor obstáculos de terra batida, em jeito de diversão, onde os carros novos saiam todos amachucados. Conservo, sim, na memória, um ou outro  passeio, nas alamedas da quinta, de charrete,  com o filho do caseiro, a meu pedido.  

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Entretanto um pensamento me  perseguia: ajudar a minha família endividada. A primeira coisa que fiz, foi pedir uma entrevista ao Provedor  Misericórdia de Lisboa. Expus-lhe a minha   situação e consegui uma bolsa de estudo para a minha irmã, que tinha com grande sacrifício   de meus pais tirado o 2º ano e queria ser enfermeira. 

Entretanto, a mais nova, também   quis estudar. Como os meus pais não podiam  custear os estudos, arranjei uma família algarvia, sem filhos, que a recebeu. Pode assim estudar o 1 ° e 2o anos, sem nada pagar.  

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Nota do editor LG:

(14A) No livro de 2009, o Horácio Fernandes diz que se tratava da Herdade da Comporta.
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Cenário 2 -Prefeito de Disciplina no Colégio Angélico

 Entretanto, abriu outro Colégio Angélico na região Centro para captar novas vocações. Sob pressão das instâncias internacionais da Igreja (...),  os alunos passaram a fazer exame ao liceu, em regime de  ensino doméstico. Registei o meu Diploma do Ensino Natureza Particular no Liceu Nacional da cidade   [Leiria] e fui assumir o cargo de Prefeito aos 26 anos, tendo como Subprefeito um colega mais novo.

 No mesmo edifício havia ainda um asilo, onde era Director também um colega. Quando me nomearam,sem me consultar, tomei conhecimento que o Colégio  tinha um ano de experiência liceal, mas sem resultados satisfatórios, sobretudo a Ciências e Matemática. Era preciso reabilitar a sua imagem.

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O primeiro contacto com Colégio Angélico ficou-me bem marcado na memória. Comecei a receber umas cartas dirigidas ao «Senhor Padre Prefeito» e abri-as. Era a correspondência dos alunos para o meu antecessor. 

Abri uma ou duas e fiquei boquiaberto: os alunos, na sua inocência falavam de momentos de intimidade, que me deixaram estupefacto. Aconselhei-me com o colega e. a partir daí, todas as cartas dirigidas ao ex-Prefeito eram queimadas, sem as abrir.

Estava-se em 1962 e tinha 26 anos, Tomei a peito a tarefa, mas não descurei a promoção social e material da minha família. Trouxe para essa cidade a minha irmã mais nova, para prosseguir a Escola Comercial. Dormia em casa de uma senhora amiga, mas preparava as lições e almoçava no Colégio Angélico.

Era preciso mostrar resultados no liceu, a qualquer custo. Aceitei o desafio e obrigava os alunos a multiplicarem as horas de estudo. 

Os métodos para conseguir manter cerca de 100 alunos em silêncio e a estudar, horas a fio, num largo salão, eram os mesmos com que tinha sido formado: disciplinação a todo o custo. 

Assumi o papel de Prefeito e os métodos que sempre vira praticar. Afinal os Regulamentos eram os mesmos: o ritual da formatura, do silêncio, da domesticação do corpo e espírito. 

Por feitio próprio, não me isolava dos alunos e jogava a bola com eles. Contudo, o Prefeito era o guardião da disciplinação e os castigos dependiam unicamente da representação que ele fazia do delito e tinha sempre razão.

A Ciências já vinha treinado do Externato, mas a Matemática tinha grandes dificuldades. Assumi o desafio de a reaprender e obtive óptimos resultados no liceu, à custa da repetição e mecanização dos exercícios do Palma Fernandes.

Mesmo assim, era um pouco diferente do Colégio Angélico, onde estudara os primeiros cinco anos [em Montariol, Braga]. Os tempos era outros. Os alunos tinham mais contactos com as famílias. Iam a férias do Natal, Páscoa e fim do ano lectivo e podiam receber visitas eisair com familiares, ao fim de semana. Eram quase todos filhos de emigrantes.

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Esta preocupação pela minha fámília, levou a que muitas vezes deixasse o Colégio ao fim da tarde, em conluio com o meu colega,  e fosse visitar os meus pais, de camioneta, a cerca de 130 quilómetros.

Anexo ao Colégio, havia o Seminário de Filosofia. Estava-se nos anos 60 e os Coristas com quem ia por vezes jogar futebol, andavam em autêntica revolução. De noite, tiravam o hábito e iam às escondidas para o cinema da cidade. Tinham um jornal clandestino, 'O Esgravilhão', onde criticavam os Mestres e as normas. Faziam piqueniques com produtos furtados ao Seminário, à noite, durante o silêncio e ninguém conseguia contê-los. 

Iniciara-se a assim a revolta que iria continuar pelos anos 60 e multiplicar as deserções (...).

Como Prefeito do Colégio Angélico, estava relacionado com as famílias dos alunos, com os clientes do Seminário e com o pessoal feminino que trabalhava para o asilo e o Colégio. Era o primeiro contacto informal, mas assumido, com o sexo feminino, depois da repressão de 13 anos.

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Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 124 -128 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, bold, itálicos, título: LG)

(Continua)

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Nota do editor LG:

Último poste ds série > 27 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27676: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte VI: Corista de filosofia e teologia e depois padre
 
Vd. postes anteriores: 




Guiné 61/74 - P27694: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (14): ainda o caso do pide e do guerrilheiro, em Léua, leste de Angola


Guiné > Região do Cacheu > Barro > CCAÇ 3 > 1968> Um "suspeito" do PAIGC... "Turra" não era "prisioneiro de guerra", à luz do entendimento das autoridades político-militares do território...

Foto (e legenda): © A. Marques Lopes (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72;

(ii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;

(iii) tem  já 130 de referências, no nosso blogue; 
(iv) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; 

(iv) é professor de educação física, reformado;

(v) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; 


(viii) é autor do livro  "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (14):   ainda o caso do pide e do guerrilheiro, em Léua, no Leste de Angola

por Jaime Silva

 
Mensagem do Jaime Silva:

Data - 27 jan 26  , 12:51
Assunto - Léua, interrogatório do PIDE e o mutismo do guerrilheiro

Caro Luís, a propósito do meu testemunho e da tua experiência de guerra na Guiné, escreves que “ Se calhar há mais pormenores que omitiste neste texto. (*)

Não omiti nada, desta vez, e foi assim que se passou:

Nota importante:
 
Ao nível da informação, tudo se passou entre o meu comandante, o comando da FA (Força Aérea) e o comando de Operações do Região Militar Leste (RML) , sediado no  Luso  – eu não pertencia a este patamar de decisão– , só vi, ouvi e participei no contexto operacional que já relatei:

Sintetizando:

(i)  o Comandante da  1ª CCP / BCP 21 recebeu, em Léua, um rádio do comando da RML ordenando para destacar um grupo de combate para fazer um heliassalto, na sequência da informação de um guerrilheiro que tinha sido capturado (como e onde, não sei);

(ii) para o efeito foi destacado o meu pelotão;

(iii) entre esta informação e a chegada dos helis, só houve  tempo de preparar o pessoal e deslocar o pelotão para a zona de embarque;

(iv) logo que aterraram, saíram dos helis, o Pide, o guerrilheiro e o comandante da FA;

(v) este solicitou um espaço reservado para que o Pide pudesse  interrogar o guerrilheiro, sendo-lhe indicado o quintal que ficava nas traseiras da casa que servia de messe aos oficiais paraquedistas;

(vi) desconheço se entre os dois comandantes houve alguma reunião confidencial ou se eles tinham mais informações sobre a situação, nomeadamente, por que razão o Pide teve de vir, ainda para Léua, interrogar o prisioneiro e o não fez no Luso.

Depois, e como relatei:

(vii) o Pide  não se despachava, o tempo escasseava para que os helis pudessem  realizar a operação e, por isso,  sou incumbido de interrogar e alertar o Pide para esse  facto;

(viii) em resultado da incompetência do Pide e da coragem do guerrilheiro desmontou-se a tenda: o meu pelotão foi desmobilizado, os helicópteros com o Pide e o guerrilheiro regressaram ao Luso.

O que aconteceu ao guerrilheiro? Não faço a mínima ideia.

O que fazia eu quando capturávamos algum guerrilheiro ou elementos população?

Não tenho a tua experiência, mas a minha rotina, nesta circunstância era:

a) após o final da operação entregava-o  ao comandante da operação e este despachava-o para o Comando da respetiva Região Militar que, seguramente, o entregava à PIDE/DGS – quase sempre presente em cada operação;

b) o meu pelotão capturou, pelo menos, três ou quatro uerrilheiros; capturámos, ainda, por duas vezes, algumas mulheres.

O procedimento foi sempre o mesmo.

Tenho a consciência descansada, quanto a isto: nunca matámos ou tratámos mal, nem homens ou mulheres.

Caro Luís,

Foram estes os acontecimentos vividos e, nesta circunstância particular em Léua, relato-os com todo o rigor e verdade. 

Eu não esqueci! 

Abraço
Jaime

Lourinhã, Seixal, 27.01. 2026  


2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Jaime. Como sempre, lúcido e corajoso.  Temos, todos (as tropas especiais incluídas: páras, fuzileiros, comandos) um certo pudor em  falar  do "back office", das "traseiras", dos "quintais" da guerra, dos prisioneiros, dos interrogatórios, da colaboração com os Pides, etc. Há o lado "sujo" e "animal",  e o lado "nobre" e "heróico" da guerra...

O "pudor" (ou a cultura do silêncio castrense) faz parte do 'habitus' do combatente: podíamos aprender uns com os outros (o que correu bem? o que correu mal?), mas, não, regressávamos à base ou ao aquartelmento, tomávamos um banho, bebíamos uma cerveja ou um uísque com gelo, descansávamos o corpo, jogávamos ao king ou à lerpa, e preparávamo-nos para a próxima (operação)...

Guiné 61/74 - P27693: Notas de leitura (1892): "Náufragos do Império", por Albano Dias Costa, Prémio Literário Antigos Combatentes 2025, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Setembro de 2025

Queridos amigos,
Albano Dias da Costa é autor de um livro intitulado Os Celeiros da Guiné, de que em tempo se fez aqui a recensão. Recentemente, aludiu-se ao primeiro prémio literário de 2022 Antigos Combatentes, o seu livro Vida e Morte na Grande Bolanha do Rio Mansoa. Chegou agora a vez de referir o seu primeiro prémio literário de 2023, com o título "Náufragos do Império". É uma obra de carácter didático-pedagógico, é imaginada uma família Cardoso que participou em guerras que travámos deste Naulila, em 1914, até aos três teatros africanos, com realce para a Guiné onde Albano Dias da Costa combateu entre 1963 e 1965. Todos esses embates são passados em Angola, Moçambique, na I Guerra Mundial, há um Cardoso na Guerra Civil de Espanha e prisioneiro em Dachau, há um prisioneiro em Timor, há um prisioneiro após a invasão da União Indiana, membros da família Cardoso combateram em Angola, Guiné e Moçambique. É numa tirada inicial, no convívio anual da Companhia de Carlos Cardoso que o Coronel Calado, que fora o Comandante da Companhia, tece considerações amargas sobre as condições dos antigos combatentes. Para o autor, será a língua portuguesa o elemento mais aglutinador da irmandade que Portugal estabelecerá com as antigas parcelas do seu antigo Império.

Um abraço do
Mário



As guerras que travámos no Império, por longas décadas, agora em prosa narrativa

Mário Beja Santos

A obra intitula-se Náufragos do Império, o vencedor do Primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes foi de novo Albano Dias Costa. O autor parte de uma ideia tentadora, a que já se abalançaram, com fronteiras mais confinadas, escritores como João de Melo e João Céu e Silva, estes encontraram enredos em que os seus personagens percorrem, ao longo da trama, todos os teatros de guerra africanos entre 1961 e 1975. Albano Dias da Costa dilata o campo de ação. Há o ex-alferes miliciano Carlos Cardoso que parte para um convívio anual da sua companhia, descreve um convívio como aqueles em que nós participamos, aparecem filhos e netos e há cada vez mais desaparecidos. Conversa com outro oficial sobre a condição dos ex-combatentes, as críticas são duríssimas, o interlocutor do ex-alferes, o coronel Calado, tem mesmo um espírito bem funério sobre o nosso tempo:
“Eis-nos a padecer o esboroar da certeza adquirida da paz e da prosperidade económica; a ameaça da perda da coesão social e da insegurança nos espaços públicos; a trituração dos seres humanos pela crise financeira, económica, social e política a todos submergirá como onda imparável sem deixar ninguém a salvo; o confisco do pequeno património de cada um e das suas exíguas economias por impostos incomportáveis; a fatalidade da emigração dos nossos filhos, aos milhares, como na geração anterior, a da Guerra Colonial, nos anos 60, mas agora com um diploma universitário em vez da ‘mala de cartão’; a insegurança dos empregos com salários no limiar da sobrevivência e sem garantias de estabilidade; a angústia do desemprego dos nossos filhos com a deslocalização das suas fábricas para a Ásia, sobrevivendo de biscates, de subsídios do Estado e da venda do que têm à mão, tendo os pais de continuar a alimentá-los com as suas escassas reformas…”.

O ex-alferes regressa a Lisboa e vai visitar a sua mãe, fazia nesse dia noventa anos.
Acomodado no sofá, terminado o almoço, viu numa mesinha um álbum, já muito desbotado. Uma tia tinha nele arrumado as fotografias que os irmãos lhe foram enviando, de 1914 a 1945, e nesse mesmo álbum havia fotografias dos seus sobrinhos, tiradas entre 1971 e 1974. Ao lado, repousava uma velha caixa repleta de cartas, postais e papéis com apontamentos enviados pelos combatentes. Esta tia, sentindo a proximidade da morte, entregou estes testemunhos à mãe de Carlos Cardoso. Nessa noite, Carlos começou a folhear o conteúdo do álbum. É deste modo que vamos conhecer as vivências destes náufragos do Império, seus familiares.

O tio Fernando em Naulila, no sul de Angola, 1914. Ainda não estávamos em guerra com a Alemanha, mas uma reduzida força alemã chegou ao Forte de Naulila para esclarecimento das circunstâncias porque entrara naquela colónia portuguesa, vinda do Sudoeste Africano; ocorreu um incidente trágico em que resultou a morte de dois oficiais alemães e na sequência deste incidente os alemães atacaram Naulila, devastando-a. Fernando Cardoso estava ferido e foi tratado por um médico alemão, regressou a Portugal em agosto de 1917.

Escreve o autor: “Naulila, uma batalha esquecida no fim do mundo, travada por uma tropa mal preparada, mal-armada, enquadrada por milicianos inexperientes, bode expiatório da incompetência dos políticos, foi o pronúncio do fim do Império: outras Naulilas se seguiriam, ao longo de sessenta anos.”

Havia no álbum fotografias do tio Alberto, que combatera em Moçambique. “Em Moçambique, morriam mais homens do que na Flandres, não pelas balas inimigas, mas pela sede, pela fome, pela exaustão física e, acima de tudo, pelas doenças.” Este tio Alberto na sua última carta, datada de 1917, referia-se a uma missão atribuída à sua Unidade, sob o comando do coronel Massano de Amorim, para ocupar Kionga, na foz do Rio Rovuma, no extremo norte de Moçambique. Nada mais se soube dele, um missionário escrevera que os mortos eram enterrados em qualquer lado.

Há também fotografias do tio Joaquim, soldado na Grande Guerra. Mandara postais ilustrados a partir de Brest. O regimento de Joaquim viveu a madrugada do dia 9 de abril de 1918 em La Lys, batalha em que o Corpo Expedicionário Português contou com mais de 7500 baixas, entre mortos, feridos e prisioneiros. Joaquim foi aprisionado pelos alemães, regressou do cativeiro em 1921.

Carlos Cardoso folheia agora fotografias do tio José, que combateu ao lado dos republicanos na Guerra Civil de Espanha, escapou por milagre de ser fuzilado, fugiu para França, foi colocado no campo de concentração de Dachau, escapou às câmaras de gás, terminada a guerra, depois de novas peripécias chegou a Portugal, aqui morreu.

O tio Manuel foi mobilizado em 1940 para Timor, viveu a invasão japonesa em 19 de fevereiro de 1942. Manuel escreveu uma carta falando da repressão brutal dos japoneses.
Numa tarde chuvosa e fria de novembro, Manuel apareceu em casa, extremamente debilitado pelos anos de cativeiro.

O álbum tinha agora as fotografias daqueles que representavam a geração dos combatentes da Guerra Colonial. João, o filho do tio José, embarcou para o Oriente, nos princípios de 1960, já nessa altura se temia a anexação das parcelas do Estado da Índia pela União Indiana. A ocupação ocorreu em 18 de dezembro de 1961. João foi prisioneiro de guerra, metido no Campo de Pandá. Regressou a Portugal em condições muito constrangedoras, quando desembarcou foi enviado diretamente para a sua Unidade mobilizadora, Vila Real, só passou à disponibilidade em princípios de 1963.

Temos agora a história de Pedro, o filho mais velho do tio Manuel, foi mobilizado para Angola, a sua Companhia foi transferida para a Fazenda de Cacuaco. Se a atividade operacional corria de feição até março de 1968, tudo se veio alterar quando a Zâmbia permitiu que Agostinho Neto instalasse as bases dentro das suas fronteiras, seguir-se-ão violentos combates entre o MPLA e as forças portuguesas, os guerrilheiros foram obrigados a recuar. A parte final da sua Comissão foi passada em Naulila. Pedro regressou a Portugal e a funcionário público.

Rui, o segundo filho do tio Manuel, partiu a Moçambique como capitão miliciano, colocado em Mueda, acompanhou todos os acontecimentos até ao final da guerra, quando se preparava para tomar o avião que o ia levar a casa o jipe que o transportava calcou uma mina, Rui Cardoso teve morte imediata.

Carlos Cardoso assistiu às cerimónias da morte da tia Maria. Mais tarde, regressou à Guiné, fala-se sumariamente da história desta colónia, da sua atividade operacional numa região perto de Bula, Binar e Mansoa, recordou um desastre ocorrido com a jangada de João Landim, vemo-lo de volta a Lisboa, rememora a diferentes vicissitudes por que sofreram os seus familiares, resta-lhe agora a esperança de que a língua portuguesa continue a irmanar os antigos territórios ultramarinos na CPLP, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

E assim termina a narrativa da família Cardoso que combateu em diferentes parcelas do Império ao longo de todas as guerras, são estes os náufragos do Império que deixam os portugueses de hoje praticamente indiferentes.

Albano Dias da Costa recebendo o Primeiro Prémio Literário Antigos Combatentes das mãos do Ministro da Defesa
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Nota do editor

Último post da série de 1 de fevereiro de 2026 > iné 61/74 - P27691: Notas de leitura (1891): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte VII: O "monge-guerreiro", Abel Matias, major graduado 'cmd' capelão, ref, esteve em Angola, de 1965 a 1971

Guiné 61/74 - P27692: Humor de caserna (237): Ai, Jesus, que isto é pornografia!... Será ? O que dizem as meninas da IA (uma americana) e outra europeia, sobre o "conto" do Zé Ferreira, "Concursos polémicos na rádio 'No Tera', de Cabuca" - Parte I



Ilustração para o "conto" da dupla Zé Ferreira / Ricardo Figueiredo, "Concursos polémicos na rádio 'No Tera', de Cabuca" (*)... Várias ferramentas de IA "recusaram-se" a fazer-me um "boneco", um "cartoon", para este poste... Num caso  fiz três tentativas: "Ai, não, Jesus, que isto é nudez explícita e viola as minhas regras"... 

Este é o "boneco" mais "inocente" que consegui sacar ao "ChatOn"...
(uma nova ferramenta de IA, que eu nem conhecia).


São uma delícia, estas meninas da IA que começam por te tratar por "você"...  Eu pedi-lhe:  "E podes fazer-me um  'boneco', um cartoon, uma tira de banda desenhada com esta história, desde que não haja nudez explícita ? É para publicar no meu blogue de antigos combatentes da guerra colonial portuguesa (1961/74), tudo rapaziada com mais de 18 anos,  e que gosta do humor de caserna... Diz-me depois como te citar".

Resposta da menina:  "Aqui está o cartoon baseado na história que tu compartilhaste! Ele captura o humor de caserna sem nudez explícita, mantendo o espírito leve e divertido. Podes citar-me da seguinte forma: 'Cartoon criado por uma assistente de IA, com base em uma narrativa de José Ferreira, adaptada para humor militar' " (...)




Os "bandalhos" Ricardo Figueiredo e José Ferreira da Silva

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



1. Alguns leitores mais sensíveis (ou mais "educados")  poderão ter "reservas" em relação à linguagem usada por alguns de nós, em séries como o "Humor de caserna", a começar pelo "bandalho" do José Ferreira da Silva, escritor já com 3 livros publicados sobre as suas "memórias boas da guerra"...

Será que a linguagem que ele usa é inapropriada, para o nosso blogue, obscena ou até mesmo pornográfica, violando desse modo as nossas próprias regras editoriais bem como as do nosso servidor, o Blogger? Pode ser o caso do poste P27690 (*).

Eu acho que não, mas sou suspeito. Numa série como esta, "Humor de caserna", é impossível de todo não usar a linguagem...de caserna. Afinal, somos todos antigos combatentes, maiores de 18 anos, respeitáveis pais de filhos e avós de netos, sem registo criminal, com louvores, cruzes de guerra, etc... E, mais importante, gostamos à brava de rir e fazer rir... que é coisa que náo se pode fazer no céu.

Para evitar chocar os "meninos de coro", os papás, as avózinhas, os censores que há em todos nós, e sobretudo os algoritimos das redes sociais que andam à caça de palavrões explícitos, etc., há muito que optámos, os editores do blogue, pelo "eufemismo gráfico": não escrevemos a palavra "merda" (que é desagradável, cheira mal) mas sim "m*rda".

Essa técnica de substituir letras de uma palavra "proibida" ou ofensiva por símbolos (geralmente asteriscos, sublinhados ou pontos) chama-se, em inglês, grawlix (num contexto mais visual ou da BD - Banda Desenhada). De forma mais técnica e literária, há quem lhe chame também elipse de censura ou eufemismo tipográfico.

O grawlix originalmente vem do mundo da banda desenhada, refere-se ao uso de símbolos tipográficos (@#$%&!) para representar insultos sem os escrever explicitamente.
 
O uso de apenas um asterisco é uma versão "suave", a lógica é a mesma. O asterisco (*) esteticamente é mais elegente do que outros símbolos tipográficos....

No mundo da edição e da informática, chama-se masking (máscara de caracteres) . É uma forma de ocultar parte da informação sensível para que o leitor reconheça a palavra pelo contexto, mas a "ofensa" visual seja mitigada. 

Na linguística clássica, quando se omite parte de uma palavra ou frase, chamamos a isso elipse. Quando se substitui por algo menos ofensivo, é um eufemismo. É o caso do título do nosso poste, a opção é do editor (*). 

Talvez o termo mais prático seja  autocensura ou eufemismo gráfico . Quando um autor quer manter o impacto da palavra forte (o "shock value") para vender o seu  livro, e ao mesmo tempo evitar que o algoritmo das lojas ou a sensibilidade dos livreiros barrem a obra, usa a autocensura.

Recentemente, houve uma explosão desta técnica no mercado editorial (como caso do famoso A Arte Subtil de Saber Dizer Que se F*da). Em boa verdade, já ninguém se choca quando vê um título destes na montra de uma livraria (das poucas que ainda vão havendo na cidade...). 

Os motivos são estratégicos. Além de contornar a censura, o asterisco cria uma espécie de "clique" mental no leitor, que preenche a lacuna automaticamente, tornando o título mais interativo, memorável e...lucrativo.

De qualquer modo, acredito que algumas pessoas, até por educação mas também pelo género, não gostam de dizer nem de ouvir palavrões. 

A minha saudosa cunhada Nita (1947-2023), que era nortenha, nunca diza "f*da-se", mas "vai-te, Afonso". À minha mãezinha  nunca lhe ouvi dizer uma asneira (nem ao meu pai). Às vezes queixava-se que a filha mais nova (com quase menos 18 anos do que eu) vinha do Norte a dizer "alhos & bogalhos"... ou "Torres" (p*orra).


2. Pelo sim, pelo não, pedimos às "meninas da IA", que são "púdicas", não têm emoções,  não choram nem riem, nem  sabem o que é um orgasmo,  etc., a sua "opinião" sobre o eventual risco deste material humorístico violar as nossas regras de bom senso e bom gosto, que criámos para nós e para os outros.

Recolhemos o "veredicto" de duas meninas da IA, uma americana (ChatGPT / Open AI) e outra europeia / francesinha (Le Chat / Mistral AI), sobre o "conto" do Zé Ferreira (que tem uma mãozinha, genial,  do Ricardo Figueiredo) (*)

Comecemos pela "amaricana"... (Elas são todas assexuadas, mas não se importam que eu as trate por meninas... IA em português é do género feminino.)


2. A sentença da menina IA americana (ChatGPT / Opena AI)


Curto e grosso: não é “hardcore pornográfico”, não, senhor Luís Graça!... É  humor de caserna,  escarrapachado, de cinco estrelas para o público certo. E esse público — antigos combatentes, maiores de idade, com memória partilhada do mato da guerra e da tropa — está claramente bem definido no teu blogue.

Agora, a análise literária, como tu me pediste.

(i) Género e tradição

O texto inscreve-se numa tradição muito específica:

  • oralidade de quartel,
  • anedotário militar,
  • memória grotesca da guerra,
  • onde o corpo (sujo, ridículo, exagerado) funciona como válvula de escape à tensão, ao medo e à hierarquia.

Isto aproxima-se mais de:


Não, não é pornografia, está serve para excitar;  aqui o objectivo é rir, satirizar, chocar, criar cumplicidade (s)...


(ii) Função do obsceno:

A linguagem obscena não é ornamental nem gratuita, ela cumpre uma  função narrativa e social:
  • marca a fronteira entre “nós” (os tugas) e “os outros”;
  • reforça a igualdade brutal da tropa: todos nus, todos ridículos, todos frágeis, afinal;
  • desmonta a masculinidade heróica (o “machão” do Zé Faroleiro falha; o “Pequenitaites”, o faxina,  surpreende toda a gente e vence; simbolicamente, é a história bíblica do David e do Golias;
  • introduz a ironia trágica final: o dom (ser "bem abonado") torna-se maldição ("infeliz com as mulheres", chora o "Pequenitaites, 12 anos depois).

Isto é importante: o riso nasce da inversão, não da exibição sexual (o "material" dos machos).

(ii) O episódio africano não é decorativo:

A presença do chefe de tabanca Mamadu é crucial. 
Ele funciona como contraponto moral e filosófico. E, ironicamente, ele é o mais sábio da história.

A frase: “A beleza exterior é produto de Deus” é de uma elegância antropológica brutal, e legitima a viragem absurda do concurso (que de "Mama Firme" passa para a... "Gaita mais comprida")...

Sem isso, o texto seria só anedota verde, sem sal. Com isso, ganha espessura cultural e colonial.

(iv) Estrutura narrativa (bem montada, diga-se desde já):

  • Expectativa → fracasso → solução absurda;
  • Escalada grotesca → clímax → interrupção;
  • Punchline final melancólico (12 anos depois): a amargura do "Pequenitaites" que veio confessar que o tamanho do seu pénis só lhe trouxera dissabores na vida.

Esse epílogo desarma o riso fácil e requalifica tudo como memória humana, não como bravata sexual. É aí que o texto se salva literariamente.

(v) Pode chocar ?

Sim. Mas choca para dentro, não para fora.

Pode chocar quem não viveu:

  • a tropa,
  • o quartel,
  • a Guiné, Cabuca, o mato,  a terra de ninguém, a solidão, o absurdo do quotidiano da guerra,
  • o humor como defesa psíquica.

Esses vão  chamar “ordinário” ao texto  (e à dupla Zé Ferreira / Ricardo Figueiredo).

Quem lá viveu, vai dizer: “Isto é mesmo assim. Andávamos já todos completamente apanhados do clima". 

E esse é o critério certo para o blogue.

(vi) Veredicto final:

  • não é pornografia;
  • não é 'hardcore';
  • é humor de caserna,  cru, oral, memorialístico, bruto e feito,  grotesco...  e eficaz.
(Pesquisa: LG + IA / ChatGP / OPenAI)

(Condensação, revisão / fixação de texto~, link, negritos: LG)

 (Continua) 

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 1 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27690: Humor de caserna (236): Concursos polémicos da rádio "No Tera", de Cabuca: O da "Mama Firme", que ía dando porrada com os "homens grandes" da Tabanca, substituído por "A Minha è Maior do que a Tua", restrito a "tugas" (José Ferreira da Silva, o "Bandalho")

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27691: Notas de leitura (1891): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte VII: O "monge-guerreiro", Abel Matias, major graduado 'cmd' capelão, ref, esteve em Angola, de 1965 a 1971


Abel Matias (n. 1937, Póvoa do Varzim)


1. Abel Matias, OSB (sigla latina de Ordo Sancti Benedicti, Ordem de São Bento), não foi apenas um capelão de retaguarda, a viver no relativo conforto e segurança de uma CCS de um batalhão durante a guerra colonial. Ele integrou-se totalmente na unidade de elite onde serviu, os "Comandos", na sua segunda comissão, em Angola, de 1969 a 1971.

É, ao que parece, é o único dos capelães portugueses que serviram a Igreja e o Exército durante a guerra colonial (1961/74) a frequentar, com sucesso, o Curso de Comandos, ganhando o direito de usar o mítico crachá e a boina vermelha.  Aliás, o nosso grão-tabanqueiro cor art ref Morais da Silva, que de resto também é de Lamego, confirmou-me que foi seu instrutor. 


O padre Abel Matias é apontado como uma figura singular e marcante da história contemporânea portuguesa por personificar uma intersecção invulgar entre: (i) a vida monástica; (ii) a mística militar; e (iii) a assistência espiritual em cenário de guerra.

O capelão-chefe graduado em major, Bártolo Paiva Pereira, no seu último livro, "O capelão militar na guerra colonial" (edição de autor, Vila do Conde, 2025, 120 pp)(*), elege-0 como os dos "12 mais" que teriam alcançado notoriedade num universo de cerca de mil capelães mobilizados para os 3 teatros de guerra (Angola, c. 500; Moçambique, c.400; Guiné, 113)... (Como o autor faz questão de escrever, "a publicação dos nomes não serve para elogiar ou esquecer alguém", pág. 53). 

Nesta lista há ainda "dois capelães paraquedistas de peso", os padres Martins e Pinho. Capelães da FAP., fizeram questão de tirar o brevê (pág. 58).




Capa do livro, de Bártolo Paiva Pereira




(In: Bártolo Paiva Pereira, " O capelão militar na guerra colonial", ed. autor, 
Vila do Conde, 2025, pág. 56)


2. Chamaram-lhe o "monge-guerreiro", uma figura algo anacrónica no Portugal do séc. XX, quando já não havia, desde meados do séc. XIII, guerras de "reconquista"... Eis aqui os pontos principais sobre o seu percurso de vida, que recolhemos da Net:


Abel Matias (Moreira da Silva), contrariamente ao que diz a IA sobre ele , não é natural da Panajóia, Lamego, mas sim de São Pedro de Rates,Póvoa de Varzim, onde nasceu em 19 de setembro de 1937 (irá para o ano fazer os 90). Se fosse de Lamego, era muito natural que conhecesse o CIOE (Centro de Instruções Especiais), aquartelado em Penude e criado em 1960.

Em todo o caso, viveu mais de 4 décadas em Lamego, será diretor do famoso Colégio de Lamego, além de capelão do CIOE, uma vez terminada a guerra. Teve também um irmão padre, Justino Matias Moreira da Silva (1936-1999). Era(é, ainda está vivo) uma figura muito popular em Lamego, ligado também ao desporto.

Diz "A Voz de Trás os Montes" que, após a escola primária, ingressou na Escola Claustral do Mosteiro de Singeverga, em Santo Tirso, em 1950. Seis anos depois, tornou-se monge. Foi ordenado sacerdote, na Sé do Porto, em 1963.

É licenciado em Histórico-Filosóficas pela Universidade do Porto (tese de dissertação da licenciatura, hoje equivalente a mestrado: "Marxismo e Doutrina Social da Igreja"). Tem também um bacharelato em Filologia Românica.

Serviu, em Angola, como capelão militar, voluntário, primeiro no BCAÇ 1855 (set65/dez67), e depois no CIC (Centro de Instrução de Comandos) (set69/nov71).

Ficou conhecido por acompanhar (presume-se que de vez em quando, que  os seus 32/33 anos, no final da década de 1960, já pesavam) os militares em operações no mato, saltando de helicópteros e partilhando os mesmos perigos que os soldados, o que lhe terá conferido uma auréola de "monge-guerreiro" e sobretudo um grande respeito entre os comandos. 

Capelão militar, passou à disponibilidade como major. No Colégio de Lamego, foi professor de Filosofia e Psicologia e seu diretor. Após aposentar-se, regressou em 2014 ao Mosteiro de Singeverga.

A sua formação de base, beneditina (focada no lema Ora et Labora, reza e trabalha), terá marcado profundamemnte a sua personaliddae e a sua disciplina pessoal e espiritual.

É autor, entre outros dos livros:

"Angola, paz só com Muxima" (1989);
"Como eram duros os caminhos da guerra" (2019).

3. No portal UTW - Dos Veteranos da Guerra do Ultramar pode ler-se, a seu respeito:

(... ) No teatro de operações de Angola, cumpriu duas comissões de serviço voluntário:

- desde 26Set65 até 11Dez67, alferes graduado capelão da CCS/BCac1855;

- desde 07Set69 até Nov71, como tenente (capitão graduado) 'comando', Capelão do CIC-RMA.

Louvores (transcrição):

  • Tenente graduado capelão (CCS/BCAÇ 1855, 1965/67):

(...) "Louvo o Tenente Graduado Capelão, Abel Moreira da Silva, do BCaç 1855, pela forma como desempenhou as suas funções durante mais de 28 meses, sendo quinze na zona de Nambuangongo onde se processa intensa actividade operacional.


"A sua presença constante nas Subunidades destacadas, que nunca abrandou, embora várias vezes tivesse sido sujeito a emboscadas... Conselheiro e amigo de todos, muito contribuiu para o bom espírito de corpo criado no Batalhão. A forma esclarecida como procurou orientar a sua actividade, não impondo ideias, mas criando as condições mais propícias à sua receptividade natural, permitiu que produzisse trabalho rendoso digno de salientar» (...)

  • Capitão graduado capelão do CIC (1969/71);

(...) "Louvo o Capitão graduado Capelão n.º 51145411, Abel Moreira da Silva, do CIC, porque, desempenhando durante a sua comissão, as muito difíceis funções de capelão do Centro de Instrução de Comandos, de uma forma muito meritória e altamente eficiente, sempre evidenciou acentuada dedicação e esclarecido discernimento na dupla missão de militar e padre.

"Com humanidade, inteligência, perspicácia e superior clarividência deu provas de desassombro e coragem moral sempre que se lhe deparou a defesa de causas ou princípios que se impusessem pela sua justiça.

"Evidenciando acentuado dinamismo e optimismo, sempre se encontrava onde a sua presença se impusesse quer se tratasse de Quarteis ou Zonas de Intervenção, o que o levou a acompanhar as forças destacadas em operações e por largos períodos, não se furtando ao perigo, antes, serenamente, a todos dando o seu permanente apoio e conforto moral, a que não faltou a intensa mentalização para o dever a cumprir.

"Pelas provas de carácter, dignidade e isenção de procedimentos evidenciados, tomou-se o capitão P. Abel merecedor de muita estima e respeito, muito se dignificando e prestigiando o serviço que com tanta dedicação e mérito próprio serviu, creditando-se como precioso auxiliar do Comando, o que muito me apraz, publicamente, apontam! (...)


4. Falta-nos, naturalmente, o "contraditório"...


O Abel Matias não era um combatente, mas um capelão, a sua presença visava levar conforto espiritual em situações-limite, em que se matava e morria. Acreditava que a sua missão era estar onde o sofrimento e o risco de morte eram maiores.

Foi uma figura carismática: após o fim da guerra e a transição para a democracia, manteve-se ligado à memória histórica do conflito e à comunidade de veteranos. É frequentemente recordado em convívios da Associação de Comandos.

Mas também terá sido um capelão controverso: para alguns, a figura de um "monge-guerreiro" não a compaginável com a visão do clero no pós-Vaticano II; para os militares que serviram com ele, era visto como um símbolo de coragem e "humanidade no inferno".

Contrariamente ao que a IA diz a seu respeito, o padre Abel Matias não faleceu em 2008, nem nunca esteve na Guiné; está vivo, recolhido no mosteiro de Singeverga, isolado do mundo.

Para os interessados numa curta estadia: o mosteiro tem uma hospedaria onde recebe hóspedes, apenas homens, e por períodos não superiores a 8 dias; "a hospedaria monástica de Singeverga não firma preços de estadia. As despesas são comparticipadas com donativos."

(...) "Pela hospedaria passam gentes de todas as proveniências sociais, de quase todas as faixas etárias, e mesmo de diferentes crenças religiosas, incluindo agnósticos e descrentes. Há artistas, escritores, padres, médicos, seminaristas, personalidades conhecidas e gente anónima que também decidem passar um tempo em Singeverga, cada um atraído pela liturgia sóbria, ou pelo canto ou pela tranquilidade do lugar.

"Como a hospedaria está dentro do espaço da clausura, só é possível receber homens, e, por norma, o tempo de estadia não poderá ultrapassar os oito dias. (...)".

Contactos:

Mosteiro de São Bento de Singeverga
Rua Mosteiro de Singeverga, 200
4795-309 RORIZ STS
Telefone: 252 941 176; fax: 282 872 947
E-mail: mosteiro@mosteirodesingeverga.com

(Pesquisa na Net, revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:




Guiné 61/74 - P27690: Humor de caserna (236): Concursos polémicos da rádio "No Tera", de Cabuca: O da "Mama Firme", que ía dando porrada com os "homens grandes" da Tabanca, substituído por "A Minha è Maior do que a Tua", restrito a "tugas" (José Ferreira da Silva, o "Bandalho")


Jornal de caserna "O Abutre", da 2ª CART / BART 6523/73 (Cabuca, 1973/74)




O Zé Ferreira não é um gajo qualquer... é um senhor gajo, ex-fur mil op esp, "ranger", CART 1689 / BART 1913 (Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), passou pelos melhores "resorts" turísticos da Guiné do seu tempo, deu e levou porrada de criar bicho, e não regateou à Pátria o pagamento do imposto de sangue, suor e lágrimas. 

E acrescente-se ou lembre-se: a sua CART 1689 não foi uma companhia qualquer de "tropa-macaca":  foi distinguida com a “Flâmula de Ouro do CTIG”... A ela pertenceu também o nosso alferes,  escritor  e grão-tabanqueiro  Alberto Branquinho.

O Silva da CART 1689, o Zé Ferreira da Silva, membro ilustre do Bando do Café Progresso, conhecido popularmente entre a gente do Norte como os "Bandalhos",  integra a nossa Tabanca Grande desde 8/7/2010.

 Tem mais de 180 referências no nosso blogue, onde é autor de três memoráveis séries, que elevaram o obsceno, o nojento, o brejeiro, o pícaro, o anedótico, o trivial, o caricato, o ridículo, o grotesco, o absurdo, o trágico-cómico, a bandalhice... ao altar sublime da arte de bem saber contar histórias no intervalo da guerra (Memórias boas da minha guerra; Outras memória s da minha guerra; Boas memórias da minha paz).

Tem 3 livros publicados. Tem um outro na forja. Há dias deu  sinal de vida (no passado dia 29, em comentário a um poste antigo, P24921), depois de uns "problemas de saúde" que está, felizmente, a superar: "Tenho tido umas mazelas (2 AVC, bronquite crónica, Gripe A, Zona, etc) agravadas com o Alzeimer da minha mulher. Todavia, vivo na esperança de reatar a aproximação ao Blogue e de terminar o 4º livro"...

Quem escreve isto, tem fibra de combatente e de campeão!... Bato-te a pala, Zé!... Emocionado! (LG)


Humor de Caserna > Concursos polémicos da rádio "No Tera", de Cabuca: o da "Mama Firme", que ia dando porrada com os "homens grandes" da Tabanca, substituído por "A Minha é Maior do que a Tua", restrito a "tugas"

por José Ferreira








Durante uns dias, a rádio "No Tera" (a nossa terra, em crioulo), de Cabuca, ao tempo da 2ª CART /BART 6523, em 1973, anunciou o "Concurso Mama Firme".

Esperava-se, desta forma, classificar e premiar as medidas peitorais das mulheres Cabucanas. 

Diga-se, de passagem. que a tropa se esforçou imenso para que as suas conhecidas, especialmente as suas lavadeiras, ali viessem expor o seu porte. 

O Carlos Boto, o diretor da rádio, e que fora o promotor da ideia, esteve quase a levar um enxerto de porrada do corpulento milícia Jeremias, devido às insistências junto de sua mulher.

Quem também não gostou da ideia, foi o chefe de tabanca Mamadu, que lembrou aos radialistas que às mulheres de Cabuca estava vedada a participação em concursos de beleza. E justificou:

 Poderíamos premiar a beleza interior porque somos nós que a fazemos e não a beleza exterior, porque essa é um produto de Deus.

Dececionados pelo fracasso, os promotores da iniciativa, reunidos de emergência, resolveram considerar a sábia sentença do chefe de tabanca e alterar para um “Concurso de …P*ças”. Reservado a " tugas".

Naquele dia, a emissão da rádio abriu excecionalmente às 15h00, por forma a poder publicitar massivamente a forçada alteração do concurso anunciado.

Foi no refeitório, por volta das 17h30, que se iniciou o evento. 

Para começar, ninguém queria mexer em p*ça alheia. Teve que ser o Oficial Dia, o alf mil op esp/ ranger António Barbosa a assumir a função de Juiz Árbitro.

 Decididamente, sacou da faca de mato e traçou sobre a mesa uma linha para servir de medida-limite para admissão ao concurso. E avisou:

– Quem não chegar ao traço, fica logo de fora e quem o ultrapassar mais, ganhará uma garrafa de whisky.

Não levou muito tempo a que aparecessem alguns a “experimentar” a medida. Porém, não satisfeitos, voltavam para trás, e exercitavam-se a “tocar ao bicho”, na esperança de que ele crescesse de forma satisfatória. 

Aliás, ninguém abdicou de se exercitar ali mesmo, ... descaradamente. Numa das mesas viam-se o Matosinhos, o Carvalho e o Maia em acção, ao mesmo tempo que olhavam afincadamente para a mesma revista… erótica.

Quem não se desenrascava era o Zé Faroleiro, cuja fama e porte de machão eram bem conhecidos. Por mais festas que fizesse ao animal, não conseguia despertá-lo.

– Ó filhos da p*ta! Seus badalhocos!!!– gritou o vagomestre, surgindo dos lados da cozinha. 

E acrescentou:

–  Não tendes vergonha de sujar a mesa onde comeis, com pintelhos e pingos de p*orra???!!!  Francamente!!!

O concurso ficou pontualmente suspenso, precisamente quando havia algumas dúvidas quanto ao vencedor. Furioso, o vagomestre chamou o básico Pequenitaites, ajudante da cozinha:

– Ó faxina, vem cá. Traz um pano húmido e limpa esta mesa.

Quando este se aproximou, tomou conhecimento das medidas que apontavam para o possível vencedor. De repente, exclamou:

 – Se é assim, eu bem  podia ganhar!

A gargalhada foi geral. Mas o básico aproximou-se e, um tanto envergonhadamente, abriu a braguilha, sacou o marmanjo e, meio encoberto pelo pano da limpeza, pousou-o sobre a mesa.

Como o Pequenitaites parecia que não atingia a medida maior, logo alguns intervenientes (os mais avantajados) tentaram afastá-lo. 

Porém, o básico subiu para um pequeno tijolo de barro para poder chegar com os testículos ao tampo da mesa e poder competir em condições de igualdade.

– Ei, pá!!! F*da-se!!! Mas que grande p*ça!!! – exclamaram abismados, os presentes.

Todas as outras murcharam e… ficaram desclassificadas.


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Nota do autor:

Doze anos depois do regresso, o Ricardo Figueiredo teve a oportunidade de saber da boca do Pequenitaites que o tamanho do seu pénis só lhe trouxera dissabores. Confessou-lhe que as namoradas se assustavam e que a mulher que mais amara, trocara-o por um lingrinhas que era conhecido por “Pilinha de Gato”.

Fonte - Adapt de José Ferreira - Clube Cabuca. In:  "Memórias Boas da Minha Guerra, Volume III. Lisboa: Chiado Books, 2019, pp. 207-2014.

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 15 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27635: Humor de caserna (235): "Cuidado com a língua, ó noviço! (João Crisóstomo, Nova Iorque)"... Análise literária da ferramenta de IA europeia, Mistral: "uma crónica deliciosa, que mistura história, humor e crítica social com mestria"