
Falar de Madina do Boé é falar dos homens que ao longo do tempo, e muito concretamente entre maio de 1965 e 6 fevereiro de 1969, estiveram em quadrícula naquela parcela do território português, hoje independente, e sobre o qual flutuou a Bandeira de Portugal.
Consultando o terceiro volume da Resenha Histórica-Militar das Campanhas de África (1961-1974) (Dispositivo das Nossas Forças - Guiné), encontrei os seguintes elementos sobre as companhias que passaram/estiveram/permanecem para sempre, nos factos que constituem a história desta zona da atual Guiné-Bissau.
A primeira unidade a instalar-se em Madina do Boé, foi a Companhia de Cavalaria nº 702 – Batalhão de Cavalaria nº 705 - formada no Regimento de Cavalaria 7 em Lisboa (já extinto) que chegou à Guiné em julho de 1964 e ficou instalada em Bissau.
A CCAV 702 foi substituída pela Companhia de Caçadores nº 1416 – Batalhão de Caçadores nº 1856 - formada no Regimento de Infantaria 1 e ainda instalado na Serra da Carregueira na região de Lisboa e onde, atualmente, se encontra o Regimento de Comandos, foi colocada em Nova Lamego em agosto de 1965.
Em Pirada, em março de 1965, foi criada a Companhia de Milícias nº 15 que foi enviada em junho de 1967 para Madina do Boé para reforço das forças ali estacionadas.
A última unidade a permanecer naquela zona foi a Companhia de Caçadores nº 1790 – Batalhão de Caçadores nº 1933, formada no Regimento de Infantaria 15 em Tomar.
Conheci Madina do Boé numa altura em que regressava ao aquartelamento do minha unidade, a Companhia de Caçadores nº 5 estacionada em Canjadude, indo de Nova Lamego onde tinha estado, já não me recordo, se em serviço ou no regresso de férias. Viajava numa Dornier e conheci o aquartelamento do ar.
As instruções do furriel que pilotava a aeronave foram precisas: "assim que o aparelho parar, saltas e corres para junto dos abrigos".
Assim fizemos e, ao chegar junto dos militares que não tinham saído de junto dos abrigos, fomos recebidos com algumas dezenas de abraços e palmadas nas costas daqueles homens que, só muito raramente, viam alguém que não fossem os seus camaradas habituais. Das manifestações havidas, já não sei se foram de boas vindas ou de despedida, pois o tempo de permanência da DO em terra teria que ser mínimo.
Do local ficou-me a sensação de que era uma terra inóspita, sem população civil, e, portanto, apenas a teimosia de alguém que não sabe o que é “estar no terreno de operações” fazia permanecer tropas naquele local.
A guerra que travávamos tinha como primeiro objectivo captar a simpatia e apoio das populações, transmitir-lhe alguns ensinamentos, e, sobretudo, prepará-los para “Um Futuro numa Guiné melhor”. Neste cenário não havia razão para sacrificar aqueles homens ao isolamento e ao sofrimento da incerteza da sorte das armas.
A saída da zona do Boé começou em junho de 1968, com o desmantelamento do destacamento de Beli, guarnecido por uma força destacada de Madina de Boé (CCAÇ 1790).
A minha missão terminava no Cheche. Aí ficaria a aguardar o regresso da coluna que, depois de proceder ao desmantelamento de Beli e deslocar a guarnição para Madina do Boé, voltaria, pelo mesmo e único caminho, a Nova Lamego.
Presenciei o nervosismo, e porque não dizer o medo, do pessoal que ia em primeiro lugar, na jangada, ocupar posições na outra margem, para montar a segurança para a passagem do restante da coluna.
Só os meios aéreos poderiam antecipar dados que permitissem cambar o rio com relativa segurança.
Já não assisti ao regresso da coluna nem aos trabalhos da passagem para a margem norte do Corubal, pois a primeira crise de paludismo originou novo baptismo: a evacuação aérea para Nova Lamego. Dias mais tarde assisti ao regresso da coluna e, naturalmente, à descompressão das tropas utilizadas nessa operação.
Toda esta manobra obedecia a uma directiva, a nº 1/68, do Comandante Chefe recentemente empossado, o então brigadeiro António de Spínola, que previa o estabelecimento de uma grande base operacional na região do Cheche.
Assim, mesmo sem que a base tivesse sido instalada, a guarnição de Madina do Boé seria retirada desse destacamento, numa operação montada e que seria realizada no início de fevereiro de 1969.
Imagino que, ao verem na outra margem do rio Corubal e para a qual se deslocavam, uma série de morteiros e canhões-sem-recuo prontos a responder a qualquer ataque, os militares tivessem descomprimido um pouco, podendo eventualmente ter tentado encher os cantis com água do rio, cuja falta se fazia sentir naquela altura do ano, desconhecendo que um Unimog, guarnecido por uma secção que eu próprio comandava, se encontrava muito próximo para reabastecer quem necessitasse, uma vez que a companhia retirada e as que haviam procedido à sua escolta, não entrariam no perímetro militar de Canjadude, não só por questões logísticas mas também operacionais.
A determinada altura, conforme se refere num filme realizado por José Manuel Saraiva, de 1995, e editado em cassete vídeo pelo Diário de Notícias, um som abafado, muito semelhante "à saída de uma morteirada ", teria gerado agitação entre os elementos que eram transportados na jangada, e eram bastantes.
A grande preocupação foi a ajuda aos que tinham caído à água, pois que transportavam consigo todo o equipamento normal numa missão de patrulhamento que, além da arma, do cantil e do bornal, munições de reserva não só para as armas ligeiras, mas também para as bazucas e para os morteiros.
Não foi só o equipamento individual que foi o responsável pelo afogamento de tantos homens. Os habitantes daquele rio também tiveram uma intervenção pouco amigável. Diz quem também esteve no centro daquele acontecimento, que as águas tomaram um tom avermelhado.
Naquela tarde de 6 de fevereiro de 1969, o Corubal roubou a todos e a cada um de nós, quarenta e sete amigos e camaradas dos quais, poucos, viriam a ser encontrados e sepultados nas margens do Rio Corubal.
É com emoção que, quando falo ou escrevo sobre este tema, me perfilo em continência, os meus lábios murmuram uma breve oração, e me curvo perante a memória daqueles que não voltaram e cujo espírito permanece sobre as águas do Rio Corubal (18 da CCAÇ 2405, 28 da CCAÇ 1790 e 1 civil guineense) (realce a amarelo, a companhia que retirou de Madina do Boé, a CCAÇ 1790; e a CCAÇ 2405, a azul marinho, uma das companhias que fez a escolta da coluna):
Furriéis Milicianos (n=2)
- Carlos Augusto da Rocha, natural de Angústias – Horta – Açores – CCAÇ 1790
- Gregório dos Santos Corvelo Rebelo, natural de Terra Chã – Angra do Heroísmo – Açores – CCAÇ 2405
Primeiros-cabos (n=7)
- Alfredo António Rocha Guedes, natural de Vila Jusa – Mesão Frio – CCAÇ 2405
- Augusto Maria Gamito, natural de S. Francisco da Serra – Santiago do Cacém – CCAÇ 1790
- Francisco de Jesus Gonçalves Ferreira, natural de Tortosendo - Covilhã – CCAÇ 1790
- Joaquim Rita Coutinho, natural de Samora Correia - Benavente – CCAÇ 1790
- José Antunes Claudino, natural de Alcanhões - Santarém – CCAÇ 2405
- José Simões Correia de Araújo, natural de Telhado – Vila Nova de Famalicão – CCAÇ 1790
- Luís Francisco da Conceição Jóia, natural de Alvor - Portimão – CCAÇ 1790
Soldados (n=37)
- Abdul Embaló, natural de São José, Bissorã - CCAÇ 1790
- Alberto da Silva Mendes, natural de Sande - Guimarães – CCAÇ 2405
- Alfa Jau, natural da Guiné - CCAÇ 1790
- Américo Alberto Dias Saraiva, natural de S. Sebastião da Pedreira - Lisboa – CCAÇ 1790
- Aníbal Jorge da Costa, natural de Rossas – Vieira do Minho – CCAÇ 1790
- António Domingos Nascimento, natural de Santa Maria - Trancoso – CCAÇ 2405
- António dos Santos Lobo, natural de Favaios do Douro - Alijó – CCAÇ 1790
- António dos Santos Marques, natural de Lorvão - Penacova – CCAÇ 2405
- António Jesus da Silva, natural de Arazedo – Montemor-o-velho – CCAÇ 2405
- António Marques Faria, natural de Telhado – Vila Nova de Famalicão – CCAÇ 1790
- António Martins de Oliveira, natural de Rio Tinto - Gondomar – CCaç 1790
- Augusto Caril Correia, natural de Santa Cruz - Coimbra – CCAÇ 1790
- Avelino Madail de Almeida, natural de Glória - Aveiro – CCAÇ 1790
- Celestino Gonçalves Sousa, natural de Poiares – Ponte de Lima – CCAÇ 1790
- David Pacheco de Sousa, natural de Lustosa - Lousada – CCAÇ 1790
- Francisco da Cruz, natural de Lebução - Valpaços – CCAÇ 2405
- Indique Imbuque, natural de Farol, Bissorã – CCAÇ 2405
- Joaquim Nunes Alcobia, natural de Igreja Nova – Ferreira do Zêzere – CCAÇ 1790
- Joel Santos Silva, natural de Guisande – Vila da Feira – CCAÇ 1790
- José da Silva Coelho, natural de Recarei - Paredes – CCAÇ 1790
- José da Silva Góis, natural de Meãs do Campo – Montemor-o-novo – CCAÇ 2405
- José da Silva Marques, natural de Marmeleira - Mortágua – CCAÇ 2405
- José de Almeida Mateus, natural de Santa Comba Dão – CCAÇ 1790
- José Fernando Alves Gomes, natural de Carvalhosa – Paços de Ferreira – CCAÇ 1790
- José Ferreira Martins, natural de Pousada de Saramagos – V. N. Famalicão – CCAÇ 1790
- José Loureiro, natural de S. João de Fontoura Resende – CCAÇ 2405
- José Maria Leal de Barros, natural de Vilela - Paredes – CCAÇ 1790
- José Pereira Simão, natural de Salzedas - Tarouca – CCAÇ 2405
- Laurentino Anjos Pessoa, natural de Sonim - Valpaços – CCAÇ 2405
- Manuel António Cunha Fernandes, natural de Arão – Valença do Minho – CCAÇ 1790
- Manuel Conceição Silva Ferreira, natural de Pombalinho - Santarém – CCAÇ 2405
- Manuel da Silva Pereira, natural de Penude - Lamego – CCAÇ 1790
- Octávio Augusto Barreira, natural de Suçães - Mirandela – CCAÇ 2405
- Ricardo Pereira da Silva, natural de Serzedo ou selzedelo – Vila Nova de Gaia – CCAÇ 1790
- Tijane Jaló, natural de Piche – Gabu – CCAÇ 1790
- Valentim Pinto Faria, natural de Valdigem - Lamego – CCAÇ 2405
- Victor Manuel Oliveira Neto, natural de Buarcos – Figueira da Foz – CCAÇ 2405
Civis (n=1)
- Um caçador nativo não identificado
José Martins
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Nota do editor L.G.
(1) Útimo poste da série > 22 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27760: Documentos (58): A retirada de Madina do Boé (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) - Parte I








































