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sábado, 28 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27781: Os nossos seres, saberes e lazeres (724): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (245): O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um par de sonho - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Depois de longos e cuidados restauros e obras de conservação, o Parque e o Palácio Biester abrem-se ao público no seu espantoso desenho em declives, obra de um célebre paisagista francês, François Nogré, que organizou espaço com uma série de patamares com diferentes vistas para o Palácio, as espécies arbóreas como a Nogueira-do-Japão, faias, plátanos e camélias e fetos arbóreos asseguram o jogo de cores quase caleidoscópico, e lá no cimo vemos um Palácio romântico, faz boa parentela com outro património próximo, a Quinta da Regaleira, os cabalistas e esotéricos têm muito aqui para se entreter, basta pensar na Capela templária e na Câmara Iniciática. O Palácio destaca-se pelo seu ecletismo e exuberância, revela o bom gosto da época em toda a sua magnificência, como continuaremos a ver seguidamente.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (245):
O Palácio Biester, de romantismo inconfundível, envolvido por um par de sonho - 1


Mário Beja Santos

Quem gosta de obras românticas de grande aparato, o Palácio Biester, que alguns tratam por chalé, satisfaz plenamente os aficionados mais exigentes. O Palácio está no ponto alto de um Parque de indiscutível beleza. Era, para a época, uma proeza paisagística, uma conceção com um elevadíssimo grau de dificuldade, com espaços que aparecem designados no mapa que se oferece ao visitante com nomes tais como Cascata das Camélias, Ponte dos Fetos Australianos, Passeio Bordallo Pinheiro, Largo dos Fetos Australianos ou Tanque dos Plátanos. As espécies que encontramos no parque são, em alguma medida, transversais às existentes no Parque da Pena, constituindo-se por uma grande variedade de exemplares exóticos importados dos quatro cantos do mundo; desde as espécies cameleiras com origem na China e no Japão, às faias verdes e vermelhas da Europa Central, até aos fetos da Austrália e aos abetos norte americanos. Para ser sincero, não se pode dissociar a obra romântica do Palácio dos esplendores que oferece o Parque. É possível comprar na receção um volume com a história do Palácio e dos seus proprietários, encontrei um site que talvez tenha utilidade para o leitor: https://serradesintra.net/chalet-biester/, poderá mesmo ver o ator Johnny Deep, no filme a Nona Porta, que teve filmagens no Palácio de Biester.
A Cascata dos Plátanos, junto da receção do Palácio Biester
Uma nogueira-do-Japão, uma árvore que, apesar do seu nome comum em português mencionar o Japão, é na verdade nativa da China, onde se pensou que poderia estar em vias de extinção. Com mais de 200 milhões de anos, trata-se da espécie arbórea mais antiga do planeta, o que faz com que os seus exemplares sejam muito presados pela cultura de diferentes civilizações. Com tonalidades que se manifestam desde os verdes até a um espantoso amarelo-açafão, pela altura do outono. À época, foi uma adição rara escolhida por François Nogré para o Parque Biester, que dela possui dois exímios espécimes com dimensões generosas.
Entrada do Palácio de Biester
Para se chegar aqui saiu-se do comboio em Sintra, atravessou-se a vila, havia que pôr-me ao caminho da Estrada Nova da Rainha, o Palácio Biester antecede a Quinta da Regaleira. Entra-se no parque, depois da bilheteira temos a cascata dos Plátanos e começa um sinuoso percurso até se chegar ao cimo, ao Palácio. Não se resistiu a fotografá-lo cá de baixo. É na verdade um chalé romântico, nem se sonha o que há no seu interior de neogótico, vê-se à vista desarmada que é construção dos fins do século XIX, tem uma traça eclética e exuberante, os seus alçados são francamente elegantes, o famoso arquiteto José Luís Monteiro foi feliz nesta construção cheia de harmonia.
Estamos no rés-de-chão, há por aqui inúmera beleza, na biblioteca, na sala de música, na sala de estar e no salão de festas; a escadaria principal é de cortar o fôlego. Quem mandou construir não se poupou a despesas, escolheu artistas consagrados. Olhe-se para a beleza deste teto, obra de Luigi Manini, um famoso cenógrafo do teatro de São Carlos, decorador reputado.
Um pormenor da biblioteca, uma das mais peculiares salas do Palácio, aqui se albergava o acervo literário, servia de sala de leitura e consulta de documentos e agenda
É impressionante a qualidade do trabalho dos revestimentos, a ambiência neogótica, uma bela lareira azulejada, convém recordar que andou por aqui Rafael Bordalo Pinheiro, além de genial caricaturista possuía a célebre fábrica de cerâmica nas Caldas da Rainha. Este é um pormenor do salão de festas, sala dedicada a celebrações e bailes, a divisão foi claramente projetada a pensar no tempo mais invernoso.
A sala de refeições, atenda-se ao requinte das decorações das paredes
Podia ser uma pintura, mas não é. De um dos quartos, teve-se muita sorte na hora e na luz, até parece que o Castelo dos Mouros emerge de um eriçado mundo vegetal e parece estar ao alcance da mão, ilusão da ótica, o arquiteto concebeu o edifício dispondo no rés-de-chão a área social, ou seja, a sala de estar, o salão de festas e a sala de música, não falta mesmo um espaço privado que é a biblioteca, e dispôs no primeiro andar os quartos e a capela, as varandas e janelas parece que foram talhadas para um grande espetáculo cénico.
O que se avista desta varanda é esplendoroso, de um lado a vila, do outro um património um tanto afim, a Quinta da Regaleira, os cabalistas e esotéricos aqui procuram câmaras iniciáticas, códigos templários, simbologias por decifrar.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 21 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27759: Os nossos seres, saberes e lazeres (723): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (244): Paula Rego, o guarda-roupa do seu estúdio num diálogo com as obras que lhe correspondem - 3 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)



Coimbra > Antigo Liceu Dom João III, hoje Escola Secundária José Falcão.  Foto: © CEIS20  / Universidade de Coimbra (2023) (com a devida vénia; reeditada pelo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 2026) 



1. A melhor homenagem que podemos fazer a um  amigo e camarada que acaba de partir da Terra da Alegria para a "derradeira viagem",  sem retorno, é lembrar o bem que fez aos outros, as histórias que nos deixou, as memórias partilhadas... Neste caso, falamos do Rui Felício (1944-2026) que, ao  longo da vida, e mesmo longe da sua terra natal, sempre cultivou  um genuíno espírito coimbrão. 

Sabemos pouco da sua vida, só estivemos juntos uma vez, na Ameira, Montemor-O-Novo (em 14/10/2006, por ocasião do I Encontro Nacional da Tabanca Grande, organizado pelo Paulo Raposo e pelo Carlos Marques Santos, também ele coimbrão tal como o Felício e o David). 

Acompanhávamos com irregularidade a sua página do Facebook e editámos uma boa dúzia de "Histórias de Dulombi", a sua série no nosso blogue, onde tem mais de 4 dezenas de referências. 

É também o autor do blogue Escrito e lido: episódios que são sementes de vida , que ele manteve entre 2010 e 2014 (c. de 90 postagens).

Julgamos que teve uma infância feliz no Bairro  Norton de Matos, em Coimbra (*).  Estudou na universidade da sua terra onde fez direito. E julgamos também que foi advogado toda a vida, e nomeadamente, na Ericeira, Mafra.   

Durante o serviço obrigatório, calhou-lhe na rifa a Guiné onde foi oficial miliciano, na CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70). 

Foi um dos sobreviventes do desastre de Cheche em 6/2/1969. Aprendeu a sorrir com meia-cara, como muitos de nós, tendo passado mais de 1/3 da sua vida sob o regime do Estado Novo.

 A história, pícara,  que, em sua homenagem,  aqui reproduzimos, diz-nos muito sobre o que eram os professores e os liceus daquela época.  Havia os "cromos", como o Fígaro, que hoje são objeto do nosso ridículo,  mas também havia outros professores que nos marcaram para a vida, alguns grandes figuras como portugueses, cidadãos,  pedagogos, escritores... Seria injusto referir uns e omitir outros...

O Rui Felício fazia parte da Associação dos Antigos Alunos, Professores e Funcionários do Liceu D. João III / Escola Secundária José Falcão, que tem uma página de grupo no Facebook, com mais de 880 membros, e é administrada pelo Mário Araújo Torres (antigo juiz do Tribunal Constitucional) (fez o serviço militar em Angola, 1972/74).  

Pela foto de grupo que publicamos a seguir, vemos que andaram juntos no liceu, o Rui Felício (1944-2026) e o Victor David (1944-2024), ambos alf mil at inf, CCVAÇ 2405 (1968/7'0) e nossos grão-tabanqueiros.


Coimbra > Liceu D. João III > Turma A do 6.º Ano (1960/ 61). Legenda:

1 - Albino Esteves | 2 - Júlio Maia | 3 - Tomás Porto 4 - Gil Ferreira | 5 - Rui Martins Borges | 6 - Costa Gírio | 7 - Paulo Xavier | 8 - Sá Cunha | 9 - Pinto Fortes | 10 - Rui Felício  |11 - António Cardoso Bernardino | 12 - Vasconcelos Coelho | 13 - Duarte Santos | 14 - Acácio Resende | 15 - Deniz Duarte | 16 - António Horta Pinto | 17 - Castel-Branco Sacramento | 18 - Manolo Mattos-Chaves | 19 - Cruz Almeida | 20 - Cruz Gonçalves | 21 - Veloso e Brito | 22 - Alexandre Gaspar | 23 - Vítor David | 24 - Mário Torres.




Cromos do Liceu D. João III: o Fígaro
 

O circunspecto Fígaro era um férreo disciplinador. Nas suas aulas de Ciências Naturais, tornava-se impensável um sorriso, uma distracção, um movimento mais brusco ou irrequieto.

Ao mínimo sinal de indisciplina, o Fígaro anotava no seu caderninho o nome do aluno prevaricador e era certo e sabido que na atribuição da nota final isso ia ser tido em conta.

Naquele dia, um dos alunos tinha faltado para ir ao funeral de um seu tio e o Fígaro aproveitou a circunstância para dar uma lição sobre a morte dos seres vivos e ensinar aos alunos o que é um defunto, o que é um cadáver.

Calvo, as bochechas arrocheadas, a barriga proeminente, empacotado no velho e coçado fato de tecido da Covilhã, caminhava lentamente no estrado de um lado para o outro, como que a preparar mentalmente a lição.

De pé, fixa os pequenos olhos na turma e começa:

"Quando um orgão do corpo humano deixa de funcionar, diz-se que esse órgão morre.

O corpo humano é formado por um conjunto de órgãos e quando eles cessam o seu funcionamento, a vida acaba e sobrevém a morte.

Com a morte o corpo transforma-se em cadáver e começa a decompor-se. O homem transforma-se assim em defunto.

E ,  com a decomposição do corpo, geram-se infecções que podem contaminar aqueles que ainda estão vivos.

Por isso, enquanto não se fizer o enterro do cadáver, deve arejar-se o local onde se encontra e deixar as janelas abertas, para prevenir a propagação de infeções."

O Fígaro reparou que, estranhamente, sobre um tema tão mórbido, os alunos não conseguiam conter o riso e só não desatavam às gargalhadas certamente pelo medo do castigo que sofreriam pela indisciplina.

− Então,  meninos? Porque se estão a rir?

E, de dedo em riste para o Teixeira da Silva, da fila da frente, vociferou:

− Explica lá tu o que se passa!

O Teixeira da Silva, chefe de turma, engasgou-se e tartamudeou:

 
− Eu penso que será por o Sr. Dr. estar a arejar algum órgão defunto, porque tem a braguilha aberta...

Rui Felicio (**)

(Revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 8 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26473: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (34): O amola-tesouras (Rui Felício, nado e criado no Bairro Norton de Matos, em Coimbra)

Guiné 61/74 - P27779: As nossas geografias emocionais (63): Farim, ao tempo do Manuel Jordão Revelos, ex-sold at art, CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70)



Foto nº 1 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70)  > Vista aérea parcial da vila de Farim, sede de circunscrição e de batalhão


Foto nº 2 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70)  > Piscina local (construída em 1958)


Foto nº 3 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70)  > K3/Saliquinhedim

~
Foto nº 4 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70) > NRP Sagitário, LFG P1131. Da classe Argos, este e outros navios estiveram ao serviço da Marinha Portuguesa, entre 1963 e 1975. 

Esta LFG  é a última, de  1965, tendo sido abatida em 7 de Setembro de 1974 e afundada a 21, a 104 milhas a Oeste de Bissau. Foram construídas do Arsenal do Alfeite e nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Tinham todas nomes de constelações (além destas,  havia ainda as seguintes: Dragão, Cassiopeia, Hidra. Escorpião, Pégaso, Lira, Orion, Centauro).


Foto nº 5 > Guiné > Região do Oio > Farim > 1969 > CART 2384 (1968/70) > Peixe-serra, capturado no rio Cacheu.

Fotos (e legendas): © Manuel Jordão Revelos (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Manuel Jordão Revelos (n. 1946,  Lavos, Figueira da Foz; mora em Cacia, Aveiro)



1. Manuel Jordão Revelos, natural de Lavos, Figueira da Foz; nasceu em 15/12/1946; mora em Cacia, Aveiro; foi sold at art,   CART 2384 (Farim, Mansoa, Mansabá, 1968/70), mobilizada pelo RI 10,GACA 2. Partiu no T/T Niassa em 1/5/1968, regressou no mesmo navio em 3/1/1970.

Sobre a CART 2384 só tínhamos até agora 1 referência. E não temos nenhum representante. O Manuel Jordão Revelos, se nos ler, fica desde já convidado a sentar-se à sombra do poilão da Tabanca Grande. Estamos-lhes gratos pela partilha pública destas fotos de Farim e arredores.


Originalmente estas imagens estavam alojadas no portal Prof2000, que foi descontinuado: tinha uma excelente galeria de fotos, enviadas por antigos combatentes ( e não só) da região de Aveiro ; era "um projecto com serviços de suporte à formação de professores a distância e de apoio às TIC nas escolas", tendo como público-alvo "Escolas, Centros de Formação, Centros Novas Oportunidades, professores, projectos de escola e comunidade educativa em geral". 

A página (que foi também recuperada pelo Arquivo.pt)  está agora alojada no Agrupamento de Escolas José Estêvão (AEJE) > Aveiro e Cultura > Arquivo Digital.

Ficámos a saber que uma decisão tomada em Lisboa, capital deste país macrocéfalo,  teve um efeito sísmico neste portal (Prof2000), como nos conta o coordenador do projeto (email: henriquejcoliveira@gmail.com ), que presumimos ser professor do AEJE, em Aveiro:

"Os responsáveis pela manutenção dos servidores do Ministério da Educação e Cultura, ao fim de 18 anos de compilação de documentos, eliminaram todo o espólio cultural do projecto comunitário Aveiro e Cultura. 

"Todas as hiperligações tiveram de ser refeitas para o novo alojamento, pelo que, eventualmente, algumas poderão não funcionar. Por isso, agradecemos a informação, para podermos corrigir o erro. Obrigado."

O  Arquivo Digital sobre Aveiro e Cultura (alojado no AEJE - Agrupamento de Escolas José Estêvão) tem como objectivo:
  •  a constituição de uma base colectiva de imagens, 
  • de livre utilização,
  • abrangendo todas as áreas temáticas,
  • obtidas de diferentes suportes (fotografias antigas, postais, diapositivos, etc.).
"Todas as imagens poderão ser livremente utilizadas, desde que não seja para fins comerciais, devendo-se ter o cuidado de indicar os respectivos autores e o endereço do local onde se encontram".

Obrigado, Henrique Oliveira. Parabéns pelo acervo fotográfico reunido e salvaguardado com tanto rigor e carinho. Muitas destas imagens estavam condenadas a ir parar á "cesta secção", ou seja, a "pubela", ao caixote do lixo.

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 24 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27766: As nossas geografias emocionais (62): Visita sanitária à região do Boé, em 1981 (Henk Eggens, médico especialista em saúde global, cooperante na Guiné-Bissau, 1980-1984)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27778: Notas de leitura (1900): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Creio que se justifica uma explicação quanto à extensão que estou a dar à recensão deste livro. O Marquês do Lavradio, possuidor de um arquivo histórico ímpar, tendo acompanhado no exílio o rei D. Manuel II até ao seu falecimento, pode debruçar-se a preceito, neste livro que concluiu em 1934 a discretear com rigor e sem nacionalismos tolos ao estado das colónias portuguesas, às razões do seu estado decadente e à análise das mais palpitantes questões diplomáticas que se prendiam com a formação do nosso Terceiro Império.
Assim como a História da Guiné não se pode elaborar exclusivamente com os dados que possuímos sobre a presença portuguesa quer na Senegâmbia quer na Província, havendo o imperativo de convocar historiografias de Cabo Verde, Senegal, Guiné Conacri, pelo menos, do mesmo modo não se pode entender o esforço de ocupação e pacificação que a Guiné viveu sem entender o pano de fundo da ténue presença portuguesa na Grande Senegâmbia e o que representou a Conferência de Berlim para esse papel de ocupação e pacificação, que se estenderá até 1936 e culminará com o desempenho do governador Sarmento Rodrigues.
Obviamente que esta obra do Marquês do Lavradio irá ser taticamente esquecida na argumentação das autoridades portuguesas na era da descolonização mundial, aqui se revela, preto no branco que estávamos há cinco séculos em África em entrepostos, pagando dinheiro às chefaturas para ali comerciar e traficar. Como, de igual modo, valerá a pena ler com atenção uma conferência que o Conde de Penha Garcia, que presidiu aos destinos da Sociedade de Geografia de Lisboa de 1924 a 1940, conferência produzida em 1892, onde disse claramente que Portugal estava ligado ao continente africano por interesses de quase 500 anos.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 4

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência. O aspeto mais curioso deste seu trabalho é a franqueza que ele põe nas suas considerações da decadência imperial portuguesa, como se procurou mostrar nos dois textos anteriores revela como até ao século XIX a nossa presença circunscrevia-se praticamente à orla da costa de regiões que só no século XIX passaram a ser designadas ou até fronteiras, caso da Guiné, Angola e Moçambique (os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). Dentro da franqueza que o Marquês usa na sua narrativa é patente a crítica por vezes brutal face ao imperialismo britânico; no entanto, dirá nas conclusões que o Império português só poderá sobreviver à sombra da proteção britânica.

Já florámos o estado das colónias portuguesas de África em 1851, as causas principais de decadência no olhar do Marquês do Lavradio, entramos agora nas questões diplomáticas, a seguir à questão de Bolama temos a de Lourenço Marques que igualmente originou graves discussões com as autoridades britânicas.

Lourenço Marques deve o seu nome ao navegador português que em 1544 entrou naquela baía e tomou posse em nome do rei de Portugal. Em 1733, os holandeses expulsaram-nos de Lourenço Marques e construíram uma fortaleza; mais tarde, os austríacos expulsaram os holandeses. Em 1781, saiu de Moçambique uma expedição por ordem de D. José, os austríacos foram expulsos e tomou-se novamente posse daquele porto e território.

A questão de Lourenço Marques teve a sua primitiva origem no procedimento do capitão Owen em 1824. O governador Lourenço Marques maltratara o rei Capela, e devendo tratá-lo com respeito, como ordenavam as cartas régias, ultrajara-o e matara-lhe gente, porque não se prestara às rapinas que lhe propusera. O rei Capela foi buscar auxílio do capitão de mar e guerra Owen, encarregado de levantar a carta hidrográfica de toda a costa oriental de África e que então estava na baía de Lourenço Marques. Owen, para atrair o régulo, prometera-lhe auxílio, içou uma bandeira inglesa na ponta sul das terras daquele rei, fronteiras ao estabelecimento português. Owen conseguiu ainda de outras autoridades gentílicas vassalagem ao rei britânico. Começaram as contendas entre autoridades portuguesas e britânicas: arriar a bandeira britânica, apresamento de brigues, ameaças, intimidações.

Seguiram-se negociações diplomáticas sobre a legitimidade de direitos portugueses a Lourenço Marques, contestação britânica, com prova de força, a 28 de julho de 1860, o contra-almirante Keppel entrava na baía de Lourenço Marques e escrevia ao governador: “Que aquela baía era considerada como limite entre as possessões portuguesas e inglesas, e que a parte sul e território sul pertenciam à coroa britânica, e o governo de Sua Majestade britânica mantinha o seu direito de reclamar e conservar o mesmo território.”

Em 5 de novembro de 1861, o governador do Cabo da Boa Esperança mandou a Lourenço Marques um navio para se apoderar de ilhas declarando ao governador Lourenço Marques que eram possessão inglesa e ficavam anexadas à colónia do Natal. Protesto do comissário português, diligências diplomáticas em Londres. O Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico continuava a negar os direitos portugueses. O diplomata português, o Marquês do Lavradio, respondeu:
“Que à vista da inqualificável declaração que ele acabara de fazer-me, eu começava por lhe perguntar se ele considerava Portugal uma nação independente ou como uma conquista da Inglaterra? Que eu não podia admitir que se duvidasse da independência de Portugal, e que então o emprazava para que me dissesse com que direito o Governo britânico havia não só mandado violar o território português, mas até anexado uma porção dele, sem respeito aos Tratados vigentes? O Governo britânico, prevalecendo-se da superioridade das suas forças e confiando que nós nem sequer havemos de confiar ao mundo civilizado os resultados da nossa opressiva aliança, exerce sobre nós uma verdadeira tirania, de um género que não conheço outros exemplos na história das nações.”

O diplomata português confessou abertamente a Lord Russell a sua profunda indignação e esperava, no entanto, que houvesse uma reparação aos atos praticados pelo governador da colónia do Cabo.

A Inglaterra não tinha argumentos que pudesse contrapor para justificar o direito a ocupar as ilhas da baía de Lourenço Marques. A Inglaterra sabia que Portugal não tinha forças para evitar as prepotências britânicas. Nestas condições, só restava a Portugal o recurso de negociar, a arbitragem era o único meio que Portugal dispunha para poder segurar as suas possessões. E o Governo português procurou alianças. A 29 de julho de 1869 assinava-se em Pretória um Tratado de paz, amizade, comércio e limites entre Portugal e a República do Transval, seguiram-se protestos britânicos. A diplomacia portuguesa reagiu apelando para que se terminasse amigavelmente a questão de Lourenço Marques. Indicou-se então como árbitro o Presidente da República Francesa, Mac-Mahon pronunciou em 24 de julho de 1875 a sentença arbitral dando completa satisfação às reclamações portuguesas, o que veio consolidar o domínio português na Província de Moçambique. O Governo britânico aceitou a decisão do árbitro. Fez-se um novo Tratado com o Transval, estipulando a construção do caminho-de-ferro Lourenço Marques a Pretória, isto em 1875, e no ano seguinte Portugal assinou um Tratado com o Estado Livre de Orange sobre as mesmas bases do Tratado de Transval.

O Marquês do Lavradio vai agora demoradamente debruçar-se sobre a questão do Zaire e a Conferência de Berlim, temas-chave para o reconhecimento de Portugal como potência colonial e porta de saída para a reconfiguração de territórios coloniais com as presenças francesa, britânica, portuguesa e alemã. Lembra o autor uma citação num livro sobre a colonização dos povos modernos, da autoria de Leroy Beaulieu:
“Portugal pela sua inércia, incapacidade e corrupção, devidas ao tráfico negreiro, deixou passar o momento propício de reconstituir um florescente império português em África.”

D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)
Chegada de um comboio oriundo do Transval à então novíssima estação ferroviária de Lourenço Marques (1ª fase) pouco depois da inauguração, ocorrida em Março de 1910 (note-se que a imagem foi recolhida já após o golpe de Estado que impôs uma república em Portugal, evidenciado pela bandeira nacional verde e vermelha, imposta pelo regime republicano). A estação inicial, muito mais rasca, que ficava do lado direito deste e mais ao fundo, ainda existe, mas foi desativada na altura (Ver o postal em baixo). Se o Exmo. Leitor reparar, ao fundo ainda não se vê a parte de trás da fachada que daria para a Praça (então chamada Azeredo, depois Mac-Mahon, hoje dos Trabalhadores) e que seria construída posteriormente e concluída cerca de 1916 (2ª fase). Note-se ainda a torre de iluminação elétrica, que na altura era considerado o píncaro da modernidade e que permitia utilizar a estação quando os comboios partiam e chegavam durante a noite.
Navios fundeados em frente a Lourenço Marques, 1895. Em primeiro plano, barcaças chatas. Esta foto foi tirada aquando dos ataques a Lourenço Marques, que motivaram os portugueses a enviar uma expedição ao Sul de Moçambique, chefiada por António Ennes e que incluía, entre outros o Major Mouzinho de Albuquerque.

Estas duas imagens foram retiradas do site The Delagoa Bay World, com a devida vénia

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 20 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27754: Notas de leitura (1898): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27764: Notas de leitura (1899): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (3) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27777: Documento (61): A retirada de Madina do Boé (e de Béli), segundo Gustavo Pimenta, autor de "A Sorte de Ter Medo" (2017), e com recensão de Beja Santos


Gustavo Pimenta


Capa do livro "A sorte de Ter Medo", de Gustavo Pimenta (Coimbra, Palimage, 2017, 198 pp., SBN 978-989-703-170-0, preço de capa, 17,00 euros (Indisponível)


Um impressionante relato sobre a retirada de Béli e Madina de Boé: recensão do livro "A sorte de ter medo", de Gustavo Pimenta (2017)

por Beja Santos 

1. Preâmbulo

Há anos atrás, aqui se saudou "sairòmeM - Guerra Colonial", de Gustavo Pimenta (*). É deplorável a ausência do registo desta obra em quem estuda a literatura da guerra, deplorável e injusto. Adiante.

Foi publicado recentemente este livro que impressiona pela singeleza, o discurso próximo e distante, a impressionante capacidade retentiva daquele mais de um ano que ele viveu em Madina do Boé, não conheço outro romance em que se fale com tanto pormenor da retirada dos dois quartéis, Beli e Madina (**), e que foram determinantes para o evoluir da guerra, quando o Boé se transformou em abandono por falta de presença portuguesa, o que deu ocasião para as grandes mudanças que o PAIGC operou no Norte e no Leste. É indispensável ler Gustavo Pimenta

De facto, desconheço que exista descrição tão minuciosa como a que Gustavo Pimenta faz do período de 1968 até à retirada de Madina de Boé, no início de fevereiro do ano seguinte. Quando chegam, ao fim da primeira semana, até duvidavam do que lhes tinham dito sobre aquele tão temível local.

Iremos viver uma escalada de flagelações, haverá compassos de espera, até tudo deflagrar em fogo em qualquer hora, o comandante de companhia ainda irá tentar uma série de expedientes para fazer regressar à normalidade a existência daqueles homens permanentemente acossados. 

Spínola decide ainda em 1968 a retirada de Béli e em fevereiro retira-se de Madina de Boé.

Iremos seguidamente falar de uma tragédia que marcou indelevelmente quem a ela sobreviveu.

Nestas coisas da escrita entre guerreiros, não vale a pena ter ilusões sobre a densidade autobiográfica. Gustavo Pimenta volta à Guiné e desvela o que foi a vida da sua companhia naquele período em que ali viveram entre 1968 e 1969.

Admito que haja outros relatos tão circunstanciados, só conheço este, e impressiona-me muito. Dirá talvez coisas que serão alvo de polémica, quanto às razões pelas quais aquela jangada tremeu, e quem deu ordens. Não quero estar na pele de quem perdeu 16 homens.

Recomendo sem qualquer hesitação a leitura urgente desta narrativa que ressuscita os fantasmas de Béli e Madina de Boé.


2. Nota de leitura (**):

Em 1999 Gustavo Pimenta publicou na Palimage “sairòmeM – Guerra Colonial”, aqui foi saudado com entusiasmo a obra, injustamente pouco referenciada (*).

Gustavo Pimenta está de volta com “A sorte de ter medo”, romance, Palimage, 2017. A urdidura não anda muito longe da sua anterior incursão pelas terras guineenses. No caso presente, há um avô que é interpelado do seguinte modo: “Avô, como sobreviveste à guerra?” e começa uma longa viagem de um limiano magricela que recebeu guia de marcha para as Caldas da Rainha, completou a recruta com elevada média e aceitou ir para o curso de oficiais  [COM], como atirador.

 Ainda passou uns dias pela Escola Prática de Administração Militar [EPAM],  depois mandaram-no para Mafra, aplicou-se, já aspirante foi colocado em Penafiel, seguiu depois para Tancos, onde tirou o curso de minas e armadilhas, segue para Tomar, irá combater na Guiné. 

Em 3 de outubro de 1967 o navio Timor acostou em Bissau.

Uma pausa para refletir com o leitor sobre a diferença abissal entre o escrever fácil e o escrever simples. Gustavo Pimenta discorre, é como se aquelas memórias que lhe apetecessem romancear, fossem contadas para que houvesse um entendimento absoluto, nunca desce ao facilitismo, à fluência deixada à toa, é uma simplicidade com calibração, em dois tempos, o que se exprime na conversa e uma súmula que volteia em pensamento. 

É esta construção que torna a leitura credível, sincera, memória que fica para as próximas gerações. Sem fugir aos diálogos brutais, ao enfrentamento, como nos conta de uma ida aos correios, estavam em Fá, foi com o capitão  [inf José Aparício], a Bambadinca, e é interpelado pelo comandante do batalhão :

- Que merda é essa que tens na cara? 

Ele passou a mão pela cara, olhou-a, e disse: 

- Não vejo merda nenhuma. Onde a tenho? 

O capitão interveio de imediato: 

- Meu coronel, o nosso alferes está devidamente autorizado a usar barba. 

- Autorizado? Isso são manias dos marinheiros, que no Exército dispensamos bem. 

Antes que a coisa azedasse, o capitão mandou o alferes para junto do jipe em que tinham vindo e ficou a conversar com o  coronel. Quando se lhe juntou, disse: 

- Assunto resolvido, mas veja lá se responde noutros termos a um oficial superior.


Estão a adaptar-se ao terreno, colaboram em operações, vão ao Xitole, depois Sinchã Jobel, tudo sem contacto mas com muita canseira. Em novembro seguem para o Poindom, é o batismo de fogo, morre um cabo atingido no pescoço, no regresso ao Xime são várias vezes flagelados por disparos de inimigo, voltam à base, Fá Mandinga. 

Há, em toda esta singela narrativa, alguém que é permanentemente considerado e respeitado: o comandante de companhia, homem prudente, sempre empenhado em manter a tropa em atividade, ninguém estava autorizado a andar de chanatas, firme e dotado de autoridade natural. 

Nova operação, desta feita na região de Caresse, o objetivo era uma total ruína, não havia um menor sinal de por ali alguém ter estado nos tempos mais recentes. 

De Fajonquito regressaram a Fá. Ainda estão nos previstos três meses em regime de intervenção, são levados até Bolama e sem razões a operação é cancelada e mandados regressar. 

Em 8 de dezembro chega a notícia: a companhia irá entrar em quadrícula em Madina de Boé. Entrementes, saem de Bissau para uma nova investida ao refúgio na mata de Poindom, referência de má memória. Tudo volta a correr mal, são emboscados, as munições escasseiam, voltam ao Xime para se remuniciar, nem novas nem mandados, não se avistou nenhum inimigo. 

Na véspera de Natal, estão em Porto Gole, em plena confraternização, o PAIGC flagela com armas ligeiras. Saem nesse mesmo dia para uma operação cujo objetivo é Sarauol e Sara, não encontram resistência, regressam a Porto Gole e depois andam a fazer patrulhamentos no rio Mansoa.

 Até que em 8 de janeiro voltam a Bambadinca, seguem para Nova Lamego, aqui começam os preparativos para se deslocarem para Madina. 

Saem manhã cedo, até Canjadude as viaturas seguem a boa velocidade, a partir daí a viagem é a pé, tudo picado; pela mesma hora uma outra equipa de picadores sai do Ché-Ché em sentido contrário ao da coluna. O desconcerto da guerra vai mesmo agora começar:  

“Estabelece-se o contacto: quatro nativos, com Mauser a tiracolo e uma pica na mão, aguardam a coluna sentados na berma à sombra de uma árvore. Escassa e débil força para tão delicada missão. A tropa retoma o seu lugar nas viaturas, a coluna avança pela estrada esburacada de terra batida.

Escassos quilómetros percorridos a viatura que segue na frente – uma GMC, sem capota para evitar traumatismos ao condutor em caso de rebentar alguma mina e com os guarda-lamas cobertos de sacos de areia para amortecer o impacto – é violentamente sacudida pelo rebentamento de uma anticarro.

O major de engenharia, que exigira ir ao lado do condutor na viatura da frente para não apanhar a nuvem de pó que a coluna levanta, fica gravemente ferido.

Parada a coluna, procura-se socorrer o major. O furriel que, a dias do fim da comissão o quis acompanhar, ao precipitar-se para ele pisa uma antipessoal e morre minutos depois.

O enfermeiro fica ferido pelos dois rebentamentos.


Monta-se segurança em volta do local. Picam-se os arredores à procura de mais minas, rebentam duas, uma delas fere mortalmente um soldado do grupo de nativos”.

O contacto rádio falha, surgem dois helicópteros, consegue-se contacto com um deles e pede-se-lhe apoio para a evacuação. Responde que estão a evacuar feridos graves da tropa de Ché-Ché, o melhor é ir até lá.

Já com o Ché-Ché à vista, outra mina anticarro que os picadores não detectaram.  é ativada pela viatura que segue na frente, o condutor sai inexplicavelmente ileso. 

Atinge-se o aquartelamento ao fim do dia. Estão junto ao rio Corubal, avista-se a jangada que permite a travessia até Madina. Aqui vai começar a operação para chegar ao mais temido aquartelamento de toda a Guiné.


3. E“A sorte de ter medo”, romance de Gustavo Pimenta, Palimage, 2017, temos a rara oportunidade de conhecer o sofrimento de quem combateu no Boé, o autor lá viveu no ano 1968, estará de férias em fevereiro de 1969, quando ocorrerá o desastre da jangada em direção a Ché-Ché, no rio Corubal, que vitimou 47 militares.

Acompanhámos os antecedentes de um percurso que começa no alto Minho até imprevistamente chegar ao mais temível dos locais, Madina do Boé.

Três grupos de combate vão para Madina, um outro seguirá para Béli. De Ché-Ché faz-se a cambança para a outra margem, sobrevoam os bombardeiros T6, a transferência de toda a coluna demora o dia inteiro, pica-se pormenorizadamente o terreno, a proteção aérea é constante, nas bermas há carcaças de viaturas destroçadas em operações anteriores, ao fim da tarde, sem incidentes, chega-se ao local, no dia seguinte a coluna volta para Nova Lamego, começa a adaptação de Gustavo Pimenta e seus camaradas. 

Apresenta-nos Madina:

  “Está num vale, entre pequenas elevações montanhosas, únicas na Guiné. A população é maioritariamente Fula, distribui-se por uma meia centena de habitações tradicionais. 

"No início da atividade de guerrilha fora para lá deslocada uma secção de tropa. Com o evoluir da guerra, passa a ser defendida por um grupo de combate e por um grupo de milícia local. 

"À medida que a situação piora, o efetivo passa para uma companhia, que vem a ficar instalada em abrigos semi-subterrâneos, construído ao redor de todo o perímetro da aldeia. No interior são construídos abrigos idênticos para refúgio da população durante os ataques, população que cultiva pequenas porções de terreno em volta das suas habitações. 

"Com o decorrer do tempo, acaba por se formar um aquartelamento fortificado no vale, em forma de tosco quadrado com cerca de 400 metros de largo, sem nenhuma defesa nas elevações em volta”.

É cuidadoso no detalhe, na apresentação do quartel. Nos primeiros dias, tudo decorre com serenidade, fazem patrulhamentos, não há a menor novidade nem sinais do inimigo. Passada uma semana, ao anoitecer há três disparos de armas pesadas, o PAIGC apresenta-se, mas tudo parece que irá decorrer normalmente, chega-se mesmo a pôr em dúvida a apregoada perigosidade do local. 

Os sonhos esmorecem rapidamente, começam os ataques a qualquer hora do dia, os guerrilheiros estão nos montes, gozam de muita impunidade. A tensão vai crescendo, durante 12 dias o inimigo não dá sinal de si, o pessoal já joga à malha e sai descontraído dos abrigos. Depois recomeçam os ataques.

Novo período de calma, durante mais de um mês e meio não há flagelações com armas pesadas, passam-se 15 dias sem se estabelecer com qualquer contacto. A 13 de março, recomeçam as flagelações com canhão sem recuo, não há baixas nem ferimentos. 

Béli parece viver em amena tranquilidade mas subitamente a situação muda, os ataques sucedem-se às horas mais desencontradas e inesperadas.

 O mês de abril de 1968 introduz uma novidade: um ataque a Béli ao nascer do dia e a Madina ao anoitecer, será um mês de enlouquecer, qualquer coluna de reabastecimento é uma terrível operação. 

A alimentação é diretamente proporcional ao isolamento: massa, arroz e conservas, quando chega Spínola à Guiné, Madina irá receber de vez em quando frutas e legumes. 

“Seguindo a determinação do capitão, quando acontece a vinda de frescos, é feito o rateio: primeiro para os soldados, depois para os sargentos e só no fim, se der, para os oficiais. Assim se come meia maçã ou um pouco de grelos cozidos”.

Deixou de haver equívocos: Madina, tal como Béli em menor escala, está transformada numa carreira de tiro, as flagelações com armas pesadas passam a ser diárias, menos quando se sai nas proximidades para recolher lenha, o inimigo não dá tréguas. 

Em junho, Spínola começa a tomar decisões para o abandono de Béli, que decorre sob a proteção de dois T6 que acompanham um longo comboio de viaturas, um dos aviões acidenta-se, estala o pandemónio, depois de uma áspera discussão a coluna retoma a sua missão e chega a Béli ao cair da noite, sendo recebida pelo fogo inimigo de armas ligeiras. 

O regresso faz-se sem novidades, com a chegada do grupo de combate e da milícia acantonados em Béli, reorganiza-se a distribuição do efetivo.

Não há descanso em Madina, o pessoal que circula pelo aquartelamento é alvo de tiros isolados e de roquetadas. 

Chega um grupo de paraquedistas sob o comando de um tenente e com a missão específica de tentar neutralizar os atiradores de armas ligeiras que tornam infernal o quotidiano no quartel. Os Páras travam combate, o tenente é ferido com uma rajada nas coxas. As flagelações com armas pesadas não abrandam, os Páras vão-se embora. 

Tudo vai perdendo normalidade, o comandante de companhia procura animar as suas tropas, fazem fotografias de todo o pessoal, executam postais de boas festas, a energia elétrica é levada a todos os cantos do quartel, o correio não falta, o aniversário de cada militar é sempre ensejo para festejo. 

O ano de 1969 anuncia-se com a retirada de Madina de Boé, a retirada acontecerá num só dia, até lá é necessário manter as condições de defesa e a operacionalidade da companhia, o narrador está de férias, tudo quanto irá descrever é contado por outros. 

Quem comanda a operação é o comandante de agrupamento de Bafatá [cor inf Hélio Felgas],   a 4 de fevereiro, uma enorme coluna sai de Nova Lamego enquadrada por duas companhias e assim se chega ao Ché-Ché, faz-se a travessia, há uma nova jangada sustentada em barcaças da engenharia militar.

Em 5 de fevereiro os militares abandonam Madina, a estrada é cuidadosamente picada, chega-se à margem do rio Corubal a meio da tarde. Em cada viagem é levada uma ou duas viaturas, começou-se pela população civil. 

Na margem do destino, em Ché-Ché, são montados os morteiros 81 retirados de Madina, ficam apontados para as imediações da concentração das tropas e viaturas na outra margem. 

Com morosidade, a travessia concretiza-se, de vez em quando é necessário despejar a água que com o peso do movimento da jangada se vai acumulando nas barcaças de suporte. Cai a noite, a operação continua. Ao amanhecer são poucas as viaturas e tropa que ainda falta transportar.


4. E“a sorte de ter medo”, uma poderosa narrativa que Gustavo Pimenta transmuta em romance (Palimage, 2017), temos uma descrição dos acontecimentos trágicos que ocorreram em 6 de fevereiro, frente a Ché-Ché. 

Na véspera, o grosso das tropas, das viaturas, equipamentos e armamento, já atravessou o Corubal. São nove horas da manhã, entram na jangada de uma só vez as viaturas e os militares, quase todos de Madina de Boé  [CCAÇ 1790], e de uma das companhias que fazia segurança à alteração [CCAÇ 2405].

Segue-se a descrição:

“O peso é enorme, há algumas horas que as barcaças não são esvaziadas, a jangada move-se lentamente.

O pessoal faz manguitos na direção da margem abandonada e grita impropérios dirigidos a inimigos imaginários.

Percorrido cerca do primeiro terço da travessia, o tenente-coronel
 [?],   comandante da operação,  ordena, sem qualquer prévio aviso ao pessoal, que os morteiros façam fogo para as imediações do local de embarque acabado de abandonar.

Na jangada é o sobressalto: nela vêm militares que, de há longos meses, estão habituados a correr para os abrigos ou fugir para a vala mais próxima quando se escuta o som de uma granada a sair à boca do morteiro.

A jangada oscila perigosamente, não se volta, mas fica meio submersa. Alguns militares atiram-se ao caudaloso rio, muitos outros caem à água.

O pessoal está subalimentado, sem dormir há longuíssimas horas, estafado, na água as armas e cartucheiras repletas de munições pesam insuportavelmente.

Largado tudo que os empece, a começar pela arma e as cartucheiras, uns poucos retrocedem a nado para a margem de origem, que está mais perto. Outros conseguem nadar para a margem do destino. A maioria, até porque há quem não saiba nadar ou nade mal, consegue equilibrar-se e manter-se na jangada com água pelo meio do peito.

Deita-se mão da jangada antiga para onde os militares sobem. A que fazia a travessia é puxada, a muito custo, para a margem. Imenso material cai ao rio, mas as viaturas, milagrosamente, não. Há a sensação de que nem todos os homens conseguiram salvar-se.

Todos já no quartel do Ché-Ché, mandam-se formar as forças envolvidas, confere-se o efetivo: 47 militares não respondem à chamada.

É o espanto, o desalento, o choro convulsivo, a raiva a custo controlado pelos comandantes: ninguém entende a razão de se ter feito o fogo de morteiro que precipitou o desastre”.

O narrador estava de férias quando se desenrola esta tragédia, quer prontamente regressar à Guiné, onde só chega a 15 de fevereiro. 

“Na pista, o capitão espera-me. Abraça-me e chora. Convulsivamente, sem palavras, choramos”. 

O narrador perdera 16 homens do seu grupo de combate.

Duas semanas depois do desastre, um grupo de fuzileiros foi destacado para recuperar corpos. Dos 47 desaparecidos apenas foram detetados 7. 

“Em adiantado estado de decomposição, irreconhecíveis e sem quaisquer elementos que os possam identificar, são enterrados numa elevação da margem direita do rio”.

Vai começar a via-sacra dos últimos meses: Nova Lamego, Cabuca, S. Domingos, já levam 19 meses de comissão. Neste último quartel, compete a esta companhia o controlo das povoações ao longo da estrada num raio de 25 quilómetros para Oeste e outros tantos para Leste. Por ali andam a fazer inventário das armas, a ver minas e armadilhas. 

Em maio [de 1969], o inimigo tenta bombardear o quartel com fogo de morteiro, não passou de um susto, retalia-se como bombardeamento a povoação senegalesa de MPack, encostada à fronteira. 

É nessa operação que um furriel fica com o pé direito destroçado por ter pisado uma mina antipessoal, segue-se um confronto com um grupo inimigo.

A exaustão vai tomando conta daquele contingente tão afetado por Madina do Boé. Segue-se uma operação para verificar se a povoação de Barraca Batata, junto à fronteira, está habitada. Desta vez, numa linha de água, é o enfermeiro que pisou uma mina antipessoal, chegará ao hospital já cadáver. Para além do desgaste, chegou a maldita hora da debilidade psicológica. 

Um cabo que tinha no pénis protuberâncias esponjosas entra em depressão, escreve uma carta à mulher e suicida-se, deixara a mala aberta e sobre a roupa meticulosamente dobrada uma carta fechada endereçada à mulher. 

Tenta-se animar a tropa, desdobram-se as iniciativas para preencher os tempos de repouso dos soldados, há muitas cantorias. No fim de Julho, caía a noite quando meia dúzia de morteiros desassossegaram o quartel.

 É nisto que irá processar-se a rendição da companhia, o regresso é no Uíge. E ouve-se, no final deste poderoso relato, a última confissão:

“Havia jurado a mim mesmo que só mataria para não morrer, não disparei um tiro contra qualquer adversário, mas não sei os efeitos das armadilhas que montei e das minas que implantei. 

"Na hora do embarque em Lisboa, prometi à irmã de um dos meus putos que lho devolveria inteiro e a mexer: morreu-me nas águas do Corubal (…).

"Este território não acolhe uma nação, há tantas etnias e tão distintas entre si como entre cada uma delas e os portugueses aqui despejados para fazer a guerra. Com culturas tão diversas e sem, ao menos, uma língua comum, poderá algum dia construir-se aqui um país confortável? 

"Levo comigo África, o que de África me foi dado conhecer e me dizem ser dos piores bocados. Mas não esquecerei a hospitalidade das suas gentes, o sabor das suas comidas, o fascínio das suas inclemências. E o seu cheiro, a sua cor. Que me de mim aqui terei deixado?”.

E, curioso, o neto pergunta-lhe:  

“Avô, como sobreviveste à guerra?”
.

Gustavo Pimenta fez bem em voltar, é um grande acontecimento nesta literatura de retornos, e cumpre agradecer-lhe o belo título escolhido para este labirinto de memórias a que ele chama romance: “a sorte de ter medo”.
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(Conjunto de três notas de leitura, do Mário Beja Santos, publicadas separadamente no nosso blogue em 11, 15 e 18 de setembro de 2017. Na altura comentámos: 

"Obrigado, Mário, pela tua extensa nota de leitura... O Gustavo Pimenta tem de ser conhecido e lido por nós!... Madina do Boé é um dossiê que nunca estará 'encerrado'... Como as nossas memórias doridas"...

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Notas do editor LG:

(*) Vd poste de 17 de março de 2010 > Guiné 63/74 - P6009: Notas de leitura (79): sairòmeM Guerra Colonial, de Gustavo Pimenta (Beja Santos)

(**) Último poste da série > 26 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27772: Documentos (60): A retirada de Madina do Boé (Gustavo Pimenta, ex-alf mil, CCAÇ 1790, 1967/69), autor do livro saieòmeM (Palimage, Coimbra, 1999, 120 pp.), apresentação do jornalista e escritor José Manuel Saraiva (Porto, 1999)

Guiné 61/74 - P27776: In Memoriam (572): João Gomes-Pedro (1939- 2026), ex-alf mil médico, BCAÇ 1887 (Farim, 1966/68): "a guerra deu-me uma preparação brutal para a vida"

1. O prof doutor João Gomes-Pedro (foto ao lado, do Notícias Magazinbe, de 5/6/2017, da autoria de Jorge Simão)  morreu recentemente, no passado dia 16 do corrente, aos 86 anos.

É justo fazermos-lhe aqui uma pequena homenagem (*), por três ou quatro ou três razões:

 (i) é uma figura de referência da medicina, da saúde e do ensino em Portugal. 

(ii) teve um papel inovador no desenvolvimento da pediatria em Portugal;  

(iii) pelas suas mãos passaram muitos dos nossos filhos e netos;

(iv) mas o que poucos sabem é que também fez a guerra colonial, como jovem médico no BCAÇ 1887 (Farim, 1966/68), o mesmo batalhão a que pertencia o dr. Adão Cruz, nosso grão-tabanqueiro, alf mil médico, CCAÇ 1547, Bigene, 1966/68) (*), mas também o Domingos Gonçalves, ex-alf mil, CCAÇ 1546.

A importância que a Guiné teve nas suas opções futuras foi destacada por ele em entrevista que deu ao Notícias Magazine  (que sai com o Jornal de Notícias e Diário de Notícias),  em 5 de junho de 2017 (**),  

A entrevista acaba por ser um retrato fascinante da sua vida e obra, sendo a experiência na guerra colonial (1966-1968), na região do Óio, algo que muito valorizou por ter moldado o seu percurso como homem,  pediatra e professor.

Também ele sentiu, como qualquer um de nós, ao desembarcar naquela terra verde-rubra, um choque térmico e emocional: "Não consigo ficar aqui nem umas horas". Também bebeu a água do Geba e do Cacheu ... Mas a saudade do filho recém-nascido (Tiago) e a responsabilidade familiar (especialmente para não desiludir a mãe) e a paixão pela carreira médica levaram-no a assumir a missão.

Notável foi o seu envolvimento com as populações: organizou consultas para crianças locais, inclusivamente aprendeu fula (algumas palavras e expressões em fula, imaginamos...),  para comunicar diretamente com as famílias (desconfiava que os tradutores não transmitiam tudo), e confessou que enfrentou epidemias de sarampo com mortalidade elevadíssima.

Trabalhou, em Farim, com escassez de medicamentos, instalações inadequadas e recursos limitados, co.o qualquer outro médico. De resto. Tinha-se licenciado em 1962.  A guerra ensinou-lhe a resiliência e a importância da empatia, lições que transportou para a pediatria: "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida" (sic).

A pediatria acabou por ser a sua paixão e  missão. Uma paixão que nasceu da relação com Jácome Delfim (seu padrinho de casamento) e do sogro, também ele pediatra. Mas foi a experiência na Guiné que solidificou o seu compromisso com os direitos da criança e a abordagem holística e humanista.

Seria ele quem viria a introduzir, nos anos 80, em Portugal, a consulta pré-natal de pediatria, defendendo que o vínculo entre pais e bebé começa ainda no útero. 

Foi pioneiro na abordagem centrada na família, inspirado por médico norte-americano  Berry Brazelton (1918-2018), e na valorização do comportamento e da afetividade, e não só da doença.   

Rompendo com séculos de preconceitos em relação às crianças, defendia que o bebé tem direito a uma consulta antes de nascer, pois já ouve, vê e distingue vozes no útero.

 O prof doutor João Gomes-Pedro usou os avanços da neurociência para validar cientificamente o que a intuição e Brazelton á lhe diziam: os bebés comunicam desde o nascimento.

Criou também uma "via verde" no consultório para adolescentes, onde podiam falar de tudo (namoros, cursos, dúvidas existenciais).

Enfim, deixa um legado importante: a Fundação Brazelton-Gomes Pedro, criada por ele e por Brazelton em 2010, que tem como missão formar profissionais em "Ciência do Bebé e da Família", defendendo que a felicidade da criança depende da confiança e competência dos pais.

Era um médico e um homem de primeira grandeza: sempre disponível, atendia chamadas a qualquer hora ("Doutor, parece que vai estar sol, acha que ponha um chapéu à menina logo de manhã?"). 

Para ele, a pediatria era "brincar com crianças" e descobrir quem é cada uma, para além dos sintomas.

Criticava o stress da sociedade moderna e os índices altos de separação divórcio em Portugal, alertando para o impacto negativo nas crianças do disfuncionamento familiar. Defendia a igualdade parental e a importância do afeto na construção da resiliência.

Mesmo após a jubilação como professor catedráti
co, e diretor do Departamento da Criança e da Família da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, continuava a trabalhar 10 horas por dia, e mantinha ligações afetivas com pessoas que acompanhava desde bebés (muitos já adultos, voltavam só para conversar).

É autor de diversas obras relevantes nas áreas da pediatria e neuropediatria.

Eis algumas frases que destacamos da sua entrevista de 2017 ao JN:
  • "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida."
  • "O pediatra tem de ser um detetive do comportamento, não só da doença."
  • "O grande objetivo é a felicidade da criança."
  • "Os pais são os grandes mestres da natureza do seu bebé."
Em suma, e como lição para os antigos combatentes, João Gomes-Pedro transformou o trauma da guerra numa força para humanizar a medicina.

 A Guiné ensinou-lhe que "a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas culturas" - lição que aplicou ao cuidar de cada criança como um universo único.

2. Eis alguns excertos dessa entrevista ao Notícias Magazine, em 2017 (*)

(...) JN - Quando acabou o curso, em 1965, estava prestes a ser pai. Com a paternidade, passou a olhar para a pediatria de outra perspetiva?

JGP - O nascimento de um filho, ainda por cima quando o pai não é suficientemente maduro – só tinha 23 anos – é um marco decisivo e mudou essencialmente a minha sensibilidade.

Pouco meses depois de ser pai, fui para a Guiné, para a guerra colonial. Lembro-me de aterrar, sair do avião, sentir o bafo de calor e pensar «não consigo ficar aqui nem umas horas».

No mato não havia nada, mas eu organizei uma consulta específica para crianças e fiz questão de aprender a falar fula, porque desconfiava que o enfermeiro-tradutor não relatava tudo o que os pais me contavam. A mortalidade era elevadíssima, em dois anos «apanhei» duas epidemias de sarampo.

A guerra, à qual pensei fugir, deu-me uma preparação brutal para a vida. Desde logo pelas saudades que tinha do meu filho Tiago, sempre presente nas minhas descobertas.

JN - Porque não fugiu?

JGP - A razão essencial foi a de saber do desgosto que causaria à minha mãe, com quem tinha uma relação muito forte. O não poder regressar a Portugal era um imperativo a par da responsabilidade de já ter uma família. Percebi também que seria o fim de uma carreira de médico em Portugal. Uma carreira sonhada. Por isso, decidi assumir a guerra.

A Guiné foi uma experiência importantíssima na minha vida. Percebi que a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas diferentes culturas. Foi um tempo em que estudei e aprendi muito com as populações e com os meus companheiros de batalhão.

JN - Na Guiné viveu seguramente momentos terríveis. 

JGP - Muitos. Surgiram-me, no posto clínico de Farim, três soldados com queimaduras extensíssimas, provocadas pela explosão de uma mina, que se agarraram a mim, a gritar de dor, chamando pelas suas mães, pedindo-me aos gritos que não os deixasse morrer.

JN - Pediatria, a carreira sonhada. Fale-me dos primeiros tempos dessa carreira. JGP - Tenho pensado nisso, agora que tenciono deixar a clínica, em 2018.

JGP - Lembro-me da minha primeira consulta privada. Vi a primeira criança, uma rapariga com 7 anos, numa clínica da Baixa, onde trabalhavam vários médicos à espera que alguém batesse à porta. Um dia, entrou uma senhora à procura de um pediatra. A miúda tinha umas manchas, talvez alergia. Vi-a mais uma ou duas vezes. 

Nessa altura, a pediatria ia apenas até aos 10 anos, mas não me importava. Passei a ver crianças muito mais velhas. A adolescência ganhou um capítulo essencial da pediatria que na altura não tinha. Foi em 1968, já vão lá 49 anos. O pediatra era um médico que aplicava apenas a metodologia clássica. (...)

(O resto desta entrevista é obrigatório ler, aqui, para se perceber a importância que este nosso camarada da Guiné  (, camarada, apesar da deferência com que tratávamos os alferes milicianos médicos.... ) teve na mudança de paradigma da pediatria em Portugal. Recomendo a sua leitura aos pais e avós... (Declaração de interesse: conheci-o pessoal mas circunstancialmente, há maais de vinte anos, na Faculdade de Medicina de Lisboa,  já era uma sumidade, mas eu não sabia que  tinha estado na Guiné.)

3. Segundo o  testemunho do nosso camarada Domingos Gonçalves (ex-alf mil  CCAÇ 1546/BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68), o batalhão tinha três médicos, sendo João Gomes-Pedro um deles. 

"Como pessoa, apenas posso referir que era um homem excepcional."

(...) "Na altura, era ainda clínico geral, mas já se destacava pela sua competência e humanismo, mesmo em condições extremamente precárias. Apesar das dificuldades, ele e os outros os médicos do batalhão conseguiam 'fazer milagres' e davam assistência não só aos militares, mas também às populações civis locais." (...)

O Domingos Gonçalves testemunha que o João Gomes-Pedro organizou consultas específicas para crianças na Guiné.

Os outros dois médicos chamavam-se: um Carlos Alberto, e outro, Adão [Cruz, nosso grão-tabanqueiro].

(...) As condições em que trabalhavam eram precárias, quer no que respeita a instalações, quer no que respeita a medicamentos, ou outro material médico. Regra geral, mesmo não sendo santos, às vezes conseguiam fazer milagres. Num relatório sobre diversas matérias, o comandante do batalhão a que pertenci, queixava-se.

" No Serviço de Saúde há grandes atrasos na recepção dos medicamentos, e o não fornecimento de vários produtos requisitados, o que perturba o fornecimento da assistência, que é ainda prejudicada pelas deficientes instalações dos postos de saúde." (...)

Será que alguém mais se lembra dele ? O Domingos Gonçalves, sim. O dr. Adão Cruz também se deve lembrar do colega.

(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(**) Publicada originalmemnte no Notícias Magazine > João Gomes Pedro, o homem que revolucionou a pediatria em Portugal | Entrevista de Alexandra Tavares-Teles | Foto de Jorge Simão | 5 de junho, 2017 às 01:41