quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Guiné 63/74 - P14151: Casos: a verdade sobre... (2): Jaime Mota (1940-1974), combatente do PAIGC, natural da ilha de Santo Antão, Cabo Verde, morto em 7 de janeiro de 1974, em Canquelifá por forças da CCAÇ 21 - Parte II (Virgínio Briote / Rachid Bari, ex-sold trms, CCAÇ 21, Bambadinca, 1973/74, natural do Quebo e residente em Portugal)


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu  >  Setor de Piche > Canquelifá > CCAÇ 3545 (1972/74) > 18 de Março de 1974 > A paisagem desoladora da tabanca, depois do violento ataque do PAIGC com morteiros 120 e foguetões 122, durante 4 horas... A artilharia do PAIGC era operada e comandada por cubanos e caboverdianos.


Foto: © Jacinto Cristina (2010) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados


1. Mensagem do nosso coeditor (jubilado) Virgínio Briote [ex-alf mil ex-alf mil , CCAV 489 (Cuntima), e alf mil comando do 2.º curso de Comandos do CTIG (Brá),  cmdt do Grupo Diabólicos (1965/67)]

[Vb, foto à direita, em Seatle, estado de Washington,  EUA,  julho de 2014]


Assunto: Artigo "O martírio de Jaime Mota" [, de José Vicente Lopes]

Caros Luís e Carlos,

O Amadú [Bailo Jaló], embora apresente alguns sinais de melhoria, não está em condições para falar sobre estes assuntos. Está sem memória.

Consegui obter e gravar um depoimento de um fula, o Rachid Bari, que era soldado das transmissões da CCaç 21 e que nesse dia acompanhou e foi testemunha visual do ocorrido. Refuta a acusação de tortura, abertura de barriga, etc. 

O PAIGC não contava com a tropa ali a cerca de 100 metros, encostaram as armas, um pôs-se a trepar uma palmeira e alguns não terão sido apanhados à mão porque um dos militares da CCaç 21 não aguentou a pressão e disparou uma rajada, a que se seguiram séries de rajadas a curta distância. Morreram dois imediatamente e o outro, encurralado, mostrou-se, desafiante. Ainda hoje o Rachid não entende o procedimento desse fula.

Havia directivas muito claras do Com Chefe sobre a questão dos prisioneiros. Aprisioná-los, de preferência sem recurso à violência. Considerava-se que esse modo de actuar era mais adequado para recuperar não só a população como a própria guerrilha. Casos houve, refere o Rachid, em que foram punidos militares por violências exercidas sobre prisioneiros.

Espero que este anexo que remeto seja útil.

Abraço do V Briote


2. Depoimento de Rachid Bari [, que vive em Portugal, na zona de Belas, concelho de Sintra,]  sobre o ocorrido em 7 de Janeiro de 1974, na zona de Canquelifá, em referência ao artigo “O Martírio de Jaime Mota", de José Vicente Lopes (*)


Rachid Bari, fula, natural de Quebo, foi incorporado em 22 de Janeiro de 1973 e, depois de ter feito a recruta em Bolama, foi enquadrado na CCaç 21,  comandada pelo tenente [Abdulai] Jamanca. Fez parte da secção de transmissões e desempenhou actividade operacional, uma vez que sempre que um grupo de combate saía dois elementos de transmissões eram destacados para acompanhar o referido grupo.

A CCaç 21, baseada em Bambadinca, desempenhou várias acções na zona, tendo sido destacados para a área de Canquelifá, então sujeita a forte pressão da guerrilha.

Enquanto lá se mantiveram durante cerca de 5 meses não houve qualquer contacto com o IN,  tendo sido então mandada regressar a Bambadinca onde lhe estavam destinadas outras acções.

Logo que abandonaram Canquelifá, foi novamente esta povoação sujeita a bombardeamentos e a CCaç 21 pôs-se de novo em marcha para reforçar o destacamento militar de Canquelifá.

Nesta 2ª estadia em Canquelifá todos os dias e noites saía um grupo, que se emboscava nas imediações do aquartelamento. Num desses dias, por volta das 16 horas, saiu um bigrupo comandado pelos alferes Ali[u] Sada Candé e Braima Baldé.

Quando estavam emboscados viram aproximar-se um grupo de 7 elementos armados. Cautelosamente o comandante do grupo emitiu sinais de alerta e, ao mesmo tempo que começaram a manobra de se disporem em V, avisou que só deveriam disparar ao sinal de fogo.

Inesperadamente um elemento da CCaç 21 disparou uma rajada, a que se seguiram mais rajadas de outros militares até repararem que elementos IN estavam em fuga e que dois ou três teriam sido abatidos. A correr dirigiram-se para o local e enquanto se apoderavam das armas e de um rádio Racal [1] apareceu-lhes de frente um guerrilheiro do PAIGC, fula, com uma Kalash assente na anca direita tendo-os por mira que,  depois de perguntar por que motivo irmãos andavam em guerra, carregou no gatilho. 

A rajada saiu alta e os militares da CCaç 21 responderam a tiro, abatendo-o.


Depois, o grupo recolheu os corpos, improvisaram macas e trouxeram-nos para Canquelifá. Estavam a acabar de entrar na povoação quando começaram a ser bombardeados pela artilharia e o fogo partia da Guiné-Conacri. Não tiveram tempo de mais nada, a não ser abrigarem-se rapidamente, depositando os corpos na pista. A primeira granada acertou no gerador, a segunda no depósito de géneros e o inferno estava instalado em Canquelifá, com as granadas a caírem todas dentro da povoação-aquartelamento.

Ao amanhecer,  o pessoal da CCaç 21 procedeu às cerimónias do funeral do fula, tendo sido seguidos os procedimentos habituais entre os muçulmanos. Corpo envolvido num lençol branco e, depois das orações na mesquita,  o corpo foi enterrado.

Em relação aos dois outros cadáveres,  levantou-se a questão, logo de início, de que como eram de tez muito clara, deviam ser cubanos e para o efeito entraram em contacto com o COP de Nova Lamego pedindo instruções. Foi-lhes dito que aguardassem, que um médico se iria deslocar a Canquelifá e só depois deveriam enterrar os cadáveres. De facto, momentos depois, o médico desembarcava na pista e foi observar os cadáveres.

Dois dias depois da ocorrência procedeu-se ao enterro dos cadáveres na pista de aviação de Canquelifá, depois de terem sido lavados e vestidos com a farda nº 2 do Exército Português.

Rachid diz que, posteriormente, teve a informação que tinham sido feitas análises e que os resultados admitiam a possibilidade desses guerrilheiros serem brancos. Daí o facto de se admitir a ideia de que eram cubanos.

[Depoimento recolhido por Virgínio Briote]



[1] Quando foi emitida para o QG a mensagem da operação com a indicação do material capturado, alguém confirmou, através do nº do aparelho, que o radio Racal era o que as NT tinham perdido, cerca de dois anos antes em Morés. [Vb]

3 comentários:

Luís Graça disse...

Mail enviado ao Cherno Baldé

15 jan 2015 15:34

Cherno; Boa tarde!...Dá uma vista de olhos a este poste e ao anterior...:

Ab. Luis

PS - O meu/nosso camarada e amigo Amadu Bailo Djaló (nascido em Bambadinca, 1940) está bastante mal...Mas não participou diretamente nesta ação. Ficou com o seu grupo de combate em Canquelifá. Os grupos de combate da CCAÇ 21 que mataram o Jaime Mota foram os do Aliu Candé e do Braima Baldé, os dois mais tarde fuzilados pelo PAIGC em 1975, tal como Abdulai Jamanca (e o meu amigo Abibo Jau).

Anónimo disse...

Cherno Balde

15 jan 2015 16:51

Caro amigo Luis Graca,

Obrigado pela dica, já tinha lido no Blogue, sao coisas terríveis que aconteceram naquela Guerra que quase nos lixou a vida.

Em 1974, quando aconteceu a independência, tinha 10 anos, no papel, na realidade teria no mínimo 14 e, dentro de pouco tempo, também eu começaria a alinhar para o mato, facto que constituia o mais normal das coisas daquele tempo e que fazia parte das nossas aspirações, para defender o nosso chão, diziam-nos.

Já naquela altura ouvíamos falar de práticas como os de "corta orelha" aos inimigos, entre outras coisas "banais' da Guerra fratricida entre irmãos e aliados.

um grande abraço,

Cherno AB.

JD disse...

Camaradas,
O Virgínio escreve muito bem e com exemplar racionalidade.
Obviamente, acredito nesta descrição, e até na gratuitidade de um inútil acto raivoso e vingativo, se tivesse acontecido.
Não sei se Cabo Verde ainda carece de heróis para sedimentar a independência, sedimento que deveria resultar das particularidades da terra e das gentes.
Ainda assim, o jornalista deveria esperar pelo contacto com a companhia residente em Canquelifá para melhor aferir sobre a verdade do que já deu à luz, e essa prosa levanta ressentimentos.
Gostaria de saber como tem sido considerado naquela jovem nação, as bárbaras atitudes contra os militares que envergaram a farda portuguesa, por convicção, ou como modo de vida, quando era cabo-verdeano o presidente da GB. Valerá a pena endemoniarmos a História?
JD