terça-feira, 5 de junho de 2018

Guiné 61/74 - P18711: FAP (107): O dia em que a Guerra na Guiné quase terminou… (Mário Santos, ex-1.º Cabo Especialista MMA da BA 12)

FIAT's em Bissalanca


1. Mensagem do nosso camarada Mário Santos (ex-1.º Cabo Especialista MMA da BA 12, 1967/69), com data de 31 de Maio de 2018:

O dia em que a Guerra na Guiné quase terminou…

Cumpri apenas uma comissão de serviço no Ultramar durante a minha carreira na Força Aérea Portuguesa. A comissão na Guiné, porém, sobrepôs-se a todas as outras acções e marcou-me indelevelmente para o resto da vida. A mim e certamente a todos os que, de algum modo, partilharam a mesma experiência. É de um destes acontecimentos que a lei da sorte permitiu, não só que vos esteja aqui hoje a relatar, mas que teria provavelmente mudado o destino de toda a guerra colonial se o pior naquele dia de Agosto de 1968 tivesse porventura acontecido. É deste evento que vos irei agora dar conta…

Naquele dia, cumpria-se a rotina habitual relativa à acção da Linha da Frente da Esquadra de Tigres “Os Fiat`s G-91 R4”. Isto é, as diferentes especialidades cumpriam escrupulosamente o seu trabalho com a dedicação e o sentido do dever a cumprir. Os mecânicos, (como eu) electricistas e pessoal de rádio procediam às inspecções de preparação para o voo, enquanto o pessoal de armamento cumpria o rearmamento dos aviões de acordo com o planificado pela chefia do Grupo Operacional. Eram oito as aeronaves a inspecionar, reabastecer e rearmar. Se bem me lembro duas parelhas com Foguetes e Drop tanques suplementares (para aumento de autonomia) e as restantes configuradas com bombas de 200 Kg (pylons internos) e 50 Kg (nos pylons externos) destinadas a bombardeamento de instalações AA inimigas que tinham entretanto sido detectadas e devidamente referidas no mapa..

 Bombas de 200Kg

Em tempos de Guerra, a azáfama de uma linha da frente é sempre frenética e bastante nervosa, uma vez que estamos permanentemente a lidar com material que causa destruição e eventualmente mata ou estropia seres humanos ou animais e arrasa com estruturas quer sejam urbanas ou rurais.

BA 12, 1968 - Assinando o Livro de Inspeção

Todos procuram fazer bem e depressa, o que nem sempre é uma boa mistura e em que por vezes apesar de toda nossa boa vontade não se consegue actuar em perfeita sintonia. No meio de todo aquele frenesim, alguém decidiu (porventura para poupar tempo) que as aeronaves podiam ser abastecidas de combustível ao mesmo tempo que algumas das aeronaves eram carregadas com as bombas e as restantes municiadas com rocketts e os respectivos pentes de balas 12,7mm colocadas nos compartimentos das metralhadoras.

Assim foi com naturalidade que vi chegar o autotanque de JP4 e o vi posicionar-se em frente aos aviões…

O meu camarada e amigo 1.º Cabo MMA, Luís Branco Tavares, após a passagem técnica de inspecção, dado ter sido um dos primeiros a terminar a vistoria, saltou de imediato para cima da asa direita pronto para o abastecimento… Deve ter algures vislumbrado um filme de terror… ou por qualquer outra razão impossível de explicar, deu um berro medonho (ele tinha e tem ainda hoje uma voz de tenor) e gritou a plenos pulmões: “Ó condutor, tira-me ESSA MERDA DAÍ”, o que o Soldado condutor auto cumpriu de imediato. Em boa altura o fez, já que passados minutos se ouviria um disparo que terá passado ao lado da traseira do camião cisterna e rebentado na terra desmatada entre a linha de delimitação da Base Aérea e um tabancal situado a uns quilómetros da zona.

Caros amigos, não creio haver um mínimo de exagero, se vos disser que se acaso o foguete tivesse acertado no camião cisterna, toda a Base teria sido incinerada. Não eram apenas as aeronaves mais próximas, seriam também todas as outras; os T-6, Hélis, DOs, Dakotas, hangar`s e Esquadras, etc., sem nunca esquecer que os depósitos onde eram fabricadas as bombas napalm estava ali bem pertinho a meia dúzia de metros!

A principal vantagem dos militares portugueses na guerra de 1961-74 foi, em meu entender, a superioridade aérea de que a FAP usufruiu durante a guerra. Foi uma vantagem militar sem paralelo do nosso lado e contra a qual durante muito tempo eles não tiveram qualquer forma eficaz de combater. Uma mais-valia que, no entendimento dos responsáveis militares e políticos, se deveu à aposta na intensificação da implementação da aviação militar em África. A actividade aérea, que até 1968 se desenrolou regularmente, só foi limitada pelos meios humanos e materiais ou pelas más condições atmosféricas, o que permitiu um contínuo apoio ao esforço de guerra, assumindo essencialmente três vertentes: transporte, informações e apoio de fogo.

 Bissalanca, 1968 - Fiat's

A partir de 1965 começaram a ser estabelecidos procedimentos para a coordenação entre meios aéreos e de superfície, sendo criados o Centro Conjunto de Apoio Aéreo, em Bissau, e a Secção Conjunta de Apoio Aéreo, em Nova Lamego. Estes organismos permitiram melhorar a comunicação e coordenação entre os três Ramos das Forças Armadas, a determinação de prioridades e a afectação racional dos meios aéreos. A guerra na Guiné teve características muito diferentes da guerra em Angola. A elevada organização da guerrilha e a forma como a sua luta se iniciou, através de acções de combate e não com massacres como em Angola, era reveladores das dificuldades que as FA iriam ter neste território. O principal movimento de libertação era o (PAIGC), que se preparou antecipadamente para a guerra através da formação de quadros, do recrutamento e doutrinação dos combatentes e do treino militar, passando três anos a analisar condições e a recolher apoios internacionais para a rebelião.

Por outro lado, o território guineense possuía um conjunto de características que favoreciam a actuação dos guerrilheiros. A extensa área fluvial, a linha costeira bastante recortada, os largos estuários e braços de mar que penetram profundamente no continente, exigiam operações militares com uma importante componente anfíbia, motivo pelo qual a Armada esteve tão presente neste teatro de operações.

O restante território tinha uma dimensão reduzida, cerca de um terço de Portugal, e era habitado na sua maioria por nativos de várias etnias, algumas estendendo-se para lá das fronteiras. Na Guiné, não só os factores históricos e a hostilidade da geografia e do clima tornaram difícil a actuação das FA, como também as independências da Guiné-Conakry (1958) e do Senegal (1960) tiveram um importante papel na condução da guerra. Estes dois países foram uma importante fonte de apoio aos guerrilheiros do PAIGC, proporcionando-lhe refúgio a Norte, Leste e Sul, onde puderam estabelecer as suas bases e desencadear acções militares na Guiné . O nível de organização do movimento e o armamento moderno de que dispunha (armas automáticas, morteiros, RPG’s, metralhadoras anti-aéreas) possibilitou aos guerrilheiros evoluírem de tal forma rápida que, em 1965, já tinham estendido a sua actuação a todo o território da Guiné. Para piorar a situação militar portuguesa, em termos de apoio aéreo, devido a pressões exercidas pelos EUA a Força Aérea Portuguesa foi obrigada a retirar da Guiné os oito F-86F, a principal arma de ataque aéreo de que dispunha.

F-86F 354 nos céus da Guiné

Desde a retirada destes, em finais de Outubro de 1964, e a chegada dos seus substitutos, os novos caças FIAT G-91 R4 adquiridos à Alemanha Ocidental, as missões de apoio aéreo próximo às forças no terreno foram garantidas pelas aeronaves T-6G. Este era um avião que estava longe de possuir o mesmo poder de fogo do anterior F-86F ou do posterior FIAT G-91 R4, o que terá contribuído para que no período de dezoito meses entre a saída de uns e a entrada ao serviço de outros, a guerrilha tenha reforçado a sua presença no terreno, especialmente na região a Sul. A evolução militar da guerrilha permitiu ao PAIGC, em 1966, anunciar publicamente o controlo de dois terços do território, afirmando que a Guiné era “um Estado em desenvolvimento, estando um terço do seu território a ser objecto de agressão imperialista". Por esta altura, o PAIGC começou a desencadear acções militares mais arrojadas, perto da guerra convencional, embora nestes casos ficasse muito exposto à acção aérea, especialmente nas áreas de menor densidade florestal. A inferioridade do inimigo na guerra aérea levou a que desde cedo procurassem anular esta vantagem das força armadas portuguesas, recorrendo para tal ao uso de artilharia anti-aérea.

Portanto, aquele foi um dia de sorte para todos nós, um dia em que as nossas vidas e própria guerra podia ter tido um final trágico na Guiné!

Mário Santos
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Nota do editor

Último poste da série de 29 de maio de 2018 > Guiné 61/74 - P18690: FAP (106): Fotos da montagem dos primeiros FIAT's G-91 R/4 destinados à Esquadra de Tigres de Bissalanca (Mário Santos, ex-1.º Cabo Especialista MMA da BA 12)

8 comentários:

José Diniz Carneiro de Sousa e Faro disse...

Belo trabalho, Mário obrigado. Forte abraço.

Anónimo disse...

Isto é um trabalho de grande valor para todos que lá andaram, e não sabiam bem o que estavam a fazer na retaguarda os homens da Força Aérea. Sempre tive imenso apreço pela FA, aliás ver, ouvir o roncar dos Heli, dos T6, dos Fiat que quando se ouvia o ruido, já ele estava longe demais, mas eram a nossa segurança em terra. Viajei muito e tive o grato prazer de visitar ao de leve a BA os hangares, tendo imensas fotos de todas as aeronaves. Bem hajam a todos. Agora saber isto tudo com pormenores, é uma lição para a vida. Mais uma vez te felicito, Mário Santos.
Um abraço,
Virgílio Teixeira

Anónimo disse...

A forma como a guerra decorreria e o seu eventual desfecho seriam certamente diferentes se as fronteiras estabelecidas na Convenção de 1886 com a França tivessem sido diferentes. Nomeadamente, se a fronteira a Norte tivesse ficado no rio Casamansa e a sul no rio Nuno, como fora desejo dos negociadores portugueses. Perdido parte do Casamansa, com a fronteira norte entre este rio e o rio de S. Domingos, nem a fronteira sul ficou no rio Compony, como fora pretendido, em alternativa à possibilidade de a colocar no rio Nuno. Esta acabou por ficar entre os rios Compony e Cassine.

Armando Tavares da Silva

Tabanca Grande disse...

O que se terá passado, exatamente, nesse dia de agosto de 1968, em Bissalanca ? Uma flagelação do PAIGC ? Um tiro, nosso, isolado ?

Nesse ano, o único registo que temos é da flagelação, em 19 de fevereiro de 1968, ao aeroporto de Bissau, em Bissalanca, por uma força do PAIGC comandada por André Gomes...

Obrigado, Mário, pelo teu texto. LG

Manuel Luís Lomba disse...

Narrativa serena e fragmento da história da Guerra da Guiné, uma evidência de que a Força Aérea e a Marinha foram as "culpadas" da longevidade da sua Guerra. O simples boato - ou a contra-informação - dos MIG´s foi causa suficiente para os seus "produtores e gestores" a resolverem.
O projéctil seria de RPG ou de GRAD P, o "jacto do povo", a réplica dos PAIGC aos jactos FIAT?
A escolha do dia dessa operação ar-terra de grande envergadura (destruição das AA) e do momento da conjunção da manobra de municiamento com a de reabastecimento dos seus aviões seria pura coincidência?
A malta do PAIGC gabava-se (ainda se vai gabando) de que a sua fonte de informações mais pura brotava no Estado-Maior dos colonialistas... De entre outros, há o paradoxo de não haver um sequer arguido de traição, nos 13 anos da guerra do Ultramar!
Luís Cabral, no livro "Crónica, etc" diz que os GRAD P foram estreados contra Mansoa e subscrevo o comentário do Luís: até a este post do Mário, dos ataques a Bissalanca só sei o de Fevereiro de 1968, de recepção à visita de Américo Tomás, e o de 1971.
E subscrevo o post do Mário Santos e o comentário do Armando Tavares: Não foi o melhor armamento que decidiu a Guerra da Guiné.
Abr.
Manuel Luís Lomba

Tabanca Grande disse...

"A malta do PAIGC gabava-se (ainda se vai gabando) de que a sua fonte de informações mais pura brotava no Estado-Maior dos colonialistas... De entre outros, há o paradoxo de não haver um sequer arguido de traição, nos 13 anos da guerra do Ultramar!"...

É uma afirmação grave... Ou melhor, uma "insinuação"... Manuel, tens "indícios" ou, melhor, factos, nomes, datas...para fundamentar a tua afirmação ?... Quem, no PAIGC, fez uma afirmação dessas, onde e quando ?... Não basta levantar a "lebre"...

Um alfabravo. Luis

Manuel Luís Lomba disse...

Luís: Isso mesmo, insinuações- algumas circunstanciais e personalizadas; não tendo havido arguidos, não se deve passar disso. As provas neste domínio são, geralmente, indirectas e as condenações são expeditas, por convicção.
O governo de então cometeu a ignomínia de entregar o Corpo Expedicionário Português, na Flandres, ao comando de um general inglês, que condenou um soldado-condutor português ao fuzilamento, por traição. Quase um século depois, foi reabilitado pelo PR Jorge Sampaio,com fundamento na fragilidade da prova apurada.
Houve sempre muita injustiça.
A Verdade e a Justiça são as primeiras vítimas das guerras.
Abr.
Manuel Luís Lomba

Valdemar Silva disse...

E assim se vai querendo arranjar umas achas prá cinza da fogueira.
...nada,... o 25 de Abril não pode ter sido, simplesmente, uma revolta de Oficiais
contra a ditadura… eles até informavam o inimigo das nossas acções ...para a guerra
continuar… e continuarem as comissões de serviço no ultramar...qual fartos da guerra qual quê….
Palavra de honra!! Para quê tergiversações? Ou haverá, ainda, alguns Oficiais a quererem se safar do 'está tudo bem' daquele tempo? Ou uns civis a arranjar um 'safa-te aí'? A história já está escrita, não vale a pena arranjar outra versão dos acontecimentos.
Aquela da 'ignomínia' do CEP na Grande Guerra é no mínimo ridícula. Com certeza que tínhamos que ter estado sob o comando inglês ou francês (não fosse o diabo tecê-las e lá se iam as nossas colónias).
Valdemar Queiroz